Ontem ao final do dia li o Destak. Esqueci de o trazer para casa, mas felizmente encontrei esta versão PDF que não me deixa invocar nada em vão. Nele a Ministra da Educação dava uma entrevista em que explicava o novo “Estatuto do Aluno” e aquela coisa híbrida que é o “quando o aluno falta não chumba: é avaliado” que ainda ninguém percebeu como é que vai funcionar, mesmo depois de ler as explicações da Ministra. Diz Maria de Lurdes Rodrigues na entrevista que quer criar “uma espécie de cumplicidade entre adultos (isto é: professores e pais), na prevenção de um comportamento indesejado (isto é: faltar demais)”, e também diz que a Escola pode averiguar o que se passa, e que “quando a escola considere que o motivo dado (para as faltas) não é relevante não deve ser considerado” responsabilizando mais os pais e os alunos. Estes critérios, continua ela mais à frente são decididos caso a caso em cada escola, e mesmo a prova de avaliação para faltosos fica ao critério da escola e do professor. Segundo li hoje aqui, e aqui pareceu-me perceber, no meio de informação aparentemente dissonante, que caso o aluno não tenha aproveitamento na prova de avaliação poderá mesmo chumbar, ou em eduquês: ficar retido. Resta-nos deduzir quais os critérios subjacentes ao tipo de prova e tipo de avaliação da mesma. Enfim, estamos em pleno delírio impressionista, em pleno circunstancialismo cheio de wishful thinking utópico, tão propício à inconsciência e falta de razoabilidade, senão mesmo à pura falta de honestidade. Não basta, em política, ter boas ideias. holehorror.at.gmail.com
1.11.07
Ontem ao final do dia li o Destak. Esqueci de o trazer para casa, mas felizmente encontrei esta versão PDF que não me deixa invocar nada em vão. Nele a Ministra da Educação dava uma entrevista em que explicava o novo “Estatuto do Aluno” e aquela coisa híbrida que é o “quando o aluno falta não chumba: é avaliado” que ainda ninguém percebeu como é que vai funcionar, mesmo depois de ler as explicações da Ministra. Diz Maria de Lurdes Rodrigues na entrevista que quer criar “uma espécie de cumplicidade entre adultos (isto é: professores e pais), na prevenção de um comportamento indesejado (isto é: faltar demais)”, e também diz que a Escola pode averiguar o que se passa, e que “quando a escola considere que o motivo dado (para as faltas) não é relevante não deve ser considerado” responsabilizando mais os pais e os alunos. Estes critérios, continua ela mais à frente são decididos caso a caso em cada escola, e mesmo a prova de avaliação para faltosos fica ao critério da escola e do professor. Segundo li hoje aqui, e aqui pareceu-me perceber, no meio de informação aparentemente dissonante, que caso o aluno não tenha aproveitamento na prova de avaliação poderá mesmo chumbar, ou em eduquês: ficar retido. Resta-nos deduzir quais os critérios subjacentes ao tipo de prova e tipo de avaliação da mesma. Enfim, estamos em pleno delírio impressionista, em pleno circunstancialismo cheio de wishful thinking utópico, tão propício à inconsciência e falta de razoabilidade, senão mesmo à pura falta de honestidade. Não basta, em política, ter boas ideias. Trabalho de Grupo 3
Finalmente o trabalho é apresentado e chaga a hora de avaliar. Todos os trabalhos são bons, claro que há sempre uns melhores do que outros, mas tanto quanto sei, nunca vi nenhum ser excluído por não ter sido feito em grupo, por ter deficiente pesquisa, por não ser mais do que um copy/paste desconexo de páginas da internet de origem duvidosa. Há sempre uns professores que alertam para o facto de na internet se encontrar de tudo e da necessidade de verificarem as fontes e e a autoridade de quem escreve, mas a informação está demasiado acessível e fácil para que se perca tempo a pensar e analisar. E, como não me canso de regerir, pensar e apurar o sentido crítico é algo que a escola não promove (uma rápida vista de olhos nos manuais de Ciências ou de Geografia esclarece os que tenham dúvidas).
Subscrevo cada palavra de FJV neste post. A repulsa sentida está-me "na massa do sangue".A seguir este e este posts de Pedro Correia, ou como o “Porreiro, pá!” parece tomar conta de Lisboa: primeiro o seu Tratado, e agora uma “histórica” Cimeira UE- África. Não sei nada sobre História Diplomática, mas sei o suficiente sobre direitos humanos, vergonha na cara, “Porreiro, pá !”, ambição e honradez para dizer que estes senhores não são bem vindos a minha casa.
30.10.07
Trabalho de Grupo 2
Depois de definidos os grupos de trabalho começa a negociação sobre o tema, o método, a apresentação final do trabalho e dividem-se tarefas, porque há dificuldade em que eles se encontrem fora da escola. Este é outro dos aspectos bizarros dos “trabalhos de grupo” actuais: são muito pouco trabalhos de grupo e são muito mais um patchwork de tarefas que cada um fez à sua maneira, na sua casa. A pesquisa limita-se a uma busca no Google e um “copy/paste” das primeiras referências ou/e a uma passagem pela Wikipédia. Se isto é preparar as crianças para uma pesquisa e um trabalho sério, eu não me posso admirar com o nível dos estudantes ao chegarem aos bancos das universidades. Todos deveríamos ter consciência de que hoje qualquer trabalho de pesquisa é feito em meia hora em frente do computador ligado à internet. Os itens da bibliografia que eles apresentam começam todos por www. Só. Mas a escola não exige mais nem melhor. Pelo contrário: vemos a glorificação do computador e das ligações à internet como o maná dos dias de hoje. Para a parte da apresentação também são demoradas as negociações para saber que font se utiliza, que tipo de letra, que cor de letra, que fundo, que efeito especial, bem como quem diz o quê no caso de haver apresentação oral.
Tudo o que referi se passa com os alunos que se dedicam a fazer o trabalho. Há sempre alguns que, por motivos diversos que às vezes nem se dão ao trabalho de explicar aos colegas, nunca se aplicam e que nunca colaboram. E como dizem os colegas: antes assim. A trabalhar em grupo as crianças/adolescentes cabem todas numa de diversas categorias: as que têm montes de ideias (boas ou más) e dão a cara pelo trabalho, os sossegados que fazem um trabalho “limpinho”, os que só sabem dar palpites, mas que trabalham pouco, os que nunca trabalham, os que têm uma mãe que gosta de fazer tudo, etc. É esta a visão que os alunos das escolas de hoje têm do trabalho em equipa e do que é fazer pesquisa, mas ninguém parece muito incomodado com este facto. (Continua).
29.10.07
Pedem-me simpaticamente daqui para abrir o livro que estiver mais à mão e transcrever a quinta frase completa da página 161. Fácil. Tenho sempre um livro à mão e raramente têm menos de 161 páginas. Neste momento há uma pequena pilha de quatro atrás do computador. O de cima, que comecei a ler ontem não tendo ainda passado do terceiro capítulo, trás a seguinte quinta frase completa na página 161:You were sent to me, I was sent to you.
Trata-se de J. M. Coetzee, Slow Man, edição da Penguin Books
Coetzee escreve frases curtas.Trabalho de Grupo
O sistema de ensino e o quotidiano das escolas hoje são matéria para numerosas e longas reflexões mesmo por parte daqueles que não sendo profissionais da educação, são atentos e críticos. É este o meu caso e é nesta qualidade que escrevo. Um dos hábitos da escola de hoje é a valorização excessiva e a banalização do “Trabalho de Grupo”, que remete para segundo plano uma pesquisa individual, ou outra forma de avaliação mais rigorosa. Tudo começa muito cedo com uma disciplina cujos objectivos me parecem bizarros e muito questionáveis quer na sua pertinência quer pelo tempo que ocupa, e cujo nome é “Área Projecto”. Não me quero demorar a analisar este nome, coisa que se revelaria rica tenho a certeza, mas com esta disciplina obrigatória nasce uma imposição e uma normalização de uma forma de trabalhar que eu questiono. A vontade - politicamente correcta e imbuída de “eduquês – de que com o trabalho em grupo se desenvolvam as aptidões para um trabalho colectivo em que exista entre-ajuda, camaradagem, negociação, colaboração, cedência liderança natural e aceite, etc é, no mínimo, um mito, e no máximo nocivo para o crescimento e autonomia e mesmo a tão valorizada auto-estima das crianças e jovens.
Tudo começa com a constituição dos grupos - um processo que raramente é pacífico e que espelha o caos hierárquico, inter-relacional e de “afectos” que se encontra na escola - seja porque o professor escolheu - e dada a escassa referência de autoridade do professor o aluno hoje crê-se senhor de todas as decisões, seja porque se tirou à sorte e o azar bateu à porta e não se quer aceitar o azar, ou seja porque os alunos livremente decidiram, e há sempre alguns descontentes ou porque foram os últimos a serem escolhidos pelos colegas, ou porque ficaram num grupo com colegas com quem não se dão mas era o único que tinha vaga. Este passo, sobretudo se envolve algum conflito aberto no seio duma turma, numa altura em que as crianças e adolescentes estão a crescer e a descobrirem-se e conhecerem-se a si próprios, parece trazer algum desnecessário atrito e insegurança. Como se fazem trabalhos de grupo com uma frequência atordoante este processo repete-se com a mesma frequência. Os alunos, pelo menos até ao fim da puberdade, não têm ainda capacidade para tomarem certas decisões que poderão potenciar crises e conflitos, pelo menos de forma sistemática, e deveriam ser aliviados de as tomarem. Colocá-los perante factos consumados lembra-lhes que existe uma autoridade na escola e alivia-os para a principal tarefa que é aprenderem o que lhes é ensinado. O que me espanta é que com tanto psicólogo(a) nas escolas, se permita que existam conflitos verdadeiramente desnecessários em coisas simples como esta: devolver alguma autoridade ao professor e aliviar o aluno de escolhas que eles não sabem ainda fazer de uma forma natural e sã, para que ele se focalize na aprendizagem. Claro que talvez os psicólogos(as) existam por causa de situações como esta. Já nem sei. A lembrar também que a disciplina de “Educação Cívica” (outro nome de bradar aos céus) serve tantas vezes para “conversas” e para a resolução de conflitos como estes dentro das turmas. (Continua)
25.10.07
Matemática

24.10.07
Knocked Up
Por razões várias e que não são para aqui chamadas vi-me ontem numa situação de ter que ver o filme “Azar do Caraças”. O título, só por si, dá vontade de fugir e gostei muito pouco da ideia de, ao comprar os bilhetes ouvir-me pronunciar a palavra “caraças” num contexto que não era escolhido por mim. O título original é “Knocked up”, muito mais revelador daquilo que nos espera: uma passagem abrupta e imprevista de um mundo infantilizado em que vivem as personagens para o mundo adulto, por causa de uma gravidez. O trailer do filme, que já tinha visto, também não augurava nada de bom e tudo me preparara para ver, de mau humor, uma comédia americana daquelas parvas, banais e tantas vezes confrangedoras. Puro engano meu. Ao fim de 10 minutos já tinha percebido que estava perante um filme bom, muito bom mesmo e com certeza a melhor comédia que vi nos últimos longos anos.
23.10.07
O debate sobre as questões europeias já chegou a um nível tal que o melhor argumento para ser a favor da realização de um referendo não são as questões europeias mas o facto de alguns políticos iluminados passarem aos seus concidadãos um atestado de burrice dizendo que a matéria é demasiado complexa para eles entenderem e se poderem pronunciar e decidir. Nada como esta imbecilidade vestida de arrogância para que o argumento pró-referendo surja com toda a pertinência. Porque é que os portugueses não percebem? Talvez porque ninguém se proponha explicar, ou porque não querem, ou porque temem o resultado de uma consulta popular. Este motivos são atentados contra a democracia, que deixam os responsáveis políticos a assobiar para o lado, enquanto segredam uns com os outros e parecem deixar o país indiferente. Mais uma vez. Deviam ter mais cuidade nos argumentos que usam pelo menos para aqueles que ainda não estão completamente desprovidos de capacidade analítica e crítica. A questão europeia é mais complexa do que a regionalização? Porquê? Será mais complexa do que a questão do aborto em que um voto Sim ou um voto Não escondeu tantas vezes as dúvidas éticas e morais de tantos votantes. Porque é tão complexo perceber coisas como duplas maiorias, peso em votações e outras deliberações, rotatividade e de cargos, tempo de mandatos? Ou são outras as questões fundamentais do debate? A tratarem assim os cidadãos - que no entanto para pagarem impostos e preencherem papeis de IRS já se supõem competentes - não se admirem de cada vez que os alunos da Faculdade não saibam escrever, não saibam contar, não conseguigam desenvolver raciocínios abstractos.Me and Mrs Jones
Fiquei pasmada. Não sabia que ainda se cantava assim. Que ainda se faziam canções deste calibre. Se calhar estou enganada e é mais uma questão de “agora, voltou a cantar-se assim”. Seja como for, o cantor, a sua roupa, a voz, a música, a orquestra, a letra da canção, a presença no palco, tudo me parece anacronismo no seu estado puro, a fazer lembrar os idos anos de 50 ou 60. Tempos em que existiam Mrs Joneses e Mrs Robinsons. Vale a pena espreitar. (Link no fim)
Me and Mrs Jones, we got a thing going on
We both know that it's wrong
But it's much too strong to let it go now
We meet ev'ry day at the same cafe
Six-thirty I know she'll be there
Holding hands, making all kinds of plans
While the jukebox plays our favorite song
Me and Mrs, Mrs Jones, Mrs Jones, Mrs Jones
We got a thing going on
We both know that it's wrong
But it's much too strong to let it go now
We gotta be extra careful
That we don't build our hopes too high
Cause she's got her own obligations and so do I
Me, me and Mrs, Mrs Jones, Mrs Jones, Mrs Jones
Well, it's time for us to be leaving
And it hurts so much, it hurts so much inside
And now she'll go her way, I'll go mine
But tomorrow we'll meet at the same place, the same time
Me and Mrs Jones, Mrs Jones, Mrs Jones
22.10.07
Pisar Luares
A imbatível dupla de que falei aqui, João Pedro Pais e Mafalda Veiga, brindou-me hoje cedo de manhã e no meio do trânsito com outra pérola retórica a puxar para o transcendente. Assim cantava ele: Piso luares perdidos no chão. O quê? Perguntei-me com dificuldade em apreender e racionalizar tal mensagem. Aumentei o volume do rádio para confirmar e não só confirmei como ouvi (uma canção sem graça) imagens do género: em cada grito da alma eu sou igual a ti (muito gostam eles da alma), pinturas de guerra que não sei apagar, e outras insanidades mais (não, não faço link) que deixaram a minha cognição afectada e mais perdida do que os luares. Pisar luares perdidos no chão? A sério? Poderia dar pontuação pela imaginação delirante, mas francamente que é que isso quer dizer? Temo que nada, tal o som do vazio e do oco. Estas letras de música deveriam pagar imposto. Parece que se trata de um CD desta parceria, o que quer dizer que provavelmente tornarei a escrever sobre eles.
21.10.07
Pó de Estrelas

É sempre de baixas expectativas e com alguma relutância que vou ao cinema ver os chamados filmes infantis ou de fantasia. Talvez por isso, quando gosto, sou surpreendida por esse facto e o valorizo mais. Tão mau como filmes infantis, senão pior, são para mim os filmes de efeitos especiais em que as pessoas para o comentarem usam palavras como “digital”, “tridimensional” e outras igualmente técnicas ou complicadas que nem entendo, nem me esforço por entender para designar explosões, perseguições, idas e vindas do passado e/ou futuro, visão profética, saltos de aviões bizarros para carros surreais, transfigurações e adivinhações visuais, (não James Bond não conta, é demasiado normal). Se juntarmos filme de fantasia para crianças e com efeitos especiais, as minhas expectativas são zero e a contrariedade elevada.
Da Ortodoxia
Quando li este texto - escrito há seis dias, uma eternidade blogosférica - percebi bem essa simpatia pela ortodoxia tranquila e silenciosa, que não se impõe, que se faz todos os dias com disciplina e abnegação, que conhece o percurso, o passo seguinte e nunca deles se desvia mesmo nos momentos em que, por um breve instante, hesita diante dos remédios ou das soluções. Se a ortodoxia é difícil e requer renúncia, ela também dá conforto, alguma tranquilidade e sobretudo uma certeza de pertença. A ortodoxia é normalmente uma prática de grupo, os ortodoxos apoiam-se, conhecem-se, usam uma mesma linguagem e têm os mesmos códigos. Vivem a sua opção pessoal inseridos numa comunidade mais ou menos presente: juntos afastam a “fraqueza”, a imperfeição e a insegurança – colaboram, apoiam-se e vigiam-se. Vivem da nostalgia de uma prometida utopia que, melhor ou pior tentam recriar... Há admiráveis ortodoxos, compassivos, tolerantes, abertos ao outro e estranhamente conhecedores das fraquezas do mundo. É impossível não os admirar.
Mas a ortodoxia não serve os solitários ou os individualistas – os que questionam percursos, caminhos ou soluções. Os que tantas vezes se refugiam na prática, nos rituais e na disciplina para esconder a dúvida. Os que não gostam de disciplina, que não se revêem em práticas ou rituais, mas que têm poucas dúvidas. A segurança de um grupo acaba por intimidar tantos dos que lêem um livro, e mais outro, outro ainda e nunca os queimam, nem em fogueiras nem na cabeça, mas guardam-nos para lembrarem, relerem, pensarem, ajuizarem, criticarem e claro duvidarem. Por muito apelativa e tranquila que seja a ortodoxia, por muito que a olhemos com admiração e uma ponta de inveja, eu desconfiarei sempre dela, tão perfeita e tão segura, tão cheia de certezas e preferirei sempre a heterodoxia, a contradição, a imperfeição, a hesitação, a procura, a dúvida, a certeza que às vezes se confunde com a incerteza.
18.10.07
Vinte Páginas
Lizaceta Ivanovna was indeed a most unfortunate creature. Bitter is a stranger’s bread, says Dante, and steep the steps to a stranger’s door – and who can better understand all the bitterness of dependency than the poor ward of a highborn woman? The Countess did not, of course, have an evil soul, but she had the self-will of an woman who has been spoilt by society; she was miserly and had sunk into a cold egotism, in the way of old people who are done with loving and who have became strangers to the present day. She took part in all the vanities of high society, dragging herself along to balls, where she sat in a corner, heavily rouged and dressed in the fashion of an age gone by, like some hideous but indispensable ballroom ornament; newly arrived guests went up to her with low bows and curtsies, as if according to some established ritual, and after that no one took any more notice of her.
Pushkin, The Queen of Spades
Vinte páginas de obra-prima.
Adenda: O "milhares" acima referido, na sua imensidão, induz em erro. Mais de mil certamente, milhares como dezenas de, ou centenas de, é claramente um exagero. Se fosse britânica teria dito meia-dúzia!
16.10.07
12.10.07
10.10.07

Depois de durante as últimas semanas se falar novamente do Processo Casa Pia quer a propósito do novo Código Penal, quer por causa da entrevista dada por Catalina Pestana, esta intervenção do Presidente da República não deixa de ser oportuna. Não sei se será eficaz – e gostaria muito que fosse - mas é oportuna, e espelha o sentimento de tantos portugueses que se perguntam o que é feito das investigações, como vai o processo, porque se arrasta o julgamento, porque é que ainda nada se concluiu, porque é que mais uma vez a culpa parece, pouco a pouco estar a morrer solteira, concluiu-se que há vitimas, mas parece não haver agressores. O que é que falha? O que é que falhou?
Leaving New York
It's quiet now, and what it brings, is everything
comes calling back, a brilliant night, I'm still awake
I looked ahead, I'm sure I saw you there.
You don't need me to tell you now, that nothing can compare
You might've laughed if I told you,
You might have hidden your frown.
You might've succeeded in changing me,
I might've been turned around.
It's easier to leave than to be left behind,
Leaving was never my proud,
Leaving New York never easy,
I saw the light fading out.
Now life is sweet, and what it brings
I tried to take.
the loneliness it wears me out,
it lies in wake.
and all I've lost, you're in my eyes,
shatter a necklace across your thighs
i might've lived my life in a dream
but i swear it, this is real
memories refuses, and it shatters like glass
mercurial future, forget the past,
but it's you, it's what I feel
You might've laughed if I told you,
You might have hidden your frown.
You might've succeeded in changing me,
I might've been turned around.
It's easier to leave than to be left behind,
Leaving was never my proud,
Leaving New York never easy,
I saw the light fading out.
You find it in your heart, it's pulling me apart,
You find it in your heart, it's pulling me apart.
I told you, forever, I love you, forever
R.E.M.
Leaving New York
9.10.07
Tolerância Zero
Se há algo que verdadeiramente me incomoda e revolta é a complacência dos países ocidentais perante práticas, sobretudo sobre mulheres e meninas, que atentam contra a sua dignidade, liberdade, e integridade física e que têm sido importadas de países islâmicos através da imigração. Os governos ocidentais têm sistematicamente fechado os olhos a situações tais como: abandono escolar de raparigas a partir da puberdade, porque elas nessa altura deixam de poder conviver com outros homens que não os seus familiares, recusa em deixar as raparigas praticarem desporto ou frequentarem aulas de Educação Física com rapazes ou com o corpo parcialmente descoberto. Recusa em deixar tratar meninas ou ser tratada por médicos homens, mesmo que não haja mulheres nessa altura. Casamentos de conveniência em que a mulher, ou tantas vezes a ainda menina não tem opinião; com frequência elas são levadas para fora dos países em nasceram, cresceram e viveram, para casar contra vontade nos países de origem dos pais ou avós, o que as deixa sem liberdade de recusar e torna a sua fuga quase impossível, bem como se lhes perde o rasto. Por último menciono a excisão. Para a excisão nos países europeus a tolerância é zero. (via Blasfémias)
8.10.07
7.10.07
Governo quer valores republicanos na escola, ou a escola transformada no “serve para tudo” da nova ordem moral politicamente correcta com raias de jacobinismo cada vez mais evidentes. Quem tiver dúvidas que consulte o programa dessa inovadora disciplina chamada “Educação Cívica” ou que esteja bem atento aos textos de Língua Portuguesa que são oferecidos às crianças nos manuais escolares. Porque é que o governo não centra a actividade escolar no ensino e aprendizagem das matérias clássicas: matemática, português, línguas, ciências, história, artes, incentivando valores como a disciplina, o trabalho, o esforço, o respeito pelos outros? (O ideal era o governo interferir o menos possível no ensino, mas isso é outra questão).
Encham a cabeça das crianças, adolescentes e jovens dessa treta toda, pode ser que fiquemos melhores – claro que me pergunto como é que países como o Reino Unido, Holanda, Suécia ou mesmo a vizinha Espanha, conseguem ter graus de literacia e de sucesso escolar superiores ao nosso, e no entanto vivem (crianças e adultos) sem a alegria dos valores republicanos...
Por favor deixem-nos em paz!
5.10.07
Homens com Estilo
A white French-cuff shirt makes the gentleman.But be sure to keep the cuff links simple—the boldness of the cuffs makes enough of a statement.
Sobre estilo, sempre me pareceu um pouco desnecessário fugir às imensas banalidades teóricas e subjectivas que fica sempre bem dizer tipo: para ter estilo é preciso ser igual a si próprio, é necessário estar bem consigo, ter confiança, ou não tentar ter estilo, etc, etc. Não porque sejam falsas, mas porque não ajudam quem o não tem e são dispensáveis para quem o tem. Numa sociedade em que todos querem ter tudo, mas em que a insegurança e necessidade de reconhecimento impera – a todos os níveis - as ditas “dicas” são úteis a um cada vez maior número de pessoas, homens e mulheres, que no meio da diversidade da oferta de “estilos” querem tentar senão encontrar o seu, pelo menos encontrarem algumas certezas de que possam não fazer má figura. Por isso vou destacar alguns desses conselhos que apesar de às vezes parecerem vindos de e próprios para príncipes e reis, podem ser úteis a tantos republicanos perdidos no mundo dos hábitos.
Personal style isn’t about buying the trendiest labels or most expensive suits. It’s about establishing a look that’s all yours and sticking with it. (Jack Kerouac)
A tweak here and there can elevate even the simplest outfits. Notice the rolled-up sleeves, the neckpiece, the beat-up boots instead of sneakers. Small moves like these separate you from the pack. (Johnny Depp)
The little things make the man. Notice the cufflinks and the pocket square. But also notice that they’re subdued—white handkerchief, understated links. And the suit, shirt, and tie are also subtle. Look chic, not like a mobster. (Sean Connery)
Underdressing is the only sin. You should never be afraid to be the best-dressed man in the room. (Hubert de Givenchy)
Estes são conselhos mais genéricos, mas outros mais práticos e úteis de que gostei e que me pareceram úteis, encontram-se nas fotografias de: Michael Jordan, Peter O'Toole, Mick and Keith, Alain Delon, Marcello Mastroianni, The Kennedy Brothers, George Clooney, Muhammad Ali, Paul Newman e Samuel Beckett. (Não consegui fazer os links - é mesmo preciso ir lá ver)
4.10.07
3.10.07

O Cardeal Patriarca sobre o Diploma que prevê o fim das Capelanias nos hospitais. Interessante este excerto: “são as capelanias católicas que têm chamado ministros de outras religiões”, mostrando quão longe está o governo legislador da realidade vivida nos hospitais. Na sua perspectiva, os hospitais devem ter “um serviço de capelania ecuménica”, mas que atenda à dimensão da Igreja Católica.
Entretanto noutras partes do planeta, na Birmânia, descobre-se uma realidade que preferíamos não ter que saber. Thousands of protesters and monks missing in secret gulag of the generals.
2.10.07
Hospitais, Capelanias e Anti-Clericais 3
Ao considerar que, por defeito, o doente no hospital tem direito a assistência espiritual, há que saber como providenciá-la. Admito que esta questão hoje, devido a uma maior multi-culturalidade da nossa sociedade, se coloque de forma diferente daquela que se colocava há vinte ou trinta anos atrás. Se, parece ainda fazer sentido a manutenção de um capelão Católico (porque o catolicismo é maioritário) de acordo com as necessidades e tamanho (número de camas) e tipo de hospital, percebo a necessidade de haver uma ligação a outros assistentes espirituais de outras religiões, e porque não a assistentes espirituais sem ligação a nenhuma estrutura religiosa (existem e são úteis nomeadamente para cépticos que no entanto “se questionam”). Terá que haver sensibilidade suficiente de quem coordena tal apoio para que, mesmo em situações de carência de um ou outro representante da religião professada pelo doente, quem lá esteja saiba despojar-se e abrir-se às necessidades do doente. O argumento de que há padres que abusam da sua situação, que tentam impor sacramentos ou tentar conversões (a sério? Ainda há disso hoje?) é igual ao argumento de que o médico foi insensível ou fez um mau diagnóstico, ou de que o enfermeiro é desatento e descuidado, e não é por isso que se prescinde dos benefícios nem da medicina nem dos cuidados dos enfermeiros. As reclamações terão ser feitas a quem de direito, sobre médicos, enfermeiros, auxiliares, recepcionistas ou capelães. Nem mais nem menos.
1.10.07
Hospitais, Capelanias e Anti-Clericais 2
De acordo com o que tenho lido na comunicação social sobre o projecto-lei do Governo sobre a questão dos capelães católicos nos hospitais, a proposta parece ir no sentido de o doente, quando é admitido no hospital solicitar assistência religiosa de acordo com a religião que professa e pratica, de acordo com a sua fé e com a sua vontade. Ora um doente ao ser admitido num hospital não está, muitas vezes, na posse de todos os dados referentes à sua situação clínica ou mesmo à sua evolução que pode ser imprevisível ou modificar-se em relação ao que ele esperava. Se é verdade que hoje se passa cada vez menos tempo no hospital, e que os internamentos são tão curtos quanto possível, também é verdade que aí se passam muitos dos momentos mais significativos e marcantes da vida de cada um e dos seus e que no meio de mudança, imprevisibilidade e sempre pairando no ar bem ao fundo a morte, a pessoa muda. As certezas mudam, as incertezas também. As prioridades reorganizam-se, os anseios também. E o que é um facto é que no momento em que se é admitido num hospital, ninguém sabe realmente o que vai acontecer durante a estadia, nem sabe de certeza em que condições vai sair, nem tão pouco se vai sair. Nesta encruzilhada de incertezas e fragilidades o doente, independentemente do credo religioso que professe ou mesmo que não professe nenhum, tem um sentido espiritual mais apurado do que noutras circunstâncias, mesmo quando nega a dimensão religiosa. No nosso, país com a nossa cultura, essa ânsia espiritual, tem normalmente como expressão visível uma aproximação aos sacramentos da religião Católica, mas essa é uma das possíveis expressões de religiosidade ou simplesmente de espiritualidade, mesmo que o doente nem se dê conta disso. Um capelão aberto ao outro, ou alguém com experiência nessa área de aconselhamento espiritual sabe detectar esses sinais.
Os doentes têm direito a essa assistência e têm direito a saber que ela existe, que está ali, que é só estender a mão que ela lhe é dada. Que não é preciso uma decisão racional, uma declaração de intenções, ou uma clara expressão de vontade em tê-la. Se se dependesse da vontade expressa do doente, muitos que tiveram o apoio ou a ajuda desse aconselhamento sem o terem solicitado, mas só porque lá apareceu alguém para eles e para lhes dar um momento de atenção, não o teriam tido. Dito isto, creio que a vontade expressa terá de ir no sentido oposto: no sentido de não querer essa presença ou esse apoio espiritual. O direito a tê-lo terá sempre de ser mais fácil, e mais natural - porque decorre da natureza humana e da natureza das circunstâncias e porque a sombra da morte não deixa indiferente - do que o direito a não o ter que é seguramente legitimo e deve ser respeitado. Este princípio é violado neste projecto-Lei. A laicidade de um estado não pode esconder a face religiosa da sua população.
(Continua)
30.9.07
Hospitais, Capelanias e Anti-Clericais 1
Apesar de não conhecer em detalhe o tipo de funcionamento das capelanias nos hospitais, as obrigações contratuais de ambas as partes, os custos e mesmo a pertinência da manutenção do modelo de serviço tal qual ele é prestado hoje, quase em exclusividade – senão em exclusividade total pela Igreja Católica, admito desde já a necessidade de que seja revisto e de que haja aspectos obsoletos e desajustados à realidade do Portugal de hoje que necessitem de reformulação. Sou também inequivocamente partidária de um estado laico e da rigorosa separação entre a religião (seja ela qual for) e o poder político e a sociedade. O que continuo a não entender é que para alguns sectores conservadores, sim que o anti-clericalismo e a bandeira da laicidade do Estado num país como o nosso e nos dias de hoje parece-me uma posição muito conservadora que terá tido a sua justificação noutros momentos da História, se confunda laicidade com uma recusa cega em aceitar a religiosidade de uma população e um sentimento religioso maioritário numa sociedade. Nesta semana que passou o debate sobre a proposta do governo de alterar o funcionamento das capelanias e assistência espiritual nos Hospitais trouxe tais sentimentos anti-clericais à tona na comunicação social e nalguns blogues nomeadamente aqui, aqui e aqui.
Um estado laico não pode ser nem surdo nem cego perante a realidade religiosa de um país. Esta realidade não é só feita da fé, por muito que os sectores mais conservadores da Igreja o pretendam, é feita muito e talvez sobretudo de uma realidade cultural. Se só se casasse pela Igreja quem tem fé, se só participasse nas diversas órbitas da Igreja quem tem realmente fé, teríamos ainda menos católicos praticantes e fieis aos sacramentos do que temos hoje. O aspecto religioso é bem mais complexo, amplo e vasto e está enraizado na nossa cultura e é impressão digital da nossa civilização (ver aqui). Ao minimizar ou negar este facto o anti-clericalismo está, ao contrário do que pensa, a ser faccioso e não isento, pois ignora a liberdade individual de ser religioso da forma que bem se entenda, nomeadamente de ser um mau religioso, um religioso assim assim, de não acreditar muito, mas sentir-se melhor com a imagem de N. Senhora de Fátima ao lado, de não concordar com a confissão, mas gostar de saber que se quiser tem uma igreja aqui e um padre ali, de nem se dar ao trabalho de ir à missa ou jejuar duas vezes por ano, mas dar sempre 50 Euros para as festas do santo da terrinha e queimar umas velas, de só se lembrar de Santa Bárbara quando troveja, mas de chamar um padre para benzer a casa, o barco, a nova fábrica, a nova escola. Outra característica do anti-clericalismo é uma obediência ao politicamente correcto actual tentando sempre uma espécie de humilhação ou subalternização da Igreja Católica ao pretender que em Portugal todas as religiões têm a mesma expressão, a mesma importância e relevância social, intelectual, afectiva e simplesmente numérica. Não têm como todos bem sabemos.
(Continua)
29.9.07
Para Onde?
O meu lamento só tem consolo na inevitabilidade lógica de que um dia ou outro este país acabaria por ter os líderes que realmente merece. Todos eles. Ter os líderes políticos que são a cara dos portugueses: a nossa cara. A cara dessa multidão que enche as ruas, que diz mal de tudo, que vive insatisfeita mas não ousa um passo para mudar seja o que for, que diz palavrões ao volante e se cola atrás do nosso carro, que fala alto ao telemóvel, que enche os hipermercados e o Allgarve, que um dia chora com a mãe da Maddie vai às missas e faz rumagens à Praia da Luz mas que uma semana depois a julga e assobia à sua passagem, que faz as audiências da televisão que temos, que acha que Fátima Lopes é uma escritora com talento e que ser famoso deve ser o máximo, que quer estar na Europa por isso venham daí os subsídios, que não percebe que está passiva e impiedosamente a ser comida por impostos que sustentam um estado descomunalmente gordo e obeso, que se deixa iludir pelas promessas de políticas, regalias sociais e pelo falso glamour de brilho plástico que é a modernização tecnológica que lhes parece estar a ser oferecida de mão beijada, que é manipulada pela comunicação política e que vibra quando os políticos lhes fala olhos nos olhos, que não gosta que os filhos façam exames e que não percebe porque deve ser avaliada no trabalho, que se comove ao pensar que o livro O Segredo resolverá os seus problemas, que desculpa Scolari e acha que não foi nada, que compra os livros de Saramago porque ele ganhou o Nobel, que tem inveja do sucesso do amigo, que é rápido no julgamento moral do vizinho e que passa o dia a dizer mal dos políticos.
A solução é emigrar. O dilema é para onde.
28.9.07
27.9.07
Loucura Quieta
I realize freedom is a philosophical concept. That doesn’t interest me. Slaves, after all, don’t care about philosophy. Go where you want: that’s freedom!
Churilin interrupted him again, ‘Head’s not in good shape? Didn’t you have enough sense to steal? Your papers say you’re in for grand larceny. So tell us, what did you swipe?’
The prisoner pretended to brush the question aside, ‘Oh, nothing much… A tractor…’
‘A whole tractor?’
‘Yeah.’
‘How did you pull it off?’
‘Very simple. At a plant that casts reinforced concrete. I used psychology.’
‘What do you mean?’
‘I walked into the plant, climbed into a tractor – I’d hooked an empty oil drum on behind – and headed for the guard post. The metal drum made a racket so a guard came out: “Where are you going with that drum?” “On personnal business,” I said. “Got the papers?” “No.” “Then unhook it, goddam it!” I unhooked the drum and drove on. All in all, the psychology worked. Later we disassembled the tractor for parts…’
Theoretically I could have killed or at least wounded him. (…) Instead I made a move in his direction. Good breeding had gotten in my way even back in my boxing days.
What could I say to him? What can you say to a guard whose only use for aftershave lotion is internal?
‘What brains! Now that’s what I call brains! With brains like that you could, in theory, get by without working at all.’
Sergey Donatovitch Dovlatov (1941-90) The Officer’s Belt.
Este conto é uma frincha de janela que nos permite ver um flash de vida da União Soviética. Um jovem oficial que tendo sido chamado para a tropa é destacado para guarda de um campo prisional. Ele tem uma atitude de alguma distância perante uma realidade sem nexo e surreal em que a diferença entre guardas e prisioneiros é ténue. O conto é escrito com um estilo também ele algo distante e aparentemente leve - pouco russo no sentido em que eu estou habituada: frases curtas, linguagem crua e um humor seco, que ajudam ao ambiente de falta de sentido e propósito em que as personagens parecem ser marionetas obrigadas a uma coreografia previamente estabelecida em que pouco pensam e em que ser esperto é não fazer nada. Os excertos que destaquei já permitem perceber a loucura quieta do conto. Belíssimo.
Encantada
25.9.07
Inglês Técnico
Também eu fiquei um pouco envergonhada com a declaração de Sócrates à imprensa após o seu encontro com Bush. Vi o vídeo no youtube, li a transcrição no site da Casa Branca. Não tanto pela gaffe de trocar East por West, mas por todo um conjunto de factores que tornaram o momento penoso para nós portugueses. O breve discurso tem uma construção e uma sintaxe própria de um aluno português do secundário que traduz à letra um texto previamente pensado em Português, o que torna o resultado final um híbrido pouco natural pouco fluído e em última análise pouco “inglês”. O texto não tem a desenvoltura de quem conhece, fala e lê inglês regularmente e com à vontade. Eu creio, e aqui estou em perfeita sintonia com José Sócrates, que um bom conhecimento da língua inglesa é um passaporte para o mundo globalizado em que vivemos, mas ele não tem esse conhecimento, e esse conhecimento não se ganha colando um vocabulário aprendido à pressa, umas frases idiomáticas e umas regras gramaticais com cuspo. É pena que não o tenha, mas não é uma tragédia. Pode sempre ter lições como tantos colegas primeiros-ministros franceses, espanhóis e outros o fizeram sem se envergonharem por isso. Pode também assumir de uma vez a sua falta de competência na língua inglesa, sem que daí venha mal ao mundo. O que custa mesmo é vê-lo, no seu tom pomposo e afectado, falar um Inglês realmente macarrónico, com sotaque duvidoso, dando um erro atrás do outro com ar de quem sabe e domina o que faz. Ontem, no seu discurso da ONU que ia escrito, apesar de os erros e gaffes não terem existido, o tom e espírito mantiveram-se intactos.
Mário Soares a falar Francês, não dava menos erros, até talvez desse mais, mas a atitude, a desenvoltura e a cultura eram outras, e isso fazia toda a diferença. José Sócrates está a anos luz de Mário Soares.
23.9.07
Taking England by Storm
Agradavelmente estranha foi a sensação que tive na semana que passou ao ver um noticiário na Sky News. Começou com a saída de Mourinho do Chelsea (razão que me levou a ligar a Sky News) e o tempo gasto com a notícia, directos e análises, deixou-me pasmada: pelos vistos o Special One entranhou-se em terras de sua Majestade e fez a diferença, cumprindo a promessa inicial e bombástica, perturbadora de algumas mentes protestantes mais puritanas, de ser special one, deixando marcas não só no futebol Inglês como também na tradicional sociedade inglesa que no entanto, mais dia menos dia, acaba sempre a acarinhar o excêntrico. O impacto da saída de Mourinho foi tal que até Gordon Brown prestou declarações lamentando a saída do treinador do Chelsea e salientando os feitos dele.
A segunda notícia do dia em questão, foi o interminável caso Madie McCann sendo nesse dia confirmada a contratação pelo casal Mc Cann de um novo assessor de imprensa, saído da equipe que dá apoio ao Primeiro-ministro Gordon Brown. A terceira notícia era a decisão de Gordon Brown boicotar a cimeira euro-africana de Lisboa em Dezembro no âmbito da Presidência Portuguesa da UE caso Mugabe compareça.
Três notícias seguidas na abertura de um jornal noticioso na Grã-Bretanha em que se fala de Portugal, e em que todas elas há um envolvimento mais ou menos visível do Primeiro-ministro Britânico, é um caso pouco habitual e que merece registo. Os casos não podiam ser mais díspares e as notícias têm impactos diferentes – o caso Mourinho foi nesse dia e nos seguintes uma bomba informativa e uma mina de ouro para a comunicação social, como qualquer leitura dos principais jornais ingleses online, ainda hoje, o confirma. Já se analisou tudo sobre ele em artigos de opinião de formas e tamanhos diferentes: as frases bombásticas, imagens e analogias (já vi algumas colecções de “quotes” de Mourinho na imprensa inglesa), a sua relação com os jogadores, a sua ambição, a ligação com a família, o seu casaco Armani, a sua “sexiness”, o seu charme, o seu sotaque, o seu cão, o seu cabelo grisalho, a sua relação com os adeptos e até li, hoje (aqui, para dar um só exemplo), sobre a sua importância para os demais compatriotas, emigrantes, nomeadamente os que estão em Inglaterra. José Mourinho, mérito dele, impôs um estilo, virou as luzes e os microfones na sua direcção, leva o nome de Portugal para níveis de excelência por esse mundo desportivo fora, e para nosso gozo he took England by storm. Novas formas de colonização.
22.9.07
Ratos, baratas e lagartos 3
Corro o risco de ser radical ou de exagerar, mas não consigo impedir-me de pensar que nestes casos, de pessoas que voluntariamente e em troca de uns minutos de fama, de um frigorífico, uma viagem, ou de um outro prémio, se degradam publicamente, estamos perante uma forma de prostituição. O verbo prostituir tem a ver com conceitos como expor-se, levar à degradação, desonrar (uma consulta a dois dicionários confirmou-o) e estes conceitos são amplos. Habituámo-nos a pensá-los em termos sexuais, de tal forma que hoje socialmente um(a) prostituto(a) é aquele que se degrada, desonra e se expõe vendendo favores sexuais, e sobretudo habituámo-nos a condenar socialmente (e hipocritamente) tal prática, mas degradar-se, expor-se, abdicar da dignidade e da honra, é mais do que uma questão de venda de favor sexual. Prostituir-se tem a ver com a pessoa humana na sua integridade e nas suas múltiplas facetas, nomeadamente a intelectual. Parece que a integridade intelectual não só não é identificada como nem sequer é valorizada, pois televisões, concursos e demais programação dos canais genéricos, livros, jornais, revistas, músicas, e todo o universo subreptício de marketing ao serviço dos mais variados interesses, nomeadamente dos políticos, vivem tantas vezes da exploração da estupidez humana, da tontice e dos instintos mais básicos que impedem o momento de reflexão e os dois breves momentos que podem despoletar o espírito crítico bem como a noção do ridículo. Também parece que para o divertimento convém esquecer as faculdades mentais. Por isso todos os dias vejo os ratos, baratas, lagartos e minhocas, ajuizados nas suas jaulas à espera que uma mão os visite e tire o envelope que tão zelosamente guardam. Isn’t it fun?
20.9.07
Ratos, baratas e lagartos 2
O concurso da SIC de que falei no post anterior deverá ter como objectivo o aumento de audiências que a estação tanto procura numa altura em que estas estão baixas, em que a Floribella II não foi o sucesso previsto. Se o conseguirá ou não, eu não sei, mas a ideia de fazer um espectáculo, e ter espectadores, claro, à custa da exposição, abuso e degradação das pessoas não é inédita. Nos tempos áureos do Coliseu em Roma a população divertia-se vendo pessoas combater até à morte ou animais a comer os indesejáveis e marginais. Uma das diferenças em relação a hoje não está tanto nos espectadores, que pelos vistos não perderam a vontade de ver outros companheiros da condição humana em situações de degradação e humilhação, está sobretudo nos “concorrentes” que no Coliseu tinham a ponta de dignidade, que faz toda a diferença, a de lá estarem contra a sua própria vontade de lá estarem porque eram obrigados a fazê-lo. Claro que nos concursos televisivos e Reality shows que promovem a exposição da fraqueza e tontaria humanas humilhando e degradando concorrentes, o desfecho raramente é trágico e definitivo nem está em causa a vida dos concorrentes, mas o espectáculo de exposição, humilhação degradação estão. É só uma questão de graduação, o princípio é o mesmo. E se me pergunto como há pessoas normais que gostam de assistir a tais espectáculos, pergunto-me sempre também o que levará pessoas normais a inscrevem-se em tais programas de entretenimento, e se os prémios ou dinheiro em jogo são suficientes para aliciar tantos potenciais e alegres concorrentes. Dizem que vão para “se divertirem”, mas creio que no mundo mediático de exposição permanente e falsamente igualitário, todos querem o seu “direito” à fama, nem que sejam apenas os tão desejados dois ou três minutos, neste tipo de concursos, os prémios raramente são aliciantes.
(Continua)
19.9.07
Ratos, baratas e lagartos
Descobri recentemente que a SIC tem um novo concurso, cujo nome não fixei, que passa antes do Jornal da Noite. Como frequentemente ligo a televisão um pouco antes das 20h tenho, malgré moi, apanhado o final do concurso. Fico espantada com o que vejo. Para além de um cenário de gosto duvidosíssimo e de um apresentador inenarrável, vi umas gaiolas com ratos, baratas, grandes lagartos, e vejo a mão das concorrentes (haverá discriminação sexual na escolha dos concorrentes, será que não há quotas apara homens?) dentro das gaiolas a procurar e agarrar, entre gritinhos e alaridos de vários tons, um envelope que deverá ter ou uma chave para prémio ou mesmo o prémio, não cheguei a perceber. A coisa é má, muito má mesmo, tão má que a Floribela e as suas fadinhas pareceram-me, por instantes, um interessante desafio intelectual.
17.9.07
Valores Seguros
The roots of literature lie in song, prayer and story. For all its sophistication, Russian literature is relatively young and therefore closer to these roots than the literature of Western Europe. (…) the anekdot, usually a political story-cum-joke, was an important art form in the Soviet Union; and Russians still sing and recite poetry on social occasions. It is not surprising that both poems and short stories continue to have a central place in Russian literature; the English, in contrast, tend to pay only lip service to the importance of poetry and to look on the short story as a minor genre, something for the apprentice to cut his teeth on before the serious work of writing a novel.(…) There is no major Russian prose-writer who has not written short stories, and many of Russia’s finest prose writers wrote chiefly in this form. This may came as a surprise to English-speakers, who tend to assume that the supreme achievement of Russian literature is the epic novel.
Intoduction
Russian Short Stories from Pushkin to Buida. Edited by Robert Chandler
Depois das desilusões que as leituras do verão se revelaram por ser, dos livros recentes comprados de propósito e deixados a meio sem que os conseguisse acabar, nada como regressar aos bons e velhos valores seguros, um universo inesgotável, onde as desilusões são poucas, e o “gostar ou não” é secundarizado, porque a qualidade e peso da obra é muitas vezes superior ao “gosto” sempre volátil e frágil. Essas obras têm o condão de nos ultrapassar, de apelarem a muito mais do que o que temos em conhecimentos, afectos, memória, inteligência, experiência, sensibilidade, sonho, vontade, por isso estão para lá das opções estéticas pessoais e do gosto peculiar do instante em que são lidas. Assim, respirando de alívio, abri o livro já comprado há uns meses e iniciei mais uma volta pelos autores russos, pelos seus contos, sem descurar uma vontade de ler alguns dos autores mais modernos de quem nunca sequer tinha ouvido falar.
13.9.07
Mais umas moedinhas, por favor
Há uns anos atrás criticava-se Valentim Loureiro por distribuir fogões, máquinas de lavar roupa e outros electrodomésticos à população de Gondomar em plena campanha eleitoral autárquica. Hoje assistimos ao desfile de professores e alunos que, das mãos do Primeiro-ministro e de outros Ministros, e formando uma plateia bem comportada, recebem computadores com ligações à internet a preços competitivos. O gesto é o mesmo e é igual, em essência, a outro tão glosado em filmes de época, de um cavaleiro nobre e rico que atira moedas às gentes pobres que lhe rodeiam o cavalo. Coisas de outros tempos, coisa de outras sociedades.
Valentim Loureiro era movido por instintos de luta contra a pobreza e tinha como objectivo melhorar um pouco a qualidade de vida dos seus autarcas. José Sócrates é movido pelos restos guterristas da paixão pela educação, e pela sua obsessão com a tecnologia como se ela só por si pudesse resolver o índice de insucesso escolar e todos os problemas de atraso cultural e civilizacional que nos (a nós Portugueses) são atribuídos. Sem o desejo de aprender, sem disciplina, sem exigência, sem esforço, sem curiosidade, sem cultivar o espírito crítico, sem rigor, não há computador que melhore o índice de insucesso escolar, não há revolução tecnológica que melhore os níveis culturais do país. Pelo contrário, os alunos pensarão que no computador têm uma saída fácil para trabalhar, uma solução rápida para os problemas e dificuldades, os seus trabalhos serão (já o são tantas vezes, dizem) meros “copy/paste” da Wikipedia, e as navegações na internet serão feitas para se manterem em “contacto” com os amigos e passarão horas a fio no MSN, Chats, HI5, farão downloads, jogarão em linha, verão pornografia, etc, etc.
Mais sobre este assunto e o gesto político de campanha aqui, em O Major e o Aprendiz.
12.9.07
Neste blogue chamaram-me a atenção para esta fotografia que estava na capa do Público. Reparei em algo insólito: a mão direita de José Sócrates. Fico na dúvida: será que teve uma súbita enxaqueca? Uma tontura ou vertigem? Será que afasta uma madeixa de cabelo da testa (mas isso era mais António Guterres)? Tenta esconser a cara num acesso de timidez inspirado pela desaparecida Princesa do Povo? Percebeu que se esqueceu de algo importante? Ou benze-se? Impossível, devo estar a sonhar.(Actualização)
Hoje nos telejornais um país cada vez mais igual a si próprio:
Mais entregas de computadores portáteis pela mão do Primeiro-ministro e de outros ministros. José Sócrates fê-lo numa escola de Oeiras que só começa as aulas na segunda-feira, ao lado de Isaltino de Morais. Interessante.
Um mínimo de 15 minutos com o caso “Madeleine”. Ainda se consegue dizer tanto sobre esse caso?
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