“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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18.5.10

Um Governo Que Não Governa

Em tempos difíceis como os que atravessamos, esperava-se alguma “gravitas” por parte de quem nos governa, juntamente com algum sentido de estado. Esperava-se que o peso da responsabilidade pela incapacidade de ter políticas que impedissem o pais de chegar ao estado de pré-abismo que chegou tocasse de uma forma ou de outra o Primeiro-ministro e ele sentisse a urgência de repensar o país. Esperava-se que, juntamente com o seu governo, fizessem alguma política, estudassem e propusessem reformas estruturais que a médio e longo prazo permitissem ao país sentir uma diminuição real do peso financeiro do estado e sentir redobrada eficiência dos serviços públicos. Esperava-se que pensassem para além do imediato “como sair deste sufoco já”, (UE/Alemanha exige) e que resolvem com a medida mais fácil que é o aumento de todos os impostos e criação de novos. Esperava-se que percebessem o que se está a passar com a crescente perda de independência e poder de decisão dos governos nacionais para a UE/Alemanha. Esperava-se que o governo percebesse que com estas medidas fáceis de aumento de carga fiscal é cada vez menos atraente ser empreendedor e criar riqueza, e que a classe média está a ficar cada vez mais pobre. Esperava-se que o corte de custos do Estado não fosse inteiramente suportado pelos contribuintes. O país espera e precisa de soluções que o permitam ser económica e financeiramente viável.

Para isso o governo na pessoa do Primeiro-ministro tem que governar, coisa que não faz há mais de um ano quando o país político entrou em época eleitoral. A irresponsabilidade, leveza e vazio que o caracterizam continuam, e ao contrário de governar, o Primeiro-ministro mantém a sua agenda de habituais sessões de propaganda, cada vez mais patéticas e falsas (esta última em “espanhol técnico” para nossa vergonha). Continua o seu discurso sobre energias alternativas, novas tecnologias, tecnologias de informação, numa infantilização do seu cargo que cada vez mais custa ver. Sobretudo porque pouco sobrou das tantas “medidas” reformistas (como ela lhes chamava) do seu primeiro mandato. A sua credibilidade está ferida, como pessoa e como Primeiro-ministro. Os acumular de casos passados, os seus amigos, a sua família e os cada vez mais numerosos casos políticos de “inverdades”, manipulação de informação (este é o mais recente) contradições, avanços e recuos, e desmentidos (um exemplo recente aqui) tornam difícil a tarefa de disfarçar a sua fragilidade, e o custo de o manter como Primeiro-minitro é cada vez mais evidente. Portugal precisa de quem o governe e não apenas de quem reaja, e mal.


12.5.10

Porque é que José Sócrates não segue, por uma vez, aquele líder europeu que tanto o inspira? Zapatero já anunciou de forma clara as suas medidas de corte da despesa pública. Mas, com a suave conivência de um PSD que se revela no seu oco esplendor político, o caminho mais fácil será o trilhado: a subida dos impostos e uma dose de optimismo. Perante números satisfatórios referentes ao crescimento económico do primeiro trimestre, a proclama-se Portugal como campeão do crescimento.

30.4.10

O Mundo Encantado de José Sócrates

"Capital especulativo", "especuladores", "especulação", "especulação monetária do euro", "o mercado dos especuladores", "especulação de que estamos a ser alvo", "ataque especulativo à dívida portuguesa", foram, entre outras as palavras e expressões que ontem encheram as televisões. No mundo encantado de José Sócrates estes são “maus” e os malvados (há aqui e aqui uma boa definição e um exemplo de especulador) que vêm de fora e querem atacar o nosso país e o povo trabalhador, investidor, ordeiro, cumpridor, que nunca conheceu tanta prosperidade, desenvolvimento económico, justiça fiscal e esforçado equilíbrio financeiro como agora com o grande líder a guiar os nossos destinos. “Estes maus” querem atacar as justas políticas de investimento do governo que trará ainda mais crescimento económico e um ainda maior bem-estar social. Mas o governo e o povo mantém-se firmes nas nossas convicções e opções de investimento e de desenvolvimento económico. No mundo encantado de José Sócrates haverá mais distribuição de Magalhães, mais comboios de alta velocidade, mais aeroportos e quem ousar questionar e discordar desse rumo está, a pactuar com as já identificadas forças do mal na construção do descrédito do país.

18.4.10

Da Mansidão

O Primeiro-ministro continua o seu percurso de optimismo em visitas e inaugurações relacionadas com as suas áreas favoritas de governação e de onde dificilmente descola: tecnologias de ponta, empresas modernas em equipamento e exportadoras de sucesso (nada contra o sucesso e a exportação, antes pelo contrário, note-se), energias renováveis, e turismo. O país para ele resume-se a estes cenários. No seu mundo ficcional não cabe o “desagradável”. Não há crise, não há falências nem novos desempregados cada dia que passa, não há famílias em dificuldade, não há filas de espera para consultas médicas, não há insucesso escolar, não há défice, não há excesso de peso fiscal, não há mercados financeiros desconfiados, nada disso. Para ele Portugal é um país promissor onde as circunstâncias são favoráveis ao crescimento, inovação e sucesso. Esta ideia é normalmente ilustrada com um leque variado de gadgets considerados “Made in Portugal” e essenciais a um modo de vida actual e moderno. Até aqui, nada de novo, nós já sabemos que o nosso Primeiro-ministro vive no seu mundo e nós no nosso.

O problema começa pela ausência de oposição. O PSD embrulhou-se numa vontade de revisão constitucional (nada contra também) e parece ter resumido a sua oposição ao PS e a este governo nesta proposta. A actual direcção que criticou duramente a direcção de Manuela Ferreira Leite por não “fazer oposição” tem-se pautado pela mansidão. O PSD não se destacou no debate parlamentar da semana passada, e a comunicação social reduziu-o ao episódio “pé no chinelo” que ficará nos anais da história parlamentar como “manso é a tua tia, pá!” (já agora: as expressões faciais do Primeiro-ministro nem precisam da intervenção da equipa de “Lie to Me” para serem “lidas” e conclusivas). O PSD passou despercebido e senti falta da secura e acutilância desprendida, que a comunicação social adorava desprezar, de Manuela Ferreira Leite, a quem o tempo se encarregou de ir dando razão, face a José. Mas o estado de graça de PPC não permite críticas, e o silêncio sobre o PSD impera.

21.3.10

Pesadelo


Perante este pedaço de retórica política, em que se sente a densidade do pensamento (gosto especialmente da parte em que diz usar a sua inteligência emocional), o latejar de uma ideia, a clareza de conceitos, o emergir de uma visão, a ousadia de um combate politico, a sede de justiça, a maturidade democrática e o profundo respeito pela liberdade, envolvidos na mais aprimorada linguagem, sou impelida a ler o que se segue.

Patético. O problema começa quando acordar e perceber que as opções políticas poderão ficar resumidas a José Sócrates ou a Passos Coelho, como num mau guião de ficção plástica. Toda uma outra dimensão de fazer política se abre para a qual não sei se estou preparada.

15.3.10

O homem tem de ir à bruxa. Não há nada que faça, cujo processo ou documentação não se perca. Não há nada em que se envolva que seja linear e transparente. Nada que lhe diga respeito é facilmente explicado e percebido. Nada, desde o curso e casas, até à compra da TVI pela PT. É mesmo azar.


11.3.10

Tolerância a Zero

A entrevista de Miguel Sousa Tavares a José Sócrates, em que o primeiro se preparou muito mal, e o segundo persistiu na sua já batida linha de recusa de ver o real e no abundante uso de má retórica optimista, e o anúncio do PEC, cujos pressupostos vêm desdizer o cenário que nos foi pintado pelo PS durante todo o ano de 2009 e durante as sucessivas campanhas eleitorais, e cujas medidas anunciadas para combate ao deficit são diametralmente opostas prometido pelo PS e por José Sócrates durante a campanha eleitoral para combater a crise, zeraram por completo o nível – já de si milionesimal – de tolerância ao Primeiro-ministro e ao seu governo, nomeadamente a Teixeira dos Santos que sempre considerei, durante a legislatura anterior, a pequeníssima, mas única, âncora de realidade no governo. Desde aí que não consigo vê-lo, nem vê-los, ouvi-lo, nem ouvi-los. Aguardo com expectativa, mas já sem interesse pela campanha, o desenrolar da novela PSD sem saber se ficaremos com a mudança, a ruptura, a força, ou outro qualquer substantivo que entretanto ocorra a alguém. O país, enquanto isso, continua mergulhado em descrédito, mentira e intriga, e a caminhar para o abismo das contas públicas e da contestação social que não tardará em sair à rua. O país continua entregue nas mãos de governantes e políticos desrespeitados e desacreditados, sem um rumo que se perceba e que impulsione algumas das reformas estruturais que urgem (apesar de já urgirem há 10 anos, note-se). Nada consente hoje, a alguns de nós, uma nesga de alento.

23.2.10


Ontem na Televisão

Alberto João Jardim entrevistado por Judite de Sousa, com determinação, segurança e lucidez, mostrou e relembrou ao País porque é que é “O” líder da Madeira há mais de três décadas.

José Sócrates, entrevistado por Miguel Sousa Tavares, viu-se encostado ao canto do reconhecimento de coincidências. Só coincidências. Quanto ao resto, a segundo parte, só serviu para confirmar o quanto me é insuportável ouvi-lo: a sua voz, o tom da sua voz e, claro, o que diz que é sempre igual e mais do mesmo. E então aquele optimismo postiço, teimoso e martelado desapiedadamente aos nossos ouvidos...

19.2.10

Delirante

Qualificar como “delirante” a ideia de um plano de controle dos media é um acto político pouco consistente: primeiro porque mostra a sua fragilidade actual na necessidade de contra atacar, no matter what, e depois porque mostra, mais uma vez a dificuldade em encontrar argumentos capazes de colocar um ponto final na questão da tentativa de manipulação dos media, bem como argumentos que contradigam as legítimas ilações que a oposição tira face aos fortíssimos indícios (ver jornal Sol, por exemplo) que a pouco e pouco vão sendo revelados, e aos factos (saída de Manuela Moura Guedes, entre outros) já amplamente conhecidos. José Sócrates é perito em se envolver em situações pouco claras que a imprensa vai desvendando e tem deixado sempre um rasto de suspeição atrás de si que nunca é possível limpar totalmente. Ele é vítima de si próprio, dos seus métodos e companhias (como disse António Lobo Xavier ontem na Quadratura do Círculo) e acrescentaria, da sua falta de contacto com a realidade que o leva a desconhecer o país, e mesmo as suas limitações: suas, e dos “seus”.

A comunicação ao país ontem do Primeiro-ministro é mais do mesmo; igual a todas as outras. Insiste em tomar-nos por parvos – característica que inevitavelmente se virará contra ele – iludindo esclarecimentos, brincando com palavras, mostrando–se, como já é hábito, vítima de insinuações, calúnias e mentiras. Fica-nos a sensação do pouco que governa, nada de novo, portanto.

7.2.10

Da Percepção

O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós.

Vasco Pulido Valente no Público de hoje, fala da fantasia em que José Sócrates vive. Eu diria mais: ele sempre viveu nesse mundo paralelo fabricado de propaganda, anúncios e medidas, e movido pelo seu combustível de eleição: um teimoso e obstinado optimismo de uma superficialidade e ignorância confrangedores e incapazes de resistir a um qualquer escrutínio. Essa percepção de Portugal tão sua (de Sócrates) já contaminou o átomo (repito átomo, a que atribuo o sentido de “quase insignificante”) de realismo que conseguia sobreviver no seu governo, que era Teixeira dos Santos. Algo se passa de muito errado, nomeadamente com Teixeira dos Santos, que depois da sua declaração chantagista, já deveria ter pedido a demissão. Aliás pedidos de demissão são actos omissos deste grupo de gente que nos governa. Isso e vergonha na cara. Aguardemos.

2.2.10

Parece que afinal a “asfixia democrática" sempre existe, se até o Expresso, na voz do seu director, já diz que
diz também que
e ainda acrescenta
Manuela Ferreira Leite, a eterna desprezada, a bota-abaixista - entre outros qualificativos, claro - parece que não errou uma declaração, uma previsão.

Sobram dúvidas sobre o tipo de Primeiro-ministro que temos? Os casos passados e este não bastam ainda para discernir um padrão? Acredito que os próximos dias sejam férteis em revelações. Diz-nos a História que a tendência dos homens do poder de chamarem “loucos”, “paranóicos” ou psicóticos a precisar de apoio, a todos os que lhe fazem frente, contradizem e mostram oposição é um mau sinal.

Há um cheiro pronunciado a declínio – a fim. Será que chegamos ao princípio do fim?

16.1.10

Um Estilo

Não quero, não consigo e não gosto do “estilo” José Sócrates. Ontem, na AR, aquele que sistematicamente se diz vítima de calúnias e ataques pessoais foi, mais uma vez, deselegante no seu ataque à líder do PSD - a propósito do PEC - com pequenas e maldosas, insinuações do género: “É tudo muito simples para quem já desistiu de liderar (...) e para quem quer ir embora” (ver aqui). Isto porque Manuela Ferreira Leite ousou desmontar o “estilo”, a forma de fazer política e a má-fé do governo ao denunciar o anúncio diário de medidas com implicações orçamentais antes da discussão orçamental. José Sócrates está muito enganado: MFL não é do “género” de desistir, e não o faz, sendo contundente nas suas intervenções e sempre presente no cenário da discussão política nacional, pese este facto a muitos, nomeadamente e especialmente a um sector do PSD que minimiza as suas intervenções pois gostaria que ela se tivesse demitido do cargo para que foi eleita no dia seguinte às eleições legislativas.

MFL, como sempre, esteve certeira, mas nunca na comunicação social as suas palavras encontram o eco que merecem. Mesmo não gostando dela, do seu "estilo", mesmo achando-a sem jeito e sem piada, mesmo achando a “velha” (mas já Manuel Alegre, esse, não é “velho”), as suas intervenções enquanto líder da oposição mereceriam, numa sociedade menos “asfixiada comunicacionalmente”, destaque e discussão. De facto, neste mundo pateta, é melhor ser engraçado do que ter graça.

O líder do CDS foi oportuno ao dizer que “quando se negoceia, não se ameaça”, pois estar num processo negocial ameaçando é mais uma prova (como se precisássemos de mais) deste “estilo” que transpira má-fé e muito “à Sócrates”. Primeiro, e pela voz do seu ministro das Finanças, tenta condicionar o PSD e o CDS ameaçando uma subida de impostos caso este mantenha na mesa negocial a proposta do fim do PEC e a revisão da Lei sobre as Finanças Regionais.”. Num momento posterior, e porque a ideia de subida de impostos começa a ser em Portugal e finalmente, cada vez menos popular e cada vez mais olhada com desconfiança, José Sócrates “explica” que o governo não “quer” aumentar impostos e, vitimizando-se (outra das faces do “estilo”) diz que o governo é que está refém das votações da AR.

Tempos difíceis se adivinham, sobretudo para o PSD, nesta fase negocial sobre o orçamento com este governo liderado por José Sócrates, e que, em bom rigor, não sei se deveria ou não ser viabilizado. Sobrará sempre para o PSD. Será preso por ter cão e preso por não ter.

7.1.10


José Sócrates disse hoje que coube ao Estado resolver a crise desencadeada pelo sector financeiro que critica o peso do estado. Falou como se a crise fosse algo do passado eficientemente resolvida e despachada pelas boas medidas do seu governo (o dito estado). Por mais voltas e reviravoltas que o Primeiro-ministro e o seu governo dêem a crise não acaba com anúncios do seu fim, nem de luzes ao fundo do túnel que alguns vêem nem tão pouco com as medidas que ele anunciou com uma cadência atordoante no ano que passou e em vésperas de eleições. Notícias diárias como esta confirmam-no e são a face da crise a atingir os portugueses da pior maneira e que o Estado não resolveu, nem tem que resolver – tem somente que desviar recursos para quem mais sofre e para estimular a produtividade. Por outro lado, números como este do endividamento externo mostram também que o “bom velho Estado” poderá ser velho, mas talvez não seja assim tão bom.

17.12.09

O País das Maravilhas

Se algum(a) marciano(a) aterrasse agora em Portugal e abrisse um jornal iria ficar impressionado com as prioridades políticas e legislativas do nosso pais: regionalizar um país demasiado homogéneo e claustrofóbico, legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo - depois de ter legislado anteriormente uma versão de “divórcio turbo” que tem dado que fazer aos tribunais de família, e arrancar com o projecto/investimento do TGV que trará a Europa para mais perto de nós. O dito marciano pensaria estar perante um país rico e próspero com os problemas essenciais para o bem estar de uma sociedade resolvidos. Ele saberia, por exemplo, que estava num pais que não tinha dívida externa, em que o desemprego era quase inexistente, a indústria era sólida e espelho de um confiante investimento e consumo privados, a justiça célere e conclusiva, a educação exigente formava cidadãos solidamente qualificados, o sistema de saúde respondia na hora às necessidades dos contribuintes e que a política fiscal era justa. O Pais das Maravilhas.

José Sócrates continua com a sua política de fugir para a frente, anunciando medias umas atrás das outras e legislando rápida e sucessivamente em matérias fracturantes de forma a atordoar o eleitorado e a encandear o nosso olhar para nos impedir de ver. Mas há sempre alguém atento. Há sempre quem veja. Há sempre quem perceba. Valho-nos isso.
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10.12.09

Da Igualdade

Parece que a moda pegou e que não há maneira de sair desta linha de argumentação: quem não gosta do PSD, ou melhor, deste PSD, ou melhor, de Manuela Ferreira Leite, mais tarde ou mais cedo, e por muitos ares que se dê de distanciamento político e de isenção, acaba sempre por cair no argumento trivial e grau zero da argumentação política: “são todos iguais”. Eu sei que é fácil ceder ao populismo e à audiência “taxista”, e eu sei que a vida nem sempre é fácil e que às vezes é preciso despachar uma opinião para um jornal ou uma televisão como quem faz a lista de supermercado, mas de certos comentadores espera-se (espera-se mesmo?) um pouco mais de seriedade na análise.

O último caso que me chamou a atenção foi este artigo de Constança Cunha e Sá (via). Esta frase o mal, como se vê, está bem distribuído pelas aldeias, uma versão aparentemente mais elaborada e sofisticada do “são todos iguais”, mostra preconceito (para não dizer má-fé) em relação aqueles que questionam – e querem esclarecimentos sobre – a conduta do Primeiro-ministro. Os factos apontam para que o Primeiro-ministro tenha, numa conversa que foi escutada no âmbito de uma investigação de que era objecto o seu interlocutor, mostrado que interferiu na area da comunicação social através de um negócio que disse, na altura no Parlamento, desconhecer. A ser verdade há aqui matéria para investigar. São questões da esfera política ligadas à forma como tem exercido o seu cargo público. Por isso as questões levantadas são legítimas, tal como as dúvidas, até agora nunca esclarecidas, que todos temos em relação ao caso Freeport, e à questão da discrepância de biografias de José Sócrates no Parlamento, por exemplo.

Dúvidas deste género não se colocam nem no caso de Manuela Ferreira Leite, nem no caso de Aguiar Branco, (ou de outros anteriores dirigentes socialistas, por exemplo) por muitos erros politicos que comentam, por muita falta de “jeito para a política” (seja lá o que isso for) que tenham. Não gostar de um politico não faz dele um “igual” a outro de quem não se gosta também, mas que está (e tem estado em permanência) sob suspeita de ter cometido e cometer actos ou ilegais ou menos éticos do ponto de vista politico. Querer "igualar" é não querer perceber a óbvia diferença. Por muito que insistam, nomeadamente os que gostam de ver a “diferença” em Pedro Passos Coelho (as if...), nunca farão de Manuela Ferreira Leite uma “igual” a José Sócrates, nem (infelizmente) de José Sócrates um “igual” a Manuela Ferreira Leite.

Não, não são todos iguais. Não, o mal não está igualmente distribuído pelas aldeias.
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27.11.09

Questões de Semãntica

Ouvi (SIC) José Sócrates em declarações para a televisão chocado com as propostas dos partidos da oposição para “aumentar a despesa” referindo-se às votações hoje na AR. Até disse que a oposição era “desleal” naquele seu jeito self-righteous de repudiar tudo e todos os que não estão em sintonia consigo e lhe atrapalham o optimismo. O Primeiro-ministro acha que tem jeito para brincar com as palavras, mas a semântica saiu-lhe, mais uma vez, toda errada.

É que “aumentar a despesa” tem pouco a ver, quer política quer financeiramente, com “diminuir a receita”, sobretudo uma receita construída com base num cenário fantasioso e pensado para uma célere diminuição do deficit (que noutro abuso semântico chamarão “recuperação económica”) que a UE exige, bem como o clima de permanentemente eleitoralismo em que o país se encontra com a perspectiva de eleições antecipadas que teima em pairar. Os partidos da oposição não quiseram “aumentar a despesa”, nem foi isso que foi votado. Recusaram-se sim a sancionar um “conforto” da receita aumentando a sobrecarga fiscal para os contribuintes e empresas cada vez mais estrangulados.

Este volte-face hoje no parlamento em que o governo esteve sempre isolado, irá obrigar o governo, o Primeiro-ministro, Ministro Teixeira dos Santos e restantes responsáveis a encarar a realidade que têm procurado não ver, tão iludidos que estão com o país do optimismo em que os contribuintes podem sempre ser um pouco mais espremidos para pagarem os erros de uma má governação e de uma política orçamental despesista feita a pensar em eleições (nas que foram e nas que hão-de vir). Mas controlar a despesa é muito mais “chato” e impopular do que aumentar a carga fiscal, não é?

22.11.09

Face Oculta da Verdade

O arquivamento das oito certidões extraídas do processo Face Oculta, contrariando as decisões dos magistrado de Aveiro e Coimbra (que presumivelmente carecem todos bom senso e capacidade de avaliação), com conversas entre Armando Vara e José Sócrates, é o desfecho esperado de um processo, que tal como todos os outros, nunca conhece soluções. As conversas entre JS e AV pouco interessariam se eles fossem cidadãos comuns sem responsabilidades politicas e de Estado, como é o caso. Um é o Primeiro-ministro de Portugal e o outro é um amigo seu que, tal como ele, subiu na vida pública e ocupou cargos de relevo politico, nomeadamente o último, à custa de militâncias politicas, e não de um curriculum profissional sólido. Assim sendo o teor das escutas é relevante politicamente e não pode ser ignorado uma vez que demonstra uma ilegítima interferência do governo na esfera privada e uma tentativa de controle da comunicação social. Os habituais “senãos” processuais em que qualquer investigação em Portugal encalha não pode deixar de frustrar o cidadão que gostava, mas já nem ousa esperar, de, por uma vez, saber onde pára a verdade.

No nosso pais, há crimes, mas não há criminosos. Prova-se o abuso de crianças na Casa Pia, mas ninguém (à excepção de Carlos Silvino) os cometeu. Há tráfego de influências, (visíveis em casos pouco claros de adjudicações directas, interferências na comunicação sócial através de estranhas coincidências, etc) mas ninguém influência ninguém nem coisa nenhuma. Há corrupção, (operações financeiras ilícitas, abuso de confiança, lavagem de dinheiro, enriquecimento rápidos e inexplicáveis), mas nunca se encontram corruptos. A verdade acaba sempre perdida de tal forma se embrulha e escamoteia, se enreda em demoras e complexidades processuais. A verdade perde-se da nossa vista e no meio das demoras e complexidades até nos esquecemos do que realmente está em causa.

Talvez porque, lamentavelmente, a verdade é o que menos interessa: às pessoas em causa, (que mais parecem decidir como se estivessem num concurso de popularidade, e não em consciência): ao Procurador-geral da República, aos magistrados que podem ver as suas carreiras congelas (caso Rui Teixeira) por se envolverem com figuras do poder, e a muitos políticos e gestores/empresários de diversos sectores que vivem da promiscuidade entre empresas, influências e poder. Chegamos, enquanto país e percepção colectiva, a um ponto em que se acha normal e natural e não merecedor de esclarecimentos que o Primeiro-ministro tenha as conversas que teve com Armando Vara (e falo só do que conheço, que desconhecemos o teor de todas as outras, mas a amostra basta para acabar com a inocência). Acha-se normal que o Primeiro-ministro passe a vida envolvido em processos de legalidade duvidosa.

Tanto é assim que os portugueses continuaram a votar nele. Eu, que não votei em José Sócrates, continuo a lamentar a escolha prioritária dos eleitores na qual não me revejo como há muito não me acontecia. Continuo, infelizmente, a confirmar a pouca exigência esperada perante quem ocupa em Portugal cargos de Estado.

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11.11.09


Não é a questão jurídica de se se devem ou não deve considerar nulas as escutas telefónicas entre José Sócrates e Armando Vara que me interessa. A questão politicamente relevante é ter um Primeiro-ministro a quem passa pela cabeça falar e considerar interferir numa questão que é estritamente do âmbito do mundo das empresas privadas. Esta conversa vinda a lume, e fazendo fé no que a comunicação social nos diz, só confirma a já conhecida tendência dos nossos actuais detentores de cargos públicos, em particular de José Sócrates, para usar a sua influência e o seu poder interferindo de forma pouco legítima, e de acordo com as suas conveniências circunstanciais, na esfera das empresas privadas condicionando-as. Uma sociedade só é politicamente saudável e economicamente viável quando o mundo privado está impermeável às pressões politicas. Independentemente do resultado jurídico ou processual do caso das escutas no âmbito do processo “Face Oculta” (que tanto se tem debatido na comunicação social), a questão política mantém-se e dela pouco se fala apesar de estar (devida ou indevidamente, não sei, nem me interessa) a nu na comunicação social. A contenção e a não-interferência dos órgãos de soberania perante matérias do foro privado deveria ser uma segunda natureza para qualquer pessoa que ocupe um desses cargos. E não é. Como se vê este caso do conteúdo dos telefonemas escutados, esta é também uma forma de asfixia democrática, uma expressão ultimamente vetada pela onda comunicacional, às más lembranças e à má fama apesar de se manter actual, infelizmente.
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6.11.09

Mais Abaixo

De cada vez que se publica (divulga) um estudo internacional, Portugal está cada vez “mais abaixo”. Hoje está mais abaixo na taxa de investimento estrangeiro. Há semanas anunciou-se estar 14 lugares “mais abaixo” no índice de liberdade de imprensa, posteriormente também ficou “mais abaixo” no índice que mede as disparidades entre os sexos. Prevê-se que fique também “mais abaixo” na taxa de crescimento económico cuja média europeia para 2010 será de 0,7%. Só com a previsão do deficit a crescer podendo atingir os 8% em 2010, se contraria, como se isso fosse consolo pois é da pior maneira possível, a tendência “mais abaixo”. José Sócrates continua a bater no pessimismo e no bota-abaixismo, mas parece que ele é o grande responsável por estes números cada vez “mais abaixo” que afundam inexoravelmente o país em áreas tão diversas e díspares. É uma realidade “bota-abaixista” do país, aquela que José Sócrates construiu, se recusa a ver e quer continuar a construir. Os portugueses continuaram a votar nele, o suficiente para fazer um governo, por isso não se podem queixar.

Perante esta fatalidade nacional fala-se de casamento entre pessoas do mesmo sexo, de avaliação de professores, de TGV, em suma: o que o país merece.

Ontem, Miguel Sousa Tavares na TVI pôs o dedo na ferida elogiando a intervenção da líder da oposição, sobre o deficit e a insustentabilidade económica do país. Ao contrário do que a televisão (nomeadamente a SICe a TVI) mostram – Paulo Portas - quando em voz off falam de oposição, MST sabe que é Manuela Ferreira Leite e o "seu" PSD com quase o triplo da votação do CDS-PP, a líder da oposição. Essa estranha e persistente atracção (ou má-fé?) da comunicação social por Paulo Portas em detrimento e contra MFL, de tão óbvia, já cansa. Mas, voltando a MST, ele indignou-se perante a indiferença do executivo face à situação económica e financeira do país e à resposta, que ficou por dar, quando o Primeiro-ministro foi interpelado por MFL. José Sócrates continua a não dar respostas. Como sempre.

Também o comentário de MST ontem teve um outro momento de destaque quando falou sobre a corrupção em Portugal e a descreveu não tanto como corrupção de grande dimensão, mas sim como um enraizado e tentacular tráfego de influência e permanente promiscuidade entre o Estado e as empresas participadas ou não pelo Estado. Todos fazem favores a todos, todos “dão um jeito” a todos, todos beneficiam da complacência de todos e da longa e generosa mão estatal através de lugares dados, concursos ganhos, subsídios atribuídos, etc. Mal mesmo fica quem, longe desses “esquemas”, paga imposto, desconta para uma segurança social sem saber se terá retorno um dia, nunca recebe subsídio e nunca mereceu (nem deveria, note-se), ao contrário de tantos outros ali mesmo ao lado, um átomo de atenção do estado.
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