“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

20.12.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 20

Turner, Joseph Mallord William, 1775 - 1851
The Evening Star
(clicar para aumentar)

19.12.07

Magnificat 7

Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

Outros Mundos

Enquanto que em muitos países do mundo em que o secularismo está bem radicado e em que há uma clara separação entre o poder (político, judicial e legislativo) e a religião, se insiste em criticar, condenar e por vezes até ridicularizar qualquer acto ou ritual religioso que envolva um mínimo aparato e visibilidade noutros, como o caso do mundo islâmico hoje, vive-se uma festa religiosa importante, Aïd El-Kebir (no Norte de África, sendo também conhecida como Eid ul Adha). Manda a tradição que, em memória do primeiro profeta cuja submissão a Deus o teria levado a sacrificar o seu filho, cada família sacrifique um carneiro (ou outro animal). Cabe ao pai de família, numa mostra de religiosidade e de masculinidade, degolar o carneiro sob o olhar atento dos familiares, nomeadamente dos seus filhos que terão que aprender a um dia a fazê-lo, e de acordo com um determinado ritual. Quem vive em apartamentos ou casas pequenas fá-lo na rua, que se enche de gente, carneiros ainda vivos, outros já degolados e sangue que em abundância escorre por todo o lado. Nesses países poucas vozes criticam os rituais religiosos e poucos defendem o secularismo do Estado. Outros mundos.

Combate ao Sedentarismo 45

18.12.07

Magnificat 6

Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

Tardes de Inverno 4

Petrus-Paulus RUBENS (1577-1640)
Hélène Fourment au carrosse
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Magnificat 5

Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

17.12.07

Promessa Cumprida

Depois de A Bússola Dourada quis ver um filme que não me desiludisse, e aproveitei o facto de não estar exactamente de bom humor (sim, que há certas coisas que não se conseguem fazer tão bem de espírito limpo), e fui ver o filme de David Cronenberg Eastern Promises - traduzido para um indiferente e banal Promessas Perigosas. Não conheço todos os filmes de Cronenberg, mas os que conheço (sobretudo os mais antigos) nunca me desiludiram. Também confesso que a dupla Viggo Mortensen e Naomi Watts não foi indiferente ao apelo que o filme exercia sobre mim.

O filme é tido como um thriller, mas confesso que nunca tive dúvidas nem senti grande suspense, não tanto sobre o desenrolar do enredo nas suas nuances, mas quanto à progressão narrativa e ao padrão dessa progressão, por isso a tensão era razoavelmente constante e o suspense foi substituído pelo incómodo constante, pela violência, por aquilo que nós, espectadores, sabemos que está mal, e nem sequer no final do filme esse sentimento é aliviado. O filme não terá um clímax no sentido clássico de atingir o pico de tensão e de posteriormente a resolver preparando o final, porque a tensão é permanente, com momentos mais ou menos em que a violência, mais do que o suspense é sua catalisadora. A cena mais violenta, e magistralmente feita, filmada e coreografada em que o actor se expõe sem limites numa entrega à câmara de filmar muito pouco comum, dura, segundo dizem, 4 minutos - para mim foi uma eternidade, e eu creio que não consegui ver nem metade: fechei os olhos e depois tapei os ouvidos pois mesmo sem ver, o som era de um grafismo demasiado evidente e arrepiante. Cronenberg é um realizador que põe sempre em evidência, trabalhando e olhando de formas diferentes, a fisicalidade e a plasticidade dos corpos, e no que eles têm de específico e diferente e este filme não é excepção. Viggo Mortensen é simplesmente fabuloso em todos os aspectos: desde o penteado até à forma como apaga o cigarro. Naomi Watts de uma forma menos óbvia mostra também como é uma grande actriz na sua personagem determinada mas frágil, que quer o fazer o que está certo, mas que não é totalmente inocente. Vincent Cassel é também um actor convincente numa história que nunca faz concessões ao fácil ou ao óbvio. Apesar de ter fechado os olhos algumas vezes, senti-me vingada da chatice que foi ter visto dois dias antes um filme enfeitado mas vazio, e foi um prazer ver um bom.

16.12.07

Magnificat 4

Quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI


Velas 9

Velas... de fim de semana
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Coisas que se podem fazer ao Domingo 20

Estátua de Nakhthorheb a rezar
Época Baixa, 26ª dinastia, (595-589 AC.)
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Rezar

15.12.07

Magnificat 3

Quia respexit humilitatem ancillæ suæ: ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

Golden Compass

Começou a minha época natalícia de filmes que todos os anos desejo que seja bem curta. Começou mal com um Bússola Dourada que não me convenceu nada e eu até estava predisposta a gostar sobretudo depois da boa experiência que foi de Stardust (como referi aqui).

Os efeitos especiais, naves bizarras, paisagens extraordinárias, metamorfoses e feiticeiros só por si não me convencem. Nem uma Nicole Kidman impecável na sua frieza, me fez fraquejar. O filme (o primeiro de uma trilogia) é pobre sobretudo se o compararmos (coisa inevitável tal a abundância de referências que ele carrega) com a trilogia O Senhor dos Anéis, ou mesmo a saga Harry Potter, e o recente filme As Crónicas de Nárnia. Parece uma manta de pequenos retalhos tirados daqui e dali que fazem uma história sem interesse apesar de nos ser servida com complexidade científica e mágica. Uma bússola, que não passa de um gadjet que não vale nada, e refiro-me ao nível simbólico, uns ursos irrelevantes e pacóvios, uns “maus” que não se sentem nem se sabe bem de onde vêm, e um “bom” (o tio, interpretado por Daniel Craig) que não se percebe bem o que faz, porquê e para quê, e uns alter-egos (os animais) que são talvez a ideia mais original e interessante do filme. Deixo para o fim a personagem principal, a menina esperta de 12 anos que decide, revolta-se, desobedece, luta, incentiva, lidera. É de mais para uma criança, mesmo num filme fantástico para a época natalícia: irritou-me desde o primeiro momento. Assim não se pode gostar do filme.

Ainda semi atordoados com os sucessivos sucessos do nosso Primeiro-ministro, e por isso do nosso Portugal, no palco das cimeiras realizadas nas últimas semanas a um ritmo frenético, deparamo-nos hoje, e sem pausas para respirarmos e retomarmos o fôlego, com o Primeiro-ministro real, dos anúncios de promessas reais e concretas - mas de cumprimento relativo, ao ritmo previamente pensado e estabelecido. Nada deixado ao acaso. Por isso tudo parece querer voltar à normalidade na Costa Ocidental da Europa.

E em época natalícia, nada melhor do que anunciar novas creches.

13.12.07

Magnificat 2

Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

Asas 2

Aliás, hélices.
Hoje na zona de Belém onde se assina o Tratado de Lisboa
(Adenda: diz-me um leitor que não são hélices, mas sim rotores.)

Amanhecer 2

Ontem
(clicar para aumentar)

12.12.07

O Saco de Plástico

O saco de plástico é, num país ainda novato em matéria de consumismo e depois de décadas a ser educado para poupar, um símbolo de esbanjamento e progresso, bem como uma verdadeira praga da nossa “modernidade”. Portugal não escapa a ele, aliás até deve ser um país que o usa e abusa, assim a meio caminho entre o mundo desenvolvido e “sofisticado” que os evita e prefere o de papel, e um mundo menos desenvolvido mais pobre e por isso menos consumista.

Os sacos de plásticos de supermercado então, são todo um caso a merecer estudo, doutoramento até, tal a sua proliferação e sucesso entre os consumidores. São um objecto feio sem excepção, exibem grandes e desajeitados logos de cores fortes e são, também sem excepção, de uma qualidade que desafia a paciência de qualquer um. Comprar um ananás ou outro qualquer produto que tenha uns ângulos mais pontiagudos ou duros e chegar a casa sem o saco rasgado e os produtos a tombarem é um feito digno de registo. Tenho-lhes tanto horror que inúmeras vezes no supermercado me esforço por encher cada um de uma forma pensada (eu sei, pensar para encher sacos é de uma presunção!) esforçando-me para trazer o menor número possível deles para casa. Esforço esse tantas vezes em vão, pois os funcionários(as) da caixa parecem gostar de os encher pouco e de os dar liberalmente aos clientes num gesto de condescendente generosidade e cumplicidade, numa lógica que me ultrapassa, gastando muitos mais do que eu gastaria. É que eles sabem. Sabem que apesar de feios, e de má qualidade há toda uma cultura enraizada de pegar e levar tantos quanto possível, mesmo novos e sem usar, com o secreto pretexto de os utilizar para o lixo: o segredo mais bem guardado dos lares portugueses. Também nunca se sabe de quando podemos precisar de um saco de plástico, e isto de ser previdente nunca fez mal a ninguém, - as tais décadas a poupar de que falei. É uma imagem triste e confrangedora a do(a) português(a) que leva na mão um saco de supermercado rasgadito aqui e ali, a abarrotar de lixo e mal fechado para o contentor mais próximo de casa. Para o lixo deviam ser utilizados sacos de lixo: é para isso que eles são feitos, é para isso que eles servem. Acabar com a tentação do saco de plástico foleiro do supermercado para o lixo poderia, isso sim, ser uma prioridade nacional.

Mas ouvir o governo falar em impor um custo ao saco de plástico, isso é que não! Não me oponho a que as grandes superfícies cobrem aos clientes os custos de um saco, mas então que seja um saco de dimensões e qualidade razoável, e não estas coisas que eles esbanjam, no entanto sou ferozmente contra a intervenção do Estado e a criação de um novo imposto com a desculpa de uma política ambiental. Basta de interferência, basta de taxas e impostos. O Ikea é um bom exemplo de grande superfície que cobra os sacos que os clientes querem usar e por isso vende-os e eles são de uma razoável qualidade: de papel, grandes e resistentes. A lógica assim pode funcionar, porque o cliente paga, também poupa, porque grandes e resistentes, podem servir para muitos produtos, porque de papel poluem menos do que os de plástico e finalmente... nunca servirão para lixo.

11.12.07

Magnificat

Magnificat anima mea Dominum.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

Combate ao Sedentarismo 44

(Grace Kelly and James Stewart got thirty seven kisses in three minutes in the film Rear Window)

Parece que o nosso Primeiro-ministro numa entrevista a um jornal espanhol terá confessado, num premeditado, preparado e ensaiado momento de abertura, descontracção e espontaneidade, que calçava Prada. Se assim é, it's a big mistake, José! Os homens em quem se confia calçam Church’s. Basta clicar para ver a diferença. Quem não entende, que meta explicador.

9.12.07

Gostar de África 3

Jovens leões - África do Sul
(clicar para aumentar)

Gostar de África 2

Mercado, Guiné-Bissau
(imagem daqui)

8.12.07

Gostar de África

Sahara (Argélia)
(clicar para aumentar)

Plataforma contra a Obesidade 27

Henri Matisse
Still Life with Oysters (1940)
(clicar para aumentar)

Pedem-me para nomear cinco filmes, mas talvez porque tenha chegado Quase em Português, fiquei sem perceber bem o critério da nomeação. Os melhores? Os que mais me marcaram (seja lá o que for que isso quer dizer nos diferentes momentos da vida que vamos vivendo), os que vêm primeiro à cabeça, os que vimos mais vezes, os que compramos em DVD, os últimos que vimos, os que..., os que...

Mesmo que faltando critérios de selecção eu, que já gostei de cinema mais do que hoje em que me limito a gostar de ver alguns filmes de forma mais confortável a nível de exigência, não tenho dificuldade em nomear cinco, nem mesmo cinquenta. Assim, nomeio sem ordem nem critério que não seja o “porque sim”:

1. O Meu Vale Era Verde, de John Ford. John Ford é, talvez, o meu cineasta preferido, e poderia nomear qualquer um dos seus filmes, mas este é especial porque “marcou”. Maureen O’Hara está fabulosa.

2. Lawrence da Arábia, de David Lean. Um filme contemplativo que desperta o fascínio pelo deserto, com dois belos actores. Nunca me canso de o ver.

3. A Dama de Xangai, de Orson Welles. Sempre gostei mais deste do que de O Mundo a seus Pés. Magia entre Rita Hayworth e Orson Welles.

4. O Terceiro Homem, de Carol Reed. Dispensa comentário. Uma bela história. A voz de Orson Welles é fabulosa, assim como a cena final.

5. O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme. Um bom thriller com uma dupla de actores que se desafiam. Diálogos bons. Jodie Foster no seu melhor.

Não sei como pude deixar de fora “E tudo o Vento Levou”, e como não nomeei nenhum Hitchcock, mas se começar a pensar vejo que deixei muitos "essenciais" de fora. Passo o desafio ao Menino Mau, ao CAA, ao Eduardo e à Miss Pearls.

7.12.07

Tardes de Inverno 3

FRAGONARD, Jean-Honoré (France, 1732-1806)
La lettre
(clicar para aumentar)

5.12.07

A Cimeira UE-África, ou Porreiro, pá! (bis)

D. Daniel Adwok Bispo auxiliar de Cartum diz não compreendo a decisão da presidência portuguesa da União Europeia. Pois já somos dois se me for perdoada a arrogância de pretender perceber e sentir seja o que for do que se passa em Darfur. Não só não compreendo a criação do tabu direitos humanos, tema a banir da agenda, como não compreendo o porquê da necessidade de realizar uma cimeira UE-África, que parece sobretudo talhada à medida para servir um qualquer "orgulho nacional” assumido por um primeiro ministro vaidoso e que nunca escondeu a vontade de deixar uma marca da sua presidência na história da UE. O tratado de Lisboa e agora a Cimeira. Espero que a UE não pague muito caro o preço desta vaidade.

Não sei o que é que de concreto se pode esperar desta cimeira, nem porque é que ela é necessária, nem tão pouco em que é que as relações entre a Europa e África possam visivelmente melhorar. A vontade da fotografia de grupo é maior do que ter um pingo de decência e vergonha que nos impeça de celebrarmos (a palavra parece adequada, infelizmente) uma cimeira lado a lado com a pior espécie de líderes políticos. O nosso Primeiro-ministro juntamente com Durão Barroso cuja febre africana e “orgulho nacional” o une a José Sócrates na vontade desta cimeira, vão literalmente - e porque cederam à chantagem da imposição de uma agenda e imposição de tabus, apadrinhar toda uma série de regimes políticos bárbaros e corruptos, bem como os seus líderes políticos igualmente bárbaros e corruptos para além de toda uma parafrenália de regimes obscuros, ditatoriais ou democraticamente musculados (como gostam de ser chamados), corruptos e opressivos, nas versões mais “soft” num universo em que a democracia é uma excepção. As vítimas, os africanos sem terra, sem trabalho sem condição de viver enquanto os líderes enriquecem a olho nu, serão mais uma vez esquecidos, entre uns discursos, umas palmadinhas nas costas, um espumantesinho erguido e uns “porreiro, pá!"

O Bispo de Cartum revolta-se porque sente na pele dos seus, também a sua, a barbárie do regime em que vive. Nós revoltamo-nos sobretudo de um ponto de vista intelectual e político. Se fosse um sentir tão visceral como o do Bispo, esta cimeira revoltar-nos-ia muito mais.

Dando Excessivamente sobre o Mar 19, sem mar, mas com rio

Na minha pesquisa para encontrar pinturas para o tema “Dando excessivamente sobre o Mar” agora com um cunho mais invernal e céus texturados, tive inevitavelmente que procurar entre os chamados Românticos Ingleses. Depois de declarar a minha paixão pela pintura flamenga renascentista que tanto glosei há meses, e continuarei certamente com outros pretextos, declaro o meu total fascínio pela escola dos românticos ingleses, eu que já gostava deles da literatura. Constable tem sido uma admirável surpresa, pois era um pintor que antes pouco me dizia. Ter um blogue há-de servir para alguma coisa!

Com o pretexto ambiental e tão politicamente correcto, o governo acabou de inventar mais um imposto. O imposto do saco de plástico. Uma mina de ouro. A peso desmesurado da carga fiscal deste país não terá fim à vista? E nós aceitamos tudo?

4.12.07

Sair de Cena

A acompanhar há meses, ou há anos, com fingido desinteresse, a novela da vida real chamada BCP, deparamo-nos com a figura intrigante de Jardim Gonçalves indissociável da imagem do banco que com tanto sucesso criou e fez crescer. Jardim Gonçalves figura sempre polémica que gerou amores e ódios fez lealdades e inimigos, decidiu destinos, desfez e criou, teve sempre uma qualquer estrela que o talhava como uma personagem de contornos shakespeareanos. Nunca como hoje, em que teimosamente quer continuar colado a um destino que já não é dele, a sua estrela brilha no firmamento da tragédia, mostrando a sua dimensão humana e a sua total fragilidade perante a incapacidade de aceitar e fazer o gesto último e digno: sair de cena.

Dando Excessivamente sobre o Mar 19

John Constable (1776 - 1837)
Weymouth Bay

3.12.07


Creio que escrever neste blogue me fez mais atenta. Reparo e presto atenção a coisas que doutra forma poderiam passar por mim como a areia que passa entre os dedos. Retenho um detalhe aqui, uma frase ali, um livro, um texto, uma música, um filme, uma conversa, uma ideia, uma imagem. Alguns destes pedaços de quotidiano servem, às vezes, de ponto de partida para um texto, uma pintura, um desabafo, outras vezes perdem-se nos dias que passam, nos momentos que não foram ou porque não houve tempo ou porque não houve disposição e oportunidade para escrever. Se há posts que faço que são pensados nos dois minutos que antecedem o publicar, já outros são planeados e outros ainda são procurados olhando com mais intensidade para o que a vida trás. Percebi então, tal o afã em encontrar possíveis futuros posts que não deixem a “folha em branco” por muito tempo, que não há tanta espontaneidade como pensava nem talvez tanta inocência assim – há, no entanto e sempre, a predisposição para olhar o mundo, ver, ouvir, procurar e descobrir. E tantas vezes descobrir o descoberto.

2.12.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 19

Joseph Nollekens 1737-1823
Diana

Fugir
.

30.11.07

Familiares de Ingrid Betancourt "emocionados" com prova de vida. Não são só os familiares. A fotografia não deixa ninguém indiferente. Fala mais do que as palavras e mostra o tempo que passou, a vida que se viveu e a que não se viveu. É impossível não ficar emocionado. (via Blasfémias)

Trivialidade

De vez em quando, coisas que leio, ouço ou vejo, ficam teimosamente na parte da frente da memória, como se se recusassem a ser devidamente encaixotadas, arquivadas e rumar aos fundos mais escuros e silenciosos. Não falo dos momentos significativos da vida, falo de coisas pequenas, triviais insignificantes, que adquirem, sem me dar conta disso, um valor simbólico qualquer ou representam um padrão qualquer, que me incomoda e que não me deixa esquecer o assunto em causa. Desta vez foi uma frase que Miguel Sousa Tavares proferiu na entrevista que deu à SICN, terça feira à noite. Quando questionava, com toda a legimitidade, a decisão do Público de encomendar a leitura do seu livro a Vasco Pulido Valente e das motivações dessa mesma decisão que resultou em três páginas, com fotografias e tudo, disse em tom à parte, “... porque o Público já não é um jornal de referência há muito tempo...”.

Primeiro: MST decidiu, com base em critérios que não explicou, que o Público já não era um jornal de referência há muito, direito seu, mas, será que deixou de o ser quando ele (MST) deixou de lá escrever a sua crónica às sextas-feiras? Também não disse qual era, segundo os seus critérios não explicados, o jornal de referência agora. Foi pena porque até teve oportunidade de o fazer. Será o Expresso?

Segundo: Fez a afirmação de uma forma que parecia estarmos perante uma verdade universal, um dogma e como se o facto de hoje ser remunerado pelo Expresso em vez de o ser pelo Público em nada pudesse influenciar o seu juízo. E como se nós, seus ouvintes, também nunca pensássemos nessa possibilidade esquecendo convenientemente a origem da sua remuneração no seu juízo sobre “o” jornal de referência nos dias de hoje.

Terceiro: Lembro-me, como tantas outras pessoas que hão-de lembrar ainda melhor do que eu, de quando ele saiu da SIC, depois de fazer alguns programas com sucesso (Flash-back, por exemplo) e do que dizia da SIC (e por extensão do grupo) nessa altura. Também me lembro do último artigo que escreveu no Público antes de ir para o Expresso e nunca lá vi referido como justificação para a sua saída o facto de achar que o jornal perdia qualidade.

Claro que isto é tudo uma trivialidade sem importância alguma. A importância é a memória ser tão curta e de tão fácil esquecimento. Importante é o facto das verdades universais mudarem com a rapidez com que muda o vento. Importante é pensarem que todos pensamos igual, importante é assumirem (e MST é apenas o pretexto hoje) que não temos memória, importante é sistematicamente e em que circunstâncias forem tomarem-nos tão facilmente por parvos. Se calhar somos, ou deixamos que pensem que somos.

Combate ao Sedentarismo 43

29.11.07

Três pequenos instantâneos da “nossa” política internacional.

O sempre diligente, atento e obrigado Primeiro-ministro conseguiu uma proeza: Coube a José Sócrates a declaração explícita exigida pela China. Lembrando a "posição tradicional da União Europeia, que continua a reconhecer a política de uma só China"... Só lembrar que na mesa negocial estava também a exigência feita pela China para que a União Europeia condenasse de forma explícita o referendo em Taiwan sobre a adesão às Nações Unidas, o que acabou por conseguir.

De repente não me lembro da posição da UE em relação ao Kosovo... Terá uma? Dois pesos e duas medidas (o da China e o do Kosovo, I mean).

O discreto Ministro Luis Amado sobre o menos discreto Mugabe: “preferia que não estivesse presente”, mas “tem todo o direito de vir”, “já se sabia há muito tempo. Ele tinha dito que vinha”. Gatos Fedorentos, andam por aí?

Um instantâneo da política internacional:

Uma professora britânica condenada por ter posto o nome de Mohamed a um peluche. A onda de indignação é ainda menor do que a que houve quando Kasparov foi preso.

Moral das histórias: Mugabe é livre de ir e vir. A professora que pôs um nome proibido a um peluche, não está livre. Os líderes Chineses são livres de impor agendas. Os habitantes de Taiwan não são livres de decidir do seu futuro, UE dixit. Quanto ao Kosovo... já nem sei que diga.


28.11.07

Tardes de Inverno 2

Georges de LA TOUR, 1593 - 1652
Le Tricheur à l'as de Carreau

A corrente da 5ª frase da página 161 do livro que estiver mais à mão, bate outra vez à porta deste blogue. Desta vez a simpática lembrança vem daqui.

Como todos os outros, adivinhei imediatamente quem eras!
Orhan Pamuk, Os Jardins da Memória.

Passo a corrente ao Pedro Correia, que ma passou da primeira vez, e ao João Gonçalves que tem sempre um livro interessante se não à mão, pelo menos no blogue.

27.11.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 18

John Constable
La baie de Weymouth à l'approche de l'orage (1819)
(Clicar para aumentar)

Rio das Flores 2

Não me pronuncio sobre o rigor histórico, que para mim em última análise é irrelevante, e as quase quinze páginas de bibliografia não impressionam. O que não é irrelevante é o tom com que essa História nos é dada ao longo do romance. Longas e demasiadas explicações num tom por vezes doutrinal que não escondem um um propósito pedagógico qualquer e que trata o leitor de uma forma paternalista como se fossemos uns ignorantes a precisar de ser ensinados, o que torna enfadonhos esses longos momentos e resultam numa dispersão da atenção do leitor que não consegue deixar de pensar que está numa série de múltiplas sessões de esclarecimento. Há uma sensação que ultrapassa a familiaridade e é mesmo de déjà vu nas conversas políticas entre personagens, com um sabor demasiado actual (em sentido histórico), o sabor que está ancorado nos anos 70 - um exemplo é o diálogo sobre pintura e comunistas que começa na página 235, e que soa estranho saindo da boca das personagens nas primeiras décadas do século passado. Grande parte das passagens históricas maçaram-me, considerei-as pouco esclarecedoras do ponto de vista histórico e excessivas do ponto de vista literário, e dei por mim a saltar parágrafos, nomeadamente nas intermináveis páginas sobre política brasileira dos anos 20 e 30.

Creio que este exagero em mostrar trabalho histórico esconde alguma falta de esforço e exigência literários nomeadamente ao nível das personagens que são poucas e pobres e que por isso dão pouca vida ao ambiente social em que se mexem. O romance, é pouco romance, tem pouca consistência, e é pouco abrangente. No fundo, e em termos literários, estamos perante uma novela com grandes explicações históricas pelo meio, que um objecto bem diferente de um romance histórico. Este é talvez o ponto mais fraco do romance e o equívoco do autor.

As personagens, como já referi, são poucas, pobres e bidimensionais, sem profundidade nem densidade suficiente para carregarem aos seus ombros o “fardo” de uma saga familiar e social. Valmonte, como personagem, parece mais forte do que quem a habita. Diogo é uma fraca personagem principal de quem se aprende a não gostar e que, com o desenrolar do enredo, vai desencantando. Rapidamente desenvolvemos alguma indiferença em relação a ela, ao seu tédio, aos seus anseios de liberdade, à sua inconstância. Nunca nos marca, nunca nos apercebemos nem vivemos a intensidade dos seus dilemas, do peso das suas opções. Há hiatos temporais em momentos decisivos da narrativa e da evolução das personagens, sobretudo nas três personagens principais: a decisão final, ou a inevitabilidade do Brasil para Diogo, o sofrimento de Pedro, quer depois de Angelina quer quando fica ferido, a solidão de Amparo, e a sua opção pelo local e não pela pessoa. Pedro, talvez porque mais simples, menos exposto e menos dado a inconstâncias e insatisfações, é um pouco mais trabalhado e parece ter outra profundidade que Diogo não tem, bem como parece, desde cedo, ter a marca da inevitabilidade do seu destino: a terra, Valmonte e Portugal. Amparo e Maria da Glória são dois bons projectos de personagens, duas promessas mas ficam por aí. MST parece ter um problema com as personagens femininas (tal como em Equador) e nunca lhes faz justiça: começa com um bom esboço, mas acaba num estereótipo. Amparo, pelo menos merecia melhor. As personagens, e muito especialmente as femininas, são outro dos pontos fracos do romance. A história da família evolui de uma forma que vai sendo previsível.

Dito isto, e repetindo-me, reforço a ideia de que o livro desencanta um pouco o olhar exigente, mas lê-se bem e MST sabe escrever de uma forma que agrada, com uma linguagem acessível e usa algumas técnicas narrativas como os flash-backs com sucesso. Há alguns lugares comuns a nível da linguagem como o já célebre “quem nunca sofreu por amor nunca aprenderá a amar”, ou “juventude é beleza e beleza é juventude” (pág.593), ou um “faz de mim o que quiseres!” (pág 601), que às vezes custam a ler. O romance não sendo nenhuma peça literária marcante não é, no entanto, nem pateta nem patético e por isso espero sinceramente que MST venda muitos livros e que estes dêm prazer a muita gente.

26.11.07

Rio das Flores 1


Confesso-me uma desencantada da literatura portuguesa actual. A minha fraqueza literária são os romances e numa perspectiva quase de “quanto maior, melhor”. Não gosto de romances light, nem me entusiasmo muito pelas novelas e pequenos romances tão aclamadas mas incompreensíveis e em que nada acontece, que enchem as livrarias. Por isso, compro e leio pouco do que cá se faz. Gosto da tradição do romance do séc. XIX em que se conta uma história que se alonga no espaço e no tempo e muitas pequenas histórias numa coerência e riqueza narrativa que conta com belas e densas personagens, dilemas, uma família ou um grupo de pertença, bem como uma sociedade inevitavelmente em mudança e cujos “sinais dos tempos” são pano de fundo a dar espessura, e claro, não esqueço a necessidade de uma boa uma escrita e um estilo que fazem do romance uma peça literária. Perante este meu gosto por grandes romances, foi sempre com expectativa elevada que li mal sairam, quer o Equador, quer o Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares (MST) tal como referi aqui. Já há uns dias que acabei a leitura de Rio das Flores. Em termos gerais posso dizer que é um livro interessante e que se lê bem, com uma escrita fluida que caracteriza o autor, o que só por si é indiscutivelmente um mérito no meio de tanta publicação ilegível e presunçosa ou oca e banal que enche os escaparates das livrarias. O problema é que, elevando um pouco o grau de exigência, eu esperava mais e melhor, e direi porquê. É uma visão e opinião pessoal baseada na minha leitura da obra, uma leitura que faço por prazer e não por profissão. Não ilustrarei com excertos – como tenho feito aqui no blogue com outros romances lidos - porque o ritmo de leitura é acelerado e porque foram poucos e pouco significativos os momentos que destaquei e que me chamassem particularmente a atenção, e percebi-os irrelevantes para ilustrar as minhas opiniões. Sei que não faltam exemplos, mas não vou ler o livro uma segunda vez. Ficam por isso impressões com carácter mais genérico.

Apesar da receita mágica – já tão glosada pelos críticos - de exotismo e sexo, infalível a seduzir os leitores no seu anterior romance, Equador, creio que este (Equador) tem uma certa frescura e alguma inocência (por ser um primeiro romance?), lê-se de um fôlego só, e de ficamos presos ao desenrolar do enredo ou ao ambiente húmido de S. Tomé, esquecendo alguma banalidade estilística e previsibilidade, entretidos que estamos na espiral da narrativa. Isto é um mérito em Portugal onde normalmente - porque há excepções, se contam mal histórias. Rio das Flores é mais ambicioso, mais elaborado, mais presumido, mais premeditado, mais intencional, elevando a fasquia. Nas primeiras páginas nota-se logo esta característica, o que mais facilmente expõe o livro ao desapontamento de um leitor um pouco mais exigente.

Fica-me a sensação de um romance híbrido que não é nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário. Não é suficientemente leve nem tem um enredo simples e básico para se ler como um romance “light”, nem é suficientemente estruturado e sério para ser um romance histórico, nem tão pouco é cuidado, sólido e elaborado, nomeadamente a nível das personagens e consequentemente no retrato da sociedade para ser considerado um bom romance familiar na boa tradição literária. MST foi demasiado ambicioso: apostou em todas as frentes, levou-se demasiado a sério enquanto romancista histórico, e o resultado não é tão brilhante como gostaria, diria até que mais baço do que o seu romance anterior.

(Continua)

Operação Natal em Segurança antecipada devido a acidentes recentes. Gostaria de acreditar na bondade desta decisão e no facto de que a perspectiva do aumento de multas/verbas em nada terá influenciado o decisor.

A ler com atenção esta notícia. Se alguma dúvida tínhamos sobre a deriva dos pensadores do eduquês, ela fica esclarecida. Algumas frases só para ilustrar a ligeireza com que se tratam estas questões: reestruturar o sistema, diversificar os currículos, melhorar as condições físicas das escolas e os seus recursos humanos foram alguns dos caminhos sugeridos para combater as elevadas taxas de insucesso escolar. Nada a dizer quanto às duas últimas soluções, mas francamente, mais uma reestruturação? Mais diversificação dos curriculum? A propósito que é que isso quer dizer? Limitar a matéria a aprender? Ensinar banalidades? O facto de o 7.º ano ser o mais penalizador deve-se ao facto de se perpetuar o espírito de liceu. "As escolas tornam-se mais académicas e os alunos sentem o aumento do nível de exigência", explicou. So what? Não é suposto o nível de exigencia aumentar à medida que as crianças crescem? Ainda bem que o sentem! Se a escola produz tanto insucesso, ninguém quer ser o bode expiatório. Ora aí está uma frase bem portuguesa: ninguém é nunca responsável por nada. Dormamos em paz.

25.11.07

Hoje
(clicar para aumentar)

Eu e a Blogosfera

Já me perguntaram se leio blogues, quais e porque não tenho lista de links. Esta última questão é a mais simples, é uma questão estética mas também de princípio: gosto do aspecto gráfico do blogue sem nada dos lados, e uma lista de links lá no fundo parece-me coisa sem sentido, para além do trabalho que dá tê-la actualizada; não gosto do aspecto transaccional dos links: fazes tu, faço eu, tiras tu, tiro eu, nem quero que essa dimensão transaccional interfira na minha liberdade de fazer o que quero como quero.

É claro que leio blogues, até sou muito pouco original nas minhas preferências, mas muito fiel a elas. Há blogues que leio todos os dias: O Abrupto, Portugal dos Pequeninos, Blasfémias, A Origem das Espécies, Corta-Fitas. E há blogues que visito regularmente como Da Literatura, Arrastão, Cinco Dias, 31 da Armada, Causa Nossa, Mar Salgado O Insurgente, Atlântico, A Cidade Surpreendente, Dias com Árvores, Geração Rasca, Miss Pearls, Combustões, Bicho Carpinteiro, Ardeu a Padaria, O Avental, para mencionar alguns para além dos mencionados no post anterior. Também sigo links e visito muitos outros, alguns dos quais podem entusiasmar-me num primeiro momento, mas depois acabam deixando a sensação de “já ter lido tudo”. Por esta razão não menciono blogues muito recentes que visito, mas que ainda não sei como vão evoluir.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 18

Romano (cópia de original Grego) séc. I
Fauno com Cabrito



Apanhar e carregar cabritos

24.11.07

Eu e o Blogue

Já faço este blogue há 14 meses, percebi isso recentemente. Têm sido meses interessantes e gosto muito de o fazer, mesmo quando o percebo diferente do que pensava que poderia ser ou do que sonhei que seria, mas cada dia, cada texto, cada imagem vão-se fazendo e construindo assim o blogue. Quando o decidi fazer, gostei da ideia de ter uma página virtual em branco e nas possibilidades de a encher componho assim uma espécie de recolha/diário em que registo desabafos, ideias, livros que leio, filmes que vejo, locais que visito, pinturas e imagens de que gosto e que muitas vezes mais não são do que evocações ou nostalgias. Nada é obrigatório, mas é uma teia que se vai tecendo e uma das coisas que mais gosto no blogue é o facto de ser meu e de depender unicamente da minha vontade e inspiração. A agenda, a escolha de imagens, os temas, as reflexões e desabafos sou eu que os decido e determino. Claro que muitas vezes me apetece opinar sobre um ou outro tema mais actual, mas não o faço porque já alguém, nomeadamente na blogosfera, já o fez muito melhor do que eu, ou com mais sapiência do que eu. Por isso eu posso afirmar que faço o blogue sobretudo para mim, ou pelo menos para meu prazer e minha satisfação de uma forma discreta e tranquila e que fico verdadeiramente admirada por saber que há quem me leia e sinto-me honrada por isso. Não deixo, no entanto, que algum tipo de receio de “desiludir” seja que leitor for, me impeça de trilhar o meu caminho ao fazer o blogue. Parece-me que este é o encanto, ou desencanto, dos blogues individuais.

Uns meses mais do que outros, umas semanas mais do que as outras, mas há quem visite o blogue atrás de uma imagem, de um tema, ou mesmo porque quer ler e ver o que aqui se faz. Agradeço a todos os que por aqui passam e espero que se sintam bem vindos, nomeadamente os visitantes do Brasil que são uma parte importante das visitas. E para além da maioria de leitores anónimos que visita o blogue não posso, nem quero, deixar de mencionar os blogues que desde o primeiro momento fizeram referência ao HH e que se mantêm visitantes: Quase em Português e Espumandamente que, nem sei como, descobriram este blogue mesmo no início e fizeram de mim leitora dos seus blogues. Posteriormente, Do Portugal Profundo, Blasfémias, O Andarilho, Holocausto-Shoa, Portugal dos Pequeninos, Origem das Espécies, Corta-Fitas e 31 Da Armada, também se referiram ou linkaram o HH. Não sei se mais algum blogue o fez, se sim, as minhas desculpas pelo esquecimento ou por não ter reparado. Mais uma vez: sinto-me honrada pela atenção. O Hole Horror continuará a ser feito, um dia atrás do outro.

23.11.07

21.11.07

Os Livros Errados

Seja para onde for que eu vá levo sempre um livro comigo. A ideia de ter que esperar e ficar a olhar para o nada, ou ter que ler revistas já demasiado lidas, remexidas e desactualizadas, ou de ter que fazer de conta que não olho para ninguém, mesmo depois de ter contado os botões do casaco da senhora do lado esquerdo e de ter fixado o padrão da gravata do senhor em frente, é demasiado incómoda, muito mais do que carregar com um livro. Como não tenho paciência para os forrar (e para quê, se não os sujo?) quem estiver perto de mim pode sempre saber o que leio. Nunca ninguém se impressionou com o que leio, nunca fui abordada por causa do livro em mãos e nunca ele foi ponto de partida para inesperadas, interessantes e profundas conversas, nem para descobertas de almas gémeas que de outra forma andariam perdidas, ou de grandes e inevitáveis amores, nem tão pouco de mais prosaicas e sólidas amizades. Ler e ter um livro na mão tem sido ao longo dos anos algo de solitário e mesmo privado e que nunca despertou a curiosidade de ninguém. Lembro-me apenas de uma vez, numa consulta médica ter sido simpaticamente interpelada pelo médico que viu o livro e autor, lembro a ocasião, mas não lembro nem o autor nem o título da obra. Seria cortesia seria genuino não sei. Também me lembro de, por duas vezes creio, ao verem um livro nas minhas mãos me perguntarem se tinha lido o Código da Vinci. Não, esse não li, dizia eu terminando assim de forma demasiado abrupta a conversa como se fosse pecado não o ter lido, como se, pelo mero facto de ter um livro na mão, se pudesse inferir que teria lido o Código da Vinci.

Esta semana tudo mudou. Comecei a ler o último romance de Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores, e mais uma vez carrego o livro comigo, que é grande e pesado. E no espaço de seis dias já fui abordada três vezes em situações e locais bem distintos, uma vez por uma pessoa desconhecida e as outras duas por pessoas que mal conheço. Todas queriam saber se estava a gostar, e se falava muito do Brasil. Ando espantada com tanto interesse pela obra de Miguel Sousa Tavares. Ou então sou eu que, nas outras ocasiões, leio os livros errados...

20.11.07

Tardes de Inverno

Bellini (1433-1516)
Young Woman at Her Toilette

18.11.07

Slow Man 4

When did you last go for a walk under the starry sky? You have lost a leg, I know, and ambulating is no fun; but after a certain age we have all lost a leg, more or less. Your missing leg is just a sign or symbol or symptom, I can never remember which is which, of growing old, old and uninteresting. So what is the point of complaining? Hark!

J. M. Coetzee, Slow Man

Muito do que é este romance está condensado neste breve excerto. Tal como Disgrace, este é um romance de perda. Mas ao contrário de Disgrace a perda aqui tem uma dimensão bem física: a perda de uma perna num acidente que serve de ponto de partida para outras abordagens da perda relacionadas com a degradação física e com o envelhecimento. Nunca se entra num universo escuro, denso ou dramático, pois o romance inesperadamente leva-nos para uma narrativa suave e alegórica, com personagens inusitadas mas humanas e simpáticas e é sempre pautado por um olhar atento, um humor subtil misturado com alguma condescendência e mesmo ternura em relação às fragilidades humanas ou à própria condição de ser quem se é, como se é, onde se é. Ao longo do romance o conceito de “care” e de “love” (“to care” e “to love”) são objecto de reflexão tentando perceber onde um acaba e começa o outro, e se se sobrepõem ou não e em que circunstâncias, e nesse aspecto olha-se, nos capítulos iniciais, para o cuidado hospitalar: médicos, enfermeiros, assistentes sociais, com alguma reserva e distância, uma vez que quem trata é jovem (em contraste com o paciente, que já não o é) e não ama: trata. Também o ser jovem versus o envelhecer é objecto de múltiplas reflexões ao longo do romance, como demonstrei nos excertos seleccionados anteriormente. Sem a intensidade existencial e política, e que é também revelada numa escrita agreste e seca de Disgrace, Slow Man é, no entanto um romance mais lento mas certamente inesperado e inteligente e que é, mais uma vez e à maneira de Coetzee escrito sem palavras a mais, descrições enfadonhas, explicações demoradas, num estilo simples de frases curtas.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 17

Mithras slaying the bull
Roma, séc. II

Matar um Touro

17.11.07

Concretizar


Li duas vezes e custou-me acreditar, mas parece que é mesmo verdade: O MNE está com um problema bicudo. Isto de promover e ser anfitrião de cimeiras Euro-Africanas e ficar bem na fotografia é complexo. Para além de questões (menores, e pelos vistos de facto irrelevantes) que se prendem com a idoneidade política e humana de grande parte dos convidados africanos, ainda há que solucionar o problema da localização da tenda para o grande estadista e ilustre convidado que é Kadhafi que se recusa a ficar num hotel. Para mim a questão é simples: tendas, só nos Parques de Campismo. Não é essa a regra? Há o da Caparica por exemplo, junto ao mar e com ar puro e que é um local vedado e protegido. Não está longe dos olhares públicos, é verdade, mas para isso há, por exemplo, o jardim de S. Bento que sempre é mais recatado: é só questão de José Sócrates querer levar a tão falada hospitalidade Portuguesa a um novo patamar ainda mais aberto e tolerante do que a simples realização desta cimeira permitia. É só desafios para um homem que gosta de “concretizar”.

O Frio

Gosto das estações do ano: gosto do calor do verão e do frio do inverno. Gosto da natureza que muda com as estações, por isso é com alegria que digo: o tempo mudou, entramos finalmente no tempo frio. Posso largar a roupa de verão que já tinha utilizado em abundância, com todas as cambiantes possíveis e que a minha imaginação permitisse, e posso enfim pôr de lado aquelas a que se chamam meia-estação e que nunca sei muito bem o que fazer com elas porque nunca estão na medida certa: com elas acabamos sempre ou com calor ou com frio; nunca se acerta. Também já sentia falta de nuvens que dessem textura ao céu, ao rio e ao mar e que renovasse a paleta de cores que teimosamente não nos largava desde Julho. O excesso de luz, sol, e céu azul por muito que deslumbrasse já me cansava. E quero chuva para limpar o ar, para o humedecer um pouco.

Dando Excessivamente sobre o Mar 17

John Constable 1776-1837
Hampstead Heath, with Harrow in the Distance

15.11.07

Slow Man 3

Perhaps it is not requital of love that you are after. Or perhaps your request for love disguises a quest for something quite different. How much love does someone like you need (…) objectively speaking? (…) None. None at all. We do not need love, old people like us. What we need is care: someone to hold our hand now and then when we get trembly (…). Care is not love. Care is a service that any nurse worth her salt can provide, as long as we don’t ask her for more.’


The years go by as quickly as a wink. So enjoy yourself while you are still in the pink. It’s always later than you think.

J. M. Coetzee, Slow Man

14.11.07

Asas

Hoje
Neste caso hélices

Velas 8

Há dois dias

PSD Profundo: uma dúvida

Na recente disputa da liderança do PSD alguns dos vocábulos mais usados eram populismo, elitismo, bases do partido e “PSD Profundo”. Dividiu-se o partido em dois campos: o campo que ganhou de Luis Filipe Menezes, populista e do "PSD Profundo", e o campo perdedor de Marques Mendes, que entretanto saiu de cena (e bem) deixando o campo opositor, elitista (e sulista) com outros rostos que nós já conhecemos, entre os quais destaco Rui Rio por ser um clássico opositor de Menezes. Desde que o conceito de “PSD Profundo” faz parte do discurso partidário actual que eu me pergunto exactamente o que é que isso quer dizer. Excluo o PSD “não profundo”, isto é, aquele que é visível aos não PSDs. Hoje segui aqui e aqui uma troca de ideias que originou esta reflexão. Não sou militante de nenhum partido, e se a vida política e o governo do país me interessam, a vida partidária deixa-me razoavelmente indiferente, por isso desde já confesso a minha ignorância sobre ela. Mas como eu, haverá muitos portugueses que na hora de votar, no partido A ou B, não hesitam e que no entanto nunca atravessaram qualquer sede de partido, nunca foram a nenhum comício, nem a qualquer sessão de esclarecimento. Talvez parte da minha ignorância seja decorrente de uma natural desconfiança por “estruturas”, que se formam e que se mantêm para exercício do poder e influência de forma pouco visível e escrutinada. (Este tema poderia ser objecto de um outro texto, quem sabe um dia?).

Assim, eu pergunto-me qual é esse rosto do "PSD Profundo" de que tanto se fala? (poderia ser o PS Profundo, mas como a actualidade aponta na direcção do PSD tomo-o como exemplo). São os cidadãos anónimos e eleitores que nas eleições nacionais dão maiorias governativas – a Cavaco Silva e agora a José Sócrates, e que elegem os Presidentes de Câmaras? São gentes absolutamente desconhecidas desses mesmos eleitores sem partido, que com inicial entusiasmo se dedicaram ao trabalho partidário e à luta política, que sem se darem conta investiram nisso a sua vida e que passados anos trabalham e se esgrimem com afã para manterem a sua influência, ou o que resta dela, e o seu poder no único mundo que conhecem? Presumo que naquilo a que se chama influência e poder local e autárquico. Ou será o “PSD Profundo” uma imagem de um Portugal Profundo? Daquele feito de consumismo, reality shows, fins de semana e pontes de chinelo no pé, marisqueiras, peregrinações e debates sobre Madeleine McCann, que raramente está satisfeito com o que quer que seja, mas que raramente questiona e se questiona, ou é verdadeiramente subversivo (piercings, palavrões são normalidade). Qualquer uma das hipóteses (que por serem por mim colocadas – e por isso susceptíveis de padecerem de preconceito) me parece má, mas eu tento perceber melhor o que poderá ser esse “PSD Profundo” que parece ser tão decisivo e importante para Portugal por determinar os destinos do principal partido da oposição, e não consigo. Por falha e ignorância minha, admito, mas haverá uma outra imagem do “PSD Profundo” que nós, cidadãos e eleitores sem filiação partidária nem participação política activa, desconheçamos?

13.11.07

Plataforma contra a Obesidade 26

Giuseppe ARCIMBOLDO (1527-93)
L'Automne

Slow Man 2

When he arrives at the gate, St Paul (for other new souls it may be Peter but for him it will be Paul) will be waiting. ‘Bless me father for I have sinned’ he will say. ‘And how have you sinned, my child?’ Then he will have no words to say, save to show his empty hands. ‘You sorry fellow, ‘Paul will say, ‘you sorry, sorry fellow. Did you not understand you were given life, the greatest gift of all?’ ‘When I was living I did not understand, father, but now I understand, now that it is too late; and believe me father, I repent, I repent me, je me repends, and bitterly too. ‘Then pass,’ Paul will say, and stand aside: in the house of your father there is room for all, even for the stupid lonely sheep.’

J. M. Coetzee, Slow Man

Slow Man

He is not the first person in the world to suffer an unpleasant accident, not the first old man to find himself in hospital with well-intentioned but ultimately indifferent young people going through the motions of caring for him. A leg gone: what is losing a leg, in the larger perspective? In the larger perspective, losing a leg is no more than a rehearsal for losing everything. Whom is he going to shout at when that day arrives? Whom is he going to blame?

J. M. Coetzee, Slow Man

12.11.07

Combate ao Sedentarismo 41

Puxão de Orelhas

Noto que há uma estranha unanimidade apoiando e concordando com o Papa Bento XVI no seu “puxão de orelhas” aos Bispos Portugueses em Roma na visita Ad Limina. Televisões, jornais, todos noticiam com gáudio mal disfarçado o dito “puxão de orelhas”. De repente parece que o país acorda para a excessiva clericalização da Igreja Portuguesa e depressa se aponta o dedo à hierarquia. Não sou excepção e também o aponto, e aponto em várias outras matérias igualmente relevantes que são sistematicamente esquecidas, mas aponto o dedo sobretudo aos tantos católicos portugueses de todas as faixas da sociedade e de todas as idades, que contribuem para essa excessiva clericalização da Igreja quer pela passividade, quer pela falta de exigência consigo próprios e com o clero. Não dispensam o “Sr. Padre A” ou o “Sr. Padre B” para abençoar qualquer decisão moral que tomem, qualquer evento em que participem, qualquer opção significativa para a vida. A figura do “Sr, Padre”, sem nenhum desmerecimento para os Senhores Padres, é ainda hoje no meio católico (mas não só) excessivamente reverencial, algo distante e tantas vezes incontestada. Dou um exemplo que pode parecer irrelevante, mas que ilustra essa distância entre o “clero” e os leigos: por essa europa fora os católicos tratam os padres com que trabalham e/ou convivem pelos nomes próprios; aqui em Portugal – e creio que não me engano – essa é uma situação raríssima. O Padre trata quer pelo nome próprio quer por tu o católico com quem tem maior proximidade, o caso inverso rarisssimamente se aplica. Só o “Sr Doutor” (o médico especialista note-se) ainda tem em Portugal igual grau de reverencialidade, de autoridade e infalibilidade. Se a Igreja em Portugal tem de ser menos clerical cabe também aos leigos portugueses fazê-la mais “sua” e menos “dos padres”. Cabe também aos leigos exigir mais e melhor qualidade nomeadamente do clero. Provavelmente voltarei a este assunto.

11.11.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 16

Wooden figure of Avalokiteshvara
Song or Jin Dynasty, 11th-12th century


Dar nas vistas


Witness


Revi ontem num canal de televisão, um dos filmes dos anos oitenta de que mais gostei na altura: Witness de Peter Weir. É sempre com apreensão que revejo filmes de que gostei e após um longo período sem os ver porque tenho sempre medo de me desiludir, de achar que o filme está datado e irrelevante, que perdeu algum edge. Não foi o caso. É um thriller que nos prende, que tem a sua dose de crueza própria de histórias de corrupção, mas isento de violência gratuita e que por isso não nos põe os cabelos de pé, pelo contrário remete-nos para a nostalgia de um sonho de utopia, de sociedade perfeita sem “maus”, tal como a teríamos sonhado num momento na infância. É, sem lamechices, uma alusão, um reconhecimento ou mesmo uma homenagem a esse tal sonho que existirá e sobreviverá num limbo qualquer da nossa condição humana. A cena mais emblemática desta homenagem é a construção do celeiro do casal recente. Mas o filme não se perde em utopias e depressa se entra no trilho realista, mesmo contando com o anacronismo da comunidade Amish, como o prova a história de amor – paixão, desejo, o que for - que desde o início injecta a narrativa de uma forte carga erótica. A cena da música no carro do celeiro é um dos pontos de maior tensão que ilustra este erotismo nunca óbvio mas sempre presente. Harrison Ford continua credível no seu papel como John Book, e Kelly Mc Gillis tem aqui talvez o momento mais alto da sua carreira. Pena que nunca mais a tenhamos visto. Acho que Witness entrará - se é que não entrou já, na galeria dos "clássicos".

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