“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

10.4.08

Crónica Da Vida Num Resort 2

Se um resort com a sua versão fabricada de paraíso apela as pessoas que procuram alguma tranquilidade e satisfação de desejos muito simples e básicos travestidos de coisa requintada, ainda apela mais a casais em lua-de-mel, e previsivelmente eles eram muito numerosos. No entanto enquanto “categoria” de pessoas eles não cansaram de me espantar. Andavam circunspectos e formais como quem cumpre um papel que é esperado que cumpram: de mãos dadas e em pose quase de estado andavam de lá para cá, tomavam refeições, andavam de barco, faziam passeis ao fim do dia, beijavam-se e abraçavam-se na piscina, mas todos os seus gestos pareciam pensados e encenados, careciam de espontaneidade e de verdadeira alegria. Não se ouviam gargalhadas, não se viam trocas cúmplices de olhares, nem sequer a sombra daquele brilhozinho de paixão ou desejo, muito menos um átomo que fosse de loucura, de vontade de sorver o momento, de realmente se divertirem. Enfim, não se viam nem sentiam algumas dessas coisas que é suposto existirem entre casais felizes e contentes que é o estado que normalmente associamos a uma lua-de-mel. Mais pareciam reféns de um qualquer protocolo ou convenção que os obrigava a estar ali um pouco contra-vontade. Se calhar...


Esta semana Sílvio Berlusconi tem sido igual a si próprio enchendo os jornais e serviços noticiosos com declarações bombásticas. Depois de ter afirmado que sabe falar Latim o suficiente para conversar ao almoço com Júlio César, o antigo Imperador de Roma (a SIC deu notícia deste facto há uns dias com um surpreendentemente sério Rodrigo Guedes de Carvalho), deixando-nos pasmados com a sua confiança e invejosos com o seu conhecimento, diz agora que as mulheres de direita são mais bonitas do que as de esquerda – nada que não se venha sussurrando ao longo dos tempos e em voz bem baixa pelos corredores da vida. A diferença está em Berlusconi falar alto e no facto de eu ter dificuldade em antipatizar esta personagem melhor do que a ficção que tem a lata que ele tem para dizer tontices ou barbaridades como quer e onde quer, nomeadamente em campanha eleitoral, ter ganho eleições e voltar a concorrer.

9.4.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 29

John Constable 1776-1837
The Sea near Brighton

Pior do que retirar os Simpsons da televisão privada na Venezuela, só mesmo a sua substituição pela série Marés Vivas. Será que os pais telespectadores irão também apresentar queixa contra a má influência exercida por esta série nos neurónios dos seus filhos, ou a estupidez poderá continuar o seu livre curso, desta vez em fato de banho vermelho e decote normalizado de acordo com complexas equações geométricas?

8.4.08

Crónica Da Vida Num Resort

Se um grande e bom hotel urbano (Oriental em Bangkok, por exemplo) ou que já conheceu melhores dias (Sheraton em Guadalajara, por exemplo) tem sempre algo de aristocrático, já um bom resort é essencialmente burguês na sua procura de luxo e conforto e um mau resort um espelho demasiado real de uma sociedade de abundância. O resort é burguês quer na sua intenção, a de imitar o paraíso, quer nas suas funcionalidades que visam adivinhar e satisfazer os desejos conscientes ou inconscientes que os clientes num determinado momento e circunstância associam a paraíso: praia, sol, piscina, havaianas, algum desporto aquático feito com indolência, comida fresca e abundante, bebidas frescas, spa, não fazer nada. Por uns dias andei iludida com o paraíso.

Mas um dia chovia abundantemente e o céu cinzento não deixava prever nenhuma aberta. Foi o pretexto necessário para sair do resort e, dentro de um taxi, olhar o Recife e Olinda. O Recife é uma cidade que não se imagina: velha, mal tratada, pobre, descuidada, sem graça. Só a boa vontade de um turista determinada em não se deixar deprimir percebe entre o cinzento do céu, o molhado da chuva o desleixo da cidade e a falta de vida e de vibração, no centro da cidade degradada umas pontes que poderiam ter charme, umas ruas velhas com um casario antigo que carrega alguma nostalgia, uns edifícios coloniais que pintados e reabilitados dariam graça à cidade, enfim uns sinais de pertença, da história que fez a cidade, que é a cidade. Fora isso, os subúrbios lembram África sem serem África, e a parte nova dos prédios altos e dos condomínios não-sei-quê é simplesmente inenarrável. Não me demorarei nos clichés do país rico, da pobreza, da distribuição de riqueza no Brasil, mas lembrei D. Hélder Câmara, o simpático e controverso Bispo de Olinda e Recife que fazia gala em dizer “se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista" e que se tornou personna non grata no pontificado de João Paulo II. Assim num dia cinzento e de chuva, D. Hélder Câmara parecia fazer mais sentido naquele Brasil que eu vi do que João Paulo II, mas devia ser da chuva.

29.3.08

Uma semana.
.

Da Culpa

Tenho seguido com algum interesse mas sem oportunidade para escrever, a polémica em torno da figura jurídica da “culpa” que o PS pretende erradicar do processo de divórcio litigioso substituindo-a pela figura das “causas objectivas”. Eu que tenho sido uma crítica (objectiva), escrevendo amiúde sobre o assunto, da nomenclatura políticamente correcta deste governo, da tendência para (re)nomear palavras passíveis de causar susceptibilidade em minorias, bem como da nova ordem moral influenciada por Zapatero que tentam impor-nos para que todos sejamos belos, lisos, brilhantes e a cheirar a desinfectante mesmo que por dentro sejamos todos feios, porcos e maus, estou, e por uma vez, de acordo com o governo.

Se o divórcio unilateral proposto pelo BE é uma ficção absurda apesar de algo simpática porque nos permite divagar e sonhar com a possibilidade de um casamento unilateral também, já a questão da figura jurídica da “culpa” num processo de divórcio litigioso merece mais reflexão. Sobretudo merece que nos perguntemos se encontrar um culpado num processo de divórcio litigioso tem até hoje tido alguma eficácia no desenrolar do dito divórcio tornando as partes envolvidas menos infelizes bem como cumprimento das obrigações pós-divórcio, nomeadamente financeiras, da parte “culpada”. Eu até creio que o receio desse não cumprimento das obrigações, infelizmente tão normal e tão imagem da mesquinhez nacional (qualquer um de nós conhece casos destes infelizmente não é preciso sequer procurar) tem um efeito perverso na procura a todo o custo - da dignidade da pessoa, do equilíbrio emotivo dos filhos, etc – dessa “culpa” num último esforço de vingança num processo de divórcio. Um mau motivo, parece-me. O esforço deverá ser concentrado não em encontrar a “culpa” mas num acordo equilibrado encontrado se necessário com ajuda de mediação isenta, realista e exigente que obrigue ao cumprimento do que ficar estipulado em acordo ou pelo tribunal. O problema é que quem não cumpre não é punido, e garanto que não há “culpa” que obrigue a cumprir se a fiscalização não existe. Infelizmente. Por isso acabe-se com a culpa pelo divórcio e que seja culpado quem não cumpre a sua obrigação pós-divórcio. No fundo, no fundo é disto que se trata, não é? Pois obrigar a ficar casado quem não quer ou quem já “saiu” do casamento há muito parece estar fora de questão.

Também desta vez não concordo com a posição da Igreja. Primeiro porque a Igreja Católica nem sequer reconhece o divórcio, nem permite que casais divorciados e recasado9s só civilmente recebam os sacramentos, por isso este assunto pura e simplesmente não lhe diz respeito, tal como não diz respeito aos ateus tanta matéria religiosa. Em segundo lugar porque mesmo nos mecanismos da Igreja para dissolver casamentos (Declaração de Nulidade do Casamento) a noção de “culpa” não só não existe como nem sequer é encorajada. Nesta matéria a Igreja deveria, e também por uma vez, ser muito mais discreta e deixar a sociedade civil decidir.

28.3.08

Combate ao Sedentarismo 51

Richard Widmark (1914-2008)

26.3.08

Michael Clayton

Michael Clayton, visto recentemente. George Clooney no seu melhor, sem o charme óbvio de Clooney, mas numa personagem complexa e que prende, um pouco decadente, frustrada, mal amada, com a vida no fio da navalha, mas sempre um sobrevivente. A impressão de inadaptação da personagem percorre o filme tornando-o mais interessante, modulado e mais vivo e menos mecânico e previsível, pois sendo um thriller bem conseguido, bem construido, bem feito e bom de ver, como alguns outros igualmente bem conseguidos, bem construidos, bem feitos e bons de ver faz a diferença por estas nuances das personagens. As interpretações também fazem a diferença. Tilda Swinton, num bom papel de composição, é glaciar e impecável e mereceu o Oscar. Tom Wilkinson também tem um belíssimo trabalho no papel de uma visionário desequilibrado. Anthony Minghella produziu.

25.3.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 28

Joseph Mallord William TURNER (1775-1851)
Paysage avec une rivière et une baie dans le lointain
(Clicar para aumentar)
Trabalho por objectivos: aqui. Lamento que o esforço do estado para implementação destas novas estratégias de incentivos aos profissionais se desenvolva prioritariamente (ou mesmo exclusivamente) no sentido de arrecadar sempre e mais receitas para o estado, e não no sentido de servir melhor o contribuinte, onde seriam muitas as áreas a beneficiar de tais metodologias, como por exemplo o SNS para se diminuir as famosas listas. O trabalho por objectivos pode fazer maravilhas em muitas áreas.

22.3.08

Má Educação

Hoje ao olhar a imprensa vi esta notícia na BBC a propósito de um estudo no Reino Unido. Vem mesmo a calhar agora que nós por cá estamos chocados com o vídeo colocado no youtube e que correu os media de uma aluna a agredir uma professora, perante o olhar hooligan dos restantes colegas de turma, que tentava exercer a sua legítima autoridade na sala de aula. Talvez a professora não tivesse sido perfeita no exercício da sua autoridade, talvez porque tentasse pôr em prática algum método aprendido numa dessas formações psico-qualquer-coisa sobre psicologia juvenil, diálogo e exercício de autoridade. Este estudo britânico põe o dedo numa das maiores feridas da escola e do natural e desejável exercício da autoridade que deveria começar em casa. A falta dela tem consequências visíveis no normal funcionamento da escola e na fundamental e essencial hierarquia e disciplina da instituição. Mas é apenas uma das feridas de um sistema todo ele em ferida aberta.

Descida da Cruz

Paula Rego
Pieta

21.3.08

Na Cruz

Velázquez
Cristo Crucificado (1632)
(clicar para aumentar)

Museus em Madrid 3

Da colecção de Velazquéz, este quadro que reproduzo em cima é um dos mais extraordinários. Vi-o de longe, ocupava uma parede e a surpresa e o choque foram instantâneos tal a força do quadro, pela simplicidade, contenção e realismo. Um dos quadros de Velazquéz em que as linhas e o equilíbrio atingem a perfeição, e em que é transmitido sem frufrus nem excessos decorativos, simbólicos ou de sangue, o mistério da cruz. Pelo minimalismo do objecto tratado “esconde” o barroco (o drapeado do pano, a definição anatómica) e respira modernidade e veicula uma emoção única. Um dos mais belos quadros que já vi.

O museu do Prado com a sua ala nova ampla e luminosa que serve de entrada e onde estão as lojas e as cafetarias (muito boas) tem uma colecção de pintura de grande dimensão à escala mundial e está sem sombra de dúvida ao lado dos grandes museus como o Louvre ou a National Gallery e a poucas centenas de quilómetros de qualquer cidade portuguesa.

20.3.08

A Eucaristia

Nicolas POUSSIN (1594 - 1665)
L'Eucharistie
(clicar para aumentar)

19.3.08

O Lado Selvagem


Sean Penn, um dos bons actores que hoje temos, assinou a realização de Into de Wild (O Lado Selvagem), um filme que já vi há umas semanas É um filme surpreendente que retrata uma busca de si, uma visão diferente do mundo numa nostalgia do mito do bom selvagem. Com sensibilidade e contenção, sem melodrama e escapando a aos facilitismos sentimentais - não deixa o espectador entusiasmar-se com o percurso e a descoberta da personagem principal, a tristeza percorre o filme ao de leve desde o primeiro momento, lado a lado com a procurada “libertação”- mais que “liberdade”, como mais tarde se descobre. Banda sonora óptima a dar o toque melancólico. Boas interpretações.

Plataforma contra a Obesidade 37

Joachim Beuckelaer
The Four Elements: Air

17.3.08

Plataforma contra a Obesidade 36

Joachim Beuckelaer
The Four Elements: Water

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com