“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

8.5.08

Caldinho Cultural

Há coisas que preferia não saber, e quando os media omnipresentes de diversas formas e feitios veiculam essa informação, tento distrair-me, desligar, mudar o canal, não olhar, não ver, não saber. Pelo menos tentar que a informação fique a pairar pelo ar e se disperse rapidamente mas que realmente não se faça realidade na minha mente. Tem sido assim nas últimas semanas em relação à história do cidadão austríaco que sequestrou, violou e teve sete filhos da sua filha. Não quis saber, não quis ouvir, não quis ver. Até que hoje fui bombardeada várias vezes durante o dia com a publicidade à revista Visão que tem um dossier especial sobre o assunto. É óbvio que não comprarei a revista nem quero ler nada sobre o assunto de tal forma ele me perturba não só no aspecto humano/afectivo, mas no aspecto mais racional que tenta analisar os porquês, as motivações, os objectivos. Parece que o meu enquadramento mental não foi estruturado de forma a interpretar e digerir este tipo de comportamento pensado, frio, implacável, organizado e levado a cabo sem hesitação, nem retrocesso, sem culpa, nem fraqueza, sem piedade nem compaixão. Vinte e quatro anos neste registo. Repito, vinte e quatro anos de intencionalidade. Não preciso de detalhes, de planos do bunker, de explicações do dito cidadão, de testemunhos de vizinhos para que o horror desta situação me perturbe, e a passividade da vítima me aterrorize. Porquê? Para quê?

Há no mundo situações de horror, enorme injustiça, perversão, desigualdade, violência gratuita, e não é preciso pensar muito para elaborar uma longa lista de horrores dos nossos dias. Mas este caso tem esta intencionalidade, este pensar, esta frieza, esta repetição ao longo dos ditos 24 anos, que estão para além dos próprios actos de violência, violação, perversão. E este facto incomoda demasiado. É como se estivéssemos perante um concentrado de Mal e esse Mal tivesse um rosto, uma forma, um corpo. Mal no tradicional sentido judaico-cristão, como o que é oposto ao Bem, o que se afasta do Bem (Deus). Como se afinal este caldinho cultural que bebemos diariamente e que evita pensar nas noções de Mal e de Bem, tivesse sido contaminado, por um momento.

Dando Excessivamente sobre o Mar 31

Claude Monet.
On the Cliff at Pourville, Clear Weather. (1882)

6.5.08

Pode repetir?

Hoje ao folhear um jornal diário de distribuição gratuita, li do princípio ao fim – coisa rara – um anúncio para um espectáculo de música no S.Luis no dia 8 de Maio com Maria João, Rui Reininho e Pedro Abrunhosa de canções de amor. O texto do anúncio, pomposo até doer, dizia, no meio do texto coisas do género: “três cantores de geografias musicais e afectivas diferentes”. Como? Pode repetir?

Por favor! Se “geografias musicais” já é mau (só lá chegamos se fecharmos os olhos com força) a história de “geografias afectivas” até dá nauseas e só pede mesmo a porta de luz verde que diz EXIT. No final do texto para fazer bonito utiliza-se esta banalidade: “Este é o ponto de partida e chegada”. Porque será que não escrevem coisas normais e despretensiosas quando têm como objectivo darem-nos informação?
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Dias de Verão

Paul Cézanne (1839-1906)
Baigneurs

3.5.08

De vez em quando leio posts que mais parecem lufadas de ar fresco. Hoje este soube-me assim.
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2.5.08

1.5.08

Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 2

Socratismo e PSD

Neste momento é o socratismo que nos governa tendo-se assumido, através do executivo, como uma política reformista de rupturas, de exigência orçamental, de modernidade, e com uma ambiciosa componente tecnológica. Tenho, por vezes, neste blogue manifestado as minhas reservas em relação a algumas destas políticas, ou em relação à forma como elas são conduzidas, e poderia tê-lo feito em relação a mais. Parece que muito pouco foi feito do tanto que há a fazer, muito pouco foi reformado do que há a reformar, mas é inegável que o deficit foi controlado, que muitas “corporações” foram beliscadas e que o movimento criado, pouco e muitíssimo discreto, tem sido no sentido da modernização e competitividade e um sinal disso é o facto do Socratismo não agradar à esquerda clássica, PCP e BE. Mas para muitos outros o pior do Socratismo é José Sócrates himself, o homem político, o seu vazio, a sua opacidade, o seu estilo, as suas prioridades, os seus anúncios constantes disto e daquilo sem consistência, sem reflexão, a sua imagem cuidadosamente preparada pelos conselheiros de comunicação política, o seus discurso, o seu percurso, o seu curso, os seus projectos de engenharia e os seus sapatos Prada, o seu tom de voz moldado e trabalhado para aparentar espontaneidade, as suas frases slogan, os joggings de cada vez que vai em visita oficial ao estrangeiro, os “porreiro pá!”, as distribuições de computador. Um dos elos mais fracos do Socratismo é a credibilidade de José Sócrates.

Outros “ismos” que quiserem ocupar maior espaço político terão que, com toda a honestidade, dizer o que fariam realmente neste país que é o Portugal de hoje, dependente de cada pequena oscilação do preço do petróleo, da “conjuntura” internacional, com quatro ou cinco grandes grupos económicos que vivem em promiscuidade com o Estado, onde a excelência não é premiada e a criatividade altamente asfixiada com impostos, onde a classe média se torce ao fim do mês e onde todos reclamam os seus especiais e excepcionais direitos adquiridos, onde nenhum estudante até ao secundário pode chumbar por muito que isso custe à turma, aos professores e aos contribuintes, onde se ensinam competências e não matéria, onde uma exposição mal amanhada do Hermitage no Palácio da Ajuda é elevada ao nirvana cultural, onde se constrói demais e onde se planeia de menos. Poderia continuar mas não vale a pena. A questão é, sem demagogias e discursos ocos e inflamados de mudança e reforma (há quem já não possa ouvir falar em liberalismo, eu já tenho dificuldade em ouvir falar de reforma, de tal forma se banalizou ultimamente o termo ao ponto de qualquer medida avulso se fazer passar por uma reforma) saber exactamente o que é que outro “ismo” faria de diferente. Que capacidade de manobra teria neste Portugal de hoje, outro “ismo” para grandes medidas e rupturas sem desgastes sociais e sem o povo em protestos na rua. Eu sei que a credibilidade não entusiasma ninguém, não move, não é excitante, mas há um deficit dela no Socratismo, e os discursos irrealistas, bem intencionados cheios de teoria disto e daquilo também já não são novidade.

Mark Rothko
Red, Orange, Tan, and Purple, 1949

Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 1

Ismos e Istas

Confesso-me perdida entre os últimos “ismos” e “istas” que povoam a minha (pouca) vida política. Lembro uma fase do pós 25 de Abril em que miúda tentava perceber diferenças entre comunismo, socialismo, leninismo, marxismo, trotskismo, maoismo. Hoje sei de onde vem cada palavra, conheço o contexto histórico que as fez o contexto ideológico que as tornou conhecidas, mas já não sei bem o que representam nos dias de hoje, a não ser o século XX. Hoje, à nossa medida, que somos um país pequeno e periférico (sim, com um clima óptimo e sardinhas de fazer inveja, mas mesmo e apesar do clima e das sardinhas, assim dependente e de recursos limitados) vejo o país político enredado em “ismos” e “istas” a perderem-se no horizonte. Ele é Santanistas, ele é Menezistas, ele é Barrosistas, ele é Cavaquistas, ele é até Socratistas ou Alegristas. Numa lógica a um nível de quarta classe o “ismo” dá o “ista”, por exemplo, o comunismo deu os comunistas, o maoismo deu os maoistas. Ora neste Portugal do séc. XXI ainda estou para perceber o que é o “ismo” que dá um “ista”, isto é o que é o Santanismo que dá Santanistas, o Cavaquismo que dá Cavaquistas... Parece que esta teia de “ismos” e “istas”se vai tecendo à volta de alguém, de um líder (ou potencial líder), de uma circunstância política de um momento na história, de tensões pessoais mais do que de um pensamento estruturado ou de uma corrente ideológica. Parece que estamos no grau zero do pensamento ideológico, mas talvez seja este um novo desafio deste século, pelo menos para países democráticos, mas periféricos, pequenos e dependentes como o nosso: fazer política sem ideologia. Viabilizar o país tornando-o mais moderno e competitivo, menos irrelevante, pobre e periférico parece ser o grande desígnio de qualquer político que queira governar Portugal, um país de grandes vícios públicos, com um Estado demasiado pesado e omnipresente, de inércias várias, de movimentos lentos e pesados. Um país de fados.

29.4.08

Mark Rothko (1903–1970)
Untitled, 1954

Crise Alimentar

Há qualquer coisa de realmente perverso na ideia de uma crise alimentar, na possibilidade que se desenha de escassez de alimentos face às constantes subidas de preços dos cereais nos mercados de mercadorias, e das subidas de preço previsíveis para os supermercados. Há décadas que se diz que há comida para todos no mundo, nós (o mundo ocidental, claro) é que não queremos ou sabemos distribui-la. Que o que se produz é mais do que suficiente para alimentar a população mundial. Falou-se de um excesso de produção de leite e houve um tempo de montanhas de manteiga que a então CEE impedia de circular, bem como subsídios para que agricultores deixassem de produzir. Não percebo nada. Toda uma vida a fazerem-me acreditar, e a tentarem dar-me má consciência, que o problema da alimentação era um problema de distribuição e má vontade das nações “ricas” bem como dos efeitos dos malévolos agentes económicos. Afinal parece que andei a ser enganada, a questão da escassez coloca-se afinal.

28.4.08

Plataforma contra a Obesidade 38


Jan Davidz de Heem (1606-83)
Still Life with Glass and Oysters

24.4.08















Hoje há festa em Belém.

Velas 12

Tejo ao fim da tarde. Diria que é a "Sagres". Lindo.
Vale a pena aumentar, vê-se a vida a bordo.
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23.4.08

Já está. Discretamente, suavemente, ninguém parece muito incomodado, ninguém parece muito interessado, ninguém parece muito informado. Até agora não doeu, veremos mais tarde os efeitos secundários.


Autópsia de um Crime (Sleuth)


Quatro homens levaram-me ao cinema, a saber: Jude Law, Michael Caine, Harold Pinter e Kenneth Branagh, por esta ordem. Vi o que esperava ver, confesso que não esperava muito mais. Um Jude Law que dantes era quase só um homem bonito demais, com uma voz bonita demais e um sotaque composto demais e que a pouco e pouco se vai libertando dessa imagem e se vai fazendo um belo homem, um bom actor com a bela voz de sempre. Michael Caine é Sir Michael Caine e sobre ele e as suas composições não há muito para dizer: representa como quem anda ou come e bebe, prende-nos ao ecrã e mantem uma voz belíssima e o sotaque que sempre o caracterizou. O filme não funciona como filme: uma realização complicada e exagerada (ai Kenneth Branagh!) cujo propósito não entendi – cinema ou teatro filmado? Resultou um objecto híbrido sem grande nexo, às vezes um pouco pastoso num cenário demasiado pomposo, e onde a ausência de uma trama e de um fio condutor o ajudam a tornar algo estéril e desajustado. Mas, mesmo assim fiquei presa. Os actores exibiram um certo virtuosismo defrontando-se com algum afinco na representação, com um diálogo, às vezes inteligente, como arma. Foi só. É só como o prazer de quem ouve um pianista a exibir-se tocando escalas, estudos de Czerny, excertos complicados de Schumman ou Lizt para aquecer os dedos e se preparar para o concerto logo à noite. Do concerto propriamente dito, não se viu nada.

22.4.08

Bento XVI nos EUA, 2

Dos Direitos Humanos

A apologia dos valores culturais do mundo ocidental nunca deixam de estar presentes nas diferentes intervenções do Papa o que também aconteceu nesta sua viagem aos EUA. Na ONU ele abordou a questão dos direitos humanos da sua importância para a paz e ousou apelar a uma universalidade no reconhecimento dos mesmos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) adoptada pelas Nações Unidas após os tantos abusos decorrentes da Segunda Guerra Mundial, nunca teve um carácter vinculativo e tem tido ao longo dos tempos os seus opositores mais ou menos silenciosos e continua ainda hoje a ser um tema que condiciona tantas vezes a agenda diplomática e política internacionais e, mais importante, condiciona a vida de milhões e milhões de seres humanos que são vítimas de abusos. Apelar à universalidade dos direitos, é insistir na profissão de fé na cultura humanista predominante no mundo cultural judaico-cristão e desafiar e impelir de forma clara a organização que os reconheceu e declarou a uma maior exigência dos seus membros no respeito pelos direitos humanos.

Também no encontro com os jovens e lembrando a sua juventude durante o regime nazi, Bento XVI falou da necessidade de prezar a liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos que os jovens hoje, em contraste com a sua juventude, gozam nos EUA e nas democracias ocidentais. E mais uma vez, o Papa foi mais longe alertando contra os perigos do multiculturalismo e do relativismo moral. Se a referência ao relativismo moral é um tópico caro a Bento XVI, já a referência aos perigos do multiculturalismo é ousada porque mais incómoda dado que nos meios mais tolerantes se tende a uma posição algo passiva, que prefere tantas vezes fechar os olhos para não ter que se confrontar com problemas como o desrespeito pela democracia, liberdade de expressão, igualdade entre sexos e o abuso da violência. Alertando para os perigos do multiculturalismo Bento XVI questiona a “bondade” de todas as tradições e culturas que se confrontam (não necessariamente no sentido bélico) hoje e tão de perto com a nossa.

21.4.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 30

Hippolyte FLANDRIN
Jeune homme nu assis au bord de la mer (1836)
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Bento XVI nos EUA

Mais uma viagem de Bento XVI e mais um sucesso segundo o que se pode ler na imprensa deste e do outro lado do Atlântico. Com um estilo bem diferente do do seu antecessor, Bento XVI acaba sempre por surpreender no calor do contacto, nas palavras e gestos que usa. Os seus discursos que já não surpreendem, são sempre exigentes e obrigam a alguma reflexão. Mais do que um comentário à visita do Papa, à escolha da sua agenda e aos seus momentos marcantes, bem como à importância política da mesma, eu gostaria de retomar alguns tópicos por ele lançados durante estes dias e lidos na comunicação social quer nacional quer internacional.

Um bom comentário/síntese à visita Papal pode ser lido aqui. Outro interessante comentário sobre uma questão marginal (aparentemente) à visita e pontual aqui.
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20.4.08


Estes últimos dias têm-se revelado dias de folga crítica para José Sócrates. Começou com a divisão dentro do PSD a propósito das palavras de Rui Gomes da Silva, passou pela demissão de Luis Filipe Meneses, e pelas indecisões das futuras candidaturas dentro do principal partido da oposição. O Presidente Cavaco Silva esteve na Madeira uma semana desviando também as atenções para lá. O mau tempo em todo o país distraiu-nos, e o Benfica perdeu mais uma vez para grande dor de tantos portugueses. E de repente passa uma semana em que nem se ouve falar de José Sócrates, e mal se ouvem umas coisas aqui e outras acolá da política governativa, do TGV, da Saúde e dos Serviços de Urgências, da Educação e do acordo com os Sindicatos dos Professores, da grande Manifestação da CGTP junto à Assembleia da República, da crise e dos números. Volta a ser tempo de olhar de novo para o país real.

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(...) o partido fez como as famílias fidalgas: desbaratou o capital. Não tem nada. A não ser saudades, sede e fome. De poder.

Isto e um retrato implacável quer de Luis Filipe Meneses quer dos democratas que têm governado Portugal, no artigo de António Barreto no Público.


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