“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

14.11.07

Velas 8

Há dois dias

PSD Profundo: uma dúvida

Na recente disputa da liderança do PSD alguns dos vocábulos mais usados eram populismo, elitismo, bases do partido e “PSD Profundo”. Dividiu-se o partido em dois campos: o campo que ganhou de Luis Filipe Menezes, populista e do "PSD Profundo", e o campo perdedor de Marques Mendes, que entretanto saiu de cena (e bem) deixando o campo opositor, elitista (e sulista) com outros rostos que nós já conhecemos, entre os quais destaco Rui Rio por ser um clássico opositor de Menezes. Desde que o conceito de “PSD Profundo” faz parte do discurso partidário actual que eu me pergunto exactamente o que é que isso quer dizer. Excluo o PSD “não profundo”, isto é, aquele que é visível aos não PSDs. Hoje segui aqui e aqui uma troca de ideias que originou esta reflexão. Não sou militante de nenhum partido, e se a vida política e o governo do país me interessam, a vida partidária deixa-me razoavelmente indiferente, por isso desde já confesso a minha ignorância sobre ela. Mas como eu, haverá muitos portugueses que na hora de votar, no partido A ou B, não hesitam e que no entanto nunca atravessaram qualquer sede de partido, nunca foram a nenhum comício, nem a qualquer sessão de esclarecimento. Talvez parte da minha ignorância seja decorrente de uma natural desconfiança por “estruturas”, que se formam e que se mantêm para exercício do poder e influência de forma pouco visível e escrutinada. (Este tema poderia ser objecto de um outro texto, quem sabe um dia?).

Assim, eu pergunto-me qual é esse rosto do "PSD Profundo" de que tanto se fala? (poderia ser o PS Profundo, mas como a actualidade aponta na direcção do PSD tomo-o como exemplo). São os cidadãos anónimos e eleitores que nas eleições nacionais dão maiorias governativas – a Cavaco Silva e agora a José Sócrates, e que elegem os Presidentes de Câmaras? São gentes absolutamente desconhecidas desses mesmos eleitores sem partido, que com inicial entusiasmo se dedicaram ao trabalho partidário e à luta política, que sem se darem conta investiram nisso a sua vida e que passados anos trabalham e se esgrimem com afã para manterem a sua influência, ou o que resta dela, e o seu poder no único mundo que conhecem? Presumo que naquilo a que se chama influência e poder local e autárquico. Ou será o “PSD Profundo” uma imagem de um Portugal Profundo? Daquele feito de consumismo, reality shows, fins de semana e pontes de chinelo no pé, marisqueiras, peregrinações e debates sobre Madeleine McCann, que raramente está satisfeito com o que quer que seja, mas que raramente questiona e se questiona, ou é verdadeiramente subversivo (piercings, palavrões são normalidade). Qualquer uma das hipóteses (que por serem por mim colocadas – e por isso susceptíveis de padecerem de preconceito) me parece má, mas eu tento perceber melhor o que poderá ser esse “PSD Profundo” que parece ser tão decisivo e importante para Portugal por determinar os destinos do principal partido da oposição, e não consigo. Por falha e ignorância minha, admito, mas haverá uma outra imagem do “PSD Profundo” que nós, cidadãos e eleitores sem filiação partidária nem participação política activa, desconheçamos?

13.11.07

Plataforma contra a Obesidade 26

Giuseppe ARCIMBOLDO (1527-93)
L'Automne

Slow Man 2

When he arrives at the gate, St Paul (for other new souls it may be Peter but for him it will be Paul) will be waiting. ‘Bless me father for I have sinned’ he will say. ‘And how have you sinned, my child?’ Then he will have no words to say, save to show his empty hands. ‘You sorry fellow, ‘Paul will say, ‘you sorry, sorry fellow. Did you not understand you were given life, the greatest gift of all?’ ‘When I was living I did not understand, father, but now I understand, now that it is too late; and believe me father, I repent, I repent me, je me repends, and bitterly too. ‘Then pass,’ Paul will say, and stand aside: in the house of your father there is room for all, even for the stupid lonely sheep.’

J. M. Coetzee, Slow Man

Slow Man

He is not the first person in the world to suffer an unpleasant accident, not the first old man to find himself in hospital with well-intentioned but ultimately indifferent young people going through the motions of caring for him. A leg gone: what is losing a leg, in the larger perspective? In the larger perspective, losing a leg is no more than a rehearsal for losing everything. Whom is he going to shout at when that day arrives? Whom is he going to blame?

J. M. Coetzee, Slow Man

12.11.07

Combate ao Sedentarismo 41

Puxão de Orelhas

Noto que há uma estranha unanimidade apoiando e concordando com o Papa Bento XVI no seu “puxão de orelhas” aos Bispos Portugueses em Roma na visita Ad Limina. Televisões, jornais, todos noticiam com gáudio mal disfarçado o dito “puxão de orelhas”. De repente parece que o país acorda para a excessiva clericalização da Igreja Portuguesa e depressa se aponta o dedo à hierarquia. Não sou excepção e também o aponto, e aponto em várias outras matérias igualmente relevantes que são sistematicamente esquecidas, mas aponto o dedo sobretudo aos tantos católicos portugueses de todas as faixas da sociedade e de todas as idades, que contribuem para essa excessiva clericalização da Igreja quer pela passividade, quer pela falta de exigência consigo próprios e com o clero. Não dispensam o “Sr. Padre A” ou o “Sr. Padre B” para abençoar qualquer decisão moral que tomem, qualquer evento em que participem, qualquer opção significativa para a vida. A figura do “Sr, Padre”, sem nenhum desmerecimento para os Senhores Padres, é ainda hoje no meio católico (mas não só) excessivamente reverencial, algo distante e tantas vezes incontestada. Dou um exemplo que pode parecer irrelevante, mas que ilustra essa distância entre o “clero” e os leigos: por essa europa fora os católicos tratam os padres com que trabalham e/ou convivem pelos nomes próprios; aqui em Portugal – e creio que não me engano – essa é uma situação raríssima. O Padre trata quer pelo nome próprio quer por tu o católico com quem tem maior proximidade, o caso inverso rarisssimamente se aplica. Só o “Sr Doutor” (o médico especialista note-se) ainda tem em Portugal igual grau de reverencialidade, de autoridade e infalibilidade. Se a Igreja em Portugal tem de ser menos clerical cabe também aos leigos portugueses fazê-la mais “sua” e menos “dos padres”. Cabe também aos leigos exigir mais e melhor qualidade nomeadamente do clero. Provavelmente voltarei a este assunto.

11.11.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 16

Wooden figure of Avalokiteshvara
Song or Jin Dynasty, 11th-12th century


Dar nas vistas


Witness


Revi ontem num canal de televisão, um dos filmes dos anos oitenta de que mais gostei na altura: Witness de Peter Weir. É sempre com apreensão que revejo filmes de que gostei e após um longo período sem os ver porque tenho sempre medo de me desiludir, de achar que o filme está datado e irrelevante, que perdeu algum edge. Não foi o caso. É um thriller que nos prende, que tem a sua dose de crueza própria de histórias de corrupção, mas isento de violência gratuita e que por isso não nos põe os cabelos de pé, pelo contrário remete-nos para a nostalgia de um sonho de utopia, de sociedade perfeita sem “maus”, tal como a teríamos sonhado num momento na infância. É, sem lamechices, uma alusão, um reconhecimento ou mesmo uma homenagem a esse tal sonho que existirá e sobreviverá num limbo qualquer da nossa condição humana. A cena mais emblemática desta homenagem é a construção do celeiro do casal recente. Mas o filme não se perde em utopias e depressa se entra no trilho realista, mesmo contando com o anacronismo da comunidade Amish, como o prova a história de amor – paixão, desejo, o que for - que desde o início injecta a narrativa de uma forte carga erótica. A cena da música no carro do celeiro é um dos pontos de maior tensão que ilustra este erotismo nunca óbvio mas sempre presente. Harrison Ford continua credível no seu papel como John Book, e Kelly Mc Gillis tem aqui talvez o momento mais alto da sua carreira. Pena que nunca mais a tenhamos visto. Acho que Witness entrará - se é que não entrou já, na galeria dos "clássicos".

10.11.07

Apeteceu-me

Wagner, e ouvi Solti e a Orquestra Sinfónica de Chicago em


Depois encontrei esta maravilha que vale a pena espreitar: Arturo Toscanini no youtube.

Porque não te calas?” (diz o Rei de Espanha a Hugo Chavez) é uma frase que veria de bom grado aplicar-se a um vasto número de personalidades, entre elas políticos, mas não só. Não é um convite a que a pessoa se cale, é uma forma de dizer que já não há pachorra para a ouvir, que nada do que diz é interessante, honesto, íntegro ou de boa fé, faz sentido, ou de alguma forma nos estimula, nos ensina e é útil para a sociedade. As horas que se perdem com palavras inúteis, ocas, ofensivas, políticamente correctas e em discursos redondos em que o orador fala para se ouvir a si próprio e que por fim são inevitavelmente aplaudidas é um dos paradoxos (flagelos) actuais. Cimeiras, Forums, Reuniões, Assembleias em que todos falam muito e muito. Uns nada dizem, outros era melhor que nada dissessem, e só uma minoria é digna de ser ouvida com atenção.

O Rei de Espanha foi educado para ser Rei. Foi educado para servir, para servir o seu país, para o defender e para defender o espanhóis. É livre de passagem pelas urnas e por isso não trabalha (não reina) em função de eleições e de ciclos eleitorais. É um homem educado e que tem caracter (ousadia suprema). Diz o que tantos gostariam de poder dizer. Diz o que tantos gostamos de ouvir.

8.11.07

Plataforma contra a Obesidade 25

Giuseppe Arcimboldo (1527-93)
Été

7.11.07

Don't cry for me...


Pedro Santana Lopes a pouco e pouco, e para os olhos dos portugueses neste país cada vez americo-latinizado, vai-se tornando numa espécie de Eva Perón. Ele é uma figura pública que estravasa as fronteiras do ser político e faça ele o que fizer, onde fizer e com ou sem sucesso, os flashes lá estão para disparar e registar e nós a aguardar para vermos e comentarmos. Como uma diva numa relação sempre conturbada com os media. Foi sempre assim, e hoje ninguém o desconhece. Trás com ele o pathos de um fado. Todos amam amar PSL ou amam detestá-lo. Todos se revêem nele num ou noutro aspecto de si e por si tantas vezes divulgado: no menino guerreiro e na fragilidade, na determinação e coragem, no amigo leal, no inimigo a ter em conta, na disponibilidade para, na intolerância, no homem de verbo fácil mas que às vezes não diz o que devia como devia, na franqueza, na força, na humildade, na prepotência, no glamour, na sedução, nos pecadilhos, na integridade, na conspiração.

6.11.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 16

Claude Monet
Le Val d'Antifer

Um fim-de-semana longo e quente trouxe langor à vida pública. Durante dias atropelamentos e acidentes dominaram por completo as notícias e nem os incêncios mereceram destaque – ouvem-se também uns vagos e longínquos rumores vindos do Paquistão, uns blablabla como o preço do petróleo, enfim coisas chatas para pensar com tanto sol fora de horas. Por causa de um feriado que já ninguém sabe bem o que é nem porque é, vivemos uma letargia como só nós sabemos fazer. Hoje parece que o país finalmente acordou e ainda a espreguiçar-se lembra-se que há um parlamento e pior, um orçamento, e ainda pior um descontentamento.

4.11.07

Tríade

Dos Lábios


Percebi pela silhueta frágil de leggings, túnica azul berrante e sapatos altos que não era uma mulher nova e pareceu-me que teria idade mais do que suficiente para exercer algum discernimento estético, coisa que não parecia fazer. Quando se virou, vi-lhe a cara e confirmei a minha suspeita. E notei algo estranho: um pormenor, coisa pouca mas suficiente para desequilibrar a harmonia de um rosto. Olhei com atenção e com o que tentei que fosse educada descrição, e percebi do que se tratava. O espaço que medeia a base do nariz e o lábio superior estava inchado, perdendo-se aquele desenho de uma covinha mesmo a meio e por cima do lábio superior. Tudo estava cheio e gordo, era uma protuberância que projectava o lábio superior, também ele um pouco inchado, de forma a lembrar um bico de pato. Dois dias mais tarde, ao abrir o Ípsilon, suplemento do Público vi na página 2 e 3, a propósito do lançamento de uma biografia não autorizada, uma fotografia da cara de Catherine Deneuve e notei que também ela tinha a parte superior do lábio de cima anormalmente inchado e também a lembrar um bico de pato. Não é a primeira vez que em fotografias de revistas cor-de-rosa se vêem protuberâncias a lembrar possíveis bicos de pato ou lábios anormalmente inchados, mas desta vez fiquei deveras intrigada a tentar perceber porque é que, segundo alguma norma estética que me escapa, um projecto de bico de pato é mais belo e desejável do que um lábio fino, mas com contornos definidos e expressão. Lábios como os da Angelina Jolie ou Scarlett Johansson não são muito vulgares e tê-los como modelo de referência torna a vida complicada a quem não os têm, e dificilmente algum dia terá, e a quem teve, mas já não tanto.


Do NarizOntem, enquanto zapava em frente à televisão vi um programa na SIC Mulher que se chamava Swan: uma coisa kitsch em que se transformavam em “cisnes” (haja bom gosto) mulheres que se consideravam feias. Parece que se tratava de um concurso – não percebi se era um reality show ou não – e tinha um ar mais pastoso e xaroposo do que outros semelhantes como o Extreme Makeover, por exemplo. A curiosidade venceu e vi durante uns minutos o dito programa: uma rapariga com excesso de peso e que nunca se sentiu bonita é transformada numa “bomba” sexy num espaço de três meses: fez dieta (excelente), exercício (melhor ainda), e pelo menos uma operação plástica. Trocou um nariz grande e que poderia parecer feio, mas que estava longe de ser um desastre, por um nariz de desenho animado, verdadeiramente artificial e ridículo na sua perfeição que parecia tirado de um mau catálogo de princesas Disney. O outro nariz, o original, não sendo de uma beleza evidente era o nariz dela: tinha carácter era diferente dos outros e sobretudo não era ridículo. A concorrente parecia emocionada e excitada com a sua transformação, mas nunca pareceu feliz, e eu pergunto-me como é que uma pessoa que sempre se sentiu feia e pouco feliz consigo, que se vestia de forma casual e sem gosto, de repente vive vendo-se na pele de uma bomba sexy, com curvas, com extensões no cabelo, nariz novo, mas com o “velho” namorado obeso e a “velha” família obesa que não foi concorrente do “Swan”. O que é que no futuro prevalecerá: a rapariga de mal consigo, sem graça mas igual a si própria, ou a nova bomba sexy banal e igual a tantas outras?


Da Perplexidade


Não sou puritana em questões estéticas e acredito que cada um pode e/ou deve fazer o que realmente o(a) faz sentir-se bem e bonito(a) seja recorrendo à cosmética, à dermatologia, à cirurgia estética ou plástica. Não faltam recursos para nos sentimos melhor e mais belos(as). O que não entendo realmente são os critérios e as normas que regem as intervenções que as pessoas fazem, o que não entendo são os padrões que definem o que é a beleza e porque é que deve ser aceite e procurada: bicos de pato em vez de lábios finos, narizes confrangedoramente direitos em vez de um nariz com carácter. Banalidade em vez de personalidade e individualidade. O que não entendo é a forma como surgem esses critérios, normas, padrões e com base em que valores e parâmetros estéticos é que se definem, ou será uma questão de facilidade e optimização de retorno financeiro para os prestadores desses serviços (esteticistas, médicos dermatologistas ou cirurgiões)? O que é que se insinua no tecido social? Estaremos todos condenados, num futuro cada vez menos longínquo, a ter bicos de pato e narizes banais?

3.11.07

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1.11.07

Velas 7

No Tejo hoje à noite. (clicar para aumentar)
Ontem ao final do dia li o Destak. Esqueci de o trazer para casa, mas felizmente encontrei esta versão PDF que não me deixa invocar nada em vão. Nele a Ministra da Educação dava uma entrevista em que explicava o novo “Estatuto do Aluno” e aquela coisa híbrida que é o “quando o aluno falta não chumba: é avaliado” que ainda ninguém percebeu como é que vai funcionar, mesmo depois de ler as explicações da Ministra. Diz Maria de Lurdes Rodrigues na entrevista que quer criar “uma espécie de cumplicidade entre adultos (isto é: professores e pais), na prevenção de um comportamento indesejado (isto é: faltar demais)”, e também diz que a Escola pode averiguar o que se passa, e que “quando a escola considere que o motivo dado (para as faltas) não é relevante não deve ser considerado” responsabilizando mais os pais e os alunos. Estes critérios, continua ela mais à frente são decididos caso a caso em cada escola, e mesmo a prova de avaliação para faltosos fica ao critério da escola e do professor. Segundo li hoje aqui, e aqui pareceu-me perceber, no meio de informação aparentemente dissonante, que caso o aluno não tenha aproveitamento na prova de avaliação poderá mesmo chumbar, ou em eduquês: ficar retido. Resta-nos deduzir quais os critérios subjacentes ao tipo de prova e tipo de avaliação da mesma. Enfim, estamos em pleno delírio impressionista, em pleno circunstancialismo cheio de wishful thinking utópico, tão propício à inconsciência e falta de razoabilidade, senão mesmo à pura falta de honestidade. Não basta, em política, ter boas ideias.

Velas 6

Tejo (clicar para aumentar)

Trabalho de Grupo 3

Finalmente o trabalho é apresentado e chaga a hora de avaliar. Todos os trabalhos são bons, claro que há sempre uns melhores do que outros, mas tanto quanto sei, nunca vi nenhum ser excluído por não ter sido feito em grupo, por ter deficiente pesquisa, por não ser mais do que um copy/paste desconexo de páginas da internet de origem duvidosa. Há sempre uns professores que alertam para o facto de na internet se encontrar de tudo e da necessidade de verificarem as fontes e e a autoridade de quem escreve, mas a informação está demasiado acessível e fácil para que se perca tempo a pensar e analisar. E, como não me canso de regerir, pensar e apurar o sentido crítico é algo que a escola não promove (uma rápida vista de olhos nos manuais de Ciências ou de Geografia esclarece os que tenham dúvidas).

Esta forma de trabalhar que as escolas privilegiam usando e abusando do “trabalho de grupo” não promove a excelência, o esforço, a creatividade e a dedicação e claro não premeia o esforço e creatividade individual – bem pelo contrário, em tudo é avessa à exploração das capacidades individuais de cada aluno potencializando-as, transformando-os numa massa cinzenta, uniforme e igualitária de mediania senão mesmo de mediocridade pouco exigente, aceitando sem crítica o imediatismo e a falta de exigência, nomeadamente em relação a si próprios, que não os prepara para o futuro.

Plataforma contra a Obesidade 24

Paul Cézanne
Milk Can and Apples (1879)
Subscrevo cada palavra de FJV neste post. A repulsa sentida está-me "na massa do sangue".

A seguir este e este posts de Pedro Correia, ou como o “Porreiro, pá!” parece tomar conta de Lisboa: primeiro o seu Tratado, e agora uma “histórica” Cimeira UE- África. Não sei nada sobre História Diplomática, mas sei o suficiente sobre direitos humanos, vergonha na cara, “Porreiro, pá !”, ambição e honradez para dizer que estes senhores não são bem vindos a minha casa.

30.10.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 15

Gustave Courbet
The Sea near Palavas

Trabalho de Grupo 2

Depois de definidos os grupos de trabalho começa a negociação sobre o tema, o método, a apresentação final do trabalho e dividem-se tarefas, porque há dificuldade em que eles se encontrem fora da escola. Este é outro dos aspectos bizarros dos “trabalhos de grupo” actuais: são muito pouco trabalhos de grupo e são muito mais um patchwork de tarefas que cada um fez à sua maneira, na sua casa. A pesquisa limita-se a uma busca no Google e um “copy/paste” das primeiras referências ou/e a uma passagem pela Wikipédia. Se isto é preparar as crianças para uma pesquisa e um trabalho sério, eu não me posso admirar com o nível dos estudantes ao chegarem aos bancos das universidades. Todos deveríamos ter consciência de que hoje qualquer trabalho de pesquisa é feito em meia hora em frente do computador ligado à internet. Os itens da bibliografia que eles apresentam começam todos por www. Só. Mas a escola não exige mais nem melhor. Pelo contrário: vemos a glorificação do computador e das ligações à internet como o maná dos dias de hoje. Para a parte da apresentação também são demoradas as negociações para saber que font se utiliza, que tipo de letra, que cor de letra, que fundo, que efeito especial, bem como quem diz o quê no caso de haver apresentação oral.

Tudo o que referi se passa com os alunos que se dedicam a fazer o trabalho. Há sempre alguns que, por motivos diversos que às vezes nem se dão ao trabalho de explicar aos colegas, nunca se aplicam e que nunca colaboram. E como dizem os colegas: antes assim. A trabalhar em grupo as crianças/adolescentes cabem todas numa de diversas categorias: as que têm montes de ideias (boas ou más) e dão a cara pelo trabalho, os sossegados que fazem um trabalho “limpinho”, os que só sabem dar palpites, mas que trabalham pouco, os que nunca trabalham, os que têm uma mãe que gosta de fazer tudo, etc. É esta a visão que os alunos das escolas de hoje têm do trabalho em equipa e do que é fazer pesquisa, mas ninguém parece muito incomodado com este facto. (Continua).

29.10.07

Pedem-me simpaticamente daqui para abrir o livro que estiver mais à mão e transcrever a quinta frase completa da página 161. Fácil. Tenho sempre um livro à mão e raramente têm menos de 161 páginas. Neste momento há uma pequena pilha de quatro atrás do computador. O de cima, que comecei a ler ontem não tendo ainda passado do terceiro capítulo, trás a seguinte quinta frase completa na página 161:

You were sent to me, I was sent to you.

Trata-se de J. M. Coetzee, Slow Man, edição da Penguin Books

Coetzee escreve frases curtas.

Combate ao Sedentarismo 40

Trabalho de Grupo

O sistema de ensino e o quotidiano das escolas hoje são matéria para numerosas e longas reflexões mesmo por parte daqueles que não sendo profissionais da educação, são atentos e críticos. É este o meu caso e é nesta qualidade que escrevo. Um dos hábitos da escola de hoje é a valorização excessiva e a banalização do “Trabalho de Grupo”, que remete para segundo plano uma pesquisa individual, ou outra forma de avaliação mais rigorosa. Tudo começa muito cedo com uma disciplina cujos objectivos me parecem bizarros e muito questionáveis quer na sua pertinência quer pelo tempo que ocupa, e cujo nome é “Área Projecto”. Não me quero demorar a analisar este nome, coisa que se revelaria rica tenho a certeza, mas com esta disciplina obrigatória nasce uma imposição e uma normalização de uma forma de trabalhar que eu questiono. A vontade - politicamente correcta e imbuída de “eduquês – de que com o trabalho em grupo se desenvolvam as aptidões para um trabalho colectivo em que exista entre-ajuda, camaradagem, negociação, colaboração, cedência liderança natural e aceite, etc é, no mínimo, um mito, e no máximo nocivo para o crescimento e autonomia e mesmo a tão valorizada auto-estima das crianças e jovens.

Tudo começa com a constituição dos grupos - um processo que raramente é pacífico e que espelha o caos hierárquico, inter-relacional e de “afectos” que se encontra na escola - seja porque o professor escolheu - e dada a escassa referência de autoridade do professor o aluno hoje crê-se senhor de todas as decisões, seja porque se tirou à sorte e o azar bateu à porta e não se quer aceitar o azar, ou seja porque os alunos livremente decidiram, e há sempre alguns descontentes ou porque foram os últimos a serem escolhidos pelos colegas, ou porque ficaram num grupo com colegas com quem não se dão mas era o único que tinha vaga. Este passo, sobretudo se envolve algum conflito aberto no seio duma turma, numa altura em que as crianças e adolescentes estão a crescer e a descobrirem-se e conhecerem-se a si próprios, parece trazer algum desnecessário atrito e insegurança. Como se fazem trabalhos de grupo com uma frequência atordoante este processo repete-se com a mesma frequência. Os alunos, pelo menos até ao fim da puberdade, não têm ainda capacidade para tomarem certas decisões que poderão potenciar crises e conflitos, pelo menos de forma sistemática, e deveriam ser aliviados de as tomarem. Colocá-los perante factos consumados lembra-lhes que existe uma autoridade na escola e alivia-os para a principal tarefa que é aprenderem o que lhes é ensinado. O que me espanta é que com tanto psicólogo(a) nas escolas, se permita que existam conflitos verdadeiramente desnecessários em coisas simples como esta: devolver alguma autoridade ao professor e aliviar o aluno de escolhas que eles não sabem ainda fazer de uma forma natural e sã, para que ele se focalize na aprendizagem. Claro que talvez os psicólogos(as) existam por causa de situações como esta. Já nem sei. A lembrar também que a disciplina de “Educação Cívica” (outro nome de bradar aos céus) serve tantas vezes para “conversas” e para a resolução de conflitos como estes dentro das turmas. (Continua)

28.10.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 15

Antoine Coysevox (1640-1720)
Neptune



Domar cavalos marinhos.

25.10.07

Matemática


A divulgação hoje dos resultados dos exame nacionais de Matemática e este artigo do DN de ontem escrito por Vasco Graça e Moura a propósito do ensino da matemática põem o dedo numa das numerosas feridas de que padece o ensino hoje em Portugal: a infantilização do ensino querendo explicar tudo demais e à exaustão, contextualizando, ilustrando, exemplificando ao ponto de por vezes a explicação se perder nas teias de tanta contextualização e perdendo a componente de aquisição de conhecimentos memorizando e treinando. Deste modo a pouco e pouco vai-se abdicando de um raciocínio mais formal, da lógica pura, do pensamento abstrato, dos mecanismos que usados e treinados dão origem aos tão desejados automatismos. A memorização abre muitas vezes o caminho para uma compreensão plena. Sem a memorização a compreensão se não for treinada e aprofundada esquece-se ao longo do tempo, as referências e os contextos perdem-se. Ao contrário do que se possa pensar, não é contextualizando, fragmentando e ilustrando que se desenvolve o espírito crítico (mas será que alguém está interessado em que nas escolas as crianças o desenvolvam?), ele adquire-se exigindo uma maior agilidade e elasticidade mental através da formalização do pensamento, do uso da lógica. Claro que dá trabalho, exige esforço, concentração e dedicação, valores que vão desaparecendo da escola

24.10.07

Anoitecer

Ontem (clicar para aumentar)

Knocked Up

Por razões várias e que não são para aqui chamadas vi-me ontem numa situação de ter que ver o filme “Azar do Caraças”. O título, só por si, dá vontade de fugir e gostei muito pouco da ideia de, ao comprar os bilhetes ouvir-me pronunciar a palavra “caraças” num contexto que não era escolhido por mim. O título original é “Knocked up”, muito mais revelador daquilo que nos espera: uma passagem abrupta e imprevista de um mundo infantilizado em que vivem as personagens para o mundo adulto, por causa de uma gravidez. O trailer do filme, que já tinha visto, também não augurava nada de bom e tudo me preparara para ver, de mau humor, uma comédia americana daquelas parvas, banais e tantas vezes confrangedoras. Puro engano meu. Ao fim de 10 minutos já tinha percebido que estava perante um filme bom, muito bom mesmo e com certeza a melhor comédia que vi nos últimos longos anos.

Trata-se de uma comédia original sobretudo pela forma como nos faz rir: não se sustenta nem com os esperados e normais trocadilhos de linguagem nem é uma comédia de situação que viva de previsíveis e parvos quid pro quos. Esta comédia vai mais longe, mais fundo, pela forma, às vezes assustadoramente realista e sem limites do politicamente correcto com que as personagens reagem às diversas situações que apesar de tudo não são aberrantes. O olhar cru e desapiedado, mas sempre simpático e sem arrogância, do realizador vai buscar às personagens a sua vulnerabilidade, incongruências e humanidade, sem medos de nos mostrar o que ele vê, sem embelezar, ou editar demasiado e surpreendendo-nos sempre e ainda mais. Uma comédia inteligente, com recursos que nos surpreendem e um filme que nos faz realmente rir e muito. Rir com gosto e rir contragosto.

23.10.07

O debate sobre as questões europeias já chegou a um nível tal que o melhor argumento para ser a favor da realização de um referendo não são as questões europeias mas o facto de alguns políticos iluminados passarem aos seus concidadãos um atestado de burrice dizendo que a matéria é demasiado complexa para eles entenderem e se poderem pronunciar e decidir. Nada como esta imbecilidade vestida de arrogância para que o argumento pró-referendo surja com toda a pertinência. Porque é que os portugueses não percebem? Talvez porque ninguém se proponha explicar, ou porque não querem, ou porque temem o resultado de uma consulta popular. Este motivos são atentados contra a democracia, que deixam os responsáveis políticos a assobiar para o lado, enquanto segredam uns com os outros e parecem deixar o país indiferente. Mais uma vez. Deviam ter mais cuidade nos argumentos que usam pelo menos para aqueles que ainda não estão completamente desprovidos de capacidade analítica e crítica. A questão europeia é mais complexa do que a regionalização? Porquê? Será mais complexa do que a questão do aborto em que um voto Sim ou um voto Não escondeu tantas vezes as dúvidas éticas e morais de tantos votantes. Porque é tão complexo perceber coisas como duplas maiorias, peso em votações e outras deliberações, rotatividade e de cargos, tempo de mandatos? Ou são outras as questões fundamentais do debate? A tratarem assim os cidadãos - que no entanto para pagarem impostos e preencherem papeis de IRS já se supõem competentes - não se admirem de cada vez que os alunos da Faculdade não saibam escrever, não saibam contar, não conseguigam desenvolver raciocínios abstractos.

Dando Excessivamente sobre o Mar 14

Eugène Delacroix
Falaises d'Etretat (1849)
(Clicar para aumentar)

Me and Mrs Jones

Fiquei pasmada. Não sabia que ainda se cantava assim. Que ainda se faziam canções deste calibre. Se calhar estou enganada e é mais uma questão de “agora, voltou a cantar-se assim”. Seja como for, o cantor, a sua roupa, a voz, a música, a orquestra, a letra da canção, a presença no palco, tudo me parece anacronismo no seu estado puro, a fazer lembrar os idos anos de 50 ou 60. Tempos em que existiam Mrs Joneses e Mrs Robinsons. Vale a pena espreitar. (Link no fim)

Me and Mrs Jones, we got a thing going on
We both know that it's wrong
But it's much too strong to let it go now

We meet ev'ry day at the same cafe
Six-thirty I know she'll be there
Holding hands, making all kinds of plans
While the jukebox plays our favorite song

Me and Mrs, Mrs Jones, Mrs Jones, Mrs Jones
We got a thing going on
We both know that it's wrong
But it's much too strong to let it go now

We gotta be extra careful
That we don't build our hopes too high
Cause she's got her own obligations and so do I
Me, me and Mrs, Mrs Jones, Mrs Jones, Mrs Jones

Well, it's time for us to be leaving
And it hurts so much, it hurts so much inside
And now she'll go her way, I'll go mine
But tomorrow we'll meet at the same place, the same time
Me and Mrs Jones, Mrs Jones, Mrs Jones

22.10.07

Plataforma contra a Obesidade 23

Balthasar van der Ast
Still Life with Fruit and Flowers (1620-21)
Clicar para ver melhor

Pisar Luares

A imbatível dupla de que falei aqui, João Pedro Pais e Mafalda Veiga, brindou-me hoje cedo de manhã e no meio do trânsito com outra pérola retórica a puxar para o transcendente. Assim cantava ele: Piso luares perdidos no chão. O quê? Perguntei-me com dificuldade em apreender e racionalizar tal mensagem. Aumentei o volume do rádio para confirmar e não só confirmei como ouvi (uma canção sem graça) imagens do género: em cada grito da alma eu sou igual a ti (muito gostam eles da alma), pinturas de guerra que não sei apagar, e outras insanidades mais (não, não faço link) que deixaram a minha cognição afectada e mais perdida do que os luares. Pisar luares perdidos no chão? A sério? Poderia dar pontuação pela imaginação delirante, mas francamente que é que isso quer dizer? Temo que nada, tal o som do vazio e do oco. Estas letras de música deveriam pagar imposto. Parece que se trata de um CD desta parceria, o que quer dizer que provavelmente tornarei a escrever sobre eles.

21.10.07

Pó de Estrelas


É sempre de baixas expectativas e com alguma relutância que vou ao cinema ver os chamados filmes infantis ou de fantasia. Talvez por isso, quando gosto, sou surpreendida por esse facto e o valorizo mais. Tão mau como filmes infantis, senão pior, são para mim os filmes de efeitos especiais em que as pessoas para o comentarem usam palavras como “digital”, “tridimensional” e outras igualmente técnicas ou complicadas que nem entendo, nem me esforço por entender para designar explosões, perseguições, idas e vindas do passado e/ou futuro, visão profética, saltos de aviões bizarros para carros surreais, transfigurações e adivinhações visuais, (não James Bond não conta, é demasiado normal). Se juntarmos filme de fantasia para crianças e com efeitos especiais, as minhas expectativas são zero e a contrariedade elevada.

Assim, há uma margem importante para que o filme me cative e isso aconteceu com Stardust. Com excepção de alguns momentos explosivos, literalmente, quer em termos de ruído quer no que respeita à luz, algo exagerados e cansativos, o tempo passou depressa. A história é engraçada, algo ingénua e naïve, contada com humor e não é desprovida de inteligência, apesar de previsível desde o início na sua essência. O ritmo crescente prende-nos, a música algo épica ajuda a criar o ambiente de urgência, as personagens são provocadoras a todos os níveis: personalidades, roupas, adereços, maquilhagem (Michelle Pfeiffer, Robert de Niro, por exemplo) os cenários exteriores e interiores são interessantes e sem exageros formais nem fantasias excessivas e, confesso, que nem os efeitos especiais me pareceram pesados ou desajustados. É fácil envolvermo-nos sem resistência ou contrariedade naquela espiral de fantasia e na simplicidade simbólica do filme. Duas horas muito bem passadas no meio do pó das estrelas.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 14

Terracotta 'Tanagra' figure of a woman
Greek (3rd-2nd century BC)



Desconfiar

Da Ortodoxia

Quando li este texto - escrito há seis dias, uma eternidade blogosférica - percebi bem essa simpatia pela ortodoxia tranquila e silenciosa, que não se impõe, que se faz todos os dias com disciplina e abnegação, que conhece o percurso, o passo seguinte e nunca deles se desvia mesmo nos momentos em que, por um breve instante, hesita diante dos remédios ou das soluções. Se a ortodoxia é difícil e requer renúncia, ela também dá conforto, alguma tranquilidade e sobretudo uma certeza de pertença. A ortodoxia é normalmente uma prática de grupo, os ortodoxos apoiam-se, conhecem-se, usam uma mesma linguagem e têm os mesmos códigos. Vivem a sua opção pessoal inseridos numa comunidade mais ou menos presente: juntos afastam a “fraqueza”, a imperfeição e a insegurança – colaboram, apoiam-se e vigiam-se. Vivem da nostalgia de uma prometida utopia que, melhor ou pior tentam recriar... Há admiráveis ortodoxos, compassivos, tolerantes, abertos ao outro e estranhamente conhecedores das fraquezas do mundo. É impossível não os admirar.

Mas a ortodoxia não serve os solitários ou os individualistas – os que questionam percursos, caminhos ou soluções. Os que tantas vezes se refugiam na prática, nos rituais e na disciplina para esconder a dúvida. Os que não gostam de disciplina, que não se revêem em práticas ou rituais, mas que têm poucas dúvidas. A segurança de um grupo acaba por intimidar tantos dos que lêem um livro, e mais outro, outro ainda e nunca os queimam, nem em fogueiras nem na cabeça, mas guardam-nos para lembrarem, relerem, pensarem, ajuizarem, criticarem e claro duvidarem. Por muito apelativa e tranquila que seja a ortodoxia, por muito que a olhemos com admiração e uma ponta de inveja, eu desconfiarei sempre dela, tão perfeita e tão segura, tão cheia de certezas e preferirei sempre a heterodoxia, a contradição, a imperfeição, a hesitação, a procura, a dúvida, a certeza que às vezes se confunde com a incerteza.

18.10.07

Combate ao Sedentarismo 39

Vinte Páginas

Lizaceta Ivanovna was indeed a most unfortunate creature. Bitter is a stranger’s bread, says Dante, and steep the steps to a stranger’s door – and who can better understand all the bitterness of dependency than the poor ward of a highborn woman? The Countess did not, of course, have an evil soul, but she had the self-will of an woman who has been spoilt by society; she was miserly and had sunk into a cold egotism, in the way of old people who are done with loving and who have became strangers to the present day. She took part in all the vanities of high society, dragging herself along to balls, where she sat in a corner, heavily rouged and dressed in the fashion of an age gone by, like some hideous but indispensable ballroom ornament; newly arrived guests went up to her with low bows and curtsies, as if according to some established ritual, and after that no one took any more notice of her.

Pushkin, The Queen of Spades

Dizia o tradutor (do Russo para o Inglês) da dificuldade em traduzir um conto como este em que “you can’t afford to change a single comma”, tal o peso de cada palavra e a tensão em cada frase. Este é um conto magnífico, dos melhores contos que já li – e já li milhares. Uma história inusitada mas densa e cheia “daquilo” que nos torna humanos e de fado, que nos surprende a cada parágrafo, e personagens delineadas como sombras chinesas com minúcia e detalhe, só onde é preciso para que as percebamos com clareza (a frieza de Hermann na intencionalidade – e mais não digo - é exemplo dessa minúcia), conduzem-nos pelas páginas do conto com a atenção desperta, a curiosidade afinada e um prazer imenso. O (meu) prazer de ler exaltado como desejo e nem sempre consigo. O conto tem uma estrutura narrativa exemplar: um ritmo de tensão em crescendo sinfónico, cada novo detalhe ou índice funcionam como um novo instrumento da orquestra que se impõe, ou o ritmo que se acelera - nada que cause estranheza, só mesmo o suficiente para criar, manter e aumentar uma inquetação, um desconforto. A linguagem é limpa, elegante e simples na sua precisão e isenta de enfeites, ornamentos retóricos que tirariam força à tensão e suspense. Não há uma palavra a mais.

Vinte páginas de obra-prima.

Adenda: O "milhares" acima referido, na sua imensidão, induz em erro. Mais de mil certamente, milhares como dezenas de, ou centenas de, é claramente um exagero. Se fosse britânica teria dito meia-dúzia!

16.10.07

Amanhecer

Hoje.
Enquanto accionista do BCP, vou escrever ao Conselho de Administração para formalmente pedir que, tal como a Instituição o tem feito anteriormente, seja perdoada a minha dívida - coisa pouca. De acordo com a informação de que disponho, estou confiante.

Velas 5

Ontem, o Navio-Escola Sagres a entrar no Estuário do Tejo. (Clicar para aumentar)

12.10.07


O blogue faz uma breve pausa e regressa daqui a uns dias.

10.10.07


Depois de durante as últimas semanas se falar novamente do Processo Casa Pia quer a propósito do novo Código Penal, quer por causa da entrevista dada por Catalina Pestana, esta intervenção do Presidente da República não deixa de ser oportuna. Não sei se será eficaz – e gostaria muito que fosse - mas é oportuna, e espelha o sentimento de tantos portugueses que se perguntam o que é feito das investigações, como vai o processo, porque se arrasta o julgamento, porque é que ainda nada se concluiu, porque é que mais uma vez a culpa parece, pouco a pouco estar a morrer solteira, concluiu-se que há vitimas, mas parece não haver agressores. O que é que falha? O que é que falhou?

Leaving New York

It's quiet now, and what it brings, is everything
comes calling back, a brilliant night, I'm still awake
I looked ahead, I'm sure I saw you there.
You don't need me to tell you now, that nothing can compare

You might've laughed if I told you,
You might have hidden your frown.
You might've succeeded in changing me,
I might've been turned around.
It's easier to leave than to be left behind,
Leaving was never my proud,
Leaving New York never easy,
I saw the light fading out.

Now life is sweet, and what it brings
I tried to take.
the loneliness it wears me out,
it lies in wake.
and all I've lost, you're in my eyes,
shatter a necklace across your thighs
i might've lived my life in a dream
but i swear it, this is real
memories refuses, and it shatters like glass
mercurial future, forget the past,
but it's you, it's what I feel

You might've laughed if I told you,
You might have hidden your frown.
You might've succeeded in changing me,
I might've been turned around.
It's easier to leave than to be left behind,
Leaving was never my proud,
Leaving New York never easy,
I saw the light fading out.

You find it in your heart, it's pulling me apart,
You find it in your heart, it's pulling me apart.

I told you, forever, I love you, forever

R.E.M.
Leaving New York

9.10.07

Plataforma contra a Obesidade 22

Paul Cezanne
Still Life with Fruit Dish. 1879-80

Tolerância Zero

Se há algo que verdadeiramente me incomoda e revolta é a complacência dos países ocidentais perante práticas, sobretudo sobre mulheres e meninas, que atentam contra a sua dignidade, liberdade, e integridade física e que têm sido importadas de países islâmicos através da imigração. Os governos ocidentais têm sistematicamente fechado os olhos a situações tais como: abandono escolar de raparigas a partir da puberdade, porque elas nessa altura deixam de poder conviver com outros homens que não os seus familiares, recusa em deixar as raparigas praticarem desporto ou frequentarem aulas de Educação Física com rapazes ou com o corpo parcialmente descoberto. Recusa em deixar tratar meninas ou ser tratada por médicos homens, mesmo que não haja mulheres nessa altura. Casamentos de conveniência em que a mulher, ou tantas vezes a ainda menina não tem opinião; com frequência elas são levadas para fora dos países em nasceram, cresceram e viveram, para casar contra vontade nos países de origem dos pais ou avós, o que as deixa sem liberdade de recusar e torna a sua fuga quase impossível, bem como se lhes perde o rasto. Por último menciono a excisão. Para a excisão nos países europeus a tolerância é zero. (via Blasfémias)

8.10.07

Olhando para o céu

Hoje (clicar para aumentar)

7.10.07

Velas 4

Coisas que se podem fazer ao Domingo 13

Frémyn ROUSSEL
Ange rappelant sur une tablette la mémoire du roi François II (1563-65)


Escrever um diário.

Governo quer valores republicanos na escola, ou a escola transformada no “serve para tudo” da nova ordem moral politicamente correcta com raias de jacobinismo cada vez mais evidentes. Quem tiver dúvidas que consulte o programa dessa inovadora disciplina chamada “Educação Cívica” ou que esteja bem atento aos textos de Língua Portuguesa que são oferecidos às crianças nos manuais escolares. Porque é que o governo não centra a actividade escolar no ensino e aprendizagem das matérias clássicas: matemática, português, línguas, ciências, história, artes, incentivando valores como a disciplina, o trabalho, o esforço, o respeito pelos outros? (O ideal era o governo interferir o menos possível no ensino, mas isso é outra questão).

Encham a cabeça das crianças, adolescentes e jovens dessa treta toda, pode ser que fiquemos melhores – claro que me pergunto como é que países como o Reino Unido, Holanda, Suécia ou mesmo a vizinha Espanha, conseguem ter graus de literacia e de sucesso escolar superiores ao nosso, e no entanto vivem (crianças e adultos) sem a alegria dos valores republicanos...

Por favor deixem-nos em paz!

5.10.07

Homens com Estilo

A white French-cuff shirt makes the gentleman.
But be sure to keep the cuff links simple—the boldness of the cuffs makes enough of a statement.


Chama-se aqui a atenção para um portfolio de 50 homens que marcaram o estilo do século XX, publicado pela GQ que assinala o seu aniversário. Fui espreitar. Para além das belíssimas fotografias, as legendas a cada uma delas terminam com uma “dica” de estilo, inspirado na pessoa fotografada dessa página, a que achei alguma piada.

Sobre estilo, sempre me pareceu um pouco desnecessário fugir às imensas banalidades teóricas e subjectivas que fica sempre bem dizer tipo: para ter estilo é preciso ser igual a si próprio, é necessário estar bem consigo, ter confiança, ou não tentar ter estilo, etc, etc. Não porque sejam falsas, mas porque não ajudam quem o não tem e são dispensáveis para quem o tem. Numa sociedade em que todos querem ter tudo, mas em que a insegurança e necessidade de reconhecimento impera – a todos os níveis - as ditas “dicas” são úteis a um cada vez maior número de pessoas, homens e mulheres, que no meio da diversidade da oferta de “estilos” querem tentar senão encontrar o seu, pelo menos encontrarem algumas certezas de que possam não fazer má figura. Por isso vou destacar alguns desses conselhos que apesar de às vezes parecerem vindos de e próprios para príncipes e reis, podem ser úteis a tantos republicanos perdidos no mundo dos hábitos.

Personal style isn’t about buying the trendiest labels or most expensive suits. It’s about establishing a look that’s all yours and sticking with it. (Jack Kerouac)

A tweak here and there can elevate even the simplest outfits. Notice the rolled-up sleeves, the neckpiece, the beat-up boots instead of sneakers. Small moves like these separate you from the pack. (Johnny Depp)

The little things make the man. Notice the cufflinks and the pocket square. But also notice that they’re subdued—white handkerchief, understated links. And the suit, shirt, and tie are also subtle. Look chic, not like a mobster. (Sean Connery)

Underdressing is the only sin. You should never be afraid to be the best-dressed man in the room. (Hubert de Givenchy)

Estes são conselhos mais genéricos, mas outros mais práticos e úteis de que gostei e que me pareceram úteis, encontram-se nas fotografias de: Michael Jordan, Peter O'Toole, Mick and Keith, Alain Delon, Marcello Mastroianni, The Kennedy Brothers, George Clooney, Muhammad Ali, Paul Newman e Samuel Beckett. (Não consegui fazer os links - é mesmo preciso ir lá ver)

4.10.07

3.10.07



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O estilo já mudou. O tom também. Compare-se o estilo e o tom de Manuela Ferreira Leite a refutar com firmeza as acusações de Marcelo Rebelo de Sousa com o estilo e tom de Ângelo Correia a falar sobre Marcelo Rebelo de Sousa e a sua irrelevância. Percebe-se a diferença, não percebe?


O Cardeal Patriarca sobre o Diploma que prevê o fim das Capelanias nos hospitais. Interessante este excerto: “são as capelanias católicas que têm chamado ministros de outras religiões, mostrando quão longe está o governo legislador da realidade vivida nos hospitais. Na sua perspectiva, os hospitais devem ter “um serviço de capelania ecuménica”, mas que atenda à dimensão da Igreja Católica.



Entretanto noutras partes do planeta, na Birmânia, descobre-se uma realidade que preferíamos não ter que saber. Thousands of protesters and monks missing in secret gulag of the generals.


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