“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

25.3.08

Trabalho por objectivos: aqui. Lamento que o esforço do estado para implementação destas novas estratégias de incentivos aos profissionais se desenvolva prioritariamente (ou mesmo exclusivamente) no sentido de arrecadar sempre e mais receitas para o estado, e não no sentido de servir melhor o contribuinte, onde seriam muitas as áreas a beneficiar de tais metodologias, como por exemplo o SNS para se diminuir as famosas listas. O trabalho por objectivos pode fazer maravilhas em muitas áreas.

22.3.08

Má Educação

Hoje ao olhar a imprensa vi esta notícia na BBC a propósito de um estudo no Reino Unido. Vem mesmo a calhar agora que nós por cá estamos chocados com o vídeo colocado no youtube e que correu os media de uma aluna a agredir uma professora, perante o olhar hooligan dos restantes colegas de turma, que tentava exercer a sua legítima autoridade na sala de aula. Talvez a professora não tivesse sido perfeita no exercício da sua autoridade, talvez porque tentasse pôr em prática algum método aprendido numa dessas formações psico-qualquer-coisa sobre psicologia juvenil, diálogo e exercício de autoridade. Este estudo britânico põe o dedo numa das maiores feridas da escola e do natural e desejável exercício da autoridade que deveria começar em casa. A falta dela tem consequências visíveis no normal funcionamento da escola e na fundamental e essencial hierarquia e disciplina da instituição. Mas é apenas uma das feridas de um sistema todo ele em ferida aberta.

Descida da Cruz

Paula Rego
Pieta

21.3.08

Na Cruz

Velázquez
Cristo Crucificado (1632)
(clicar para aumentar)

Museus em Madrid 3

Da colecção de Velazquéz, este quadro que reproduzo em cima é um dos mais extraordinários. Vi-o de longe, ocupava uma parede e a surpresa e o choque foram instantâneos tal a força do quadro, pela simplicidade, contenção e realismo. Um dos quadros de Velazquéz em que as linhas e o equilíbrio atingem a perfeição, e em que é transmitido sem frufrus nem excessos decorativos, simbólicos ou de sangue, o mistério da cruz. Pelo minimalismo do objecto tratado “esconde” o barroco (o drapeado do pano, a definição anatómica) e respira modernidade e veicula uma emoção única. Um dos mais belos quadros que já vi.

O museu do Prado com a sua ala nova ampla e luminosa que serve de entrada e onde estão as lojas e as cafetarias (muito boas) tem uma colecção de pintura de grande dimensão à escala mundial e está sem sombra de dúvida ao lado dos grandes museus como o Louvre ou a National Gallery e a poucas centenas de quilómetros de qualquer cidade portuguesa.

20.3.08

A Eucaristia

Nicolas POUSSIN (1594 - 1665)
L'Eucharistie
(clicar para aumentar)

19.3.08

O Lado Selvagem


Sean Penn, um dos bons actores que hoje temos, assinou a realização de Into de Wild (O Lado Selvagem), um filme que já vi há umas semanas É um filme surpreendente que retrata uma busca de si, uma visão diferente do mundo numa nostalgia do mito do bom selvagem. Com sensibilidade e contenção, sem melodrama e escapando a aos facilitismos sentimentais - não deixa o espectador entusiasmar-se com o percurso e a descoberta da personagem principal, a tristeza percorre o filme ao de leve desde o primeiro momento, lado a lado com a procurada “libertação”- mais que “liberdade”, como mais tarde se descobre. Banda sonora óptima a dar o toque melancólico. Boas interpretações.

Plataforma contra a Obesidade 37

Joachim Beuckelaer
The Four Elements: Air

17.3.08

Plataforma contra a Obesidade 36

Joachim Beuckelaer
The Four Elements: Water

Do Pecado

Em tempos de relativismo moral, de consumismo frenético, de vontades rapidamente satisfeitas, e de pressa em viver, falar de pecado é uma chatice e pensar sobre ele é de quem não tem nada melhor nem mais urgente que fazer. O Papa Bento XVI que não se compadece com esta estranha forma de vida que domina o ocidente falou sobre o pecado no seguimento do seu antecessor João Paulo II, tentando reforçar a sua (do pecado) dimensão social e as consequências que ele pode ter na sociedade. Foi mesmo estabelecida uma lista de seis pecados sociais a juntar à lista tradicional dos sete pecados mortais, não vá o católico consciencioso perder-se neste labirinto que parece ser a vida moderna. Confesso o meu cepticismo em relação a esta nova lista de pecados, à sua necessidade e pertinência, à especificidade dos tempos modernos que exige actualização da lista, e creio que ela está em desacordo com alguma tradição mais exigente do ponto de vista teórico e teológico.

O pecado é uma livre transgressão à lei de Deus, quer em acto, palavra, pensamento ou omissão: Tem que ser grave, feita de forma totalmente consentida e conhecedora, e diz-nos o catecismo que faltando um destes requisitos já não se trata de pecado mortal. Vendo o pecado à luz desta definição, estamos perante matéria do foro íntimo entre o pecador e Deus, sendo o sacerdote que ouve a confissão e dá o perdão de Deus apenas o veículo que reconcilia o pecador com a Igreja. Os sete pecados mortais (relembro: Avareza, Gula, Luxúria, Soberba, Preguiça, Inveja e Ira) tais como a Igreja os estabeleceu há séculos são suficientemente sólidos e representativos da miséria humana e podem cobrir qualquer desvio à ordem divina, para além de serem sempre a mola a qualquer forma concreta que um pecado possa tomar. Por exemplo, os pecados contra a natureza poderão ser muitas vezes atribuidos à soberba humana ou à luxúria (pelo dinheiro e lucro). Também alguns actos tais como os que estão descritos na lista recente de pecados sociais, por exemplo abortar, podem não ser necessariamente pecado mortal se as condições acima descritas não existirem.

Este estender do pecado à esfera social, definindo como pecado situações concretas e não sentimentos ou características da alma humana, também contém outros perigos. Aqui neste blogue tem-se escrito criticando, a propósito do islamismo, os danos da omnipresença da religião em todas as esferas da actividade social dominando e influenciando quer as leis, quer os hábitos, a cultura, a mentalidade. Apesar do ocidente estar numa situação que não se assemelha à existente em tantos países islâmicos, não gosto que o manto da recomendação religiosa se estenda, através de directivas concretas, a outras áreas. Nem sequer é necessário e desvirtua a noção pessoal e íntima do pecado. Como já disse a antiga lista dos sete pecados mortais tal como estão definidos podem bem continuar a cobrir qualquer acto deliberadamente contra a vontade divina que a imaginação mais criativa possa inventar (como se ainda houvesse algo a inventar) tal como tem sido feito ao longo dos séculos e também não reconheço aos tempos modernos perigos assim tão inovadores e específicos para a alma humana que requeiram novos parâmetros na abordagem ao pecado.
.

16.3.08

Plataforma contra a Obesidade 35

Joachim Beuckelaer (? - 1574)
The Four Elements: Fire

De Boas Intenções...

Há palavras fortes do catolicismo que não deixam ninguém indiferente, tanto católicos como não católicos. São palavras que estão mais ou menos na moda e são mais ou menos usadas conforme as épocas e as mentalidades, são semente de muitos equívocos, de medos e de raivas e ódios. Estes últimos vêm sobretudo de um sector anti-clerical que vê na Igreja Católica a fonte de todos os males passados, presentes e futuros da inteira humanidade.

Proponho-me neste tempo de Páscoa reflectir sobre algumas dessas palavras de uma forma que será, eventualmente, pouco ortodoxa, mas que é fruto de uma visão pessoal e livre apesar de marcada pela doutrina da Igreja. São elas: o Pecado e o Inferno que andaram recentemente na boca dos media, bem como o Mal e o Diabo (palavra maldita, mas de forte tradição doutrinal), que continuam “tabus”, mas creio que não por muito tempo. Veremos se conseguirei levar a bom porto a intenção, no meio de pinturas, desabafos, notas sobre filmes ou livros, fotografias e outras coisas que possam surgir.
.

15.3.08

Em Flor 16

Há dias assim,

como o de ontem, em que se chega tarde a casa e, em reflexo condicionado, se liga a televisão para tentar perceber se durante o alheamento informativo que às vezes são os dias, alguma coisa aconteceu. Em vez disso entramos em choque e perguntamo-nos onde estamos, se por acaso nalguma esquina entre luzes de semáforos não nos desviamos do nosso caminho e se não teremos entrado numa outra dimensão deste mundo. Fiquei assim vendo a SIC entre as notícias sobre a proibição dos piercings de acordo com uma tabela qualquer pensada por especialista (certamente) e regulamentação de tatuagens e a reportagem sobre Luis Filipe Menezes na intimidade. Proibir piercings? Mas quem é que vai fiscalizar essa legislação se ela algum dia existir? Numa sociedade onde há salas de chuto, onde se pode abortar legalmente até às 10 semanas, como é que estes legisladores e têm a arrogância de pensar que algum dia podem regulamentar esta actividade de piercings e tatuagens? Pior, como é que lhes passa pela cabeça que isso é importante? Quem lhes disse que era necessária regulamentação dessa área? Quem neste governo sofre de esquizofrenia legislativa e de hiperactividade regulamentar? Estão todos doidos? Já agora, informem-nos por favor sobre o que é que se propõem regulamentar a seguir, uma vez que a noção de liberdade individual lhes é totalmente alheia.

Ainda mal refeita dos piercings na língua e restante cavidade oral, vejo a reportagem sobre o líder da oposição “na intimidade”. Eu que cada vez percebo menos de política e que cada vez entendo menos seja o que for sobre agências de comunicação (e o mundo em geral, diga-se), tento o mais possível não perder o bom senso do meu horizonte. Aquela reportagem não tem ponta por onde se lhe pegue. Será que alguém depois de ter visto Luís Filipe Menezes em toda a sua glória intimista, quer um homem assim para primeiro-ministro? Se a reportagem de José Sócrates foi ensaiada e falsamente natural com as já famosas referências às leituras dos filósofos espanhóis, e o telefonema a Zapatero, pelo menos foi pensada para poder contornar a ratoeira que a “intimidade” tanta vezes se revela ser. José Sócrates não se expôs muito, e bem, a reportagem não acrescentou nada, pior para a SIC que gastou recursos nesse projecto. O caso Luís Filipe Menezes foi pior para o próprio: a sua intimidade foi uma ratoeira em que não se entende como é que ele caiu. Os seus conselheiros e as célebres agências estavam onde? Mostrou uma casa sem alma, um restaurante banal, um barbeiro a despropósito, um hotel em Lisboa, que não deram propriamente uma imagem de solidez. Uma exagerada exposição de filhos, pais e namorada que falando de LFM também em nada contribuiram, apesar da boa vontade, para uma acrescida consistência e coerência à figura do líder da oposição. Também o discurso de LFM se enche de contradições mesmo a falar de coisas simples e banais como foi sobre o seu principal defeito (a jornalista perguntou isso). Ideias políticas também não passaram e a vacuidade foi confrangedora. Não gostei especialmente da jornalista que nem no caso de José Sócrates nem no de Luís Filipe Menezes conseguiu passar da trivialidade. Nunca fez perguntas interessantes que permitissem aos entrevistados brilhar um pouco. Nos momentos em que isso aconteceu (com JS) foi porque o entrevistado se impôs. Como trabalho jornalístico também achei as reportagens fracas.

Plataforma contra a Obesidade 34

Joachim Beuckelaer (?-1574)
The Four Elements: Earth

13.3.08

Véu Islâmico 10

O Caderno P2 de hoje do Público tem um artigo grande sobre a Sharia em Portugal e uma reflexão de um especialista em direito islâmico que nos diz que não devemos ter medo da Sharia. Confesso a minha perplexidade face à certeza e firmeza de uma tal afirmação, sobretudo vinda de um ocidental, numa matéria em que as interpretações – todas elas válidas - são tão díspares e em que a fonte principal dessa Lei é o Corão, um texto normalmente muito taxativo (é só pegar e ler para confirmar). Sem querer pôr em causa a bondade e boa vontade de tantos imâs que usam a Sharia com bom senso em situações que potencialmente seriam de grande injustiça, que confiança posso ter eu num sistema fundado num sistema de valores em que a igualdade de direitos e oportunidades não é nem bem visto nem encorajado.

Assim eu pergunto-me o que é que conta: uma sharia em versão “português suave” (título do Caderno P2) em que até se percebe que uma mulher possa ir trabalhar, em que se justifica o porquê de um homem receber o dobro de uma herança, e em que não há chicotadas nem mãos cortadas, ou uma sharia em que as mulheres são obrigadas (ou pressionadas socialmente) a usar uma burka, impedidas de trabalhar, menores e impossibilitadas de decidir, herdar e guardar os filhos? Qual das “sharias” é a melhor, a mais correcta, a que representa a vontade de Alá? Eu pergunto-me também: o que é que conta os diferentes graus de severidade (ou liberalidade) na aplicação da sharia ou os pressupostos e sistema de valores que estão subjacentes?

Jackson Pollock. (1912-1956)
One: Number 31, 1950

10.3.08


Já passaram 30 minutos das 20 horas e os jornais televisivos, nomeadamente a SIC que tenho seguido mais, ainda falam do Benfica. Eu que já acho incrível que se inicie um telejornal com a saída de um treinador de um clube de futebol, mesmo sendo o maior clube português, fico estupefacta quando não só se inicia mas se continua a ocupar dezenas de minutos em notícias, reportagens, análises e especulações sobre o futuro do clube, numa altura em que Portugal ainda vive a ressaca de uma grande manifestação de descontentamento da classe média em relação ao governo, pois é assim que eu leio a “marcha da indignação” e o seu tão amplo sucesso, algo de novo na história da nossa democracia, numa altura em que o PSD, apesar da vitória do Conselho Nacional para proceder à alteração de estatutos, continua a fervilhar internamente, numa altura em que a vizinha Espanha se reajusta politicamente, numa altura em que Obama ganha Wyoming e certos sectores temem que os Democratas não consigam a Presidência, numa altura em que Naide Gomes é campeã mundial, em que o FCP consolida a sua liderança, O Vitória de Guimarães e o Vitória de Setúbal se fortalecem, o SCP parece inerte, enfim... Não faltam notícias para dar, temas para comentar, decisões para analisar, reportagens a fazer. Mas não, estamos reféns do Benfica.

Adenda: A seguir ao Benfica que notícia é que ocupou a nossa atenção? Claro, a Mariluz e o seu funeral com centenas de pessoas.
.

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com