“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

9.6.08

São Rosas, Senhor...

Andy Warhol (1928–1987)
Flowers, 1964

8.6.08

Repensar o Mundo

O buzinão saiu à rua. A manifestação da CGTP encheu a Avenida da Liberdade. Começa a ser por demais evidente e inegável que se adensam os sinais exteriores de insatisfação dos portugueses, que ele é transversal, que o bolso dos eleitores está cada vez mais vazio, e que os serviços do estado ao serviço dos cidadãos, para os quais pagamos impostos, continuam preguiçosos, escandalosamente lentos como a justiça ou as listas de espera na saúde, e a não ser nem melhores nem mais eficientes. Somando a este descontentamento temos um primeiro-ministro que paira por cima desta névoa em que está mergulhado o Portugal real, com arrogância e autismo, subestimando o que já parece impossível de subestimar, refugiando-se em cimeiras ou TGVs.

Se o descontentamento é real, há que ser frio em relação às causas dele. O aumento do preço dos combustíveis é uma realidade difícil de atribuir exclusivamente ao governo ou ao regime, apesar de em Portugal todas as petrolíferas beberem da mesma bica (refinarias), de se preocuparem mais com o retorno dos accionistas do que com a satisfação dos clientes, e do ridículo da conclusão da Autoridade para a Concorrência (outra inutilidade) que afirma não haver indícios de concertação de preços por parte das distribuidoras de gasolina. A subida do preço do petróleo nos mercados internacionais não se repercute unicamente em Portugal. Os mercados não mentem e não há “especulação” que sustentem mentiras ou “bolhas” por muito tempo. Os dias estão difíceis e o mundo (a Europa à cabeça) tem que se habituar a um novo ordenamento e reajuste de riqueza e de poder, nomeadamente com as novas potências asiáticas a entrarem no mercado do consumo, a quererem comer mais e diferente, a quererem ter mais carros, frigoríficos, telemóveis. Dá vontade de dizer: habituem-se! E mais do que isso, a o mundo ocidental tem que perceber que dificilmente o preço do petróleo voltará a ser o que foi, e as políticas energéticas, bem como as agrícolas terão que ser revistas e reajustadas a pensar no mundo tal como ele é e vai ser, e não no mundo que já foi e cuja nostalgia cega quer os cidadãos quer os políticos que facilmente se deixam tentar por medidas populistas, mas desastrosas a longo prazo. Resta saber se hoje temos líderes capazes para tal tarefa, mas que pelo menos com o nosso voto possamos contribuir para isso.

Plataforma contra a Obesidade 40

Henri Matisse (1869-1954).
Interior with a Young Girl

5.6.08

O Lado Negro (*)

Eduardo Pitta assina hoje no Corta-Fitas um texto interessante O Lado Negro da Bloga (*) sobre os lados negros da blogosfera - EP usa o termo “bloga” cuja sonoridade me parece (ainda?) estranha. A sua tese é a de que a blogosfera reflecte, na intolerância perante a opinião do outro, o crónico défice de democracia na sociedade portuguesa, pois onde quer que haja discordância o azedume toma conta da discussão. Concordo com o que escreveu Eduardo Pitta e iria um pouco mais longe. Sendo a blogosfera um território que espelha razoavelmente a sociedade, ou pelo menos uma parte dela aqui em Portugal, podemos notar algumas tendências que não são mais do que o aquilo com que nos deparamos no quotidiano e que propiciam esse azedume, essa facilidade de estremar posições e de dificilmente sair do preconceito.

A primeira tendência é a dificuldade em lidar ou mesmo aceitar a diferença e/ou o desconhecido: a opiniões diferentes reage-se com desconfiança e “à defesa” em vez de reagir com abertura analítica e crítica; ponto final. Cada um tem uma forma única e sua de olhar o mundo e olhar uma determinada questão, mesmo que as opiniões sejam convergentes raramente o olhar é semelhante; o contrário também pode acontecer embora mais raramente.

A segunda tem a ver com uma forma de olhar para o outro e de nunca conseguir separar a pessoa da sua opinião, e por isso raramente assisto a discussões na blogosfera que não acabem mais cedo ou mais tarde por se pessoalizarem atacando e por vezes insultando o outro em vez de se argumentar contra a ideia, opinião e por isso o ataque pessoal substitui a argumentação. O pressuposto, dito de forma simples para crianças de cinco anos, é o seguinte: se atacam a minha ideia o meu texto, se questionam a minha tese, se discordam de mim já não são meus amigos, já não sou amigo deles, já não não podemos brincar juntos. Já vimos blogues desfazerem-se, membros abandonarem os blogues, ou blogues virarem costas, por cairem nesse erro. O contrário também é válido e tentação constante: assumir como “amigo” alguém com quem se partilha uma opinião, uma causa, uma luta pontual. Sempre me desconcertou a facilidade com que, enquanto leitora de blogues, vi fazerem-se e desfazerem-se “amizades”, lealdades e afinidades na blogosfera. Em Portugal (por oposição a países anglo-saxónicos, por exemplo) é muito comum “levar a mal" uma crítica, sentir-se ofendido sem querer sequer perceber a argumentação do outro e sem saber também separar a pessoa da sua opinião, ou por exemplo, da sua performance profissional num momento de avaliação.

A terceira tendência é também comum mas muito redutora, e EP no seu texto refere-a quando fala no estremar de posições e simetria de argumento. Esta simetria é o caminho fácil para a definição estanque de territórios e para rapidamente catalogar e conseguir “reconhecer” o outro e o campo a que pertence. Estando o outro catalogado e preso a um território é muito mais cómodo prever os seus argumentos, as tomadas de posição para – na dita simetria - as rebater. Como se pode ver este é um meio propício ao preconceito. Definiria a quarta tendência como aquela que em Portugal, com ou sem 48 anos de ditadura, fez com que o português não ame, não sinta, não preze, não viva e não defenda com unhas e dentes a liberdade, o ser único, e o ser tantas vezes só. Todos temos que estar presos e dependentes de todos, ser amigos ou inimigos (outra forma de ser amigo) de todos, posicionarmo-nos em relação a algo, para em troca podermos esperar reconhecimento, gratidão, troca de favores, etc. Na blogosfera não é diferente, e traduz-se em ser ou não linkado, destacado, referido, e tudo o mais.

Termino numa nota mais técnica: a facilidade com que se faz um “enter” e se coloca um texto num blogue, às vezes impede que se respire fundo e conte até três - um velho remédio, mas de eficácia comprovada. Em casos mais complicados a recomendação seria uma noite de sono. Mas a tecla do enter está ali tão perto, e eu até tinha tanta vontade, e no fundo a blogosfera é isso mesmo: o tempo real, o agora com o que tem de lado claro e de lado negro.

3.6.08

Grand Princess

Hoje no Tejo
(clicar para aumentar)

2.6.08

Pousar o Olhar

Em tempos de Rock in Rio e de Selecção Nacional foi refrescante limpar a mente e pousar o olhar no CCB no espectáculo de Ballet/Dança BAHOK / AKRAM KHAN COMPANY AND NATIONAL BALLET OF CHINA. Uma excelente coreografia e óptimos bailarinos (com sólida formação clássica quase todos), bem como uma música forte, fizeram um espectáculo de grande qualidade, intenso, rápido e tecnicamente exigente, apesar de alguns momentos intencionalmente simbólicos mas coreograficamente mortos.

Yves Saint Laurent

Yves Saint Laurent (1936-2008)
Mondrian Dress


Como é que se consegue dizer e escrever alguma coisa mais sobre a Selecção Nacional antes desta entrar em campo? Ontem pasmei ao ouvir na SICN Rui Santos a verbalizar o mesmo espanto. Devemos estar a chegar a um ponto de saturação.

Como é que se consegue ainda dizer e escrever sobre Amy Whinehouse?

1.6.08

Dias de Verão 3

Renoir
Seated Bather


Há momentos em que tenho nostalgia de monarquia, esta semana isso aconteceu quando vi o Rei da Noruega no Continente do Colombo. O Centro Comercial Colombo que é por excelência o templo e símbolo de consumismo que as elites (intelectuais, sociais, etc) adoram detestar – como se os restantes Centros Comerciais fossem mais bonitos, inteligentes e não padecessem dos mesmos males. O Rei, alheio a essas fúteis considerações estético-teóricas, foi lá. Lá onde os interesses económicos noruegueses se jogam a cada dia e a cada hora, lá onde os portugueses contribuem para o enriquecimento do povo norueguês, e um rei sabe que não está a cumprir um mandato, sabe que não está sujeito a calendários eleitorais que podem comprometer o serviço ao seu país, sabe desde o dia em que nasce que está lá porque tem que servir o povo norueguês, tem que ser o símbolo de união e de identidade de uma nação . E vai ao Colombo com a mesma naturalidade com que os portugueses lá vão. E nisso é tão diferente dum presidente de república.

Nós por cá também temos uma espécie de rei, o Mister Scolari, que tem surgido (desde 2004) no seu esplendor de dois em dois anos apelando aos valores, ao orgulho e à identidade nacional como nenhum presidente da república o conseguiu fazer. Pôs Portugal a comprar bandeiras nacionais para as exibir nas janelas e a cantar o hino sentido e do fundo do coração. Cada povo tem o rei que merece.



Manuela Ferreira Leite assumiu na entrevista à Sábado desta semana que se o boletim de voto das últimas eleições legislativas tivesse o nome de Santana Lopes escrito em vez de PSD, ela não teria votado nele. Esta declaração é ousada e gosto dessa frontalidade, desse carácter que não perde a noção de livre arbítrio mesmo pertencente a um partido. Os partidos ganhariam mais com pessoas livres assim. A pertença não é sinónimo de unanimidade e o valor de uma decisão que é feita solitária e secretamente só se assume plenamente se feita em total liberdade. Manuela Ferreira Leite assumiu essa liberdade e nem tinha que o fazer. Gostei.

28.5.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 32

Richard Diebenkorn. (1922-1993).
Ocean Park


Texto publicado ontem no, e a convite do, Corta-Fitas.

O PSD prepara-se para eleger um(a) novo(a) líder capaz de se apresentar como alternativa ao nosso primeiro-ministro, e o PS já se sente em época eleitoral. No PSD exige-se tudo a esta nova liderança, um programa coerente, ideias, credibilidade e capacidade de apaziguar o turbulento partido bem como enfrentar as eleições legislativas de 2009 de igual para igual com José Sócrates.

Elaborar programas, dar ideias, encontrar soluções no papel e nos discursos para o país não é difícil. Ideias não faltam nas cabeças inteligentes (a inteligência não é, ao contrário do que pode parecer, um bem escasso) e voluntariosas que se preocupam com o desenvolvimento do país e apontam, e bem, o dedo ao seu atraso crónico; basta um olhar pela blogosfera – por exemplo - e para os debates que, e ainda bem também, nela se desenham para termos as ideias para um esboço de programa de governo. Uns dias para redação final, os polimentos do marketing comunicacional, o inventar de dois ou três slogans políticos, e já está! Mas a dificuldade em governar está no facto de que os programas e as ideias esbarram na realidade: no dia a dia das gentes, no país tal como ele é, nas circunstâncias, no mundo global dos nossos dias e nessa interdependência tão grande no nosso caso. Os candidatos a futuros primeiros-ministros deveriam dizer-nos o que farão nos chamados “worst-case scenarios” que são palco excelente a revelar quer a consistência das políticas quer o carácter do político. Como é que Portugal vai enfrentar uma conjuntura internacional de baixo crescimento económico, não só possível como provável, com o euro forte, uma subida de preço dos combustíveis e sobretudo da alimentação? O que se faz se as exportações não crescerem, as falências continuarem o seu caminho de inevitabilidade e o desemprego continuar a aumentar? Como se enfrenta o descontentamento dos eleitores estrangulados com a carga fiscal, empréstimo da casa e preço da alimentação? Como se reforma o Estado nestas circunstâncias? Onde se corta a sua despesa? Como se encontra equilíbrio entre os interesses legítimos dos diferentes grupos, das classes, os direitos adquiridos de uns, todos eles de alguma forma dependentes do estado, face ao mais abstracto bem ou face ao mais mensurável desenvolvimento da nação?

Deveríamos perguntar aos futuros candidatos a primeiro-ministro o que farão eles de cada vez que as suas políticas reformistas forem alvo de grande descontentamento popular. Lembrando o caso do SNS, recuariam deixando cair o ministro e as políticas? Ou enfrentariam, e como, o descontentamento social e o povo na rua? Pergunto-me porque é que hoje já não morrem pessoas nas ambulâncias, nem nascem crianças nas ambulâncias ou pelos menos, se morrem e nascem já não sabemos. Porque é que esta ministra ao tomar posse afirmou que a política para o SNS não mudava, mas já não há notícias de fechos de serviços de urgências, e porque é que reforma do SNS deixou de ser um problema que se debate e discute? Dizer que se quer acabar com as listas de esperas longuíssimas para cirurgias é fácil, mas como se negoceia com as administrações dos hospitais, como se colmata o problema criado pelo próprio estado (no acesso às faculdades de medicina) da falta de médicos, como se dialoga, ou enfrenta a classe médica, ou a classe dos enfermeiros? Ou perguntar porque é que ainda não se liberalizaram as Farmácias, tal como prontamente anunciado pelo nosso primeiro -ministro?

Na Justiça, os anúncios e as reformas não são visíveis aos olhos do contribuinte. Os ímpetos e excessos legislativos têm como efeito reforçar a desconfiança e o sentimento de incompreensão da Lei. Os resultados dos casos mediáticos Casa Pia, Apito Dourado, Esmeralda, Maddie, por exemplo, são a face da fragilidade da nossa Justiça e investigação criminal. Quem ou o que é que impede as reformas? Na Educação, escrever num programa de governo da bondade da autonomia das escolas, das virtudes dos cheques-ensino, da liberdade de escolha, é simples. Mas como se vai enfrentar o descontentamento das famílias quando, por causa de uma boa medida que é a obrigatoriedade do ensino, os resultados das políticas de não–retenção (palavra politicamente correcta para reprovação) de alunos se fizer sentir nas turmas e no aproveitamento dos outros alunos? E as diferenças se notarem nas escolas autónomas?

A enumeração destes exemplos só serve para mostrar que a pressão para inverter as políticas reformistas ou o boicote às mesmas se faz sentir de forma real, e era importante saber como é que os futuros candidatos a primeiro-ministro reagem. Tentar adivinhar a consistência das políticas bem como o carácter do líder são dados tão importantes como avaliar as políticas e as medidas reformistas, para percebermos se abandonam as reformas mudando a cara de um ministro, por exemplo, ou se propõem reformas a passo e passo, ou se se preparam para enfrentar o descontentamento sabendo que podem perder o apoio popular e perder eleições?

27.5.08

Noventa, e não foi suficiente.


My Blueberry Nights de Wong Kar Wai, é um filme chato longo e lento. Confirma o talento de Norah Jones como... cantora, pois ela não sabe representar. Há uns momentos interessantes a nível de representação com os restantes actores secundários (David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman) pois nem Jude Law se safa pouco convincente no seu fake accent. A realização é xaroposa, um pouco kitsch e com ares ambiciosos, mas sem osso para roer. Uma fotografia pretensiosamente enevoada, momentos mortos e tal como esperado (o que já é muito mau só por si) um final do mais básico que há (socorro!) com um beijo complicadíssimo que não chega a entusiasmar apesar de tanta encenação e noventa tentativas (segundo o que li algures) para acertar com “a coisa”.

Combate ao Sedentarismo 54

Sidney Pollack. "Out of Africa"

Poderia começar a escrever este post com as palavras com que comecei o último: há coisas que parece que já tinha esquecido e lembrá-las é como uma janela que se abre....

Isto a propósito da morte de Sidney Pollack, um realizador que foi ao longo da vida uma presença constante, uma espécie de vizinho que sabemos quem é, conhecemos-lhe a cara, vemo-lo através do tempo que passa, das coisas que faz, mas com quem nunca falamos. Vi-o a última vez (como actor e produtor) em "Michael Clayton" e como realizador em “The Interpreter”, um bom thriller. Parece que o “vi” pela primeira vez com grande entusiasmo na altura em “Tootsie” e só depois o vi naquele filme culto que marcou uma época “They Shoot Horses, Don’t They?”. Chorei as lágrimas esperadas no melodrama dos melodramas “Out of Africa”, que depois de uma fase de nojo, revi recentemente com gosto, “The Way We Were”, nunca me entusiasmou tanto como melodrama. Pollack foi (é) um dos representantes da essência do cinema americano, no seu caso nos finais do séc XX. May he rest in peace.

25.5.08

Pronúncia do Norte 4

Imagem roubada de A Cidade Surpreendente. Um blogue de onde apetece sempre roubar imagens.


Há coisas que parece que já tinha esquecido e lembrá-las é como uma janela que se abre sobre a memória e os sentidos do passado. Estes dias no Porto sempre debaixo de chuva relembraram-me não só a solidez da cidade mas sobretudo a sua dignidade quando a chuva cai implacavelmente e sem fim à vista. O Porto não se curva perante a chuva, recebe-a de forma inabalável e com uma impassividade própria. E a vida continua.


Cada vez que passo na Avenida dos Aliados confirmo a opinião de como gosto mais da Avenida tal como ela está hoje: ampla e aberta, também com mais dignidade e dando mais visibilidade aos edifícios. O mesmo não posso dizer em relação à Casa da Música cuja volumetria continua a surpreender-me negativamente e a deixar-me. Continuo a senti-la um mamarracho na Rotunda da Boavista.

20.5.08

Plataforma contra a Obesidade 40

(Atribuído a) Barend van der MEER (1659 ? - ?, entre 1692 et 1702)
Nature morte au chandelier

MFL, ou Uma Questão de Estilo

Manuela Ferreira Leite não entusiasma, não empolga, nem faz acreditar num Portugal melhor para amanhã. Às vezes paro e pergunto-me se tenho saudades do tempo em que ainda me atrevia, em momentos mais ousados, a ficar entusiasmada, empolgada e acreditar que Portugal um dia será como aquela sábia mistura da Irlanda e Finlândia temperada com sabedoria anglo-saxónica, fé como no American Way of Life tudo com muito estilo, design à maneira italiana. Não, não tenho saudades, e cada vez mais gosto de não ficar empolgada ou entusiasmada por um político ou mesmo por um projecto político. Olho para ambos com cepticismo e desprendimento e encontro-lhes sempre pelo menos três vícios por cada virtude. Não há Blair, Sarkozy, Bush, Zapatero, Obama que me entusiasme. Não há PS que me alicie, PSD que me comprometa ou PP que me mova.

MFL não é excepção. As suas passagens pelos diferentes Ministérios nunca me marcaram positivamente, nem deixaram grandes saudades, e o seu actual discurso insistente numa busca de identidade partidária, no desatino que é hoje o PSD, na social-democracia assusta-me um pouco. Não gosto de socialismos e sempre me pareceu que a social-democracia era coisa de sóbrios mas ricos nórdicos e protestantes. Portugal é um país de vícios e o maior deles todos é o Estado cuja omnipresença e omnipotência desafia a própria essência divina. Desde a luz que acendemos, ao que comemos, passando pelo que estudamos, pelos bancos onde fazemos empréstimos, ou pela pensão que gostaríamos ter no futuro, de uma forma mais ou menos evidente, directa ou indirecta, o Estado está lá, olhamos para a direita e vemos o Estado, viramos as costas e atrás está o Estado. A presença e o peso do Estado (já lhe chamaram Monstro) na sociedade não parece representar a forma como eu vejo uma sociedade livre, democrática e flexível. MFL não preconiza a diminuição do peso do estado que eu gostaria, por convicção ideológica ou por pragmatismo e sentido da realidade (os grandes vícios raramente se perdem), ou por uma mistura das duas coisas. No entanto, e dadas as circunstâncias actuais do PSD e do país e dados os candidatos à liderança do PSD, espero que seja ela a nova líder do PSD.

Espero que MFL, caso ganhe a liderança do PSD, traga sobriedade, acutilância, bom senso, seriedade e credibilidade a um terreno plástico, inconsistente e aleatório que hoje parece ser a política quer no governo quer na oposição. Eu quero acreditar nisso. Quero acreditar que MFL não vai fumar às escondidas atrás das cortinas, nem vai prometer em frente às câmaras de televisão que vai deixar de fumar, ou explicar que a sua má-disposição não tem a ver com o facto de ter decidido deixar de fumar. Quero acreditar que MFL não vai explicar se fumou charros ou não nem se gostou ou não do sabor. Não emitirá comunicados sobre se fez ou não uma sesta, não explicará se faltou a um compromisso de Estado por ter estado ou não num casamento de amigos, nem se deleitará com os concertos para violino de Chopin. Não tentará convencer-nos que fez quatro exames universitários num dia, que Domingo é um dia normal para tirar certidões, e que não percebe porque os registos da AR terão sido modificados. Nem nos obrigará a ver imagens suas a fazer joggings no Calçadão ou na Praça Vermelha. Esta certeza é muito reconfortante.

Sem querer desvalorizar a importância que é ter uma visão para o país que permita estabelecer as prioridades e elaborar um programa de acção realista e coerente quer para um partido do governo quer para uma oposição confesso que dadas as circunstâncias mais recentes, não consigo minimizar a importância da pessoa do líder e o lado mais sóbrio e algo austero de MFL não me deixam indiferente.

Esta notícia deixa-me aturdida e pergunto-me que mais é que estas comissões de investigadores que fazem estudo a propósito de tudo vão inventar para que a Educação em Portugal continue a ser palco de reestruturações, reformas, re-isto e re-aquilo sempre com temor referencial pelas “alterações menos ‘bruscas’”. Nunca nada é suave de mais para os educandos, parece ser a palavra de ordem de sempre. Espero que prevaleça o bom senso e se opte pela estabilidade, pois uma das causas do estado do nosso ensino é a falta de estabilidade e de uma visão a longo prazo. Em vez de reformar programas ou de reestruturar ciclos, dever-se-ia parar, respirar e modificar mentalidades. Mais rigor, mais exigência, mais disciplina deveriam ser os motores da educação, para professores, pais e sobretudo para os alunos que é deles o futuro.

18.5.08

Torre de Belém

Aumentar para ver o ridículo "colar" da Torre de Belém. Foto tirada há dois dias.

Num primeiro momento fiquei intrigada, ali de pé na varanda a olhar ao longe a Torre de Belém, mas não perdi um segundo mais a pensar nisso. Depois quando vi que a bizarria persistia, e porque não tinha passado por lá, tentei perceber o que era e muni-me de binóculos de longo alcance e telescópio. O quê? Bolas plásticas enormes das que parecem marcar rios e mares a enfeitarem a Torre de Belém, qual pescoço com colar étnico para festa popular? Tive que passar por lá para confirmar o adereço, e senti dificuldade em focar os olhos, a mente e sobretudo o gosto e a sensibilidade estética. A Torre de Belém está horrorosa, pior do que isso, está pirosa. Um monumento que não sendo propriamente o Mosteiro de Alcobaça mas que é, na sua simplicidade, digno, sólido, de linhas bonitas, e carregado de história e simbolismo nomeadamente por ser o ex-libris da cidade de Lisboa, e que é nosso património – é meu e de todos os portugueses, não pode ser objecto de experiências decorativas sem nexo nem gosto e que vilipendiam a sua dignidade, por muito interessante que possa ser o pretexto, coisa que desde já duvido, mas fica feita a salvaguarda. Será que ninguém pensa, nos serviços da cultura e do património?

Há uns tempos falava-se em promover o Turismo Cultural em Portugal (a propósito do S. Carlos, por exemplo). Não é assim com iniciativas pindéricas que mais não fazem do que retirar a dignidade arquitectónica histórica e simbólica do monumento que se promove o dito turismo cultural, nem sequer o turismo normal (se alguém entender a subtil diferença existente nas cabeças dos governantes que fazem planos e nos promovem a West Coast of Europe, que eu não entendo) que em Lisboa vive de meia dúzia de monumentos, trajectos e referências. E muito sol, muita luz, muitas sardinhas.

Por favor, voltem a dar à Torre de Belém a dignidade que ela merece.

17.5.08

Noite de Fado

O Fado está lá, faz parte da identidade ou de uma qualquer memória do ser português, mas não faz parte do meu quotidiano, muito menos do modo “default” de algum instinto musical que tenha. Claro que quando cresci ouvi alguma Amália, algum fado de Coimbra, e esporadicamente fui ouvindo outros fadistas, mas nunca em grande quantidade nem nunca com grande afinco. Creio que este é um padrão comum a muita gente que, como eu, nasce e cresce no Porto. Mas umas idas ao Senhor Vinho há uns anos (porque teve que ser, mais do que por opção) fizeram-me conhecer Camané, e de imediato percebi a beleza incrível e inconfundível da sua voz e o seu talento único e quieto para estar num palco e encher completamente o espaço. No entanto nunca me passaria pela cabeça ir a um espectáculo ouvir fado horas a fio.

Por isso surpreendi-me quando, num impulso pouco comum, decidi que queria ir vê-lo ao Coliseu ontem. Desde o primeiro momento com Sei de um Rio (o video do link já é do espectáculo de ontem) Camané electrizou o público que não lhe poupou ovações e bravos em quase duas horas de fado num espectáculo memorável e alongado de tantos encores. A cumplicidade discreta e pouco ruidosa, mas intensa e visceral que de imediato estabelece com o seu público é única e percebe-se como é que conseguiu, por exemplo, esgotar duas noites seguidas no Concertgebouw de Amsterdão. Ontem foi uma noite de fado que fica na sua memória e na nossa.

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