“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

27.5.08

Noventa, e não foi suficiente.


My Blueberry Nights de Wong Kar Wai, é um filme chato longo e lento. Confirma o talento de Norah Jones como... cantora, pois ela não sabe representar. Há uns momentos interessantes a nível de representação com os restantes actores secundários (David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman) pois nem Jude Law se safa pouco convincente no seu fake accent. A realização é xaroposa, um pouco kitsch e com ares ambiciosos, mas sem osso para roer. Uma fotografia pretensiosamente enevoada, momentos mortos e tal como esperado (o que já é muito mau só por si) um final do mais básico que há (socorro!) com um beijo complicadíssimo que não chega a entusiasmar apesar de tanta encenação e noventa tentativas (segundo o que li algures) para acertar com “a coisa”.

Combate ao Sedentarismo 54

Sidney Pollack. "Out of Africa"

Poderia começar a escrever este post com as palavras com que comecei o último: há coisas que parece que já tinha esquecido e lembrá-las é como uma janela que se abre....

Isto a propósito da morte de Sidney Pollack, um realizador que foi ao longo da vida uma presença constante, uma espécie de vizinho que sabemos quem é, conhecemos-lhe a cara, vemo-lo através do tempo que passa, das coisas que faz, mas com quem nunca falamos. Vi-o a última vez (como actor e produtor) em "Michael Clayton" e como realizador em “The Interpreter”, um bom thriller. Parece que o “vi” pela primeira vez com grande entusiasmo na altura em “Tootsie” e só depois o vi naquele filme culto que marcou uma época “They Shoot Horses, Don’t They?”. Chorei as lágrimas esperadas no melodrama dos melodramas “Out of Africa”, que depois de uma fase de nojo, revi recentemente com gosto, “The Way We Were”, nunca me entusiasmou tanto como melodrama. Pollack foi (é) um dos representantes da essência do cinema americano, no seu caso nos finais do séc XX. May he rest in peace.

25.5.08

Pronúncia do Norte 4

Imagem roubada de A Cidade Surpreendente. Um blogue de onde apetece sempre roubar imagens.


Há coisas que parece que já tinha esquecido e lembrá-las é como uma janela que se abre sobre a memória e os sentidos do passado. Estes dias no Porto sempre debaixo de chuva relembraram-me não só a solidez da cidade mas sobretudo a sua dignidade quando a chuva cai implacavelmente e sem fim à vista. O Porto não se curva perante a chuva, recebe-a de forma inabalável e com uma impassividade própria. E a vida continua.


Cada vez que passo na Avenida dos Aliados confirmo a opinião de como gosto mais da Avenida tal como ela está hoje: ampla e aberta, também com mais dignidade e dando mais visibilidade aos edifícios. O mesmo não posso dizer em relação à Casa da Música cuja volumetria continua a surpreender-me negativamente e a deixar-me. Continuo a senti-la um mamarracho na Rotunda da Boavista.

20.5.08

Plataforma contra a Obesidade 40

(Atribuído a) Barend van der MEER (1659 ? - ?, entre 1692 et 1702)
Nature morte au chandelier

MFL, ou Uma Questão de Estilo

Manuela Ferreira Leite não entusiasma, não empolga, nem faz acreditar num Portugal melhor para amanhã. Às vezes paro e pergunto-me se tenho saudades do tempo em que ainda me atrevia, em momentos mais ousados, a ficar entusiasmada, empolgada e acreditar que Portugal um dia será como aquela sábia mistura da Irlanda e Finlândia temperada com sabedoria anglo-saxónica, fé como no American Way of Life tudo com muito estilo, design à maneira italiana. Não, não tenho saudades, e cada vez mais gosto de não ficar empolgada ou entusiasmada por um político ou mesmo por um projecto político. Olho para ambos com cepticismo e desprendimento e encontro-lhes sempre pelo menos três vícios por cada virtude. Não há Blair, Sarkozy, Bush, Zapatero, Obama que me entusiasme. Não há PS que me alicie, PSD que me comprometa ou PP que me mova.

MFL não é excepção. As suas passagens pelos diferentes Ministérios nunca me marcaram positivamente, nem deixaram grandes saudades, e o seu actual discurso insistente numa busca de identidade partidária, no desatino que é hoje o PSD, na social-democracia assusta-me um pouco. Não gosto de socialismos e sempre me pareceu que a social-democracia era coisa de sóbrios mas ricos nórdicos e protestantes. Portugal é um país de vícios e o maior deles todos é o Estado cuja omnipresença e omnipotência desafia a própria essência divina. Desde a luz que acendemos, ao que comemos, passando pelo que estudamos, pelos bancos onde fazemos empréstimos, ou pela pensão que gostaríamos ter no futuro, de uma forma mais ou menos evidente, directa ou indirecta, o Estado está lá, olhamos para a direita e vemos o Estado, viramos as costas e atrás está o Estado. A presença e o peso do Estado (já lhe chamaram Monstro) na sociedade não parece representar a forma como eu vejo uma sociedade livre, democrática e flexível. MFL não preconiza a diminuição do peso do estado que eu gostaria, por convicção ideológica ou por pragmatismo e sentido da realidade (os grandes vícios raramente se perdem), ou por uma mistura das duas coisas. No entanto, e dadas as circunstâncias actuais do PSD e do país e dados os candidatos à liderança do PSD, espero que seja ela a nova líder do PSD.

Espero que MFL, caso ganhe a liderança do PSD, traga sobriedade, acutilância, bom senso, seriedade e credibilidade a um terreno plástico, inconsistente e aleatório que hoje parece ser a política quer no governo quer na oposição. Eu quero acreditar nisso. Quero acreditar que MFL não vai fumar às escondidas atrás das cortinas, nem vai prometer em frente às câmaras de televisão que vai deixar de fumar, ou explicar que a sua má-disposição não tem a ver com o facto de ter decidido deixar de fumar. Quero acreditar que MFL não vai explicar se fumou charros ou não nem se gostou ou não do sabor. Não emitirá comunicados sobre se fez ou não uma sesta, não explicará se faltou a um compromisso de Estado por ter estado ou não num casamento de amigos, nem se deleitará com os concertos para violino de Chopin. Não tentará convencer-nos que fez quatro exames universitários num dia, que Domingo é um dia normal para tirar certidões, e que não percebe porque os registos da AR terão sido modificados. Nem nos obrigará a ver imagens suas a fazer joggings no Calçadão ou na Praça Vermelha. Esta certeza é muito reconfortante.

Sem querer desvalorizar a importância que é ter uma visão para o país que permita estabelecer as prioridades e elaborar um programa de acção realista e coerente quer para um partido do governo quer para uma oposição confesso que dadas as circunstâncias mais recentes, não consigo minimizar a importância da pessoa do líder e o lado mais sóbrio e algo austero de MFL não me deixam indiferente.

Esta notícia deixa-me aturdida e pergunto-me que mais é que estas comissões de investigadores que fazem estudo a propósito de tudo vão inventar para que a Educação em Portugal continue a ser palco de reestruturações, reformas, re-isto e re-aquilo sempre com temor referencial pelas “alterações menos ‘bruscas’”. Nunca nada é suave de mais para os educandos, parece ser a palavra de ordem de sempre. Espero que prevaleça o bom senso e se opte pela estabilidade, pois uma das causas do estado do nosso ensino é a falta de estabilidade e de uma visão a longo prazo. Em vez de reformar programas ou de reestruturar ciclos, dever-se-ia parar, respirar e modificar mentalidades. Mais rigor, mais exigência, mais disciplina deveriam ser os motores da educação, para professores, pais e sobretudo para os alunos que é deles o futuro.

18.5.08

Torre de Belém

Aumentar para ver o ridículo "colar" da Torre de Belém. Foto tirada há dois dias.

Num primeiro momento fiquei intrigada, ali de pé na varanda a olhar ao longe a Torre de Belém, mas não perdi um segundo mais a pensar nisso. Depois quando vi que a bizarria persistia, e porque não tinha passado por lá, tentei perceber o que era e muni-me de binóculos de longo alcance e telescópio. O quê? Bolas plásticas enormes das que parecem marcar rios e mares a enfeitarem a Torre de Belém, qual pescoço com colar étnico para festa popular? Tive que passar por lá para confirmar o adereço, e senti dificuldade em focar os olhos, a mente e sobretudo o gosto e a sensibilidade estética. A Torre de Belém está horrorosa, pior do que isso, está pirosa. Um monumento que não sendo propriamente o Mosteiro de Alcobaça mas que é, na sua simplicidade, digno, sólido, de linhas bonitas, e carregado de história e simbolismo nomeadamente por ser o ex-libris da cidade de Lisboa, e que é nosso património – é meu e de todos os portugueses, não pode ser objecto de experiências decorativas sem nexo nem gosto e que vilipendiam a sua dignidade, por muito interessante que possa ser o pretexto, coisa que desde já duvido, mas fica feita a salvaguarda. Será que ninguém pensa, nos serviços da cultura e do património?

Há uns tempos falava-se em promover o Turismo Cultural em Portugal (a propósito do S. Carlos, por exemplo). Não é assim com iniciativas pindéricas que mais não fazem do que retirar a dignidade arquitectónica histórica e simbólica do monumento que se promove o dito turismo cultural, nem sequer o turismo normal (se alguém entender a subtil diferença existente nas cabeças dos governantes que fazem planos e nos promovem a West Coast of Europe, que eu não entendo) que em Lisboa vive de meia dúzia de monumentos, trajectos e referências. E muito sol, muita luz, muitas sardinhas.

Por favor, voltem a dar à Torre de Belém a dignidade que ela merece.

17.5.08

Noite de Fado

O Fado está lá, faz parte da identidade ou de uma qualquer memória do ser português, mas não faz parte do meu quotidiano, muito menos do modo “default” de algum instinto musical que tenha. Claro que quando cresci ouvi alguma Amália, algum fado de Coimbra, e esporadicamente fui ouvindo outros fadistas, mas nunca em grande quantidade nem nunca com grande afinco. Creio que este é um padrão comum a muita gente que, como eu, nasce e cresce no Porto. Mas umas idas ao Senhor Vinho há uns anos (porque teve que ser, mais do que por opção) fizeram-me conhecer Camané, e de imediato percebi a beleza incrível e inconfundível da sua voz e o seu talento único e quieto para estar num palco e encher completamente o espaço. No entanto nunca me passaria pela cabeça ir a um espectáculo ouvir fado horas a fio.

Por isso surpreendi-me quando, num impulso pouco comum, decidi que queria ir vê-lo ao Coliseu ontem. Desde o primeiro momento com Sei de um Rio (o video do link já é do espectáculo de ontem) Camané electrizou o público que não lhe poupou ovações e bravos em quase duas horas de fado num espectáculo memorável e alongado de tantos encores. A cumplicidade discreta e pouco ruidosa, mas intensa e visceral que de imediato estabelece com o seu público é única e percebe-se como é que conseguiu, por exemplo, esgotar duas noites seguidas no Concertgebouw de Amsterdão. Ontem foi uma noite de fado que fica na sua memória e na nossa.

14.5.08

Dias de Verão 2

Paul Cezanne (1839-1906)
Les Grandes Baigneuses

É pior a emenda do que o soneto. Se já é mau José Sócrates ter violado a lei, fumando num avião é ainda pior dizer que “se violei alguma lei, peço desculpa”. Esta pose de Maria Madalena arrependida e penitente fica-lhe ainda pior do que a do fariseu, grande mentor de limpas e higiénicas leis. Sem esquecer que JS é um amante de grandes viagens e que conhece bem as normas de fumo a bordo de aviões. Com o nosso primeiro-ministro nada bate certo, tudo é turvo, até as coisas mais banais. Ainda o vamos ver empertigado e pomposo a pagar a multa vestindo o fato de cidadão normal que cumpre. Vai uma aposta? Os contornos de grande caso mediático e grande problema nacional deste “fait-divers” que tem honra de notícia de abertura em telejornais e comentários de vários quadrantes da sociedade, presidentes de diversas instituições, bem como do constitucionalista Jorge Miranda, deixa-me boquiaberta.

13.5.08

Lugar Comum 2

Os jacarandás que começam a encher Lisboa, este ano um pouco mais cedo. Hoje foi a Avenida das Descobertas ao som de Albinoni na Antena 2 com o concerto para oboé e cordas pelo maestro Trevor Pinnock. O concerto pode ser ouvido/visto aqui. (A única interpretação que encontrei no youtube). Os jacarandás podem ser vistos por toda Lisboa, ruas e avenidas inteiras vestidas de roxo. Um deslumbre. Há excursões à Holanda para ver os campos de tulipas, mas nunca percebi porque não há excursões a Lisboa para ver os jacarandás. Não ficam a dever nada às já de si magníficas tulipas.

Tal como FJV no Origem das Espécies, eu também sou contra a "escola desejável", citada por JCD no Blasfémias.
(Também sou contra os textos pirosos)
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12.5.08

Votar ou não votar no PSD, eis a questão.

Manuela Ferreira Leite fez mal em explicar-se. Um dos pilares da democracia assenta no voto secreto, e um dos pilares da liberdade individual é, no nosso silêncio e solidão, podermos votar sem ter que dizer, explicar ou justificar em quem ou porquê, e esta premissa é válida para todo e qualquer cidadão incluindo os militantes partidários, os líderes dos partidos que foram, são ou hão-de ser.

Honestamente não percebo porque é que o “obviamente não respondo de MFL” causou tanta indignação, nem tão pouco percebo porque é que ela tem sido tão criticada, por tantos sectores, todos eles amantes de valores como a liberdade, liberalismo, individualismo e outras palavras da mesma área semântica. Em nome de quê, é que ela, ou outro qualquer cidadão tem que revelar o seu voto. Será que não se reconhece a MFL o direito de votar como quer, como a sua consciencia dita, como a sua razão recomenda, como o seu ímpeto condiciona? Não terá ela, ou outro qualquer cidadão o direito de, pertencendo a um partido, votar noutro porque isto, porque aquilo ou simplesmente porque sim? Não é isso uma face da liberdade individual que todos os dias reclamamos a propósito de tudo e de nada? Porque é que tem ela, mesmo pertencendo a um partido político, repito, que revelar ou explicar o que deveria ser uma opção individual e secreta? Ou será que a liberdade tem condições pesos e medidas diferentes conforme os casos?

We Own The Night

We Own the Night ou Nós Controlamos a Noite, uma realização contida e exigente de James Gray. Formalmente muito sóbrio e com uma narrativa coerente e fluida. Provavelmente é um dos filmes menos românticos que já vi. Tão realista, tão normal que o que gostamos é dessa previsibilidade e só somos surpreendidos, pelo facto de nada nos surpreender: é mesmo assim. A lealdade, a família, o amor. Sem rodriguinhos nem concessões estilísticas quer do argumento quer da forma a favor de mais cor e textura dramática. Linear, simples e muito bom. Joaquin Phoenix é um belíssimo actor, bem como Mark Wahlberg e Robert Duvall. Eva Mendes passeia-se por lá, mas não convence.

11.5.08

Nunca deveria sequer pensar em escrever sobre Futebol 2

... e por isso andei todos estes dias a combater o impulso de escrever sobre o caso Apito Dourado, mas hoje não resisto. António Barreto na sua crónica do Público diz o que eu gostaria de dizer sobre o caso e o que tantos de nós pensam. Fala do Porto e do Norte, mas sobretudo fala desta fatalidade que é o gosto amargo da Justiça em Portugal. As suspeitas de que há justiça para uns e Justiça para outros.

Há uns anos dizia Maria José Morgado, do alto da sua cátedra acima da suspeição, dos terríveis problemas de corrupção no futebol, das mafias, dos sub mundos, da podridão. Perante o desfecho do caso Apito Dourado e perante o que ficou provado, pergunto-me o que falhou? Penas destas que mais parecem feitas “para inglês ver”, para calar o povo (uma parte do povo) sedento de justiça, para justificar o tempo e os meios gastos, não convencem. Como o caso Casa Pia, como o caso Maddie ou o caso Joana, a Justiça parece sempre morrer no caminho.
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10.5.08

Plataforma contra a Obesidade 39

Paul Gauguin. (1848-1903).
Still Life with Three Puppies
Um momento raro: o artigo de José Pacheco Pereira no Público de hoje. A ler da primeira à última palavra.

8.5.08

Caldinho Cultural

Há coisas que preferia não saber, e quando os media omnipresentes de diversas formas e feitios veiculam essa informação, tento distrair-me, desligar, mudar o canal, não olhar, não ver, não saber. Pelo menos tentar que a informação fique a pairar pelo ar e se disperse rapidamente mas que realmente não se faça realidade na minha mente. Tem sido assim nas últimas semanas em relação à história do cidadão austríaco que sequestrou, violou e teve sete filhos da sua filha. Não quis saber, não quis ouvir, não quis ver. Até que hoje fui bombardeada várias vezes durante o dia com a publicidade à revista Visão que tem um dossier especial sobre o assunto. É óbvio que não comprarei a revista nem quero ler nada sobre o assunto de tal forma ele me perturba não só no aspecto humano/afectivo, mas no aspecto mais racional que tenta analisar os porquês, as motivações, os objectivos. Parece que o meu enquadramento mental não foi estruturado de forma a interpretar e digerir este tipo de comportamento pensado, frio, implacável, organizado e levado a cabo sem hesitação, nem retrocesso, sem culpa, nem fraqueza, sem piedade nem compaixão. Vinte e quatro anos neste registo. Repito, vinte e quatro anos de intencionalidade. Não preciso de detalhes, de planos do bunker, de explicações do dito cidadão, de testemunhos de vizinhos para que o horror desta situação me perturbe, e a passividade da vítima me aterrorize. Porquê? Para quê?

Há no mundo situações de horror, enorme injustiça, perversão, desigualdade, violência gratuita, e não é preciso pensar muito para elaborar uma longa lista de horrores dos nossos dias. Mas este caso tem esta intencionalidade, este pensar, esta frieza, esta repetição ao longo dos ditos 24 anos, que estão para além dos próprios actos de violência, violação, perversão. E este facto incomoda demasiado. É como se estivéssemos perante um concentrado de Mal e esse Mal tivesse um rosto, uma forma, um corpo. Mal no tradicional sentido judaico-cristão, como o que é oposto ao Bem, o que se afasta do Bem (Deus). Como se afinal este caldinho cultural que bebemos diariamente e que evita pensar nas noções de Mal e de Bem, tivesse sido contaminado, por um momento.

Dando Excessivamente sobre o Mar 31

Claude Monet.
On the Cliff at Pourville, Clear Weather. (1882)

6.5.08

Pode repetir?

Hoje ao folhear um jornal diário de distribuição gratuita, li do princípio ao fim – coisa rara – um anúncio para um espectáculo de música no S.Luis no dia 8 de Maio com Maria João, Rui Reininho e Pedro Abrunhosa de canções de amor. O texto do anúncio, pomposo até doer, dizia, no meio do texto coisas do género: “três cantores de geografias musicais e afectivas diferentes”. Como? Pode repetir?

Por favor! Se “geografias musicais” já é mau (só lá chegamos se fecharmos os olhos com força) a história de “geografias afectivas” até dá nauseas e só pede mesmo a porta de luz verde que diz EXIT. No final do texto para fazer bonito utiliza-se esta banalidade: “Este é o ponto de partida e chegada”. Porque será que não escrevem coisas normais e despretensiosas quando têm como objectivo darem-nos informação?
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Dias de Verão

Paul Cézanne (1839-1906)
Baigneurs

3.5.08

De vez em quando leio posts que mais parecem lufadas de ar fresco. Hoje este soube-me assim.
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2.5.08

1.5.08

Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 2

Socratismo e PSD

Neste momento é o socratismo que nos governa tendo-se assumido, através do executivo, como uma política reformista de rupturas, de exigência orçamental, de modernidade, e com uma ambiciosa componente tecnológica. Tenho, por vezes, neste blogue manifestado as minhas reservas em relação a algumas destas políticas, ou em relação à forma como elas são conduzidas, e poderia tê-lo feito em relação a mais. Parece que muito pouco foi feito do tanto que há a fazer, muito pouco foi reformado do que há a reformar, mas é inegável que o deficit foi controlado, que muitas “corporações” foram beliscadas e que o movimento criado, pouco e muitíssimo discreto, tem sido no sentido da modernização e competitividade e um sinal disso é o facto do Socratismo não agradar à esquerda clássica, PCP e BE. Mas para muitos outros o pior do Socratismo é José Sócrates himself, o homem político, o seu vazio, a sua opacidade, o seu estilo, as suas prioridades, os seus anúncios constantes disto e daquilo sem consistência, sem reflexão, a sua imagem cuidadosamente preparada pelos conselheiros de comunicação política, o seus discurso, o seu percurso, o seu curso, os seus projectos de engenharia e os seus sapatos Prada, o seu tom de voz moldado e trabalhado para aparentar espontaneidade, as suas frases slogan, os joggings de cada vez que vai em visita oficial ao estrangeiro, os “porreiro pá!”, as distribuições de computador. Um dos elos mais fracos do Socratismo é a credibilidade de José Sócrates.

Outros “ismos” que quiserem ocupar maior espaço político terão que, com toda a honestidade, dizer o que fariam realmente neste país que é o Portugal de hoje, dependente de cada pequena oscilação do preço do petróleo, da “conjuntura” internacional, com quatro ou cinco grandes grupos económicos que vivem em promiscuidade com o Estado, onde a excelência não é premiada e a criatividade altamente asfixiada com impostos, onde a classe média se torce ao fim do mês e onde todos reclamam os seus especiais e excepcionais direitos adquiridos, onde nenhum estudante até ao secundário pode chumbar por muito que isso custe à turma, aos professores e aos contribuintes, onde se ensinam competências e não matéria, onde uma exposição mal amanhada do Hermitage no Palácio da Ajuda é elevada ao nirvana cultural, onde se constrói demais e onde se planeia de menos. Poderia continuar mas não vale a pena. A questão é, sem demagogias e discursos ocos e inflamados de mudança e reforma (há quem já não possa ouvir falar em liberalismo, eu já tenho dificuldade em ouvir falar de reforma, de tal forma se banalizou ultimamente o termo ao ponto de qualquer medida avulso se fazer passar por uma reforma) saber exactamente o que é que outro “ismo” faria de diferente. Que capacidade de manobra teria neste Portugal de hoje, outro “ismo” para grandes medidas e rupturas sem desgastes sociais e sem o povo em protestos na rua. Eu sei que a credibilidade não entusiasma ninguém, não move, não é excitante, mas há um deficit dela no Socratismo, e os discursos irrealistas, bem intencionados cheios de teoria disto e daquilo também já não são novidade.

Mark Rothko
Red, Orange, Tan, and Purple, 1949

Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 1

Ismos e Istas

Confesso-me perdida entre os últimos “ismos” e “istas” que povoam a minha (pouca) vida política. Lembro uma fase do pós 25 de Abril em que miúda tentava perceber diferenças entre comunismo, socialismo, leninismo, marxismo, trotskismo, maoismo. Hoje sei de onde vem cada palavra, conheço o contexto histórico que as fez o contexto ideológico que as tornou conhecidas, mas já não sei bem o que representam nos dias de hoje, a não ser o século XX. Hoje, à nossa medida, que somos um país pequeno e periférico (sim, com um clima óptimo e sardinhas de fazer inveja, mas mesmo e apesar do clima e das sardinhas, assim dependente e de recursos limitados) vejo o país político enredado em “ismos” e “istas” a perderem-se no horizonte. Ele é Santanistas, ele é Menezistas, ele é Barrosistas, ele é Cavaquistas, ele é até Socratistas ou Alegristas. Numa lógica a um nível de quarta classe o “ismo” dá o “ista”, por exemplo, o comunismo deu os comunistas, o maoismo deu os maoistas. Ora neste Portugal do séc. XXI ainda estou para perceber o que é o “ismo” que dá um “ista”, isto é o que é o Santanismo que dá Santanistas, o Cavaquismo que dá Cavaquistas... Parece que esta teia de “ismos” e “istas”se vai tecendo à volta de alguém, de um líder (ou potencial líder), de uma circunstância política de um momento na história, de tensões pessoais mais do que de um pensamento estruturado ou de uma corrente ideológica. Parece que estamos no grau zero do pensamento ideológico, mas talvez seja este um novo desafio deste século, pelo menos para países democráticos, mas periféricos, pequenos e dependentes como o nosso: fazer política sem ideologia. Viabilizar o país tornando-o mais moderno e competitivo, menos irrelevante, pobre e periférico parece ser o grande desígnio de qualquer político que queira governar Portugal, um país de grandes vícios públicos, com um Estado demasiado pesado e omnipresente, de inércias várias, de movimentos lentos e pesados. Um país de fados.

29.4.08

Mark Rothko (1903–1970)
Untitled, 1954

Crise Alimentar

Há qualquer coisa de realmente perverso na ideia de uma crise alimentar, na possibilidade que se desenha de escassez de alimentos face às constantes subidas de preços dos cereais nos mercados de mercadorias, e das subidas de preço previsíveis para os supermercados. Há décadas que se diz que há comida para todos no mundo, nós (o mundo ocidental, claro) é que não queremos ou sabemos distribui-la. Que o que se produz é mais do que suficiente para alimentar a população mundial. Falou-se de um excesso de produção de leite e houve um tempo de montanhas de manteiga que a então CEE impedia de circular, bem como subsídios para que agricultores deixassem de produzir. Não percebo nada. Toda uma vida a fazerem-me acreditar, e a tentarem dar-me má consciência, que o problema da alimentação era um problema de distribuição e má vontade das nações “ricas” bem como dos efeitos dos malévolos agentes económicos. Afinal parece que andei a ser enganada, a questão da escassez coloca-se afinal.

28.4.08

Plataforma contra a Obesidade 38


Jan Davidz de Heem (1606-83)
Still Life with Glass and Oysters

24.4.08















Hoje há festa em Belém.

Velas 12

Tejo ao fim da tarde. Diria que é a "Sagres". Lindo.
Vale a pena aumentar, vê-se a vida a bordo.
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23.4.08

Já está. Discretamente, suavemente, ninguém parece muito incomodado, ninguém parece muito interessado, ninguém parece muito informado. Até agora não doeu, veremos mais tarde os efeitos secundários.


Autópsia de um Crime (Sleuth)


Quatro homens levaram-me ao cinema, a saber: Jude Law, Michael Caine, Harold Pinter e Kenneth Branagh, por esta ordem. Vi o que esperava ver, confesso que não esperava muito mais. Um Jude Law que dantes era quase só um homem bonito demais, com uma voz bonita demais e um sotaque composto demais e que a pouco e pouco se vai libertando dessa imagem e se vai fazendo um belo homem, um bom actor com a bela voz de sempre. Michael Caine é Sir Michael Caine e sobre ele e as suas composições não há muito para dizer: representa como quem anda ou come e bebe, prende-nos ao ecrã e mantem uma voz belíssima e o sotaque que sempre o caracterizou. O filme não funciona como filme: uma realização complicada e exagerada (ai Kenneth Branagh!) cujo propósito não entendi – cinema ou teatro filmado? Resultou um objecto híbrido sem grande nexo, às vezes um pouco pastoso num cenário demasiado pomposo, e onde a ausência de uma trama e de um fio condutor o ajudam a tornar algo estéril e desajustado. Mas, mesmo assim fiquei presa. Os actores exibiram um certo virtuosismo defrontando-se com algum afinco na representação, com um diálogo, às vezes inteligente, como arma. Foi só. É só como o prazer de quem ouve um pianista a exibir-se tocando escalas, estudos de Czerny, excertos complicados de Schumman ou Lizt para aquecer os dedos e se preparar para o concerto logo à noite. Do concerto propriamente dito, não se viu nada.

22.4.08

Bento XVI nos EUA, 2

Dos Direitos Humanos

A apologia dos valores culturais do mundo ocidental nunca deixam de estar presentes nas diferentes intervenções do Papa o que também aconteceu nesta sua viagem aos EUA. Na ONU ele abordou a questão dos direitos humanos da sua importância para a paz e ousou apelar a uma universalidade no reconhecimento dos mesmos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) adoptada pelas Nações Unidas após os tantos abusos decorrentes da Segunda Guerra Mundial, nunca teve um carácter vinculativo e tem tido ao longo dos tempos os seus opositores mais ou menos silenciosos e continua ainda hoje a ser um tema que condiciona tantas vezes a agenda diplomática e política internacionais e, mais importante, condiciona a vida de milhões e milhões de seres humanos que são vítimas de abusos. Apelar à universalidade dos direitos, é insistir na profissão de fé na cultura humanista predominante no mundo cultural judaico-cristão e desafiar e impelir de forma clara a organização que os reconheceu e declarou a uma maior exigência dos seus membros no respeito pelos direitos humanos.

Também no encontro com os jovens e lembrando a sua juventude durante o regime nazi, Bento XVI falou da necessidade de prezar a liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos que os jovens hoje, em contraste com a sua juventude, gozam nos EUA e nas democracias ocidentais. E mais uma vez, o Papa foi mais longe alertando contra os perigos do multiculturalismo e do relativismo moral. Se a referência ao relativismo moral é um tópico caro a Bento XVI, já a referência aos perigos do multiculturalismo é ousada porque mais incómoda dado que nos meios mais tolerantes se tende a uma posição algo passiva, que prefere tantas vezes fechar os olhos para não ter que se confrontar com problemas como o desrespeito pela democracia, liberdade de expressão, igualdade entre sexos e o abuso da violência. Alertando para os perigos do multiculturalismo Bento XVI questiona a “bondade” de todas as tradições e culturas que se confrontam (não necessariamente no sentido bélico) hoje e tão de perto com a nossa.

21.4.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 30

Hippolyte FLANDRIN
Jeune homme nu assis au bord de la mer (1836)
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Bento XVI nos EUA

Mais uma viagem de Bento XVI e mais um sucesso segundo o que se pode ler na imprensa deste e do outro lado do Atlântico. Com um estilo bem diferente do do seu antecessor, Bento XVI acaba sempre por surpreender no calor do contacto, nas palavras e gestos que usa. Os seus discursos que já não surpreendem, são sempre exigentes e obrigam a alguma reflexão. Mais do que um comentário à visita do Papa, à escolha da sua agenda e aos seus momentos marcantes, bem como à importância política da mesma, eu gostaria de retomar alguns tópicos por ele lançados durante estes dias e lidos na comunicação social quer nacional quer internacional.

Um bom comentário/síntese à visita Papal pode ser lido aqui. Outro interessante comentário sobre uma questão marginal (aparentemente) à visita e pontual aqui.
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20.4.08


Estes últimos dias têm-se revelado dias de folga crítica para José Sócrates. Começou com a divisão dentro do PSD a propósito das palavras de Rui Gomes da Silva, passou pela demissão de Luis Filipe Meneses, e pelas indecisões das futuras candidaturas dentro do principal partido da oposição. O Presidente Cavaco Silva esteve na Madeira uma semana desviando também as atenções para lá. O mau tempo em todo o país distraiu-nos, e o Benfica perdeu mais uma vez para grande dor de tantos portugueses. E de repente passa uma semana em que nem se ouve falar de José Sócrates, e mal se ouvem umas coisas aqui e outras acolá da política governativa, do TGV, da Saúde e dos Serviços de Urgências, da Educação e do acordo com os Sindicatos dos Professores, da grande Manifestação da CGTP junto à Assembleia da República, da crise e dos números. Volta a ser tempo de olhar de novo para o país real.

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(...) o partido fez como as famílias fidalgas: desbaratou o capital. Não tem nada. A não ser saudades, sede e fome. De poder.

Isto e um retrato implacável quer de Luis Filipe Meneses quer dos democratas que têm governado Portugal, no artigo de António Barreto no Público.


19.4.08

Combate ao Sedentarismo 52

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Nunca deveria sequer pensar em escrever sobre Futebol

Confesso não perceber nada de futebol, nem fazer muito esforço por perceber. Se do jogo pouco entendo, então daquilo a que se chama “mundo do futebol” é que não percebo nada mesmo, em tão pouco me apetece tentar perceber. Acredito que seja um mundo cheio de paixões, dinheiro, vícios, influências, jogos de bastidores porque é aquilo que parece ser mais óbvio e fácil de acreditar. O meu saber futebolístico resume-se a ver os jogos da Selecção Nacional em momentos decisivos (Euros e Mundiais) e em querer saber se o meu clube, o Futebol Clube do Porto, ganha ou não quando me lembro de que é fim de semana e que talvez tenha jogado e, felizmente, regozijar-me com as suas vitórias.

Apesar deste curriculum brevemente resumido, tenho ficado absolutamente boquiaberta e colada à televisão cada vez que falam do Boavista, e desta recente crise em que está e que mais parece coisa de outro mundo: o passivo, os salários em atraso, o investidor “mistério” em conferência de imprensa a garantir que está preparado para injectar milhões de euros no clube, mas que afinal já não vai investir porque depois de hoje ter sido interrogado pela PJ é agora arguido num processo de fraude, a ameaça de greve por parte dos jogadores, o dinheiro que entretanto chegou em forma de cheque com garantia dum banco da Indonésia (foi o que ouvi nos Telejornais da noite) e a greve que afinal já não vai ser. Sinto-me perdida perante uma história deste calibre, que mais parece um romance de cordel em versão futebolística, num país de ficção e de lunáticos, e que faz a falada crise do Benfica parecer simples. Nem sei o que pensar sobre o assunto, nem tão pouco se, enquanto cidadã nomeadamente porque nascida no Porto não muito longe do Estádio do Beça, devo pensar algo. Uma coisa eu sei. Nunca deveríamos estar a passar pela situação de assistir a esta crise surreal que não entendo e nunca numa liga de honra (ou lá como é que se chama esta liga dos melhores) deveriam estar clubes sem solidez financeira e de gestão necessárias para fazerem uma época completa sem este tipo de crises, se é que “crise” é a palavra correcta para definir o que se passa - parece-me uma palavra demasiado séria para este enredo que no entanto é também demasiado sinistro para ser opera buffa. Eu não disse que nunca deveria sequer pensar em escrever sobre futebol?

17.4.08

Tardes de Inverno 11

Walter Richard Sickert (1860-1942)
Ennui

15.4.08

Estrogénio e Progesterona

Não me lembro de um acto, decisão, medida política de Zapatero de que tenha gostado. Mas de repente e sem pensar muito daria uma lista exaustiva de actos decisões, medidas, tomadas de posição, prioridades políticas, de que discordei. Tal como com o conteúdo político, não gosto do seu estilo, desse constante bicos de pés que se vê na vontade de estar sempre na crista da onda politicamente correcta tudo muito bem planeado pelos profissionais do marketing comunicacional político. Mas hoje – acreditando que estas nomeações não têm como único objectivo colocarem Zapatero num patamar mais alto do politicamente correcto – tenho que confessar que o admiro pela escolha de tantas ministras e muito particularmente pela ousadia de ter nomeado uma Ministra da Defesa grávida. Ver uma mulher grávida Ministra a passar revista às tropas é uma imagem carregada de simbolismo à qual, enquanto mulher, é difícil ficar indiferente.

Num mundo em que as mulheres políticas em cargos de maior responsabilidade tendem ainda a ter como modelo Margaret Thatcher e a ser, como tantas vezes se comenta, mais homens do que os homens, pela determinação, força e exigência, dá gosto ver uma mulher política no auge da sua feminilidade: redonda, com estrogénio e progesterona no seu máximo e com roupa feminina tal como a sua condição exige. Final de gravidez, parto, aleitamento, e a respectiva montanha russa hormonal, eis o que espera a Ministra da Defesa espanhola e, como se isso fosse incompatível com o exercício de qualquer cargo de responsabilidade, eis os medos e tabus (tão previsíveis, afinal) por trás das críticas que têm sido feitas a esta escolha de Zapatero. Se não, eu não percebi mesmo o que é que se critica com esta nomeação: a nomeada aparentemente ter competência e curriculum? Ser socialista? Ser Mulher? Estar grávida?

14.4.08

Velas 11

Hoje cedo
Hoje cedo

12.4.08

Crónica Da Vida Num Resort 3

A imaginação criatividade e flexibilidade linguística brasileira atinge o seu auge na hora de nomear, e isso nota-se na hora de nomear os seus filhos tendo os brasileiros um leque de nomes próprios capaz de espantar qualquer espírito. Contracções entre dois nomes, trocas de letras, sílabas, anglicismos, são algumas das técnicas usadas para construir um novo nome, algo que os enche de orgulho. Nada que não soubesse, mas estar lá e ouvi-los chamarem-se uns aos outros é um exercício constante de decifração e mesmo memorização se queremos não ter dificuldade em lembrar o nome momentos depois. Élida, Nedmilson, Sue Ellen, Jaquinho são alguns exemplos que lembro graças ao mais notável e fiável exercício de memorização: escrever os nomes num papel.

Perante este universo delirante de nomes próprios estive quase uma semana sem coragem para interpelar o Eduardo e lhe perguntar porque é que ele era Eduardo, tão simplesmente Eduardo e não Eliduardo ou Gilduardo ou Neduardo. No penúltimo dia ganhei coragem de o fazer. Ele riu-se e disse que os pais deviam ter esgotado toda a sua imaginação ao nomearem a irmã, e que deviam ter querido fugir da letra “v”. Pedi as explicações que ele deu pronta e divertidamente: a irmã é Vanadécia (aposto que não há mais ninguém com este nome em todo o mundo, disse ele), a mãe Vandette e a tia Vanette, e eu Eduardo; também tenho um tio, continuou divertido, a quem o pai, um fanático de desporto quis pôr o nome de Esporte ao filho, mas a conservatória não deixou, por isso ele optou por Philips. Neste momento riamos e ele continuou dando mais alguns exemplos fantásticos de nomes. Apartir daí perdi a vergonha e interpelei mais duas pessoas de nome normal: a Ana Maria deu graças a Deus por ter um nome normal e ter tido pais que não tentaram nada de exótico, mas a Eva desgostosa de ter um nome tão banal e depois de me ter dito os exóticos nomes dos irmãos e irmãs (que já não lembro, pois não escrevi logo no papel) e das três filhas, confessou que o seu maior desgosto era ter um nome tão pequeno, tão pequeno que nem dava para ter “apelido” como toda a gente.

11.4.08

Plataforma contra a Obesidade 37

Adriaen Coorte (1663-1707)
Still Life with Asparagus
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10.4.08

Crónica Da Vida Num Resort 2

Se um resort com a sua versão fabricada de paraíso apela as pessoas que procuram alguma tranquilidade e satisfação de desejos muito simples e básicos travestidos de coisa requintada, ainda apela mais a casais em lua-de-mel, e previsivelmente eles eram muito numerosos. No entanto enquanto “categoria” de pessoas eles não cansaram de me espantar. Andavam circunspectos e formais como quem cumpre um papel que é esperado que cumpram: de mãos dadas e em pose quase de estado andavam de lá para cá, tomavam refeições, andavam de barco, faziam passeis ao fim do dia, beijavam-se e abraçavam-se na piscina, mas todos os seus gestos pareciam pensados e encenados, careciam de espontaneidade e de verdadeira alegria. Não se ouviam gargalhadas, não se viam trocas cúmplices de olhares, nem sequer a sombra daquele brilhozinho de paixão ou desejo, muito menos um átomo que fosse de loucura, de vontade de sorver o momento, de realmente se divertirem. Enfim, não se viam nem sentiam algumas dessas coisas que é suposto existirem entre casais felizes e contentes que é o estado que normalmente associamos a uma lua-de-mel. Mais pareciam reféns de um qualquer protocolo ou convenção que os obrigava a estar ali um pouco contra-vontade. Se calhar...


Esta semana Sílvio Berlusconi tem sido igual a si próprio enchendo os jornais e serviços noticiosos com declarações bombásticas. Depois de ter afirmado que sabe falar Latim o suficiente para conversar ao almoço com Júlio César, o antigo Imperador de Roma (a SIC deu notícia deste facto há uns dias com um surpreendentemente sério Rodrigo Guedes de Carvalho), deixando-nos pasmados com a sua confiança e invejosos com o seu conhecimento, diz agora que as mulheres de direita são mais bonitas do que as de esquerda – nada que não se venha sussurrando ao longo dos tempos e em voz bem baixa pelos corredores da vida. A diferença está em Berlusconi falar alto e no facto de eu ter dificuldade em antipatizar esta personagem melhor do que a ficção que tem a lata que ele tem para dizer tontices ou barbaridades como quer e onde quer, nomeadamente em campanha eleitoral, ter ganho eleições e voltar a concorrer.

9.4.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 29

John Constable 1776-1837
The Sea near Brighton

Pior do que retirar os Simpsons da televisão privada na Venezuela, só mesmo a sua substituição pela série Marés Vivas. Será que os pais telespectadores irão também apresentar queixa contra a má influência exercida por esta série nos neurónios dos seus filhos, ou a estupidez poderá continuar o seu livre curso, desta vez em fato de banho vermelho e decote normalizado de acordo com complexas equações geométricas?

8.4.08

Crónica Da Vida Num Resort

Se um grande e bom hotel urbano (Oriental em Bangkok, por exemplo) ou que já conheceu melhores dias (Sheraton em Guadalajara, por exemplo) tem sempre algo de aristocrático, já um bom resort é essencialmente burguês na sua procura de luxo e conforto e um mau resort um espelho demasiado real de uma sociedade de abundância. O resort é burguês quer na sua intenção, a de imitar o paraíso, quer nas suas funcionalidades que visam adivinhar e satisfazer os desejos conscientes ou inconscientes que os clientes num determinado momento e circunstância associam a paraíso: praia, sol, piscina, havaianas, algum desporto aquático feito com indolência, comida fresca e abundante, bebidas frescas, spa, não fazer nada. Por uns dias andei iludida com o paraíso.

Mas um dia chovia abundantemente e o céu cinzento não deixava prever nenhuma aberta. Foi o pretexto necessário para sair do resort e, dentro de um taxi, olhar o Recife e Olinda. O Recife é uma cidade que não se imagina: velha, mal tratada, pobre, descuidada, sem graça. Só a boa vontade de um turista determinada em não se deixar deprimir percebe entre o cinzento do céu, o molhado da chuva o desleixo da cidade e a falta de vida e de vibração, no centro da cidade degradada umas pontes que poderiam ter charme, umas ruas velhas com um casario antigo que carrega alguma nostalgia, uns edifícios coloniais que pintados e reabilitados dariam graça à cidade, enfim uns sinais de pertença, da história que fez a cidade, que é a cidade. Fora isso, os subúrbios lembram África sem serem África, e a parte nova dos prédios altos e dos condomínios não-sei-quê é simplesmente inenarrável. Não me demorarei nos clichés do país rico, da pobreza, da distribuição de riqueza no Brasil, mas lembrei D. Hélder Câmara, o simpático e controverso Bispo de Olinda e Recife que fazia gala em dizer “se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista" e que se tornou personna non grata no pontificado de João Paulo II. Assim num dia cinzento e de chuva, D. Hélder Câmara parecia fazer mais sentido naquele Brasil que eu vi do que João Paulo II, mas devia ser da chuva.

29.3.08

Uma semana.
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Da Culpa

Tenho seguido com algum interesse mas sem oportunidade para escrever, a polémica em torno da figura jurídica da “culpa” que o PS pretende erradicar do processo de divórcio litigioso substituindo-a pela figura das “causas objectivas”. Eu que tenho sido uma crítica (objectiva), escrevendo amiúde sobre o assunto, da nomenclatura políticamente correcta deste governo, da tendência para (re)nomear palavras passíveis de causar susceptibilidade em minorias, bem como da nova ordem moral influenciada por Zapatero que tentam impor-nos para que todos sejamos belos, lisos, brilhantes e a cheirar a desinfectante mesmo que por dentro sejamos todos feios, porcos e maus, estou, e por uma vez, de acordo com o governo.

Se o divórcio unilateral proposto pelo BE é uma ficção absurda apesar de algo simpática porque nos permite divagar e sonhar com a possibilidade de um casamento unilateral também, já a questão da figura jurídica da “culpa” num processo de divórcio litigioso merece mais reflexão. Sobretudo merece que nos perguntemos se encontrar um culpado num processo de divórcio litigioso tem até hoje tido alguma eficácia no desenrolar do dito divórcio tornando as partes envolvidas menos infelizes bem como cumprimento das obrigações pós-divórcio, nomeadamente financeiras, da parte “culpada”. Eu até creio que o receio desse não cumprimento das obrigações, infelizmente tão normal e tão imagem da mesquinhez nacional (qualquer um de nós conhece casos destes infelizmente não é preciso sequer procurar) tem um efeito perverso na procura a todo o custo - da dignidade da pessoa, do equilíbrio emotivo dos filhos, etc – dessa “culpa” num último esforço de vingança num processo de divórcio. Um mau motivo, parece-me. O esforço deverá ser concentrado não em encontrar a “culpa” mas num acordo equilibrado encontrado se necessário com ajuda de mediação isenta, realista e exigente que obrigue ao cumprimento do que ficar estipulado em acordo ou pelo tribunal. O problema é que quem não cumpre não é punido, e garanto que não há “culpa” que obrigue a cumprir se a fiscalização não existe. Infelizmente. Por isso acabe-se com a culpa pelo divórcio e que seja culpado quem não cumpre a sua obrigação pós-divórcio. No fundo, no fundo é disto que se trata, não é? Pois obrigar a ficar casado quem não quer ou quem já “saiu” do casamento há muito parece estar fora de questão.

Também desta vez não concordo com a posição da Igreja. Primeiro porque a Igreja Católica nem sequer reconhece o divórcio, nem permite que casais divorciados e recasado9s só civilmente recebam os sacramentos, por isso este assunto pura e simplesmente não lhe diz respeito, tal como não diz respeito aos ateus tanta matéria religiosa. Em segundo lugar porque mesmo nos mecanismos da Igreja para dissolver casamentos (Declaração de Nulidade do Casamento) a noção de “culpa” não só não existe como nem sequer é encorajada. Nesta matéria a Igreja deveria, e também por uma vez, ser muito mais discreta e deixar a sociedade civil decidir.

28.3.08

Combate ao Sedentarismo 51

Richard Widmark (1914-2008)

26.3.08

Michael Clayton

Michael Clayton, visto recentemente. George Clooney no seu melhor, sem o charme óbvio de Clooney, mas numa personagem complexa e que prende, um pouco decadente, frustrada, mal amada, com a vida no fio da navalha, mas sempre um sobrevivente. A impressão de inadaptação da personagem percorre o filme tornando-o mais interessante, modulado e mais vivo e menos mecânico e previsível, pois sendo um thriller bem conseguido, bem construido, bem feito e bom de ver, como alguns outros igualmente bem conseguidos, bem construidos, bem feitos e bons de ver faz a diferença por estas nuances das personagens. As interpretações também fazem a diferença. Tilda Swinton, num bom papel de composição, é glaciar e impecável e mereceu o Oscar. Tom Wilkinson também tem um belíssimo trabalho no papel de uma visionário desequilibrado. Anthony Minghella produziu.

25.3.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 28

Joseph Mallord William TURNER (1775-1851)
Paysage avec une rivière et une baie dans le lointain
(Clicar para aumentar)
Trabalho por objectivos: aqui. Lamento que o esforço do estado para implementação destas novas estratégias de incentivos aos profissionais se desenvolva prioritariamente (ou mesmo exclusivamente) no sentido de arrecadar sempre e mais receitas para o estado, e não no sentido de servir melhor o contribuinte, onde seriam muitas as áreas a beneficiar de tais metodologias, como por exemplo o SNS para se diminuir as famosas listas. O trabalho por objectivos pode fazer maravilhas em muitas áreas.

22.3.08

Má Educação

Hoje ao olhar a imprensa vi esta notícia na BBC a propósito de um estudo no Reino Unido. Vem mesmo a calhar agora que nós por cá estamos chocados com o vídeo colocado no youtube e que correu os media de uma aluna a agredir uma professora, perante o olhar hooligan dos restantes colegas de turma, que tentava exercer a sua legítima autoridade na sala de aula. Talvez a professora não tivesse sido perfeita no exercício da sua autoridade, talvez porque tentasse pôr em prática algum método aprendido numa dessas formações psico-qualquer-coisa sobre psicologia juvenil, diálogo e exercício de autoridade. Este estudo britânico põe o dedo numa das maiores feridas da escola e do natural e desejável exercício da autoridade que deveria começar em casa. A falta dela tem consequências visíveis no normal funcionamento da escola e na fundamental e essencial hierarquia e disciplina da instituição. Mas é apenas uma das feridas de um sistema todo ele em ferida aberta.

Descida da Cruz

Paula Rego
Pieta

21.3.08

Na Cruz

Velázquez
Cristo Crucificado (1632)
(clicar para aumentar)

Museus em Madrid 3

Da colecção de Velazquéz, este quadro que reproduzo em cima é um dos mais extraordinários. Vi-o de longe, ocupava uma parede e a surpresa e o choque foram instantâneos tal a força do quadro, pela simplicidade, contenção e realismo. Um dos quadros de Velazquéz em que as linhas e o equilíbrio atingem a perfeição, e em que é transmitido sem frufrus nem excessos decorativos, simbólicos ou de sangue, o mistério da cruz. Pelo minimalismo do objecto tratado “esconde” o barroco (o drapeado do pano, a definição anatómica) e respira modernidade e veicula uma emoção única. Um dos mais belos quadros que já vi.

O museu do Prado com a sua ala nova ampla e luminosa que serve de entrada e onde estão as lojas e as cafetarias (muito boas) tem uma colecção de pintura de grande dimensão à escala mundial e está sem sombra de dúvida ao lado dos grandes museus como o Louvre ou a National Gallery e a poucas centenas de quilómetros de qualquer cidade portuguesa.

20.3.08

A Eucaristia

Nicolas POUSSIN (1594 - 1665)
L'Eucharistie
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19.3.08

O Lado Selvagem


Sean Penn, um dos bons actores que hoje temos, assinou a realização de Into de Wild (O Lado Selvagem), um filme que já vi há umas semanas É um filme surpreendente que retrata uma busca de si, uma visão diferente do mundo numa nostalgia do mito do bom selvagem. Com sensibilidade e contenção, sem melodrama e escapando a aos facilitismos sentimentais - não deixa o espectador entusiasmar-se com o percurso e a descoberta da personagem principal, a tristeza percorre o filme ao de leve desde o primeiro momento, lado a lado com a procurada “libertação”- mais que “liberdade”, como mais tarde se descobre. Banda sonora óptima a dar o toque melancólico. Boas interpretações.

Plataforma contra a Obesidade 37

Joachim Beuckelaer
The Four Elements: Air

17.3.08

Plataforma contra a Obesidade 36

Joachim Beuckelaer
The Four Elements: Water

Do Pecado

Em tempos de relativismo moral, de consumismo frenético, de vontades rapidamente satisfeitas, e de pressa em viver, falar de pecado é uma chatice e pensar sobre ele é de quem não tem nada melhor nem mais urgente que fazer. O Papa Bento XVI que não se compadece com esta estranha forma de vida que domina o ocidente falou sobre o pecado no seguimento do seu antecessor João Paulo II, tentando reforçar a sua (do pecado) dimensão social e as consequências que ele pode ter na sociedade. Foi mesmo estabelecida uma lista de seis pecados sociais a juntar à lista tradicional dos sete pecados mortais, não vá o católico consciencioso perder-se neste labirinto que parece ser a vida moderna. Confesso o meu cepticismo em relação a esta nova lista de pecados, à sua necessidade e pertinência, à especificidade dos tempos modernos que exige actualização da lista, e creio que ela está em desacordo com alguma tradição mais exigente do ponto de vista teórico e teológico.

O pecado é uma livre transgressão à lei de Deus, quer em acto, palavra, pensamento ou omissão: Tem que ser grave, feita de forma totalmente consentida e conhecedora, e diz-nos o catecismo que faltando um destes requisitos já não se trata de pecado mortal. Vendo o pecado à luz desta definição, estamos perante matéria do foro íntimo entre o pecador e Deus, sendo o sacerdote que ouve a confissão e dá o perdão de Deus apenas o veículo que reconcilia o pecador com a Igreja. Os sete pecados mortais (relembro: Avareza, Gula, Luxúria, Soberba, Preguiça, Inveja e Ira) tais como a Igreja os estabeleceu há séculos são suficientemente sólidos e representativos da miséria humana e podem cobrir qualquer desvio à ordem divina, para além de serem sempre a mola a qualquer forma concreta que um pecado possa tomar. Por exemplo, os pecados contra a natureza poderão ser muitas vezes atribuidos à soberba humana ou à luxúria (pelo dinheiro e lucro). Também alguns actos tais como os que estão descritos na lista recente de pecados sociais, por exemplo abortar, podem não ser necessariamente pecado mortal se as condições acima descritas não existirem.

Este estender do pecado à esfera social, definindo como pecado situações concretas e não sentimentos ou características da alma humana, também contém outros perigos. Aqui neste blogue tem-se escrito criticando, a propósito do islamismo, os danos da omnipresença da religião em todas as esferas da actividade social dominando e influenciando quer as leis, quer os hábitos, a cultura, a mentalidade. Apesar do ocidente estar numa situação que não se assemelha à existente em tantos países islâmicos, não gosto que o manto da recomendação religiosa se estenda, através de directivas concretas, a outras áreas. Nem sequer é necessário e desvirtua a noção pessoal e íntima do pecado. Como já disse a antiga lista dos sete pecados mortais tal como estão definidos podem bem continuar a cobrir qualquer acto deliberadamente contra a vontade divina que a imaginação mais criativa possa inventar (como se ainda houvesse algo a inventar) tal como tem sido feito ao longo dos séculos e também não reconheço aos tempos modernos perigos assim tão inovadores e específicos para a alma humana que requeiram novos parâmetros na abordagem ao pecado.
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16.3.08

Plataforma contra a Obesidade 35

Joachim Beuckelaer (? - 1574)
The Four Elements: Fire

De Boas Intenções...

Há palavras fortes do catolicismo que não deixam ninguém indiferente, tanto católicos como não católicos. São palavras que estão mais ou menos na moda e são mais ou menos usadas conforme as épocas e as mentalidades, são semente de muitos equívocos, de medos e de raivas e ódios. Estes últimos vêm sobretudo de um sector anti-clerical que vê na Igreja Católica a fonte de todos os males passados, presentes e futuros da inteira humanidade.

Proponho-me neste tempo de Páscoa reflectir sobre algumas dessas palavras de uma forma que será, eventualmente, pouco ortodoxa, mas que é fruto de uma visão pessoal e livre apesar de marcada pela doutrina da Igreja. São elas: o Pecado e o Inferno que andaram recentemente na boca dos media, bem como o Mal e o Diabo (palavra maldita, mas de forte tradição doutrinal), que continuam “tabus”, mas creio que não por muito tempo. Veremos se conseguirei levar a bom porto a intenção, no meio de pinturas, desabafos, notas sobre filmes ou livros, fotografias e outras coisas que possam surgir.
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