holehorror.at.gmail.com
10.5.08
Um momento raro: o artigo de José Pacheco Pereira no Público de hoje. A ler da primeira à última palavra.
8.5.08
Caldinho Cultural
Há coisas que preferia não saber, e quando os media omnipresentes de diversas formas e feitios veiculam essa informação, tento distrair-me, desligar, mudar o canal, não olhar, não ver, não saber. Pelo menos tentar que a informação fique a pairar pelo ar e se disperse rapidamente mas que realmente não se faça realidade na minha mente. Tem sido assim nas últimas semanas em relação à história do cidadão austríaco que sequestrou, violou e teve sete filhos da sua filha. Não quis saber, não quis ouvir, não quis ver. Até que hoje fui bombardeada várias vezes durante o dia com a publicidade à revista Visão que tem um dossier especial sobre o assunto. É óbvio que não comprarei a revista nem quero ler nada sobre o assunto de tal forma ele me perturba não só no aspecto humano/afectivo, mas no aspecto mais racional que tenta analisar os porquês, as motivações, os objectivos. Parece que o meu enquadramento mental não foi estruturado de forma a interpretar e digerir este tipo de comportamento pensado, frio, implacável, organizado e levado a cabo sem hesitação, nem retrocesso, sem culpa, nem fraqueza, sem piedade nem compaixão. Vinte e quatro anos neste registo. Repito, vinte e quatro anos de intencionalidade. Não preciso de detalhes, de planos do bunker, de explicações do dito cidadão, de testemunhos de vizinhos para que o horror desta situação me perturbe, e a passividade da vítima me aterrorize. Porquê? Para quê?
Há no mundo situações de horror, enorme injustiça, perversão, desigualdade, violência gratuita, e não é preciso pensar muito para elaborar uma longa lista de horrores dos nossos dias. Mas este caso tem esta intencionalidade, este pensar, esta frieza, esta repetição ao longo dos ditos 24 anos, que estão para além dos próprios actos de violência, violação, perversão. E este facto incomoda demasiado. É como se estivéssemos perante um concentrado de Mal e esse Mal tivesse um rosto, uma forma, um corpo. Mal no tradicional sentido judaico-cristão, como o que é oposto ao Bem, o que se afasta do Bem (Deus). Como se afinal este caldinho cultural que bebemos diariamente e que evita pensar nas noções de Mal e de Bem, tivesse sido contaminado, por um momento.
6.5.08
Pode repetir?
Por favor! Se “geografias musicais” já é mau (só lá chegamos se fecharmos os olhos com força) a história de “geografias afectivas” até dá nauseas e só pede mesmo a porta de luz verde que diz EXIT. No final do texto para fazer bonito utiliza-se esta banalidade: “Este é o ponto de partida e chegada”. Porque será que não escrevem coisas normais e despretensiosas quando têm como objectivo darem-nos informação?
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3.5.08
2.5.08
1.5.08
Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 2
Socratismo e PSD
Neste momento é o socratismo que nos governa tendo-se assumido, através do executivo, como uma política reformista de rupturas, de exigência orçamental, de modernidade, e com uma ambiciosa componente tecnológica. Tenho, por vezes, neste blogue manifestado as minhas reservas em relação a algumas destas políticas, ou em relação à forma como elas são conduzidas, e poderia tê-lo feito em relação a mais. Parece que muito pouco foi feito do tanto que há a fazer, muito pouco foi reformado do que há a reformar, mas é inegável que o deficit foi controlado, que muitas “corporações” foram beliscadas e que o movimento criado, pouco e muitíssimo discreto, tem sido no sentido da modernização e competitividade e um sinal disso é o facto do Socratismo não agradar à esquerda clássica, PCP e BE. Mas para muitos outros o pior do Socratismo é José Sócrates himself, o homem político, o seu vazio, a sua opacidade, o seu estilo, as suas prioridades, os seus anúncios constantes disto e daquilo sem consistência, sem reflexão, a sua imagem cuidadosamente preparada pelos conselheiros de comunicação política, o seus discurso, o seu percurso, o seu curso, os seus projectos de engenharia e os seus sapatos Prada, o seu tom de voz moldado e trabalhado para aparentar espontaneidade, as suas frases slogan, os joggings de cada vez que vai em visita oficial ao estrangeiro, os “porreiro pá!”, as distribuições de computador. Um dos elos mais fracos do Socratismo é a credibilidade de José Sócrates.
Outros “ismos” que quiserem ocupar maior espaço político terão que, com toda a honestidade, dizer o que fariam realmente neste país que é o Portugal de hoje, dependente de cada pequena oscilação do preço do petróleo, da “conjuntura” internacional, com quatro ou cinco grandes grupos económicos que vivem em promiscuidade com o Estado, onde a excelência não é premiada e a criatividade altamente asfixiada com impostos, onde a classe média se torce ao fim do mês e onde todos reclamam os seus especiais e excepcionais direitos adquiridos, onde nenhum estudante até ao secundário pode chumbar por muito que isso custe à turma, aos professores e aos contribuintes, onde se ensinam competências e não matéria, onde uma exposição mal amanhada do Hermitage no Palácio da Ajuda é elevada ao nirvana cultural, onde se constrói demais e onde se planeia de menos. Poderia continuar mas não vale a pena. A questão é, sem demagogias e discursos ocos e inflamados de mudança e reforma (há quem já não possa ouvir falar em liberalismo, eu já tenho dificuldade em ouvir falar de reforma, de tal forma se banalizou ultimamente o termo ao ponto de qualquer medida avulso se fazer passar por uma reforma) saber exactamente o que é que outro “ismo” faria de diferente. Que capacidade de manobra teria neste Portugal de hoje, outro “ismo” para grandes medidas e rupturas sem desgastes sociais e sem o povo em protestos na rua. Eu sei que a credibilidade não entusiasma ninguém, não move, não é excitante, mas há um deficit dela no Socratismo, e os discursos irrealistas, bem intencionados cheios de teoria disto e daquilo também já não são novidade.
Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 1
Ismos e Istas
Confesso-me perdida entre os últimos “ismos” e “istas” que povoam a minha (pouca) vida política. Lembro uma fase do pós 25 de Abril em que miúda tentava perceber diferenças entre comunismo, socialismo, leninismo, marxismo, trotskismo, maoismo. Hoje sei de onde vem cada palavra, conheço o contexto histórico que as fez o contexto ideológico que as tornou conhecidas, mas já não sei bem o que representam nos dias de hoje, a não ser o século XX. Hoje, à nossa medida, que somos um país pequeno e periférico (sim, com um clima óptimo e sardinhas de fazer inveja, mas mesmo e apesar do clima e das sardinhas, assim dependente e de recursos limitados) vejo o país político enredado em “ismos” e “istas” a perderem-se no horizonte. Ele é Santanistas, ele é Menezistas, ele é Barrosistas, ele é Cavaquistas, ele é até Socratistas ou Alegristas. Numa lógica a um nível de quarta classe o “ismo” dá o “ista”, por exemplo, o comunismo deu os comunistas, o maoismo deu os maoistas. Ora neste Portugal do séc. XXI ainda estou para perceber o que é o “ismo” que dá um “ista”, isto é o que é o Santanismo que dá Santanistas, o Cavaquismo que dá Cavaquistas... Parece que esta teia de “ismos” e “istas”se vai tecendo à volta de alguém, de um líder (ou potencial líder), de uma circunstância política de um momento na história, de tensões pessoais mais do que de um pensamento estruturado ou de uma corrente ideológica. Parece que estamos no grau zero do pensamento ideológico, mas talvez seja este um novo desafio deste século, pelo menos para países democráticos, mas periféricos, pequenos e dependentes como o nosso: fazer política sem ideologia. Viabilizar o país tornando-o mais moderno e competitivo, menos irrelevante, pobre e periférico parece ser o grande desígnio de qualquer político que queira governar Portugal, um país de grandes vícios públicos, com um Estado demasiado pesado e omnipresente, de inércias várias, de movimentos lentos e pesados. Um país de fados.
29.4.08
Crise Alimentar
Há qualquer coisa de realmente perverso na ideia de uma crise alimentar, na possibilidade que se desenha de escassez de alimentos face às constantes subidas de preços dos cereais nos mercados de mercadorias, e das subidas de preço previsíveis para os supermercados. Há décadas que se diz que há comida para todos no mundo, nós (o mundo ocidental, claro) é que não queremos ou sabemos distribui-la. Que o que se produz é mais do que suficiente para alimentar a população mundial. Falou-se de um excesso de produção de leite e houve um tempo de montanhas de manteiga que a então CEE impedia de circular, bem como subsídios para que agricultores deixassem de produzir. Não percebo nada. Toda uma vida a fazerem-me acreditar, e a tentarem dar-me má consciência, que o problema da alimentação era um problema de distribuição e má vontade das nações “ricas” bem como dos efeitos dos malévolos agentes económicos. Afinal parece que andei a ser enganada, a questão da escassez coloca-se afinal.
28.4.08
24.4.08
23.4.08
Já está. Discretamente, suavemente, ninguém parece muito incomodado, ninguém parece muito interessado, ninguém parece muito informado. Até agora não doeu, veremos mais tarde os efeitos secundários.Autópsia de um Crime (Sleuth)

22.4.08
Bento XVI nos EUA, 2
Também no encontro com os jovens e lembrando a sua juventude durante o regime nazi, Bento XVI falou da necessidade de prezar a liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos que os jovens hoje, em contraste com a sua juventude, gozam nos EUA e nas democracias ocidentais. E mais uma vez, o Papa foi mais longe alertando contra os perigos do multiculturalismo e do relativismo moral. Se a referência ao relativismo moral é um tópico caro a Bento XVI, já a referência aos perigos do multiculturalismo é ousada porque mais incómoda dado que nos meios mais tolerantes se tende a uma posição algo passiva, que prefere tantas vezes fechar os olhos para não ter que se confrontar com problemas como o desrespeito pela democracia, liberdade de expressão, igualdade entre sexos e o abuso da violência. Alertando para os perigos do multiculturalismo Bento XVI questiona a “bondade” de todas as tradições e culturas que se confrontam (não necessariamente no sentido bélico) hoje e tão de perto com a nossa.
21.4.08
Bento XVI nos EUA
Mais uma viagem de Bento XVI e mais um sucesso segundo o que se pode ler na imprensa deste e do outro lado do Atlântico. Com um estilo bem diferente do do seu antecessor, Bento XVI acaba sempre por surpreender no calor do contacto, nas palavras e gestos que usa. Os seus discursos que já não surpreendem, são sempre exigentes e obrigam a alguma reflexão. Mais do que um comentário à visita do Papa, à escolha da sua agenda e aos seus momentos marcantes, bem como à importância política da mesma, eu gostaria de retomar alguns tópicos por ele lançados durante estes dias e lidos na comunicação social quer nacional quer internacional.
20.4.08

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(...) o partido fez como as famílias fidalgas: desbaratou o capital. Não tem nada. A não ser saudades, sede e fome. De poder.
Isto e um retrato implacável quer de Luis Filipe Meneses quer dos democratas que têm governado Portugal, no artigo de António Barreto no Público.
19.4.08
Nunca deveria sequer pensar em escrever sobre Futebol
Confesso não perceber nada de futebol, nem fazer muito esforço por perceber. Se do jogo pouco entendo, então daquilo a que se chama “mundo do futebol” é que não percebo nada mesmo, em tão pouco me apetece tentar perceber. Acredito que seja um mundo cheio de paixões, dinheiro, vícios, influências, jogos de bastidores porque é aquilo que parece ser mais óbvio e fácil de acreditar. O meu saber futebolístico resume-se a ver os jogos da Selecção Nacional em momentos decisivos (Euros e Mundiais) e em querer saber se o meu clube, o Futebol Clube do Porto, ganha ou não quando me lembro de que é fim de semana e que talvez tenha jogado e, felizmente, regozijar-me com as suas vitórias.
Apesar deste curriculum brevemente resumido, tenho ficado absolutamente boquiaberta e colada à televisão cada vez que falam do Boavista, e desta recente crise em que está e que mais parece coisa de outro mundo: o passivo, os salários em atraso, o investidor “mistério” em conferência de imprensa a garantir que está preparado para injectar milhões de euros no clube, mas que afinal já não vai investir porque depois de hoje ter sido interrogado pela PJ é agora arguido num processo de fraude, a ameaça de greve por parte dos jogadores, o dinheiro que entretanto chegou em forma de cheque com garantia dum banco da Indonésia (foi o que ouvi nos Telejornais da noite) e a greve que afinal já não vai ser. Sinto-me perdida perante uma história deste calibre, que mais parece um romance de cordel em versão futebolística, num país de ficção e de lunáticos, e que faz a falada crise do Benfica parecer simples. Nem sei o que pensar sobre o assunto, nem tão pouco se, enquanto cidadã nomeadamente porque nascida no Porto não muito longe do Estádio do Beça, devo pensar algo. Uma coisa eu sei. Nunca deveríamos estar a passar pela situação de assistir a esta crise surreal que não entendo e nunca numa liga de honra (ou lá como é que se chama esta liga dos melhores) deveriam estar clubes sem solidez financeira e de gestão necessárias para fazerem uma época completa sem este tipo de crises, se é que “crise” é a palavra correcta para definir o que se passa - parece-me uma palavra demasiado séria para este enredo que no entanto é também demasiado sinistro para ser opera buffa. Eu não disse que nunca deveria sequer pensar em escrever sobre futebol?
17.4.08
15.4.08
Estrogénio e Progesterona
Não me lembro de um acto, decisão, medida política de Zapatero de que tenha gostado. Mas de repente e sem pensar muito daria uma lista exaustiva de actos decisões, medidas, tomadas de posição, prioridades políticas, de que discordei. Tal como com o conteúdo político, não gosto do seu estilo, desse constante bicos de pés que se vê na vontade de estar sempre na crista da onda politicamente correcta tudo muito bem planeado pelos profissionais do marketing comunicacional político. Mas hoje – acreditando que estas nomeações não têm como único objectivo colocarem Zapatero num patamar mais alto do politicamente correcto – tenho que confessar que o admiro pela escolha de tantas ministras e muito particularmente pela ousadia de ter nomeado uma Ministra da Defesa grávida. Ver uma mulher grávida Ministra a passar revista às tropas é uma imagem carregada de simbolismo à qual, enquanto mulher, é difícil ficar indiferente.
Num mundo em que as mulheres políticas em cargos de maior responsabilidade tendem ainda a ter como modelo Margaret Thatcher e a ser, como tantas vezes se comenta, mais homens do que os homens, pela determinação, força e exigência, dá gosto ver uma mulher política no auge da sua feminilidade: redonda, com estrogénio e progesterona no seu máximo e com roupa feminina tal como a sua condição exige. Final de gravidez, parto, aleitamento, e a respectiva montanha russa hormonal, eis o que espera a Ministra da Defesa espanhola e, como se isso fosse incompatível com o exercício de qualquer cargo de responsabilidade, eis os medos e tabus (tão previsíveis, afinal) por trás das críticas que têm sido feitas a esta escolha de Zapatero. Se não, eu não percebi mesmo o que é que se critica com esta nomeação: a nomeada aparentemente ter competência e curriculum? Ser socialista? Ser Mulher? Estar grávida?
14.4.08
12.4.08
Crónica Da Vida Num Resort 3
A imaginação criatividade e flexibilidade linguística brasileira atinge o seu auge na hora de nomear, e isso nota-se na hora de nomear os seus filhos tendo os brasileiros um leque de nomes próprios capaz de espantar qualquer espírito. Contracções entre dois nomes, trocas de letras, sílabas, anglicismos, são algumas das técnicas usadas para construir um novo nome, algo que os enche de orgulho. Nada que não soubesse, mas estar lá e ouvi-los chamarem-se uns aos outros é um exercício constante de decifração e mesmo memorização se queremos não ter dificuldade em lembrar o nome momentos depois. Élida, Nedmilson, Sue Ellen, Jaquinho são alguns exemplos que lembro graças ao mais notável e fiável exercício de memorização: escrever os nomes num papel.
11.4.08
10.4.08
Crónica Da Vida Num Resort 2
Se um resort com a sua versão fabricada de paraíso apela as pessoas que procuram alguma tranquilidade e satisfação de desejos muito simples e básicos travestidos de coisa requintada, ainda apela mais a casais em lua-de-mel, e previsivelmente eles eram muito numerosos. No entanto enquanto “categoria” de pessoas eles não cansaram de me espantar. Andavam circunspectos e formais como quem cumpre um papel que é esperado que cumpram: de mãos dadas e em pose quase de estado andavam de lá para cá, tomavam refeições, andavam de barco, faziam passeis ao fim do dia, beijavam-se e abraçavam-se na piscina, mas todos os seus gestos pareciam pensados e encenados, careciam de espontaneidade e de verdadeira alegria. Não se ouviam gargalhadas, não se viam trocas cúmplices de olhares, nem sequer a sombra daquele brilhozinho de paixão ou desejo, muito menos um átomo que fosse de loucura, de vontade de sorver o momento, de realmente se divertirem. Enfim, não se viam nem sentiam algumas dessas coisas que é suposto existirem entre casais felizes e contentes que é o estado que normalmente associamos a uma lua-de-mel. Mais pareciam reféns de um qualquer protocolo ou convenção que os obrigava a estar ali um pouco contra-vontade. Se calhar...

9.4.08
Pior do que retirar os Simpsons da televisão privada na Venezuela, só mesmo a sua substituição pela série Marés Vivas. Será que os pais telespectadores irão também apresentar queixa contra a má influência exercida por esta série nos neurónios dos seus filhos, ou a estupidez poderá continuar o seu livre curso, desta vez em fato de banho vermelho e decote normalizado de acordo com complexas equações geométricas?
8.4.08
Crónica Da Vida Num Resort
Se um grande e bom hotel urbano (Oriental em Bangkok, por exemplo) ou que já conheceu melhores dias (Sheraton em Guadalajara, por exemplo) tem sempre algo de aristocrático, já um bom resort é essencialmente burguês na sua procura de luxo e conforto e um mau resort um espelho demasiado real de uma sociedade de abundância. O resort é burguês quer na sua intenção, a de imitar o paraíso, quer nas suas funcionalidades que visam adivinhar e satisfazer os desejos conscientes ou inconscientes que os clientes num determinado momento e circunstância associam a paraíso: praia, sol, piscina, havaianas, algum desporto aquático feito com indolência, comida fresca e abundante, bebidas frescas, spa, não fazer nada. Por uns dias andei iludida com o paraíso.
Mas um dia chovia abundantemente e o céu cinzento não deixava prever nenhuma aberta. Foi o pretexto necessário para sair do resort e, dentro de um taxi, olhar o Recife e Olinda. O Recife é uma cidade que não se imagina: velha, mal tratada, pobre, descuidada, sem graça. Só a boa vontade de um turista determinada em não se deixar deprimir percebe entre o cinzento do céu, o molhado da chuva o desleixo da cidade e a falta de vida e de vibração, no centro da cidade degradada umas pontes que poderiam ter charme, umas ruas velhas com um casario antigo que carrega alguma nostalgia, uns edifícios coloniais que pintados e reabilitados dariam graça à cidade, enfim uns sinais de pertença, da história que fez a cidade, que é a cidade. Fora isso, os subúrbios lembram África sem serem África, e a parte nova dos prédios altos e dos condomínios não-sei-quê é simplesmente inenarrável. Não me demorarei nos clichés do país rico, da pobreza, da distribuição de riqueza no Brasil, mas lembrei D. Hélder Câmara, o simpático e controverso Bispo de Olinda e Recife que fazia gala em dizer “se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista" e que se tornou personna non grata no pontificado de João Paulo II. Assim num dia cinzento e de chuva, D. Hélder Câmara parecia fazer mais sentido naquele Brasil que eu vi do que João Paulo II, mas devia ser da chuva.
29.3.08
Da Culpa
Tenho seguido com algum interesse mas sem oportunidade para escrever, a polémica em torno da figura jurídica da “culpa” que o PS pretende erradicar do processo de divórcio litigioso substituindo-a pela figura das “causas objectivas”. Eu que tenho sido uma crítica (objectiva), escrevendo amiúde sobre o assunto, da nomenclatura políticamente correcta deste governo, da tendência para (re)nomear palavras passíveis de causar susceptibilidade em minorias, bem como da nova ordem moral influenciada por Zapatero que tentam impor-nos para que todos sejamos belos, lisos, brilhantes e a cheirar a desinfectante mesmo que por dentro sejamos todos feios, porcos e maus, estou, e por uma vez, de acordo com o governo.
Se o divórcio unilateral proposto pelo BE é uma ficção absurda apesar de algo simpática porque nos permite divagar e sonhar com a possibilidade de um casamento unilateral também, já a questão da figura jurídica da “culpa” num processo de divórcio litigioso merece mais reflexão. Sobretudo merece que nos perguntemos se encontrar um culpado num processo de divórcio litigioso tem até hoje tido alguma eficácia no desenrolar do dito divórcio tornando as partes envolvidas menos infelizes bem como cumprimento das obrigações pós-divórcio, nomeadamente financeiras, da parte “culpada”. Eu até creio que o receio desse não cumprimento das obrigações, infelizmente tão normal e tão imagem da mesquinhez nacional (qualquer um de nós conhece casos destes infelizmente não é preciso sequer procurar) tem um efeito perverso na procura a todo o custo - da dignidade da pessoa, do equilíbrio emotivo dos filhos, etc – dessa “culpa” num último esforço de vingança num processo de divórcio. Um mau motivo, parece-me. O esforço deverá ser concentrado não em encontrar a “culpa” mas num acordo equilibrado encontrado se necessário com ajuda de mediação isenta, realista e exigente que obrigue ao cumprimento do que ficar estipulado em acordo ou pelo tribunal. O problema é que quem não cumpre não é punido, e garanto que não há “culpa” que obrigue a cumprir se a fiscalização não existe. Infelizmente. Por isso acabe-se com a culpa pelo divórcio e que seja culpado quem não cumpre a sua obrigação pós-divórcio. No fundo, no fundo é disto que se trata, não é? Pois obrigar a ficar casado quem não quer ou quem já “saiu” do casamento há muito parece estar fora de questão.
Também desta vez não concordo com a posição da Igreja. Primeiro porque a Igreja Católica nem sequer reconhece o divórcio, nem permite que casais divorciados e recasado9s só civilmente recebam os sacramentos, por isso este assunto pura e simplesmente não lhe diz respeito, tal como não diz respeito aos ateus tanta matéria religiosa. Em segundo lugar porque mesmo nos mecanismos da Igreja para dissolver casamentos (Declaração de Nulidade do Casamento) a noção de “culpa” não só não existe como nem sequer é encorajada. Nesta matéria a Igreja deveria, e também por uma vez, ser muito mais discreta e deixar a sociedade civil decidir.
28.3.08
26.3.08
Michael Clayton
Michael Clayton, visto recentemente. George Clooney no seu melhor, sem o charme óbvio de Clooney, mas numa personagem complexa e que prende, um pouco decadente, frustrada, mal amada, com a vida no fio da navalha, mas sempre um sobrevivente. A impressão de inadaptação da personagem percorre o filme tornando-o mais interessante, modulado e mais vivo e menos mecânico e previsível, pois sendo um thriller bem conseguido, bem construido, bem feito e bom de ver, como alguns outros igualmente bem conseguidos, bem construidos, bem feitos e bons de ver faz a diferença por estas nuances das personagens. As interpretações também fazem a diferença. Tilda Swinton, num bom papel de composição, é glaciar e impecável e mereceu o Oscar. Tom Wilkinson também tem um belíssimo trabalho no papel de uma visionário desequilibrado. Anthony Minghella produziu.25.3.08
Dando Excessivamente sobre o Mar 28
(Clicar para aumentar)
Trabalho por objectivos: aqui. Lamento que o esforço do estado para implementação destas novas estratégias de incentivos aos profissionais se desenvolva prioritariamente (ou mesmo exclusivamente) no sentido de arrecadar sempre e mais receitas para o estado, e não no sentido de servir melhor o contribuinte, onde seriam muitas as áreas a beneficiar de tais metodologias, como por exemplo o SNS para se diminuir as famosas listas. O trabalho por objectivos pode fazer maravilhas em muitas áreas.22.3.08
Má Educação
21.3.08
Museus em Madrid 3
Da colecção de Velazquéz, este quadro que reproduzo em cima é um dos mais extraordinários. Vi-o de longe, ocupava uma parede e a surpresa e o choque foram instantâneos tal a força do quadro, pela simplicidade, contenção e realismo. Um dos quadros de Velazquéz em que as linhas e o equilíbrio atingem a perfeição, e em que é transmitido sem frufrus nem excessos decorativos, simbólicos ou de sangue, o mistério da cruz. Pelo minimalismo do objecto tratado “esconde” o barroco (o drapeado do pano, a definição anatómica) e respira modernidade e veicula uma emoção única. Um dos mais belos quadros que já vi.
O museu do Prado com a sua ala nova ampla e luminosa que serve de entrada e onde estão as lojas e as cafetarias (muito boas) tem uma colecção de pintura de grande dimensão à escala mundial e está sem sombra de dúvida ao lado dos grandes museus como o Louvre ou a National Gallery e a poucas centenas de quilómetros de qualquer cidade portuguesa.
20.3.08
19.3.08
O Lado Selvagem

17.3.08
Do Pecado
Em tempos de relativismo moral, de consumismo frenético, de vontades rapidamente satisfeitas, e de pressa em viver, falar de pecado é uma chatice e pensar sobre ele é de quem não tem nada melhor nem mais urgente que fazer. O Papa Bento XVI que não se compadece com esta estranha forma de vida que domina o ocidente falou sobre o pecado no seguimento do seu antecessor João Paulo II, tentando reforçar a sua (do pecado) dimensão social e as consequências que ele pode ter na sociedade. Foi mesmo estabelecida uma lista de seis pecados sociais a juntar à lista tradicional dos sete pecados mortais, não vá o católico consciencioso perder-se neste labirinto que parece ser a vida moderna. Confesso o meu cepticismo em relação a esta nova lista de pecados, à sua necessidade e pertinência, à especificidade dos tempos modernos que exige actualização da lista, e creio que ela está em desacordo com alguma tradição mais exigente do ponto de vista teórico e teológico.
O pecado é uma livre transgressão à lei de Deus, quer em acto, palavra, pensamento ou omissão: Tem que ser grave, feita de forma totalmente consentida e conhecedora, e diz-nos o catecismo que faltando um destes requisitos já não se trata de pecado mortal. Vendo o pecado à luz desta definição, estamos perante matéria do foro íntimo entre o pecador e Deus, sendo o sacerdote que ouve a confissão e dá o perdão de Deus apenas o veículo que reconcilia o pecador com a Igreja. Os sete pecados mortais (relembro: Avareza, Gula, Luxúria, Soberba, Preguiça, Inveja e Ira) tais como a Igreja os estabeleceu há séculos são suficientemente sólidos e representativos da miséria humana e podem cobrir qualquer desvio à ordem divina, para além de serem sempre a mola a qualquer forma concreta que um pecado possa tomar. Por exemplo, os pecados contra a natureza poderão ser muitas vezes atribuidos à soberba humana ou à luxúria (pelo dinheiro e lucro). Também alguns actos tais como os que estão descritos na lista recente de pecados sociais, por exemplo abortar, podem não ser necessariamente pecado mortal se as condições acima descritas não existirem.
Este estender do pecado à esfera social, definindo como pecado situações concretas e não sentimentos ou características da alma humana, também contém outros perigos. Aqui neste blogue tem-se escrito criticando, a propósito do islamismo, os danos da omnipresença da religião em todas as esferas da actividade social dominando e influenciando quer as leis, quer os hábitos, a cultura, a mentalidade. Apesar do ocidente estar numa situação que não se assemelha à existente em tantos países islâmicos, não gosto que o manto da recomendação religiosa se estenda, através de directivas concretas, a outras áreas. Nem sequer é necessário e desvirtua a noção pessoal e íntima do pecado. Como já disse a antiga lista dos sete pecados mortais tal como estão definidos podem bem continuar a cobrir qualquer acto deliberadamente contra a vontade divina que a imaginação mais criativa possa inventar (como se ainda houvesse algo a inventar) tal como tem sido feito ao longo dos séculos e também não reconheço aos tempos modernos perigos assim tão inovadores e específicos para a alma humana que requeiram novos parâmetros na abordagem ao pecado.
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16.3.08
De Boas Intenções...
Há palavras fortes do catolicismo que não deixam ninguém indiferente, tanto católicos como não católicos. São palavras que estão mais ou menos na moda e são mais ou menos usadas conforme as épocas e as mentalidades, são semente de muitos equívocos, de medos e de raivas e ódios. Estes últimos vêm sobretudo de um sector anti-clerical que vê na Igreja Católica a fonte de todos os males passados, presentes e futuros da inteira humanidade.
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15.3.08
Há dias assim,
como o de ontem,
Ainda mal refeita dos piercings na língua e restante cavidade oral, vejo a reportagem sobre o líder da oposição “na intimidade”. Eu que cada vez percebo menos de política e que cada vez entendo menos seja o que for sobre agências de comunicação (e o mundo em geral, diga-se), tento o mais possível não perder o bom senso do meu horizonte. Aquela reportagem não tem ponta por onde se lhe pegue. Será que alguém depois de ter visto Luís Filipe Menezes em toda a sua glória intimista, quer um homem assim para primeiro-ministro? Se a reportagem de José Sócrates foi ensaiada e falsamente natural com as já famosas referências às leituras dos filósofos espanhóis, e o telefonema a Zapatero, pelo menos foi pensada para poder contornar a ratoeira que a “intimidade” tanta vezes se revela ser. José Sócrates não se expôs muito, e bem, a reportagem não acrescentou nada, pior para a SIC que gastou recursos nesse projecto. O caso Luís Filipe Menezes foi pior para o próprio: a sua intimidade foi uma ratoeira em que não se entende como é que ele caiu. Os seus conselheiros e as célebres agências estavam onde? Mostrou uma casa sem alma, um restaurante banal, um barbeiro a despropósito, um hotel em Lisboa, que não deram propriamente uma imagem de solidez. Uma exagerada exposição de filhos, pais e namorada que falando de LFM também em nada contribuiram, apesar da boa vontade, para uma acrescida consistência e coerência à figura do líder da oposição. Também o discurso de LFM se enche de contradições mesmo a falar de coisas simples e banais como foi sobre o seu principal defeito (a jornalista perguntou isso). Ideias políticas também não passaram e a vacuidade foi confrangedora. Não gostei especialmente da jornalista que nem no caso de José Sócrates nem no de Luís Filipe Menezes conseguiu passar da trivialidade. Nunca fez perguntas interessantes que permitissem aos entrevistados brilhar um pouco. Nos momentos em que isso aconteceu (com JS) foi porque o entrevistado se impôs. Como trabalho jornalístico também achei as reportagens fracas.
13.3.08
Véu Islâmico 10
O Caderno P2 de hoje do Público tem um artigo grande sobre a Sharia em Portugal e uma reflexão de um especialista em direito islâmico que nos diz que não devemos ter medo da Sharia. Confesso a minha perplexidade face à certeza e firmeza de uma tal afirmação, sobretudo vinda de um ocidental, numa matéria em que as interpretações – todas elas válidas - são tão díspares e em que a fonte principal dessa Lei é o Corão, um texto normalmente muito taxativo (é só pegar e ler para confirmar). Sem querer pôr em causa a bondade e boa vontade de tantos imâs que usam a Sharia com bom senso em situações que potencialmente seriam de grande injustiça, que confiança posso ter eu num sistema fundado num sistema de valores em que a igualdade de direitos e oportunidades não é nem bem visto nem encorajado.
Assim eu pergunto-me o que é que conta: uma sharia em versão “português suave” (título do Caderno P2) em que até se percebe que uma mulher possa ir trabalhar, em que se justifica o porquê de um homem receber o dobro de uma herança, e em que não há chicotadas nem mãos cortadas, ou uma sharia em que as mulheres são obrigadas (ou pressionadas socialmente) a usar uma burka, impedidas de trabalhar, menores e impossibilitadas de decidir, herdar e guardar os filhos? Qual das “sharias” é a melhor, a mais correcta, a que representa a vontade de Alá? Eu pergunto-me também: o que é que conta os diferentes graus de severidade (ou liberalidade) na aplicação da sharia ou os pressupostos e sistema de valores que estão subjacentes?
10.3.08

Adenda: A seguir ao Benfica que notícia é que ocupou a nossa atenção? Claro, a Mariluz e o seu funeral com centenas de pessoas.
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9.3.08
Depois da polémica causada pela actuação da PSP junto das escolas a querer saber quantos os professores que tencionavam participar na “Marcha da Indignação” agora sabemos do excesso de zelo da GNR a querer saber se os professores que viajavam para Lisboa em autocarros vinham devidamente “acondicionados” entre assentos e cintos de segurança. Tal operação de fiscalização atrasou a viagem de muitos professores impedindo-os de participar na manifestação. Patético! E ficamos a perguntar-nos se há ou não coincidências. Será que vamos aguardar pelas conclusões de mais um inquérito a ser pedido pelo Ministro da Administração Interna? .
7.3.08
A ler este post no Origem das Espécies. Um retrato quase em directo da vida real duma escola. Nesta questão não há inocentes, e houve uma vontade de encontrar bodes expiatórios de uma culpa partilhada. Pelos pais que largam os filhos e esquecem o seu dever de educar e zelar. Pela sociedade que desculpabilizou, relativizou e espera tudo e demais da escola. Pelos teóricos da educação que, complacentes, confundiram prioridades, relativizaram valores e esqueceram o ensino, a exigência e a autoridade. Pelos próprios professores que abusavam de baixas, que eram campeões de absentismo, e se acomodaram à rotina. Pelas políticas actuais irrealistas irresponsáveis e arrogantes. Como disse: não há inocentes.6.3.08
Grande Arte
A Grande Arte de Rubem Fonseca revelou-se um livro difícil de ler, pois foi-se tornando a pouco e pouco num caso sério e complicado de amor/ódio. Quando o comecei fiquei de imediato presa e enfeitiçada com a escrita, a sua fluidez, a forma magistral como se encadeavam os diferentes planos narrativos, os desdobramentos do narrador, o ritmo, os diálogos curtos, incisivos e inteligentes, a ironia sempre presente, uma dose certa de cepticismo. Tudo parecia perfeito. O romance obriga-nos a estar atentos, prende-nos sem no entanto ser inacessível ou difícil. O enredo é uma sinfonia daquelas que requerem todos os instrumentos conhecidos, tantas as personagens, e as acções.
No entanto houve uma altura em que comecei a cansar-me um pouco, a perder algum alento e atenção numa altura em algumas cenas violentas se sucederam e me incomodaram. Não, disse para comigo, ler livros destes que perturbam, que incomodam, não vale a pena. Gostei dos primeiros capítulos, fico por aqui. E assim foi. Pus o livro de parte, sem no entanto o arrumar nas entantes, e voltei a minha atenção para outros. Mas de vez em quando via o livro e achava que tinha de lhe voltar a pegar, jurando que o faria com cuidado e evitando as cenas violentas. Assim foi, envolvi-me outra vez com a orquestra sinfónica completa que é o romance até me ver envolvida noutra cena de alguma crueza e bastante desagradável. Aí zanguei-me de vez (pensava eu). Não quero saber disto para nada. Voltei a pôr o livro de parte. Passou um ou dois meses e o livro não me deixava, não saía do meu horizonte visual, queria saber como é que ia acabar, queria outra vez envolver-me. Assim foi e decidi que iria ler o livro até ao fim.
Um bom e grande romance, com todos os ingredientes a que temos direito: personagens fantásticas, bem desenhadas e cheias de vida e personalidade, enredo complexo, mistério, crime, suspense, intriga familiar, diferentes planos temporais, histórias na história, enfim, um verdadeiro romance e certamente um dos melhores escritos em língua portuguesa dos que li recentemente (verdade que não leio muitos). Muitíssimo bem escrito. Nem sempre simpático, nem sempre agradável de ler. Violento. Almas sensíveis devem abster-se.
4.3.08
Podia ser o Flying Circus, mas não é. Ainda há quem diga que Portugal não tem interesse nenhum.
Um partido que se forma ao centro do já bem preenchido centro. E imagine-se, num rasgo de cidadania e espírito pátrio, promete esperança e pontes entre nós, como se lá no centro do centro fizesse falta a esperança e como se não existissem já pontes demasiadas.
Suicida suicida-se e depois de suicidado continua a suicidar-se. Tudo num total de três facadas, num corredor técnico de um Centro Comercial.
História de Amor
“O Senhor já amou alguém?”, perguntou o português.
“Todo o mundo já amou, uma vez pelo menos”, eu disse.
“Todos não, nem todos. E amar, só se ama uma única vez”, disse Alberto. “Vim para cá seguindo uma mulher, uma deusa, uma santa. Ela havia entrado, um dia, no nosso restaurante em Belém do Pará. Assim que a vi apaixonei-me perdidamente, era ainda uma menina, de quinze anos. Servia-a à mesa sem que ela me olhasse um mísero instante sequer. Perguntei à senhora que a acompanhava, e que depois soube ser sua tia, de onde eram. Eram de Corumbá, respondeu-me a tia. Logo saíram. Não pude esquecê-la e não me envergonho de confessar que passava as noites a chorar de sofrimento. Emagreci e cheguei a cuspir sangue”.
Alberto levantou o copo como se estivesse a brindar o facto de ter cuspido sangue por amor. “Eu estava tão ensandecido que abandonei a mãezinha – que Deus a tenha, junto com o meu pai, no céu – e vim para Corumbá atrás da moça.
A garrafa esvaziara. Pedimos outra ao garçom.
“Quando cheguei aqui procurei-a por toda a parte. Abri este restaurante, economizei, prosperei, ganhei dinheiro, mas meu coração sangrava como o de um mendigo sem uma sopa fria para tomar. Um dia, um dia inesquecível, ao passar pela porta de uma igreja, vi um casamento. A noiva, toda vestida de branco, e uma grinalda de flores de laranjeira e um longo véu de renda seguro por dois pagens, um menino e uma menina, caminhava como uma princesa pela nave da igreja. Quando vi seu rosto senti algo terrível, como se um raio tivesse se abatido sobre a minha cabeça. A noiva era ela, a mulher dos meus sonhos. Saí da igreja como um cego, um morto desesperado, cambaleando, e assim fui até ao rio e nele atirei-me com a esperança de me afogar ou ser devorado pelas terríveis piranhas”.
A essa altura de sua narrativa, Alberto fez uma cara tão compungida que parei no meio a primeira garfada de pintado que acabara de ser servido. Seria uma indelicadeza degustar a comida ante tanto sofrimento.
“Mas esta é uma história feliz”, disse Alberto, mudando de semblante, “Não me afoguei pois nasci à beira do Elvas, onde aprendi a nadar, e as piranhas não quiseram comer a minha carne desventurada”.
Amor, o português sabia, era desvelo, respeito, mas também paciência. O mundo dava voltas. Seis meses depois do casamento, o marido da moça, que estava a pescar no Pantanal, caiu dentro d’água e como não sabia nadar, afogou-se. Alberto esperou um ano antes de começar a lhe fazer a corte.
“Isso merece um Terras Altas”, eu disse.
Não havia mais Terras Altas. Foi substituído por um Granleve. Para Corumbá era até bom demais. Saí do restaurante no estado de embriaguez que me deixava feliz. Além do mais gostava de histórias de amor que terminassem bem, como a do português.
Rubem Fonseca, A Grande Arte.
Campo das Letras
2.3.08
Junkyard
A sensação de que a escola é um junkyard, onde tudo é válido, tudo se experimenta, tudo se tenta, tudo se procura e tudo o que não é o seu principal objectivo se exige, perdendo de vista a sua função central e a estabilidade necessárias para a formação de uma geração atrás da outra, continua cada vez mais forte e mais dramática. Há um ano, a propósito do filme “Notes on a Scandal” falou-se do retrato da escola traçado nos primeiros 10 minutos do filme pela personagem encarnada por Judi Dench; um retrato cínico e amargo onde não se percebe bem que futuro a escola prepara quem a frequenta, e onde o respeito pela instituição é inexistente da parte de todos os envolvidos. A escola é nesse filme apontada como um prolongamento dos serviços sociais, mais do que um local de aprendizagem e do saber e da exigência, disciplina e avaliação que o aprender e saber exigem.
Nesta semana que passou realço dois factos. O primeiro na vizinha Espanha, melhor na Catalunha, com os folhetos distribuidos pelas escolas ao abrigo do programa “Salut i Escola” em que se discorre sobre as vantagens da masturbação aos alunos entre os 10 e os 16 anos. Esta é uma imagem da face desta vertente actual de laicismo militante (a vontade de “chocar” a tradição católica é demasiado óbvia) e de politicamente correcto. Sem querer pôr em causa as vantagens de uma educação sexual da parte da escola, mais informativa do que formativa (para não andar sempre a mudar ao sabor das últimas modas), eu interrogo-me sobre se não seria melhor concentrar os limitados recursos das escolas no estudo da matemática, da língua castelhana ou portuguesa no nosso caso, da ciência, da história, do inglês. O disparate parece não ter fim, e ainda bem para os envolvidos que o ridículo, tal como a masturbação, não mata. Isso o folheto não explicava.
Também esta semana a entrevista de Ana Benavente à SICN na quinta-feira, que por acaso vi. Percebeu-se bem demais a intenção e, tal como com o ex-ministro da saúde, Correia de Campos, a pressão contra M. De Lurdes Rodrigues, vem também de dentro do PS. Ana Benavente, ex-Secretária de Estado, foi patética e fiquei chocada e incrédula a ouvi-la num discurso já demasiado ultrapassado, gasto e penoso, e não me lembro de uma crítica contundente e pertinente à actuação da ministra. Tudo o que ela disse remete-nos para um universo muito pior do que o que aquele que a actual ministra mesmo nestes momentos de forte crise no sector, gerados também pela sua política, em que abundam a contradição, o autoritarismos incoerentes, a falta de estratégia, pode remeter. Para quem deseja ver mudanças e reformas no sistema de ensino em Portugal, Ana Benavente foi naquele momento a imagem de tudo o que não se quer: a complacência para com as “corporações”, professores, sindicatos, alunos, pais; o laxismo perante a exigência, rigor e a autoridade da escola, as avaliações de todos os envolvidos (alunos primeiro, professores também); a obsessão pelos consensos ousando até, apesar da precaução, a palavra “diálogo”.
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