holehorror.at.gmail.com
28.2.08
Explicar a “razoabilidade política e sustentabilidade económica”, assim diz Luis Filipe Menezes, com ar sério e ensaiado, na SIC acerca da sua proposta sobre a eliminação da publicidade na RTP. Não discuto a proposta, pois uma expressão destas com duas palavras de sete (7) sílabas, e a sair tão espontâneamente só pode ser sinal de uma boa ideia.
.
27.2.08
26.2.08
Reformar
No Mar Salgado, FNV tem, sob o título A Oriente do Oriente, exposto interessantes mosaicos sobre o Islamismo como pretexto para um debate. Desta vez detem-se na questão da reformabilidade do Islamismo e das sociedades islâmicas. Esta é mais uma questão complexa, porque a reforma de qualquer sociedade o é, e porque ainda é mais complexa no caso do Islamismo em que a religião e a própria sociedade, leis costumes, se misturam não sabendo onde uma começa ou onde acaba outra. Qualquer questão que se coloque sobre o Islamismo terá que ir parar à essência do próprio islamismo, à religião, à crença à forma como essa religião e a Revelação Divina são vividos. Com as sociedades cristãs que separam há muito a religião da sociedade e dos poderes políticos e judiciais, e que têm tido como mote “dai a César o que é de César, e dai a Deus o que é de Deus”, é mais fácil delimitar as fronteiras da religião. Com o Islão é quase impossível e quando se tenta estabelecer uma sociedade laicizada (Turquia, Pérsia), há um dia um retorno com a pressão dos sectores mais “fundamentalistas” – que não serão necessariamente terroristas, note-se.
Este facto tem uma raíz teológica, ou de falta de teologia ou mesmo de exegese, ou falta dela, e tem a ver com a forma como a Revelação Divina é olhada. Para um muçulmano o Corão é a Revelação, é a palavra de Deus. É mesmo Deus que disse aquelas palavras daquela forma e o livro transmite fielmente o que Deus pensa, quer e disse. Como o Corão é o centro da vida de um muçulmano e porque regula todas as áreas da vida, quer da vida íntima quer da vida social, é muito difícil “reformar” uma sociedade, tal como nós concebemos a noção de reforma, isto é uma reforma no sentido de valorizar a liberdade individual total (ser livre de ser ou não muçulmano, ser livre de se converter a outra religião ou simplesmente ser livre de explicitamente, mas sem escândalo, não fazer o Ramadão, por exemplo), e uma igualdade de direitos e oportunidades para ambos os sexos. Será que alguém concebe homens e mulheres a rezar juntos numa mesquita? Porque é que, na mesquita, as mulheres têm que estar segregadas, num primeiro andar com tecto baixo e apertadas e com grades para não serem vistas? As coisas podem mudar em Marrocos com mais mulheres deputadas, podem mudar no Dubai com mulheres em lugares de topo na vida empresarial, na Turquia com mulheres tão iguais a nós, mas enquanto não rezarem ao lado dos homens na mesquita ou, pelo menos, nos mesmos locais que os homens usam, nada muda no fundo. Enquanto um muçulmano não for livre de não ser muçulmano, nada muda no fundo. Pode-se decretar a secularização duma sociedade, como na Turquia e proibir o uso de véu nos locais públicos, mas um dia, pouco a pouco a pressão da religião far-se-á sentir e a sociedade retomará devagar ou depressa (Pérsia que ficou Irão) os caminhos do Corão.
Qualquer reforma, para o ser, terá que passar ou pelo afastamento das leis e preceitos religiosos, ou por uma nova maneira de olhar e debater a própria Revelação de Deus. Não vejo outra forma, e esta parece-me do domínio da utopia. Mas por passar a mensagem da dificuldade (impossibilidade?) de reforma do Islão, recuso a "culpa" de estar a condenar as mulheres muçulmanas ao castigo dos taliban. Apesar de ser uma expressão retórica, não quero cair na tentação de achar que aqui, no Ocidente do Ocidente, somos os culpados do que se passa no Oriente do Oriente.
Procuradoria-Geral da República abre inquérito ao processo do Casino Lisboa. Será que ainda há alguém que ainda crê? Será que há alguém que não sente nausea perante este rodopio de abertura de inquéritos que invariavelmente param na gaveta? Eu quero notícias sobre o fecho e os resultados claros dos inquéritos que se abrem.
Impossível não gostar de Sarkozy. Eu tento, pois tantas vezes me desagrada a sua postura, as suas decisões precipitadas, os seus humores incontroláveis. Mas deve ser isso, essa fragilidade, essas fraquezas expostas e que ele nem tenta disfarçar gostando desse "ser igual a si próprio", talvez acreditando-se especial ou imortal, alguma dessas coisas que os heróis acreditam ser e que afinal só remetem a uma enorme humanidade.
25.2.08
Como se a Culpa Fosse Deles
Ouvi, estes dias desabafos de duas pessoas diferentes, que nem se conhecem, que vivem vidas bem diversas, em locais distintos e que têm opções políticas que raramente devem coincidir. Ambas trabalham para o estado, uma na área da saúde, outra na área da educação. O que foi revelador, mas nem chegou a ser surpreendente, foi o facto de os desabafos e queixas serem tão semelhantes quer no conteúdo quer no tom.
Ambas se confessaram física e psicologicamente exaustas e esgotadas, no limite, ambas estavam preocupadas com a sua capacidade de resistência e com a sua saúde, ambas se queixaram das longas horas de trabalho, da exigência de novas tarefas que consideram inúteis e que ambas vêem como um aumento de intendências e burocracias quase sempre inúteis: elaboração de actas que ninguém irá ler, elaboração de relatórios a propósito de tudo e de nada, picar o ponto a horas certas, nomeadamente à hora de almoço mesmo quando se está envolvido numa tarefa que terá de ser interrompida, reuniões, avaliações cheias de parâmetros complexos, objectivos discutíveis e competências tantas vezes sem nexo, sobre os quais há que escrever e discorrer.
24.2.08
Houve Sangue
Num período em que tenho ido ao cinema mais vezes do que o habitual, confesso minha perplexidade quando um filme que vejo me suscita sentimentos e opiniões tão diametralmente opostas àquelas que leio escritas pelos críticos. Ninguém nunca olha de forma igual para um mesmo objecto, mas normalmente e mesmo que a adesão, opinião e impressão final em relação ao objecto, neste caso um filme, seja divergente costuma haver uma concordância nisto ou naquilo: uma forma de olhar que coincidiu, uma apreciação ou uma sensação. Este preâmbulo a propósito de Haverá Sangue, um dos filmes mais louvados da temporada e com mais nomeações para os Óscares que serão atribuídos esta noite. Sem negar a qualidade e rigor dos aspectos técnicos, algo que reconheço sem no entanto saber ou perceber bem, nem negar alguma agradável contenção, o filme foi um dos mais desagradáveis que vi ultimamente. Feio, aborrecido, monocromático - dos tons castanhos ao negro viscoso do petróleo a cansar a vista, demasiado preguiçoso, mas com capa de subtileza na abordagem do binómio tão americano da dicotomia empreendedorismo, capitalismo e desenvolvimento por um lado e puritanismo espiritualidade e temor a Deus pelo outro, e dependendo inteiramente de um Daniel Day-Lewis que foi igual a si próprio e muito previsível, no sentido em que se supera como actor para se fazer como personna mas que, uma vez encontrado o seu “tom”, percorre todo o filme sem outras modelações na composição da personagem. Entre esta performance e a de Viggo Mortensem em Eastern Promises, (o outro nomeado para o Óscar de melhor actor que vi), nem hesitaria em escolher este último.
Como filme épico é pobre, como história de um homem só e que só sabe fazer uma coisa, é longo e aborrecido sem nada que atraia o espectador normal que gosta de ir ao cinema, e não falo de rodriguinhos, falo de um qualquer pathos. A banda sonora é rigorosamente de fugir o que condiz com o resto do filme, e aí a coerência é grande, e é demasiado “esperta”, despojada e agressiva. Talvez daqui a uns anos, quando me esquecer de quão desagradável foi ver o filme, possa revê-lo e descobrir o que agora não descobri. Para já, e para mim, o rei vai nu mas não sei se logo não irá com um ou mais Óscares na mão.
20.2.08
Nos últimos dias nos noticiários televisivos, e a propósito das cheias na zona de Lisboa, falou-se muito no “jornalismo do cidadão” aliás, viveu-se do jornalismo do cidadão que cada vez mais faz das notícias um reality show. Eu gosto sempre quando novos chavões chegam à praça pública. Sim, porque não se trata de vídeos amadores, nem instantâneos fotográficos, ou mesmo queixas de espectadores. Não, nada disso. A coisa agora tem uma certa solenidade e um nome pomposo típico de uma sociedade que gosta de estar em constante processo de renomeação de algo que sempre foi, como se essa camadinha de verniz politicamente correcto tornasse as coisas algo mais do que aquilo que realmente são.19.2.08
18.2.08

17.2.08
Lust, Caution 2
16.2.08
Lust, Caution
Uma das qualidades do Lust, Caution de Ang Lee é a de ser um filme para adultos, uma coisa que vai sendo rara nas nossas salas de cinema onde quase todos os filmes apelam a um público jovem. O filme é longo, lento, algo formal, apela à paciência do espectador, mas é forte, difícil, sensível e subtil. A faceta épica e exterior do filme que se passa na China durante a ocupação Nipónica (2ª Guerra Mundial) é discreta e cede sempre lugar à interioridade da intriga, à tensão e à ambiguidade entre as personagens. A sexualidade é o pólo central da tensão, e sim, há cenas muito explícitas, o que é uma aposta ousada do realizador, mas elas são bem conseguidas. Numa plateia onde não havia “jovens” entre os espectadores, algumas pessoas abandonaram o filme bem antes do final. Eu fiquei cravada à cadeira. Um bom filme de Ang Lee. Talvez o melhor dos que eu vi.
14.2.08
13.2.08
E eu, e Tu
E eu, e tu,
Perdidos e sós,
Amantes distantes,
Que nunca caiam as pontes entre nós.
Museus em Madrid 2
Desde que me lembro de saber que existe pintura que me lembro que El Greco existe. O pintor que, era assim que eu o conhecia, fazia as pessoas longas e puxadas para cima. Uns anos mais tarde, e numa visita a Toledo, guiada por um amigo espanhol mais velho, conhecedor e coleccionador, num dia cinzento e muito frio, em frente às pinturas de El Greco fiquei surpreendida com a cor e a luz dos seus quadros e de quão fria eram. O meu amigo também me ensinou a olhar para os olhos das personagens pintadas por El Greco, outro dia falarei sobre isso. Fiquei surpreendida com essa frieza porque se Espanha era fria no inverno, era quente, quente demais, no verão e nós associamos a Espanha mais facilmente a noção de calor do que de frio. A surpresa também era grande porque os pintores flamengos (Flandres e Holanda) do mesmo período (tenho, ao longo do tempo, colocado aqui no blogue alguns exemplos e já escrevi o meu elogio – um - à pintura flamenga) apesar de virem de países mais frios, pintavam quadros mais quentes. Mas Espanha é uma noção moderna e abstracta. Se pensarmos Castela já a noção de frio se desenha de uma forma mais natural no nosso imaginário.
12.2.08
Museus em Madrid 1
Na semana passada nos museus de Madrid, sobretudo no Rainha Sofia e no Thyssen pois visitei-os de manhã, vi vários grupos de crianças, algumas bem pequeninas, sentadas e semi circulo em frente a um quadro a ouvir e a conversar com o guia sobre ele. O guia estava também sentado à frente no chão para não perturbar a visão das outras pessoas que literalmente enchiam os museus. Por trás das crianças juntava-se um grupo de adultos visitantes que assistia à explicação e diálogo do guia com as crianças. Olhando para o quadro ele fazia perguntas sobre o que elas viam, sobre o que não viam, guiava-lhes o olhar, ouvia as suas explicações e explicava o porquê do tema, de uma cor, do traje das personagens, de uma perspectiva, de uma composição. As crianças sentadas em frente ao quadro tinham tempo para o apropriar e sobre ele discorrer e imaginar. O entusiasmo delas era o espelho do entusiasmo do guia que fazia o que era suposto fazer – guiar o olhar mais inexperiente – também com entusiasmo e amor à obra. Não fiquei com a sensação de que estavam ali no emprego a ganhar umas coroas, que certa e justamente estavam, fiquei com a sensação que eram amantes de pintura e que sabiam transmitir essa paixão.
Lembrei, e em contraste com o que acabei de escrever, o relato de uma visita recente de turmas de um colégio ao Museu Nacional de Arte Antiga em que um, neste caso uma, entre os guias, com pastilha elástica na boca, cara de frete e impaciente, mal respondia às perguntas dos guiados, prolongou demasiado algumas explicações históricas e não lhes mostrou “o” quadro mais importante do museu, As Tentações de Santo Antão de Bosch, nem conseguiu entusiasmar ninguém com os Biombos de Namban. O resultado foi o esperado: “que chatice!” “detesto museus!” Mas também, porque é que me passou pela cabeça que poderia ser diferente?
11.2.08
10.2.08
O Projectista 2
As fotografias dos projectos assinados por José Sócrates e que ele assumiu como seus, foram como um balde de água fria que se despejou por cima do ambicioso militante do PS, ex-Ministro do Ambiente preocupado com o planeamento, e agora Primeiro-ministro regulador, liso, que faz jogging, que cita nomes sonantes a torto e a direito, faz férias cosmopolitas, evita o colesterol e que calça sapato Prada. E foi um balde de água fria por cima de todos nós que nos preocupamos com estética, preservação do património e vemos nos azulejos exteriores, nas varandas ampliadas, nos acrescentos descaracterizados e nos telheiros fora de contexto modelos de mau gosto, desordem, terceiro-mundismo e símbolos tão presentes e visíveis de um Portugal pouco educado e culto que não evolui e não se desenvolve. Ninguém fica indiferente perante a banalidade e a ausência de qualquer preocupação estética quando olha para os resultados destes pequenos projectos, e a perplexidade é muita, sobretudo porque tão dissonante do seu posterior percurso político traçado a tinta da china com régua e esquadro, para que nada saia do lugar, e os seus antecedentes familiares (o pai de JS é arquitecto) que não deixavam prever a sua assinatura em tais calamidades estéticas.
Hoje e perante o nosso Primeiro-ministro, como é que nos podemos impedir de olhar com olhos de ver e de analisar o seu percurso técnico e académico? Como é que é possível não tirarmos conclusões? Conhecemos os resultados dos seus projectos, lemos o seu exame de Inglês Técnico, sabemos dos seus exames ao Domingo, enfim, confrontamo-nos com improbabilidades, coincidências e erros que escondem, tudo leva a crer, mentiras e provavelmente ilegalidades. O desconforto perante a pessoa de José Sócrates é grande, e para além de uma questão de carácter é também uma questão política. Num percurso onde vale tudo, sem rumo que não a ambição e a concretização, caótico e dissonante, como podemos hoje olhar para o Plano Tecnológico sem rir ou para o Simplex com confiança? Como podemos enquanto eleitores e cidadãos assistir aos saltos de dúvida em dúvida perante os grandes investimentos sem perplexidade ou acreditar na seriedade e bondade das políticas reformistas ou mesmo perceber o rumo que é traçado para o país? Os “casos Sócrates” I (académico) e II (técnico) não são fait divers, não são intromissões sem importância num passado longínquo de duendes maus e de fadas boas. O percurso passado do nosso PM enquanto militante de um partido político onde se fez politicamente interessa, é revelador de um carácter e de um estilo. Eu não gosto.
Véu Islâmico 9
A saga sobre a aplicação sa Sharia continua no Reino Unido. Uma série Q&A aqui à boa maneira anglo-saxónica.
Este tema é interessante para descobrir algumas nuances do Islamismo, nomeadamente o Islamismo “moderado” um produto essencialmente do ocidente e com nenhuma sustentação teórica ou doutrinal, que se faz com base na “boa vontade” de sectores islâmicos que não querem estar em conflito com as sociedades ocidentais onde vivem e que não querem nem negar a modernidade nem abraçar o extremismo. No entanto, e para já, esta moderação é ainda frágil. Parece-me também, interessante reflectir sobre a nossa noção de liberdade de escolha, tida tantas vezes como um bem absoluto e que se baseia numa noção de igualdade que está totalmente ausente do islamismo e da própria Sharia. A mulher, e a rapariga, enquanto seres menores que são tutelados ao longo da vida, pelo pai, irmão, marido, cunhado, não têm essa liberdade de escolha. A liberdade e igualdade não são dados adquiridos em todo o lado e é bom ter sempre essa noção presente.
8.2.08
O Projecista
Nos anos oitenta quando José Sócrates assinou os projectos de engenharia técnica (remodelações, ampliações, melhorias), cuja autoria assumiu plenamente pois eu ouvi-o na televisão a declará-lo com ênfase, de que tanto se tem falado, ele já era tinha iniciado a sua carreira política ascendente no PS. Assumo eu também de boa fé perante as afirmações do PM, que a autoria dos projectos realmente dele e parto do princípio – só para benefício do meu texto – que ele não assinou de cruz projectos de outros. Como também nada sei sobre incompatibilidades, não será também sobre isso que me vou deter. Deter-me-ei no problema e peso que o passado pode ser quando não se sabe assumi-lo com elegante ternura e desprendimento, determe-ei sobre o facto de os padrões do passado tenderem a repetir-se no presente e no futuro e deter-me-ei na dissonância e vácuo que é o percurso do nosso PM revelado pelos aspectos estéticos e de planeamento. E tudo isto somado é impossível não ter um esboço revelador de carácter.
Sobre o passado. Creio que todo o ser humano se fez e faz com opções que nem sempre terão sido as mais ajuizadas e coerentes e de que não nos orgulhamos enquanto actos e isso não é necessariamente um problema, bem pelo contrário, pode ser ponto de partida para reflexão e aprendizagem se o orgulho tonto e a estupidez não cegarem e deixarem evoluir. Não nos orgulharmos está longe de ser sinónimo de ter vergonha. Há uma outra opção mais natural, que é o assumir das incoerências, maus juízos e outros actos menos razoáveis e ser tolerantes até para connosco. Esse desprendimento e naturalidade parecem ser impossíveis ao nosso PM que tenta sempre de forma forçada e pouco natural transformar numa virtude digna de nota e louvor cada passo oblíquo e de duvidosa justeza e legalidade que – com surpreendente regularidade e facilidade lhe descobrem no seu passado. Este constante deitar areia para os nossos olhos com arrogância e altivez, de quem não percebe que está em cima de um monte de despojos e sucata e se pensa mais alto, é uma das piores e mais irritantes características de JS. Mais do que os pecadilho da juventude, as prováveis mentiras e ilegalidades do seu percurso, é a arrogância de uma coreografada maturidade em tom sempre moralista de dedo em riste que é tão difícil de engolir, digerir, tolerar e perdoar. Que não restem dúvidas que sobretudo por isto os seus “pecados” estão longe de serem “perdoados”, mesmo sendo a memória curta; porque e a dúvida e o “feeling” esses, serão persistentes.
(continua)
7.2.08
O Corta-Fitas, um dos blogues mais simpáticos da blogosfera está em festa e está de parabéns pelos dois anos de existência. Parabéns também ao Pedro Correia, um dos fundadores e autor de algumas das melhores séries da blogosfera. A Melhor Década do Cinema é uma delas.
Sobre arquitectura de emigrante e José Sócrates um bom artigo de Helena Matos aqui e uma pequena discussão sobre arquitectura e estética de projectos neste post e comentários Quase em Português. Voltarei a este assunto: José Sócrates, o passado e respectivos esqueletos no armário, projectos de gosto duvidoso, assinaturas falsas, influências, responsabilidades, incompatibilidades e demais promiscuidades.
Véu Islâmico 8
6.2.08
Desaprender
Miró é um caso distinto. Como com tanta coisa na vida também com Miró o meu olhar mudou, e o que era já não é. Assim hoje, em frente dos seus quadros, de todos os formatos, de todos os tamanhos e de todas as cores, o espanto foi muito: aqueles fios (linhas, curvas?) compridos e pretos com bolas nas pontas e outras bolas maiores, com ou sem olhos (?) espalhadas pela tela, às vezes com côres primárias, outras mais acizentadas ou simplesmente a preto e branco, deixaram-me surpreendentemente indiferente. Nem gostei nem deixei de gostar. Aquela linguagem pareceu-me vazia e irrelevante. Um ou outro quadro talvez tivessem provocado um “que giro!” mental, algo que é verdadeiramente insuficiente e banal. O desconforto da desilusão, pois se eu percebo que se “aprenda a gostar” de uma qualquer manifestação de arte, já me é muito mais dificil perceber o contrário, talvez porque menos usual, e perceber que se desaprenda de gostar ao ponto da indiferença. Porque é que o feitiço se perde, porque é que a leitura, o sentir e a adesão se modificam assim afastando-nos?
1.2.08
Excesso de zelo
Ando com vontade de escrever sobre o excesso de zelo que motiva tanta da legislação mais recente e que impera naquilo a que tenho chamado de nova ordem moral que hoje se tenta estabelecer. Não é um fenómeno exclusivo português, mas aqui no nosso país assume uma dimensão um pouco mais patética devido aos brandos costumes em que habitualmente todos nos movemos. Os brandos costumes não sendo motivadores de grandes mudanças sociais de desenvolvimento ou de grandes revoluções e sendo campo fértil para imobilismo e hipocrisia, são também mais brandos. Numa sociedade em que ninguém está de acordo sobre o que é a corrupção e em que os seus limites são desfocados, amplos e variam de pessoa para pessoa, momento para momento, circunstância para circunstância, em que a noção de ética é simplesmente colada à noção da legalidade: se é legal é ético, se não é legal não é ético, (pobres filósofos e pensadores que tanto tempo perderam dissertando sobre ética) e em que noções um pouco mais exigentes e aprofundadas que norteem a vida pública, quer de trabalho quer política são olhados com desconfiança, os excessos de zelo são sempre perigosos. São uma drástica mudança do oito para o oitenta. São redutores, cegos, simplistas, puritanos (um puritanismo new wave) olham com pouca bondade para o ser humano e escondem muita intolerância. (E medo e inveja). Sempre me ensinaram a desconfiar quer de excessos de zelo quer dos zelos dos convertidos.
Segunda ferradela do Público ao calcanhar de Aquiles, perdão, de José Sócrates. Aposto que não fica por aqui e que não há sapato Prada que proteja..
30.1.08
Brain Damage
The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path
The lunatic is in the hall
The lunatics are in my hall
The paper holds their folded faces to the floor
And every day the paper boy brings more
And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forbodings too
Ill see you on the dark side of the moon
The lunatic is in my head
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
You re-arrange me till Im sane
You lock the door
And throw away the key
Theres someone in my head but its not me.
And if the cloud bursts, thunder in your ear
You shout and no one seems to hear
And if the band youre in starts playing different tunes
Ill see you on the dark side of the moon
Eclipse
All that you touch
All that you see
All that you taste
All you feel.
All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.
All that you give
All that you deal
All that you buy,
Beg, borrow or steal.
All you create
All you destroy
All that you do
All that you say.
All that you eat
And everyone you meet
All that you slight
And everyone you fight.
All that is now
All that is gone
All thats to come
And everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon.
Literalmente

29.1.08
O plástico já chegou às remodelações do Governo e agora também já temos remodelações de plástico. Ver também aqui.Será que mudando o Ministro da Saúde mudam a política de saúde, ou só o estilo? Se muda a política, como fica a reforma do SNS já iniciado? Quem contestava o Ministro contestava a política ou o estilo? O sector do PS que provocou a queda do ministro tem soluções diferentes? Quais? Marcelo Rebelo de Sousa vai ficar contente.
Os critérios da remodelação são também, no mínimo, bizarros. Parece ter sido feita só porque sim. Mais um retoque do que uma remodelação. Um exemplo só: Mário Lino a quem se criticava e critica a política e o estilo fica.
28.1.08
Buñuel ou Monty Python?
Vi-me hoje num hospital do SNS bem no centro de Lisboa, moderna e dinâmica capital europeia. O hospital parece tudo menos um hospital, foi feito numa altura em que ainda não havia arquitectos de hospitais em ateliers altamente especializados que estudam circulação, circuitos e optimizações. Este hospital é feio, inadaptado e tudo totalmente non user friendly para qualquer categoria de pessoa que tenha de o frequentar, ou pior ainda de nele trabalhar. Aliás creio que trabalhar lá deveria dar direito a uma bonificação extra. Dito isto lembro que o dito hospital já é hospital há tempo demais.
Nos minutos que antecedem a hora da visita, os visitantes vão esperando com ar de quem está já habituado, nos corredores impossíveis de descrever e onde é difícil perceber o que está mal. Tudo está o que torna a descrição complicada e sem nenhum tipo de efeito de surpresa. Mas não foram estes aspectos que me chamaram a atenção, apesar de cada um deles a merecer pois só a nossa familiaridade com tais condições é que nos torna inertes e nos impede um enorme grito de revolta. O que hoje presenciei de verdadeiramente extraordinário, e se o que aflorei até agora revela um surrealismo digno de Buñuel, este caso é mais próximo de um surrealismo Monty Pytoniano, é o facto de que, por causa de umas obras de nada que parece não terem acontecido, os pacientes tiveram de mudar de quartos na enfermaria. (A enfermaria tem vários quartos cada um deles com várias camas). Tentaram, com uma ou duas excepções, manter os pacientes nas suas camas que são numeradas, mas porque uns foram para uns quartos e outros para outros a lógica numérica daquela enfermaria perdeu-se, bem como a memória visual que liga o paciente ao quarto e ao local. Para complicar tudo, os números da cama nem sempre estão visíveis, e à entrada dos quartos ainda está a indicada a numeração antiga. Assim nos últimos dias as dietas andam trocadas, vão fazer raios-x ou outros exames os pacientes errados, os médicos, que mudam bastante e nem sempre conhecem bem o paciente, porque ainda não o tinham visto, ou porque olham sobretudo para a ficha médica, falam com os pacientes errados, as enfermeiras só depois de irem a um quarto se lembram que é no outro que está o paciente que tem que ser medicado ou ter o soro mudado. Olhei para aquela enfermaria e pensei que dos pacientes aos médicos, lá estar, trabalhar e estar disponível ou lá estar e recuperar de uma doença, é feito digno de heróis. Repito é de Lisboa que falo, não é do interior abandonado.
Ah, não quero esquecer, pois fiz uma nota mental para aqui o escrever: naquela enfermaria numa prateleira pequena por cima da porta da entrada estavam discretos, mas visíveis para todos, nada menos do que 7 imagens religiosas de vários tamanhos e de qualidade estética duvidosa representando, tanto quanto pude perceber, a Nossa Senhora e o Santo António (o padroeiro da cidade). Duas jarras com flores frescas – o que de mais fresco havia no hospital, diga-se, ladeavam as imagens. Não há decreto que mude hábitos e tradições demasiado enraizados.
27.1.08
Via Blasfémias cheguei a este post da 4ª República sobre a recente aprovação dos PPR públicos. Também a mim me apetece dizer, mais Estado não, muito obrigada! Sobretudo tendo em consideração todos os pressupostos lá descritos e questões lá levantadas. Sobra sempre a vontade do governo de que o Estado tenha sempre o máximo de dinheiro possível. Uma questão de equilíbrio das contas, senão como é que chegavam e mantêm um déficit inferir a 3%? Todos os meios são bons para fazer os euros dos cidadãos chegarem às mãos benevolentes do estado. Se não fosse essa a intenção, o governo deixava que se baixasse a prestação do cidadão à segurança social desde que este último provasse que investia em fundos de pensões privados.
E a propósito de fundos de pensões, que é feito daquela ideia antiga de Paulo Teixeira Pinto, ex-administrador do BCP, de a Segurança Social absorver o fundo de pensões do Millenium BCP? Será que esta nova administração (que lá entrou pela mão do estado) vai deixar a ideia morta ou vai querer ressuscitá-la?
25.1.08
A Guerra de Charlie Wilson
Ou Jogos de Poder (numa pouco feliz tradução)
Este é um filme tipicamente americano. Um bom filme, daqueles que os americanos sabem fazer, com uns momentos maus também daqueles que os americanos fazem bem. O Afganistão é o palco da intriga política - baseada em factos reais, e olha para um aspecto da política internacional norte americana com os olhos de quem hoje já sabe “no que deu”. Não é isso que é interessante, o que é interessante são os mecanismos que obrigaram, fizeram e construiram essa política e neste aspecto o filme é uma reflexão desapaixonada e muito verosímil. A narrativa escorre a bom ritmo e à boa maneira de holywood, com bons diálogos e com boas prestações dos actores: Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams estão ao melhor nível. O único senão, são algumas das cenas no Oriente, nomeadamente porque a pior, a pouco convincente, mal feita e algo básica e redutora, cena no campo de refugiados afgãos onde Charlie Wilson vai e se “converte” à causa talibã contra os soviéticos. Estes momentos simplistas em que o mundo é dividido em maus e bons, em causas e efeitos – o momento final sobre a opção da não ajuda para construção de escolas, por exemplo, são o grande senão do filme. Alguns sentimentalismos fáceis nessas cenas eram também escusados, e esses momentos menos apurados impedem que se diga que o filme é óptimo. Mesmo assim, gostei de ver.
23.1.08
Saber Demais
Saber que e como morreu Heath Ledger ocupa lugar. Porque foi memorável em Brokeback Mountain, porque não deslumbrou num filme medíocre como Casanova, porque era novo, porque era um belo homem, porque pensava que era feliz, porque era infeliz, porque podia estar enganado...
22.1.08
21.1.08
O Primeiro-ministro não conhece Viana do Castelo. Se conhecesse não fazia o tipo de declarações que se podem ler aqui, nem se mostrava tão satisfeito em relação à sua obra passada e ao reconhecimento da população. Em Viana do Castelo o importante é fazer festa, e qualquer pretexto serve para a festa. É por isso que Viana é única.
Pedro Homem de Mello é que sabia. Se o meu sangue não me engana / Como engana a fantasia...
20.1.08
Beethoven no CCB
No âmbito do Ciclo de Piano do Projecto Beethoven 20068 (que nome!), fui ao CCB ouvir Giovanni Bellucci, num grande auditório cheio a metade. A versão para piano feita por Franz Liszt da 5ª Sinfonia de Beethoven é uma peça ambiciosa e de enorme fôlego que mostra a complexidade e riqueza do instrumento, e que requer grande técnica, dedicação e sensibilidade por parte do pianista que entusiasmou a plateia e que lhe retribuiu em palmas e bravos. O resultado é mais Lisztiano do que Beethoveniano, e se dúvidas houvesse a sonata seguinte (Hammerklavier, opus 106, supostamente uma das peças de piano de mais difícil execução) pode confirmá-lo. Gostei bastante do concerto e do pianista, apesar de uma série de crises de tosse que afligiu vários cantos da plateia durante o belíssimo 3º andamento da sonata: “convenientemente“ um adagio sostenuto cheio de momentos de pausas, de algum silêncio e de grande lirismo e delicadeza. Porque não esperaram para tossir pelo mais barulhento andamento seguinte?
19.1.08
Expiação
Li Atonement de Ian McEwan há uns anos quando o romance saiu. Foi um romance de que gostei bastante (muito mais do que de Amsterdam que lhe valeu o Booker) tal como gostei de On Chesil Beach. Não posso agora, e porque não o reli recentemente, fazer uma análise mais completa do romance mas lembro que uma das ideias mais marcantes que a obra me deixou foi, para além do facto de ter uma escrita muito cuidada, a forma como desde o início, com uma espécie de aquecimento dos motores ou de preparação do terreno, se dá conta de um percurso individual de expiação. Não é arrependimento, é mesmo expiação, no sentido cristão de expiar um pecado, uma culpa; carregá-lo toda a vida como quem carrega um fardo. Toda a vida da personagem é moldada por essa expiação.
Foi com curiosidade – cautelosa - que fui ver o filme “Expiação” de Joe Wright. O filme começa bem, mas creio que a segunda parte perde um pouco em termos de densidade. A primeira parte é muito bem feita do ponto de vista formal com leituras diferentes dos pedaços que constituem os acontecimentos, conforme estejam a ser os olhos de uns ou de outros que os “vêem”. Nesta diferença de olhares começa o terreno a ser preparado para a possibilidade e a concretização do pecado ou culpa que marcará e mudará a vida de todas as personagens. O espectador está perturbado, mas entende o porquê. A partir daqui o filme perde-se querendo ser mais do que deveria querer, porque parece perder o seu objectivo central que circula à volta da culpa. De repente sentimos que estamos perante uma conturbada história de amor em cenário de guerra (excessivo), por muito legítima ou interessante que essa história seja. O romance, da mesma forma que na primeira parte preparou o terreno para o pecado, na segunda centra-se no percurso pós pecado, no efeito da culpa focando o arrependimento, as tentativas de reparação, mas não a redenção, o que deixa a personagem “pecadora” em situação de expiação até ao fim dos seus dias. É esta densidade que falta ao filme na segunda parte e que não é tão bem traduzida nem sequer a nível formal. Apesar dos cenários de guerra e dos feridos em enfermarias cai-se em alguma banalidade tornando o fim menos interessante do que princípio e deixando-nos, espectadores, um pouco insatisfeitos. Dos actores, saliento o trabalho de Keira Knightley que se afirma enquanto actriz madura.
18.1.08
Fumos 2
Quando se olha para esta fotografia associamos o fumo de um cigarro e o fumar ao glamour e sedução e pensamos como é bonita a fotografia de Lauren Bacall de cigarro na mão. Mas bonita é Lauren Bacall: bonita, elegante, fotogénica, bem maquilhada, bem penteada, bem vestida. Ela é uma actriz e esta é uma fotografia de uma das muitas “personas” por ela encarnada, são poses estudadas no ângulo certo, com a luz certa, tiradas por profissionais para que tudo esteja bem e o preto e branco a dar um toque de estúdio. Não é o cigarro que dá o glamour.
Nesta outra fotografia de Anna Magnani, não é o glamour que é valorizado, mas sim o lado mais “intelectual” do cigarro pois Anna Magnani não tem a beleza mais “óbvia” de Bacall. Aqui é a intensidade que conta, o poder, a fragilidade, a escolha, a decisão, enfim um lado mais interior de uma outra faceta de sedução a que tantas vezes também se associa o cigarro e o acto de fumar. Mas mais uma vez, é também uma fotografia de estúdio de um ser que tem a sorte de ser fotogénico. Anna Magnani é que tem magnetismo e intensidade, não é o cigarro.17.1.08
Fumos
Dos direitos
O meu direito e a minha liberdade individual de não respirar em ambientes de fumo e de não ser fumadora passiva foi, desde que me lembro, objecto de muito pouca preocupação quer por parte do estado quer por parte dos fumadores que comigo privavam e ainda privam, com raríssimas e honrosas excepções. Anos e anos trabalhei em ambientes de fumo com fumadores desde as primeiras horas da manhã (e não sabem o que custa) e respirei o ar que eles poluíam, tomei refeições olhando e respirando cinzeiros cheios, arranjei o cabelo em cabeleireiros onde outras senhoras afastavam de suas cabeças acabadas de pentear o fumo dos seus próprios cigarros. São estes alguns dos exemplos de uma lista que poderia continuar. Custou-me sempre acreditar que o meu direito de não respirar ar sujo e estragado pelo cigarro dos outros tenha sido ao longo do tempo objecto de tão pouca consideração, respeito e preocupação. Mais do que o fumo de um cigarro que um amigo possa fumar perto de mim, e que pouco incomoda de facto, o que revolta tantos não-fumadores foi, e é, o facto de ser dado como adquirido o nosso acordo – tácito, em respirar o ar sujo pelo fumador, mostrando, esse sim, pouco respeito pela nossa liberdade e saúde. E tratar da minha saúde é um direito que me assiste e que exerço como e quando quero, tal como o direito dos fumadores de, na privacidade ou em locais apropriados fumarem tanto quanto queiram. Finalmente o estado pela mão deste governo e de outros anteriores (e este blogue não pode ser acusado de simpatias com o governo que hoje nos governa) tem vindo a proteger um direito meu e de uma tão grande maioria de, em locais públicos e fechados se respirar ar sem fumo.
(continua)
16.1.08
O melhor resumo de tudo o que tem sido sobre a novela BCP é dado simples e inequivocamente pelas reacções do mercado, mais do que pelos votos dos accionistas, por vontades políticas de consensos ou fiscalizações das entidades reguladoras. (Não aprendem). Próxima OPA à vista? Ver aqui.15.1.08
14.1.08
Pouco Encantada
“Enchanted”, uma produção da Disney, foi o último filme que vi desta temporada infantil que vem (e vai) com o Natal. No entanto não fiquei tão encantada com Enchanted como gostaria e resumiria a minha opinião a um “vê-se!” Apesar de três ou quatro momentos bem conseguidos sobretudo no início do filme, ele desenvolve-se e acaba numa banal previsibilidade, que presumo seja intencional para não tornar o filme demasiado “inteligente” e/ou "exigente" para o público. Os actores surpreenderam-se positivamente com excepção de Patrick Dempsey (o Dr. Shepperd da Anatomia de Grey). Para o ano há mais.
13.1.08
Serviço
O exercício de um cargo político, ou de outro cargo público com poder e elevada capacidade de decisão, deveria ter por base a noção de serviço. Num mundo ideal tem, e num outro mundo menos imediatista em que o carácter se forma com base em valores pouco visíveis e não consumíveis, de vez em quando também tem. Complementando essa disponibilidade de serviço, deve estar a competência e a integridade. Todas as outras possíveis ou desejáveis características ao lado destas são, em última análise, irrisórias e servem sobretudo para encher jornais. A ambição, a visibilidade, a atracção pelo poder ou a ilusão de que se exerce esse poder, o estar lá nos centros de decisão ou a ilusão de que realmente se decide, o querer-se e saber-se influente, a certeza de que hoje um cargo político é um degrau seguro para um futuro confortável num cargo público ou numa empresa pública, semi-pública ou privada dessas que vivem na promiscuidade que é o nosso regime, são hoje os principais factores motivacionais de quem abraça um cargo de serviço público. Mesmo quando o discurso é sobre a vontade de servir o país os actos, um a um, desmentem-no.
Esta semana que passou ilustrou esta ausência da noção de serviço de forma dolorosamente visível e não deixou também dúvidas quanto à competência e à integridade. Um momento verdadeiramente confrangedor esse em que vimos Mário Lino sentado ao lado de José Sócrates, (ou deverei dizer: em que vimos José Sócrates sentado ainda ao lado de Mário Lino?) enquanto o PM anunciava a decisão de construir o aeroporto em Alcochete... Tal momento, já por demais analisado e dissecado, em que se destaca a constante desfaçatez do PM e a passividade amestrada do ministro, deixou-nos boquiabertos e hoje continuamos a ter dificuldade em acreditar que se tenha mesmo passado. O mesmo aconteceu quando fomos confrontados, já não só com a possibilidade da administração da CGD poder ir para o BCP e Armando Vara com ela, mas com o facto de este último ter pedido licença sem vencimento à CGD para não perder o vínculo laboral que o prende à instituição pública.
9.1.08
Grau Zero 3
Se em matéria de símbolos e prática religiosa se tem como objectivo um higiénico vazio, outras áreas nomeadamente relacionadas com o pensar, o questionar, o criticar, o analisar, parecem também estar a sucumbir à mesma redução ao grau zero. A perspectiva que começa a desenhar-se de se acabar com todos os partidos políticos incapazes de fazer prova de terem nos seus registos mais de 5000 militantes, ou o “não” ao referendo sobre a questão europeia são algumas ilustrações desta onda redutora e de terraplanagem da sociedade. Fica um vazio ideológico e de debate, em que a diferenciação não é bem-vinda começando por isso a ser metodicamente eliminada deixando um espaço amplo ao centrão que alimenta o regime para que, de acordo com o soprar dos ventos, este se encha e se tinja de algumas cores para dar uma patine de pensamento, reflexão e de pluralidade. Ambiente, aquecimento global, casamentos gay dão um ar de esquerda, ex-combatentes e liberalizações de alguns sectores de actividade normalmente reservadas ao estado, reforço de autoridade dão o ar de direita, e o ar moderno e actual de quem está na linha da frente é dado com os temas das novas tecnologias ou pelas preocupações com a vida saudável. Está tudo previsto.
Assim nasce uma sociedade grau zero: feita de indivíduos bi-dimensionais, lisos e brilhantes como o aço polido das belas e modernas cozinhas onde impera a higienização e as facas de cabos de cores diferentes, ou gentes polidas de acabamento cuidado e de design perfeito como os sapatos Prada, ou então luminosas, cintilantes, rápidas e eficientes como as luzes dos computadores e de qualquer gadget moderno filho das novas tecnologias. Tudo sem debate, tudo sem colesterol, tudo muito liso, tudo muito igual, tudo muito vazio. Aldous Huxley não fez melhor.
Arquivo do blogue
-
▼
2010
(138)
-
▼
Maio
(19)
- Coisas que se podem Fazer ao Domingo 51
- Breve História de um Magalhães
- La Chartreuse de Parme
- Plataforma Contra a Obesidade 59
- Um Governo Que Não Governa
- Bento XVI em Portugal 5
- Confesso que, depois de ver isto e de ler os elogi...
- Bento XVI em Portugal 4
- Bento XVI em Portugal 3
- Vaidade e Orgulho
- Porque é que José Sócrates não segue, por uma vez,...
- Bento XVI em Portugal 2
- Entardecer 15
- Ontem adormecemos nauseados com isto, não pelo aco...
- Bento XVI em Portugal
- Sobrevalorizado
- Queen VictoriaHoje bem cedo
- Irreflectidamente
- Coisas que se podem Fazer ao Domingo 49
-
▼
Maio
(19)

























