“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

16.1.08

O melhor resumo de tudo o que tem sido sobre a novela BCP é dado simples e inequivocamente pelas reacções do mercado, mais do que pelos votos dos accionistas, por vontades políticas de consensos ou fiscalizações das entidades reguladoras. (Não aprendem). Próxima OPA à vista? Ver aqui.

15.1.08

14.1.08

Pouco Encantada

Enchanted”, uma produção da Disney, foi o último filme que vi desta temporada infantil que vem (e vai) com o Natal. No entanto não fiquei tão encantada com Enchanted como gostaria e resumiria a minha opinião a um “vê-se!” Apesar de três ou quatro momentos bem conseguidos sobretudo no início do filme, ele desenvolve-se e acaba numa banal previsibilidade, que presumo seja intencional para não tornar o filme demasiado “inteligente” e/ou "exigente" para o público. Os actores surpreenderam-se positivamente com excepção de Patrick Dempsey (o Dr. Shepperd da Anatomia de Grey). Para o ano há mais.

13.1.08

Serviço

O exercício de um cargo político, ou de outro cargo público com poder e elevada capacidade de decisão, deveria ter por base a noção de serviço. Num mundo ideal tem, e num outro mundo menos imediatista em que o carácter se forma com base em valores pouco visíveis e não consumíveis, de vez em quando também tem. Complementando essa disponibilidade de serviço, deve estar a competência e a integridade. Todas as outras possíveis ou desejáveis características ao lado destas são, em última análise, irrisórias e servem sobretudo para encher jornais. A ambição, a visibilidade, a atracção pelo poder ou a ilusão de que se exerce esse poder, o estar lá nos centros de decisão ou a ilusão de que realmente se decide, o querer-se e saber-se influente, a certeza de que hoje um cargo político é um degrau seguro para um futuro confortável num cargo público ou numa empresa pública, semi-pública ou privada dessas que vivem na promiscuidade que é o nosso regime, são hoje os principais factores motivacionais de quem abraça um cargo de serviço público. Mesmo quando o discurso é sobre a vontade de servir o país os actos, um a um, desmentem-no.

Esta semana que passou ilustrou esta ausência da noção de serviço de forma dolorosamente visível e não deixou também dúvidas quanto à competência e à integridade. Um momento verdadeiramente confrangedor esse em que vimos Mário Lino sentado ao lado de José Sócrates, (ou deverei dizer: em que vimos José Sócrates sentado ainda ao lado de Mário Lino?) enquanto o PM anunciava a decisão de construir o aeroporto em Alcochete... Tal momento, já por demais analisado e dissecado, em que se destaca a constante desfaçatez do PM e a passividade amestrada do ministro, deixou-nos boquiabertos e hoje continuamos a ter dificuldade em acreditar que se tenha mesmo passado. O mesmo aconteceu quando fomos confrontados, já não só com a possibilidade da administração da CGD poder ir para o BCP e Armando Vara com ela, mas com o facto de este último ter pedido licença sem vencimento à CGD para não perder o vínculo laboral que o prende à instituição pública.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 21

Romano (fim do séc I AC.)
Aphrodite "Vénus d'Arles"


Imaginar um vestido

10.1.08

Hoje

9.1.08

Grau Zero 3

Se em matéria de símbolos e prática religiosa se tem como objectivo um higiénico vazio, outras áreas nomeadamente relacionadas com o pensar, o questionar, o criticar, o analisar, parecem também estar a sucumbir à mesma redução ao grau zero. A perspectiva que começa a desenhar-se de se acabar com todos os partidos políticos incapazes de fazer prova de terem nos seus registos mais de 5000 militantes, ou o “não” ao referendo sobre a questão europeia são algumas ilustrações desta onda redutora e de terraplanagem da sociedade. Fica um vazio ideológico e de debate, em que a diferenciação não é bem-vinda começando por isso a ser metodicamente eliminada deixando um espaço amplo ao centrão que alimenta o regime para que, de acordo com o soprar dos ventos, este se encha e se tinja de algumas cores para dar uma patine de pensamento, reflexão e de pluralidade. Ambiente, aquecimento global, casamentos gay dão um ar de esquerda, ex-combatentes e liberalizações de alguns sectores de actividade normalmente reservadas ao estado, reforço de autoridade dão o ar de direita, e o ar moderno e actual de quem está na linha da frente é dado com os temas das novas tecnologias ou pelas preocupações com a vida saudável. Está tudo previsto.

Assim nasce uma sociedade grau zero: feita de indivíduos bi-dimensionais, lisos e brilhantes como o aço polido das belas e modernas cozinhas onde impera a higienização e as facas de cabos de cores diferentes, ou gentes polidas de acabamento cuidado e de design perfeito como os sapatos Prada, ou então luminosas, cintilantes, rápidas e eficientes como as luzes dos computadores e de qualquer gadget moderno filho das novas tecnologias. Tudo sem debate, tudo sem colesterol, tudo muito liso, tudo muito igual, tudo muito vazio. Aldous Huxley não fez melhor.

Tardes de Inverno 7

Edouard Manet
Au Café (1878)

8.1.08

Grau Zero 2

O grau zero de referências a, e de sinais religiosos cria um vazio na sociedade em que ele nasce. Os vazios têm os seus perigos, por muito modernos, brilhantes e zen que sejam, nomeadamente o de o serem por pouco tempo, porque algo irá ocupar esse “espaço” de nada: outra simbologia, outros sinais, outras referências, e outros valores. Não sei se a sociedade fica a ganhar se paulatina mas inexoravelmente for substituindo os símbolos e valores de um cristianismo liberal, que é o que se vive na maioria das sociedades europeias, por outros símbolos e valores de cariz laico, por esemplo ligados ao republicanismo e que serviram de suporte ideológico à Revolução Francesa (também eles uma evolução “laica” de valores cristãos) ou, outro exemplo, ligados a aspectos mais materiais, consumistas e de “progresso económico”. Também não sei se a sociedade fica a ganhar se forem outros os símbolos e valores que a pouco e pouco e se forem nela entranhando, nomeadamente se forem ligados ao Islamismo, uma religião expansionista e agressiva que preza pouco a laicidade e a separação entre Estado e Religião. Muitos países Europeus estão a confrontar-se com sérios problemas de valores com as suas comunidades muçulmanas.

Eu creio que no aqui e agora, e prevenindo o que poderá ser um mau futuro, as investidas dos que se reclamam herdeiros de valores republicanos e laicos, e viram o seu combate em direcção à igreja Católica, poderiam tomar também outros rumos. Vou deixar aqui um pequeno inventário de questões, apesar de ainda pouco visíveis em Portugal e de dimensão inferior à de uma parte relevante dos países europeus, que directa ou indirectamente estão ligadas à religião. São práticas que poderiam e mereceriam ser monitorizadas e objecto de análise pois muitas delas são contrárias aos princípios de igualdade de oportunidade, de dignidade e respeito pela individualidade e integridade física, moral e financeira dos indivíduos, e são claríssimas violações da lei.

  • Cumprimento de escolaridade obrigatória por parte de todas as crianças e jovens nomeadamente do sexo feminino.
  • Liberdade de escolha, nomeadamente sobre o seu próprio casamento, se, quando e com quem, ou sobre a religião que se quer professar.
  • Cumprimento da Lei no que diz respeito aos direitos patrimoniais da mulher.
  • A excisão feminina é uma prática a que Portugal não é alheio. Esta é uma questão que merece um combate sem tréguas e uma tolerância zero.

7.1.08

Plataforma contra a Obesidade 29

Georges Braque (1882-1963)
Black Fish
(clicar para aumentar)

6.1.08

Grau Zero

O artigo de ontem no Público de Vasco Pulido Valente transcrito aqui e aqui, lembrou-me o tão recente episódio gerado pela notícia do dia 2 deste mês no Correio da Manhã. Porque tenho dificuldade em acreditar na inocência de uma legislação que condiciona a escolha de um nome de patrono que terá que ter/ser “reconhecido valor de personalidade que se tenha distinguido na região, nomeadamente no âmbito da cultura, da ciência ou educação,podendo ainda ser alusivas à memória da expansão portuguesa, à antiga toponímia ou a características geográficas ou históricas do local onde se situam os estabelecimentos de educação ou de ensino”, ou na bondade dos orgãos regionais do MNE, que segundo o desmentido ao desmentido, (e porque não houve desmentido ao desmentido do desmentido) terão dado indicações de que se evitassem nomes de cariz religioso, creio que estamos perante mais uma investida da nova ordem moral tão cara a José Sócrates - e ao seu mentor do politicamente correcto, José Luis Zapatero. Uma investida discreta, em que as instruções são insinuadas de forma informal para conseguirem passar a mensagem sem grandes perturbações e testar as reacções das partes implicadas. Indo devagar, aprovando uma medida hoje, outra amanhã para não levantar ondas e evitar as manifestações que enchem as ruas, vão-se tirando as cruzes das enfermarias dos hospitais mesmo contra a vontade dos utentes, aprovando estatutos para os capelães que deixam de ter autonomia para de visitar qualquer doente, tudo em nome da laicidade e imparcialidade do Estado, mas inspirados por ímpetos republicanos e jacobinos de outras épocas, para tornar o país e a sociedade tão limpa quanto possível das bafientas, maléficas e ameaçadoras referências à religião católica, e afastá-la tanto quanto possível do convívio com a hierarquia da Igreja Católica maioritária no país e parte fundamental e integrante da nossa tradição, história e cultura.

De um ponto de vista antropológico seria interessante estudar esta vontade de despir a sociedade dos seus valores religiosos (que hoje, só para lembrar quem teime em viver no passado, não são nem coercivos nem opressores) que a formaram, que lhe são específicos e que são tão naturais ao ser humano. Seria interessante perceber esta vontade de criar um vazio, um grau zero de religiosidade social e do Estado, numa altura em que temos um Estado inegavelmente laico (e ainda bem) e em que a religiosidade hoje se manifesta mais através de alguns rituais, de referências e de feriados (que ninguém ousa tocar, com excepção do católico Cavaco Silva quando era Primeiro-ministro) do que através de uma prática que transborde e influencie determinantemente o Estado. Mais interessante ainda seria perceber esta intolerância face ao que é “nosso” (num sentido lato) face às nossas referências religiosas de que fala VPV e que resulta da tolerância à diversidade. Se hoje se tolera na sociedade ocidental, e provavelmente em Portugal também - só que ainda não o sabemos - a propaganda islâmica, se preferirem, de ensino corânico, que prega a perversidade essencial do Ocidente e tenta promover a sua expeditiva eliminação (cintando VPV), como é possível que alguns sectores se sintam ameaçados na sua liberdade, nos seus conceitos por coisas simples, mas que inegavelmente traduzem uma identidade, uma religião, uma cultura, uma tradição, que as nossas, como nomes de Escolas, a presença de um Bispo numa inauguração ou um cantar de Janeiras?

Coisas que se podem fazer ao Domingo 21

Apollo Sauroctonos. Roma Imperial, séc. I-II DC(?).
Copia de um original grego de Praxiteles, 340 AC(?)
(Clicar para aumentar)

Apanhar lagartos.

4.1.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 21

Odilon Redon (1840-1916)
Fishing Boat

3.1.08

100 things we didn't know last year

Para escapar a tanto fumo, diverti-me com esta lista das 100 Coisas que não Sabíamos no Ano Passado. Gosto de listas e enumerações, acabo sempre por aprender alguma coisa com elas e esta absolutamente aleatória é deliciosa e cheia de informação pertinente. Para os mais cépticos, deixo aqui alguns exemplos, dos muitos, que contém material para reflexão. O item 30 merece uma visita mais detalhada.

12. Georgic is a punishment dished out to Eton pupils which involves the copying out of hundreds of lines of Latin.

15. 10% of university work from across the UK is plagiarised.

17. Two cups of spearmint tea a day is thought to control excessive hair growth for women.

26. Harvesting rhubarb in candlelight helps preserve its flavour.

30. Serving anything more than tea and biscuits at a political meeting is an offence called "treating" and punishable by a year in prison or an unlimited fine, under the the Representation of the People Act 1893.

31. There is mobile phone reception from the summit of Mount Everest.

40. A new three-bedroom house must have at least 38 plug sockets.

46. Peanuts can be made into diamonds.

53. Renowned atheist Professor Richard Dawkins likes singing Christmas carols.

63. Cats can be police constables.

70. IP addresses will run out in 2010.

79. Woodwork lessons are known as "resistant materials" in schools.

87. Relocating crocodiles doesn't work - they come back.

88. Deep-voiced men have more children.

97. There have been at least two children given the name "Superman" in the UK since 1984.

2.1.08

O ano começa com práticas correntes em França onde se queimam carros, práticas que não são inéditas no Quénia onde se queimam pessoas e práticas novas a que teremos de nos habituar. Nada de inesperado nem de bom se augura para 2008.

Por cá, na Costa Oeste da Europa, anda todo o mundo atordoado com o fumo, incluindo o Presidente da ASAE que o afasta de si e teima em o deitar para os nossos olhos. O ímpeto legislativo, politicamente correcto e obrigacionista de mãos dadas com os brandos costumes e hipocrisia.

Sou surpreendida com as várias e sempre inevitáveis entrevistas de rua que os jornais televisivos nos mostram – neste caso entrevistas de café - em que, de repente, nenhum não-fumador se diz incomodado com o fumo. Eu fico feliz por saber que posso almoçar e jantar fora o tempo que quiser sem respirar cinzeiros e fumo nem ficar com a roupa toda a cheirar a tabaco. Só lamento que tenha sido preciso fazer uma lei para que isto aconteça, e para que o ambiente sem fumo seja um dado para um não-fumador. É o mundo que temos.

1.1.08

Tardes de Inverno 6

FRAGONARD, Jean-Honoré (1732-1806)
Jeune fille à la lecture

31.12.07

Quase 2008

Um Bom Ano de 2008 para todos.

30.12.07

Dos Balanços do Ano 2

A omnipresença

De Deus. Ele está em todo o lado, e 2007 não foi excepção. No Kosovo, na entrada da Turquia na UE, nos atentados de Argel, na Birmânia, no Afeganistão, na Rússia, no Sudão, no Médio Oriente. Na intolerância, na radicalização religiosa, na perseguição, na discriminação (sobretudo das mulheres). Nas revoluções dos costumes, no aborto, no casamento dos homossexuais, no divórcio, na contracepção, na inseminação artificial, nas experiências em embriões, nos preservativos. Na política, em Sarkozy na viagem a Roma, no Papa Bento XVI e a sua cruzada constante sobretudo na Europa (à deriva, segundo ele) pela valorização do legado cultural cristão bem como dos valores cristãos numa sociedade (ocidental) cada vez mais materialista e relativista.

De José Sócrates. Ele está em todo o lado, tal a preocupação em zelar pelo nosso interesse, sobretudo onde não deve. Na obesidade que devemos combater, no jogging que não fazemos e que em qualquer lado do mundo ele nos lembra, nos cigarros que fumamos, nas graçolas que dizemos aos colegas de trabalho, no dever de dizer quando sabemos quem não paga imposto, no óleo em que fritam os rissóis que vamos comprar, nas consultas para deixar de fumar, no estímulo à natalidade, nas certidões de habilitações passadas ao Domingo, nos momentos de glória “porreiro, pá!”, na distribuição de computadores pelas escolas nos “momentos Chavez”, no Inglês Técnico do Middle West, na West Coast Of Europe, no Allgarve, nos sapatos Prada, na revolução tecnológica que não percebemos e que tantas vezes simplesmente não funciona. E enfim, ele está presente no governo que nos governa, e na oposição que não temos.

Dos Balanços do Ano


Invejo quem consegue fazer balanços (um de que gostei aqui) dos anos que passam, listas (sempre exaustivas e implacáveis aqui) de coisas boas, más e assim-assim, lembrar os livros, lembrar os filmes, destacar os factos e as figuras internacionais e nacionais. Chegado este período, abro os jornais e fico sempre pasmada com a sucessão de acontecimentos a relembrar que enchem cada ano que passa, porque para mim tudo se perde e mistura na espuma dos dias que passam e das coisas que se fazem e fica apenas uma ténue marca temporal qualquer que o subconsciente se encarrega de produzir, para que, posteriormente e com um pouco de esforço consiga localizar o facto no tempo. Uma questão de sobrevivência intelectual, por assim dizer. De repente, parece que o referendo ao aborto foi “há que tempos”, que o caso Maddie continua “sempre presente”, e que as manifestações na Birmânia foram há uns bons meses, este ano certamente. O mesmo se passa com livros que li, filmes que vi: tudo vago. Lembro dois ou três, e só depois todos os outros vêm lentamente à superfície da memória. Acredito hoje, época de balanço, que a minha vontade de ter um blogue talvez também tivesse como objectivo o de ancorar temporalmente esta sucessão de ideias, opiniões, factos, desabafos, e organizá-los para que não vagueem soltos e sem nexo. Agora, se quiser fazer balanços e listas só me falta mesmo, para além da vontade, da paciência e do tempo, consultar o arquivo do blogue para ver, ou ajudar a lembrar o que foi o “meu” ano.

28.12.07

Combate ao Sedentarismo 46

(Lembrado aqui)

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