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17.3.08
Do Pecado
Em tempos de relativismo moral, de consumismo frenético, de vontades rapidamente satisfeitas, e de pressa em viver, falar de pecado é uma chatice e pensar sobre ele é de quem não tem nada melhor nem mais urgente que fazer. O Papa Bento XVI que não se compadece com esta estranha forma de vida que domina o ocidente falou sobre o pecado no seguimento do seu antecessor João Paulo II, tentando reforçar a sua (do pecado) dimensão social e as consequências que ele pode ter na sociedade. Foi mesmo estabelecida uma lista de seis pecados sociais a juntar à lista tradicional dos sete pecados mortais, não vá o católico consciencioso perder-se neste labirinto que parece ser a vida moderna. Confesso o meu cepticismo em relação a esta nova lista de pecados, à sua necessidade e pertinência, à especificidade dos tempos modernos que exige actualização da lista, e creio que ela está em desacordo com alguma tradição mais exigente do ponto de vista teórico e teológico.
O pecado é uma livre transgressão à lei de Deus, quer em acto, palavra, pensamento ou omissão: Tem que ser grave, feita de forma totalmente consentida e conhecedora, e diz-nos o catecismo que faltando um destes requisitos já não se trata de pecado mortal. Vendo o pecado à luz desta definição, estamos perante matéria do foro íntimo entre o pecador e Deus, sendo o sacerdote que ouve a confissão e dá o perdão de Deus apenas o veículo que reconcilia o pecador com a Igreja. Os sete pecados mortais (relembro: Avareza, Gula, Luxúria, Soberba, Preguiça, Inveja e Ira) tais como a Igreja os estabeleceu há séculos são suficientemente sólidos e representativos da miséria humana e podem cobrir qualquer desvio à ordem divina, para além de serem sempre a mola a qualquer forma concreta que um pecado possa tomar. Por exemplo, os pecados contra a natureza poderão ser muitas vezes atribuidos à soberba humana ou à luxúria (pelo dinheiro e lucro). Também alguns actos tais como os que estão descritos na lista recente de pecados sociais, por exemplo abortar, podem não ser necessariamente pecado mortal se as condições acima descritas não existirem.
Este estender do pecado à esfera social, definindo como pecado situações concretas e não sentimentos ou características da alma humana, também contém outros perigos. Aqui neste blogue tem-se escrito criticando, a propósito do islamismo, os danos da omnipresença da religião em todas as esferas da actividade social dominando e influenciando quer as leis, quer os hábitos, a cultura, a mentalidade. Apesar do ocidente estar numa situação que não se assemelha à existente em tantos países islâmicos, não gosto que o manto da recomendação religiosa se estenda, através de directivas concretas, a outras áreas. Nem sequer é necessário e desvirtua a noção pessoal e íntima do pecado. Como já disse a antiga lista dos sete pecados mortais tal como estão definidos podem bem continuar a cobrir qualquer acto deliberadamente contra a vontade divina que a imaginação mais criativa possa inventar (como se ainda houvesse algo a inventar) tal como tem sido feito ao longo dos séculos e também não reconheço aos tempos modernos perigos assim tão inovadores e específicos para a alma humana que requeiram novos parâmetros na abordagem ao pecado.
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16.3.08
De Boas Intenções...
Há palavras fortes do catolicismo que não deixam ninguém indiferente, tanto católicos como não católicos. São palavras que estão mais ou menos na moda e são mais ou menos usadas conforme as épocas e as mentalidades, são semente de muitos equívocos, de medos e de raivas e ódios. Estes últimos vêm sobretudo de um sector anti-clerical que vê na Igreja Católica a fonte de todos os males passados, presentes e futuros da inteira humanidade.
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15.3.08
Há dias assim,
como o de ontem,
Ainda mal refeita dos piercings na língua e restante cavidade oral, vejo a reportagem sobre o líder da oposição “na intimidade”. Eu que cada vez percebo menos de política e que cada vez entendo menos seja o que for sobre agências de comunicação (e o mundo em geral, diga-se), tento o mais possível não perder o bom senso do meu horizonte. Aquela reportagem não tem ponta por onde se lhe pegue. Será que alguém depois de ter visto Luís Filipe Menezes em toda a sua glória intimista, quer um homem assim para primeiro-ministro? Se a reportagem de José Sócrates foi ensaiada e falsamente natural com as já famosas referências às leituras dos filósofos espanhóis, e o telefonema a Zapatero, pelo menos foi pensada para poder contornar a ratoeira que a “intimidade” tanta vezes se revela ser. José Sócrates não se expôs muito, e bem, a reportagem não acrescentou nada, pior para a SIC que gastou recursos nesse projecto. O caso Luís Filipe Menezes foi pior para o próprio: a sua intimidade foi uma ratoeira em que não se entende como é que ele caiu. Os seus conselheiros e as célebres agências estavam onde? Mostrou uma casa sem alma, um restaurante banal, um barbeiro a despropósito, um hotel em Lisboa, que não deram propriamente uma imagem de solidez. Uma exagerada exposição de filhos, pais e namorada que falando de LFM também em nada contribuiram, apesar da boa vontade, para uma acrescida consistência e coerência à figura do líder da oposição. Também o discurso de LFM se enche de contradições mesmo a falar de coisas simples e banais como foi sobre o seu principal defeito (a jornalista perguntou isso). Ideias políticas também não passaram e a vacuidade foi confrangedora. Não gostei especialmente da jornalista que nem no caso de José Sócrates nem no de Luís Filipe Menezes conseguiu passar da trivialidade. Nunca fez perguntas interessantes que permitissem aos entrevistados brilhar um pouco. Nos momentos em que isso aconteceu (com JS) foi porque o entrevistado se impôs. Como trabalho jornalístico também achei as reportagens fracas.
13.3.08
Véu Islâmico 10
O Caderno P2 de hoje do Público tem um artigo grande sobre a Sharia em Portugal e uma reflexão de um especialista em direito islâmico que nos diz que não devemos ter medo da Sharia. Confesso a minha perplexidade face à certeza e firmeza de uma tal afirmação, sobretudo vinda de um ocidental, numa matéria em que as interpretações – todas elas válidas - são tão díspares e em que a fonte principal dessa Lei é o Corão, um texto normalmente muito taxativo (é só pegar e ler para confirmar). Sem querer pôr em causa a bondade e boa vontade de tantos imâs que usam a Sharia com bom senso em situações que potencialmente seriam de grande injustiça, que confiança posso ter eu num sistema fundado num sistema de valores em que a igualdade de direitos e oportunidades não é nem bem visto nem encorajado.
Assim eu pergunto-me o que é que conta: uma sharia em versão “português suave” (título do Caderno P2) em que até se percebe que uma mulher possa ir trabalhar, em que se justifica o porquê de um homem receber o dobro de uma herança, e em que não há chicotadas nem mãos cortadas, ou uma sharia em que as mulheres são obrigadas (ou pressionadas socialmente) a usar uma burka, impedidas de trabalhar, menores e impossibilitadas de decidir, herdar e guardar os filhos? Qual das “sharias” é a melhor, a mais correcta, a que representa a vontade de Alá? Eu pergunto-me também: o que é que conta os diferentes graus de severidade (ou liberalidade) na aplicação da sharia ou os pressupostos e sistema de valores que estão subjacentes?
10.3.08

Adenda: A seguir ao Benfica que notícia é que ocupou a nossa atenção? Claro, a Mariluz e o seu funeral com centenas de pessoas.
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9.3.08
Depois da polémica causada pela actuação da PSP junto das escolas a querer saber quantos os professores que tencionavam participar na “Marcha da Indignação” agora sabemos do excesso de zelo da GNR a querer saber se os professores que viajavam para Lisboa em autocarros vinham devidamente “acondicionados” entre assentos e cintos de segurança. Tal operação de fiscalização atrasou a viagem de muitos professores impedindo-os de participar na manifestação. Patético! E ficamos a perguntar-nos se há ou não coincidências. Será que vamos aguardar pelas conclusões de mais um inquérito a ser pedido pelo Ministro da Administração Interna? .
7.3.08
A ler este post no Origem das Espécies. Um retrato quase em directo da vida real duma escola. Nesta questão não há inocentes, e houve uma vontade de encontrar bodes expiatórios de uma culpa partilhada. Pelos pais que largam os filhos e esquecem o seu dever de educar e zelar. Pela sociedade que desculpabilizou, relativizou e espera tudo e demais da escola. Pelos teóricos da educação que, complacentes, confundiram prioridades, relativizaram valores e esqueceram o ensino, a exigência e a autoridade. Pelos próprios professores que abusavam de baixas, que eram campeões de absentismo, e se acomodaram à rotina. Pelas políticas actuais irrealistas irresponsáveis e arrogantes. Como disse: não há inocentes.6.3.08
Grande Arte
A Grande Arte de Rubem Fonseca revelou-se um livro difícil de ler, pois foi-se tornando a pouco e pouco num caso sério e complicado de amor/ódio. Quando o comecei fiquei de imediato presa e enfeitiçada com a escrita, a sua fluidez, a forma magistral como se encadeavam os diferentes planos narrativos, os desdobramentos do narrador, o ritmo, os diálogos curtos, incisivos e inteligentes, a ironia sempre presente, uma dose certa de cepticismo. Tudo parecia perfeito. O romance obriga-nos a estar atentos, prende-nos sem no entanto ser inacessível ou difícil. O enredo é uma sinfonia daquelas que requerem todos os instrumentos conhecidos, tantas as personagens, e as acções.
No entanto houve uma altura em que comecei a cansar-me um pouco, a perder algum alento e atenção numa altura em algumas cenas violentas se sucederam e me incomodaram. Não, disse para comigo, ler livros destes que perturbam, que incomodam, não vale a pena. Gostei dos primeiros capítulos, fico por aqui. E assim foi. Pus o livro de parte, sem no entanto o arrumar nas entantes, e voltei a minha atenção para outros. Mas de vez em quando via o livro e achava que tinha de lhe voltar a pegar, jurando que o faria com cuidado e evitando as cenas violentas. Assim foi, envolvi-me outra vez com a orquestra sinfónica completa que é o romance até me ver envolvida noutra cena de alguma crueza e bastante desagradável. Aí zanguei-me de vez (pensava eu). Não quero saber disto para nada. Voltei a pôr o livro de parte. Passou um ou dois meses e o livro não me deixava, não saía do meu horizonte visual, queria saber como é que ia acabar, queria outra vez envolver-me. Assim foi e decidi que iria ler o livro até ao fim.
Um bom e grande romance, com todos os ingredientes a que temos direito: personagens fantásticas, bem desenhadas e cheias de vida e personalidade, enredo complexo, mistério, crime, suspense, intriga familiar, diferentes planos temporais, histórias na história, enfim, um verdadeiro romance e certamente um dos melhores escritos em língua portuguesa dos que li recentemente (verdade que não leio muitos). Muitíssimo bem escrito. Nem sempre simpático, nem sempre agradável de ler. Violento. Almas sensíveis devem abster-se.
4.3.08
Podia ser o Flying Circus, mas não é. Ainda há quem diga que Portugal não tem interesse nenhum.
Um partido que se forma ao centro do já bem preenchido centro. E imagine-se, num rasgo de cidadania e espírito pátrio, promete esperança e pontes entre nós, como se lá no centro do centro fizesse falta a esperança e como se não existissem já pontes demasiadas.
Suicida suicida-se e depois de suicidado continua a suicidar-se. Tudo num total de três facadas, num corredor técnico de um Centro Comercial.
História de Amor
“O Senhor já amou alguém?”, perguntou o português.
“Todo o mundo já amou, uma vez pelo menos”, eu disse.
“Todos não, nem todos. E amar, só se ama uma única vez”, disse Alberto. “Vim para cá seguindo uma mulher, uma deusa, uma santa. Ela havia entrado, um dia, no nosso restaurante em Belém do Pará. Assim que a vi apaixonei-me perdidamente, era ainda uma menina, de quinze anos. Servia-a à mesa sem que ela me olhasse um mísero instante sequer. Perguntei à senhora que a acompanhava, e que depois soube ser sua tia, de onde eram. Eram de Corumbá, respondeu-me a tia. Logo saíram. Não pude esquecê-la e não me envergonho de confessar que passava as noites a chorar de sofrimento. Emagreci e cheguei a cuspir sangue”.
Alberto levantou o copo como se estivesse a brindar o facto de ter cuspido sangue por amor. “Eu estava tão ensandecido que abandonei a mãezinha – que Deus a tenha, junto com o meu pai, no céu – e vim para Corumbá atrás da moça.
A garrafa esvaziara. Pedimos outra ao garçom.
“Quando cheguei aqui procurei-a por toda a parte. Abri este restaurante, economizei, prosperei, ganhei dinheiro, mas meu coração sangrava como o de um mendigo sem uma sopa fria para tomar. Um dia, um dia inesquecível, ao passar pela porta de uma igreja, vi um casamento. A noiva, toda vestida de branco, e uma grinalda de flores de laranjeira e um longo véu de renda seguro por dois pagens, um menino e uma menina, caminhava como uma princesa pela nave da igreja. Quando vi seu rosto senti algo terrível, como se um raio tivesse se abatido sobre a minha cabeça. A noiva era ela, a mulher dos meus sonhos. Saí da igreja como um cego, um morto desesperado, cambaleando, e assim fui até ao rio e nele atirei-me com a esperança de me afogar ou ser devorado pelas terríveis piranhas”.
A essa altura de sua narrativa, Alberto fez uma cara tão compungida que parei no meio a primeira garfada de pintado que acabara de ser servido. Seria uma indelicadeza degustar a comida ante tanto sofrimento.
“Mas esta é uma história feliz”, disse Alberto, mudando de semblante, “Não me afoguei pois nasci à beira do Elvas, onde aprendi a nadar, e as piranhas não quiseram comer a minha carne desventurada”.
Amor, o português sabia, era desvelo, respeito, mas também paciência. O mundo dava voltas. Seis meses depois do casamento, o marido da moça, que estava a pescar no Pantanal, caiu dentro d’água e como não sabia nadar, afogou-se. Alberto esperou um ano antes de começar a lhe fazer a corte.
“Isso merece um Terras Altas”, eu disse.
Não havia mais Terras Altas. Foi substituído por um Granleve. Para Corumbá era até bom demais. Saí do restaurante no estado de embriaguez que me deixava feliz. Além do mais gostava de histórias de amor que terminassem bem, como a do português.
Rubem Fonseca, A Grande Arte.
Campo das Letras
2.3.08
Junkyard
A sensação de que a escola é um junkyard, onde tudo é válido, tudo se experimenta, tudo se tenta, tudo se procura e tudo o que não é o seu principal objectivo se exige, perdendo de vista a sua função central e a estabilidade necessárias para a formação de uma geração atrás da outra, continua cada vez mais forte e mais dramática. Há um ano, a propósito do filme “Notes on a Scandal” falou-se do retrato da escola traçado nos primeiros 10 minutos do filme pela personagem encarnada por Judi Dench; um retrato cínico e amargo onde não se percebe bem que futuro a escola prepara quem a frequenta, e onde o respeito pela instituição é inexistente da parte de todos os envolvidos. A escola é nesse filme apontada como um prolongamento dos serviços sociais, mais do que um local de aprendizagem e do saber e da exigência, disciplina e avaliação que o aprender e saber exigem.
Nesta semana que passou realço dois factos. O primeiro na vizinha Espanha, melhor na Catalunha, com os folhetos distribuidos pelas escolas ao abrigo do programa “Salut i Escola” em que se discorre sobre as vantagens da masturbação aos alunos entre os 10 e os 16 anos. Esta é uma imagem da face desta vertente actual de laicismo militante (a vontade de “chocar” a tradição católica é demasiado óbvia) e de politicamente correcto. Sem querer pôr em causa as vantagens de uma educação sexual da parte da escola, mais informativa do que formativa (para não andar sempre a mudar ao sabor das últimas modas), eu interrogo-me sobre se não seria melhor concentrar os limitados recursos das escolas no estudo da matemática, da língua castelhana ou portuguesa no nosso caso, da ciência, da história, do inglês. O disparate parece não ter fim, e ainda bem para os envolvidos que o ridículo, tal como a masturbação, não mata. Isso o folheto não explicava.
Também esta semana a entrevista de Ana Benavente à SICN na quinta-feira, que por acaso vi. Percebeu-se bem demais a intenção e, tal como com o ex-ministro da saúde, Correia de Campos, a pressão contra M. De Lurdes Rodrigues, vem também de dentro do PS. Ana Benavente, ex-Secretária de Estado, foi patética e fiquei chocada e incrédula a ouvi-la num discurso já demasiado ultrapassado, gasto e penoso, e não me lembro de uma crítica contundente e pertinente à actuação da ministra. Tudo o que ela disse remete-nos para um universo muito pior do que o que aquele que a actual ministra mesmo nestes momentos de forte crise no sector, gerados também pela sua política, em que abundam a contradição, o autoritarismos incoerentes, a falta de estratégia, pode remeter. Para quem deseja ver mudanças e reformas no sistema de ensino em Portugal, Ana Benavente foi naquele momento a imagem de tudo o que não se quer: a complacência para com as “corporações”, professores, sindicatos, alunos, pais; o laxismo perante a exigência, rigor e a autoridade da escola, as avaliações de todos os envolvidos (alunos primeiro, professores também); a obsessão pelos consensos ousando até, apesar da precaução, a palavra “diálogo”.
29.2.08
Pronúncia do Norte 2
Hoje ao entrar numa sala ouvi duas mulheres novas a falar. Algo estranho e familiar: o sotaque tão deslocado no local, mas tão conhecido. Disse, sem as conhecer, que parecia que estava na minha terra. No Porto? Sim, no Porto. Ah, explicaram elas, já cá estamos há três anos. Uma há mais tempo, outra há menos, a trabalhar. O mercado de trabalho lá está péssimo, diziam. Eu gosto do clima de cá, mas se pudesse voltava para lá, dizia uma, eu já não sei, dizia a outra. Ouvia-as e pensava no que sempre ouço quando vou ao Porto ou quando alguém do Porto vem cá: que tudo está mudado, que as empresas não sobrevivem, que o tecido empresarial é fraquíssimo, que o país está cada vez mais centralizado, que o Porto empobrece a olhos vistos, que o Norte já não é o que era, que quem é ambicioso tem que vir para Lisboa, que cada vez mais tudo se decide em Lisboa, que Lisboa enriquece. Enfim, um sem fim de lamentações. Se é verdade que vejo muita mudança no Porto, muitas certezas abaladas, muitas vidas transformadas, famílias instabilizadas, também vejo em alguns locais, lojas das mais caras do país sempre com gente e um parque automóvel de fazer inveja. Fenómeno pontual, e muito localizado? Provavelmente. Mas lamento esta tristeza das pessoas no Porto que está tão mais arranjado e mais convidativo.
Pronúncia do Norte
Um blogue com Pronúncia do Norte, Blasfémias, festeja o seu quarto aniversário. Parabéns a um dos blogues que leio regularmente e há mais tempo e cuja pronúncia me agrada..
28.2.08
Explicar a “razoabilidade política e sustentabilidade económica”, assim diz Luis Filipe Menezes, com ar sério e ensaiado, na SIC acerca da sua proposta sobre a eliminação da publicidade na RTP. Não discuto a proposta, pois uma expressão destas com duas palavras de sete (7) sílabas, e a sair tão espontâneamente só pode ser sinal de uma boa ideia.
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27.2.08
26.2.08
Reformar
No Mar Salgado, FNV tem, sob o título A Oriente do Oriente, exposto interessantes mosaicos sobre o Islamismo como pretexto para um debate. Desta vez detem-se na questão da reformabilidade do Islamismo e das sociedades islâmicas. Esta é mais uma questão complexa, porque a reforma de qualquer sociedade o é, e porque ainda é mais complexa no caso do Islamismo em que a religião e a própria sociedade, leis costumes, se misturam não sabendo onde uma começa ou onde acaba outra. Qualquer questão que se coloque sobre o Islamismo terá que ir parar à essência do próprio islamismo, à religião, à crença à forma como essa religião e a Revelação Divina são vividos. Com as sociedades cristãs que separam há muito a religião da sociedade e dos poderes políticos e judiciais, e que têm tido como mote “dai a César o que é de César, e dai a Deus o que é de Deus”, é mais fácil delimitar as fronteiras da religião. Com o Islão é quase impossível e quando se tenta estabelecer uma sociedade laicizada (Turquia, Pérsia), há um dia um retorno com a pressão dos sectores mais “fundamentalistas” – que não serão necessariamente terroristas, note-se.
Este facto tem uma raíz teológica, ou de falta de teologia ou mesmo de exegese, ou falta dela, e tem a ver com a forma como a Revelação Divina é olhada. Para um muçulmano o Corão é a Revelação, é a palavra de Deus. É mesmo Deus que disse aquelas palavras daquela forma e o livro transmite fielmente o que Deus pensa, quer e disse. Como o Corão é o centro da vida de um muçulmano e porque regula todas as áreas da vida, quer da vida íntima quer da vida social, é muito difícil “reformar” uma sociedade, tal como nós concebemos a noção de reforma, isto é uma reforma no sentido de valorizar a liberdade individual total (ser livre de ser ou não muçulmano, ser livre de se converter a outra religião ou simplesmente ser livre de explicitamente, mas sem escândalo, não fazer o Ramadão, por exemplo), e uma igualdade de direitos e oportunidades para ambos os sexos. Será que alguém concebe homens e mulheres a rezar juntos numa mesquita? Porque é que, na mesquita, as mulheres têm que estar segregadas, num primeiro andar com tecto baixo e apertadas e com grades para não serem vistas? As coisas podem mudar em Marrocos com mais mulheres deputadas, podem mudar no Dubai com mulheres em lugares de topo na vida empresarial, na Turquia com mulheres tão iguais a nós, mas enquanto não rezarem ao lado dos homens na mesquita ou, pelo menos, nos mesmos locais que os homens usam, nada muda no fundo. Enquanto um muçulmano não for livre de não ser muçulmano, nada muda no fundo. Pode-se decretar a secularização duma sociedade, como na Turquia e proibir o uso de véu nos locais públicos, mas um dia, pouco a pouco a pressão da religião far-se-á sentir e a sociedade retomará devagar ou depressa (Pérsia que ficou Irão) os caminhos do Corão.
Qualquer reforma, para o ser, terá que passar ou pelo afastamento das leis e preceitos religiosos, ou por uma nova maneira de olhar e debater a própria Revelação de Deus. Não vejo outra forma, e esta parece-me do domínio da utopia. Mas por passar a mensagem da dificuldade (impossibilidade?) de reforma do Islão, recuso a "culpa" de estar a condenar as mulheres muçulmanas ao castigo dos taliban. Apesar de ser uma expressão retórica, não quero cair na tentação de achar que aqui, no Ocidente do Ocidente, somos os culpados do que se passa no Oriente do Oriente.
Procuradoria-Geral da República abre inquérito ao processo do Casino Lisboa. Será que ainda há alguém que ainda crê? Será que há alguém que não sente nausea perante este rodopio de abertura de inquéritos que invariavelmente param na gaveta? Eu quero notícias sobre o fecho e os resultados claros dos inquéritos que se abrem.
Impossível não gostar de Sarkozy. Eu tento, pois tantas vezes me desagrada a sua postura, as suas decisões precipitadas, os seus humores incontroláveis. Mas deve ser isso, essa fragilidade, essas fraquezas expostas e que ele nem tenta disfarçar gostando desse "ser igual a si próprio", talvez acreditando-se especial ou imortal, alguma dessas coisas que os heróis acreditam ser e que afinal só remetem a uma enorme humanidade.
25.2.08
Como se a Culpa Fosse Deles
Ouvi, estes dias desabafos de duas pessoas diferentes, que nem se conhecem, que vivem vidas bem diversas, em locais distintos e que têm opções políticas que raramente devem coincidir. Ambas trabalham para o estado, uma na área da saúde, outra na área da educação. O que foi revelador, mas nem chegou a ser surpreendente, foi o facto de os desabafos e queixas serem tão semelhantes quer no conteúdo quer no tom.
Ambas se confessaram física e psicologicamente exaustas e esgotadas, no limite, ambas estavam preocupadas com a sua capacidade de resistência e com a sua saúde, ambas se queixaram das longas horas de trabalho, da exigência de novas tarefas que consideram inúteis e que ambas vêem como um aumento de intendências e burocracias quase sempre inúteis: elaboração de actas que ninguém irá ler, elaboração de relatórios a propósito de tudo e de nada, picar o ponto a horas certas, nomeadamente à hora de almoço mesmo quando se está envolvido numa tarefa que terá de ser interrompida, reuniões, avaliações cheias de parâmetros complexos, objectivos discutíveis e competências tantas vezes sem nexo, sobre os quais há que escrever e discorrer.
24.2.08
Houve Sangue
Num período em que tenho ido ao cinema mais vezes do que o habitual, confesso minha perplexidade quando um filme que vejo me suscita sentimentos e opiniões tão diametralmente opostas àquelas que leio escritas pelos críticos. Ninguém nunca olha de forma igual para um mesmo objecto, mas normalmente e mesmo que a adesão, opinião e impressão final em relação ao objecto, neste caso um filme, seja divergente costuma haver uma concordância nisto ou naquilo: uma forma de olhar que coincidiu, uma apreciação ou uma sensação. Este preâmbulo a propósito de Haverá Sangue, um dos filmes mais louvados da temporada e com mais nomeações para os Óscares que serão atribuídos esta noite. Sem negar a qualidade e rigor dos aspectos técnicos, algo que reconheço sem no entanto saber ou perceber bem, nem negar alguma agradável contenção, o filme foi um dos mais desagradáveis que vi ultimamente. Feio, aborrecido, monocromático - dos tons castanhos ao negro viscoso do petróleo a cansar a vista, demasiado preguiçoso, mas com capa de subtileza na abordagem do binómio tão americano da dicotomia empreendedorismo, capitalismo e desenvolvimento por um lado e puritanismo espiritualidade e temor a Deus pelo outro, e dependendo inteiramente de um Daniel Day-Lewis que foi igual a si próprio e muito previsível, no sentido em que se supera como actor para se fazer como personna mas que, uma vez encontrado o seu “tom”, percorre todo o filme sem outras modelações na composição da personagem. Entre esta performance e a de Viggo Mortensem em Eastern Promises, (o outro nomeado para o Óscar de melhor actor que vi), nem hesitaria em escolher este último.
Como filme épico é pobre, como história de um homem só e que só sabe fazer uma coisa, é longo e aborrecido sem nada que atraia o espectador normal que gosta de ir ao cinema, e não falo de rodriguinhos, falo de um qualquer pathos. A banda sonora é rigorosamente de fugir o que condiz com o resto do filme, e aí a coerência é grande, e é demasiado “esperta”, despojada e agressiva. Talvez daqui a uns anos, quando me esquecer de quão desagradável foi ver o filme, possa revê-lo e descobrir o que agora não descobri. Para já, e para mim, o rei vai nu mas não sei se logo não irá com um ou mais Óscares na mão.
20.2.08
Nos últimos dias nos noticiários televisivos, e a propósito das cheias na zona de Lisboa, falou-se muito no “jornalismo do cidadão” aliás, viveu-se do jornalismo do cidadão que cada vez mais faz das notícias um reality show. Eu gosto sempre quando novos chavões chegam à praça pública. Sim, porque não se trata de vídeos amadores, nem instantâneos fotográficos, ou mesmo queixas de espectadores. Não, nada disso. A coisa agora tem uma certa solenidade e um nome pomposo típico de uma sociedade que gosta de estar em constante processo de renomeação de algo que sempre foi, como se essa camadinha de verniz politicamente correcto tornasse as coisas algo mais do que aquilo que realmente são.19.2.08
18.2.08

17.2.08
Lust, Caution 2
16.2.08
Lust, Caution
Uma das qualidades do Lust, Caution de Ang Lee é a de ser um filme para adultos, uma coisa que vai sendo rara nas nossas salas de cinema onde quase todos os filmes apelam a um público jovem. O filme é longo, lento, algo formal, apela à paciência do espectador, mas é forte, difícil, sensível e subtil. A faceta épica e exterior do filme que se passa na China durante a ocupação Nipónica (2ª Guerra Mundial) é discreta e cede sempre lugar à interioridade da intriga, à tensão e à ambiguidade entre as personagens. A sexualidade é o pólo central da tensão, e sim, há cenas muito explícitas, o que é uma aposta ousada do realizador, mas elas são bem conseguidas. Numa plateia onde não havia “jovens” entre os espectadores, algumas pessoas abandonaram o filme bem antes do final. Eu fiquei cravada à cadeira. Um bom filme de Ang Lee. Talvez o melhor dos que eu vi.
14.2.08
13.2.08
E eu, e Tu
E eu, e tu,
Perdidos e sós,
Amantes distantes,
Que nunca caiam as pontes entre nós.
Museus em Madrid 2
Desde que me lembro de saber que existe pintura que me lembro que El Greco existe. O pintor que, era assim que eu o conhecia, fazia as pessoas longas e puxadas para cima. Uns anos mais tarde, e numa visita a Toledo, guiada por um amigo espanhol mais velho, conhecedor e coleccionador, num dia cinzento e muito frio, em frente às pinturas de El Greco fiquei surpreendida com a cor e a luz dos seus quadros e de quão fria eram. O meu amigo também me ensinou a olhar para os olhos das personagens pintadas por El Greco, outro dia falarei sobre isso. Fiquei surpreendida com essa frieza porque se Espanha era fria no inverno, era quente, quente demais, no verão e nós associamos a Espanha mais facilmente a noção de calor do que de frio. A surpresa também era grande porque os pintores flamengos (Flandres e Holanda) do mesmo período (tenho, ao longo do tempo, colocado aqui no blogue alguns exemplos e já escrevi o meu elogio – um - à pintura flamenga) apesar de virem de países mais frios, pintavam quadros mais quentes. Mas Espanha é uma noção moderna e abstracta. Se pensarmos Castela já a noção de frio se desenha de uma forma mais natural no nosso imaginário.
12.2.08
Museus em Madrid 1
Na semana passada nos museus de Madrid, sobretudo no Rainha Sofia e no Thyssen pois visitei-os de manhã, vi vários grupos de crianças, algumas bem pequeninas, sentadas e semi circulo em frente a um quadro a ouvir e a conversar com o guia sobre ele. O guia estava também sentado à frente no chão para não perturbar a visão das outras pessoas que literalmente enchiam os museus. Por trás das crianças juntava-se um grupo de adultos visitantes que assistia à explicação e diálogo do guia com as crianças. Olhando para o quadro ele fazia perguntas sobre o que elas viam, sobre o que não viam, guiava-lhes o olhar, ouvia as suas explicações e explicava o porquê do tema, de uma cor, do traje das personagens, de uma perspectiva, de uma composição. As crianças sentadas em frente ao quadro tinham tempo para o apropriar e sobre ele discorrer e imaginar. O entusiasmo delas era o espelho do entusiasmo do guia que fazia o que era suposto fazer – guiar o olhar mais inexperiente – também com entusiasmo e amor à obra. Não fiquei com a sensação de que estavam ali no emprego a ganhar umas coroas, que certa e justamente estavam, fiquei com a sensação que eram amantes de pintura e que sabiam transmitir essa paixão.
Lembrei, e em contraste com o que acabei de escrever, o relato de uma visita recente de turmas de um colégio ao Museu Nacional de Arte Antiga em que um, neste caso uma, entre os guias, com pastilha elástica na boca, cara de frete e impaciente, mal respondia às perguntas dos guiados, prolongou demasiado algumas explicações históricas e não lhes mostrou “o” quadro mais importante do museu, As Tentações de Santo Antão de Bosch, nem conseguiu entusiasmar ninguém com os Biombos de Namban. O resultado foi o esperado: “que chatice!” “detesto museus!” Mas também, porque é que me passou pela cabeça que poderia ser diferente?
11.2.08
10.2.08
O Projectista 2
As fotografias dos projectos assinados por José Sócrates e que ele assumiu como seus, foram como um balde de água fria que se despejou por cima do ambicioso militante do PS, ex-Ministro do Ambiente preocupado com o planeamento, e agora Primeiro-ministro regulador, liso, que faz jogging, que cita nomes sonantes a torto e a direito, faz férias cosmopolitas, evita o colesterol e que calça sapato Prada. E foi um balde de água fria por cima de todos nós que nos preocupamos com estética, preservação do património e vemos nos azulejos exteriores, nas varandas ampliadas, nos acrescentos descaracterizados e nos telheiros fora de contexto modelos de mau gosto, desordem, terceiro-mundismo e símbolos tão presentes e visíveis de um Portugal pouco educado e culto que não evolui e não se desenvolve. Ninguém fica indiferente perante a banalidade e a ausência de qualquer preocupação estética quando olha para os resultados destes pequenos projectos, e a perplexidade é muita, sobretudo porque tão dissonante do seu posterior percurso político traçado a tinta da china com régua e esquadro, para que nada saia do lugar, e os seus antecedentes familiares (o pai de JS é arquitecto) que não deixavam prever a sua assinatura em tais calamidades estéticas.
Hoje e perante o nosso Primeiro-ministro, como é que nos podemos impedir de olhar com olhos de ver e de analisar o seu percurso técnico e académico? Como é que é possível não tirarmos conclusões? Conhecemos os resultados dos seus projectos, lemos o seu exame de Inglês Técnico, sabemos dos seus exames ao Domingo, enfim, confrontamo-nos com improbabilidades, coincidências e erros que escondem, tudo leva a crer, mentiras e provavelmente ilegalidades. O desconforto perante a pessoa de José Sócrates é grande, e para além de uma questão de carácter é também uma questão política. Num percurso onde vale tudo, sem rumo que não a ambição e a concretização, caótico e dissonante, como podemos hoje olhar para o Plano Tecnológico sem rir ou para o Simplex com confiança? Como podemos enquanto eleitores e cidadãos assistir aos saltos de dúvida em dúvida perante os grandes investimentos sem perplexidade ou acreditar na seriedade e bondade das políticas reformistas ou mesmo perceber o rumo que é traçado para o país? Os “casos Sócrates” I (académico) e II (técnico) não são fait divers, não são intromissões sem importância num passado longínquo de duendes maus e de fadas boas. O percurso passado do nosso PM enquanto militante de um partido político onde se fez politicamente interessa, é revelador de um carácter e de um estilo. Eu não gosto.
Véu Islâmico 9
A saga sobre a aplicação sa Sharia continua no Reino Unido. Uma série Q&A aqui à boa maneira anglo-saxónica.
Este tema é interessante para descobrir algumas nuances do Islamismo, nomeadamente o Islamismo “moderado” um produto essencialmente do ocidente e com nenhuma sustentação teórica ou doutrinal, que se faz com base na “boa vontade” de sectores islâmicos que não querem estar em conflito com as sociedades ocidentais onde vivem e que não querem nem negar a modernidade nem abraçar o extremismo. No entanto, e para já, esta moderação é ainda frágil. Parece-me também, interessante reflectir sobre a nossa noção de liberdade de escolha, tida tantas vezes como um bem absoluto e que se baseia numa noção de igualdade que está totalmente ausente do islamismo e da própria Sharia. A mulher, e a rapariga, enquanto seres menores que são tutelados ao longo da vida, pelo pai, irmão, marido, cunhado, não têm essa liberdade de escolha. A liberdade e igualdade não são dados adquiridos em todo o lado e é bom ter sempre essa noção presente.
8.2.08
O Projecista
Nos anos oitenta quando José Sócrates assinou os projectos de engenharia técnica (remodelações, ampliações, melhorias), cuja autoria assumiu plenamente pois eu ouvi-o na televisão a declará-lo com ênfase, de que tanto se tem falado, ele já era tinha iniciado a sua carreira política ascendente no PS. Assumo eu também de boa fé perante as afirmações do PM, que a autoria dos projectos realmente dele e parto do princípio – só para benefício do meu texto – que ele não assinou de cruz projectos de outros. Como também nada sei sobre incompatibilidades, não será também sobre isso que me vou deter. Deter-me-ei no problema e peso que o passado pode ser quando não se sabe assumi-lo com elegante ternura e desprendimento, determe-ei sobre o facto de os padrões do passado tenderem a repetir-se no presente e no futuro e deter-me-ei na dissonância e vácuo que é o percurso do nosso PM revelado pelos aspectos estéticos e de planeamento. E tudo isto somado é impossível não ter um esboço revelador de carácter.
Sobre o passado. Creio que todo o ser humano se fez e faz com opções que nem sempre terão sido as mais ajuizadas e coerentes e de que não nos orgulhamos enquanto actos e isso não é necessariamente um problema, bem pelo contrário, pode ser ponto de partida para reflexão e aprendizagem se o orgulho tonto e a estupidez não cegarem e deixarem evoluir. Não nos orgulharmos está longe de ser sinónimo de ter vergonha. Há uma outra opção mais natural, que é o assumir das incoerências, maus juízos e outros actos menos razoáveis e ser tolerantes até para connosco. Esse desprendimento e naturalidade parecem ser impossíveis ao nosso PM que tenta sempre de forma forçada e pouco natural transformar numa virtude digna de nota e louvor cada passo oblíquo e de duvidosa justeza e legalidade que – com surpreendente regularidade e facilidade lhe descobrem no seu passado. Este constante deitar areia para os nossos olhos com arrogância e altivez, de quem não percebe que está em cima de um monte de despojos e sucata e se pensa mais alto, é uma das piores e mais irritantes características de JS. Mais do que os pecadilho da juventude, as prováveis mentiras e ilegalidades do seu percurso, é a arrogância de uma coreografada maturidade em tom sempre moralista de dedo em riste que é tão difícil de engolir, digerir, tolerar e perdoar. Que não restem dúvidas que sobretudo por isto os seus “pecados” estão longe de serem “perdoados”, mesmo sendo a memória curta; porque e a dúvida e o “feeling” esses, serão persistentes.
(continua)
7.2.08
O Corta-Fitas, um dos blogues mais simpáticos da blogosfera está em festa e está de parabéns pelos dois anos de existência. Parabéns também ao Pedro Correia, um dos fundadores e autor de algumas das melhores séries da blogosfera. A Melhor Década do Cinema é uma delas.
Sobre arquitectura de emigrante e José Sócrates um bom artigo de Helena Matos aqui e uma pequena discussão sobre arquitectura e estética de projectos neste post e comentários Quase em Português. Voltarei a este assunto: José Sócrates, o passado e respectivos esqueletos no armário, projectos de gosto duvidoso, assinaturas falsas, influências, responsabilidades, incompatibilidades e demais promiscuidades.
Véu Islâmico 8
6.2.08
Desaprender
Miró é um caso distinto. Como com tanta coisa na vida também com Miró o meu olhar mudou, e o que era já não é. Assim hoje, em frente dos seus quadros, de todos os formatos, de todos os tamanhos e de todas as cores, o espanto foi muito: aqueles fios (linhas, curvas?) compridos e pretos com bolas nas pontas e outras bolas maiores, com ou sem olhos (?) espalhadas pela tela, às vezes com côres primárias, outras mais acizentadas ou simplesmente a preto e branco, deixaram-me surpreendentemente indiferente. Nem gostei nem deixei de gostar. Aquela linguagem pareceu-me vazia e irrelevante. Um ou outro quadro talvez tivessem provocado um “que giro!” mental, algo que é verdadeiramente insuficiente e banal. O desconforto da desilusão, pois se eu percebo que se “aprenda a gostar” de uma qualquer manifestação de arte, já me é muito mais dificil perceber o contrário, talvez porque menos usual, e perceber que se desaprenda de gostar ao ponto da indiferença. Porque é que o feitiço se perde, porque é que a leitura, o sentir e a adesão se modificam assim afastando-nos?
1.2.08
Excesso de zelo
Ando com vontade de escrever sobre o excesso de zelo que motiva tanta da legislação mais recente e que impera naquilo a que tenho chamado de nova ordem moral que hoje se tenta estabelecer. Não é um fenómeno exclusivo português, mas aqui no nosso país assume uma dimensão um pouco mais patética devido aos brandos costumes em que habitualmente todos nos movemos. Os brandos costumes não sendo motivadores de grandes mudanças sociais de desenvolvimento ou de grandes revoluções e sendo campo fértil para imobilismo e hipocrisia, são também mais brandos. Numa sociedade em que ninguém está de acordo sobre o que é a corrupção e em que os seus limites são desfocados, amplos e variam de pessoa para pessoa, momento para momento, circunstância para circunstância, em que a noção de ética é simplesmente colada à noção da legalidade: se é legal é ético, se não é legal não é ético, (pobres filósofos e pensadores que tanto tempo perderam dissertando sobre ética) e em que noções um pouco mais exigentes e aprofundadas que norteem a vida pública, quer de trabalho quer política são olhados com desconfiança, os excessos de zelo são sempre perigosos. São uma drástica mudança do oito para o oitenta. São redutores, cegos, simplistas, puritanos (um puritanismo new wave) olham com pouca bondade para o ser humano e escondem muita intolerância. (E medo e inveja). Sempre me ensinaram a desconfiar quer de excessos de zelo quer dos zelos dos convertidos.
Segunda ferradela do Público ao calcanhar de Aquiles, perdão, de José Sócrates. Aposto que não fica por aqui e que não há sapato Prada que proteja..
30.1.08
Brain Damage
The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path
The lunatic is in the hall
The lunatics are in my hall
The paper holds their folded faces to the floor
And every day the paper boy brings more
And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forbodings too
Ill see you on the dark side of the moon
The lunatic is in my head
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
You re-arrange me till Im sane
You lock the door
And throw away the key
Theres someone in my head but its not me.
And if the cloud bursts, thunder in your ear
You shout and no one seems to hear
And if the band youre in starts playing different tunes
Ill see you on the dark side of the moon
Eclipse
All that you touch
All that you see
All that you taste
All you feel.
All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.
All that you give
All that you deal
All that you buy,
Beg, borrow or steal.
All you create
All you destroy
All that you do
All that you say.
All that you eat
And everyone you meet
All that you slight
And everyone you fight.
All that is now
All that is gone
All thats to come
And everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon.
Literalmente

29.1.08
O plástico já chegou às remodelações do Governo e agora também já temos remodelações de plástico. Ver também aqui.Será que mudando o Ministro da Saúde mudam a política de saúde, ou só o estilo? Se muda a política, como fica a reforma do SNS já iniciado? Quem contestava o Ministro contestava a política ou o estilo? O sector do PS que provocou a queda do ministro tem soluções diferentes? Quais? Marcelo Rebelo de Sousa vai ficar contente.
Os critérios da remodelação são também, no mínimo, bizarros. Parece ter sido feita só porque sim. Mais um retoque do que uma remodelação. Um exemplo só: Mário Lino a quem se criticava e critica a política e o estilo fica.
28.1.08
Buñuel ou Monty Python?
Vi-me hoje num hospital do SNS bem no centro de Lisboa, moderna e dinâmica capital europeia. O hospital parece tudo menos um hospital, foi feito numa altura em que ainda não havia arquitectos de hospitais em ateliers altamente especializados que estudam circulação, circuitos e optimizações. Este hospital é feio, inadaptado e tudo totalmente non user friendly para qualquer categoria de pessoa que tenha de o frequentar, ou pior ainda de nele trabalhar. Aliás creio que trabalhar lá deveria dar direito a uma bonificação extra. Dito isto lembro que o dito hospital já é hospital há tempo demais.
Nos minutos que antecedem a hora da visita, os visitantes vão esperando com ar de quem está já habituado, nos corredores impossíveis de descrever e onde é difícil perceber o que está mal. Tudo está o que torna a descrição complicada e sem nenhum tipo de efeito de surpresa. Mas não foram estes aspectos que me chamaram a atenção, apesar de cada um deles a merecer pois só a nossa familiaridade com tais condições é que nos torna inertes e nos impede um enorme grito de revolta. O que hoje presenciei de verdadeiramente extraordinário, e se o que aflorei até agora revela um surrealismo digno de Buñuel, este caso é mais próximo de um surrealismo Monty Pytoniano, é o facto de que, por causa de umas obras de nada que parece não terem acontecido, os pacientes tiveram de mudar de quartos na enfermaria. (A enfermaria tem vários quartos cada um deles com várias camas). Tentaram, com uma ou duas excepções, manter os pacientes nas suas camas que são numeradas, mas porque uns foram para uns quartos e outros para outros a lógica numérica daquela enfermaria perdeu-se, bem como a memória visual que liga o paciente ao quarto e ao local. Para complicar tudo, os números da cama nem sempre estão visíveis, e à entrada dos quartos ainda está a indicada a numeração antiga. Assim nos últimos dias as dietas andam trocadas, vão fazer raios-x ou outros exames os pacientes errados, os médicos, que mudam bastante e nem sempre conhecem bem o paciente, porque ainda não o tinham visto, ou porque olham sobretudo para a ficha médica, falam com os pacientes errados, as enfermeiras só depois de irem a um quarto se lembram que é no outro que está o paciente que tem que ser medicado ou ter o soro mudado. Olhei para aquela enfermaria e pensei que dos pacientes aos médicos, lá estar, trabalhar e estar disponível ou lá estar e recuperar de uma doença, é feito digno de heróis. Repito é de Lisboa que falo, não é do interior abandonado.
Ah, não quero esquecer, pois fiz uma nota mental para aqui o escrever: naquela enfermaria numa prateleira pequena por cima da porta da entrada estavam discretos, mas visíveis para todos, nada menos do que 7 imagens religiosas de vários tamanhos e de qualidade estética duvidosa representando, tanto quanto pude perceber, a Nossa Senhora e o Santo António (o padroeiro da cidade). Duas jarras com flores frescas – o que de mais fresco havia no hospital, diga-se, ladeavam as imagens. Não há decreto que mude hábitos e tradições demasiado enraizados.
27.1.08
Via Blasfémias cheguei a este post da 4ª República sobre a recente aprovação dos PPR públicos. Também a mim me apetece dizer, mais Estado não, muito obrigada! Sobretudo tendo em consideração todos os pressupostos lá descritos e questões lá levantadas. Sobra sempre a vontade do governo de que o Estado tenha sempre o máximo de dinheiro possível. Uma questão de equilíbrio das contas, senão como é que chegavam e mantêm um déficit inferir a 3%? Todos os meios são bons para fazer os euros dos cidadãos chegarem às mãos benevolentes do estado. Se não fosse essa a intenção, o governo deixava que se baixasse a prestação do cidadão à segurança social desde que este último provasse que investia em fundos de pensões privados.
E a propósito de fundos de pensões, que é feito daquela ideia antiga de Paulo Teixeira Pinto, ex-administrador do BCP, de a Segurança Social absorver o fundo de pensões do Millenium BCP? Será que esta nova administração (que lá entrou pela mão do estado) vai deixar a ideia morta ou vai querer ressuscitá-la?
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