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13.2.08
Museus em Madrid 2
Desde que me lembro de saber que existe pintura que me lembro que El Greco existe. O pintor que, era assim que eu o conhecia, fazia as pessoas longas e puxadas para cima. Uns anos mais tarde, e numa visita a Toledo, guiada por um amigo espanhol mais velho, conhecedor e coleccionador, num dia cinzento e muito frio, em frente às pinturas de El Greco fiquei surpreendida com a cor e a luz dos seus quadros e de quão fria eram. O meu amigo também me ensinou a olhar para os olhos das personagens pintadas por El Greco, outro dia falarei sobre isso. Fiquei surpreendida com essa frieza porque se Espanha era fria no inverno, era quente, quente demais, no verão e nós associamos a Espanha mais facilmente a noção de calor do que de frio. A surpresa também era grande porque os pintores flamengos (Flandres e Holanda) do mesmo período (tenho, ao longo do tempo, colocado aqui no blogue alguns exemplos e já escrevi o meu elogio – um - à pintura flamenga) apesar de virem de países mais frios, pintavam quadros mais quentes. Mas Espanha é uma noção moderna e abstracta. Se pensarmos Castela já a noção de frio se desenha de uma forma mais natural no nosso imaginário.
12.2.08
Museus em Madrid 1
Na semana passada nos museus de Madrid, sobretudo no Rainha Sofia e no Thyssen pois visitei-os de manhã, vi vários grupos de crianças, algumas bem pequeninas, sentadas e semi circulo em frente a um quadro a ouvir e a conversar com o guia sobre ele. O guia estava também sentado à frente no chão para não perturbar a visão das outras pessoas que literalmente enchiam os museus. Por trás das crianças juntava-se um grupo de adultos visitantes que assistia à explicação e diálogo do guia com as crianças. Olhando para o quadro ele fazia perguntas sobre o que elas viam, sobre o que não viam, guiava-lhes o olhar, ouvia as suas explicações e explicava o porquê do tema, de uma cor, do traje das personagens, de uma perspectiva, de uma composição. As crianças sentadas em frente ao quadro tinham tempo para o apropriar e sobre ele discorrer e imaginar. O entusiasmo delas era o espelho do entusiasmo do guia que fazia o que era suposto fazer – guiar o olhar mais inexperiente – também com entusiasmo e amor à obra. Não fiquei com a sensação de que estavam ali no emprego a ganhar umas coroas, que certa e justamente estavam, fiquei com a sensação que eram amantes de pintura e que sabiam transmitir essa paixão.
Lembrei, e em contraste com o que acabei de escrever, o relato de uma visita recente de turmas de um colégio ao Museu Nacional de Arte Antiga em que um, neste caso uma, entre os guias, com pastilha elástica na boca, cara de frete e impaciente, mal respondia às perguntas dos guiados, prolongou demasiado algumas explicações históricas e não lhes mostrou “o” quadro mais importante do museu, As Tentações de Santo Antão de Bosch, nem conseguiu entusiasmar ninguém com os Biombos de Namban. O resultado foi o esperado: “que chatice!” “detesto museus!” Mas também, porque é que me passou pela cabeça que poderia ser diferente?
11.2.08
10.2.08
O Projectista 2
As fotografias dos projectos assinados por José Sócrates e que ele assumiu como seus, foram como um balde de água fria que se despejou por cima do ambicioso militante do PS, ex-Ministro do Ambiente preocupado com o planeamento, e agora Primeiro-ministro regulador, liso, que faz jogging, que cita nomes sonantes a torto e a direito, faz férias cosmopolitas, evita o colesterol e que calça sapato Prada. E foi um balde de água fria por cima de todos nós que nos preocupamos com estética, preservação do património e vemos nos azulejos exteriores, nas varandas ampliadas, nos acrescentos descaracterizados e nos telheiros fora de contexto modelos de mau gosto, desordem, terceiro-mundismo e símbolos tão presentes e visíveis de um Portugal pouco educado e culto que não evolui e não se desenvolve. Ninguém fica indiferente perante a banalidade e a ausência de qualquer preocupação estética quando olha para os resultados destes pequenos projectos, e a perplexidade é muita, sobretudo porque tão dissonante do seu posterior percurso político traçado a tinta da china com régua e esquadro, para que nada saia do lugar, e os seus antecedentes familiares (o pai de JS é arquitecto) que não deixavam prever a sua assinatura em tais calamidades estéticas.
Hoje e perante o nosso Primeiro-ministro, como é que nos podemos impedir de olhar com olhos de ver e de analisar o seu percurso técnico e académico? Como é que é possível não tirarmos conclusões? Conhecemos os resultados dos seus projectos, lemos o seu exame de Inglês Técnico, sabemos dos seus exames ao Domingo, enfim, confrontamo-nos com improbabilidades, coincidências e erros que escondem, tudo leva a crer, mentiras e provavelmente ilegalidades. O desconforto perante a pessoa de José Sócrates é grande, e para além de uma questão de carácter é também uma questão política. Num percurso onde vale tudo, sem rumo que não a ambição e a concretização, caótico e dissonante, como podemos hoje olhar para o Plano Tecnológico sem rir ou para o Simplex com confiança? Como podemos enquanto eleitores e cidadãos assistir aos saltos de dúvida em dúvida perante os grandes investimentos sem perplexidade ou acreditar na seriedade e bondade das políticas reformistas ou mesmo perceber o rumo que é traçado para o país? Os “casos Sócrates” I (académico) e II (técnico) não são fait divers, não são intromissões sem importância num passado longínquo de duendes maus e de fadas boas. O percurso passado do nosso PM enquanto militante de um partido político onde se fez politicamente interessa, é revelador de um carácter e de um estilo. Eu não gosto.
Véu Islâmico 9
A saga sobre a aplicação sa Sharia continua no Reino Unido. Uma série Q&A aqui à boa maneira anglo-saxónica.
Este tema é interessante para descobrir algumas nuances do Islamismo, nomeadamente o Islamismo “moderado” um produto essencialmente do ocidente e com nenhuma sustentação teórica ou doutrinal, que se faz com base na “boa vontade” de sectores islâmicos que não querem estar em conflito com as sociedades ocidentais onde vivem e que não querem nem negar a modernidade nem abraçar o extremismo. No entanto, e para já, esta moderação é ainda frágil. Parece-me também, interessante reflectir sobre a nossa noção de liberdade de escolha, tida tantas vezes como um bem absoluto e que se baseia numa noção de igualdade que está totalmente ausente do islamismo e da própria Sharia. A mulher, e a rapariga, enquanto seres menores que são tutelados ao longo da vida, pelo pai, irmão, marido, cunhado, não têm essa liberdade de escolha. A liberdade e igualdade não são dados adquiridos em todo o lado e é bom ter sempre essa noção presente.
8.2.08
O Projecista
Nos anos oitenta quando José Sócrates assinou os projectos de engenharia técnica (remodelações, ampliações, melhorias), cuja autoria assumiu plenamente pois eu ouvi-o na televisão a declará-lo com ênfase, de que tanto se tem falado, ele já era tinha iniciado a sua carreira política ascendente no PS. Assumo eu também de boa fé perante as afirmações do PM, que a autoria dos projectos realmente dele e parto do princípio – só para benefício do meu texto – que ele não assinou de cruz projectos de outros. Como também nada sei sobre incompatibilidades, não será também sobre isso que me vou deter. Deter-me-ei no problema e peso que o passado pode ser quando não se sabe assumi-lo com elegante ternura e desprendimento, determe-ei sobre o facto de os padrões do passado tenderem a repetir-se no presente e no futuro e deter-me-ei na dissonância e vácuo que é o percurso do nosso PM revelado pelos aspectos estéticos e de planeamento. E tudo isto somado é impossível não ter um esboço revelador de carácter.
Sobre o passado. Creio que todo o ser humano se fez e faz com opções que nem sempre terão sido as mais ajuizadas e coerentes e de que não nos orgulhamos enquanto actos e isso não é necessariamente um problema, bem pelo contrário, pode ser ponto de partida para reflexão e aprendizagem se o orgulho tonto e a estupidez não cegarem e deixarem evoluir. Não nos orgulharmos está longe de ser sinónimo de ter vergonha. Há uma outra opção mais natural, que é o assumir das incoerências, maus juízos e outros actos menos razoáveis e ser tolerantes até para connosco. Esse desprendimento e naturalidade parecem ser impossíveis ao nosso PM que tenta sempre de forma forçada e pouco natural transformar numa virtude digna de nota e louvor cada passo oblíquo e de duvidosa justeza e legalidade que – com surpreendente regularidade e facilidade lhe descobrem no seu passado. Este constante deitar areia para os nossos olhos com arrogância e altivez, de quem não percebe que está em cima de um monte de despojos e sucata e se pensa mais alto, é uma das piores e mais irritantes características de JS. Mais do que os pecadilho da juventude, as prováveis mentiras e ilegalidades do seu percurso, é a arrogância de uma coreografada maturidade em tom sempre moralista de dedo em riste que é tão difícil de engolir, digerir, tolerar e perdoar. Que não restem dúvidas que sobretudo por isto os seus “pecados” estão longe de serem “perdoados”, mesmo sendo a memória curta; porque e a dúvida e o “feeling” esses, serão persistentes.
(continua)
7.2.08
O Corta-Fitas, um dos blogues mais simpáticos da blogosfera está em festa e está de parabéns pelos dois anos de existência. Parabéns também ao Pedro Correia, um dos fundadores e autor de algumas das melhores séries da blogosfera. A Melhor Década do Cinema é uma delas.
Sobre arquitectura de emigrante e José Sócrates um bom artigo de Helena Matos aqui e uma pequena discussão sobre arquitectura e estética de projectos neste post e comentários Quase em Português. Voltarei a este assunto: José Sócrates, o passado e respectivos esqueletos no armário, projectos de gosto duvidoso, assinaturas falsas, influências, responsabilidades, incompatibilidades e demais promiscuidades.
Véu Islâmico 8
6.2.08
Desaprender
Miró é um caso distinto. Como com tanta coisa na vida também com Miró o meu olhar mudou, e o que era já não é. Assim hoje, em frente dos seus quadros, de todos os formatos, de todos os tamanhos e de todas as cores, o espanto foi muito: aqueles fios (linhas, curvas?) compridos e pretos com bolas nas pontas e outras bolas maiores, com ou sem olhos (?) espalhadas pela tela, às vezes com côres primárias, outras mais acizentadas ou simplesmente a preto e branco, deixaram-me surpreendentemente indiferente. Nem gostei nem deixei de gostar. Aquela linguagem pareceu-me vazia e irrelevante. Um ou outro quadro talvez tivessem provocado um “que giro!” mental, algo que é verdadeiramente insuficiente e banal. O desconforto da desilusão, pois se eu percebo que se “aprenda a gostar” de uma qualquer manifestação de arte, já me é muito mais dificil perceber o contrário, talvez porque menos usual, e perceber que se desaprenda de gostar ao ponto da indiferença. Porque é que o feitiço se perde, porque é que a leitura, o sentir e a adesão se modificam assim afastando-nos?
1.2.08
Excesso de zelo
Ando com vontade de escrever sobre o excesso de zelo que motiva tanta da legislação mais recente e que impera naquilo a que tenho chamado de nova ordem moral que hoje se tenta estabelecer. Não é um fenómeno exclusivo português, mas aqui no nosso país assume uma dimensão um pouco mais patética devido aos brandos costumes em que habitualmente todos nos movemos. Os brandos costumes não sendo motivadores de grandes mudanças sociais de desenvolvimento ou de grandes revoluções e sendo campo fértil para imobilismo e hipocrisia, são também mais brandos. Numa sociedade em que ninguém está de acordo sobre o que é a corrupção e em que os seus limites são desfocados, amplos e variam de pessoa para pessoa, momento para momento, circunstância para circunstância, em que a noção de ética é simplesmente colada à noção da legalidade: se é legal é ético, se não é legal não é ético, (pobres filósofos e pensadores que tanto tempo perderam dissertando sobre ética) e em que noções um pouco mais exigentes e aprofundadas que norteem a vida pública, quer de trabalho quer política são olhados com desconfiança, os excessos de zelo são sempre perigosos. São uma drástica mudança do oito para o oitenta. São redutores, cegos, simplistas, puritanos (um puritanismo new wave) olham com pouca bondade para o ser humano e escondem muita intolerância. (E medo e inveja). Sempre me ensinaram a desconfiar quer de excessos de zelo quer dos zelos dos convertidos.
Segunda ferradela do Público ao calcanhar de Aquiles, perdão, de José Sócrates. Aposto que não fica por aqui e que não há sapato Prada que proteja..
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