
holehorror.at.gmail.com
17.6.08


As contradições atingem por vezes níveis que me atordoam. Hoje, segundo declaram os alunos que o fizeram, o exame de Língua Portuguesa do 12º ano foi fácil. Ontem e hoje ouvem-se os professores das diferentes universidades e faculdades queixando-se de os alunos não saberem escrever português, de darem erros e de terem dificuldade em interpretar. Ontem e hoje ouvem-se os professores do secundário queixarem-se da falta de literacia dos alunos, de não saberem argumentar, comentar, analisar, comparar, textos e do facto de raramente conseguirem alinhavar mais do que meia dúzia de linhas nos testes em que deveriam mostrar algum à vontade na expressão escrita. Queixam-se dos programas de língua e da sua pouca exigência, queixam-se de terem que perder tempo precioso a justificar com relatórios detalhados as más notas que se vêm obrigados a dar, e a nem sequer serem questionados quando dão excelentes notas. E agora os alunos dizem que os exames foram fáceis! Há algo que não bate certo.
A vontade de termos estatísticas bonitas, lindas, brilhantes e muito lisas em termos de sucesso escolar, é mais uma mentira a que este governo nos obriga para nos iludirmos com a penosa realidade da iliteracia e a complexidade que é uma política educacional de sucesso que não se faz em dois ou três anos. Pelos vistos as nossas estatísticas da educação caminham a passo célere para o mundo de plástico e neons que nos tentam impingir, pelo menos e de forma evidente, há três anos.
Nota: pelo que leio na notícia, Saramago com “O Memorial do Convento”, voltou a sair no exame. Será que não há outros autores portugueses dignos de estudo? Teremos que viver perseguidos por Saramago para o restos dos tempos? Este novo riquismo saramaguiano já cansa. Não nos obriguem a maldizer o dia em que lhe atribuiram o Nobel.
15.6.08
Das Palavras
Sou atenta à forma como se usam as palavras e identifico expressões que num momento são moda, noutro cansam e no seguinte se tornam pirosas. Vejo como as palavras cuidadosamente escolhidas por “sábios” tentam tantas vezes dar uma capa de verniz à falta de conhecimentos ou de “mundo” de quem as utiliza, nomeadamente a políticos, mas não só. Muitas vezes divirto-me só com a forma como elas são combinadas, de forma pomposa e pouco natural e até já tenho rido com letras de músicas aqui no blogue.
Tudo isto porque me deparei finalmente aqui (via Portugal dos Pequeninos) com uma expressão que tardava a aparecer e que eu queria saber quem seria a primeira pessoa (que eu lesse, claro – e assumo já que estou longe de ler tudo) a utilizar a expressão, a propósito da crise petrolífera internacional, "mudança de paradigma civilizacional", e ela foi usada por Manuel Maria Carrilho, coisa que não surpreende, nesta frase: Assumir responsável e pedagogicamente os dados da actual crise, assim como a mudança de paradigma civilizacional - na energia, no crédito, no consumo, nos transportes, no turismo, etc. - que ela impõe com urgência. Se olharmos para a forma (com o conteúdo do parágrafo não me demoro, pois estou em sintonia com a ideia) está lá tudo: o estruturalismo, a influência francesa, as tentações “intelectualizantes”, e também um certo desgaste e facilitismo de alguém que pensa, e que cuida a escrita: essa expressão é previsível demais e por isso, como diriam os adolescentes, “já foi”. “Ter mundo” como escreve MMC no artigo, é também saber reconhecer esses sinais.
13.6.08
Ontem à noite num noticiário televisivo vi e ouvi Freitas do Amaral num excerto de uma entrevista. Consegui (excepcional e surpreendentemente) abstrair-me daquele seu ar pomposo e cheio de sef-importance de quem tem um papel fundamental para o desenrolar de qualquer acontecimento, nomeadamente à escala mundial, e por uma vez concordei com o que disse: Já se ouviu a presidência eslovena da União Europeia a dizer alguma coisa? E a Comissão Europeia, já disse alguma coisa? O Banco Europeu? O Parlamento Europeu, que se preocupa tanto com os voos da CIA, não se preocupa com a maior crise mundial que existe nos últimos 100? As pessoas estarão cegas e surdas? Tal como ele tenho a convicção de que se assiste a uma das maiores crises mundiais dos últimos tempos, e acrescentaria que existe uma diferença notável hoje: são as lideranças no mundo ocidental, maioritariamente ocas, plásticas e fracas e nem a a perspectiva de um futuro presidente dos EUA, ainda a maior potência mundial, nos anima.
O governo negociou, pagando (nós) um preço, o fim das hostilidades com os camionistas, (afinal não tem negociado com todos?) apaziguou o país que o próprio primeiro-ministro confessou, dando um sinal de que está cá, ter sentido frágil, mas desenganem-se os que pensam que no pasa nada, que já está tudo bem. A história ainda não acabou como diz Vasco Pulido Valente hoje no Público.
11.6.08
As bichas junto aos postos de combustível, bombas sem bichas que já não têm nem gasóleo nem gasolina, supermercados com falhas, aeroportos a sentirem os efeitos da paralisação de camionistas, a sensação de que nem sempre o governo está a saber e a exercer devidamente a autoridade do Estado, deixam o país num estado de fragilidade que incomoda. Neste mundo, tal como o conhecemos, abundância de recursos – mesmo em Portugal onde as famílias estão financeiramente muito pouco flexíveis, é um dado adquirido. Poder ou não comprá-los é outra questão, mas saber que se os quisermos eles estão lá, é algo que nem questionamos. Hoje a fragilidade da abundância vem à tona, e com ela a fragilidade de um estado pouco preparado para situações de crise, sejam elas greves, cheias, fogos florestais, insubordinação civil. Mas não nos preocupemos, pois no essencial, no que preocupa realmente os Portugueses tudo está bem: Portugal ganhou à República Checa e vai aos quartos de final do Euro 2008.
9.6.08
8.6.08
Repensar o Mundo
O buzinão saiu à rua. A manifestação da CGTP encheu a Avenida da Liberdade. Começa a ser por demais evidente e inegável que se adensam os sinais exteriores de insatisfação dos portugueses, que ele é transversal, que o bolso dos eleitores está cada vez mais vazio, e que os serviços do estado ao serviço dos cidadãos, para os quais pagamos impostos, continuam preguiçosos, escandalosamente lentos como a justiça ou as listas de espera na saúde, e a não ser nem melhores nem mais eficientes. Somando a este descontentamento temos um primeiro-ministro que paira por cima desta névoa em que está mergulhado o Portugal real, com arrogância e autismo, subestimando o que já parece impossível de subestimar, refugiando-se em cimeiras ou TGVs.
Se o descontentamento é real, há que ser frio em relação às causas dele. O aumento do preço dos combustíveis é uma realidade difícil de atribuir exclusivamente ao governo ou ao regime, apesar de em Portugal todas as petrolíferas beberem da mesma bica (refinarias), de se preocuparem mais com o retorno dos accionistas do que com a satisfação dos clientes, e do ridículo da conclusão da Autoridade para a Concorrência (outra inutilidade) que afirma não haver indícios de concertação de preços por parte das distribuidoras de gasolina. A subida do preço do petróleo nos mercados internacionais não se repercute unicamente em Portugal. Os mercados não mentem e não há “especulação” que sustentem mentiras ou “bolhas” por muito tempo. Os dias estão difíceis e o mundo (a Europa à cabeça) tem que se habituar a um novo ordenamento e reajuste de riqueza e de poder, nomeadamente com as novas potências asiáticas a entrarem no mercado do consumo, a quererem comer mais e diferente, a quererem ter mais carros, frigoríficos, telemóveis. Dá vontade de dizer: habituem-se! E mais do que isso, a o mundo ocidental tem que perceber que dificilmente o preço do petróleo voltará a ser o que foi, e as políticas energéticas, bem como as agrícolas terão que ser revistas e reajustadas a pensar no mundo tal como ele é e vai ser, e não no mundo que já foi e cuja nostalgia cega quer os cidadãos quer os políticos que facilmente se deixam tentar por medidas populistas, mas desastrosas a longo prazo. Resta saber se hoje temos líderes capazes para tal tarefa, mas que pelo menos com o nosso voto possamos contribuir para isso.
5.6.08
O Lado Negro (*)
Eduardo Pitta assina hoje no Corta-Fitas um texto interessante O Lado Negro da Bloga (*) sobre os lados negros da blogosfera - EP usa o termo “bloga” cuja sonoridade me parece (ainda?) estranha. A sua tese é a de que a blogosfera reflecte, na intolerância perante a opinião do outro, o crónico défice de democracia na sociedade portuguesa, pois onde quer que haja discordância o azedume toma conta da discussão. Concordo com o que escreveu Eduardo Pitta e iria um pouco mais longe. Sendo a blogosfera um território que espelha razoavelmente a sociedade, ou pelo menos uma parte dela aqui em Portugal, podemos notar algumas tendências que não são mais do que o aquilo com que nos deparamos no quotidiano e que propiciam esse azedume, essa facilidade de estremar posições e de dificilmente sair do preconceito.
A primeira tendência é a dificuldade em lidar ou mesmo aceitar a diferença e/ou o desconhecido: a opiniões diferentes reage-se com desconfiança e “à defesa” em vez de reagir com abertura analítica e crítica; ponto final. Cada um tem uma forma única e sua de olhar o mundo e olhar uma determinada questão, mesmo que as opiniões sejam convergentes raramente o olhar é semelhante; o contrário também pode acontecer embora mais raramente.
A segunda tem a ver com uma forma de olhar para o outro e de nunca conseguir separar a pessoa da sua opinião, e por isso raramente assisto a discussões na blogosfera que não acabem mais cedo ou mais tarde por se pessoalizarem atacando e por vezes insultando o outro em vez de se argumentar contra a ideia, opinião e por isso o ataque pessoal substitui a argumentação. O pressuposto, dito de forma simples para crianças de cinco anos, é o seguinte: se atacam a minha ideia o meu texto, se questionam a minha tese, se discordam de mim já não são meus amigos, já não sou amigo deles, já não não podemos brincar juntos. Já vimos blogues desfazerem-se, membros abandonarem os blogues, ou blogues virarem costas, por cairem nesse erro. O contrário também é válido e tentação constante: assumir como “amigo” alguém com quem se partilha uma opinião, uma causa, uma luta pontual. Sempre me desconcertou a facilidade com que, enquanto leitora de blogues, vi fazerem-se e desfazerem-se “amizades”, lealdades e afinidades na blogosfera. Em Portugal (por oposição a países anglo-saxónicos, por exemplo) é muito comum “levar a mal" uma crítica, sentir-se ofendido sem querer sequer perceber a argumentação do outro e sem saber também separar a pessoa da sua opinião, ou por exemplo, da sua performance profissional num momento de avaliação.
A terceira tendência é também comum mas muito redutora, e EP no seu texto refere-a quando fala no estremar de posições e simetria de argumento. Esta simetria é o caminho fácil para a definição estanque de territórios e para rapidamente catalogar e conseguir “reconhecer” o outro e o campo a que pertence. Estando o outro catalogado e preso a um território é muito mais cómodo prever os seus argumentos, as tomadas de posição para – na dita simetria - as rebater. Como se pode ver este é um meio propício ao preconceito. Definiria a quarta tendência como aquela que em Portugal, com ou sem 48 anos de ditadura, fez com que o português não ame, não sinta, não preze, não viva e não defenda com unhas e dentes a liberdade, o ser único, e o ser tantas vezes só. Todos temos que estar presos e dependentes de todos, ser amigos ou inimigos (outra forma de ser amigo) de todos, posicionarmo-nos em relação a algo, para em troca podermos esperar reconhecimento, gratidão, troca de favores, etc. Na blogosfera não é diferente, e traduz-se em ser ou não linkado, destacado, referido, e tudo o mais.
Termino numa nota mais técnica: a facilidade com que se faz um “enter” e se coloca um texto num blogue, às vezes impede que se respire fundo e conte até três - um velho remédio, mas de eficácia comprovada. Em casos mais complicados a recomendação seria uma noite de sono. Mas a tecla do enter está ali tão perto, e eu até tinha tanta vontade, e no fundo a blogosfera é isso mesmo: o tempo real, o agora com o que tem de lado claro e de lado negro.
3.6.08
2.6.08
Pousar o Olhar
Em tempos de Rock in Rio e de Selecção Nacional foi refrescante limpar a mente e pousar o olhar no CCB no espectáculo de Ballet/Dança BAHOK / AKRAM KHAN COMPANY AND NATIONAL BALLET OF CHINA. Uma excelente coreografia e óptimos bailarinos (com sólida formação clássica quase todos), bem como uma música forte, fizeram um espectáculo de grande qualidade, intenso, rápido e tecnicamente exigente, apesar de alguns momentos intencionalmente simbólicos mas coreograficamente mortos.
1.6.08

Há momentos em que tenho nostalgia de monarquia, esta semana isso aconteceu quando vi o Rei da Noruega no Continente do Colombo. O Centro Comercial Colombo que é por excelência o templo e símbolo de consumismo que as elites (intelectuais, sociais, etc) adoram detestar – como se os restantes Centros Comerciais fossem mais bonitos, inteligentes e não padecessem dos mesmos males. O Rei, alheio a essas fúteis considerações estético-teóricas, foi lá. Lá onde os interesses económicos noruegueses se jogam a cada dia e a cada hora, lá onde os portugueses contribuem para o enriquecimento do povo norueguês, e um rei sabe que não está a cumprir um mandato, sabe que não está sujeito a calendários eleitorais que podem comprometer o serviço ao seu país, sabe desde o dia em que nasce que está lá porque tem que servir o povo norueguês, tem que ser o símbolo de união e de identidade de uma nação . E vai ao Colombo com a mesma naturalidade com que os portugueses lá vão. E nisso é tão diferente dum presidente de república.
Nós por cá também temos uma espécie de rei, o Mister Scolari, que tem surgido (desde 2004) no seu esplendor de dois em dois anos apelando aos valores, ao orgulho e à identidade nacional como nenhum presidente da república o conseguiu fazer. Pôs Portugal a comprar bandeiras nacionais para as exibir nas janelas e a cantar o hino sentido e do fundo do coração. Cada povo tem o rei que merece.
Manuela Ferreira Leite assumiu na entrevista à Sábado desta semana que se o boletim de voto das últimas eleições legislativas tivesse o nome de Santana Lopes escrito em vez de PSD, ela não teria votado nele. Esta declaração é ousada e gosto dessa frontalidade, desse carácter que não perde a noção de livre arbítrio mesmo pertencente a um partido. Os partidos ganhariam mais com pessoas livres assim. A pertença não é sinónimo de unanimidade e o valor de uma decisão que é feita solitária e secretamente só se assume plenamente se feita em total liberdade. Manuela Ferreira Leite assumiu essa liberdade e nem tinha que o fazer. Gostei.
28.5.08
Texto publicado ontem no, e a convite do, Corta-Fitas.
O PSD prepara-se para eleger um(a) novo(a) líder capaz de se apresentar como alternativa ao nosso primeiro-ministro, e o PS já se sente em época eleitoral. No PSD exige-se tudo a esta nova liderança, um programa coerente, ideias, credibilidade e capacidade de apaziguar o turbulento partido bem como enfrentar as eleições legislativas de 2009 de igual para igual com José Sócrates.
Elaborar programas, dar ideias, encontrar soluções no papel e nos discursos para o país não é difícil. Ideias não faltam nas cabeças inteligentes (a inteligência não é, ao contrário do que pode parecer, um bem escasso) e voluntariosas que se preocupam com o desenvolvimento do país e apontam, e bem, o dedo ao seu atraso crónico; basta um olhar pela blogosfera – por exemplo - e para os debates que, e ainda bem também, nela se desenham para termos as ideias para um esboço de programa de governo. Uns dias para redação final, os polimentos do marketing comunicacional, o inventar de dois ou três slogans políticos, e já está! Mas a dificuldade em governar está no facto de que os programas e as ideias esbarram na realidade: no dia a dia das gentes, no país tal como ele é, nas circunstâncias, no mundo global dos nossos dias e nessa interdependência tão grande no nosso caso. Os candidatos a futuros primeiros-ministros deveriam dizer-nos o que farão nos chamados “worst-case scenarios” que são palco excelente a revelar quer a consistência das políticas quer o carácter do político. Como é que Portugal vai enfrentar uma conjuntura internacional de baixo crescimento económico, não só possível como provável, com o euro forte, uma subida de preço dos combustíveis e sobretudo da alimentação? O que se faz se as exportações não crescerem, as falências continuarem o seu caminho de inevitabilidade e o desemprego continuar a aumentar? Como se enfrenta o descontentamento dos eleitores estrangulados com a carga fiscal, empréstimo da casa e preço da alimentação? Como se reforma o Estado nestas circunstâncias? Onde se corta a sua despesa? Como se encontra equilíbrio entre os interesses legítimos dos diferentes grupos, das classes, os direitos adquiridos de uns, todos eles de alguma forma dependentes do estado, face ao mais abstracto bem ou face ao mais mensurável desenvolvimento da nação?
Deveríamos perguntar aos futuros candidatos a primeiro-ministro o que farão eles de cada vez que as suas políticas reformistas forem alvo de grande descontentamento popular. Lembrando o caso do SNS, recuariam deixando cair o ministro e as políticas? Ou enfrentariam, e como, o descontentamento social e o povo na rua? Pergunto-me porque é que hoje já não morrem pessoas nas ambulâncias, nem nascem crianças nas ambulâncias ou pelos menos, se morrem e nascem já não sabemos. Porque é que esta ministra ao tomar posse afirmou que a política para o SNS não mudava, mas já não há notícias de fechos de serviços de urgências, e porque é que reforma do SNS deixou de ser um problema que se debate e discute? Dizer que se quer acabar com as listas de esperas longuíssimas para cirurgias é fácil, mas como se negoceia com as administrações dos hospitais, como se colmata o problema criado pelo próprio estado (no acesso às faculdades de medicina) da falta de médicos, como se dialoga, ou enfrenta a classe médica, ou a classe dos enfermeiros? Ou perguntar porque é que ainda não se liberalizaram as Farmácias, tal como prontamente anunciado pelo nosso primeiro -ministro?
Na Justiça, os anúncios e as reformas não são visíveis aos olhos do contribuinte. Os ímpetos e excessos legislativos têm como efeito reforçar a desconfiança e o sentimento de incompreensão da Lei. Os resultados dos casos mediáticos Casa Pia, Apito Dourado, Esmeralda, Maddie, por exemplo, são a face da fragilidade da nossa Justiça e investigação criminal. Quem ou o que é que impede as reformas? Na Educação, escrever num programa de governo da bondade da autonomia das escolas, das virtudes dos cheques-ensino, da liberdade de escolha, é simples. Mas como se vai enfrentar o descontentamento das famílias quando, por causa de uma boa medida que é a obrigatoriedade do ensino, os resultados das políticas de não–retenção (palavra politicamente correcta para reprovação) de alunos se fizer sentir nas turmas e no aproveitamento dos outros alunos? E as diferenças se notarem nas escolas autónomas?
A enumeração destes exemplos só serve para mostrar que a pressão para inverter as políticas reformistas ou o boicote às mesmas se faz sentir de forma real, e era importante saber como é que os futuros candidatos a primeiro-ministro reagem. Tentar adivinhar a consistência das políticas bem como o carácter do líder são dados tão importantes como avaliar as políticas e as medidas reformistas, para percebermos se abandonam as reformas mudando a cara de um ministro, por exemplo, ou se propõem reformas a passo e passo, ou se se preparam para enfrentar o descontentamento sabendo que podem perder o apoio popular e perder eleições?
27.5.08
Noventa, e não foi suficiente.

Combate ao Sedentarismo 54
Isto a propósito da morte de Sidney Pollack, um realizador que foi ao longo da vida uma presença constante, uma espécie de vizinho que sabemos quem é, conhecemos-lhe a cara, vemo-lo através do tempo que passa, das coisas que faz, mas com quem nunca falamos. Vi-o a última vez (como actor e produtor) em "Michael Clayton" e como realizador em “The Interpreter”, um bom thriller. Parece que o “vi” pela primeira vez com grande entusiasmo na altura em “Tootsie” e só depois o vi naquele filme culto que marcou uma época “They Shoot Horses, Don’t They?”. Chorei as lágrimas esperadas no melodrama dos melodramas “Out of Africa”, que depois de uma fase de nojo, revi recentemente com gosto, “The Way We Were”, nunca me entusiasmou tanto como melodrama. Pollack foi (é) um dos representantes da essência do cinema americano, no seu caso nos finais do séc XX. May he rest in peace.
25.5.08
Pronúncia do Norte 4
Há coisas que parece que já tinha esquecido e lembrá-las é como uma janela que se abre sobre a memória e os sentidos do passado. Estes dias no Porto sempre debaixo de chuva relembraram-me não só a solidez da cidade mas sobretudo a sua dignidade quando a chuva cai implacavelmente e sem fim à vista. O Porto não se curva perante a chuva, recebe-a de forma inabalável e com uma impassividade própria. E a vida continua.
Cada vez que passo na Avenida dos Aliados confirmo a opinião de como gosto mais da Avenida tal como ela está hoje: ampla e aberta, também com mais dignidade e dando mais visibilidade aos edifícios. O mesmo não posso dizer em relação à Casa da Música cuja volumetria continua a surpreender-me negativamente e a deixar-me. Continuo a senti-la um mamarracho na Rotunda da Boavista.
20.5.08
MFL, ou Uma Questão de Estilo
Manuela Ferreira Leite não entusiasma, não empolga, nem faz acreditar num Portugal melhor para amanhã. Às vezes paro e pergunto-me se tenho saudades do tempo em que ainda me atrevia, em momentos mais ousados, a ficar entusiasmada, empolgada e acreditar que Portugal um dia será como aquela sábia mistura da Irlanda e Finlândia temperada com sabedoria anglo-saxónica, fé como no American Way of Life tudo com muito estilo, design à maneira italiana. Não, não tenho saudades, e cada vez mais gosto de não ficar empolgada ou entusiasmada por um político ou mesmo por um projecto político. Olho para ambos com cepticismo e desprendimento e encontro-lhes sempre pelo menos três vícios por cada virtude. Não há Blair, Sarkozy, Bush, Zapatero, Obama que me entusiasme. Não há PS que me alicie, PSD que me comprometa ou PP que me mova.
MFL não é excepção. As suas passagens pelos diferentes Ministérios nunca me marcaram positivamente, nem deixaram grandes saudades, e o seu actual discurso insistente numa busca de identidade partidária, no desatino que é hoje o PSD, na social-democracia assusta-me um pouco. Não gosto de socialismos e sempre me pareceu que a social-democracia era coisa de sóbrios mas ricos nórdicos e protestantes. Portugal é um país de vícios e o maior deles todos é o Estado cuja omnipresença e omnipotência desafia a própria essência divina. Desde a luz que acendemos, ao que comemos, passando pelo que estudamos, pelos bancos onde fazemos empréstimos, ou pela pensão que gostaríamos ter no futuro, de uma forma mais ou menos evidente, directa ou indirecta, o Estado está lá, olhamos para a direita e vemos o Estado, viramos as costas e atrás está o Estado. A presença e o peso do Estado (já lhe chamaram Monstro) na sociedade não parece representar a forma como eu vejo uma sociedade livre, democrática e flexível. MFL não preconiza a diminuição do peso do estado que eu gostaria, por convicção ideológica ou por pragmatismo e sentido da realidade (os grandes vícios raramente se perdem), ou por uma mistura das duas coisas. No entanto, e dadas as circunstâncias actuais do PSD e do país e dados os candidatos à liderança do PSD, espero que seja ela a nova líder do PSD.
Espero que MFL, caso ganhe a liderança do PSD, traga sobriedade, acutilância, bom senso, seriedade e credibilidade a um terreno plástico, inconsistente e aleatório que hoje parece ser a política quer no governo quer na oposição. Eu quero acreditar nisso. Quero acreditar que MFL não vai fumar às escondidas atrás das cortinas, nem vai prometer em frente às câmaras de televisão que vai deixar de fumar, ou explicar que a sua má-disposição não tem a ver com o facto de ter decidido deixar de fumar. Quero acreditar que MFL não vai explicar se fumou charros ou não nem se gostou ou não do sabor. Não emitirá comunicados sobre se fez ou não uma sesta, não explicará se faltou a um compromisso de Estado por ter estado ou não num casamento de amigos, nem se deleitará com os concertos para violino de Chopin. Não tentará convencer-nos que fez quatro exames universitários num dia, que Domingo é um dia normal para tirar certidões, e que não percebe porque os registos da AR terão sido modificados. Nem nos obrigará a ver imagens suas a fazer joggings no Calçadão ou na Praça Vermelha. Esta certeza é muito reconfortante.
Sem querer desvalorizar a importância que é ter uma visão para o país que permita estabelecer as prioridades e elaborar um programa de acção realista e coerente quer para um partido do governo quer para uma oposição confesso que dadas as circunstâncias mais recentes, não consigo minimizar a importância da pessoa do líder e o lado mais sóbrio e algo austero de MFL não me deixam indiferente.
Esta notícia deixa-me aturdida e pergunto-me que mais é que estas comissões de investigadores que fazem estudo a propósito de tudo vão inventar para que a Educação em Portugal continue a ser palco de reestruturações, reformas, re-isto e re-aquilo sempre com temor referencial pelas “alterações menos ‘bruscas’”. Nunca nada é suave de mais para os educandos, parece ser a palavra de ordem de sempre. Espero que prevaleça o bom senso e se opte pela estabilidade, pois uma das causas do estado do nosso ensino é a falta de estabilidade e de uma visão a longo prazo. Em vez de reformar programas ou de reestruturar ciclos, dever-se-ia parar, respirar e modificar mentalidades. Mais rigor, mais exigência, mais disciplina deveriam ser os motores da educação, para professores, pais e sobretudo para os alunos que é deles o futuro.18.5.08
Torre de Belém
Num primeiro momento fiquei intrigada, ali de pé na varanda a olhar ao longe a Torre de Belém, mas não perdi um segundo mais a pensar nisso. Depois quando vi que a bizarria persistia, e porque não tinha passado por lá, tentei perceber o que era e muni-me de binóculos de longo alcance e telescópio. O quê? Bolas plásticas enormes das que parecem marcar rios e mares a enfeitarem a Torre de Belém, qual pescoço com colar étnico para festa popular? Tive que passar por lá para confirmar o adereço, e senti dificuldade em focar os olhos, a mente e sobretudo o gosto e a sensibilidade estética. A Torre de Belém está horrorosa, pior do que isso, está pirosa. Um monumento que não sendo propriamente o Mosteiro de Alcobaça mas que é, na sua simplicidade, digno, sólido, de linhas bonitas, e carregado de história e simbolismo nomeadamente por ser o ex-libris da cidade de Lisboa, e que é nosso património – é meu e de todos os portugueses, não pode ser objecto de experiências decorativas sem nexo nem gosto e que vilipendiam a sua dignidade, por muito interessante que possa ser o pretexto, coisa que desde já duvido, mas fica feita a salvaguarda. Será que ninguém pensa, nos serviços da cultura e do património?
Há uns tempos falava-se em promover o Turismo Cultural em Portugal (a propósito do S. Carlos, por exemplo). Não é assim com iniciativas pindéricas que mais não fazem do que retirar a dignidade arquitectónica histórica e simbólica do monumento que se promove o dito turismo cultural, nem sequer o turismo normal (se alguém entender a subtil diferença existente nas cabeças dos governantes que fazem planos e nos promovem a West Coast of Europe, que eu não entendo) que em Lisboa vive de meia dúzia de monumentos, trajectos e referências. E muito sol, muita luz, muitas sardinhas.
Por favor, voltem a dar à Torre de Belém a dignidade que ela merece.
17.5.08
Noite de Fado
O Fado está lá, faz parte da identidade ou de uma qualquer memória do ser português, mas não faz parte do meu quotidiano, muito menos do modo “default” de algum instinto musical que tenha. Claro que quando cresci ouvi alguma Amália, algum fado de Coimbra, e esporadicamente fui ouvindo outros fadistas, mas nunca em grande quantidade nem nunca com grande afinco. Creio que este é um padrão comum a muita gente que, como eu, nasce e cresce no Porto. Mas umas idas ao Senhor Vinho há uns anos (porque teve que ser, mais do que por opção) fizeram-me conhecer Camané, e de imediato percebi a beleza incrível e inconfundível da sua voz e o seu talento único e quieto para estar num palco e encher completamente o espaço. No entanto nunca me passaria pela cabeça ir a um espectáculo ouvir fado horas a fio.
Por isso surpreendi-me quando, num impulso pouco comum, decidi que queria ir vê-lo ao Coliseu ontem. Desde o primeiro momento com Sei de um Rio (o video do link já é do espectáculo de ontem) Camané electrizou o público que não lhe poupou ovações e bravos em quase duas horas de fado num espectáculo memorável e alongado de tantos encores. A cumplicidade discreta e pouco ruidosa, mas intensa e visceral que de imediato estabelece com o seu público é única e percebe-se como é que conseguiu, por exemplo, esgotar duas noites seguidas no Concertgebouw de Amsterdão. Ontem foi uma noite de fado que fica na sua memória e na nossa.
14.5.08
É pior a emenda do que o soneto. Se já é mau José Sócrates ter violado a lei, fumando num avião é ainda pior dizer que “se violei alguma lei, peço desculpa”. Esta pose de Maria Madalena arrependida e penitente fica-lhe ainda pior do que a do fariseu, grande mentor de limpas e higiénicas leis. Sem esquecer que JS é um amante de grandes viagens e que conhece bem as normas de fumo a bordo de aviões. Com o nosso primeiro-ministro nada bate certo, tudo é turvo, até as coisas mais banais. Ainda o vamos ver empertigado e pomposo a pagar a multa vestindo o fato de cidadão normal que cumpre. Vai uma aposta? Os contornos de grande caso mediático e grande problema nacional deste “fait-divers” que tem honra de notícia de abertura em telejornais e comentários de vários quadrantes da sociedade, presidentes de diversas instituições, bem como do constitucionalista Jorge Miranda, deixa-me boquiaberta.13.5.08
Lugar Comum 2
Os jacarandás que começam a encher Lisboa, este ano um pouco mais cedo. Hoje foi a Avenida das Descobertas ao som de Albinoni na Antena 2 com o concerto para oboé e cordas pelo maestro Trevor Pinnock. O concerto pode ser ouvido/visto aqui. (A única interpretação que encontrei no youtube). Os jacarandás podem ser vistos por toda Lisboa, ruas e avenidas inteiras vestidas de roxo. Um deslumbre. Há excursões à Holanda para ver os campos de tulipas, mas nunca percebi porque não há excursões a Lisboa para ver os jacarandás. Não ficam a dever nada às já de si magníficas tulipas.
Tal como FJV no Origem das Espécies, eu também sou contra a "escola desejável", citada por JCD no Blasfémias.(Também sou contra os textos pirosos)
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12.5.08
Votar ou não votar no PSD, eis a questão.
Manuela Ferreira Leite fez mal em explicar-se. Um dos pilares da democracia assenta no voto secreto, e um dos pilares da liberdade individual é, no nosso silêncio e solidão, podermos votar sem ter que dizer, explicar ou justificar em quem ou porquê, e esta premissa é válida para todo e qualquer cidadão incluindo os militantes partidários, os líderes dos partidos que foram, são ou hão-de ser.
We Own The Night
We Own the Night ou Nós Controlamos a Noite, uma realização contida e exigente de James Gray. Formalmente muito sóbrio e com uma narrativa coerente e fluida. Provavelmente é um dos filmes menos românticos que já vi. Tão realista, tão normal que o que gostamos é dessa previsibilidade e só somos surpreendidos, pelo facto de nada nos surpreender: é mesmo assim. A lealdade, a família, o amor. Sem rodriguinhos nem concessões estilísticas quer do argumento quer da forma a favor de mais cor e textura dramática. Linear, simples e muito bom. Joaquin Phoenix é um belíssimo actor, bem como Mark Wahlberg e Robert Duvall. Eva Mendes passeia-se por lá, mas não convence.
11.5.08
Nunca deveria sequer pensar em escrever sobre Futebol 2
... e por isso andei todos estes dias a combater o impulso de escrever sobre o caso Apito Dourado, mas hoje não resisto. António Barreto na sua crónica do Público diz o que eu gostaria de dizer sobre o caso e o que tantos de nós pensam. Fala do Porto e do Norte, mas sobretudo fala desta fatalidade que é o gosto amargo da Justiça em Portugal. As suspeitas de que há justiça para uns e Justiça para outros.
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10.5.08
Um momento raro: o artigo de José Pacheco Pereira no Público de hoje. A ler da primeira à última palavra.
8.5.08
Caldinho Cultural
Há coisas que preferia não saber, e quando os media omnipresentes de diversas formas e feitios veiculam essa informação, tento distrair-me, desligar, mudar o canal, não olhar, não ver, não saber. Pelo menos tentar que a informação fique a pairar pelo ar e se disperse rapidamente mas que realmente não se faça realidade na minha mente. Tem sido assim nas últimas semanas em relação à história do cidadão austríaco que sequestrou, violou e teve sete filhos da sua filha. Não quis saber, não quis ouvir, não quis ver. Até que hoje fui bombardeada várias vezes durante o dia com a publicidade à revista Visão que tem um dossier especial sobre o assunto. É óbvio que não comprarei a revista nem quero ler nada sobre o assunto de tal forma ele me perturba não só no aspecto humano/afectivo, mas no aspecto mais racional que tenta analisar os porquês, as motivações, os objectivos. Parece que o meu enquadramento mental não foi estruturado de forma a interpretar e digerir este tipo de comportamento pensado, frio, implacável, organizado e levado a cabo sem hesitação, nem retrocesso, sem culpa, nem fraqueza, sem piedade nem compaixão. Vinte e quatro anos neste registo. Repito, vinte e quatro anos de intencionalidade. Não preciso de detalhes, de planos do bunker, de explicações do dito cidadão, de testemunhos de vizinhos para que o horror desta situação me perturbe, e a passividade da vítima me aterrorize. Porquê? Para quê?
Há no mundo situações de horror, enorme injustiça, perversão, desigualdade, violência gratuita, e não é preciso pensar muito para elaborar uma longa lista de horrores dos nossos dias. Mas este caso tem esta intencionalidade, este pensar, esta frieza, esta repetição ao longo dos ditos 24 anos, que estão para além dos próprios actos de violência, violação, perversão. E este facto incomoda demasiado. É como se estivéssemos perante um concentrado de Mal e esse Mal tivesse um rosto, uma forma, um corpo. Mal no tradicional sentido judaico-cristão, como o que é oposto ao Bem, o que se afasta do Bem (Deus). Como se afinal este caldinho cultural que bebemos diariamente e que evita pensar nas noções de Mal e de Bem, tivesse sido contaminado, por um momento.
6.5.08
Pode repetir?
Por favor! Se “geografias musicais” já é mau (só lá chegamos se fecharmos os olhos com força) a história de “geografias afectivas” até dá nauseas e só pede mesmo a porta de luz verde que diz EXIT. No final do texto para fazer bonito utiliza-se esta banalidade: “Este é o ponto de partida e chegada”. Porque será que não escrevem coisas normais e despretensiosas quando têm como objectivo darem-nos informação?
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3.5.08
2.5.08
1.5.08
Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 2
Socratismo e PSD
Neste momento é o socratismo que nos governa tendo-se assumido, através do executivo, como uma política reformista de rupturas, de exigência orçamental, de modernidade, e com uma ambiciosa componente tecnológica. Tenho, por vezes, neste blogue manifestado as minhas reservas em relação a algumas destas políticas, ou em relação à forma como elas são conduzidas, e poderia tê-lo feito em relação a mais. Parece que muito pouco foi feito do tanto que há a fazer, muito pouco foi reformado do que há a reformar, mas é inegável que o deficit foi controlado, que muitas “corporações” foram beliscadas e que o movimento criado, pouco e muitíssimo discreto, tem sido no sentido da modernização e competitividade e um sinal disso é o facto do Socratismo não agradar à esquerda clássica, PCP e BE. Mas para muitos outros o pior do Socratismo é José Sócrates himself, o homem político, o seu vazio, a sua opacidade, o seu estilo, as suas prioridades, os seus anúncios constantes disto e daquilo sem consistência, sem reflexão, a sua imagem cuidadosamente preparada pelos conselheiros de comunicação política, o seus discurso, o seu percurso, o seu curso, os seus projectos de engenharia e os seus sapatos Prada, o seu tom de voz moldado e trabalhado para aparentar espontaneidade, as suas frases slogan, os joggings de cada vez que vai em visita oficial ao estrangeiro, os “porreiro pá!”, as distribuições de computador. Um dos elos mais fracos do Socratismo é a credibilidade de José Sócrates.
Outros “ismos” que quiserem ocupar maior espaço político terão que, com toda a honestidade, dizer o que fariam realmente neste país que é o Portugal de hoje, dependente de cada pequena oscilação do preço do petróleo, da “conjuntura” internacional, com quatro ou cinco grandes grupos económicos que vivem em promiscuidade com o Estado, onde a excelência não é premiada e a criatividade altamente asfixiada com impostos, onde a classe média se torce ao fim do mês e onde todos reclamam os seus especiais e excepcionais direitos adquiridos, onde nenhum estudante até ao secundário pode chumbar por muito que isso custe à turma, aos professores e aos contribuintes, onde se ensinam competências e não matéria, onde uma exposição mal amanhada do Hermitage no Palácio da Ajuda é elevada ao nirvana cultural, onde se constrói demais e onde se planeia de menos. Poderia continuar mas não vale a pena. A questão é, sem demagogias e discursos ocos e inflamados de mudança e reforma (há quem já não possa ouvir falar em liberalismo, eu já tenho dificuldade em ouvir falar de reforma, de tal forma se banalizou ultimamente o termo ao ponto de qualquer medida avulso se fazer passar por uma reforma) saber exactamente o que é que outro “ismo” faria de diferente. Que capacidade de manobra teria neste Portugal de hoje, outro “ismo” para grandes medidas e rupturas sem desgastes sociais e sem o povo em protestos na rua. Eu sei que a credibilidade não entusiasma ninguém, não move, não é excitante, mas há um deficit dela no Socratismo, e os discursos irrealistas, bem intencionados cheios de teoria disto e daquilo também já não são novidade.
Ismos e Istas, Socratismo e PSD - 1
Ismos e Istas
Confesso-me perdida entre os últimos “ismos” e “istas” que povoam a minha (pouca) vida política. Lembro uma fase do pós 25 de Abril em que miúda tentava perceber diferenças entre comunismo, socialismo, leninismo, marxismo, trotskismo, maoismo. Hoje sei de onde vem cada palavra, conheço o contexto histórico que as fez o contexto ideológico que as tornou conhecidas, mas já não sei bem o que representam nos dias de hoje, a não ser o século XX. Hoje, à nossa medida, que somos um país pequeno e periférico (sim, com um clima óptimo e sardinhas de fazer inveja, mas mesmo e apesar do clima e das sardinhas, assim dependente e de recursos limitados) vejo o país político enredado em “ismos” e “istas” a perderem-se no horizonte. Ele é Santanistas, ele é Menezistas, ele é Barrosistas, ele é Cavaquistas, ele é até Socratistas ou Alegristas. Numa lógica a um nível de quarta classe o “ismo” dá o “ista”, por exemplo, o comunismo deu os comunistas, o maoismo deu os maoistas. Ora neste Portugal do séc. XXI ainda estou para perceber o que é o “ismo” que dá um “ista”, isto é o que é o Santanismo que dá Santanistas, o Cavaquismo que dá Cavaquistas... Parece que esta teia de “ismos” e “istas”se vai tecendo à volta de alguém, de um líder (ou potencial líder), de uma circunstância política de um momento na história, de tensões pessoais mais do que de um pensamento estruturado ou de uma corrente ideológica. Parece que estamos no grau zero do pensamento ideológico, mas talvez seja este um novo desafio deste século, pelo menos para países democráticos, mas periféricos, pequenos e dependentes como o nosso: fazer política sem ideologia. Viabilizar o país tornando-o mais moderno e competitivo, menos irrelevante, pobre e periférico parece ser o grande desígnio de qualquer político que queira governar Portugal, um país de grandes vícios públicos, com um Estado demasiado pesado e omnipresente, de inércias várias, de movimentos lentos e pesados. Um país de fados.
29.4.08
Crise Alimentar
Há qualquer coisa de realmente perverso na ideia de uma crise alimentar, na possibilidade que se desenha de escassez de alimentos face às constantes subidas de preços dos cereais nos mercados de mercadorias, e das subidas de preço previsíveis para os supermercados. Há décadas que se diz que há comida para todos no mundo, nós (o mundo ocidental, claro) é que não queremos ou sabemos distribui-la. Que o que se produz é mais do que suficiente para alimentar a população mundial. Falou-se de um excesso de produção de leite e houve um tempo de montanhas de manteiga que a então CEE impedia de circular, bem como subsídios para que agricultores deixassem de produzir. Não percebo nada. Toda uma vida a fazerem-me acreditar, e a tentarem dar-me má consciência, que o problema da alimentação era um problema de distribuição e má vontade das nações “ricas” bem como dos efeitos dos malévolos agentes económicos. Afinal parece que andei a ser enganada, a questão da escassez coloca-se afinal.
28.4.08
24.4.08
23.4.08
Já está. Discretamente, suavemente, ninguém parece muito incomodado, ninguém parece muito interessado, ninguém parece muito informado. Até agora não doeu, veremos mais tarde os efeitos secundários.Autópsia de um Crime (Sleuth)

22.4.08
Bento XVI nos EUA, 2
Também no encontro com os jovens e lembrando a sua juventude durante o regime nazi, Bento XVI falou da necessidade de prezar a liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos que os jovens hoje, em contraste com a sua juventude, gozam nos EUA e nas democracias ocidentais. E mais uma vez, o Papa foi mais longe alertando contra os perigos do multiculturalismo e do relativismo moral. Se a referência ao relativismo moral é um tópico caro a Bento XVI, já a referência aos perigos do multiculturalismo é ousada porque mais incómoda dado que nos meios mais tolerantes se tende a uma posição algo passiva, que prefere tantas vezes fechar os olhos para não ter que se confrontar com problemas como o desrespeito pela democracia, liberdade de expressão, igualdade entre sexos e o abuso da violência. Alertando para os perigos do multiculturalismo Bento XVI questiona a “bondade” de todas as tradições e culturas que se confrontam (não necessariamente no sentido bélico) hoje e tão de perto com a nossa.
21.4.08
Bento XVI nos EUA
Mais uma viagem de Bento XVI e mais um sucesso segundo o que se pode ler na imprensa deste e do outro lado do Atlântico. Com um estilo bem diferente do do seu antecessor, Bento XVI acaba sempre por surpreender no calor do contacto, nas palavras e gestos que usa. Os seus discursos que já não surpreendem, são sempre exigentes e obrigam a alguma reflexão. Mais do que um comentário à visita do Papa, à escolha da sua agenda e aos seus momentos marcantes, bem como à importância política da mesma, eu gostaria de retomar alguns tópicos por ele lançados durante estes dias e lidos na comunicação social quer nacional quer internacional.
20.4.08

*
(...) o partido fez como as famílias fidalgas: desbaratou o capital. Não tem nada. A não ser saudades, sede e fome. De poder.
Isto e um retrato implacável quer de Luis Filipe Meneses quer dos democratas que têm governado Portugal, no artigo de António Barreto no Público.
19.4.08
Nunca deveria sequer pensar em escrever sobre Futebol
Confesso não perceber nada de futebol, nem fazer muito esforço por perceber. Se do jogo pouco entendo, então daquilo a que se chama “mundo do futebol” é que não percebo nada mesmo, em tão pouco me apetece tentar perceber. Acredito que seja um mundo cheio de paixões, dinheiro, vícios, influências, jogos de bastidores porque é aquilo que parece ser mais óbvio e fácil de acreditar. O meu saber futebolístico resume-se a ver os jogos da Selecção Nacional em momentos decisivos (Euros e Mundiais) e em querer saber se o meu clube, o Futebol Clube do Porto, ganha ou não quando me lembro de que é fim de semana e que talvez tenha jogado e, felizmente, regozijar-me com as suas vitórias.
Apesar deste curriculum brevemente resumido, tenho ficado absolutamente boquiaberta e colada à televisão cada vez que falam do Boavista, e desta recente crise em que está e que mais parece coisa de outro mundo: o passivo, os salários em atraso, o investidor “mistério” em conferência de imprensa a garantir que está preparado para injectar milhões de euros no clube, mas que afinal já não vai investir porque depois de hoje ter sido interrogado pela PJ é agora arguido num processo de fraude, a ameaça de greve por parte dos jogadores, o dinheiro que entretanto chegou em forma de cheque com garantia dum banco da Indonésia (foi o que ouvi nos Telejornais da noite) e a greve que afinal já não vai ser. Sinto-me perdida perante uma história deste calibre, que mais parece um romance de cordel em versão futebolística, num país de ficção e de lunáticos, e que faz a falada crise do Benfica parecer simples. Nem sei o que pensar sobre o assunto, nem tão pouco se, enquanto cidadã nomeadamente porque nascida no Porto não muito longe do Estádio do Beça, devo pensar algo. Uma coisa eu sei. Nunca deveríamos estar a passar pela situação de assistir a esta crise surreal que não entendo e nunca numa liga de honra (ou lá como é que se chama esta liga dos melhores) deveriam estar clubes sem solidez financeira e de gestão necessárias para fazerem uma época completa sem este tipo de crises, se é que “crise” é a palavra correcta para definir o que se passa - parece-me uma palavra demasiado séria para este enredo que no entanto é também demasiado sinistro para ser opera buffa. Eu não disse que nunca deveria sequer pensar em escrever sobre futebol?
17.4.08
15.4.08
Estrogénio e Progesterona
Não me lembro de um acto, decisão, medida política de Zapatero de que tenha gostado. Mas de repente e sem pensar muito daria uma lista exaustiva de actos decisões, medidas, tomadas de posição, prioridades políticas, de que discordei. Tal como com o conteúdo político, não gosto do seu estilo, desse constante bicos de pés que se vê na vontade de estar sempre na crista da onda politicamente correcta tudo muito bem planeado pelos profissionais do marketing comunicacional político. Mas hoje – acreditando que estas nomeações não têm como único objectivo colocarem Zapatero num patamar mais alto do politicamente correcto – tenho que confessar que o admiro pela escolha de tantas ministras e muito particularmente pela ousadia de ter nomeado uma Ministra da Defesa grávida. Ver uma mulher grávida Ministra a passar revista às tropas é uma imagem carregada de simbolismo à qual, enquanto mulher, é difícil ficar indiferente.
Num mundo em que as mulheres políticas em cargos de maior responsabilidade tendem ainda a ter como modelo Margaret Thatcher e a ser, como tantas vezes se comenta, mais homens do que os homens, pela determinação, força e exigência, dá gosto ver uma mulher política no auge da sua feminilidade: redonda, com estrogénio e progesterona no seu máximo e com roupa feminina tal como a sua condição exige. Final de gravidez, parto, aleitamento, e a respectiva montanha russa hormonal, eis o que espera a Ministra da Defesa espanhola e, como se isso fosse incompatível com o exercício de qualquer cargo de responsabilidade, eis os medos e tabus (tão previsíveis, afinal) por trás das críticas que têm sido feitas a esta escolha de Zapatero. Se não, eu não percebi mesmo o que é que se critica com esta nomeação: a nomeada aparentemente ter competência e curriculum? Ser socialista? Ser Mulher? Estar grávida?
14.4.08
12.4.08
Crónica Da Vida Num Resort 3
A imaginação criatividade e flexibilidade linguística brasileira atinge o seu auge na hora de nomear, e isso nota-se na hora de nomear os seus filhos tendo os brasileiros um leque de nomes próprios capaz de espantar qualquer espírito. Contracções entre dois nomes, trocas de letras, sílabas, anglicismos, são algumas das técnicas usadas para construir um novo nome, algo que os enche de orgulho. Nada que não soubesse, mas estar lá e ouvi-los chamarem-se uns aos outros é um exercício constante de decifração e mesmo memorização se queremos não ter dificuldade em lembrar o nome momentos depois. Élida, Nedmilson, Sue Ellen, Jaquinho são alguns exemplos que lembro graças ao mais notável e fiável exercício de memorização: escrever os nomes num papel.
11.4.08
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