“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

14.12.06

Falar e escrever

Quando se ouve, num meio absolutamente urbano, um professor falar nos alunos que trazem ou não “o comer” de casa, percebe-se a preocupação do Ministério da Educação com a eventualidade de os professores não se expressarem correctamente em Português, oral e escrito. O que não se percebe - não porque seja difícil perceber, mas porque percebê-lo dá demasiada dor de cabeça e irritação - é como é que se chega assim a ser professor. Percebestes?

Adenda: 2º Ciclo, diz o professor de Educação Física: “gajos de um lado, gajas do outro”. Esta oralidade está dentro dos padrões do bom Português falado desejado pelo Ministério?


13.12.06

Paul Cézanne,
Domain Saint-Joseph - La Coline des Pauvres, c.1877, oil on canvas

Deus criador

Michelangelo.
The Creation of Eve.
1508-1512. Fresco. Sistine Chapel, Vatican.

Qual é o Deus do Mediterrâneo 3 (e último)

Deixei para o fim a reflexão feita por Salman Rushdie sobre a maturidade do homem que, para ele, só acontecerá quando o homem der um passo para além, da religião e a ultrapassar. Para que o homem se encontre e confronte consigo mesmo precisa que os deuses se distanciem e afastem. Também uma separação entre o mundo de deus e o mundo dos homens ajuda neste processo. Foram apontados dois momentos chave na história ocidental para ilustrar estes passos: o renascimento que é a formalização do mundo centrado no homem e em que deus se torna periférico, o que lhe (homem) permite soberania sobre si próprio fazendo livremente as suas escolhas morais. O segundo momento é o iluminismo com as suas batalhas contra a Igreja e uma cada vez maior separação dos poderes dos estados com os poderes da Igreja.

Esta reflexão vem de alguém que assume como um não religioso. Mas para alguém de fé estas reflexões devem causar alguma perplexidade ou mesmo discordância. Creio que o que está em causa é a questão da liberdade e do livre arbítrio quando alguém de fé está inserido num sistema doutrinal. Vou dar um exemplo: no caso do voto ao referendo sobre o aborto quem, vivendo a fé católica e conhecendo a doutrina da Igreja, vota em plena liberdade ou vota por causa dessa fé que professa e doutrina que tenta seguir? E se o faz de acordo com o seu sistema de fé é menos livre por isso? Só é livre, maduro e integralmente responsável (num sentido não legal, claro) quem não tem fé? (É claro que estas questões que coloco acontecem numa sociedade ocidental em que existe separação entre o poder político e religioso, pois outras existem em que não há referendos, nem discussão pública e as questões sobre a liberdade ou o questionar a religião e seus ensinamentos são sussurradas por uma minoria.)


Para mim a liberdade e responsabilidade, aquilo que no início do texto se chamou “o distanciamento de deus” vem sim de algum distanciamento, não só em relação a deus, mas sobretudo em relação a nós próprios e ao que damos por adquirido, vem da capacidade de auto questionamento e reflexão da, ultimamente tão falada, relação entre a Fé e a Razão.

12.12.06

Philippe de Champaigne,
Repentant Magdalene (17th century)

Arrependida

No dia em que leio nas notícias que o Presidente da Académica é acusado formalmente de dez crimes de corrupção eu não deixo de estranhar a necessidade do livro de Carolina Salgado, que agora pede o estatuto de arrependida e quer colaborar com a justiça, para que se desenterrem (reabram) certidões entretanto arquivadas do Processo Apito Dourado. Muito ruído este livro tem causado, muitas notícias gerais e verdadeiramente sem que nada de novo se acrescente, muita intimidade revelada e amplificada pelos meios de comunicação situação que confrange demasiado, mas eu continuo sem saber exactamente o que é que mudou. Que informação nova e pertinente para a justiça o livro revela e divulga? Continuo sem perceber porque é que agora já se reabrem certidões entretanto arquivadas. Que meios novos tem hoje a justiça que há um mês, dois ou três não tinha? Esta é uma pergunta que valeria a pena colocar.


11.12.06

Deus Todo Poderoso

Jan van Eyck
1426-27 Oil on wood
Cathedral of St Bavo, Ghent

Qual é o Deus do Mediterrâneo 2

Dizia Salman Rushdie que hoje se volta a falar com naturalidade de religião no nosso mundo ocidental. Ele, que viveu plenamente os anos 60, sempre percebeu que durante muito tempo havia algum constrangimento em trazer a religião para o centro da conversa e do debate, quer em círculos informais quer de forma mais formal e mesmo na comunicação social. Ora, é sempre uma mais valia poder debater livremente qualquer tema, muito especialmente a religião, uma vez que a ânsia do divino parece estar inscrita na condição humana - e símbolo dessa inquietude é o facto de os deuses terem (e serem) inventados pelos homens. Um dos problemas que hoje se coloca é o facto de não se poder dizer livremente em todos os cantos do mundo que os deuses, deus, foi inventado pelo homem. Este aspecto da liberdade de expressão da dúvida ou da descrença estabelece mais uma vez diferenças entre a costa norte e a costa sul do mediterrâneo (anteriormente já foquei a diferença existente entre a relação homem/Deus em ambas as costas mediterrânicas)

A liberdade individual também foi objecto de breve comentário pois é vista e vivida de forma diferente em ambas as costas mediterrânicas. Na costa norte as escolhas individuais são privilegiadas mesmo em detrimento ou contra o interesse da comunidade enquanto que na costa sul as opções e escolhas individuais nunca são privilegiadas se são contra o melhor interesse da comunidade. Em termos gerais estou de acordo com esta asserção que é mais válida para o mundo da academia ou da discussão intelectual do que da vivência de um quotidiano demasiado, para minha sensibilidade, regulado, explícita ou implicitamente, mas isso é uma outra questão e sobretudo não se pode comparar com a vivência do mesmo quotidiano na costa sul do mediterrâneo, onde o islamismo regula ao pormenor a totalidade da vida, todos os aspectos de um quotidiano: lavar, comer, procriar, dinheiro, rezar...

10.12.06

A Chinese Emperor's Dragon with five claws, one of the nine sons of the Chinese Dragon, each with their own personality, and depending on character are used to decorate the legs of incense burners, or are carved on doors.

A saia da Carolina tem um lagarto pintado... (ou seria um dragão?)

Vamos, para simplificar este texto, admitir como hipótese, que Jorge Nuno Pinto da Costa é culpado de tudo o que Carolina Salgado o acusa. Vamos admitir, como hipótese, que ela nunca mente, não distorce a realidade, não a descontextualiza, não exagera, não tira ilações erradas. Vamos admitir que nenhum desejo de ajuste de contas ou de vingança a move. Vamos admitir que o seu desejo de redenção é honesto, que de facto ela reconhece os seus erros passados e que genuinamente quer começar uma nova vida e olhar para o futuro. Vamos admitir que a escrita a ajudou psicologicamente nesse passo e que o rendimento que daí possa surgir a também a ajuda neste (re)começo de vida. Desejo-lhe sinceramente a melhor sorte. Mas,

So what? Porque é que eu tenho que a ouvir na televisão, ver e ler nos títulos dos jornais e nas páginas dos mesmos, ver nas revistas, suplementos destacáveis, coleccionáveis e demais ofertas e publicidades? Preferia saber se as bombásticas e tão surpreendentes revelações já deram origem a alguma investigação por parte da institucionalizada Brigada anti-Corrupção. Para além de uns textos tímidos e pequenos de intenções ainda não percebi qual a relevância do que ela conta e se há algo de novo que não constasse já de processos judiciais iniciados. No fundo, isso é que importa, não?

9.12.06

Paul Cézanne
Chestnut Trees at Jas de Bouffan in Winter (c. 1885-1887)

8.12.06

Um mundo pequeno




O Blasfémias e é um blogue que leio com interesse desde sempre e um dos casos de maior e mais inesperado sucesso na blogosfera portuguesa. Entre os seus autores aprecio jcd, já desde os tempos do Jaquinzinhos, gosto do seu humor certeiro, espirituoso e estimulante. Mas este blogue não lhe pertence. Eu também sou jcd, mas nada posso fazer contra isso. Paciência... we must bear it as graciously as we can!

Gostei de ler os comentários ao meu post sobre o Aborto no Quase em Português, mesmo com o equívoco.

Jean Bellegambe
Saint Anne conceiving the Virgin Mary

Douai, Musée de la Chartreuse

Bom Dia Santo!


Hoje é dia de todos os equívocos. O dia da Imaculada Conceição é o dia em que, exceptuando uma minoria de curiosos e informados, se confunde concepção de Maria com a concepção de Jesus e se aproveita para, a reboque, dizer umas patacoadas, contestar, e mostrar desacordo perante o que pensam ser o conceito de Virgindade de Nossa Senhora – dogma bem antigo e que data do séc.VII. Imaculada Conceição quer dizer tão simplesmente concebida sem mácula. Este foi o dogma proclamado em 1854 pelo papa Pio IX que diz que por privilégio e Graça de Deus, Maria foi concebida sem pecado original. Esta festa tem a ver com Maria e a sua concepção e não com Jesus nem com a sua concepção. É este facto que a Igreja Católica celebra hoje, e com ela todos os restantes cidadãos que aproveitando o Dia Santo cujo conceito desconhecem e desaprovam mas que nem querem ouvir falar em abolir, vão para os centros comerciais fazer compras de Natal!

7.12.06

A montante e a jusante

Na discussão sobre o aborto muitos argumentos foram já sobejamente enumerados, analisados, dissecados e atirados para o outro lado do campo como arma de arremesso. Restam os argumentos tabus. Para os partidários do “Sim” o grande tabu é a questão de princípio, a questão a montante, aquele pressuposto que deveria ser primeiro considerado: o da vida. Não o de tentar ser deus e adivinhar o momento do sopro da anima - será o momento da concepção, ou o momento da nidação, ou o momento do início da actividade cerebral, todos estes momentos catalogados em dias e em semanas, mas o aceitar que é da vida que se trata quando se fala em aborto. E a assunção de que abortar é acabar com essa forma de vida. Isso um partidário do “sim” não dirá, eu acho que é pena primeiro porque fica tudo mais claro e depois porque ao não o admitir perpetuam-se diálogos de surdos com os partidários do “não”. Os partidários do “sim” detêm-se nas questões sociais, e nas questões da liberdade individual. Essas, as questões a jusante, são o tabu dos partidários do “não”. Muitas vezes fixam-se só na questão de princípio e nunca admitem que, mesmo com informação, mesmo com educação sexual, mesmo com toda a contracepção do mundo ao dispor, mesmo com todas as “ajudas” de que tanto falam, existirão sempre mulheres que quererão abortar. Por vontade própria, empurradas pelos parceiros ou pais do feto que têm na barriga, por pressão dos seus próprios pais quando são ainda adolescentes, seja por que motivo for, elas abortarão independentemente da classe social, da situação financeira em que se encontram. Este é o facto que os partidários do “não” evitam, pois eles acreditam que “com ajuda” as mulheres não abortarão.

Eu votarei “não”. Limitação minha, certamente, mas nesta complexa questão que é o aborto, enquanto não conseguir resolver o problema a montante, por muito que reconheça os problemas a jusante, será “não” a minha resposta. Não estou de acordo, por uma questão de princípio inabalável minha que é a do direito à vida, que a Lei permita que uma mulher possa em circunstâncias normais (as circunstâncias não-normais estão contempladas hoje na Lei) e por vontade dela ou por vontade de outrem, por fim a uma vida mesmo que não tenha mais do que dez semanas.

6.12.06

Amanhecendo 2

Está tudo louco? 2

Acabei de ouvir nas notícias que a Universidade de Coimbra foi obrigada a abrir uma vaga em medicina para dar entrada a um aluno que, por decisão do tribunal, repetiu o exame de Química do 12º ano do passado ano lectivo e teve 19,5. Eu aconselho todos os alunos que de alguma forma se sentiram injustiçados com o que se passou este ano com o atribulado exame de Química a recorrerem aos tribunais; pelos visto terão uma nova hipótese de entrarem para o curso da sua escolha para o qual, por causa da escassez de vagas, foram excluídos. Confesso que, para minha perplexidade, me é difícil dizer o que está mal nesta história de contornos novelescos: tudo está mal. Desde falta de autonomia das universidades, ao Ministério da Educação, às vagas, aos tribunais, aos exames nacionais, nada, mas mesmo nada sai de cara lavada deste infeliz episódio que revela a incoerência e a arbitrariedade com que se tece o Estado e com a qual parecemos condenados a viver.

4.12.06

Papageno

Falou-me de Papageno com o mesmo entusiasmo com que fala de Spiderman, contou-me histórias de serpentes de pássaros da Rainha da Noite. Perguntei por Papagena e respondeu prontamente. Não vi a peça, mas desde já a recomendo vivamente.

Deus Pai

Artista Italiano séc. XV

O Deus do Mediterrâneo

Dizia Salman Rushdie que uma das grandes diferenças entre o Islamismo e as outras religiões do Deus de Abraão prende-se com a relação entre Deus e o Homem. No Judaísmo e Cristianismo há uma relação de semelhança entre Deus e o Homem uma vez que Deus o fez à sua semelhança, para os cristãos, se fez um deles. Esta relação de semelhança permite uma maior proximidade e intimidade com Deus e é diferente da relação Deus Homem no Islão que assenta sobretudo na noção de submissão à sua vontade e não questionamento. O Islamismo não atribui a Deus qualquer característica humana e é um Deus transcendente. Representá-lo ou descrevê-lo é, desde logo, dar a Deus uma dimensão humana que ele não tem. (A polémica dos cartoons começa aqui nesta noção de transcendência). Falou-se também do paradoxo de Averróis ao perguntar-se como é que Deus teria falado ao profeta se o uso da linguagem é um atributo humano...

Mas estou a começar quase pelo fim, porque importante e surpreendente para Salman Rushdie é o facto de se poder livremente falar de religião. Poder dizer que se é ateu, que os homens é que inventaram Deus, que a história do homem começa antes do conceito de Deus. Poder dizer, como disse Anselmo Borges, que Deus não faz ditados, que o ridículo é sempre ridículo e em religião ainda o é mais, que nenhuma religião, nem todas elas juntas detêm em absoluto o fundamento. Em muitos países do mundo tal seria impossível dizer sem se ser condenado. Importante mesmo é a possibilidade de argumentar, de discutir e esse é o método da democracia.


Estive, no fim-de-semana, no simpósio do Festival Sete Sóis Sete Luas, em Santa Maria da Feira. O tema era “Qual é o Deus do Mediterrâneo” e participavam Cláudio Torres, Anselmo Borges e Salman Rushdie. Ao longo dos próximos dias explorarei alguns aspectos lá debatidos que me mereceram atenção, serão notas avulsas sem preocupação nem de fidelidade em relação ao contexto, nem de nenhuma ordem cronológica, ideológica ou outra.

3.12.06

Vi que estava escuro, pensei no Reno, nas suas escarpas rochosas e escuras das margens, nos castelos altos que se confundem com a rocha; pensei Sturm und Drang, pensei Goethe e Schiller; pensei cinzento metalizado, cinzento chumbo, cinzento antracite. Respirei o ar húmido e vi o casario antigo e sólido por baixo dos meus pés a descer para o rio, o halo de luz em cada candeeiro, o velho muro da outra margem que segura o declive do terreno agora iluminado. Mais acima os neons coloridos. O Romantismo estava lá: a pedra, a noite escura, os halos de luz, a neblina.


O Porto.

Postal Ilustrado

1.12.06

Bom fim-de-semana!


Há um mês era a Implantação da República, hoje é a Restauração da Monarquia. Who cares? Nesta aparente esquizofrenia que só o gosto imoderado por datas que permitam feriados e grandes fins-de-semana explica, celebremos então!

30.11.06

Está tudo louco?

Ouvi hoje num noticiário radiofónico que uma aluna que repetiu, por ordem do tribunal, o exame de Química do 12º ano (sim, aquele exame da polémica, dos erros, das explicações da Ministra da Educação e das excepções) teve 19,7. Não será aberta uma vaga no curso de Medicina porque houve lugar a recurso.
Eu ainda não percebi que parte não consigo perceber. Ordem do Tribunal? Nova repetição de exame nacional criando nova excepção? Abertura de nova vaga em medicina? Recurso? A celeridade com que foi tomada a decisão? I beg your pardon, está tudo louco?

The Golden Horn 2

Referendo

Agora que já todos conhecemos a pergunta em questão e a data para a realização do referendo ao aborto, gostaria que os partidários do “Sim” e os partidários do “Não” debatessem também o problema da utilização dos (escassos) recursos do estado e gostaria também que de forma clara o governo nos dissesse o que muda e como tenciona dar forma às mudanças resultantes de uma vitória do “sim”. Já agora que o faça com exemplos tipo: uma mulher que descobre que está grávida às cinco semanas e que decide abortar, faz o quê, dirige-se onde, de que papeis precisa? Uma mulher que descobre que está grávida às nove semanas e meia e que decide abortar faz o quê, dirige-se onde, de que papeis precisa? O saber como o Estado pretende dar resposta a esta questão, confrontado com a experiência que cada cidadão tem da forma como o Estado dá resposta às suas questões, nomeadamente aquelas que ainda hoje se levantam com a actual lei do aborto, pode ajudar algumas pessoas na hora de decidir se votam ou não, e se votam “sim” ou se votam “não”.

Bom dia!

29.11.06

The Golden Horn

Conhecimento, respeito e minorias

Tento seguir com alguma atenção a viagem do Papa à Turquia, e do dia de ontem retive do breve discurso (ouvido na íntegra na Sky news) que fez no seu encontro com o director dos assuntos religiosos, Ali Bardakoglu dois tópicos. Falou da necessidade do conhecimento para se dialogar e da necessidade de respeito para se construir a paz. Num país que Bento XVI considera como ponte de culturas e local de diálogo, a tónica que ele dá ao conhecimento é, no mínimo interessante. Para se dialogar, para se debater há que investir um mínimo no conhecimento daquilo que são as nossas posições, a tradição e história e naquilo que são as posições, tradição e história do lado oposto ao nosso. Só com conhecimento se consegue uma abertura de espírito que obriga a sair do preconceito útil e dos chavões fáceis para consumo da rua. Bento XVI o intelectual e académico realça e dá prioridade ao conhecimento como força de sedimentação de um diálogo profícuo em terras de pontes culturais e civilizacionais.

Com conhecimento torna-se mais facil aprender a respeitar o outro e coexistir num ambiente multicultural de forma pacífica. Mas eu também creio que um estado laico, cuja constituição respeite em absoluto as opções religiosas dos indivíduos, muito contribui para um ambiente pacífico entre diferentes religiões. Tal vivência é difícil, ou mesmo impossível em estados teocráticos em que a liberdade religiosa não existe, pois só a liberdade de professar a religião do estado é considerada e permitida. A Turquia é um estado laico no sentido europeu da palavra, e essa dimensão de laicidade é algo que a aproxima sem sombra de dúvida da Europa (e da Comunidade Europeia).

No dia de hoje o Papa transmitiu toda a sua solidariedade para com as minorias católicas do mundo, simbolizadas pela minoria turca ali presente, que tantas vezes se encontram em situações adversas e perigosas. Eu lembraria a minoria católica no Paquistão, cada vez mais pressionada e também na China, só dois exemplos para não me alongar muito. Creio que também é um exercício interessante comparar como vivem as minorias muçulmanas nos países maioritariamente cristãos com a forma como vivem as minorias cristãs nos países maioritariamente muçulmanos.

28.11.06

Para além da meteorologia

Uma breve passagem pelas notícias televisivas da Sky News e BBC World permitiram-me respirar fora da água inundada que abunda pelos nossos noticiários e lembrando-nos que há vida para além da meteorologia. A visita Papal à Turquia abriu ambos jornais noticiosos, (um são contraste com o nosso inundado país). Os jornalistas que acompanham a visita, falaram sobre a reacção dos turcos que é maioritariamente de indiferença, mas não deixaram de mostrar as imagens das manifestações, que parece sempre ser a mesma, insurgindo-se contra a visita do Papa Bento XVI. Nessa manifestação todas as mulheres usam véu, isto é lenço que tapa cabelos e pescoço e muitos dos homens tinham barbas longas e trajes compridos. Também fizeram algumas entrevistas de rua no centro de Ancara perguntando a quem passava a sua opinião sobre a visita Papal. Não vi nenhuma mulher de véu, aliás as imagens poderiam ser as de qualquer cidade europeia, e as pessoas entrevistadas que foram sobretudo mulheres, tiveram reacções de grande moderação, sem entusiasmo de maior, e sem agressão visível.

27.11.06

Godspeed

Útil, como sempre

A absolutamente lamentável morte do ex-espião russo Litvinenko tem, para além dos significados políticos que a imprensa tem lido, uns mais óbvios do que os outros, contornos de tragédia. À maneira de Dostoievski e até de Shakespeare vemos o veneno sempre associado a uma complexa trama de acontecimentos, a enredos de paixões, de interesses e ambientes de conspiração e de traição. Mesmo recuando mais e mais ao princípio dos tempos, não faltam exemplos de envenenamentos que, quer a História, quer a literatura, nos dão. A teia do enredo é muito semelhante, os ambientes conspirativos também, até os venenos muitas vezes são idênticos - apesar de neste caso se tratar de um veneno “moderno” sofisticado e difícil de preparar artesanalmente - as personagens comportam-se como sempre se comportaram. Com democracia ou sem democracia, com revolução industrial ou sem revolução industrial, com queda do Muro de Berlim ou sem queda do Muro de Berlim com choque tecnológico ou sem choque tecnológico, a natureza humana mantém-se fiel a si própria e os venenos mantêm-se úteis, como sempre foram.

25.11.06

Prcursos 2

Paul Cézanne, Louveciennes

Percursos

Tenho lido, nestes tempos recentes na imprensa e nos blogues, os nomes de Cavaco Silva e de José Sócrates constantemente associados, numa urdidura que parece querer exaltar as suas semelhanças, realçar projectos comuns, enfatizar percursos que tentam fazer parecer coincidentes. Tenho dificuldade em ver assim. Há, pelo menos no meu ponto de vista, algo que os distancia. Se Cavaco Silva estava imbuído do chamado economicismo e o desenvolvimento económico era o fio condutor da sua política, José Sócrates tem a par da sua tendência reformista uma vontade subtil, mas constante, de estabelecer uma nova “ordem moral”, vontade essa que pauta muitas das políticas do seu executivo, e coisa que me deixa desconfiada e desconfortável. Um exemplo é a notícia veiculada pelo Expresso de que o Governo quer introduzir novos “limites à liberdade de programação” podendo a ERC interromper emissões. Não gosto.


O véu 4

“How can a woman’s face be the enemy of Islam?” Anees took her hands in his. “For these idiots it’s all about sex, maej, excuse me. They think it is a scientific fact that a woman’s hair emits rays that arouse men to deeds of sexual depravity. They think that if a woman’s bare legs rub together, even under a floor-length robe, the friction of her thighs will generate sexual heat which will be transmitted through her eyes into the eyes of men and will inflame them in an unholy way.” Firdaus spread her hands in a gesture of resignation. “So because men are animals, according to them, women must pay. This is an old story. Tell me something else.”

Salman Rushdie, in Shalimar the Clown.

23.11.06

Mais Cores de Outono

Paul Cezanne, La Maison du Pendu

O Véu 3


Aumentam por essa Europa fora os sinais de descontentamento e desconforto em relação ao uso do “véu” por parte das mulheres muçulmanas. O termo véu é impreciso e tanto serve para o lenço como para o hijab, niqab ou mesmo burka, o que nos normaliza algo que não é facilmente normalizável. Cada uma destas peças de vestuário em favor da modéstia e pudor femininos tem uma história, uma tradição e uma carga simbólica diferente. O lenço que as magrebinas hoje usam em França e que esteve na origem da lei do véu, não tem origem no Magrebe, onde o traje mais tradicional das mulheres incluía um pequeno lenço fino branco que podia ser bordado e que se punha atando atrás e de forma a tapar a boca e o nariz, mas deixava por vezes entrever parte dos cabelos. Este acessório era considerado de grande sensualidade. O lenço mais escuro, mesmo preto, é algo que vem da outras tradições, nomeadamente da paquistanesa e que se foi instalando no Magrebe na era pós independência e no início de um processo de islamização da sociedade, como reacção anti-colonial. Hoje as gerações mais novas magrebinas, lá ou na Europa, já integraram esses mais recentes formas de vestir e aceitam-nas como um símbolo de identificação cultural, o que não deixa de ser algo irónico.

22.11.06

Manhãs de Nevoeiro

A propósito da morte do ministro libanês Pierre Gemayel, cristão maronita, penso que seria interessante comparar a percentagem da população cristã no Médio Oriente há um século atrás, com a que hoje se verifica. Acredito um estudo aprofundado chegaria a interessantes conclusões.

21.11.06

"Grande Superfície"

Eu tenho pena que a Festa da Música do CCB acabe. Gostava daquele ar vagamente “grande superfície” da música clássica, gostava dos enormes programas desdobráveis em que tentávamos descobrir o que nos apetecia e podíamos ouvir, gostava do som ou de música ou da afinação de instrumentos que se ouvia a qualquer hora que por lá passássemos. Gostava de poder ir a concertos de manhã, gostava da confusão de gentes e famílias que por lá passavam e dos conhecidos que sempre acabávamos por encontrar. Gostava de poder ir a concertos que duravam menos de uma hora - nem podiam durar mais, tal o desconforto das cadeiras. Ouvi vários concertos ao longo destes anos e é verdade que a qualidade era muito irregular e o público nem sempre tranquilo como deveria, mas era um clima de “festa” que pairava, e disso eu gostava.

Agora o clima de festa, o ar vagamente “grande superfície”, a multidão e o público nem sempre tranquilo, ficam ainda mais exclusivos do futebol e de algumas, poucas, manifestações musicais: Madonna no seu world tour ou Tony Carreira.

20.11.06

Anoitecendo

A Meio do Dia

Amanhecendo

Uma dose de mainstream

Como li há umas semanas (não lembro onde...) os Gatos estão a ficar muito pouco Fedorentos. Nunca foram seriamente fedorentos, mas o pouco que era está a desaparecer a olhos vistos, e tenho pena. Nada como uma dose de mainstream para tirar o mau cheiro e aburguesar os Gatos em hora prime televisiva. Perdem as - poucas é certo, mas visíveis - referências Monty Python e ganham em referência revisteira da graçola e da piadola. Em Portugal confunde-se humor com piada. Acha-se normalmente que quem diz umas graças e umas piadas, e conta anedotas sem fim, tem humor. Eu não poderia pensar de forma mais diferente. Temo sempre esses grandes humoristas que normalmente têm pouca sensibilidade e reconhecem pouco a propriedade e oportunidade daquilo que consideram serem os seus talentos. Os Gatos Fedorentos estão a ficar assim: banais e previsíveis. Nunca tendo sido a oitava maravilha do mundo, eram uma pequena chama de humor neste tédio de previsibilidade humorística que é Portugal. Agora até eles perdemos.

18.11.06

Ségolène, la belle


Há uns tempos atrás (já nem sei bem precisar) Sílvio Berlusconi desapareceu por uns tempos porque, segundo parece, fez uma intervenção estética na cara que o terá rejuvenescido uns belos anos coisa que as fotografias confirmavam. A comunicação social falou, escreveu, inventou anedotas, gozou, os puritanos politicamente correctos abanaram a cabeça de espanto e reprovação por mais uma ousadia de Berlusconi. Hoje eu vejo as fotografias de uma belíssima Ségolène Royal, jovem, fresca, elegante... Parece a filha de uma outra Ségolène Royal que foi Ministra do Ambiente algures no início dos anos 90. Vamos ver se a comunicação social também fala, escreve, inventa anedotas, goza, e se os puritanos politicamente correctos abanam a cabeça de espanto e reprovação pela inesperada ousadia de Ségolène.

Mais Cores de Outono

17.11.06

Morangada


Ouvi que as audiências televisivas de ontem deram vitória a Santana Lopes sobre Cavaco Silva. Nada que surpreenda. Já todos conhecemos o gosto dos portugueses por telenovelas, sobretudo as nacionais. Santana Lopes, tal como os Morangos com Açúcar, vem em várias séries: a Série 1, a Série 2, Série Verão, etc. A última série com que Santana Lopes nos brindou foi um Compacto em S. Bento. Aguardamos os próximos capítulos.

16.11.06

Nuvens 2

Grandes Portugueses

Saramago faz hoje 84 anos. Saramago vem festejá-los à sua terra. Saramago vem também lançar mais um livro. Os telejornais seguem tudo, dizem tudo, não nos querem privar de nada. Exultemos.

Talvez esteja em campanha para ganhar o concurso Os Grandes Portugueses.

14.11.06

Uma linha de horizonte


O meu catolicismo é algo do domínio do ontológico. Está lá, esteve sempre e tão parte daquilo que sou como um qualquer traço de carácter. Teria sempre enormes dificuldades em defini-lo, ou em precisar as doses de fé ou de cultura de que o meu catolicismo é feito. Por vezes reconheço-o na rejeição ou crítica que alguns dogmas, doutrinas ou práticas me provocam, tanto quanto me identifico com a sua essência humanista e tradição de universalidade, regozijo-me com a sua tradição teológica ou mesmo artística, e os tantos exemplos de santos (canonizados ou anónimos) que se destacaram pela forma como viveram a sua fé nunca deixam de me tocar profundamente, sinto o divino numa música ou ao contemplar uma linha de horizonte. Nunca sei muito bem se sou mais “Ratzinger” ou “Almodôvar”, “Hans Küng”ou “Santa Teresa de Ávila”, “Madre Teresa de Calcutá” ou “S. Francisco de Assis”. No entanto, e apesar dessa minha constante incapacidade de uma exacta definição vou sempre seguindo com alguma atenção o que o Vaticano nos vai dando a saber. Hoje é o anúncio de uma reunião na próxima quinta-feira para debater as questões relacionadas com a ordenação de homens casados e do celibato dos padres.


13.11.06

In the days before telecommunications

In the days before telecommunications, true love itself was enough. A woman left at home would close her eyes and the power of her need would enable her to see her man on his ocean ship battling pirates with cutlass and pistol, her man in the battle’s fray with his sword and shield, standing victorious among the corpses on some foreign field, her man crossing a distant desert whose sands were on fire, her man amid mountain peaks, drinking the driven snow. So long as he lived she would follow his journey, she would know the day-by-day of it, the hour -by-hour, would feel his elation and his grief, would fight temptation with him and with him rejoice in the beauty of the world; and if he died a spear of love would fly back across the world to pierce her waiting, omniscient heart. It would be the same for him. In the midst of the desert’s fire he would feel her cool hand on his cheek and in the heat of battle she would murmur words of love into his ear: live, live. And more: he would know her dailiness too, her moods, her illnesses, her labours, her loneliness, her thoughts. The bond of their communion would never break. That was what the stories said about love. That was what human beings knew love to be.

Salman Rushdie, in Shalimar the Clown.

12.11.06

9.11.06

Vazio

Ouvi há pouco nas notícias que o número de obesos no mundo já ultrapassou o número de subnutridos. Estas notícias são daquelas que nos deixam um pouco perplexos naquele primeiro instante em que as ouvimos, sem sabermos se nos devemos regozijar... Claro que depois percebemos que provavelmente não é o número de subnutridos que diminui, mas sim o de obesos que não para de aumentar. Creio que se impõe um sério estudo antropológico sobre o fenómeno da obesidade, com trabalho de campo sério, para ver se saímos apenas do discurso saudável, e sempre um pouco orientado, de que só devemos comer as calorias que vamos gastar, de que a obesidade provoca doenças enfim, todo esse discurso sensato que está por detrás de tantas campanhas da promoção da saúde e que conhecemos já tão bem. È preciso saber mais e perceber melhor o fenómeno da obesidade.

A minha impressão é a de que, se por um lado temos o vazio do estômago, do outro sobrepõe-se uma abundância que esconde outro tipo de vazios.

8.11.06

Mais Cores de Outono



Paul Cézanne, Meule et Citerne en sous-bois

Ser Feliz

Is he happy? By most measurements, yes, he believes he is. However, he has not forgotten the last chorus of Oedipus: Call no man happy until he is dead.

J.M. Coetzee, Disgrace

7.11.06

Porta-aviões em Lisboa



Um porta-aviões na barra do Tejo com um céu rosa em pano de fundo transporta-me num ápice para The Battle of Midway. Filmes épicos em cenário technicolor eram uma combinação que aliciava e prendia quem os via num tempo que ainda não era prisioneiro do politicamente correcto e a propaganda estava desavergonhadamente na agenda.

6.11.06

Saddam Hussein e a Forca

A pena de morte é algo que recuso de uma forma tão intuitiva e natural que nunca perderia muito tempo num debate de ideias sobre este assunto sentindo-me sempre num mundo oposto quando confrontada com pessoas que a defendem. Mas a morte por enforcamento trás consigo algo de medieval ou de barbárie que me custa ainda mais visualizar e reconhecer como actualidade, do que as formas assépticas de fazer morrer em tantos estados dos EUA. Depois pergunto-me se tudo isto é relevante; se, para alguém que, como eu, é contrária à pena de morte, a forma de morrer importa. Se há diferença entre decapitação, enforcamento, apedrejamento, degolação, tiro de revolver ou de pelotão de espingardas, cadeira eléctrica ou injecção letal, para falar de alguns dos métodos de execução que lemos nos jornais e vemos nas televisões nos dias de hoje. A tentação é dizer que não, que não há diferença, que em todas elas se morre, e que morrer nestas circunstâncias é igualmente condenável, mas eu creio que há diferenças, se não para quem morre, pelo menos para quem cá fica e sabe.

As diferenças que eu noto têm a ver com conceitos como dignidade, privacidade e humilhação. Tudo na preparação de um condenado à sua morte arrepia, quer seja feito num respeito integral das leis de países democráticos, com que dificilmente nos identificamos, quer no cumprimento de leis de países não democráticos, com justiças sumárias e sem isenção, quer quando feitas à margem da lei, quer quando levadas a cabo por bandos terroristas. Mas neste cenário lúgubre, pergunto-me qual o método em que melhor se respeita a dignidade da vida, mesmo que isso não signifique respeito pelo ser humano em causa, em que método se humilha menos o ser humano em questão e qual o método mais privado. Ao tentar fazer este pequeno exercício mental esbarrei com muitos absurdos, contra-sensos, e com o tão óbvio resultado, para mim, de que se todos estes parâmetros fossem respeitados não haveria pena de morte, que fiquei sem saber responder. Não posso, no entanto deixar pensar: a forca, não!

Dificuldade em Perceber 2


Há vozes que se levantam contra a pena de morte, agora que Saddam Hussein foi condenado por um tribunal iraquiano. A minha voz faz eco, tal é a minha dificuldade em aceitar a pena de morte. O que eu tenho genuína dificuldade em perceber, apesar de saber que é um lugar comum dizê-lo, é como é que o valor e respeito pela integridade da vida humana, independentemente das características do sujeito vivo são, para tantos sectores da sociedade ocidental, superiores no caso de Saddam Hussein do que no caso de fetos que ainda não nasceram e cuja sentença de vida ou morte pode por lei depender da vontade exclusiva da mãe que os carrega. Eu gostava de poder olhar para a questão do aborto como se de um problema social se tratasse: só e apenas. Mas não consigo. Eu tento, mas não consigo.

22.10.06

O Referendo e o Aborto

As questões da semana andaram e torno de dois tópicos. O primeiro sobre o teor da pergunta a colocar no referendo e de como a proposta apresentada pelo governo ilude a questão fundamental: a vida humana. A outra questão é a da adequação ou não da resposta do SNS aos casos concretos de pedidos de interrupção voluntária de gravidez caso o SIM ganhe. As clínicas espanholas parecem ter resposta a esta questão.

13.10.06

Autumn Watch

Os primeiros frios chegaram. As manhãs já pedem um casaco e o ar ganhou uma leveza que só o frio sabe dar. Dizer que o Outono é a minha estação preferida é, apesar de banal, a realidade. Começo a fotografar o céu de manhã cedo e ao fim da tarde pois o céu ganha vida e cor, as nuvens aparecem às cores, e com formas e texturas exuberantes. Outros dias há em que tudo é suave, tranquilo e calmo com um friozinho que arrepia. Mas em Portugal as mudanças de estação são muito graduais e brandas, e eu tenho saudades dos lugares em que as estações chegam e mudam drasticamente a paisagem: o Outono ganha em fulgor e dramatismo, enquanto que a primavera explode de vibração e cor. Eu já há muito que acompanho sempre com prazer as mudanças de estação (Primavera e Outono) neste sitio,

http://www.bbc.co.uk/nature/animals/wildbritain/autumnwatch/

ou neste

http://www.bbc.co.uk/nature/animals/wildbritain/springwatch/

onde muito cedo se começam a registar as pequenas mudanças que prenunciam a chegada de uma nova estação. A BBC, este ano já deu por terminada a época de Autunm Watch, nós aguardamos ainda que o Outono se complete. Para já deleitamo-nos com esta luz impar.

12.10.06

Na praia 2

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com