“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

25.4.07


Ainda não digeri bem a ida de Pina Moura e José Lemos para a Administração da Media Capital, o que tem impedido, até hoje, que escreva sobre o assunto. Sobre Pina Moura muito tem sido dito, mas eu pergunto-me que tipo de sociedade doente é a nossa, e neste caso em particular que tipo de partido político é o PS, que permitiu e permite como assessor ou consultor, enfim o título do cargo é indiferente, financeiro um homem impedido pelo Banco de Portugal (é interessante saber o porquê) de trabalhar em Instituições Financeiras? E agora, como prémio, ganha uma Administração num grupo de Comunicação Social que se quer “posicionar” politicamente. Parece-me tudo tão óbvio...

Paulo Portas lembra-me um daqueles filmes do canal Hollywood que está sempre a passar e que já todos conhecemos de cor: os diálogos, o enredo, as personagens e suas reacções, e já prevemos o próximo movimento da câmara de filmar.

Registei o interesse do Presidente da República pela vida saudável, este blogue continuará a manifestar o seu empenho por uma vida mais saudável.

O “véu” chega à classe política turca. Esta notícia, e seus futuros desenvolvimentos, que ilustra ascensão de uma classe média religiosa na secular Turquia, são para ser acompanhados com atenção.


23.4.07

Porque é que gosto de pintura flamenga

Rembrandt, The Jewish Bride
Clicar para ver melhor (é uma boa reprodução!)

Notas de viagem 7

O Diário de Anne Frank deve ter sido um dos primeiros livros “adultos” que li no início da minha adolescência. Já conhecia, nomeadamente dos filmes americanos que devorava e do que se falava em casa, os factos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial e sabia o que era o Holocausto. A leitura do Diário marcou-me imenso e anos mais tarde ao relê-lo senti também uma cadeia de emoções. Das vezes anteriores em que estive em Amesterdão, nunca consegui ver a Casa de Anne Frank, por isso desta vez decidi que teria de o fazer, apesar de saber que pouco havia para “ver” (a visão é um dos sentidos que mais é estimulado numa ida a um museu: no museu vê-se). Não me enganei: havia pouco para ver. Uma estante que escondia umas escadas, e um aperto no coração ao subi-las. Uns espaços pequenos, um quartinho com fotografias de actores e actrizes coladas na parede a lembrar-nos que a adolescência é sempre a adolescência, uma cozinha/sala/quarto, um sótão e a dificuldade em perceber como oito pessoas ali viviam e conviviam. Mas o detalhe que mais me impressionou e ao qual maior valor simbólico atribuí, foi um caderno manuscrito de Margot, a irmã de Anne, com os seus trabalhos e deveres de Latim. A familiaridade desse objecto, o facto de mesmo em guerra, mesmo em privação, se manter a vontade de aprender de estudar, de se valorizar, o facto de se impor uma disciplina e uma normalidade, numa altura em que qualquer um “compreenderia” a “falta de motivação”, as “dificuldades” os “desajustes” as “dissonâncias” as “frustrações” as "depressões” ou outras desculpas com aval dos psicólogos de serviço é verdadeiramente comovente. Ali estava uma rapariga nova de uma família abastada a quem nada faltava e a quem o futuro sorria, perseguida, escondida, humilhada, privada da vida normal e de tantos bens materiais a que sempre teve acesso e sem saber o que o futuro lhe traria, a fazer trabalhos de Latim. De facto a casa tem pouco que “ver”, mas aquele caderno é um completíssimo tratado sobre a vida: é só querer ver.

21.4.07

Combate ao Sedentarismo 17

O Verbo

Há neste nosso país uma prática que muito me irrita e que considero prova provada de saloiismo e arivismo. É a prática de, mantendo tudo mais ou menos na mesma, nomear de novo a coisa. Nomear no sentido de dar um nome, um novo nome, e no sentido do marketing moderno de dar uma nova imagem ao produto: mudando logótipos, cenários, etc. Se posso perceber que se faça isso ao OMO, ou às fraldas Dodots, como uma nova campanha de marketing, atribuindo-lhes novas propriedades anti-nódoas ou anti rabinhos assados, frutos de complexas descobertas científicas recentes, já não percebo que se faça o mesmo com produtos que não sejam bens de consumo desse tipo. Exemplifico: o novo nome do segundo canal da RTP, que volta ao mais inicial RTP2, depois de já ter sido “2:”, as vezes que a RTP já mudou de logótipo e “imagem”, ou o exemplo de “Os Dias da Música, em Belém” em vez do original “Festa da Música” (promovido pelo CCB): será que o que alterou é assim tão importante que justifique uma alteração do nome? Parece absolutamente mais do mesmo - e eu até gosto do produto, mas não é isso que está em causa.

Esta mania de mudar o nome das coisas (que se mantêm iguais) só porque muda uma administração, um director geral, ou mesmo um ministro, intriga-me e irrita-me. Será que através do “nomear” o nomeador pretende deixar uma marca que eternize a sua passagem? Se não, o que é que justifica esta ânsia de nomeação? Mudar para que tudo fique na mesma...

20.4.07

Boa noite!

Jan Steen
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A propósito de Jan Steen.

Estas reproduções (uma delas de qualidade duvidosa) de Jan Steen que tenho incluido no blogue são a ilustração do prazer que me deu ver alguns destes quadros. Têm movimento, alegria, transmitem um lado íntimo e familiar da vida que encanta. Ninguém é especialmente bonito, nada é feito para a pose, mas o pintor tem uma forma muito sua de ler a intensidade da vida e o valor do momento capturado na forma de pintar os seus quadros. Fazem-me lembrar os polaróides que tanto se usavam para capturar este tipo de instantâneos.

É Jan Steen mais um mestre do Barroco Flamengo. A propósito de Barroco, tive muita pena de não ter visto a exposição promovida no ano passado pelo Rijksmuseum e pelo Van Gogh Museum sobre Rembrandt e Caravaggio onde se puderam comparar os dois grandes mestres do barroco: o Flamengo e o Italiano. Pode-se, no entanto visitar o site da exposição que é interessantíssimo.

19.4.07

Os Primos vieram jantar

Jan Steen
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Eu, o blogue e a blogosfera.

Depois de passar anos a ler blogues e a nunca ter vontade de ter um, acordei um dia e decidi que afinal queria ter um. Um blogue meu, era tudo o que sabia que queria. Entre a decisão e o fazer não perdi muito tempo. O pior mesmo foi escolher o nome, mas ao fim de algum tempo e de analisar propostas e ideias, houve um que pareceu menos mau. Ficou! Depois de decidir o template, coisa que se revelou fácil: pois quis o que mais se parecesse com uma folha em branco, seguiu-se a grande questão: e agora? Escrevo sobre o quê? Faço o quê? Até hoje ainda não consegui bem perceber sobre o que é que escrevo ou o que faço. Mas vou fazendo, uma ideia surge depois da outra, uma imagem, uma ironia, uma indignação, uma raiva, uma contemplação, uma beleza, uma memória. Uma vez ou outra as linhas parecem escrever-se por si, outras - a maioria - são pensadas, escrevinho, risco e volto a escrever para apagar metade. E assim o blogue vai ganhando corpo e vida sem que o tivesse premeditado ou preconcebido. Eu, que tenho pouco jeito para datas, percebi que já tinha este blogue há mais de seis meses e ainda o vejo tão longe do que gostaria que fosse. Mas talvez seja assim mesmo. Não saberia como o definir, sei que é pessoal, por isso talvez pudesse dizer que é uma espécie de diário... que me dá muito prazer ir fazendo.

Ao fim de algum tempo a postar, o HH começou a ter visitantes que tiveram a simpatia de o incluírem nas suas listas de links. Quase em Português, Espumadamente, foram os primeiros. CAA do Blasfémias provocou dois pequenos terramotos de audiências com simpáticas referências a este blogue, e outros blogues que visitaram o HH incluíram-no também em listas de links. Correndo o risco de não ter reparado em algum refiro o Do Portugal Profundo, Ktreta, Portugal dos Pequeninos. É um lugar comum, eu sei, mas realmente ficamos espantados com o facto de haver quem nos leia, por isso espero que quem visita o Hole Horror desde o início se sinta sempre bem-vindo neste espaço, e se sinta livre de usar o endereço de e-mail que está por baixo do título do blogue. Confesso também o meu mais puro espanto perante as consistentes subidas de audiências (audiências modestas, diga-se) graças às visitas de fora de Portugal. Este gráfico acima, copiado do sitemeter, referente às últimas 24 horas ilustra um dia típico deste blogue: muitas visitas do Brasil, que juntamente com Portugal fazem 60% do total e depois é uma verdadeira Babilónia de visitantes que me espanta cada dia. Também eles que vêm e vão, ou vêm e demoram-se um pouco, são bem-vindos e mostram todos os dias uma das faces da chamada globalização.

Uma ideia da Europa 9

Macarrons, patisseries, viennoiseries, croissants, éclairs e jesuitas. Bombons e chocolates. Bolos, gâteaux e cakes. Bolos de aniversário, bolos de noiva. Confeitarias, pastelarias cafés e bistrots. Esplanadas aquecidas no inverno. Esplanadas nos fins de dia de verão. As conversas que se começam. Os cigarros que se apagam.

18.4.07

Anoitecer

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Uma tarde sem internet

Jan Steen
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Notas de Viagem 6

O Rijksmuseum é um dos museus de que mais gosto coisa que não é difícil pois gosto muito de pintura flamenga. Há uma atmosfera especial nesta pintura, que terá a ver com a luz ou a cor, e os objectos pintados que propiciam a pintura do que não se vê. Como não é imenso e tem um tamanho “confortável” podemos visitá-lo sem grandes cansaços, apesar de ter bastante gente, e apreciar com tempo as obras-primas que nele abundam. Rembrant tem lugar de honra e as suas grandes pinturas oferecem-nos momentos de grande intensidade estética. Vermeer é um poeta de tela e tintas e se repousamos da dimensão de Rembrant, mantemos o mesmo nível de gozo contemplativo. Descobri Jan van der Heyden, a sua pintura, sobretudo paisagens urbanas, e os seus outros ofícios numa exposição até ao final do mês, ri-me com Jan Steen e Avercamp e deleitei-me com tantos outros: sem cansar, sem saturar.

17.4.07

Não há nada para ver na televisão

Jan Steen

Diplomas, Certidões e outros papeis 4

Continua a saga dos diplomas, certidões, certificados e demais papeis, com datas que não batem certo, números de telefone fantasmagóricos, notas díspares e cadeiras incertas. De novo é o trabalho do aluno José Sócrates de Inglês (então Secretário de Estado) com data incoerente. Será que no percurso académico do nosso Primeiro-ministro não há um papel que faça sentido? Eu já não quero saber de mais nada: é demasiado penosa e patética esta imagem que está a passar do nosso Primeiro-ministro e de tantos políticos de carreira, bem como esta imagem do desrespeito pelo rigor, nomeadamente por parte de instituições que deveriam visar a excelência, do laxismo institucional, da aldrabice barata, do deslumbramento saloio, do arrivismo. Mas lá terá que ser. Amanhã o cofre blindado da Universidade Independente será aberto e as conclusões dos inquéritos divulgados. Que mais pormenores sórdidos nos serão revelados, pergunto-me, ou que novas explicações inventarão para branquear o que nem a lixívia já consegue disfarçar?

Combate ao Sedentarismo 16

Turismo Cultural

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16.4.07

Notas de Viagem 5

Os museus em Amesterdão (Rijksmuseum e van Gogh) estão abertos sete dias por semana, 8 horas por dia, com excepção de sexta-feira que só fecham às 22h estando abertos doze horas. Aproveitei uma sexta-feira para (re)visitar o museu van Gogh ao fim do dia. A entrada foi rápida, sem multidões, apesar do museu ter bastante movimento. Gente nova, música de fundo alegre, palestras (em inglês) sobre a recente exposição de Max Beckmann, e performances musicais animaram o serão tornando o museu um pólo de vida e não só umas paredes com belos quadros pendurados. Lembrei-me de uma recente polémica em Portugal sobre a falta de meios que obrigava o Museu Nacional de Arte Antiga (pelo menos) a fechar algumas salas e/ou algumas horas. Mais uma vez o rosto visível (e risível) do turismo cultural em Portugal. Também, nesse dia, me lembrei da célebre frase sempre na boca de tantos fazedores culturais sobre a necessidade de “criar” novos públicos. Não sei como o fazem na Holanda, mas nesse dia não me faltaram “públicos” para observar para além do do museu pois passei à porta do Concertgebouw que tinha dois concertos nessa noite. Às 19h30m Bach, “A Paixão Segundo S. Mateus” e às 20h15m num outro auditório um concerto de Música de Câmara com obras de Mozart, Telemann entre outros. A entrada fervilhava de gente de todos os feitios que, com antecedência, se preparavam para entrar. Houve algo que me chamou a atenção nessa pequena multidão à entrada: foi a normalidade, naturalidade, informalidade e boa disposição que me pareceu detectar (seria o meu olhar?) nessas pessoas (mesmo nas mais formalmente vestidas), longe do aspecto mais formal, circunspecto e de pose que notamos cá à entrada nas grandes salas de concerto. Numas cidades parecem não faltar públicos, noutras, que não têm público, querem-se criar novos públicos...

Paris au Printemps 4

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As palavras dos outros

Pensei, e tinha vontade de escrever hoje sobre o Papa Bento XVI, no dia do seu 80º aniversário. Sobre o facto de eu o considerar um dos homens de maior relevo nos nossos dias, pela sua ousadia, clarividência, rigor e capacidade quer intelectual, quer política, quer espiritual. Pela profunda admiração que tenho pela sua visão e compreensão do mundo, sobretudo do nosso mundo ocidental, com as suas incongruências, inflexões e hesitações. Dizia eu que queria ter pensado e escrito um texto, mas ao olhar para o que se escreveu hoje nalguns blogues que visito regularmente e depois de ler este texto aqui escrito ao melhor estilo e inspiração do João Gonçalves, senti que nada poderia dizer mais. Tirou-me as palavras que gostaria de ter usado, só me resta assinar por baixo.

15.4.07

Mais um Fim de Semana por casa

Jan Steen, Family Scene (1668)
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Notas de Viagem 4

Turismo cultural, se é que algum dos nossos governantes se interessar em aprofundar este conceito que propõem dinamizar (priorizar, ou seja lá que verbo for) para o nosso país, é o que não falta nas cidades que visitei. Em Paris abundam monumentos, grandiosidade e dimensão imperial, marcos históricos, obras de arte que atraem gentes de todos os feitios e os turistas têm só o embaraço da escolha e das multidões que se acotovelam para entrar, comprar bilhete, ver ou passear: Notre Dame, Vénus de Milo, a Sainte Chappelle, ou mesmo deambular no Quartier Latin ou em Montmartre é só escolher e nem é preciso pagar muito. Existe património, respira-se história e os franceses orgulham-se do que têm, do que foram e do que pensam que ainda são. Tratam o património, preservam-no, criam, mostram-no, exibem-no e tornam-no acessível.

Amesterdão, uma cidade onde sempre me senti em casa, é diferente. Sem a exuberância de Paris valoriza a sua especificidade física e protege o seu património com políticas cuidadas de planeamento, urbanismo e ordenamento. No país de maior densidade populacional da Europa temos dificuldade em ver prédios e arranha-céus. As cidades têm uma agradável escala humana que as torna simpáticas. E se não é uma casa em especial que é bonita são o conjunto das casas, antigas, bem conservadas e vividas, que fazem as ruas que fazem as cidades e que o turista gosta de ver. Não se deitam casas abaixo para construir prédios de escritórios com os três primeiros pisos de “centro comercial”. Os centros comerciais podem fazer turismo comercial igual, porque as lojas são as mesmas, a todo o turismo comercial médio, mas não fazem turismo cultural. O centro de Amesterdão fervilha dia e noite de vida. Hotéis, restaurantes, bares, habitações, escritórios, habitantes e turistas animam e fazem a cidade.

14.4.07

Postal Ilustrado 7

Diplomas, Certidões e outros papeis 3

Parece que este caso é um terreno minado. Cada papel que aparece, cada incoerência que se descobre. Difícil mesmo é acreditar no percurso académico exemplar de José Sócrates que voltou aos bancos da escola em horário pós-laboral. Difícil mesmo é acreditar que José Sócrates seja totalmente alheio à vasta produção de documentos sobre a sua exemplar carreira académica cuja veracidade é tão claramente questionável. Que opacidade!

Começo a não querer perceber a imagem que hoje temos do nosso Primeiro-ministro, do governo, da oposição. É demasiado triste.

13.4.07

Uma ideia da Europa 8

Sócrates, Platão e Aristóteles. Decartes, Kant e Hegel. A filosofia. Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino. A teologia. A oratória, a retórica. A ideologia. O pensamento. A escultura, clássica e moderna.

Odete Santos

Se é que algum dia estive de acordo com Odete Santos, hoje não me lembro. Mas isso hoje não importa, pois com a saída dela do Parlamento é também um pouco o fim de algo que conheço e a que me habituei; mais um sinal do tempo que passa, para todos. E depois Odete Santos é irresistível, pela convicção, pela militância, pela dedicação, pelo trabalho, pela fé que não gostamos nem entendemos e sobretudo pela ousadia de ser diferente num mundo tão cheio de banalidade e de uma fina camada de verniz a tentar dar algum brilho ao oco. Ela esquece sempre o verniz.

12.4.07

Paris au Printemps 3

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Notas de Viagem 3

A Língua Portuguesa vai ganhando presença e espaço ano após ano na Europa. Torna-se comum ver folhetos turísticos ou informativos nos mais diferentes locais em Português, algo que há duas décadas seria quase impensável. Teremos que atribuir o mérito desta visibilidade não só à nova onda de emigração Portuguesa e claro, à Adesão de Portugal à Comunidade Europeia, mas também em grande medida à enorme presença de brasileiros a trabalhar e a residir na Europa. Encontram-se brasileiros em todo o lado e atravessam transversalmente a sociedade dos países em que se instalam.

Paris au Printemps 2

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Em Flor 15

Campos de Tulipas, Holanda
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Diplomas, Certidões e outros papeis 2

Depois da entrevista de José Sócrates. Continuo com a maioria das dúvidas que tinha, e foi penoso ver o Primeiro-ministro do meu país com as pastas na mesa cheias de diplomas, certidões e outros papeis escritos, preenchidos, rasurados, assinados ao domingo, etc. Papeis a mais, explicações a mais, e com excepção da questão da conclusão da licenciatura, as principais questões levantadas: uso indevido de um título académico (por omissão, aceita-se), pressão sobre os meios de comunicação e questões algo pantanosas sobre questões administrativas com a Universidade Independente, continuam por esclarecer e dúvidas legítimas mantêm-se.

Da segunda parte só uma pequena referência a um motivo de regozijo e orgulho especial do Primeiro-ministro, pois quer que seja um marco do seu governo: aquilo a que ele chamou as “Leis Civilizacionais” (uma bela e sentida expressão cheia de tudo quanto é causa politicamente correcto lá dentro), que são respectivamente a Lei da Paridade, a Lei da Reprodução Medicamente Assistida e a Lei do Aborto. Para quem não notou ainda, os paradigmas civilizacionais foram alterados com este governo: Portugal deu o seu grande salto em frente.

11.4.07

Combate ao Sedentarismo 15

Diplomas, Certidões e outros papeis

Depois de ter lido esta nota aqui no Lendo/Vendo de ontem dia 10 e este artigo aqui parece-me difícil que o Primeiro-ministro logo à noite, após a entrevista na RTP, consiga sair completamente inocente deste caso da “licenciatura”. Estarei a fazer futurologia, mas não é fácil acreditar que no meio desta trapalhada geral que envolve o próprio, o seu gabinete, a Universidade Independente, e até membros do seu governo, José Sócrates o homem teimoso, controlador e que decide, tenha sido sempre e sucessivamente objecto de manipulação. A verdade é que eu sinto que o Primeiro-ministro mentiu, ou deixou que mentissem por ele (não será o mesmo?) e mentiu desnecessariamente. Mentiu por vaidade, por provincianismo, não sei nem sei se será importante saber. Sei no entanto que a sua credibilidade estará comprometida, a sua autoridade afectada e os seus propósitos de moralização (aos quais já me tenho referidos) que soarão ainda mais a falso e a vazio, felizmente, perderão qualquer legitimidade. Com que autoridade o ouviremos falar, e querer agir contra, funcionários públicos que prestem falsas declarações, por exemplo com baixas médicas. Como falará ele sobre os cidadãos que mentem ao Estado (a todos os outros cidadãos) nas suas declarações ao fisco? Veremos depois da entrevista de hoje o que poderá sobrar de credibilidade e de autoridade a José Sócrates.

No meio desta trapalhada de não haver diplomas, certidões, papeis, provas, eu pergunto o que me teria sucedido a mim se, em complemento do meu curriculum vitae, eu não anexasse cópias dos diplomas ou certidões de cada vez que me era solicitado? Apresentei muitas vezes provas da minha formação académica, nunca me senti diminuída por isso (era suposto sentir-me?) e sempre pensei que isso era prática corrente. Para ser deputado pelos vistos não é!

Não quero deter-me nas questões de fundo sobre a academia e a política, ou sobre a qualidade do ensino e da administração das universidades privadas, mas há uma questão de fundo que gostaria de salientar. Costumo chamar-lhe “ter vergonha na cara”. Este caso parece um caso típico de falta de vergonha. Desde o primeiro momento em que se deixa instalar a dúvida, depois se deixa correr a mentira, (já nem falo em que deliberadamente se mente) até aos telefonemas aos meios de comunicação social e acabando no silêncio “a ver se isto passa” há neste caso muita falta de vergonha. Tão simples quanto isso.

10.4.07

Paris au Printemps

Notas de Viagem 2

Paris estava com sol e com árvores em flor. É uma cidade onde não posso dizer que me sinto em casa: demasiado bonita e numa escala demasiado grandiosa, mas é sempre um prazer visitá-la. De mapa na mão, os verdadeiros turistas não os dispensam, percorreram-se quilómetros a pé, de metro e de táxi para ver as belezas que a cidade nos reserva e tudo o que o turista tem de (re)ver. Ao fim de um dos dias uma subida até Montmartre e uma volta mais demorada na Place du Tertre: muitos artistas asiáticos, sobretudo retratistas a oferecerem os seus serviços aos turistas. Vi muitos retratos e, não sei se é só impressão minha, pareceram-me muito mais previsíveis do que eu tinha ideia de antes ter visto. Os retratos invariavelmente são mais “bonitos” do que os retratados: os lábios mais cheios, as maçãs dos rostos mais definidas, os olhos mais abertos e mais bem desenhados. Só vi um (que falava italiano) que fugia dessa excessiva normalização abonecada. Partindo do princípio de que a procura é que dita a oferta (e não do facto de os retratistas serem incompetentes) posso concluir que os clientes (sobretudo do sexo feminino) preferem ver-se mais “bonitos” de lábios mais cheios e olhos mais abertos.

No Quai Voltaire, não muito longe da livraria Shakespeare & Company, estava um artista a vender os seus desenhos e aguarelas. Muito mais cuidados e interessantes do que o que vi em Montmartre.

9.4.07

Em Flor 15

Mercado das Flores em Amesterdam (06/04/07)

Depois de umas férias em que mal vi televisão, quase não ouvi notícias, nem do mundo e menos ainda de Portugal chego e deparo-me com o anúncio nos jornais televisivos, de que quarta-feira, numa entrevista à televisão pública, o Primeiro-ministro dará explicações ao país e aos seus eleitores em particular, presumo, sobre o(s) seu(s) diploma(s) académico(s). Lembrei-me do que se passou há anos com Bill Clinton quanto teve de ir à televisão dar explicações à nação sobre a natureza da sua relação com Mónica Lewinsky. Mau presságio... o ter que dar explicações de algo que nunca deveria ter que ser explicado.

5.4.07

Notas de viagem


A Eurodisney ou os novos locais de peregrinação e de culto do mundo ocidental pós-moderno, para onde convergem multidões. Muita gente (muitas crianças). Muitas bichas e grandes esperas. Muita cor. Muito marketing. Muito cheiro a fastfood. Muito tudo. Muita organização. Jardins, flores e árvores lindos e tratadíssimos. Fica a breve emoção e adrenalina de uma ou outra montanha russa e, claro, a alegria das crianças.

29.3.07

Uma pausa

Este blogue vai de férias. Regressará depois da Páscoa ao seu usual. Se tiver oportunidade postará uns postais ilustrados...

Ecce Homo

Caravaggio (1563-1610)
Ecce Homo 1606

28.3.07

Combate ao Sedentarismo 14

Roxo

Antes da era dos centros comerciais, quando a televisão era a preto e branco, e não existiam nos mercados os frutos de estufa todo o ano, nem as pessoas andavam bronzeadas em Fevereiro depois de ir para o Ski ou para o Brasil, o ano era dividido em estações. Tinham cheiros diferentes, cores diferentes, sabores diferentes. Esta época era a altura do roxo e do lilás. Era a Quaresma: os mais católicos jejuavam e a abstinência de carne era prática corrente entre todos. Com o aproximar da Páscoa e os primeiros dias de sol os campos fazem-se roxos - diziam-me quando era pequena, que ficavam assim porque nos aproximávamos da Paixão do Senhor, e eu, que nunca acreditei no Pai Natal, nem no coelhinho da Páscoa percebia pouco esse nexo de casualidade. Mas gostava de ver o roxo das flores com o verde fresco e forte do Minho. As igrejas também se preparavam para a grande festa, enfeitavam-se de flores em tapetes coloridos no chão e em múltiplos arranjos para cada altar. Só depois se vestiam também de roxo quando, na Sexta-feira Santa se cobriam todas as imagens para a via-sacra.

27.3.07

Abstracto


He told them they didn’t have to worry about what the arrangement actually looked like: “interpret it,” he told them, “this is a creative art”. Unfortunately, saying that sometimes led to his having to tell someone, “You know, maybe you shouldn’t make the vase six times larger than the teacup.” “But you told me I should interpret it” was invariably the reply, to which, as kindly as he could, he in turn replied, “I didn’t want that much interpretation.” The art-class misery he least wished to deal with was their painting from imagination; yet because they were very enthusiastic about “creativity” and the idea of letting yourself go, those remained the common themes from one session to the next. Sometimes the worst occurred and a student said, “I don’t want to do flowers or fruit, I want to do abstraction like you do.” Since he knew there was no way to discuss what a beginner is doing when he does what he calls an abstraction, he told the student, “Fine - why don’t you just do whatever you like,” and when he walked around dutifully giving tips, he would find, as expected, that after looking at an attempt at an abstract painting, he had nothing to say except “Keep working”.

Philip Roth, Everyman

Uma ideia da Europa 7

O Piano. Os instrumentos musicais. Os Estudos, as Fugas, os Nocturnos as Sonatas. A música de Câmara. Os românticos: Chopin, Schumman, Schubert, Lizt... Os grandes compositores e os grandes interpretes.

(Nota: o piano da fotografia é manufacturado pela Steinway & Sons. O Senhor Steinway era Alemão mas em 1850 foi para os Estados Unidos. Provavelmente o piano fotografado não é Europeu, mas a fotografia é bonita!)

26.3.07

Combate ao Sedentarismo 13

Incoerências 2

Afinal não consegui ver o concurso “Os Grandes Portugueses”, não resisti mais de meia hora. Hoje de manhã bem cedo, com curiosidade, fui ao site da RTP para ver o resultado. Nada. Fui ao site do concurso. Nada. Então, ninguém se entusiasmou? Tanta emoção, tanta vontade, tanto voto e ninguém se congratula com o vencedor? Nem a promotora do concurso que, até agora, não disponibiliza os resultados no seu site? Nem sei o que é pior, se o resultado da votação se o silêncio tipo: vamos todos ficar quietinhos, pode ser que passe. Soube o resultado aqui.

25.3.07

Em Flor 14

John La Farge, 1835-1910
An Orchard in Bloom at Paradise, 1865

Incoerências

Não consigo entusiasmar-me com o concurso “Os Grandes Portugueses”. Tem um lado pedagógico que me irrita querendo “ensinar divertindo”, querendo formar o público num programa de entretenimento, “popular” e interactivo porque as votações estão abertas ao público. Este querer ser tudo não me interessa, e sou incapaz de ver o programa. Aprender e divertir são conceitos que raramente andam de mãos dadas, aprender está para além dessa noção mais imediata de divertimento. E a produção de “Os grandes Portugueses” remetendo a parte “pedagógica” para horários mais tardios estabelece bem as suas prioridades. Tenho, no entanto, lido comentários em relação à forma como o programa/concurso se tem desenrolado e ao estado das votações. Votar em Salazar ou em Cunhal pode, mais do que exprimir uma opção coerente de quem vota, ser uma forma de provocar e trazer ruído ao programa. De qualquer forma, dificilmente eu acredito que estas votações possam ser objecto de alguma conclusão mais “científica” e que tenham algum significado (pelo menos no sentido estatístico) sobre a forma com que hoje olhamos e valorizamos os Grandes Portugueses.

Dito isto, hoje sou capaz de espreitar a grande final! Se votasse em quem votaria? Difícil. D. Afonso Henriques porque foi o primeiro. D. João II pela inteligência, visão e estratégia. Vasco da Gama porque alargou horizontes. Apesar de conhecer, ler e admirar a obra de Luís de Camões e Fernando Pessoa nunca votaria num escritor por causa da sua obra escrita. A Aristides Sousa Mendes falta-lhe a dimensão, e a votação não é sobre o “melhor”, mas sobre o “maior”.

24.3.07

Uma ideia da Europa 6

Jan van der Heyden, 1637-1712
(vale a pena clicar para ver melhor)

A Pintura. A Flandres. O mar, os portos, o comércio, a burguesia. O protestantismo, o catolicismo, o judaismo.

23.3.07

O Véu Pintado


Para quem for viciado em tons nostálgicos e neblinas, para quem gosta da China e, claro, para quem gosta de ver uma boa história de amor (nota: os corações mais sensíveis derramarão uma ou outra lágrima). Boas interpretações, uma fotografia de regalar os olhos, música envolvente, subtileza e delicadeza no desenho das personagens e na evolução da história. Não é uma obra-prima, mas é um bom filme que se vê com prazer.

Em Flor 13

Vincent van Gogh
Orchard in Bloom with Poplars, 1889

22.3.07

Má Educação

Já passaram uns dias sobre os incidentes mais mediáticos no CDS-PP, e olho para eles, bem como para os seus antecedentes mais e menos próximos, de uma maneira diferente. Para além das motivações políticas e partidárias, mais ou menos louváveis, para além da ambição, mais ou menos legítima, eu sinto-me tentada a vê-los como um caso de pura e simples má educação. Claro que ninguém valoriza especialmente a boa educação, talvez por isso se ache normal ou natural este tipo de guerra interna que já dura há tempo de mais e ache igualmente naturais e normais os confrontos mais recentes que têm sido objecto de riso generalizado.

O Inimigo (*)

Belmiro de Azevedo é talvez o caso de sucesso do capitalismo português em democracia mais representativo das últimas décadas e por isso um puro produto do pós 25 de Abril. Ambição, determinação, rigor e muita contenção nos custos fazem parte da sua imagem de marca. O actual governo, na pessoa do primeiro-ministro José Sócrates comprou um inimigo pela forma como geriu (impediu) o dossier OPA. Os primeiros sinais foram dados ontem e hoje a guerra começou. Prevejo dias difíceis para José Sócrates.

(*) título roubado aqui

Combate ao Sedentarismo 12

21.3.07

Vida Vivida





Everyman. Um livro escrito da morte e para a morte, e por isso repleto de vida, de uma vida vivida. A inconfundível escrita de Roth em que cada palavra, cada frase tem um peso e densidade muito particular e uma grandiosa beleza. O ser (verbo e não nome) humano em toda a sua plenitude, seu pathos, seu fado: a infância, o sexo, a morte. O facto de ser uma narrativa escrita, apesar de introspectiva e intimista, na terceira pessoa é, neste caso, interessante porque sempre um pouco perturbante. Nada em Roth é light, cada unidade semântica é uma porta que se abre, um ponto de partida, um mote.

Nothing could extinguish the vitality of that boy whose slender little torpedo of an unscathed body once rode the big Atlantic waves from a hundred yards out in the wild ocean all the way in to shore. Oh, the abandon of it, and the smell of the salt water and the scorching sun! Daylight, he thought, penetrating everywhere, day after summer day of that daylight blazing off a living sea, an optical treasure so vast and valuable that he could have been peering through the jeweler’s loupe engraved with his father’s initials at the perfect, priceless planet itself - at his home, the billion-, the trillion-, the quadrillion-carat planet Earth! He went under feeling far from felled, anything but doomed, eager yet again to be fulfilled, but nonetheless, he never woke up. Cardiac arrest. He was no more, freed from being, entering into nowhere without even knowing it. Just as he’d feared from the start.
Philip Roth, Everyman

20.3.07

Em Flor 12

Ando Hiroshige, View of Arashi-Yama,
from the series Famous views in Kyoto

19.3.07

Na semana passada foram os Isqueiros. Esta semana é o ALLgarve. E para a semana? De que mais se lembrarão as cabeças pensantes e criativas do nosso país e/ou dessa ideia de Europa alheia a tantos de nós? E ainda dizem que em Portugal não se passa nada!

Uma ideia da Europa 5

O pão, o tomate e o presunto. As coisas simples, o prazer, o calor, a siesta, os amigos, a mesa, o vinho. O campo.

18.3.07

Combate ao Sedentarismo 11

Chegou a reforma consular e eu quero acreditar na sua bondade e, no meio da dança do fecha, não fecha, quero sobretudo acreditar que se encontre forma de tornar mais fácil a vida dos portugueses no estrangeiro. Nos dias de hoje não é necessária a presença no local para assegurar eficácia: mas veremos. Ser português nem sempre é motivo de grande alegria ou orgulho, mas lidar com consulados faz tremer e diminuir o (frágil?) fervor patriótico em cada um de nós. Coisas simples como o pedido de certidões, a autenticação de traduções de documentos, a renovação de documentos, podem tomar proporções épicas... Deparamos com um muro: horários de atendimento inaceitáveis, telefones que nunca são atendidos, atendimento pouco civilizado e que nada ajuda, filas para qualquer coisa, lentidão, ineficácia, burocracia, má vontade, favoritismo. Poderia citar casos diferentes em países diferentes para ilustrar o pesadelo que tantas vezes é precisar de um serviço consular português no estrangeiro.

16.3.07

Em Flor 11

Alfred Sisley, 1839-1899.
Orchard in Spring 1881

15.3.07

Uma ideia de Europa 4

Madame Bovary, os grandes romances do séc. XIX, as línguas europeias, a Literatura, a Literatura, a Literatura.

14.3.07

Basta!

Num Portugal como o nosso feito de pequenez, habituei-me a sorrir da idiotice, do golpe e do provincianismo pomposo que abundam e espreitam por qualquer canto, de preferência mal iluminado. Mas há alturas em que pequenas coisas, por exemplo, frases feitas pelos especialistas de marketing, ou pelos psicólogos sociais, gurus de tanto quadro de chefia e político nacional, me irritam demais e impelem a dizer “basta!”. Basta de me tomarem por parva. Pago os meus impostos, poupo água, apago as luzes, não deito pastilhas elásticas para os passeios, voto sempre, gabo as belezas naturais (as que ainda existem) do meu país, sou de um comportamento cívico exemplar, por isso revolto-me com a ofensa diária que sobretudo os políticos fazem de sistematicamente me tomarem por parva. Ele é o “Cartão do Cidadão” que nunca servirá para que se cruzem dados abusivamente, ele são os SISIs, ele são os novos preços dos medicamentos, os novos impostos automóveis (em que o contribuinte acaba sempre a pagar mais), a OTA, enfim poderia continuar mas poupo esse esforço.

Desde ontem que uma expressão, a propósito do afastamento de Paolo Pinamonti do Teatro Nacional de S. Carlos, não me sai da cabeça pela estupidez - e cupidez (?), enfim, todo um tratado do pior que há no nosso país - que encerra: “Turismo Cultural”. Oh Deus! Que é isso? Até hoje turismo cultural têm sido uns viras corridos dançados no Algarve para turista ver, ou um passeio até aos Jerónimos, o Castelo de S. Jorge (que só tem a vista como recompensa para tão grande subida), alguns turistas mais exigentes vão ao Museu Nacional de Arte Antiga, e no norte o turismo cultural resume-se numa ida a Gaia às caves do vinho do Porto beber uns copos à borla, e um passeio pela Ribeira de guia na mão a tentar perceber o que é que é suposto não deixar de ver e apreciar. Esta gente julga o quê? Que Setúbal é Salzburgo? Viana do Castelo é Antuérpia? Que Lisboa é Viena? O Porto é Milão? Braga é Praga? Coimbra é Heidelberga? Évora é Nápoles? E Faro Barcelona? Já nem falei de Londres, Paris, Nova Iorque, Roma, Berlim, Madrid, Amsterdão...

Há uns anos chamaram cá (Cavaco Silva, o então PM) Michael Porter, o economista guru das Vantagens Competitivas das Nações para que elaborasse um relatório sobre as vantagens competitivas de Portugal. Claro que se pagou o relatório, que foi rapidamente engavetado e poucos políticos decisores o devem ter lido com alguma atenção crítica. Na altura da apresentação das conclusões lembro-me de se ter falado em alguns “clusters” para Portugal, nomeadamente o vinho, o turismo, cortiça. Será que este governo nas pessoas do Primeiro Ministro da Ministra da Cultura e do Secretário de Estado, estarão com vontade de repescar o “cluster” do turismo alargando e expandindo o seu âmbito em dimensões nunca anteriormente sonhadas? Se sim, desenganem-se, pois salvo uma pequeníssima minoria, ninguém vem a Portugal pela cultura. Vêm pelo clima, (que também é o que nos prende tanto cá) vêm pelo sol, pelo golfe, pela comida pelos friendly locals, mas pela cultura? Desenganem-se: a produção do S. Carlos, da Gulbenkian, da Casa da Música é para nós portugueses que vivemos cá e que não vamos (pelo menos como regra) ao Metropolitam, ao Scala, a Covent Garden ou à Opera Garnier (ou à Bastille). Se o que nos oferecerem esgota as salas é sinal que o mercado, sem turistas, aguenta mais oferta: ofereçam então que a procura é maior!

Combate ao Sedentarismo 10


13.3.07

Em Flor 9

Sacramentum Caritatis

Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis (notícia aqui no Público, outra aqui na BBC, entre muitas), documento sobre o Sacramento da Eucaristia, é reafirmada a obrigatoriedade do celibato no clérigo, e reafirmada a exclusão da comunhão de católicos divorciados e casados de novo, católicos a viver em união de facto, nomeadamente casais homossexuais (valores não negociáveis, segundo Bento XVI). Este texto, embora não surpreenda nenhum católico, que finalmente (re)vê o já conhecido Cardeal Ratzinger, funcionará como um balde de água fria nos sectores católicos que esperam desde o fim do Concílio Vaticano II uma mudança gradual de algumas orientações de Roma no que diz respeito à moral privada dos católicos. Todo um sector que aguarda uma pequena abertura em relação ao celibato dos padres, uma flexibilidade em relação ao divórcio, contracepção, sabendo que assuntos como a ordenação das mulheres ou uniões de facto homossexuais ainda terão que esperar mais.

Este documento é muito importante no que tem de reafirmação e inflexibilidade no rumo da Igreja e deixará um amargo de boca em muitos sectores mais liberais que gostavam de sentir que, apesar de devagar, a Igreja se move. Bento XVI, inteligente teólogo, hábil político e defensor inequívoco da sua Igreja (no sentido lato) é, sem surpresas, reafirmo, intransigente nas polémicas questões da moral privada dos católicos que tanto os mantém afastados das Igrejas, e que tanta dissonância cria de cada vez que um Bispo ou um Padre ousa clara e abertamente afirmar a sua discordância em relação ao Papa. Não hão-de faltar polémicas em torno deste texto sobre a Eucaristia.

Ainda não li o texto todo disponível em Português aqui, mas, com tempo o farei.

12.3.07

Uma ideia de Europa 3

Ferrari Testarossa. O Design, a criatividade, o estilo, a marca, a tradição, o supérfulo.

11.3.07

Em Flor 8

Charles Conder 1868-1909
Springtime 1892, Oil on canvas

Déjà Vu

Nunca me abandonou a sensação de “déjà vu”, ou de um sonho antigo já muito sonhado, ao ver o mais recente filme de Soderbergh “O Bom Alemão”: o preto e branco dos filmes cansados de há muitos anos e de tanto serem vistos, o grão irregular da película, o branco chocante, a música épica, os jogos de sombras nas caras, desde Eisenstein, e que a cor não permite, a mulher fatal dividida entre a sobrevivência e o dever, relegando o amor para um estatuto de luxo dispensável, a boca feminina sempre bem maquilhada lembrando Garbo, as pestanas longas lembrando Dietrich, o jovem que se crê adulto, o adulto que crê, o inocente no meio dos culpados, a luta pela sobrevivência dos que perdem, os jogos de poder de quem ganha, as vítimas que impedem a tranquilidade de todos, o fazer da Cortina de Ferro, os mais altos interesses das Nações, a cena final: o chapéu, o perfil, a subida para o avião. Tudo isto já visto vezes sem conta, esta foi mais uma. E fica a sensação de que foi esta viagem na memória que Sodebergh nos quis dar.

10.3.07

Uma ideia de Europa 2

A Catedral de Lincoln, em Inglaterra. A Idade Média. A Magna Carta. O Gótico. Os Cânticos Gregorianos. A reforma. Church of England.

Gostei de A Questão Europeia aqui.

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