holehorror.at.gmail.com
20.5.07
Mais Pobre
José Sócrates, hoje na cerimónia de entrega do certificado de nacionalidade portuguesa.
Foi um lapso, eu sei. José Sócrates corrigiu-o, mas a ironia é que por uma fracção de segundo e inconscientemente, José Sócrates foi honesto. Todos nós, cidadãos, damos para um país que está cada vez mais pobre. Pobre porque a criação de riqueza está longe dos parâmetros desejáveis. Pobre porque a produtividade nacional é baixíssima (comparada com os restantes países da EU). Pobre porque o nosso poder de compra é cada vez menor. Pobre porque o nosso endividamento é cada vez maior. Pobre porque cada cidadão tem uma carga fiscal que não tem retribuição em termos de qualidade de serviço oferecido pelo Estado. Pobre porque o Estado é cada vez maior e consome cada vez mais recursos. Pobre porque é tão difícil, tão complicado, tão exigente e tão pouco aliciante investir, ter ideias, criar, fazer empresas.
Mas também é pobre de espírito, porque o espaço para que o espírito livre cresça, floresça e se desenvolva é cada vez mais pequeno. Pobre de espírito porque os zelosos se multiplicam para impedir que o espírito se solte, e apontar com o dedo espíritos livres, porque os reguladores se entretêm a controlar e atribuir quotas percentuais de quanto e de quem se deve falar e onde. Pobre de espírito porque tantos concordam com tanto, porque quem estava do outro lado depressa passa para este hipotecando a liberdade quando acenado com o poder ou a ilusão dele. Pobre de espírito porque se questiona tão pouco, se ilude tanto, se leva tão a sério, e vê tão pouco à volta.
18.5.07
Divórcio
17.5.07
Depois de ler aqui o teor do projecto de portaria que regulamentará a Interrupção Voluntária da Gravidez em instituições de saúde fico com a sensação de que o direito a interromper a gravidez é melhor salvaguardado do que o direito, dos profissionais de saúde de recusar a prática de actos que entrem em conflito com a sua consciência moral ou religiosa. Se, numa determinada instituição de saúde, se não puder fazer uma IVG porque os profissionais de saúde são objectores de consciência, essa instituição terá que pagar os custos da intervenção numa outra. O direito a ser objector de consciência tem custos, de forma indirecta, para os profissionais de saúde que o exerçam. O direito a abortar não.
16.5.07
As escolhas partidárias dos partidos do regime, PS e PSD, reflectem a enorme crise partidária a que hoje se assiste no “centrão”, espelho da falta de crença na credibilidade que dá ser apoiado por um partido e, nalguns casos aceitar a causa pública. No caso do PSD, é notória a falta de motivação e de vontade das personalidades fortes que poderiam aceitar a candidatura a Lisboa, se moverem tal a instabilidade do partido e as expectativas de só o futuro dirá. No PS e com a saída de António Costa do Governo, só ficam segundas linhas, verdadeiros meninos do coro que nem sempre cantam afinado e um maestro que já está claramente em curva descendente. É uma cartada arriscada sobretudo se se tiver em mente o “caso Manuel Alegre” nas Presidenciais. Helena Roseta poderá ser uma surpresa.
Com tantas coisas de importância a passarem-se no país e no mundo hoje, já me custa ver a abertura dos telejornais com o caso Madeleine. Eu gostaria que os media tivessem dedicado uma pequena migalha do tempo que dedicam a Madeleine, ao caso da jovem rapariga de 17 anos que, no Iraque, foi apedrejada até morrer na praça pública, culpada de querer casar fora da sua religião (o islamismo, claro). Mas continua-se a pensar que estes casos estão muito longe, em distância, em mentalidade e em probabilidade... Eu não penso assim.
14.5.07
Outros Véus Islâmicos
No Público hoje a notícia do apedrejamento por homens de uma rapariga curda muçulmana culpada por querer casar com um rapaz de uma minoria religiosa Yezidi. A notícia chegou aos meios de comunicação por causa dos vídeos amadores postos no youtube e entretanto retirados que não procurei, nem vi nem quero ver. A realidade já é suficientemente má mesmo assim, sem imagens. Perante uma realidade destas, eu pergunto-me que sentido faz falar em democracia? Democracia pressupõe alguma igualdade pois cada pessoa tem um voto. Em sociedades onde muitas mulheres não votam, ou se votam nas urnas eleitorais não votam nas suas próprias vidas, não têm acesso aos recursos em pé de igualdade com os homens, que sentido faz falar em democracia?
Entretanto em Izmir, na Turquia, e segundo o JN, cerca de 1,5 milhões de pessoas voltaram a manifestar-se para defender o secularismo do seu país. Parecem não estar muito preocupados com o futuro da democracia, mas saem à rua aos milhões para defender o secularismo. Como diz o povo: “eles lá sabem!” Se fosse Turca, também sairia.
Mouros? Turcos?
13.5.07
Li que José Sócrates vai advertir a liderança da UE... Nem preciso saber de quê, já o vejo de indicador em riste em frente aos líderes europeus. Grandes Portugueses, é o que é.
Bajazet
Na sexta-feira um simpático “Bajazet”, ópera de Vivaldi em versão não encenada no CCB pela Orquestra Europa Galante. O primeiro acto parecia não acabar, mas depois os cantores e a orquestra pareceram soltar-se, e mesmo quando já parecia impossível que o enredo pudesse ainda outra vez prolongar a ópera, (Barroco é Barroco e Vivaldi não é Wagner) o entusiasmo bem vivaldiano dos violinos tomava conta de nós e o concerto prolongava-se em nosso benefício num bom ambiente na sala que explodia em palmas ocasionalmente. O Grande auditório do CCB estava a 2/3 cheio, parece que ainda não se conseguiram formar novos públicos.
12.5.07
11.5.07
Véu Islâmico 6 (2ª parte)
O papel das Forças Armadas na Turquia tem sido também o de manter o poder religioso afastado do poder político. Eu, se fosse cidadã Turca, habituada a um estilo de vida secularizado e, apesar de tudo, democrático, estaria grata a essas Forças Armadas por este papel de defesa da Laicidade. Eu sei que nem tudo é assim tão simples, e há outros aspectos que não tive em conta; por isso me faz confusão a facilidade com que se diz que a democracia é mais importante do que a laicidade.
10.5.07
O Véu Islâmico 6
Eu percebo bem os turcos que recentemente saíram à rua e se manifestaram em defesa do seu estado secular, nem me parece extemporânea a manifestação de tais receios, como diz o Economist:
E têm razão para temer, este pequeno parágrafo é esclarecedor: nos textos sagrados do Islamismo não há separação entre Religião e Estado, e os cidadãos turcos mais “moderados” na sua prática religiosa e de hábitos perfeitamente ocidentalizados teme, e a História, nomeadamente a História mais recente de uma radicalização islâmica em várias partes do mundo, prova que ele tem razão em temer, o afunilar das suas liberdades através de medidas legislativas inspiradas na religião. Não foi assim há tanto tempo que na Turquia se debateu com a possibilidade da criação de legislação que considere o adultério um crime, bem como se debateu a possibilidade de restrições à venda e ao consumo público de bebidas alcoólicas. Nenhuma destas medidas tomou forma de lei, mas o espectro das leis religiosas não dão tranquilidade aos turcos “moderados”. A mim também não dariam, e neste aspecto estou em desacordo com o espírito do texto do Economist, que é normalmente mais céptico e menos “romântico”. Não adianta varrer para debaixo do tapete estas ameaças, estas tentativas e fazer de conta que não aconteceram. Elas são o sinal de que nada é um adquirido e de que aquilo que hoje é certo, amanhã pode não o ser.
(continua)
O Véu Islâmico 5

Porque dificilmente consigo aliar livre arbítrio e “véu” islâmico, e porque, para mim, o “véu” é uma manifestação de identidade, de pertença, é um símbolo de uma forma de vida e de um tipo de sociedade que está nos antípodas do que acredito ser justo e desejável, confesso que os meus sentidos ficam em estado de alerta de cada vez que o “véu” e alguma polémica em torno dele chega à comunicação social. O caso da Turquia, que já aqui tenho referido em brevíssimas notas, é o último envolvendo os “véus”, neste caso os usados pelas mulheres do Primeiro-ministro e do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Este é um assunto que segurei com atenção, sobretudo porque a recente discussão em torno dos conceitos de democracia e secularismo bem como a sua hierarquização, não me deixam tranquila, tantas são as questões que me suscitam, perante as certezas de tantos. Voltarei a este assunto.
9.5.07
Uma ideia da Europa 12
E mais uma vez, a pintura. A mitologia, as lendas, os deuses, os humanos.
7.5.07
6.5.07
Tento imaginar a dor e o desespero de quem perde um filho e de quem, de repente, se vê perante uma situação de rapto. Mas nada deste drama humano, nada, justifica que se percam dezenas de minutos num jornal televisivo. Uma peça de três minutos que faça um resumo do que o dia de hoje trouxe de novo é mais do que suficiente Na RTP, com mais do que uma peça sobre o assunto, até um perito em raptos foi ouvido, e na SIC, logo nos primeiros minutos, se falam dos três enviados especiais: um na Madeira, um em França e um na Praia da Luz...
Não tenho dotes futuristas, mas não consigo deixar de olhar para a vitória estrondosa de Alberto João Jardim na Madeira e para o isolamento do candidato do PS como mais um sinal da curva descendente de José Sócrates. Nada será igual, por muito que ele teimosamente queira e tente, desde o caso ainda por esclarecer da sua licenciatura diplomas e papeis contraditórios. Outro dos sinais de que já nada é como deveria ser, foi o caso Mário Lino e seu gracejo sobre a não inscrição de José Sócrates na Ordem dos Engenheiros.
4.5.07
Uma ideia da Europa 11
3.5.07
Livre
O caso Carmona Rodrigues tem contornos interessantes pois joga com uma série de conceitos que por vezes podem parecer contraditórios entre si: liberdade, legitimidade, obrigação, lealdade. Há a questão da liberdade; ele, Carmona Rodrigues (CR) diz-se livre porque é independente e não filiado num partido político, proclama a sua legitimidade pois ganhou a Presidência da Câmara com os votos dos Lisboetas, afirma-se capaz de cumprir a sua missão e a sua obrigação perante os eleitores, proclama que não será atirado “borda fora” resumindo desta forma metafórica a sua relação de lealdade com o partido que o apoiou e o ajudou a ganhar as eleições, mas que lhe pediu para se afastar, por uma questão de princípio já estabelecido no PSD e para que a Câmara não se torne ingovernável. Pergunto-me, como poderá assim e nestas condições ser um homem verdadeiramente livre ao serviço de uma Câmara, livre no planeamento, livre na decisão, e sobretudo livre perante si próprio.
Enquanto se passar o que se passa, e o que parece claro se passará, em Oeiras, a posição do PS, em relação a CR não me merece respeito nem consideração.
2.5.07
Porque é que gosto de Pintura Flamenga 3
1.5.07
O caso Pina Moura continua a dar que falar, e muitos são os indignados que afirmam quão natural é os Media terem simpatias partidárias, exemplificam com os casos espanhóis, ingleses, falam em Francisco Pinto Balsemão. É verdade, mas Francisco Pinto Balsemão fez o seu grupo com o seu dinheiro, e tanto quanto se saiba tem pouca influência na linha editorial do grupo. Também está há muito afastado do poder, da vida activa partidária e certamente não é deputado. Em tudo diferente do caso Pina Moura que está directamente ligado ao poder, e que tem poder sobre o poder. Foi só por isso que foi convidado para o cargo de administrador, só.
Mais novidades sobre a Turquia aqui.
Diplomas, Certidões e outros papeis 5
Li aqui que o dossier Sócrates vai finalmente ser investigado pelo DCIAP. É importante que esta investigação se faça, porque tem de ser feita: há demasiadas inconsistências neste processo, e porque do ponto de vista político o primeiro-ministro está com a sua credibilidade mordiscada. E ferida que não se trata, pode infectar.
Uma ideia da Europa 10
30.4.07
Confesso que depois de ouvir o Doutor Eduardo Sá na inenarrável rubrica incluída no Jornal da Noite (SIC) que tem como nome um politicamente correcto “qualquer coisa reclamação” ou “reclamação qualquer coisa”, e feita a partir de hipotéticas reclamações de filhos em relação aos Pais, em que no mundo encantado da infância que nos é apresentado, as fadas voam, os duendes riem e encantam, e a inocência inebria assim numa espécie de rousseaunianismo feito fácil para melhor se entender, ver o Dr. House na Fox é uma lufada de sanidade e de ar fresco.
Leio aqui que, segundo uma comissão de inquérito governamental, o primeiro-ministro israelita e o ministro da defesa são os principais responsáveis pelas falhas da guerra no Líbano no verão do ano passado que opôs o exército israelita às milícias do movimento Hezbollah. Fico a aguardar as conclusões de um inquérito semelhante sobre o comportamento das suas estruturas conduzido por uma comissão de inquérito a pedido do movimento Hezbollah.
Como se isso fizesse diferença
Anda tanta obsessão com a vida saudável e com a alimentação que até logo à noite o Prós e Contras será dedicado à obesidade. O ser humano parece condenado a ter uma relação nada pacífica com a sua principal fonte de energia e uma das suas fontes de prazer: a alimentação. Esta relação nada pacífica é ancestral e já parece estar inscrita nos nosso genes e vem do tempo em que era preciso fazer stock e comer em abundância para fazer face aos tempos difíceis de penúria, os longos Invernos em que a terra nada dava, as guerras que não permitiam a cultura e a circulação de bens alimentares. As religiões complicaram um pouco esta relação: criaram tabus alimentares, promoveram jejuns, tentaram, como podiam controlar também essa relação tão pessoal entre cada um e o seu prato, incutiram a culpa. Os tempos de abundância dos dias de hoje convivem com espaços de fome e de falta de recursos, o que prova o desequilíbrio do mundo em que estamos e a fragilidade da nossa relação com a comida que também está manchada por alguma culpa. Hoje a classe médica avisa e informa, os psicólogos fazem teses abundantes sobre a estranha relação de pessoa com os alimentos, explicam a obesidade e discorrem sobre as “novas” doenças tais como anorexias e bulimias. Os políticos têm algo a dizer e medidas a propor, como se isso curasse esta estranha relação nossa com a comida, como se isso fizesse diferença.
29.4.07
Há uns dias escrevi aqui uma breve chamada de atenção sobre a candidatura presidencial do actual ministro dos Negócios Estrangeiros do governo da Turquia, Abdullah Gul, ligado aos sectores islamistas do país. Disse que os desenvolvimentos desta notícia deveriam ser acompanhados com atenção. Hoje li aqui que centenas de pessoas desfilaram em Istambul afirmando a sua adesão à laicidade do estado Turco e preocupando-se com a crescente onda de islamização do país. 27.4.07
Porque é que gosto de Pintura Flamenga 2
O meu olhar neste quadro perde-se nos detalhes: no adamascado da toalha branca, e no adamascado da toalha vermelha. Na forma como a luz é reflectida pelos tecidos. Nos vincos impecáveis das toalhas, na renda. Na luz do copo, na casca um pouco seca da maçã, na disposição e na cor dos queijos, nas sombras mais atrás. Fico encantada com o mistério que o quadro guarda. Aliás, a Pintura Flamenga, é exímia em pintar o que não se vê, e também neste quadro todo de equilíbrios, de luzes e sombras, de detalhes e de pose, uma falsa espontaneidade, imaginamos uma refeição simples e requintada. Começamos aqui.
Atravessando a Ponte
Há dias passava a ponte 25 de Abril em direcção a Lisboa. A pessoa que me acompanhava disse aquilo que eu tantas vezes penso. Como é bonita a vista da ponte sobretudo a vista para a cidade de Lisboa. É verdade, o dia estava límpido e da ponte apercebemo-nos de como Lisboa é uma cidade ampla, aberta e luminosa, e não cansamos de olhar e perceber onde está o quê. Neste silêncio a ver Lisboa eu calei outra imagem, outra memória. É difícil, ao ver da ponte a escala e grandeza daquela vista, falar naquela outra vista daquela outra ponte que sempre trago comigo, mesmo quando atravesso a ponte 25 de Abril. Fala dela quem sabe e quem a conhece como eu a conheço. Fala dela quem a tem gravada nos genes, na infância, na memória, no cinzento enevoado dos dias de Inverno ou no dourado brilhando do sol de um fim de dia. E, como diz Rui Veloso, é sempre a primeira vez em cada regresso a casa...
25.4.07

Paulo Portas lembra-me um daqueles filmes do canal Hollywood que está sempre a passar e que já todos conhecemos de cor: os diálogos, o enredo, as personagens e suas reacções, e já prevemos o próximo movimento da câmara de filmar.
Registei o interesse do Presidente da República pela vida saudável, este blogue continuará a manifestar o seu empenho por uma vida mais saudável.
O “véu” chega à classe política turca. Esta notícia, e seus futuros desenvolvimentos, que ilustra ascensão de uma classe média religiosa na secular Turquia, são para ser acompanhados com atenção.
23.4.07
Notas de viagem 7
O Diário de Anne Frank deve ter sido um dos primeiros livros “adultos” que li no início da minha adolescência. Já conhecia, nomeadamente dos filmes americanos que devorava e do que se falava em casa, os factos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial e sabia o que era o Holocausto. A leitura do Diário marcou-me imenso e anos mais tarde ao relê-lo senti também uma cadeia de emoções. Das vezes anteriores em que estive em Amesterdão, nunca consegui ver a Casa de Anne Frank, por isso desta vez decidi que teria de o fazer, apesar de saber que pouco havia para “ver” (a visão é um dos sentidos que mais é estimulado numa ida a um museu: no museu vê-se). Não me enganei: havia pouco para ver. Uma estante que escondia umas escadas, e um aperto no coração ao subi-las. Uns espaços pequenos, um quartinho com fotografias de actores e actrizes coladas na parede a lembrar-nos que a adolescência é sempre a adolescência, uma cozinha/sala/quarto, um sótão e a dificuldade em perceber como oito pessoas ali viviam e conviviam. Mas o detalhe que mais me impressionou e ao qual maior valor simbólico atribuí, foi um caderno manuscrito de Margot, a irmã de Anne, com os seus trabalhos e deveres de Latim. A familiaridade desse objecto, o facto de mesmo em guerra, mesmo em privação, se manter a vontade de aprender de estudar, de se valorizar, o facto de se impor uma disciplina e uma normalidade, numa altura em que qualquer um “compreenderia” a “falta de motivação”, as “dificuldades” os “desajustes” as “dissonâncias” as “frustrações” as "depressões” ou outras desculpas com aval dos psicólogos de serviço é verdadeiramente comovente. Ali estava uma rapariga nova de uma família abastada a quem nada faltava e a quem o futuro sorria, perseguida, escondida, humilhada, privada da vida normal e de tantos bens materiais a que sempre teve acesso e sem saber o que o futuro lhe traria, a fazer trabalhos de Latim. De facto a casa tem pouco que “ver”, mas aquele caderno é um completíssimo tratado sobre a vida: é só querer ver.
21.4.07
O Verbo
Esta mania de mudar o nome das coisas (que se mantêm iguais) só porque muda uma administração, um director geral, ou mesmo um ministro, intriga-me e irrita-me. Será que através do “nomear” o nomeador pretende deixar uma marca que eternize a sua passagem? Se não, o que é que justifica esta ânsia de nomeação? Mudar para que tudo fique na mesma...
20.4.07
A propósito de Jan Steen.
É Jan Steen mais um mestre do Barroco Flamengo. A propósito de Barroco, tive muita pena de não ter visto a exposição promovida no ano passado pelo Rijksmuseum e pelo Van Gogh Museum sobre Rembrandt e Caravaggio onde se puderam comparar os dois grandes mestres do barroco: o Flamengo e o Italiano. Pode-se, no entanto visitar o site da exposição que é interessantíssimo.
19.4.07
Eu, o blogue e a blogosfera.
Depois de passar anos a ler blogues e a nunca ter vontade de ter um, acordei um dia e decidi que afinal queria ter um. Um blogue meu, era tudo o que sabia que queria. Entre a decisão e o fazer não perdi muito tempo. O pior mesmo foi escolher o nome, mas ao fim de algum tempo e de analisar propostas e ideias, houve um que pareceu menos mau. Ficou! Depois de decidir o template, coisa que se revelou fácil: pois quis o que mais se parecesse com uma folha em branco, seguiu-se a grande questão: e agora? Escrevo sobre o quê? Faço o quê? Até hoje ainda não consegui bem perceber sobre o que é que escrevo ou o que faço. Mas vou fazendo, uma ideia surge depois da outra, uma imagem, uma ironia, uma indignação, uma raiva, uma contemplação, uma beleza, uma memória. Uma vez ou outra as linhas parecem escrever-se por si, outras - a maioria - são pensadas, escrevinho, risco e volto a escrever para apagar metade. E assim o blogue vai ganhando corpo e vida sem que o tivesse premeditado ou preconcebido. Eu, que tenho pouco jeito para datas, percebi que já tinha este blogue há mais de seis meses e ainda o vejo tão longe do que gostaria que fosse. Mas talvez seja assim mesmo. Não saberia como o definir, sei que é pessoal, por isso talvez pudesse dizer que é uma espécie de diário... que me dá muito prazer ir fazendo. Ao fim de algum tempo a postar, o HH começou a ter visitantes que tiveram a simpatia de o incluírem nas suas listas de links. Quase em Português, Espumadamente, foram os primeiros. CAA do Blasfémias provocou dois pequenos terramotos de audiências com simpáticas referências a este blogue, e outros blogues que visitaram o HH incluíram-no também em listas de links. Correndo o risco de não ter reparado em algum refiro o Do Portugal Profundo, Ktreta, Portugal dos Pequeninos. É um lugar comum, eu sei, mas realmente ficamos espantados com o facto de haver quem nos leia, por isso espero que quem visita o Hole Horror desde o início se sinta sempre bem-vindo neste espaço, e se sinta livre de usar o endereço de e-mail que está por baixo do título do blogue. Confesso também o meu mais puro espanto perante as consistentes subidas de audiências (audiências modestas, diga-se) graças às visitas de fora de Portugal. Este gráfico acima, copiado do sitemeter, referente às últimas 24 horas ilustra um dia típico deste blogue: muitas visitas do Brasil, que juntamente com Portugal fazem 60% do total e depois é uma verdadeira Babilónia de visitantes que me espanta cada dia. Também eles que vêm e vão, ou vêm e demoram-se um pouco, são bem-vindos e mostram todos os dias uma das faces da chamada globalização.
Uma ideia da Europa 9
Macarrons, patisseries, viennoiseries, croissants, éclairs e jesuitas. Bombons e chocolates. Bolos, gâteaux e cakes. Bolos de aniversário, bolos de noiva. Confeitarias, pastelarias cafés e bistrots. Esplanadas aquecidas no inverno. Esplanadas nos fins de dia de verão. As conversas que se começam. Os cigarros que se apagam.18.4.07
Notas de Viagem 6
O Rijksmuseum é um dos museus de que mais gosto coisa que não é difícil pois gosto muito de pintura flamenga. Há uma atmosfera especial nesta pintura, que terá a ver com a luz ou a cor, e os objectos pintados que propiciam a pintura do que não se vê. Como não é imenso e tem um tamanho “confortável” podemos visitá-lo sem grandes cansaços, apesar de ter bastante gente, e apreciar com tempo as obras-primas que nele abundam. Rembrant tem lugar de honra e as suas grandes pinturas oferecem-nos momentos de grande intensidade estética. Vermeer é um poeta de tela e tintas e se repousamos da dimensão de Rembrant, mantemos o mesmo nível de gozo contemplativo. Descobri Jan van der Heyden, a sua pintura, sobretudo paisagens urbanas, e os seus outros ofícios numa exposição até ao final do mês, ri-me com Jan Steen e Avercamp e deleitei-me com tantos outros: sem cansar, sem saturar.
17.4.07
Diplomas, Certidões e outros papeis 4
16.4.07
Notas de Viagem 5
As palavras dos outros
Pensei, e tinha vontade de escrever hoje sobre o Papa Bento XVI, no dia do seu 80º aniversário. Sobre o facto de eu o considerar um dos homens de maior relevo nos nossos dias, pela sua ousadia, clarividência, rigor e capacidade quer intelectual, quer política, quer espiritual. Pela profunda admiração que tenho pela sua visão e compreensão do mundo, sobretudo do nosso mundo ocidental, com as suas incongruências, inflexões e hesitações. Dizia eu que queria ter pensado e escrito um texto, mas ao olhar para o que se escreveu hoje nalguns blogues que visito regularmente e depois de ler este texto aqui escrito ao melhor estilo e inspiração do João Gonçalves, senti que nada poderia dizer mais. Tirou-me as palavras que gostaria de ter usado, só me resta assinar por baixo.
15.4.07
Notas de Viagem 4
Turismo cultural, se é que algum dos nossos governantes se interessar em aprofundar este conceito que propõem dinamizar (priorizar, ou seja lá que verbo for) para o nosso país, é o que não falta nas cidades que visitei. Em Paris abundam monumentos, grandiosidade e dimensão imperial, marcos históricos, obras de arte que atraem gentes de todos os feitios e os turistas têm só o embaraço da escolha e das multidões que se acotovelam para entrar, comprar bilhete, ver ou passear: Notre Dame, Vénus de Milo, a Sainte Chappelle, ou mesmo deambular no Quartier Latin ou em Montmartre é só escolher e nem é preciso pagar muito. Existe património, respira-se história e os franceses orgulham-se do que têm, do que foram e do que pensam que ainda são. Tratam o património, preservam-no, criam, mostram-no, exibem-no e tornam-no acessível.
Amesterdão, uma cidade onde sempre me senti em casa, é diferente. Sem a exuberância de Paris valoriza a sua especificidade física e protege o seu património com políticas cuidadas de planeamento, urbanismo e ordenamento. No país de maior densidade populacional da Europa temos dificuldade em ver prédios e arranha-céus. As cidades têm uma agradável escala humana que as torna simpáticas. E se não é uma casa em especial que é bonita são o conjunto das casas, antigas, bem conservadas e vividas, que fazem as ruas que fazem as cidades e que o turista gosta de ver. Não se deitam casas abaixo para construir prédios de escritórios com os três primeiros pisos de “centro comercial”. Os centros comerciais podem fazer turismo comercial igual, porque as lojas são as mesmas, a todo o turismo comercial médio, mas não fazem turismo cultural. O centro de Amesterdão fervilha dia e noite de vida. Hotéis, restaurantes, bares, habitações, escritórios, habitantes e turistas animam e fazem a cidade.
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