“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

10.2.08

Combate ao Sedentarismo 49

Véu Islâmico 9

A saga sobre a aplicação sa Sharia continua no Reino Unido. Uma série Q&A aqui à boa maneira anglo-saxónica.

Este tema é interessante para descobrir algumas nuances do Islamismo, nomeadamente o Islamismo “moderado” um produto essencialmente do ocidente e com nenhuma sustentação teórica ou doutrinal, que se faz com base na “boa vontade” de sectores islâmicos que não querem estar em conflito com as sociedades ocidentais onde vivem e que não querem nem negar a modernidade nem abraçar o extremismo. No entanto, e para já, esta moderação é ainda frágil. Parece-me também, interessante reflectir sobre a nossa noção de liberdade de escolha, tida tantas vezes como um bem absoluto e que se baseia numa noção de igualdade que está totalmente ausente do islamismo e da própria Sharia. A mulher, e a rapariga, enquanto seres menores que são tutelados ao longo da vida, pelo pai, irmão, marido, cunhado, não têm essa liberdade de escolha. A liberdade e igualdade não são dados adquiridos em todo o lado e é bom ter sempre essa noção presente.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 23

Hiram Powers (1805-1873)
California
(clicar para aumentar)



Adivinhar veios de água .

8.2.08

O Projecista

Nos anos oitenta quando José Sócrates assinou os projectos de engenharia técnica (remodelações, ampliações, melhorias), cuja autoria assumiu plenamente pois eu ouvi-o na televisão a declará-lo com ênfase, de que tanto se tem falado, ele já era tinha iniciado a sua carreira política ascendente no PS. Assumo eu também de boa fé perante as afirmações do PM, que a autoria dos projectos realmente dele e parto do princípio – só para benefício do meu texto – que ele não assinou de cruz projectos de outros. Como também nada sei sobre incompatibilidades, não será também sobre isso que me vou deter. Deter-me-ei no problema e peso que o passado pode ser quando não se sabe assumi-lo com elegante ternura e desprendimento, determe-ei sobre o facto de os padrões do passado tenderem a repetir-se no presente e no futuro e deter-me-ei na dissonância e vácuo que é o percurso do nosso PM revelado pelos aspectos estéticos e de planeamento. E tudo isto somado é impossível não ter um esboço revelador de carácter.

Sobre o passado. Creio que todo o ser humano se fez e faz com opções que nem sempre terão sido as mais ajuizadas e coerentes e de que não nos orgulhamos enquanto actos e isso não é necessariamente um problema, bem pelo contrário, pode ser ponto de partida para reflexão e aprendizagem se o orgulho tonto e a estupidez não cegarem e deixarem evoluir. Não nos orgulharmos está longe de ser sinónimo de ter vergonha. Há uma outra opção mais natural, que é o assumir das incoerências, maus juízos e outros actos menos razoáveis e ser tolerantes até para connosco. Esse desprendimento e naturalidade parecem ser impossíveis ao nosso PM que tenta sempre de forma forçada e pouco natural transformar numa virtude digna de nota e louvor cada passo oblíquo e de duvidosa justeza e legalidade que – com surpreendente regularidade e facilidade lhe descobrem no seu passado. Este constante deitar areia para os nossos olhos com arrogância e altivez, de quem não percebe que está em cima de um monte de despojos e sucata e se pensa mais alto, é uma das piores e mais irritantes características de JS. Mais do que os pecadilho da juventude, as prováveis mentiras e ilegalidades do seu percurso, é a arrogância de uma coreografada maturidade em tom sempre moralista de dedo em riste que é tão difícil de engolir, digerir, tolerar e perdoar. Que não restem dúvidas que sobretudo por isto os seus “pecados” estão longe de serem “perdoados”, mesmo sendo a memória curta; porque e a dúvida e o “feeling” esses, serão persistentes.

(continua)

7.2.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 25

Salvador Dali
El Gran Enigma (1938)

O Corta-Fitas, um dos blogues mais simpáticos da blogosfera está em festa e está de parabéns pelos dois anos de existência. Parabéns também ao Pedro Correia, um dos fundadores e autor de algumas das melhores séries da blogosfera. A Melhor Década do Cinema é uma delas.

Sobre arquitectura de emigrante e José Sócrates um bom artigo de Helena Matos aqui e uma pequena discussão sobre arquitectura e estética de projectos neste post e comentários Quase em Português. Voltarei a este assunto: José Sócrates, o passado e respectivos esqueletos no armário, projectos de gosto duvidoso, assinaturas falsas, influências, responsabilidades, incompatibilidades e demais promiscuidades.

Véu Islâmico 8

Não, não me alegro com esta notícia. Ao contrário do que seria desejável, ela não é sinónimo de uma maior liberdade. Apesar de serem proclamados os seus benefícios imediatos como uma maior igualdade de direitos no acesso à educação, pois uma parte de raparigas não seguem estudos universitários porque não saem de casa sem lenço e cabeça tapada, eu não posso deixar de olhar para esta medida como mais um passo na direcção de pôr em causa a secularização da sociedade turca. O “véu” é um simbolo do Islamismo, é um símbolo de uma determinada forma de olhar para a mulher, e um símbolo da desigualdade de tratamento e direitos face ao homem de que a mulher é objecto nos países Islâmicos. Tal como diz o artigo da BBC o medo de que, com este pequeno passo, se comece a pôr em causa a secularização da sociedade Hoje é o véu que é permitido, amanhã regressa o velho sonho de criminalizar o adultério, (ver este artigo de 2004), nada que não tenha já sido debatido, depois de amanhã, outra desculpa e outra medida.

6.2.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 24

Salvador Dali
Muchacha en la Ventana (1925)
(clicar para aumentar)

Desaprender

Há uns anos tinha a mania que não gostava de Picasso, coisa de pouca duração porque em frente da Guernica rendi-me à evidência da sua genialidade, quase malgré moi, e apartir daí foram outros os olhos que olharam. Quando pensava que não gostava de Picasso dizia-me, no entanto, admiradora de Dali e de Miró. Tenho ao longo do tempo sido constante no meu gosto por Dali, admiro e “acho graça” à sua imaginação, ao delírio, à metáfora, à ousadia, o seu querer chocar-nos, e também o facto de saber desenhar bem (tal como Picasso).

Miró é um caso distinto. Como com tanta coisa na vida também com Miró o meu olhar mudou, e o que era já não é. Assim hoje, em frente dos seus quadros, de todos os formatos, de todos os tamanhos e de todas as cores, o espanto foi muito: aqueles fios (linhas, curvas?) compridos e pretos com bolas nas pontas e outras bolas maiores, com ou sem olhos (?) espalhadas pela tela, às vezes com côres primárias, outras mais acizentadas ou simplesmente a preto e branco, deixaram-me surpreendentemente indiferente. Nem gostei nem deixei de gostar. Aquela linguagem pareceu-me vazia e irrelevante. Um ou outro quadro talvez tivessem provocado um “que giro!” mental, algo que é verdadeiramente insuficiente e banal. O desconforto da desilusão, pois se eu percebo que se “aprenda a gostar” de uma qualquer manifestação de arte, já me é muito mais dificil perceber o contrário, talvez porque menos usual, e perceber que se desaprenda de gostar ao ponto da indiferença. Porque é que o feitiço se perde, porque é que a leitura, o sentir e a adesão se modificam assim afastando-nos?

2.2.08

Uns dias

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Plataforma contra a Obesidade 31

James Peale (1749–1831)
Still Life: Balsam Apple and Vegetables,

1.2.08

Excesso de zelo

Ando com vontade de escrever sobre o excesso de zelo que motiva tanta da legislação mais recente e que impera naquilo a que tenho chamado de nova ordem moral que hoje se tenta estabelecer. Não é um fenómeno exclusivo português, mas aqui no nosso país assume uma dimensão um pouco mais patética devido aos brandos costumes em que habitualmente todos nos movemos. Os brandos costumes não sendo motivadores de grandes mudanças sociais de desenvolvimento ou de grandes revoluções e sendo campo fértil para imobilismo e hipocrisia, são também mais brandos. Numa sociedade em que ninguém está de acordo sobre o que é a corrupção e em que os seus limites são desfocados, amplos e variam de pessoa para pessoa, momento para momento, circunstância para circunstância, em que a noção de ética é simplesmente colada à noção da legalidade: se é legal é ético, se não é legal não é ético, (pobres filósofos e pensadores que tanto tempo perderam dissertando sobre ética) e em que noções um pouco mais exigentes e aprofundadas que norteem a vida pública, quer de trabalho quer política são olhados com desconfiança, os excessos de zelo são sempre perigosos. São uma drástica mudança do oito para o oitenta. São redutores, cegos, simplistas, puritanos (um puritanismo new wave) olham com pouca bondade para o ser humano e escondem muita intolerância. (E medo e inveja). Sempre me ensinaram a desconfiar quer de excessos de zelo quer dos zelos dos convertidos.

O problema é quando o feitiço se vira contra o feiticeiro, e quando são expostas as fragilidades incongruências e faltas de rigor e zelo do zelador-mor. Devemos olhar para eles com o excesso de zelo que tantas vezes nos é exigido, ou usar alguma tolerância e benevolência e olhar para o lado, coisa que os brandos costumes nos ensinam? Preferia a última, não sei se consigo.
Segunda ferradela do Público ao calcanhar de Aquiles, perdão, de José Sócrates. Aposto que não fica por aqui e que não há sapato Prada que proteja.

.

Combate ao Sedentarismo 48



30.1.08

Brain Damage

The lunatic is on the grass
The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path

The lunatic is in the hall
The lunatics are in my hall
The paper holds their folded faces to the floor
And every day the paper boy brings more

And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forbodings too
Ill see you on the dark side of the moon

The lunatic is in my head
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
You re-arrange me till Im sane
You lock the door
And throw away the key
Theres someone in my head but its not me.

And if the cloud bursts, thunder in your ear
You shout and no one seems to hear
And if the band youre in starts playing different tunes
Ill see you on the dark side of the moon

Eclipse

All that you touch
All that you see
All that you taste
All you feel.
All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.
All that you give
All that you deal
All that you buy,
Beg, borrow or steal.
All you create
All you destroy
All that you do
All that you say.
All that you eat
And everyone you meet
All that you slight
And everyone you fight.
All that is now
All that is gone
All thats to come
And everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon.

Pink Floyd. Ver aqui.

Literalmente


Ainda com os efeitos sonoros da remodelação de ontem, hoje acordei mentalmente ouvindo "dois tigres à solta...", e nem consegui ouvir mais. Espantoso, pensei: uma nova metáfora política; ou será o efeito de alguma agência de comunicação, elevando-a a patamares ousados e a um novo paradigma de comunhão com a natureza? Nada disso. Por uma vez a comunicação era para ser levada literalmente. Estavam mesmo dois tigres à solta.

29.1.08

Velas 10

Hoje
(clicar para aumentar)
O plástico já chegou às remodelações do Governo e agora também já temos remodelações de plástico. Ver também aqui.

Será que mudando o Ministro da Saúde mudam a política de saúde, ou só o estilo? Se muda a política, como fica a reforma do SNS já iniciado? Quem contestava o Ministro contestava a política ou o estilo? O sector do PS que provocou a queda do ministro tem soluções diferentes? Quais? Marcelo Rebelo de Sousa vai ficar contente.

Os critérios da remodelação são também, no mínimo, bizarros. Parece ter sido feita só porque sim. Mais um retoque do que uma remodelação. Um exemplo só: Mário Lino a quem se criticava e critica a política e o estilo fica.


Dando Excessivamente sobre o Mar 23

John Constable (1776-1837)
Harwich Lighthouse

28.1.08

Buñuel ou Monty Python?

Vi-me hoje num hospital do SNS bem no centro de Lisboa, moderna e dinâmica capital europeia. O hospital parece tudo menos um hospital, foi feito numa altura em que ainda não havia arquitectos de hospitais em ateliers altamente especializados que estudam circulação, circuitos e optimizações. Este hospital é feio, inadaptado e tudo totalmente non user friendly para qualquer categoria de pessoa que tenha de o frequentar, ou pior ainda de nele trabalhar. Aliás creio que trabalhar lá deveria dar direito a uma bonificação extra. Dito isto lembro que o dito hospital já é hospital há tempo demais.

Nos minutos que antecedem a hora da visita, os visitantes vão esperando com ar de quem está já habituado, nos corredores impossíveis de descrever e onde é difícil perceber o que está mal. Tudo está o que torna a descrição complicada e sem nenhum tipo de efeito de surpresa. Mas não foram estes aspectos que me chamaram a atenção, apesar de cada um deles a merecer pois só a nossa familiaridade com tais condições é que nos torna inertes e nos impede um enorme grito de revolta. O que hoje presenciei de verdadeiramente extraordinário, e se o que aflorei até agora revela um surrealismo digno de Buñuel, este caso é mais próximo de um surrealismo Monty Pytoniano, é o facto de que, por causa de umas obras de nada que parece não terem acontecido, os pacientes tiveram de mudar de quartos na enfermaria. (A enfermaria tem vários quartos cada um deles com várias camas). Tentaram, com uma ou duas excepções, manter os pacientes nas suas camas que são numeradas, mas porque uns foram para uns quartos e outros para outros a lógica numérica daquela enfermaria perdeu-se, bem como a memória visual que liga o paciente ao quarto e ao local. Para complicar tudo, os números da cama nem sempre estão visíveis, e à entrada dos quartos ainda está a indicada a numeração antiga. Assim nos últimos dias as dietas andam trocadas, vão fazer raios-x ou outros exames os pacientes errados, os médicos, que mudam bastante e nem sempre conhecem bem o paciente, porque ainda não o tinham visto, ou porque olham sobretudo para a ficha médica, falam com os pacientes errados, as enfermeiras só depois de irem a um quarto se lembram que é no outro que está o paciente que tem que ser medicado ou ter o soro mudado. Olhei para aquela enfermaria e pensei que dos pacientes aos médicos, lá estar, trabalhar e estar disponível ou lá estar e recuperar de uma doença, é feito digno de heróis. Repito é de Lisboa que falo, não é do interior abandonado.

Ah, não quero esquecer, pois fiz uma nota mental para aqui o escrever: naquela enfermaria numa prateleira pequena por cima da porta da entrada estavam discretos, mas visíveis para todos, nada menos do que 7 imagens religiosas de vários tamanhos e de qualidade estética duvidosa representando, tanto quanto pude perceber, a Nossa Senhora e o Santo António (o padroeiro da cidade). Duas jarras com flores frescas – o que de mais fresco havia no hospital, diga-se, ladeavam as imagens. Não há decreto que mude hábitos e tradições demasiado enraizados.

27.1.08

Via Blasfémias cheguei a este post da 4ª República sobre a recente aprovação dos PPR públicos. Também a mim me apetece dizer, mais Estado não, muito obrigada! Sobretudo tendo em consideração todos os pressupostos lá descritos e questões lá levantadas. Sobra sempre a vontade do governo de que o Estado tenha sempre o máximo de dinheiro possível. Uma questão de equilíbrio das contas, senão como é que chegavam e mantêm um déficit inferir a 3%? Todos os meios são bons para fazer os euros dos cidadãos chegarem às mãos benevolentes do estado. Se não fosse essa a intenção, o governo deixava que se baixasse a prestação do cidadão à segurança social desde que este último provasse que investia em fundos de pensões privados.

E a propósito de fundos de pensões, que é feito daquela ideia antiga de Paulo Teixeira Pinto, ex-administrador do BCP, de a Segurança Social absorver o fundo de pensões do Millenium BCP? Será que esta nova administração (que lá entrou pela mão do estado) vai deixar a ideia morta ou vai querer ressuscitá-la?

Coisas que se podem fazer ao Domingo 23

Giovanni Bologna (1529–1608)
Triton



Chamar os amigos

25.1.08

A Guerra de Charlie Wilson

Ou Jogos de Poder (numa pouco feliz tradução)

Este é um filme tipicamente americano. Um bom filme, daqueles que os americanos sabem fazer, com uns momentos maus também daqueles que os americanos fazem bem. O Afganistão é o palco da intriga política - baseada em factos reais, e olha para um aspecto da política internacional norte americana com os olhos de quem hoje já sabe “no que deu”. Não é isso que é interessante, o que é interessante são os mecanismos que obrigaram, fizeram e construiram essa política e neste aspecto o filme é uma reflexão desapaixonada e muito verosímil. A narrativa escorre a bom ritmo e à boa maneira de holywood, com bons diálogos e com boas prestações dos actores: Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams estão ao melhor nível. O único senão, são algumas das cenas no Oriente, nomeadamente porque a pior, a pouco convincente, mal feita e algo básica e redutora, cena no campo de refugiados afgãos onde Charlie Wilson vai e se “converte” à causa talibã contra os soviéticos. Estes momentos simplistas em que o mundo é dividido em maus e bons, em causas e efeitos – o momento final sobre a opção da não ajuda para construção de escolas, por exemplo, são o grande senão do filme. Alguns sentimentalismos fáceis nessas cenas eram também escusados, e esses momentos menos apurados impedem que se diga que o filme é óptimo. Mesmo assim, gostei de ver.

23.1.08

Plataforma contra a Obesidade 30

Georges Braque (1882-1963)
The Table (Still Life with Fan)

Saber Demais


Somos curiosos e queremos saber. Depois aprendemos que era melhor não sabermos certas coisas, mas mesmo assim queremos saber sempre mais e persistimos ávidos na certeza de que o saber não ocupa lugar. Mas ocupa, e às vezes ocupa lugares estranhos nas frinchas do ser, nos cantos menos óbvios, outras vezes é como uma bolada bem no centro, que afasta tudo o que lá está. Às vezes sabemos porquê, outras vezes não sabemos.

Saber que e como morreu Heath Ledger ocupa lugar. Porque foi memorável em Brokeback Mountain, porque não deslumbrou num filme medíocre como Casanova, porque era novo, porque era um belo homem, porque pensava que era feliz, porque era infeliz, porque podia estar enganado...

22.1.08

Tardes de Inverno 8

Fragonard (1732-1806)
Le Verrou
(Clicar para aumentar)

21.1.08

Sobre o Ocidente, ler aqui.

.

O Primeiro-ministro não conhece Viana do Castelo. Se conhecesse não fazia o tipo de declarações que se podem ler aqui, nem se mostrava tão satisfeito em relação à sua obra passada e ao reconhecimento da população. Em Viana do Castelo o importante é fazer festa, e qualquer pretexto serve para a festa. É por isso que Viana é única.

Pedro Homem de Mello é que sabia. Se o meu sangue não me engana / Como engana a fantasia...

20.1.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 22

Edgar Degas (1834-1917)
The Little Fourteen-Year-Old Dancer

Dançar Ballet

Beethoven no CCB

No âmbito do Ciclo de Piano do Projecto Beethoven 20068 (que nome!), fui ao CCB ouvir Giovanni Bellucci, num grande auditório cheio a metade. A versão para piano feita por Franz Liszt da 5ª Sinfonia de Beethoven é uma peça ambiciosa e de enorme fôlego que mostra a complexidade e riqueza do instrumento, e que requer grande técnica, dedicação e sensibilidade por parte do pianista que entusiasmou a plateia e que lhe retribuiu em palmas e bravos. O resultado é mais Lisztiano do que Beethoveniano, e se dúvidas houvesse a sonata seguinte (Hammerklavier, opus 106, supostamente uma das peças de piano de mais difícil execução) pode confirmá-lo. Gostei bastante do concerto e do pianista, apesar de uma série de crises de tosse que afligiu vários cantos da plateia durante o belíssimo 3º andamento da sonata: “convenientemente“ um adagio sostenuto cheio de momentos de pausas, de algum silêncio e de grande lirismo e delicadeza. Porque não esperaram para tossir pelo mais barulhento andamento seguinte?

19.1.08

Expiação

Li Atonement de Ian McEwan há uns anos quando o romance saiu. Foi um romance de que gostei bastante (muito mais do que de Amsterdam que lhe valeu o Booker) tal como gostei de On Chesil Beach. Não posso agora, e porque não o reli recentemente, fazer uma análise mais completa do romance mas lembro que uma das ideias mais marcantes que a obra me deixou foi, para além do facto de ter uma escrita muito cuidada, a forma como desde o início, com uma espécie de aquecimento dos motores ou de preparação do terreno, se dá conta de um percurso individual de expiação. Não é arrependimento, é mesmo expiação, no sentido cristão de expiar um pecado, uma culpa; carregá-lo toda a vida como quem carrega um fardo. Toda a vida da personagem é moldada por essa expiação.

Foi com curiosidade – cautelosa - que fui ver o filme “Expiação” de Joe Wright. O filme começa bem, mas creio que a segunda parte perde um pouco em termos de densidade. A primeira parte é muito bem feita do ponto de vista formal com leituras diferentes dos pedaços que constituem os acontecimentos, conforme estejam a ser os olhos de uns ou de outros que os “vêem”. Nesta diferença de olhares começa o terreno a ser preparado para a possibilidade e a concretização do pecado ou culpa que marcará e mudará a vida de todas as personagens. O espectador está perturbado, mas entende o porquê. A partir daqui o filme perde-se querendo ser mais do que deveria querer, porque parece perder o seu objectivo central que circula à volta da culpa. De repente sentimos que estamos perante uma conturbada história de amor em cenário de guerra (excessivo), por muito legítima ou interessante que essa história seja. O romance, da mesma forma que na primeira parte preparou o terreno para o pecado, na segunda centra-se no percurso pós pecado, no efeito da culpa focando o arrependimento, as tentativas de reparação, mas não a redenção, o que deixa a personagem “pecadora” em situação de expiação até ao fim dos seus dias. É esta densidade que falta ao filme na segunda parte e que não é tão bem traduzida nem sequer a nível formal. Apesar dos cenários de guerra e dos feridos em enfermarias cai-se em alguma banalidade tornando o fim menos interessante do que princípio e deixando-nos, espectadores, um pouco insatisfeitos. Dos actores, saliento o trabalho de Keira Knightley que se afirma enquanto actriz madura.

18.1.08

Fumos 2

Do Glamour

Quando se olha para esta fotografia associamos o fumo de um cigarro e o fumar ao glamour e sedução e pensamos como é bonita a fotografia de Lauren Bacall de cigarro na mão. Mas bonita é Lauren Bacall: bonita, elegante, fotogénica, bem maquilhada, bem penteada, bem vestida. Ela é uma actriz e esta é uma fotografia de uma das muitas “personas” por ela encarnada, são poses estudadas no ângulo certo, com a luz certa, tiradas por profissionais para que tudo esteja bem e o preto e branco a dar um toque de estúdio. Não é o cigarro que dá o glamour.

Nesta outra fotografia de Anna Magnani, não é o glamour que é valorizado, mas sim o lado mais “intelectual” do cigarro pois Anna Magnani não tem a beleza mais “óbvia” de Bacall. Aqui é a intensidade que conta, o poder, a fragilidade, a escolha, a decisão, enfim um lado mais interior de uma outra faceta de sedução a que tantas vezes também se associa o cigarro e o acto de fumar. Mas mais uma vez, é também uma fotografia de estúdio de um ser que tem a sorte de ser fotogénico. Anna Magnani é que tem magnetismo e intensidade, não é o cigarro.

Os instantâneos de gente comum a fumar são bem diferentes, sem glamour, sem intensidade, e certamente muito menos mistério. O melhor que se pode dizer é que são banais. Claro que os instantâneos seja de quem for são todos eles banais; é verdade, mas abstenho-me de nomear e listar algumas diferenças entre instantâneos de fumadores e os outros de tão óbvias e tão pouco glamorosas, intensas e sedutoras que são. Por isso há que não perder o norte e pensar que sem o cigarro lá se vai o mistério, a beleza, e que a discussão intelectual fica sem intensidade. A vida continua.

Dando Excessivamente sobre o Mar 22

Edward Hopper (1882-1967)
Rooms by the sea

17.1.08

Fumos

Num ambiente na comunicação social e nos blogues ainda marcado pela síndrome de abstinência de tantos fumadores que vêm limitado (um pouco, só) o seu direito de acender um cigarro onde quer que seja, leio posts indignados com o ambiente de proibição em que se vive hoje, num saudável saudosismo do “é proibido proibir” dos idos anos 60 que nunca é mau lembrar, e vejo glamorosas imagens de homens (se é que Serge Gainsbourg alguma vez foi glamoroso...) e mulheres de cigarro na mão ou na boca tentando demonstrar e elevar a estética do acto de fumar. Primeiro dos direitos. A seguir do glamour.

Dos direitos

O meu direito e a minha liberdade individual de não respirar em ambientes de fumo e de não ser fumadora passiva foi, desde que me lembro, objecto de muito pouca preocupação quer por parte do estado quer por parte dos fumadores que comigo privavam e ainda privam, com raríssimas e honrosas excepções. Anos e anos trabalhei em ambientes de fumo com fumadores desde as primeiras horas da manhã (e não sabem o que custa) e respirei o ar que eles poluíam, tomei refeições olhando e respirando cinzeiros cheios, arranjei o cabelo em cabeleireiros onde outras senhoras afastavam de suas cabeças acabadas de pentear o fumo dos seus próprios cigarros. São estes alguns dos exemplos de uma lista que poderia continuar. Custou-me sempre acreditar que o meu direito de não respirar ar sujo e estragado pelo cigarro dos outros tenha sido ao longo do tempo objecto de tão pouca consideração, respeito e preocupação. Mais do que o fumo de um cigarro que um amigo possa fumar perto de mim, e que pouco incomoda de facto, o que revolta tantos não-fumadores foi, e é, o facto de ser dado como adquirido o nosso acordo – tácito, em respirar o ar sujo pelo fumador, mostrando, esse sim, pouco respeito pela nossa liberdade e saúde. E tratar da minha saúde é um direito que me assiste e que exerço como e quando quero, tal como o direito dos fumadores de, na privacidade ou em locais apropriados fumarem tanto quanto queiram. Finalmente o estado pela mão deste governo e de outros anteriores (e este blogue não pode ser acusado de simpatias com o governo que hoje nos governa) tem vindo a proteger um direito meu e de uma tão grande maioria de, em locais públicos e fechados se respirar ar sem fumo.
(continua)

16.1.08

O melhor resumo de tudo o que tem sido sobre a novela BCP é dado simples e inequivocamente pelas reacções do mercado, mais do que pelos votos dos accionistas, por vontades políticas de consensos ou fiscalizações das entidades reguladoras. (Não aprendem). Próxima OPA à vista? Ver aqui.

15.1.08

14.1.08

Pouco Encantada

Enchanted”, uma produção da Disney, foi o último filme que vi desta temporada infantil que vem (e vai) com o Natal. No entanto não fiquei tão encantada com Enchanted como gostaria e resumiria a minha opinião a um “vê-se!” Apesar de três ou quatro momentos bem conseguidos sobretudo no início do filme, ele desenvolve-se e acaba numa banal previsibilidade, que presumo seja intencional para não tornar o filme demasiado “inteligente” e/ou "exigente" para o público. Os actores surpreenderam-se positivamente com excepção de Patrick Dempsey (o Dr. Shepperd da Anatomia de Grey). Para o ano há mais.

13.1.08

Serviço

O exercício de um cargo político, ou de outro cargo público com poder e elevada capacidade de decisão, deveria ter por base a noção de serviço. Num mundo ideal tem, e num outro mundo menos imediatista em que o carácter se forma com base em valores pouco visíveis e não consumíveis, de vez em quando também tem. Complementando essa disponibilidade de serviço, deve estar a competência e a integridade. Todas as outras possíveis ou desejáveis características ao lado destas são, em última análise, irrisórias e servem sobretudo para encher jornais. A ambição, a visibilidade, a atracção pelo poder ou a ilusão de que se exerce esse poder, o estar lá nos centros de decisão ou a ilusão de que realmente se decide, o querer-se e saber-se influente, a certeza de que hoje um cargo político é um degrau seguro para um futuro confortável num cargo público ou numa empresa pública, semi-pública ou privada dessas que vivem na promiscuidade que é o nosso regime, são hoje os principais factores motivacionais de quem abraça um cargo de serviço público. Mesmo quando o discurso é sobre a vontade de servir o país os actos, um a um, desmentem-no.

Esta semana que passou ilustrou esta ausência da noção de serviço de forma dolorosamente visível e não deixou também dúvidas quanto à competência e à integridade. Um momento verdadeiramente confrangedor esse em que vimos Mário Lino sentado ao lado de José Sócrates, (ou deverei dizer: em que vimos José Sócrates sentado ainda ao lado de Mário Lino?) enquanto o PM anunciava a decisão de construir o aeroporto em Alcochete... Tal momento, já por demais analisado e dissecado, em que se destaca a constante desfaçatez do PM e a passividade amestrada do ministro, deixou-nos boquiabertos e hoje continuamos a ter dificuldade em acreditar que se tenha mesmo passado. O mesmo aconteceu quando fomos confrontados, já não só com a possibilidade da administração da CGD poder ir para o BCP e Armando Vara com ela, mas com o facto de este último ter pedido licença sem vencimento à CGD para não perder o vínculo laboral que o prende à instituição pública.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 21

Romano (fim do séc I AC.)
Aphrodite "Vénus d'Arles"


Imaginar um vestido

10.1.08

Hoje

9.1.08

Grau Zero 3

Se em matéria de símbolos e prática religiosa se tem como objectivo um higiénico vazio, outras áreas nomeadamente relacionadas com o pensar, o questionar, o criticar, o analisar, parecem também estar a sucumbir à mesma redução ao grau zero. A perspectiva que começa a desenhar-se de se acabar com todos os partidos políticos incapazes de fazer prova de terem nos seus registos mais de 5000 militantes, ou o “não” ao referendo sobre a questão europeia são algumas ilustrações desta onda redutora e de terraplanagem da sociedade. Fica um vazio ideológico e de debate, em que a diferenciação não é bem-vinda começando por isso a ser metodicamente eliminada deixando um espaço amplo ao centrão que alimenta o regime para que, de acordo com o soprar dos ventos, este se encha e se tinja de algumas cores para dar uma patine de pensamento, reflexão e de pluralidade. Ambiente, aquecimento global, casamentos gay dão um ar de esquerda, ex-combatentes e liberalizações de alguns sectores de actividade normalmente reservadas ao estado, reforço de autoridade dão o ar de direita, e o ar moderno e actual de quem está na linha da frente é dado com os temas das novas tecnologias ou pelas preocupações com a vida saudável. Está tudo previsto.

Assim nasce uma sociedade grau zero: feita de indivíduos bi-dimensionais, lisos e brilhantes como o aço polido das belas e modernas cozinhas onde impera a higienização e as facas de cabos de cores diferentes, ou gentes polidas de acabamento cuidado e de design perfeito como os sapatos Prada, ou então luminosas, cintilantes, rápidas e eficientes como as luzes dos computadores e de qualquer gadget moderno filho das novas tecnologias. Tudo sem debate, tudo sem colesterol, tudo muito liso, tudo muito igual, tudo muito vazio. Aldous Huxley não fez melhor.

Tardes de Inverno 7

Edouard Manet
Au Café (1878)

8.1.08

Grau Zero 2

O grau zero de referências a, e de sinais religiosos cria um vazio na sociedade em que ele nasce. Os vazios têm os seus perigos, por muito modernos, brilhantes e zen que sejam, nomeadamente o de o serem por pouco tempo, porque algo irá ocupar esse “espaço” de nada: outra simbologia, outros sinais, outras referências, e outros valores. Não sei se a sociedade fica a ganhar se paulatina mas inexoravelmente for substituindo os símbolos e valores de um cristianismo liberal, que é o que se vive na maioria das sociedades europeias, por outros símbolos e valores de cariz laico, por esemplo ligados ao republicanismo e que serviram de suporte ideológico à Revolução Francesa (também eles uma evolução “laica” de valores cristãos) ou, outro exemplo, ligados a aspectos mais materiais, consumistas e de “progresso económico”. Também não sei se a sociedade fica a ganhar se forem outros os símbolos e valores que a pouco e pouco e se forem nela entranhando, nomeadamente se forem ligados ao Islamismo, uma religião expansionista e agressiva que preza pouco a laicidade e a separação entre Estado e Religião. Muitos países Europeus estão a confrontar-se com sérios problemas de valores com as suas comunidades muçulmanas.

Eu creio que no aqui e agora, e prevenindo o que poderá ser um mau futuro, as investidas dos que se reclamam herdeiros de valores republicanos e laicos, e viram o seu combate em direcção à igreja Católica, poderiam tomar também outros rumos. Vou deixar aqui um pequeno inventário de questões, apesar de ainda pouco visíveis em Portugal e de dimensão inferior à de uma parte relevante dos países europeus, que directa ou indirectamente estão ligadas à religião. São práticas que poderiam e mereceriam ser monitorizadas e objecto de análise pois muitas delas são contrárias aos princípios de igualdade de oportunidade, de dignidade e respeito pela individualidade e integridade física, moral e financeira dos indivíduos, e são claríssimas violações da lei.

  • Cumprimento de escolaridade obrigatória por parte de todas as crianças e jovens nomeadamente do sexo feminino.
  • Liberdade de escolha, nomeadamente sobre o seu próprio casamento, se, quando e com quem, ou sobre a religião que se quer professar.
  • Cumprimento da Lei no que diz respeito aos direitos patrimoniais da mulher.
  • A excisão feminina é uma prática a que Portugal não é alheio. Esta é uma questão que merece um combate sem tréguas e uma tolerância zero.

7.1.08

Plataforma contra a Obesidade 29

Georges Braque (1882-1963)
Black Fish
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6.1.08

Grau Zero

O artigo de ontem no Público de Vasco Pulido Valente transcrito aqui e aqui, lembrou-me o tão recente episódio gerado pela notícia do dia 2 deste mês no Correio da Manhã. Porque tenho dificuldade em acreditar na inocência de uma legislação que condiciona a escolha de um nome de patrono que terá que ter/ser “reconhecido valor de personalidade que se tenha distinguido na região, nomeadamente no âmbito da cultura, da ciência ou educação,podendo ainda ser alusivas à memória da expansão portuguesa, à antiga toponímia ou a características geográficas ou históricas do local onde se situam os estabelecimentos de educação ou de ensino”, ou na bondade dos orgãos regionais do MNE, que segundo o desmentido ao desmentido, (e porque não houve desmentido ao desmentido do desmentido) terão dado indicações de que se evitassem nomes de cariz religioso, creio que estamos perante mais uma investida da nova ordem moral tão cara a José Sócrates - e ao seu mentor do politicamente correcto, José Luis Zapatero. Uma investida discreta, em que as instruções são insinuadas de forma informal para conseguirem passar a mensagem sem grandes perturbações e testar as reacções das partes implicadas. Indo devagar, aprovando uma medida hoje, outra amanhã para não levantar ondas e evitar as manifestações que enchem as ruas, vão-se tirando as cruzes das enfermarias dos hospitais mesmo contra a vontade dos utentes, aprovando estatutos para os capelães que deixam de ter autonomia para de visitar qualquer doente, tudo em nome da laicidade e imparcialidade do Estado, mas inspirados por ímpetos republicanos e jacobinos de outras épocas, para tornar o país e a sociedade tão limpa quanto possível das bafientas, maléficas e ameaçadoras referências à religião católica, e afastá-la tanto quanto possível do convívio com a hierarquia da Igreja Católica maioritária no país e parte fundamental e integrante da nossa tradição, história e cultura.

De um ponto de vista antropológico seria interessante estudar esta vontade de despir a sociedade dos seus valores religiosos (que hoje, só para lembrar quem teime em viver no passado, não são nem coercivos nem opressores) que a formaram, que lhe são específicos e que são tão naturais ao ser humano. Seria interessante perceber esta vontade de criar um vazio, um grau zero de religiosidade social e do Estado, numa altura em que temos um Estado inegavelmente laico (e ainda bem) e em que a religiosidade hoje se manifesta mais através de alguns rituais, de referências e de feriados (que ninguém ousa tocar, com excepção do católico Cavaco Silva quando era Primeiro-ministro) do que através de uma prática que transborde e influencie determinantemente o Estado. Mais interessante ainda seria perceber esta intolerância face ao que é “nosso” (num sentido lato) face às nossas referências religiosas de que fala VPV e que resulta da tolerância à diversidade. Se hoje se tolera na sociedade ocidental, e provavelmente em Portugal também - só que ainda não o sabemos - a propaganda islâmica, se preferirem, de ensino corânico, que prega a perversidade essencial do Ocidente e tenta promover a sua expeditiva eliminação (cintando VPV), como é possível que alguns sectores se sintam ameaçados na sua liberdade, nos seus conceitos por coisas simples, mas que inegavelmente traduzem uma identidade, uma religião, uma cultura, uma tradição, que as nossas, como nomes de Escolas, a presença de um Bispo numa inauguração ou um cantar de Janeiras?

Coisas que se podem fazer ao Domingo 21

Apollo Sauroctonos. Roma Imperial, séc. I-II DC(?).
Copia de um original grego de Praxiteles, 340 AC(?)
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Apanhar lagartos.

4.1.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 21

Odilon Redon (1840-1916)
Fishing Boat

3.1.08

100 things we didn't know last year

Para escapar a tanto fumo, diverti-me com esta lista das 100 Coisas que não Sabíamos no Ano Passado. Gosto de listas e enumerações, acabo sempre por aprender alguma coisa com elas e esta absolutamente aleatória é deliciosa e cheia de informação pertinente. Para os mais cépticos, deixo aqui alguns exemplos, dos muitos, que contém material para reflexão. O item 30 merece uma visita mais detalhada.

12. Georgic is a punishment dished out to Eton pupils which involves the copying out of hundreds of lines of Latin.

15. 10% of university work from across the UK is plagiarised.

17. Two cups of spearmint tea a day is thought to control excessive hair growth for women.

26. Harvesting rhubarb in candlelight helps preserve its flavour.

30. Serving anything more than tea and biscuits at a political meeting is an offence called "treating" and punishable by a year in prison or an unlimited fine, under the the Representation of the People Act 1893.

31. There is mobile phone reception from the summit of Mount Everest.

40. A new three-bedroom house must have at least 38 plug sockets.

46. Peanuts can be made into diamonds.

53. Renowned atheist Professor Richard Dawkins likes singing Christmas carols.

63. Cats can be police constables.

70. IP addresses will run out in 2010.

79. Woodwork lessons are known as "resistant materials" in schools.

87. Relocating crocodiles doesn't work - they come back.

88. Deep-voiced men have more children.

97. There have been at least two children given the name "Superman" in the UK since 1984.

2.1.08

O ano começa com práticas correntes em França onde se queimam carros, práticas que não são inéditas no Quénia onde se queimam pessoas e práticas novas a que teremos de nos habituar. Nada de inesperado nem de bom se augura para 2008.

Por cá, na Costa Oeste da Europa, anda todo o mundo atordoado com o fumo, incluindo o Presidente da ASAE que o afasta de si e teima em o deitar para os nossos olhos. O ímpeto legislativo, politicamente correcto e obrigacionista de mãos dadas com os brandos costumes e hipocrisia.

Sou surpreendida com as várias e sempre inevitáveis entrevistas de rua que os jornais televisivos nos mostram – neste caso entrevistas de café - em que, de repente, nenhum não-fumador se diz incomodado com o fumo. Eu fico feliz por saber que posso almoçar e jantar fora o tempo que quiser sem respirar cinzeiros e fumo nem ficar com a roupa toda a cheirar a tabaco. Só lamento que tenha sido preciso fazer uma lei para que isto aconteça, e para que o ambiente sem fumo seja um dado para um não-fumador. É o mundo que temos.

1.1.08

Tardes de Inverno 6

FRAGONARD, Jean-Honoré (1732-1806)
Jeune fille à la lecture

31.12.07

Quase 2008

Um Bom Ano de 2008 para todos.

30.12.07

Dos Balanços do Ano 2

A omnipresença

De Deus. Ele está em todo o lado, e 2007 não foi excepção. No Kosovo, na entrada da Turquia na UE, nos atentados de Argel, na Birmânia, no Afeganistão, na Rússia, no Sudão, no Médio Oriente. Na intolerância, na radicalização religiosa, na perseguição, na discriminação (sobretudo das mulheres). Nas revoluções dos costumes, no aborto, no casamento dos homossexuais, no divórcio, na contracepção, na inseminação artificial, nas experiências em embriões, nos preservativos. Na política, em Sarkozy na viagem a Roma, no Papa Bento XVI e a sua cruzada constante sobretudo na Europa (à deriva, segundo ele) pela valorização do legado cultural cristão bem como dos valores cristãos numa sociedade (ocidental) cada vez mais materialista e relativista.

De José Sócrates. Ele está em todo o lado, tal a preocupação em zelar pelo nosso interesse, sobretudo onde não deve. Na obesidade que devemos combater, no jogging que não fazemos e que em qualquer lado do mundo ele nos lembra, nos cigarros que fumamos, nas graçolas que dizemos aos colegas de trabalho, no dever de dizer quando sabemos quem não paga imposto, no óleo em que fritam os rissóis que vamos comprar, nas consultas para deixar de fumar, no estímulo à natalidade, nas certidões de habilitações passadas ao Domingo, nos momentos de glória “porreiro, pá!”, na distribuição de computadores pelas escolas nos “momentos Chavez”, no Inglês Técnico do Middle West, na West Coast Of Europe, no Allgarve, nos sapatos Prada, na revolução tecnológica que não percebemos e que tantas vezes simplesmente não funciona. E enfim, ele está presente no governo que nos governa, e na oposição que não temos.

Dos Balanços do Ano


Invejo quem consegue fazer balanços (um de que gostei aqui) dos anos que passam, listas (sempre exaustivas e implacáveis aqui) de coisas boas, más e assim-assim, lembrar os livros, lembrar os filmes, destacar os factos e as figuras internacionais e nacionais. Chegado este período, abro os jornais e fico sempre pasmada com a sucessão de acontecimentos a relembrar que enchem cada ano que passa, porque para mim tudo se perde e mistura na espuma dos dias que passam e das coisas que se fazem e fica apenas uma ténue marca temporal qualquer que o subconsciente se encarrega de produzir, para que, posteriormente e com um pouco de esforço consiga localizar o facto no tempo. Uma questão de sobrevivência intelectual, por assim dizer. De repente, parece que o referendo ao aborto foi “há que tempos”, que o caso Maddie continua “sempre presente”, e que as manifestações na Birmânia foram há uns bons meses, este ano certamente. O mesmo se passa com livros que li, filmes que vi: tudo vago. Lembro dois ou três, e só depois todos os outros vêm lentamente à superfície da memória. Acredito hoje, época de balanço, que a minha vontade de ter um blogue talvez também tivesse como objectivo o de ancorar temporalmente esta sucessão de ideias, opiniões, factos, desabafos, e organizá-los para que não vagueem soltos e sem nexo. Agora, se quiser fazer balanços e listas só me falta mesmo, para além da vontade, da paciência e do tempo, consultar o arquivo do blogue para ver, ou ajudar a lembrar o que foi o “meu” ano.

28.12.07

Combate ao Sedentarismo 46

(Lembrado aqui)

27.12.07

Sendo o BCP um a instituição privada, é com dificuldade que olho para esta situação actual tão promiscua com os partidos políticos do chamado “centrão” a envolverem-se e a opinarem numa luta pela influência e poder pouco dignas de sociedades desenvolvidas e com uma sociedade civil sólida. Questiono a intervenção do Banco de Portugal e da CMVM reunindo accionistas, “avisando”, “sugerindo”, insinuando perigos como sendo detentora de uma qualquer superioridade informativa pouco condigna de mercados transparentes e de regimes em que a separação de poderes é escrupulosamente respeitada. O tom moral é absolutamente insuportável e impensável também nas sociedades com uma economia realmente desenvolvida. Sendo o BCP uma instituição privada não há lugar nem a paternalismos, nem a accionistas atentos e obrigados que acatam avisos, ameaças, e de imediato se colocam numa situação reverencial perante os símbolos do regime. Se há matéria judicial, que se se avancem com inquéritos e processos, (parece que deveriam já ter avançado há muito e que, mais uma vez, se chega tarde), mas lançar suspeitas sobre todos e tudo de um determinado período é facilitismo levado ao absurdo e à irresponsabilidade, numa névoa cinzenta em que tudo em Portugal mergulha, para que mais tarde a culpa possa sempre morrer solteira, como em tantos outros inquéritos e julgamentos.

Entre uma rabanada, um presente que se desembrulha, um cântico de Natal estafado e as luzes do presépio, continua lenta e firme a saga BCP cada vez mais embrulhada e requentada, cada vez mais igual ao país que somos. Ficaram aqui umas notas sobre o que mais choca nos recentes desenvolvimentos da saga e que parecem ser aceites, comentados e dissecados com tanta naturalidade.

24.12.07


FELIZ NATAL

23.12.07

Magnificat 11 (fim)

Gloria Patri, et Filio,
Et Spiritui Sanctu
Sicut erat in principio,
Et nunc, et semper,

Et in saecula saeculorum, Amen

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

Tardes de Inverno 5

Pompeo BATONI (1708-1787)
La Vierge de l'Annonciation

22.12.07

Magnificat 10

Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in sæcula.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

A propósito do Acordo Ortográfico

Não sinto nenhum tipo de paixão acerca do acordo ortográfico nem sequer curiosidade suficiente que me leve a lê-lo. Considero-o sobretudo um acto político, pois acredito que as línguas não se mudam nem evoluem por decreto ou acordos. E a minha visão é tão simples que raia o simplismo: desde que não me obriguem a escrever “ato” em vez de “acto”, ou a escrever esporte em vez de desporto, eu até digo sim ao acordo que tudo parece permitir porque, em última análise, será irrelevante. As línguas não se mudam no papel, nem sequer porque as elites gostam ou não, no entanto uma vontade de uniformização de critérios de aceitação de diferentes ortografias não me parece condenável. Por duas grandes razões: a primeira decorre de uma verdade de lapaliciana - a de que uma língua é um organismo vivo que evolui sempre, e quem conheça um pouco a sua história, no nosso caso da língua portuguesa, sabe que hoje se escreve e fala diferentemente do que se fazia há cem, duzentos, quinhentos anos, e por aí fora. A segunda razão prende-se com a inevitabilidade da globalização e de uma aproximação com todas as comunidades que falam as várias formas de Português, e com o peso que queremos que o Português tenha a nível mundial que depende essencialmente do peso quer em termos numéricos, quer em termos de influência no mundo, do Brasil e do português do Brasil.

Se olharmos com atenção para o português que falamos hoje notamos, sem esforço nenhum, a enorme influência que o “brasileiro” tem exercido na nossa língua desde que Gabriela Cravo e Canela inaugurou o período de importação de telenovelas e impôs um novo paradigma da língua nas casas portuguesas. De repente começaram a contar-se “estórias”, e ninguém protestou. Hoje quem é que fala na “bicha” de trânsito, ou na “bicha” para comprar bilhetes para o concerto? Era esta a nossa maneira de falar, mas a influência do Brasil, quer através da televisão quer por causa do peso da imigração, obrigou-nos a mudar para um mais prudente “fila” em todas as circunstâncias; o que não falta são exemplos. O mesmo se passa com “cara” que a pouco e pouco vai ficando cada vez mais “rosto” e ninguém protesta. Já ninguém cora ao dizer “amo-te”, algo impensável há duas décadas atrás. “Rapariga” está muito enraizado, mais do que os outros exemplos, mas um dia virá em que quase só teremos moças neste país, e rapariga será vocábulo a evitar. Quando esse dia chegar, acredito que já escreveremos ato, Vitor, batismo, e não teremos escapado aos “k”s e os “x”s que invadirão não só o português, mas tantas outras línguas. A LME (Lei do Menor Esforço) é uma das leis mais poderosas do universo, e a língua é uma das áreas em que ela se manifesta de forma mais notória. Quem quiser olhar para trás, já pode ver como será o futuro.

21.12.07

Magnificat 9

Suscepit Israel puerum suum recordatus misericordiæ suæ,

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

.

O BCP, um espelho do nosso Portugal.

O parecer sobre a Conta Geral do Estado de 2006 do Tribunal de Contas, um retrato do Estado Português.

Plataforma contra a Obesidade 28

Jan Davidsz. de HEEM (1606-1683/4)
Fruits et riche vaisselle sur une table
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Mais Pobres

O absurdo em que tantas vezes se converte o quotidiano atinge o seu auge nos dias que antecedem o Natal. O Espírito Natalício nunca o foi, e ao percebê-lo o Natal começa a perder o sentido que sonhamos numa inocência perdida da infância e a ser triturado na espiral de violência urbana em que assenta a nossa vida e no delírio consumista que toma conta do nosso mundo. Este ano, este build up natalício parece-me pior e mais falso ainda do que nos anos anteriores.

Assim lembro: o caos do tráfico, a multiplicação desmesurada de tarefas, solicitações e afazeres, as músicas natalícias que enchem qualquer espaço comercial (este ano também elas me parecem piores, como se isso fosse possível), as intermináveis listas que elaboramos a propósito de tudo o que se possa imaginar, os supermercados absurdamente cheios de coisas que durante o ano nem víamos, o cansaço estampado na cara das pessoas, as luzes que enfeitam as zonas comerciais e a cidade que ou são inexistentes ou são azuis, frias e pindéricas, pateticamente (ver Av. Da Liberdade) patrocinadas por um banco. Mas o que me impressiona mais este ano são as lojas. As lojas que, depois de meses e meses vazias, de repente, encheram e borbulham numa excitação artificial. O facto de o tempo ter estado quente até meados de Novembro também não ajudou, mas que não restem ilusões: os portugueses estão a perder poder de compra, e a empobrecer a olhos vistos, e as lojas que andaram durante meses literalmente vazias, estão agora numa agitação que às vezes lembro um último fôlego, um último suspiro.

20.12.07

Magnificat 8

Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes,

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI




Dando Excessivamente sobre o Mar 20

Turner, Joseph Mallord William, 1775 - 1851
The Evening Star
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19.12.07

Magnificat 7

Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

Outros Mundos

Enquanto que em muitos países do mundo em que o secularismo está bem radicado e em que há uma clara separação entre o poder (político, judicial e legislativo) e a religião, se insiste em criticar, condenar e por vezes até ridicularizar qualquer acto ou ritual religioso que envolva um mínimo aparato e visibilidade noutros, como o caso do mundo islâmico hoje, vive-se uma festa religiosa importante, Aïd El-Kebir (no Norte de África, sendo também conhecida como Eid ul Adha). Manda a tradição que, em memória do primeiro profeta cuja submissão a Deus o teria levado a sacrificar o seu filho, cada família sacrifique um carneiro (ou outro animal). Cabe ao pai de família, numa mostra de religiosidade e de masculinidade, degolar o carneiro sob o olhar atento dos familiares, nomeadamente dos seus filhos que terão que aprender a um dia a fazê-lo, e de acordo com um determinado ritual. Quem vive em apartamentos ou casas pequenas fá-lo na rua, que se enche de gente, carneiros ainda vivos, outros já degolados e sangue que em abundância escorre por todo o lado. Nesses países poucas vozes criticam os rituais religiosos e poucos defendem o secularismo do Estado. Outros mundos.

Combate ao Sedentarismo 45

18.12.07

Magnificat 6

Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui.

Johann Sebastian Bach e Nikolaus Harnoncourt AQUI

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