“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

14.5.08

É pior a emenda do que o soneto. Se já é mau José Sócrates ter violado a lei, fumando num avião é ainda pior dizer que “se violei alguma lei, peço desculpa”. Esta pose de Maria Madalena arrependida e penitente fica-lhe ainda pior do que a do fariseu, grande mentor de limpas e higiénicas leis. Sem esquecer que JS é um amante de grandes viagens e que conhece bem as normas de fumo a bordo de aviões. Com o nosso primeiro-ministro nada bate certo, tudo é turvo, até as coisas mais banais. Ainda o vamos ver empertigado e pomposo a pagar a multa vestindo o fato de cidadão normal que cumpre. Vai uma aposta? Os contornos de grande caso mediático e grande problema nacional deste “fait-divers” que tem honra de notícia de abertura em telejornais e comentários de vários quadrantes da sociedade, presidentes de diversas instituições, bem como do constitucionalista Jorge Miranda, deixa-me boquiaberta.

13.5.08

Lugar Comum 2

Os jacarandás que começam a encher Lisboa, este ano um pouco mais cedo. Hoje foi a Avenida das Descobertas ao som de Albinoni na Antena 2 com o concerto para oboé e cordas pelo maestro Trevor Pinnock. O concerto pode ser ouvido/visto aqui. (A única interpretação que encontrei no youtube). Os jacarandás podem ser vistos por toda Lisboa, ruas e avenidas inteiras vestidas de roxo. Um deslumbre. Há excursões à Holanda para ver os campos de tulipas, mas nunca percebi porque não há excursões a Lisboa para ver os jacarandás. Não ficam a dever nada às já de si magníficas tulipas.

Tal como FJV no Origem das Espécies, eu também sou contra a "escola desejável", citada por JCD no Blasfémias.
(Também sou contra os textos pirosos)
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12.5.08

Votar ou não votar no PSD, eis a questão.

Manuela Ferreira Leite fez mal em explicar-se. Um dos pilares da democracia assenta no voto secreto, e um dos pilares da liberdade individual é, no nosso silêncio e solidão, podermos votar sem ter que dizer, explicar ou justificar em quem ou porquê, e esta premissa é válida para todo e qualquer cidadão incluindo os militantes partidários, os líderes dos partidos que foram, são ou hão-de ser.

Honestamente não percebo porque é que o “obviamente não respondo de MFL” causou tanta indignação, nem tão pouco percebo porque é que ela tem sido tão criticada, por tantos sectores, todos eles amantes de valores como a liberdade, liberalismo, individualismo e outras palavras da mesma área semântica. Em nome de quê, é que ela, ou outro qualquer cidadão tem que revelar o seu voto. Será que não se reconhece a MFL o direito de votar como quer, como a sua consciencia dita, como a sua razão recomenda, como o seu ímpeto condiciona? Não terá ela, ou outro qualquer cidadão o direito de, pertencendo a um partido, votar noutro porque isto, porque aquilo ou simplesmente porque sim? Não é isso uma face da liberdade individual que todos os dias reclamamos a propósito de tudo e de nada? Porque é que tem ela, mesmo pertencendo a um partido político, repito, que revelar ou explicar o que deveria ser uma opção individual e secreta? Ou será que a liberdade tem condições pesos e medidas diferentes conforme os casos?

We Own The Night

We Own the Night ou Nós Controlamos a Noite, uma realização contida e exigente de James Gray. Formalmente muito sóbrio e com uma narrativa coerente e fluida. Provavelmente é um dos filmes menos românticos que já vi. Tão realista, tão normal que o que gostamos é dessa previsibilidade e só somos surpreendidos, pelo facto de nada nos surpreender: é mesmo assim. A lealdade, a família, o amor. Sem rodriguinhos nem concessões estilísticas quer do argumento quer da forma a favor de mais cor e textura dramática. Linear, simples e muito bom. Joaquin Phoenix é um belíssimo actor, bem como Mark Wahlberg e Robert Duvall. Eva Mendes passeia-se por lá, mas não convence.

11.5.08

Nunca deveria sequer pensar em escrever sobre Futebol 2

... e por isso andei todos estes dias a combater o impulso de escrever sobre o caso Apito Dourado, mas hoje não resisto. António Barreto na sua crónica do Público diz o que eu gostaria de dizer sobre o caso e o que tantos de nós pensam. Fala do Porto e do Norte, mas sobretudo fala desta fatalidade que é o gosto amargo da Justiça em Portugal. As suspeitas de que há justiça para uns e Justiça para outros.

Há uns anos dizia Maria José Morgado, do alto da sua cátedra acima da suspeição, dos terríveis problemas de corrupção no futebol, das mafias, dos sub mundos, da podridão. Perante o desfecho do caso Apito Dourado e perante o que ficou provado, pergunto-me o que falhou? Penas destas que mais parecem feitas “para inglês ver”, para calar o povo (uma parte do povo) sedento de justiça, para justificar o tempo e os meios gastos, não convencem. Como o caso Casa Pia, como o caso Maddie ou o caso Joana, a Justiça parece sempre morrer no caminho.
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10.5.08

Plataforma contra a Obesidade 39

Paul Gauguin. (1848-1903).
Still Life with Three Puppies
Um momento raro: o artigo de José Pacheco Pereira no Público de hoje. A ler da primeira à última palavra.

8.5.08

Caldinho Cultural

Há coisas que preferia não saber, e quando os media omnipresentes de diversas formas e feitios veiculam essa informação, tento distrair-me, desligar, mudar o canal, não olhar, não ver, não saber. Pelo menos tentar que a informação fique a pairar pelo ar e se disperse rapidamente mas que realmente não se faça realidade na minha mente. Tem sido assim nas últimas semanas em relação à história do cidadão austríaco que sequestrou, violou e teve sete filhos da sua filha. Não quis saber, não quis ouvir, não quis ver. Até que hoje fui bombardeada várias vezes durante o dia com a publicidade à revista Visão que tem um dossier especial sobre o assunto. É óbvio que não comprarei a revista nem quero ler nada sobre o assunto de tal forma ele me perturba não só no aspecto humano/afectivo, mas no aspecto mais racional que tenta analisar os porquês, as motivações, os objectivos. Parece que o meu enquadramento mental não foi estruturado de forma a interpretar e digerir este tipo de comportamento pensado, frio, implacável, organizado e levado a cabo sem hesitação, nem retrocesso, sem culpa, nem fraqueza, sem piedade nem compaixão. Vinte e quatro anos neste registo. Repito, vinte e quatro anos de intencionalidade. Não preciso de detalhes, de planos do bunker, de explicações do dito cidadão, de testemunhos de vizinhos para que o horror desta situação me perturbe, e a passividade da vítima me aterrorize. Porquê? Para quê?

Há no mundo situações de horror, enorme injustiça, perversão, desigualdade, violência gratuita, e não é preciso pensar muito para elaborar uma longa lista de horrores dos nossos dias. Mas este caso tem esta intencionalidade, este pensar, esta frieza, esta repetição ao longo dos ditos 24 anos, que estão para além dos próprios actos de violência, violação, perversão. E este facto incomoda demasiado. É como se estivéssemos perante um concentrado de Mal e esse Mal tivesse um rosto, uma forma, um corpo. Mal no tradicional sentido judaico-cristão, como o que é oposto ao Bem, o que se afasta do Bem (Deus). Como se afinal este caldinho cultural que bebemos diariamente e que evita pensar nas noções de Mal e de Bem, tivesse sido contaminado, por um momento.

Dando Excessivamente sobre o Mar 31

Claude Monet.
On the Cliff at Pourville, Clear Weather. (1882)

6.5.08

Pode repetir?

Hoje ao folhear um jornal diário de distribuição gratuita, li do princípio ao fim – coisa rara – um anúncio para um espectáculo de música no S.Luis no dia 8 de Maio com Maria João, Rui Reininho e Pedro Abrunhosa de canções de amor. O texto do anúncio, pomposo até doer, dizia, no meio do texto coisas do género: “três cantores de geografias musicais e afectivas diferentes”. Como? Pode repetir?

Por favor! Se “geografias musicais” já é mau (só lá chegamos se fecharmos os olhos com força) a história de “geografias afectivas” até dá nauseas e só pede mesmo a porta de luz verde que diz EXIT. No final do texto para fazer bonito utiliza-se esta banalidade: “Este é o ponto de partida e chegada”. Porque será que não escrevem coisas normais e despretensiosas quando têm como objectivo darem-nos informação?
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Dias de Verão

Paul Cézanne (1839-1906)
Baigneurs

3.5.08

De vez em quando leio posts que mais parecem lufadas de ar fresco. Hoje este soube-me assim.
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2.5.08

1.5.08

Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 2

Socratismo e PSD

Neste momento é o socratismo que nos governa tendo-se assumido, através do executivo, como uma política reformista de rupturas, de exigência orçamental, de modernidade, e com uma ambiciosa componente tecnológica. Tenho, por vezes, neste blogue manifestado as minhas reservas em relação a algumas destas políticas, ou em relação à forma como elas são conduzidas, e poderia tê-lo feito em relação a mais. Parece que muito pouco foi feito do tanto que há a fazer, muito pouco foi reformado do que há a reformar, mas é inegável que o deficit foi controlado, que muitas “corporações” foram beliscadas e que o movimento criado, pouco e muitíssimo discreto, tem sido no sentido da modernização e competitividade e um sinal disso é o facto do Socratismo não agradar à esquerda clássica, PCP e BE. Mas para muitos outros o pior do Socratismo é José Sócrates himself, o homem político, o seu vazio, a sua opacidade, o seu estilo, as suas prioridades, os seus anúncios constantes disto e daquilo sem consistência, sem reflexão, a sua imagem cuidadosamente preparada pelos conselheiros de comunicação política, o seus discurso, o seu percurso, o seu curso, os seus projectos de engenharia e os seus sapatos Prada, o seu tom de voz moldado e trabalhado para aparentar espontaneidade, as suas frases slogan, os joggings de cada vez que vai em visita oficial ao estrangeiro, os “porreiro pá!”, as distribuições de computador. Um dos elos mais fracos do Socratismo é a credibilidade de José Sócrates.

Outros “ismos” que quiserem ocupar maior espaço político terão que, com toda a honestidade, dizer o que fariam realmente neste país que é o Portugal de hoje, dependente de cada pequena oscilação do preço do petróleo, da “conjuntura” internacional, com quatro ou cinco grandes grupos económicos que vivem em promiscuidade com o Estado, onde a excelência não é premiada e a criatividade altamente asfixiada com impostos, onde a classe média se torce ao fim do mês e onde todos reclamam os seus especiais e excepcionais direitos adquiridos, onde nenhum estudante até ao secundário pode chumbar por muito que isso custe à turma, aos professores e aos contribuintes, onde se ensinam competências e não matéria, onde uma exposição mal amanhada do Hermitage no Palácio da Ajuda é elevada ao nirvana cultural, onde se constrói demais e onde se planeia de menos. Poderia continuar mas não vale a pena. A questão é, sem demagogias e discursos ocos e inflamados de mudança e reforma (há quem já não possa ouvir falar em liberalismo, eu já tenho dificuldade em ouvir falar de reforma, de tal forma se banalizou ultimamente o termo ao ponto de qualquer medida avulso se fazer passar por uma reforma) saber exactamente o que é que outro “ismo” faria de diferente. Que capacidade de manobra teria neste Portugal de hoje, outro “ismo” para grandes medidas e rupturas sem desgastes sociais e sem o povo em protestos na rua. Eu sei que a credibilidade não entusiasma ninguém, não move, não é excitante, mas há um deficit dela no Socratismo, e os discursos irrealistas, bem intencionados cheios de teoria disto e daquilo também já não são novidade.

Mark Rothko
Red, Orange, Tan, and Purple, 1949

Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 1

Ismos e Istas

Confesso-me perdida entre os últimos “ismos” e “istas” que povoam a minha (pouca) vida política. Lembro uma fase do pós 25 de Abril em que miúda tentava perceber diferenças entre comunismo, socialismo, leninismo, marxismo, trotskismo, maoismo. Hoje sei de onde vem cada palavra, conheço o contexto histórico que as fez o contexto ideológico que as tornou conhecidas, mas já não sei bem o que representam nos dias de hoje, a não ser o século XX. Hoje, à nossa medida, que somos um país pequeno e periférico (sim, com um clima óptimo e sardinhas de fazer inveja, mas mesmo e apesar do clima e das sardinhas, assim dependente e de recursos limitados) vejo o país político enredado em “ismos” e “istas” a perderem-se no horizonte. Ele é Santanistas, ele é Menezistas, ele é Barrosistas, ele é Cavaquistas, ele é até Socratistas ou Alegristas. Numa lógica a um nível de quarta classe o “ismo” dá o “ista”, por exemplo, o comunismo deu os comunistas, o maoismo deu os maoistas. Ora neste Portugal do séc. XXI ainda estou para perceber o que é o “ismo” que dá um “ista”, isto é o que é o Santanismo que dá Santanistas, o Cavaquismo que dá Cavaquistas... Parece que esta teia de “ismos” e “istas”se vai tecendo à volta de alguém, de um líder (ou potencial líder), de uma circunstância política de um momento na história, de tensões pessoais mais do que de um pensamento estruturado ou de uma corrente ideológica. Parece que estamos no grau zero do pensamento ideológico, mas talvez seja este um novo desafio deste século, pelo menos para países democráticos, mas periféricos, pequenos e dependentes como o nosso: fazer política sem ideologia. Viabilizar o país tornando-o mais moderno e competitivo, menos irrelevante, pobre e periférico parece ser o grande desígnio de qualquer político que queira governar Portugal, um país de grandes vícios públicos, com um Estado demasiado pesado e omnipresente, de inércias várias, de movimentos lentos e pesados. Um país de fados.

29.4.08

Mark Rothko (1903–1970)
Untitled, 1954

Crise Alimentar

Há qualquer coisa de realmente perverso na ideia de uma crise alimentar, na possibilidade que se desenha de escassez de alimentos face às constantes subidas de preços dos cereais nos mercados de mercadorias, e das subidas de preço previsíveis para os supermercados. Há décadas que se diz que há comida para todos no mundo, nós (o mundo ocidental, claro) é que não queremos ou sabemos distribui-la. Que o que se produz é mais do que suficiente para alimentar a população mundial. Falou-se de um excesso de produção de leite e houve um tempo de montanhas de manteiga que a então CEE impedia de circular, bem como subsídios para que agricultores deixassem de produzir. Não percebo nada. Toda uma vida a fazerem-me acreditar, e a tentarem dar-me má consciência, que o problema da alimentação era um problema de distribuição e má vontade das nações “ricas” bem como dos efeitos dos malévolos agentes económicos. Afinal parece que andei a ser enganada, a questão da escassez coloca-se afinal.

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