“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

18.12.06

Carolina

Ainda há pouco tempo beijavam-lhe a mão. Agora apontam-lhe o dedo.
Paul Cézanne (1839-1906)
Château noir, vers 1900-1904
Huile sur toile - 74 x 96 cm
, Washington, National Gallery of Art

O aborto e os precedentes

A decisão das 10 semanas intriga muita gente. O que terá levado os políticos a estabelecerem essa data? Será que não poderíamos ser elucidados do porquê de tal limite? É arbitrário? Tem fundamento científico? Ético? Se é verdade que muitas mulheres sabem desde cedo que estão grávidas, muitas outras, sobretudo as raparigas jovens e inexperientes em questões de gravidez, demorarão por vezes mais do que as 10 semanas para saberem que estão grávidas. E depois? Já não podem abortar livremente como as mais conhecedoras ou experientes? Em nome de quê não poderão abortar legalmente? Qual a diferença entre abortar às 10 semanas ou às 12, por vontade da mulher? Estou a ver que com este referendo se substitui uma hipocrisia por outra e se criam mais do que um precedentes.

Numa aparentemente simples pergunta estamos perante problemas diversos: a primeira é a legalização de um acto que vai terminar uma vida e aqui entram, no meu ponto de vista, todas as questões que referi anteriormente como questões a montante: a questão de princípio que se prende com o valor da vida. Na dúvida (se é que elas existem neste caso) serei sempre a favor da vida. A segunda questão prende-se com a data limite tão previsível e tão politicamente correcta, porque isto de poder abortar livremente às 13, 14 ou 15 semanas já é chato e complicado, já se vêem os bracinhos e as perninhas nas ecografias, já brincam com as mãozinhas, humanizam-se e fica mais difícil justificar o acto em si, só por vontade da mulher. É este o facto que quero realçar por último: para fazer o aborto nada mais é necessário do que a vontade da mulher. Longe de mim tecer julgamentos morais, ou mesmo sentir que eu, ou até outro votante do “Não”, estaria sempre acima de qualquer dilema moral deste calibre e que tomaria a decisão certa (fosse ela qual fosse), mas talvez porque é tão difícil tomar a decisão certa me pareça que poder abortar livremente só por decisão da mulher é demasiado expedito, demasiado simples e demasiado conveniente do ponto de vista da sociedade que se quer cada vez mais asséptica e que prefere não ver, não ouvir, não saber. Ou será que alguém acredita que os abortos clandestinos vão mesmo acabar?

17.12.06

Postal Ilustrado 2

New York at Christmas time

16.12.06

O género e o aborto

Fiquei surpreendida com um outdoor de um movimento cívico a favor do “Não” no referendo ao aborto que reza da seguinte forma: “Não obrigada!” primeiro detive-me na questão gramatical e no facto de só as mulheres dizerem “obrigada!” e depois considerei a hipótese de esta plataforma se dirigir sobretudo às mulheres, daí o chamamento ao seu voto de “não obrigada!”. Numa visita ao site da Plataforma Não Obrigada, verifico que estou errada, pois se nos pontos 4, 5 e 6 do Manifesto se visa sobretudo a mulher, imediatamente a seguir no ponto 9 se lamenta que a lei a ser referendada ignore por completo o papel do homem. E é esta questão que, concordando plenamente com o enunciado do ponto 9, me faz não perceber e rejeitar o nome/slogan desta plataforma. Os fetos, objecto da possibilidade de, por vontade da mulher, serem abortados até às 10 semanas (a voz passiva por vezes é chocante...) são feitos por homens e por mulheres e são, quer os homens quer as mulheres, chamados a pronunciarem-se sobre a questão colocada no referendo. Neste referendo as questões de voto e de género estão em cima da mesa. Parecem-me, talvez devido a uma enorme dificuldade em as articular na minha estrutura argumentativa que é marcada primeiro por uma forte convicção a favor da vida emanando daí uma inabalável questão de princípio que faz também com que votasse “não” num hipotético referendo que visasse legalizar a pena de morte, paternalistas e até, em última análise desresponsabilizantes. O aborto é uma questão que ultrapassa a mulher, em abono da verdade ultrapassa mesmo a mulher e o homem, e mesmo a sociedade.

15.12.06

Bom Dia!

14.12.06

Falar e escrever

Quando se ouve, num meio absolutamente urbano, um professor falar nos alunos que trazem ou não “o comer” de casa, percebe-se a preocupação do Ministério da Educação com a eventualidade de os professores não se expressarem correctamente em Português, oral e escrito. O que não se percebe - não porque seja difícil perceber, mas porque percebê-lo dá demasiada dor de cabeça e irritação - é como é que se chega assim a ser professor. Percebestes?

Adenda: 2º Ciclo, diz o professor de Educação Física: “gajos de um lado, gajas do outro”. Esta oralidade está dentro dos padrões do bom Português falado desejado pelo Ministério?


13.12.06

Paul Cézanne,
Domain Saint-Joseph - La Coline des Pauvres, c.1877, oil on canvas

Deus criador

Michelangelo.
The Creation of Eve.
1508-1512. Fresco. Sistine Chapel, Vatican.

Qual é o Deus do Mediterrâneo 3 (e último)

Deixei para o fim a reflexão feita por Salman Rushdie sobre a maturidade do homem que, para ele, só acontecerá quando o homem der um passo para além, da religião e a ultrapassar. Para que o homem se encontre e confronte consigo mesmo precisa que os deuses se distanciem e afastem. Também uma separação entre o mundo de deus e o mundo dos homens ajuda neste processo. Foram apontados dois momentos chave na história ocidental para ilustrar estes passos: o renascimento que é a formalização do mundo centrado no homem e em que deus se torna periférico, o que lhe (homem) permite soberania sobre si próprio fazendo livremente as suas escolhas morais. O segundo momento é o iluminismo com as suas batalhas contra a Igreja e uma cada vez maior separação dos poderes dos estados com os poderes da Igreja.

Esta reflexão vem de alguém que assume como um não religioso. Mas para alguém de fé estas reflexões devem causar alguma perplexidade ou mesmo discordância. Creio que o que está em causa é a questão da liberdade e do livre arbítrio quando alguém de fé está inserido num sistema doutrinal. Vou dar um exemplo: no caso do voto ao referendo sobre o aborto quem, vivendo a fé católica e conhecendo a doutrina da Igreja, vota em plena liberdade ou vota por causa dessa fé que professa e doutrina que tenta seguir? E se o faz de acordo com o seu sistema de fé é menos livre por isso? Só é livre, maduro e integralmente responsável (num sentido não legal, claro) quem não tem fé? (É claro que estas questões que coloco acontecem numa sociedade ocidental em que existe separação entre o poder político e religioso, pois outras existem em que não há referendos, nem discussão pública e as questões sobre a liberdade ou o questionar a religião e seus ensinamentos são sussurradas por uma minoria.)


Para mim a liberdade e responsabilidade, aquilo que no início do texto se chamou “o distanciamento de deus” vem sim de algum distanciamento, não só em relação a deus, mas sobretudo em relação a nós próprios e ao que damos por adquirido, vem da capacidade de auto questionamento e reflexão da, ultimamente tão falada, relação entre a Fé e a Razão.

12.12.06

Philippe de Champaigne,
Repentant Magdalene (17th century)

Arrependida

No dia em que leio nas notícias que o Presidente da Académica é acusado formalmente de dez crimes de corrupção eu não deixo de estranhar a necessidade do livro de Carolina Salgado, que agora pede o estatuto de arrependida e quer colaborar com a justiça, para que se desenterrem (reabram) certidões entretanto arquivadas do Processo Apito Dourado. Muito ruído este livro tem causado, muitas notícias gerais e verdadeiramente sem que nada de novo se acrescente, muita intimidade revelada e amplificada pelos meios de comunicação situação que confrange demasiado, mas eu continuo sem saber exactamente o que é que mudou. Que informação nova e pertinente para a justiça o livro revela e divulga? Continuo sem perceber porque é que agora já se reabrem certidões entretanto arquivadas. Que meios novos tem hoje a justiça que há um mês, dois ou três não tinha? Esta é uma pergunta que valeria a pena colocar.


11.12.06

Deus Todo Poderoso

Jan van Eyck
1426-27 Oil on wood
Cathedral of St Bavo, Ghent

Qual é o Deus do Mediterrâneo 2

Dizia Salman Rushdie que hoje se volta a falar com naturalidade de religião no nosso mundo ocidental. Ele, que viveu plenamente os anos 60, sempre percebeu que durante muito tempo havia algum constrangimento em trazer a religião para o centro da conversa e do debate, quer em círculos informais quer de forma mais formal e mesmo na comunicação social. Ora, é sempre uma mais valia poder debater livremente qualquer tema, muito especialmente a religião, uma vez que a ânsia do divino parece estar inscrita na condição humana - e símbolo dessa inquietude é o facto de os deuses terem (e serem) inventados pelos homens. Um dos problemas que hoje se coloca é o facto de não se poder dizer livremente em todos os cantos do mundo que os deuses, deus, foi inventado pelo homem. Este aspecto da liberdade de expressão da dúvida ou da descrença estabelece mais uma vez diferenças entre a costa norte e a costa sul do mediterrâneo (anteriormente já foquei a diferença existente entre a relação homem/Deus em ambas as costas mediterrânicas)

A liberdade individual também foi objecto de breve comentário pois é vista e vivida de forma diferente em ambas as costas mediterrânicas. Na costa norte as escolhas individuais são privilegiadas mesmo em detrimento ou contra o interesse da comunidade enquanto que na costa sul as opções e escolhas individuais nunca são privilegiadas se são contra o melhor interesse da comunidade. Em termos gerais estou de acordo com esta asserção que é mais válida para o mundo da academia ou da discussão intelectual do que da vivência de um quotidiano demasiado, para minha sensibilidade, regulado, explícita ou implicitamente, mas isso é uma outra questão e sobretudo não se pode comparar com a vivência do mesmo quotidiano na costa sul do mediterrâneo, onde o islamismo regula ao pormenor a totalidade da vida, todos os aspectos de um quotidiano: lavar, comer, procriar, dinheiro, rezar...

10.12.06

A Chinese Emperor's Dragon with five claws, one of the nine sons of the Chinese Dragon, each with their own personality, and depending on character are used to decorate the legs of incense burners, or are carved on doors.

A saia da Carolina tem um lagarto pintado... (ou seria um dragão?)

Vamos, para simplificar este texto, admitir como hipótese, que Jorge Nuno Pinto da Costa é culpado de tudo o que Carolina Salgado o acusa. Vamos admitir, como hipótese, que ela nunca mente, não distorce a realidade, não a descontextualiza, não exagera, não tira ilações erradas. Vamos admitir que nenhum desejo de ajuste de contas ou de vingança a move. Vamos admitir que o seu desejo de redenção é honesto, que de facto ela reconhece os seus erros passados e que genuinamente quer começar uma nova vida e olhar para o futuro. Vamos admitir que a escrita a ajudou psicologicamente nesse passo e que o rendimento que daí possa surgir a também a ajuda neste (re)começo de vida. Desejo-lhe sinceramente a melhor sorte. Mas,

So what? Porque é que eu tenho que a ouvir na televisão, ver e ler nos títulos dos jornais e nas páginas dos mesmos, ver nas revistas, suplementos destacáveis, coleccionáveis e demais ofertas e publicidades? Preferia saber se as bombásticas e tão surpreendentes revelações já deram origem a alguma investigação por parte da institucionalizada Brigada anti-Corrupção. Para além de uns textos tímidos e pequenos de intenções ainda não percebi qual a relevância do que ela conta e se há algo de novo que não constasse já de processos judiciais iniciados. No fundo, isso é que importa, não?

9.12.06

Paul Cézanne
Chestnut Trees at Jas de Bouffan in Winter (c. 1885-1887)

8.12.06

Um mundo pequeno




O Blasfémias e é um blogue que leio com interesse desde sempre e um dos casos de maior e mais inesperado sucesso na blogosfera portuguesa. Entre os seus autores aprecio jcd, já desde os tempos do Jaquinzinhos, gosto do seu humor certeiro, espirituoso e estimulante. Mas este blogue não lhe pertence. Eu também sou jcd, mas nada posso fazer contra isso. Paciência... we must bear it as graciously as we can!

Gostei de ler os comentários ao meu post sobre o Aborto no Quase em Português, mesmo com o equívoco.

Jean Bellegambe
Saint Anne conceiving the Virgin Mary

Douai, Musée de la Chartreuse

Bom Dia Santo!


Hoje é dia de todos os equívocos. O dia da Imaculada Conceição é o dia em que, exceptuando uma minoria de curiosos e informados, se confunde concepção de Maria com a concepção de Jesus e se aproveita para, a reboque, dizer umas patacoadas, contestar, e mostrar desacordo perante o que pensam ser o conceito de Virgindade de Nossa Senhora – dogma bem antigo e que data do séc.VII. Imaculada Conceição quer dizer tão simplesmente concebida sem mácula. Este foi o dogma proclamado em 1854 pelo papa Pio IX que diz que por privilégio e Graça de Deus, Maria foi concebida sem pecado original. Esta festa tem a ver com Maria e a sua concepção e não com Jesus nem com a sua concepção. É este facto que a Igreja Católica celebra hoje, e com ela todos os restantes cidadãos que aproveitando o Dia Santo cujo conceito desconhecem e desaprovam mas que nem querem ouvir falar em abolir, vão para os centros comerciais fazer compras de Natal!

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