holehorror.at.gmail.com
24.3.07
Uma ideia da Europa 6
23.3.07
O Véu Pintado

22.3.07
Má Educação
Já passaram uns dias sobre os incidentes mais mediáticos no CDS-PP, e olho para eles, bem como para os seus antecedentes mais e menos próximos, de uma maneira diferente. Para além das motivações políticas e partidárias, mais ou menos louváveis, para além da ambição, mais ou menos legítima, eu sinto-me tentada a vê-los como um caso de pura e simples má educação. Claro que ninguém valoriza especialmente a boa educação, talvez por isso se ache normal ou natural este tipo de guerra interna que já dura há tempo de mais e ache igualmente naturais e normais os confrontos mais recentes que têm sido objecto de riso generalizado.
O Inimigo (*)
Belmiro de Azevedo é talvez o caso de sucesso do capitalismo português em democracia mais representativo das últimas décadas e por isso um puro produto do pós 25 de Abril. Ambição, determinação, rigor e muita contenção nos custos fazem parte da sua imagem de marca. O actual governo, na pessoa do primeiro-ministro José Sócrates comprou um inimigo pela forma como geriu (impediu) o dossier OPA. Os primeiros sinais foram dados ontem e hoje a guerra começou. Prevejo dias difíceis para José Sócrates.
(*) título roubado aqui
21.3.07
Vida Vivida

Everyman. Um livro escrito da morte e para a morte, e por isso repleto de vida, de uma vida vivida. A inconfundível escrita de Roth em que cada palavra, cada frase tem um peso e densidade muito particular e uma grandiosa beleza. O ser (verbo e não nome) humano em toda a sua plenitude, seu pathos, seu fado: a infância, o sexo, a morte. O facto de ser uma narrativa escrita, apesar de introspectiva e intimista, na terceira pessoa é, neste caso, interessante porque sempre um pouco perturbante. Nada em Roth é light, cada unidade semântica é uma porta que se abre, um ponto de partida, um mote.
Nothing could extinguish the vitality of that boy whose slender little torpedo of an unscathed body once rode the big Atlantic waves from a hundred yards out in the wild ocean all the way in to shore. Oh, the abandon of it, and the smell of the salt water and the scorching sun! Daylight, he thought, penetrating everywhere, day after summer day of that daylight blazing off a living sea, an optical treasure so vast and valuable that he could have been peering through the jeweler’s loupe engraved with his father’s initials at the perfect, priceless planet itself - at his home, the billion-, the trillion-, the quadrillion-carat planet Earth! He went under feeling far from felled, anything but doomed, eager yet again to be fulfilled, but nonetheless, he never woke up. Cardiac arrest. He was no more, freed from being, entering into nowhere without even knowing it. Just as he’d feared from the start.
Philip Roth, Everyman
20.3.07
19.3.07
Uma ideia da Europa 5
18.3.07
Chegou a reforma consular e eu quero acreditar na sua bondade e, no meio da dança do fecha, não fecha, quero sobretudo acreditar que se encontre forma de tornar mais fácil a vida dos portugueses no estrangeiro. Nos dias de hoje não é necessária a presença no local para assegurar eficácia: mas veremos. Ser português nem sempre é motivo de grande alegria ou orgulho, mas lidar com consulados faz tremer e diminuir o (frágil?) fervor patriótico em cada um de nós. Coisas simples como o pedido de certidões, a autenticação de traduções de documentos, a renovação de documentos, podem tomar proporções épicas... Deparamos com um muro: horários de atendimento inaceitáveis, telefones que nunca são atendidos, atendimento pouco civilizado e que nada ajuda, filas para qualquer coisa, lentidão, ineficácia, burocracia, má vontade, favoritismo. Poderia citar casos diferentes em países diferentes para ilustrar o pesadelo que tantas vezes é precisar de um serviço consular português no estrangeiro.
16.3.07
15.3.07
Uma ideia de Europa 4
14.3.07
Basta!
Num Portugal como o nosso feito de pequenez, habituei-me a sorrir da idiotice, do golpe e do provincianismo pomposo que abundam e espreitam por qualquer canto, de preferência mal iluminado. Mas há alturas em que pequenas coisas, por exemplo, frases feitas pelos especialistas de marketing, ou pelos psicólogos sociais, gurus de tanto quadro de chefia e político nacional, me irritam demais e impelem a dizer “basta!”. Basta de me tomarem por parva. Pago os meus impostos, poupo água, apago as luzes, não deito pastilhas elásticas para os passeios, voto sempre, gabo as belezas naturais (as que ainda existem) do meu país, sou de um comportamento cívico exemplar, por isso revolto-me com a ofensa diária que sobretudo os políticos fazem de sistematicamente me tomarem por parva. Ele é o “Cartão do Cidadão” que nunca servirá para que se cruzem dados abusivamente, ele são os SISIs, ele são os novos preços dos medicamentos, os novos impostos automóveis (em que o contribuinte acaba sempre a pagar mais), a OTA, enfim poderia continuar mas poupo esse esforço.
Desde ontem que uma expressão, a propósito do afastamento de Paolo Pinamonti do Teatro Nacional de S. Carlos, não me sai da cabeça pela estupidez - e cupidez (?), enfim, todo um tratado do pior que há no nosso país - que encerra: “Turismo Cultural”. Oh Deus! Que é isso? Até hoje turismo cultural têm sido uns viras corridos dançados no Algarve para turista ver, ou um passeio até aos Jerónimos, o Castelo de S. Jorge (que só tem a vista como recompensa para tão grande subida), alguns turistas mais exigentes vão ao Museu Nacional de Arte Antiga, e no norte o turismo cultural resume-se numa ida a Gaia às caves do vinho do Porto beber uns copos à borla, e um passeio pela Ribeira de guia na mão a tentar perceber o que é que é suposto não deixar de ver e apreciar. Esta gente julga o quê? Que Setúbal é Salzburgo? Viana do Castelo é Antuérpia? Que Lisboa é Viena? O Porto é Milão? Braga é Praga? Coimbra é Heidelberga? Évora é Nápoles? E Faro Barcelona? Já nem falei de Londres, Paris, Nova Iorque, Roma, Berlim, Madrid, Amsterdão...
Há uns anos chamaram cá (Cavaco Silva, o então PM) Michael Porter, o economista guru das Vantagens Competitivas das Nações para que elaborasse um relatório sobre as vantagens competitivas de Portugal. Claro que se pagou o relatório, que foi rapidamente engavetado e poucos políticos decisores o devem ter lido com alguma atenção crítica. Na altura da apresentação das conclusões lembro-me de se ter falado em alguns “clusters” para Portugal, nomeadamente o vinho, o turismo, cortiça. Será que este governo nas pessoas do Primeiro Ministro da Ministra da Cultura e do Secretário de Estado, estarão com vontade de repescar o “cluster” do turismo alargando e expandindo o seu âmbito em dimensões nunca anteriormente sonhadas? Se sim, desenganem-se, pois salvo uma pequeníssima minoria, ninguém vem a Portugal pela cultura. Vêm pelo clima, (que também é o que nos prende tanto cá) vêm pelo sol, pelo golfe, pela comida pelos friendly locals, mas pela cultura? Desenganem-se: a produção do S. Carlos, da Gulbenkian, da Casa da Música é para nós portugueses que vivemos cá e que não vamos (pelo menos como regra) ao Metropolitam, ao Scala, a Covent Garden ou à Opera Garnier (ou à Bastille). Se o que nos oferecerem esgota as salas é sinal que o mercado, sem turistas, aguenta mais oferta: ofereçam então que a procura é maior!
13.3.07
Sacramentum Caritatis
Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis (notícia aqui no Público, outra aqui na BBC, entre muitas), documento sobre o Sacramento da Eucaristia, é reafirmada a obrigatoriedade do celibato no clérigo, e reafirmada a exclusão da comunhão de católicos divorciados e casados de novo, católicos a viver em união de facto, nomeadamente casais homossexuais (valores não negociáveis, segundo Bento XVI). Este texto, embora não surpreenda nenhum católico, que finalmente (re)vê o já conhecido Cardeal Ratzinger, funcionará como um balde de água fria nos sectores católicos que esperam desde o fim do Concílio Vaticano II uma mudança gradual de algumas orientações de Roma no que diz respeito à moral privada dos católicos. Todo um sector que aguarda uma pequena abertura em relação ao celibato dos padres, uma flexibilidade em relação ao divórcio, contracepção, sabendo que assuntos como a ordenação das mulheres ou uniões de facto homossexuais ainda terão que esperar mais.
Este documento é muito importante no que tem de reafirmação e inflexibilidade no rumo da Igreja e deixará um amargo de boca em muitos sectores mais liberais que gostavam de sentir que, apesar de devagar, a Igreja se move. Bento XVI, inteligente teólogo, hábil político e defensor inequívoco da sua Igreja (no sentido lato) é, sem surpresas, reafirmo, intransigente nas polémicas questões da moral privada dos católicos que tanto os mantém afastados das Igrejas, e que tanta dissonância cria de cada vez que um Bispo ou um Padre ousa clara e abertamente afirmar a sua discordância em relação ao Papa. Não hão-de faltar polémicas em torno deste texto sobre a Eucaristia.
Ainda não li o texto todo disponível em Português aqui, mas, com tempo o farei.
12.3.07
11.3.07
Déjà Vu
Nunca me abandonou a sensação de “déjà vu”, ou de um sonho antigo já muito sonhado, ao ver o mais recente filme de Soderbergh “O Bom Alemão”: o preto e branco dos filmes cansados de há muitos anos e de tanto serem vistos, o grão irregular da película, o branco chocante, a música épica, os jogos de sombras nas caras, desde Eisenstein, e que a cor não permite, a mulher fatal dividida entre a sobrevivência e o dever, relegando o amor para um estatuto de luxo dispensável, a boca feminina sempre bem maquilhada lembrando Garbo, as pestanas longas lembrando Dietrich, o jovem que se crê adulto, o adulto que crê, o inocente no meio dos culpados, a luta pela sobrevivência dos que perdem, os jogos de poder de quem ganha, as vítimas que impedem a tranquilidade de todos, o fazer da Cortina de Ferro, os mais altos interesses das Nações, a cena final: o chapéu, o perfil, a subida para o avião. Tudo isto já visto vezes sem conta, esta foi mais uma. E fica a sensação de que foi esta viagem na memória que Sodebergh nos quis dar.
10.3.07
Uma ideia de Europa 2
A Catedral de Lincoln, em Inglaterra. A Idade Média. A Magna Carta. O Gótico. Os Cânticos Gregorianos. A reforma. Church of England.9.3.07
Uma ideia de Europa
and The Flying DutchmanNos últimos anos está na moda falar em Caixa de Pandora nas mais variadas circunstâncias. Eu gosto da história de Pandora, a ideia de que algum dia todos segredos e todos os males possam ter estado fechados numa caixa é sedutora, tanto como é compreensível a curiosidade que levou a que se abrisse a caixa. Hoje, a propósito de um manual Europeu de História para o ensino, vem de novo a imagem de Pandora, mas parece-me que neste caso se trata não de abrir uma caixa, mas sim da intenção de fechar de novo os males e segredos numa caixa, ou seja num manual de História. A decisão de saber o que é um mal, um flagelo, um segredo, de saber quais os relevantes e em que proporções, de modo a não ferir susceptibilidades nacionalistas, étnicas ou políticas é que será interessante e seguramente objecto de clivagens, discórdias, desentendimentos. Os bons valores comuns europeus seriam exaltados e valorizados se se estudasse mais arte, mais escultura, mais pintura, mais arquitectura, mais música, mais literatura, mais teatro, mais ópera, mais mitologia, mais filosofia. Depressa se tornaria irrelevante a ideia de um manual de História comum.
8.3.07
7.3.07
“A pedido”
Quando no Prós e Contras antes do referendo, Vasco Rato teve o seu momento iluminado com a questão “então a pedido de quem?”, ninguém na altura lhe explicou que não era o “de quem?” que estava em equação, era somente o “a pedido”. No meu entendimento, não se pede para ter um aborto como se pede uma cerveja. Não se tem direito a abortar como se tem direito a ser tratado com justiça. O aborto é uma fatalidade, uma infelicidade, uma tragédia se quisermos ser explícitos.
Aqui, Helena Matos coloca a questão que, a todo o custo e usando todos os pretextos, a Justiça parece querer evitar responder, ou terá medo de responder, mas que meia dúzia de pessoas continuam a querer ver esclarecida. A memória é curta e a opinião pública vai esquecendo as vítimas de crimes que há uns anos tanto a indignaram e mobilizaram. O processo judicial embrulhado em questões processuais parece talhado para se arrastar ainda mais num pântano em que há vítimas, mas não há agressores. Os casos de violação do segredo de justiça deveriam empalidecer ao lado do(s) caso(s) que os motivou, falo, claro, de uma sociedade em que as prioridades e os valores estão bem estabelecidos. 6.3.07
5.3.07
* Os Gatos (pouco) Fedorentos (a expressão não é minha, mas não me lembro de quem é) já fizeram um sketch humorístico com Alberto João Jardim, com Marcelo Rebelo de Sousa e agora com Paulo Portas. Continuo a aguardar um sketch que tenha por objecto uma das figuras que os Gatos considerem igualmente sketchisável ligada à área do PS. Ou no PS não há?
4.3.07
Olhar perdido
No CCB no espectáculo Dido e Aeneas, de Purcell senti-me perdida: nunca sabia se havia de olhar para o grupo de bailarinos da frente, para o cantor solista do outro lado, se para os bailarinos atrás ou os outros cantores também algures no meio do palco. A tudo isto adicionamos as legendas, para confirmar em que parte vamos e o que dizem as personagens, e a orquestra. Muita confusão em palco, muitos actores (cantores e dançarinos) para as mesmas personagens, muitos adereços, muita roupa a voar a ser vestida e despida, e confesso, uma coreografia que apesar de ousada e original e de ter tido alguns momentos interessantes, nunca me pareceu cuidada, nem de forma alguma adequada a um bom desempenho vocal dos cantores que também não me entusiasmou apesar da qualidade dos solistas, Aurora Ugolin (mezzo-soprano) Dido e sobretudo Reuben Willcox (barítono) Eneias, assim como alguns bons momentos corais. Mas o excesso coreográfico não permitiu que a voz tivesse primazia, nem permitiu a tensão dramática, (o que um espectador procura numa ópera?), nomeadamente no dueto final da despedida de Eneias que foi banal. Também não senti com consistência a riqueza, a vibração e o encanto da música de Purcell que me pareceu sempre um pouco plana, apesar de alguns momentos interessantes como o dos solos das guitarras barrocas, do cravo, e alguns - não todos - dos momentos corais.
O Prelúdio com a água não passou de curioso e também um pouco confuso, sem que nunca conseguíssemos perceber bem os movimentos e sobretudo o porquê da opção. Já vi, num espectáculo “Lido” um momento aquático esteticamente superior e de coreografia mais trabalhada. Fica no entanto uma nota para um dos momentos mais curiosos e que me chamou a atenção: a forma simples e elegante como os bailarinos saem da água, se despem, secam e tornam a vestir no palco.
Um espectáculo ambicioso, mas que não me satisfez. No entanto, na noite da estreia, o público não poupou as palmas que foram muitas e com grande entusiasmo: eu fui uma excepção.
3.3.07
Temos o que merecemos
Não era preciso tanto espalhafato, nem perder tanto tempo e gastar tantos recursos para afinal o Estado e seus tentáculos dizerem o que todos sabíamos, mas que alguns tanto gostariam de estar enganados: em Portugal não há mercado, não há cultura de mercado e há medo dum mercado a funcionar.
2.3.07
Gostei
1.3.07
Eu sei que a roupa que seca às janelas e varandas de qualquer prédio do nosso Portugal é um atentado estético e, dizem alguns, a prova provada do nosso atraso civilizacional. É um atentado ao bom gosto, ao planeamento urbano que determina como devem ser as fachadas exteriores dos prédios, as linhas e as cores (se é que isso importa no país das marquises). E depois há a roupa em si, que tantas vezes é feia: pijamas inenarráveis, camisas de noite que mais parecem panos do pó, lençóis da cor dos pesadelos, toalhas de cores bizarras a combinar com azulejos mais bizarros ainda, t-shirts velhas e tingidas, enfim...
Pensando bem, não consigo encontrar nada que justifique o facto de por vezes a minha alma se iluminar quando vejo a roupa ao vento, nas janelas, nas varandas. Hoje eram roupinhas de bebé, brancas, rosas, tudo muito claro, muito arrumado, em linha ao sol e ao vento. Às vezes são as calças de ganga e t-shirts de motivos futebolísticos, alegres e óbvias a chamar a nossa atenção, ou os lençóis brancos que tremem e reflectem a luz. A roupa cá fora é sinónimo de sol, de dia limpo, mais um sinal da primavera...
28.2.07
Demagogias
No dia em que os políticos portugueses, na voz dos nossos deputados, não perderem tempo com demagogias e muito menos com a invenção de complicados regimes de excepção de retribuições para quem ocupa cargos políticos tais como pensões milionárias, sistemas de saúde, entre outros, e tiverem coragem de propor ordenados melhores e condignos para a classe política em geral, dirigentes e Directores dos Serviços do Estado, os problemas como este deixam de existir.
27.2.07
Preocupações
Mostra a SIC uma Fátima Felgueiras exuberante, com um fato que mais parecia saído de Hollywood do que de Felgueiras, feliz e com um sorriso que irradia contentamento. Ora para alguém que diz que não há nenhum autarca tão preocupado com a lei como eu, esperava um ar mais preocupado da parte de quem acaba de sair do tribunal depois de lá ter prestado declarações, no âmbito do julgamento “Saco Azul”.
26.2.07
Em Flor 2
I envy the Japanese for the enormous clarity that pervades their work. It is never dull and never seems to have been made in haste. Their work is as simple as breathing and they draw a figure with a few well-chosen lines with the same ease, as effortless as buttoning up one's waistcoat ....
Vincent van Gogh to Theo van Gogh, 24 September 1888
25.2.07
As Valquírias 2
Uma visão mais romântica e tradicional da Cavalgada das Valquírias por cima dos rochedos
As Valquírias
Foi com sapatos assim e com outros acessórios bem escolhidos como capelines pretas e véus, quais viúvas em funerais, que as Valquírias ontem entraram em cena no S. Carlos e cantaram, na encenação de Graham Vick de “A Valquíria”, segunda Ópera da Tetralogia “ O Anel dos Nibelungos” de Riched Wagner, uma alegoria sobre o poder (e o amor, e a inveja, e a mortalidade, e o bem, e o mal, e...)
A encenação é ousada com o S. Carlos virado do avesso, mas a noite é memorável tal a intensidade e dramatismo da obra, música e libreto, bem interpretados quer pela orquestra quer pelos cantores. O palco enorme está sempre cheio, nunca sobra, nem mesmo nos momentos mais líricos em que só dois estão em palco. No entanto a noite é das Valquírias e no terceiro acto o palco transbordou quer em emoção, quer literalmente nomeadamente no Prelúdio e início da Primeira Cena onde é impossível não associar o efeito cénico e plástico à célebre cena dos helicópteros do Apocalypse Now, mas creio que hoje é impossível não o fazer. O meu destaque para as Sopranos Susan Bullock (Brünnhilde) e Anna-Katharina Behnke (Sieglinde) com valiosas interpretações. A última cantou descalça, mas a primeira cantou sempre em tacões altos e finos - tem toda a minha admiração por isso - com excepção dos momentos finais. A noite acabou tarde, mas noites destas dificilmente se esquecem. Para o ano há mais.
24.2.07
23.2.07
No tempo destes discos era de José Afonso que se falava. Álias, antes deles ele era Dr. José Afonso quando cantava o fado de Coimbra e era esse o nome que constava na capa dos discos. O Zeca Afonso, enquanto nome artístico, é um produto do pós 25 de Abril de qualidade artística inferior e politicamente mais envolvido. Nunca simpatizei com as suas opções e acções políticas, mas isso nunca me impediu de o considerar um dos maiores nomes da música portuguesa. Lembro-me, de o ter visto algumas vezes, era eu criança e os meus pais fizeram-mo notar, no barco para a Ilha da Fuseta e no barco para Ayamonte, com um ar severo e pouco aberto, mas sempre com a viola, num verão de outros tempos. Nunca esqueci.
Anos mais tarde vi-o na televisão no seu último concerto, creio que no Coliseu: apesar de alguma irritação pelo aproveitamento político feito, fiquei pregada à cadeira, comovida, a ouvi-lo já a voz lhe falhava.
O tom
Ontem ouvi M. José Nogueira Pinto dizer que “já não tenho idade, nem estatuto, nem condição...” e por breves instantes acreditei, pelo tom condescendente e paternalista das declarações, tratar-se de um engano dos jornalistas que estivessem a reproduzir, sem querer, uma conversa privada entre amigas (vulgarmente designadas tias) - daquelas em que se desabafa sobre a empregada! Afinal não, M. José Nogueira Pinto falava sobre a Câmara de Lisboa...
22.2.07
Dois anos de Sócrates
Ao fim de dois anos:
1 - A capacidade e criatividade, que já pareciam impossíveis, de encontrar formas de aumentarem a carga fiscal. Os cidadãos vivem para pagar impostos e taxas. Seja o que for que preencha o dia de um cidadão comum, consumo, poupança, trabalho, rendimentos, cada acto civil (morrer, casar, ter filhos), é convertido num acto tributável, muito tributável. Não sei até onde poderão ir os governos na tributação que estrangula empresas e pessoas, pois nada nos dá a indicação de que o limite tenha sido atingido. É pena. Seria uma boa hipótese de mobilização da chamada Sociedade Civil.
2 - A máquina bem oleada do Marketing Político: aparições coreografadas (o jogging nas deslocações ao estrangeiro, por exemplo), anúncios de políticas e medidas encenadas ao pormenor (o Power Point), e planeadas sem falhas (o PM só fala nos momentos que ele decide), os nomes para cada plano ou medida que são sempre sonantes (o Simplex, ainda alguém se lembra?), a política de informação controlada ao milímetro (jornalistas que não podem fazer perguntas em determinadas circunstâncias, circunstâncias essas determinadas pelo Gabinete do PM), são os melhores exemplos deste marketing Político feito do que parece, feito da forma.
3 - A tentativa de moldar (consegui não escrever “controlar”) as vidas privadas e influenciar as opções e liberdades individuais através do que tenho chamado “estabelecimento de uma nova ordem moral”: a pressão para debater as causas fracturantes ou outras que estejam na agenda do politicamente correcto, a vontade de que todos deixemos de fumar, que comamos comida saudável e sem colesterol, que façamos exercício físico, os programas de televisão que devemos ver, acrescento também a divulgação dos nomes dos devedores ao fisco, num país de invejas e mesquinhices essa é uma medida feia que faz lembrar obscuras ditaduras e diligentes bufos. A implementação de um Cartão Único é, apesar dos protesto de quem o concebeu e quer implantar) um passo em frente para a eventualidade de futuras medidas que visem a facilidade de acesso à informação privada dos cidadãos em circunstâncias em que essa informação é irrelevante. Porque não, em vez de um cartão único, não se acaba com alguns cartões? Para quê um cartão de eleitor? Ou um do SNS e outro da Segurança Social? Acabar com cartões é tarefa interessante. Juntá-los todos num só é tarefa fácil e perigosa.
4 - Sempre e sempre, e sem que haja aqui uma inovação, mas somente uma indesejável manutenção, o excessivo peso do Estado na vida Nacional onde quer que estejamos a fazer o que quer que seja.
21.2.07
20.2.07
Chávena de Chá
Para quê comentar?
Adeus à XIS
Li, nas últimas semanas reacções de júbilo com o fim da revista XIS (aos Sábados com o antigo Público). Confesso que não percebo nem o porquê de tanto júbilo nem a necessidade de uma tão grande demarcação da dita revista. Eu lembro-me de quando ela surgiu e de ter curiosidade em a ler e ver como se desenvolveria o sua linha editorial. Era um projecto ousado, longe dos circuitos comerciais e publicitários a que estamos habituados e com uma linha editorial bem definida: que não depende da actualidade, evita as más notícias, e se vira para o bem-estar e o “crescimento” individual; e era dirigida transversalmente a um amplo público. Distinguia-se das secções de bem-estar e “crescimento” de outras publicações, nomeadamente femininas, pela consistência bem patente de uma moral subjacente a toda a publicação e incutida pela sua directora. A publicação era aberta a várias contribuições de diversas áreas e opções morais, éticas e religiosas, mas a sua linha era sempre patente.
Li a revista nos primeiros tempos e cedo me apercebi que o projecto se esgotaria depressa. Há um limite de vezes em que se pode escrever sobre o diálogo, mesmo considerando todas as suas variantes: entre pais e filhos, homens mulheres, entre gerações, inter-cultural, entre patrões e empregados, inter-religioso, assim como há um limite de vezes em que se pode escrever sobre a auto-estima, a segurança afectiva, os medos, a partilha, o viver só, o criar filhos em situações limite, a vida espiritual e tudo o mais. Tudo de uma forma sensata (demais?) mas muito light, de forma acessível mas um pouco simplista. Sem o constante refrescar e os pretextos da actualidade, sem um comentário ao aqui e agora, uma revista ligeira optimista e impressionista, por muito boa intenção que tenha e por muito boa que seja a onda e a energia de quem nela escreve, começa a esgotar-se, a viver da exploração dos seus temas de sempre (ad nauseam) e oferecer-nos um excesso de psicólogos em mais de metade das páginas da revista. Já não existiam mais conselhos e ideias para aumentar as nossas sempre frágeis auto-estimas, para melhorarmos o diálogo inter geracional, para aceitarmos os outros ou para nos abrirmos a uma vida espiritual. Por isso a XIS acabou. Eu até fui surpreendida com a sua longevidade, pois já nem a abria. De vez em quando ainda espreitava a Biografia das últimas páginas, mas era tudo. Não me surpreende o seu fim, mas não me regozijo com ele.
19.2.07
Carnaval
Hoje e amanhã são dias em que um sentido estético, que não precisa de ser muito apurado, nos impede de ver os noticiários televisivos. Mais de metade das notícias são as reportagens dos festejos carnavalescos por esse país fora, e eu tenho sérias dificuldades em ver desfiles de gente com frio e pobremente mascarada, mulheres que tentam dançar o samba e parecer animadas, homens que se vestem de mulheres sem um pingo de gosto, as populações, sempre em menor número do que os promotores destes eventos gostariam de nos levar a crer, nos passeios que entre o tédio e a inevitabilidade esboçam um sorriso quando vê a câmara de televisão. Tudo muito piroso, muito bera, no limite do confrangedor. Pergunto-me sempre se serão mesmo necessários estes desfiles carnavalescos importados directamente de climas tropicais para animação das nossas cidades em pleno Inverno. Será que quem está envolvido na concepção e no financiamento dos nossos “Carnavais” tem ideia do ridículo e da inutilidade, pelo menos, deste modelo?16.2.07
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