Depois de 83 anos de vida, e alguns meses de quimioterapia, Paul Newman deixa o hospital e o tratamento e pede que o deixem ir morrer em casa junto da família. Um dos homens mais belos de sempre. Um deus. Que morra em paz.holehorror.at.gmail.com
18.8.08
Educação para a Morte - O Regresso a Casa
Depois de 83 anos de vida, e alguns meses de quimioterapia, Paul Newman deixa o hospital e o tratamento e pede que o deixem ir morrer em casa junto da família. Um dos homens mais belos de sempre. Um deus. Que morra em paz.17.8.08
Primeiros Socorros
Não sem ironia, ofereceram-me recentemente este simpático livro que promete aos “amis lecteurs”, a custos mínimos, “de prendre en charge votre bien-être” de cada vez que nos defrontarmos com as várias questões que podem atormentar uma vida: existenciais, financeiras, sentimentais ou mesmo “petits riens”. Diz-nos a autora que
“(...) vous êtes peut-être tentés de courir chez votre psycanalyste (...) lequel, moyennant une somme exorbitante, va vous écouter en hochant la tête. Au mieux vous délivrera-t-il une petite dizaine de phrases qui vous auront couté la bagatelle de 80 euros (tarif parisien pour une demi-heure de thérapie). Autrement dit, chaque phrase vous aura coutê 8 euros). Savez-vous que pour ce même prix (8 euros), vous pouvez obtenir des centaines de phrases, voire des milliers? Il vous suffit (…) de trouver le roman (…) adapté à votre problème.»
A escolha dos romances é da autora e ao lado de tantos clássicos por vezes deparei-me com obras que não conhecia, ou cujos autores nunca tinha ouvido falar ou os dois casos.
13.8.08
As acrobacias que fazem com os números e com os pressupostos para nos convencerem de que este verão tem tido temperaturas superiores à média do “período de referência” e de que as suas previsões de médio/longo prazo estavam certas... E pelo caminho, mantém-se a inexorável convicção, mais a sua prima a culpa, do aquecimento global. Nós, os que vamos, ou não, à praia, que ligamos ou não o ar condicionado do carro que ficou ao sol, não percebemos nada de calor e frio. Como se cada um não pudesse olhar para os números e tirar a conclusão que bem lhe aprouver. Este nota do IM parece um pouco “silly”. Deve ser do calor.
11.8.08
Novas Geografias do Poder

Num período em que lemos coisas do género “geografia dos afectos” ou geografia disto e daquilo, um título deste género parece não destoar, apesar de ser algo óbvio e de não ter a subtileza estilística da primeira expressão. As imitações nunca têm a qualidade dos originais, mas mesmo assim apeteceu-me escrevê-lo.
É interessante ver que enquanto o ocidente veraneia à vela em Martha’s Vineyard ou em churrascos no Texas, em iates em Porto Cervo, à noite em Ibiza, ou no festival do Sudoeste (em países onde não há Salzburg), o que importa vai-se decidindo lá nessas novas (que de novas têm nada) geografias do poder. Geografias de sempre da arte, da subtileza, da poesia, da humanidade. Geografias de sempre de capacidade de decisão sem frou-frous nem concessões frouxas, de tantas tiranias, de frieza desapiedada. A Rússia mostra que sempre teve um exército digno desse nome, a China mostra que tem dinheiro a rodos exibindo uma cidade organizada e preparada para uns jogos olímpicos sem falhas em que todos os chineses participam, uma modernização urbana ímpar e num período de tempo record, bem como uma vitrine de arquitectura moderna no seu esplendor máximo e numa abundância de fazer corar a abastada Europa toda junta (uma pequena mostra aqui, por exemplo). Veraneemos pois nesta geografia da eterna esperança em contentamentos e finais felizes feita de Estado e de Prozac, enquanto a vida que importa para o futuro passa ao lado; noutras geografias.
8.8.08
Aos 8 minutos das 8 horas do dia 8 do 8 do ano 2008
Tinha a certeza de que iria gostar e tinha a certeza que seria muito conseguida em termos criativos e estéticos. Assim foi: imaginativa, poderosa, bonita, inteligente, organizada, eficiente, disciplinada, atenta a todos os detalhes.
Foi tudo tão perfeito que me lembrei das antigas paradas militares soviéticas na Praça Vermelha, em que se “exibe” poder. Esta cerimónia é uma versão show-biz, mas nem por isso menos light, de uma exibição de poder ainda mais amplo do que o mostrado nas paradas militares soviéticas, pois não é só o poder militar que está em jogo: é o poder económico, o poder criativo, inovador e tecnológico, o poder diplomático - estava lá quem tinha que estar: Bush com um discurso de há dois dias amplamente debatido pelos comentadores de serviço da RTP, Putin que calmamente apreciava o espectáculo como se tudo estivesse tranquilo na frente de combate, Lula da Silva de uma das grandes potências emergentes bem como representantes das monarquias democráticas europeias e japonesa, enfim a quase totalidade do “who’s who” político do momento que importa estva lá – e, last but not least, o poder político que uniu o país, isto é os chineses, neste esforço comum e neste desígnio nacional que é mostrar uma nova China moderna, inovadora e competitiva ao mundo. Os números impressionantes de chineses que participaram na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim e que de uma forma ou de outra se voluntariaram (ou não) para colaborar na organização, mostram sem margem de dúvida que “lá” se joga com uma escala bem diferente do que estamos habituados. Embora esta dimensão de poder político seja a menos visível no espectáculo, não deixa de ser importante e convém estar atento ao que fica ou não quando os convidados se forem, se limpar a casa, sacudir o pó, arrumar as cadeiras e regressar ao trabalho.
(mais fotografias aqui)
5.8.08
Educação Para a Morte (3)
... ou dando livre curso a algumas ideias a propósito e a despropósito da leitura de Educação Para a Morte de Filipe Nunes Vicente, tendo sempre em mente a máxima do autor: “o que pode acontecer é que através da conversa entre dois humanos um deles consiga organizar a colecção de banalidades que as redondezas da morte suscita.”
Nestas conversas entre dois humanos perante a morte, um luto ou sofrimento profundo, muitas vezes há uma banalidade bem intencionada, mas carregada de veneno, que é comum dizer: vai correr tudo bem. Todo o livro de FNV é um manual exaustivo de como raramente tudo vai correr bem, o livro é também um manual de vida sem a esperança sem luz ao fundo do túnel, sem esse consolo dos aflitos, é uma provocação na aceitação tantas vezes da vida sem esperança (pode-se viver sem esperança, pág.47) fazendo-nos crer que o que nos move é uma força indiscernível (pág. 66) cuja origem divide os psicólogos (pág 66) que, ironiza o autor, são uma exigência da cultura ocidental dos últimos cem anos no que ela tem de técnica da alma: somos perfectíveis, só é preciso saber mexer nos botões certos (pág.66). Afinal também eles (psicólogos) acreditam que tudo vai correr bem e também eles acreditam em finais felizes e passam tantas vezes ao lado da “alma”(poder-se-ia abrir um debate sobre o que é isso da alma: fica para um dia...). Ora a morte e o luto transformam (pág.86 citando Lavoisier). Tudo fica diferente. E é essa evidência que é tão difícil para os interlocutores quando se tenta organizar a colecção de banalidades nestes momentos de sofrimento. Fazer crer que tudo vai correr bem, tantas vezes não é mais do que a evidência da incapacidade de lidar com o sofrimento, de o aceitar como parte integrante da vida, e saber partilha-lo com quem sofre. É a distância, a prudência, o não querer demasiado envolvimento. Acreditar na "cura", nessa capacidade da alma em nos tornar perfeitos é uma forma de simpático afastamento do outro, de iludir, de evitar olhar para a “alma”, é mais um sinal deste modo de viver em que tudo tem que "estar bem". Para isso adopta-se o wishfull thinking, a esperança em versão light de que realmente um dia tudo ficará bem.
1.8.08
São Rosas, Senhor... 2
Aposto que se Cavaco Silva tivese feito a declaração ao país num dia qualquer de Novembro, ou Janeiro ou Abril, dizendo exactamente o que disse, as reacções teriam sido diferentes. Às vezes não se percebe onde acaba o incómodo e enfado pelas declarações terem sido feitas a 31 de Julho - dia maldito para pensar em coisas “dessas", e começa o comentário genuino ao seu conteúdo.31.7.08
Não é que não se deva tentar fazer justiça, não é que não se deve nunca parar de tentar ser justo, mas a justiça dos homens é tantas vezes tão imperfeita que deixa um certo amargo de boca, uma revolta, uma insatisfação. Às vezes é tardia, às vezes falha, às vezes é politizada, às vezes não se entende e tantas outras vezes apetece dizer “mas porque é que não se matou x ou y” para nos pouparmos a relembrar, reviver o que não queremos nem relembrar nem reviver, para nos pouparmos ao quão perturbante é ver os réus na televisão, no Tribunal Internacional de Haia, acusados de crimes de genocídio com ar digno e até um pouco arrogante de quem se julga ter sido fazedor e condutor de uma política ao serviço de algum ideal que o comum dos mortais não consegue entender (e não). A reparação de um mal é difícil e tantas vezes impossível. À justiça dos homens não cabe avaliar intenções, arrependimentos, desejos de reparação ou perdões. Por isso, e sem negligenciar a justiça dos homens, é tão melhor acreditar na Justiça Divina (pelo menos enquanto se pode...)
27.7.08
Educação para a Morte (2)
... ou dando livre curso a algumas ideias que a leitura de Educação Para a Morte de Filipe Nunes Vicente desencadeou.
Acabei o primeiro texto sobre este livro dizendo quão ausente tinha sentido a morte, ou sendo mais precisa o morrer, num livro que é feito sobretudo das ausências e para as ausências – desses buracos escavados no ser – que a morte deixa aos que (sobre)vivem. Nesse sentido mais do que uma educação para a morte o livro pareceu-me uma reflexão e educação para o luto e as várias faces que pode tomar. Na primeira história, a da mãe que vai morrer e deixa filhos pequenos – uma das mortes mais cruéis de se ver morrer, se é que é permitida esta banalidade, (mas segundo o autor “o que pode acontecer é que através da conversa entre dois humanos um deles consiga organizar a colecção de banalidades que as redondezas da morte suscita” e que teimam em desorganizar-se e dispersar-se), esse luto toma uma forma perversa pois é o luto de uma responsabilidade que não se vai honrar, dos filhos que não se vão acompanhar e educar, do amor que não se vai dar, dos filhos que não se vão ver crescer. A forma como se faz a abordagem do tempo e da dimensão que adquire, ou limitado ou infinito em cada instante precioso, é muito tocante.
Tudo no livro se passa a um nível da reflexão, do desafio intelectual, do labirinto filosófico e simbólico, da retórica. Mas a morte não é complacente, é demasiado definitiva, demasiado irreversível, demasiado desconhecida, e sobretudo demasiado presente para quem "sabe" que vai morrer. Essa presença toma conta do ser e quase tudo o resto parece que se cala neste diálogo em frente-a-frente simples e desarmante: eu e a minha morte, que mesmo quando não se sabe de um saber que se faz linguagem e se faz presente, sabe-se de um saber mais visceral que se sente (a lucidez do moribundo, pág 34) ou que se teme e nem se quer verbalizar. Quase tudo, pois o sofrimento físico – outro ausente desta Educação Para a Morte, baralha os dados do binómio e tantas vezes a morte que é vista como a adversária, a inimiga passa a ser quase olhada como uma amiga, como o último conforto, a aliada desta provação. O sofrimento físico, ou melhor o medo do sofrimento físico é tão ou mais temido do que a morte não só de quem vai morrer como da família perplexa e aturdida, e o seu receio centra o debate e negociação internos de todos os intervenientes que mal conseguem dialogar entre eles, num plano terapêutico e médico em corredores ou quartos de hospitais. Mas afinal nestes momentos de solidão no frente-a-frente com a inevitabilidade, o conforto dos rituais de sempre, das pequenas tarefas, obrigações ou prazeres, arranjar as unhas ou as sobrancelhas, ou segundo FNV sentar na cadeira favorita (pág. 23) ou comer bolachas (pág.32), perante a perplexidade dos vivos (“os bem vivos sentem mal este último apego prazenteiro”, pág. 23) tornam-se símbolos de um controle e dignidade que ainda não se perdeu e dão segurança perante os silêncios de que estes momentos são feitos.
23.7.08
Incontinência Verbal
A grande máxima O Silêncio é de Ouro já terá conhecido dias melhores neste cenário que é Portugal. Parece que nos últimos tempos estamos condenados a uma revisitação de Decartes sob a forma Falo, Logo Existo, em que este existo remete sobretudo para o lado patético e tantas vezes absurdo dessa existência por oposto à lógica limpa e cartesiana. Pergunto-me o porquê de forçar esse “existir”, o que leva a que as pessoas não consigam estar caladas, sobretudo em situações em que o ressentimento é óbvio e a falta de bom senso uma constante.
Foi Isabel Pires de Lima, foi Luís Filipe Menezes, só para citar alguns exemplos recentes, mas nestes últimos dias o caso Maddie tem-nos fornecido ampla incontinência verbal que, em última análise, descredibiliza de uma forma que dificilmente terá retorno as instituições em causa, a investigação, já para não falar dos intervenientes que se revelam vulneráveis ao ruído e carentes de bom senso mostrando o quão impróprios são para os cargos que detiveram ou detêm. Anteontem foi Alípio Ribeiro, ex-director da PJ a criticar o arquivamento do caso, ontem foi o actual director nacional da Polícia Judiciária (PJ), Almeida Rodrigues, a considerar que o seu antecessor "não ficou propriamente conhecido pelos seus dotes de investigador", hoje Gonçalo Amaral anuncia o seu livro em que defende a tese de que Maddie estará morta após um terrível acidente. Não há períodos de nojo, todos se atropelam, todos se interpelam, e o país assiste a isto já como se fosse mais uma das tantas telenovelas que diariamente se vêem. Claro que o problema começa em quem nomeia (ou elege, claro) quem para que cargos. A partir de agora a contenção deveria ser um requisito obrigatório.
21.7.08
20.7.08
Educação Para a Morte 1
Filipe Nunes Vicente (co-autor e principal animador de O Mar Salgado) escreve bem demais para que o que diz faça sentido, faça um sentido, pensei eu ao começar a ler o seu ensaio, cuja retórica atordoa de prazer numa espécie de circuito semântico fechado cujas inúmeras referências filosóficas, literárias e outras servem de ponto de partida para os brevíssimos textos. Confesso que há muito tempo que um livro escrito em língua portuguesa editado recentemente não me dava tanto prazer ler, embora eu saiba que sou péssima a julgar pois leio pouco em língua portuguesa. Assim esta “Educação para a Morte” é uma peça literária antes de mais nada, e um belíssimo livro, com um título que ilude pois nada lá é educativo ou pedagógico quer no sentido mais pragmático quer na intencionalidade com que é talhado; não são apontados caminhos a seguir ou soluções a considerar, ficamo-nos pelas constatações, pela perplexidade, pelos tantos paradoxos que a vida nos traz, pela tentação de uma generalização que não chega a ser feita, pelo evitar da esperança que aconchega.
Sempre enleada ao ler as suas reflexões, fui a pouco e pouco entrando no domínio da alegoria, do símbolo, da alusão, da referência, ancorando-me ao fio de sentido e de continuidade – uma continuidade que é mais uma sequência do que um desenrolar - que cada série nos dá, num trabalho sempre notável e de rara sensibilidade. Ao longo da leitura pensei em Gil Vicente e no "Auto da Alma", pois parecia que estava perante uma versão menos pedagógica, mais erudita, mais moderna (óbvio) e mais existencialista do caminho das almas neste mundo. Tudo isto faz deste livro um livro para os vivos: muito mais para os vivos do que para os mortos. Enganam-se aqueles que esperam educar-se para a morte (a sua ou a dos outros) na tradição de Kubler-Ross ou mesmo de Hennezel. Neste livro a morte, ou dizendo melhor: o morrer é o grande ausente, num ensaio feito sobre a(s) ausência(s) que a morte gera.
Voltarei a este tema, e a este livro.
19.7.08
Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és, assim reza o provérbio. Esta tem sido uma semana interessante para José Sócrates: ontem José Eduardo dos Santos, hoje Kadhafi, ambos importantes parceiros estratégicos, ambos notáveis e, claro, ambos amigos de Portugal. É também nestes momentos que vemos, com algum embaraço, como somos um país pobre.14.7.08
Da Compaixão
Li com alguma sofreguidão e muita comoção o artigo do Caderno P2 do Público sobre Ingrid Bettancourt baseado em entrevistas dadas por ela a vários media internacionais. É todo ele um ensinamento dado com a enorme simplicidade que o sofrimento que se vence a cada dia com persistência, vontade, disciplina e trabalho interior vai expondo e, pareceu-me num primeiro momento, com uma linguagem que todos entendemos, ou pelo menos deveríamos entender que é a linguagem da humanidade do facto de todos partilharmos esse denominador comum que é sermos seres humanos.
Engano meu. Num relato, tudo ele pungente, Ingrid Bettancourt faz uma afirmação que me deixou chocada, porque ao quantificá-la a tira do universo abstracto das afirmações que se vão tornando lugares comuns ouvidos amiúde do tipo: os nazis eram implacáveis, ou os Khmer Rouge não tinham um pingo de compaixão ou a crueldade estalinista não tinha limites. Creio que ninguém no seu perfeito juízo procura compaixão (não um afastado “ter pena de”, mas um mais próximo “sofrer com”) num movimento terrorista cheio de fanáticos guerrilheiros que sabemos serem treinados e vigiados, nomeadamente para serem carrascos e implacáveis. No entanto, são de seres humanos que falamos e quando se lê nestes relatos de IB que terei contactado com mais de 300 guerrilheiros de todas as idades, de todas as condições. Destes 300, não terá havido mais de dois ou três a revelar um comportamento de compaixão, é profundamente perturbador e esta quantificação é duma violência enorme. Ao longo de seis anos de cativeiro e entre 300 guerrilheiros só dois ou três terão mostrado um comportamento de compaixão; ela mencionou um que lhe forneceu remédios, não falou nos outros dois, não sabemos o que fizeram, quem sabe se um deles se limitou a olhá-la como um ser humano olha para outro? O pior, diz ela, foi ter percebido que os seres humanos podem ser tão horríveis com outros seres humanos. E nós percebemos que a solidão que vem dessa constatação e dessa condição é imensa.
10.7.08
Best Of Booker

5.7.08
A capa da edição impressa do Público de hoje é um primeiro passo importante no dever de indignação nacional face à promoção da ignorância e da mediocridade através da mentira. Ao contrário do preço dos combustíveis, factor que cede pouco a indignações e que tem pouca cura com “medidas” governamentais – eu acredito pouco nas medidas “sociais” de governos face a crises económicas deste tipo, os exames do secundário espelham as políticas educativas aberrantes que temos tido ao longo dos anos e dos governos e muito especialmente as avaliações feitas com mentira e má-fé promovidas por este governo em particular. A indignação nesta área poderá dar frutos e criar pressão no governo, para que se comece a limpar o ensino da tralha que o asfixia e se passe a ensinar e exigir e a preparar desde cedo os alunos para um mundo e um mercado de trabalho exigente e competitivo. Não querem reprovações, acabem com elas e passem certidões de “Frequência” a quem frequentou mas não tem nota que satisfaça, mas que se permita sempre aos alunos aprovados poderem destacar-se uns dos outros, e que se possa sempre premiar o mérito, o trabalho, o esforço e a excelência. Não se pode é nivelar por baixo.
4.7.08
A baixa da taxa de reprovação a matemática tem sido, nos últimos três anos interessante: cada ano é metade da anterior. Por este caminho para o ano será um número insignificante o da taxa de reprovação e em três anos Portugal dá o grande salto em frente com taxa residual de chumbos a matemática do 12º ano. Se não tomarmos medidas arriscamo-nos a ser um país de sábios e de matemáticos natos, pois é preocupante o enaltecimento desta melhoria dos resultados que se “verifica pelo terceiro ano consecutivo”.A Português, as variações parecem mais normais, o que não é normal é a média das classificações. Médias de dez (algo mais ou algo menos) é um sinal evidente da falta de preparação dos alunos para a utilização da sua Língua Materna e um sinal claro de baixo nível de literacia.
Entretanto vale a pena ler Maria Filomena Mónica (Edição Impressa do Público, P2) sobre os exames de Português, num exercício de verdadeiro Serviço Público. Só é pena que se tenha debruçado apenas sobre o Português.
1.7.08
As Mulheres Fazem Política de Forma Diferente?
Tem-se perguntado “por aí” nestas últimas semanas se as mulheres têm uma maneira diferente de estar e de fazer política da dos homens. É a velha história de se as mulheres escrevem de forma diferente dos homens se gerem empresas de modo diferente dos homens etc, etc. Este item da agenda pensante do momento lembrou-me uma cena a que assisti há não muito tempo e que me pareceu interessante, bem como relevante para este caso.
Duas crianças, um rapaz de 7 anos e uma rapariga de 5 anos brincavam com um Action Man que tinha um enorme carro/habitação/quartel-general todo equipado para o conforto, para as imprescindíveis telecomunicações, para defesa, ataque, para camuflagem e para a sobrevivência em geral. O rapaz mexia mais nos gadjets do que no boneco propriamente dito; preparava a secretária para telecomunicar, as armas para defender e atacar, organizava os restantes equipamentos para que estivessem prontos para quando fossem necessários e dedicava-se com atenção a essas tarefas. A menina pegava no Action Man que estava vestido, talvez equipado fosse uma palavra mais correcta, e perguntava-lhe, com ar de quem sabe o que faz, se ele tinha feito cócó e se tinha limpo o rabo, isto perante o olhar atónito do miúdo. Depois disse que ele tinha que ir dormir e foi buscar a rede guardada num canto do veículo multi-funções, tentou desfazer a secretária, isto é a central de telecomunicações, para estender a rede e o pôr a dormir. O rapaz ficou parado, e depois de uma pausa para tentar perceber o que se passava, diz-nos de forma divertida mas paternal: “ela pensa que é a mãe dele!”
Esta cena não me sai da cabeça, mas creio que só posso tirar conclusões mais sérias e daí inferir algo de conclusivo para a forma de ambos os sexos fazerem política quando vir duas crianças, rapaz e rapariga a brincar com uma Barbie. É a peça que falta.
29.6.08
Plataforma contra a Obesidade 41
Numa época em que se insiste no truísmo de que “somos o que comemos”, esta ideia de “retrato” no prato de René Magritte faz todo o sentido e ao fazer todo o sentido pomos, num primeiro momento, em causa a retórica surrealista da incoerência, do contra senso e do inesperado. Mas quando o nosso olhar se demora no quadro, deixa-se seduzir pela sua simplicidade, deixa-se encantar pelo seu grafismo “clean”, pelo rigor do desenho, pela uniformidade da cor, pelo esperado dos contornos e das sombras, pelo equilíbrio formal, pela simplicidade temática. Só o olho, aquele pequeno olho na fatia de fiambre, chega para desequilibrar e perturbar a aparente tranquilidade que a paz gráfica nos dá. Quanto mais olhamos, mais nos surpreendemos. Surrealismo no seu melhor, e um quadro fabuloso.
The Flock
Ainda não me habituei a sair de um filme a meio numa sala de cinema. Vejo muito quem o faça, mas até hoje nunca o fiz. Já aprendi a abandonar livros, mas filmes ainda não. O que vi ontem, “The Flock”, traduzido, sabe-se lá porquê, para um “Obsessão Mortal” (porque não uma tradução literal para bando ou rebanho?), foi um sério candidato ao abandono da sala. Mau filme, aliás as primeiras frases do filme, clichés batidos, prenunciam o pior, mas depois de pagar um bilhete não queremos acreditar em maus prenúncios. Um filme sem densidade, sem uma verdadeira “história”, com personagens sem espessura, diálogos fracos, sem tensão dramática, (aliás, sem drama), com violência a rodos obrigando os espectadores (olhei à volta) a ter sempre as mãos próximas dos olhos, e sem sentido, nem propósito para tanta exibição de imagens violentas e soturnas. Um surpreendente (a única surpresa do filme) happy ending - se é que algo pode ser happy num filme tão mau, só piorou o que considerávamos impossível de piorar. Um filme a evitar, só não percebi porque ninguém abandonou a sala, nem eu própria.
O que era implícito, o que era uma dedução lógica, mas simples (como se houvesse contradição entre estes dois termos) tornou-se ao longo desta semana explícito e assumido. Pelo menos agora sabemos todos do que falamos, quando se falam em exames nacionais e sabemos todos para que eles servem.24.6.08
Da Pobreza
O que se passa com os exames nacionais do ensino básico e secundário é um escândalo: o governo está, deliberadamente, a promover e a premiar a ignorância e a mediocridade sem outro objectivo nobre – e eu nem acredito que a promoção da ignorância e mediocridade possa algum dia ser feita em prole de um objectivo nobre – que não o de contornar estatísticas. Por causa de uns números europeus ou internacionais que medem e mostram o grau de literacia de um país estamos a por em risco a educação, o conhecimento e o rigor. Pura vaidade do nosso Primeiro-ministro que falhando noutras áreas quer fazer bonito aos olhos de fora tapando e escondendo as misérias domésticas. Pura perfídia para com o país (os pais) que paga tantos impostos e espera um ensino capaz e minimamente (já só digo minimamente) exigente, pura mentira para os alunos e professores que se esforçam com seriedade e rigor e vêm os seus esforços serem nivelados ao lado da mediocridade. É um caso de pobreza pura, moral sobretudo, mas também intelectual, porque a pobreza não tem só a ver com o dinheiro que se tem ou não no bolso, nem com as oscilações do mercado que faz subir os preços do petróleo. Mas desta pobreza fala-se pouco, é menos sloganizável.
Aqui no Blasfémias uma síntese de jcd de porque é que, sem entusiasmo mas também sem vergonha temos finalmente um líder em quem se pode votar, o que é já um grande alívio e uma enorme diferença em relação às eleições anteriores.23.6.08

Logo de manhãzinha, ainda a recolher os pedaços de si que se desagregam e se espalham por aí durante a noite, ainda a olhar a luz perplexos, lemos notícias destas e ficamos sem saber se afinal ainda somos actores dos sonhos improváveis das noites de verão ou já acordámos. Depois perguntámo-nos se não será o dia 1 de Abril, e se não haverá algum engano. O pior é preferir nem saber pois já nem nos resta a esperança de que a justiça no fim, como os bons no cinema, vença sempre nem a esperança, para sossego das nossas consciências, de que decrete os culpados e os inocentes separando trigo do joio e repondo ordem. Já nem sequer há Marias Josés Morgados que nos valham. Que país é este?
21.6.08
20.6.08
Um Post de Generalidades, mas
O tema não merece mais nem melhor. Manuela Ferreira Leite cometeu o pecado de ter enunciado a sua condição de mulher ao dizer que, cito de cor, As mulheres não pensam 24 horas na política, e que pensam noutras coisas. Caiu o Carmo e a Trindade, jornalistas, bloggers, analistas, comentadores, políticos da esquerda, políticos da direita têm-se detido nesta frase e encontrado mil razões para verem nela sinais de incompetência política, feminismo, oportunismo, falta de feminismo, eu sei lá! You name it, they saw it. Para mim a frase revela a mais óbvia das realidades, diria mesmo que é de uma banalidade total, e ao enunciá-la entrarei com gáudio no reino das generalidades: uma mulher, seja ela quem for, nunca pensa 24 horas na mesma coisa. Mesmo que queira, não consegue, porque não a deixam, porque ela não quer, sei lá: porque é assim, ponto. Há sempre um neto que nasce, uma empregada que telefona pois não percebeu o que era o jantar, a caixa de e-mail que nem queremos abrir, um filho que deita sangue pelo nariz, a reunião marcada para as 18 e 30 e as crianças que só podem estar no colégio até às 19 e o pai delas que não atende o telefone, a filha que hoje à noite vai sair e ainda não se sabe bem com quem, a mensalidade do sei-lá-o quê que esqueceu pagar, as calças do marido que já estão prontas na tinturaria há uns dias e ele que teima em se esquecer de ir buscar, a mãe que telefona pela enésima vez a perguntar se não nos esquecemos do aniversário da tia, a sogra que não consegue falar com o filho, o ex-marido que este mês ainda não pagou a pensão das crianças mas foi ao Brasil de férias, aquele fato lindo e que faz tanta falta será que se aguenta até aos saldos, o relatório que não se consegue começar pois o departamento x ainda não mandou os dados, o telemóvel que toca à noite com o(a) chefe a pedir informações para a reunião que vai ter de manhã... Poderia continuar, mas acho que não vale a pena.
Este acontecimento que se criou à volta da frase de MFL fez-me lembrar a reacção dos media franceses quando descobriram que Segolène Royale usava bikini e a fotografaram assim na praia. Então queriam que ela usasse o quê: um fato Chanel? Uma burka? Ela é mulher, e as mulheres vestem bikinis. Eu já vi fotografias dos políticos na praia e não me lembro de os media se deterem no tipo de fato de banho que eles escolhem calção ou sunga, no comprimento dos calções, surfista ou boxer, se são de licra justos ou de sarja largueirões... Escreve-se muito sobre a igualdade de tratamento, mas isso é pura ficção pois as mulheres ainda são tratadas de forma diferente, e isso vê-se no dia em que ousam lembrar a sua condição de mulher e lhes cai o mundo em cima da esquerda à direita: ou porque disse e não devia ter dito, ou porque não disse a coisa correcta da forma correcta.
19.6.08
Avaliar
A tarefa de avaliar é uma das tarefas mais exigentes que há e uma em que todas as partes envolvidas (não só algumas) esperam boa fé, honestidade e seriedade, isenção e critérios objectivos definidos à partida. No caso da Educação o objectivo da avaliação deve ser o de servir exclusivamente para medir o grau dos conhecimentos adquiridos de uma determinada população estudantil de acordo com o programa estabelecido como objecto de exames e provas. Avaliar permite quantificar através de uma medida (a nota) a quantidade de conhecimentos adquiridos, bem como a capacidade de os aplicar em casos concretos ou de os integrar e relacionar com outros universos do saber contribuindo para a formação da pessoa. Avaliar bem interessa a todos: aos alunos que vêm os frutos do seu trabalho (ou não), aos professores e às escolas que podem através dos resultados dos seus alunos tirar conclusões que eventualmente lhes permitam melhorar o exercício da sua missão de ensinar, aos Pais que financiam a educação dos filhos (quer através dos impostos quer através de impostos e de propinas de estabelecimentos de ensino privados) para que os filhos usufruam do melhor ensino possível, às universidades que podem escolher quem querem ou não aceitar, à sociedade em geral que ao recrutar recursos humanos tenta também sempre ter o melhor possível.
Como disse no início, avaliar é uma tarefa essencial e muito séria, e que devia ser levada a sério por quem tutela da Educação no nosso país. Infelizmente não é isso que temos. Todos os anos se mudam programas objecto de exames, todos os anos se mudam o tipo de exames, todos os anos se ajustam os critérios da avaliação, não em função do seu objectivo desejável que é medir e dar um grau ao conhecimento, mas em função de critérios políticos cujos objectivos são o de mostrar que a iliteracia se vence a cada dia, a cada ano, a cada governo e que em anos que precedem eleições a iliteracia atinge números mínimos até agora nunca vistos. Há também que melhorar o mapa do sucesso escolar para não fazermos má figura face a uma Europa de uma forma geral mais educada e rigorosa quer no ensino, quer na avaliação. Com tantas mudanças de parâmetros cada um faz a estatística que quiser pois não há uma só variável, todos os dados são variáveis e os números são obtidos em função de um resultado político que se pretende e não em função do que cada aluno sabe de facto, do que cada faixa etária num determinado ciclo escolar sabe de facto.
O que se tem passado a este nível é uma forma de mentira institucionalizada em que a mediocridade se espalha pelo universo estudantil como uma nuvem. Quando se estimula a mediocridade criamos o abismo futuro, mas perceber isto é muito complicado para quem só consegue pensar em ciclos de uma legislatura de quatro anos. Ver esta situação revolta-me profundamente por isso, e sem conhecer os detalhes da proposta do CDS/PP de propor uma estrutura independente para conceber os exames nacionais, aplaudo e estou na generalidade de acordo com tal proposta. Aliás só tirando a avaliação dos estudantes desta necessidade – e, infelizmente, facilidade - de fazer boas estatísticas e de servir propósitos eleitoralistas, se pode começar a ter alguma seriedade no ensino. Pode ser um bom começo.
18.6.08
17.6.08


As contradições atingem por vezes níveis que me atordoam. Hoje, segundo declaram os alunos que o fizeram, o exame de Língua Portuguesa do 12º ano foi fácil. Ontem e hoje ouvem-se os professores das diferentes universidades e faculdades queixando-se de os alunos não saberem escrever português, de darem erros e de terem dificuldade em interpretar. Ontem e hoje ouvem-se os professores do secundário queixarem-se da falta de literacia dos alunos, de não saberem argumentar, comentar, analisar, comparar, textos e do facto de raramente conseguirem alinhavar mais do que meia dúzia de linhas nos testes em que deveriam mostrar algum à vontade na expressão escrita. Queixam-se dos programas de língua e da sua pouca exigência, queixam-se de terem que perder tempo precioso a justificar com relatórios detalhados as más notas que se vêm obrigados a dar, e a nem sequer serem questionados quando dão excelentes notas. E agora os alunos dizem que os exames foram fáceis! Há algo que não bate certo.
A vontade de termos estatísticas bonitas, lindas, brilhantes e muito lisas em termos de sucesso escolar, é mais uma mentira a que este governo nos obriga para nos iludirmos com a penosa realidade da iliteracia e a complexidade que é uma política educacional de sucesso que não se faz em dois ou três anos. Pelos vistos as nossas estatísticas da educação caminham a passo célere para o mundo de plástico e neons que nos tentam impingir, pelo menos e de forma evidente, há três anos.
Nota: pelo que leio na notícia, Saramago com “O Memorial do Convento”, voltou a sair no exame. Será que não há outros autores portugueses dignos de estudo? Teremos que viver perseguidos por Saramago para o restos dos tempos? Este novo riquismo saramaguiano já cansa. Não nos obriguem a maldizer o dia em que lhe atribuiram o Nobel.
15.6.08
Das Palavras
Sou atenta à forma como se usam as palavras e identifico expressões que num momento são moda, noutro cansam e no seguinte se tornam pirosas. Vejo como as palavras cuidadosamente escolhidas por “sábios” tentam tantas vezes dar uma capa de verniz à falta de conhecimentos ou de “mundo” de quem as utiliza, nomeadamente a políticos, mas não só. Muitas vezes divirto-me só com a forma como elas são combinadas, de forma pomposa e pouco natural e até já tenho rido com letras de músicas aqui no blogue.
Tudo isto porque me deparei finalmente aqui (via Portugal dos Pequeninos) com uma expressão que tardava a aparecer e que eu queria saber quem seria a primeira pessoa (que eu lesse, claro – e assumo já que estou longe de ler tudo) a utilizar a expressão, a propósito da crise petrolífera internacional, "mudança de paradigma civilizacional", e ela foi usada por Manuel Maria Carrilho, coisa que não surpreende, nesta frase: Assumir responsável e pedagogicamente os dados da actual crise, assim como a mudança de paradigma civilizacional - na energia, no crédito, no consumo, nos transportes, no turismo, etc. - que ela impõe com urgência. Se olharmos para a forma (com o conteúdo do parágrafo não me demoro, pois estou em sintonia com a ideia) está lá tudo: o estruturalismo, a influência francesa, as tentações “intelectualizantes”, e também um certo desgaste e facilitismo de alguém que pensa, e que cuida a escrita: essa expressão é previsível demais e por isso, como diriam os adolescentes, “já foi”. “Ter mundo” como escreve MMC no artigo, é também saber reconhecer esses sinais.
13.6.08
Ontem à noite num noticiário televisivo vi e ouvi Freitas do Amaral num excerto de uma entrevista. Consegui (excepcional e surpreendentemente) abstrair-me daquele seu ar pomposo e cheio de sef-importance de quem tem um papel fundamental para o desenrolar de qualquer acontecimento, nomeadamente à escala mundial, e por uma vez concordei com o que disse: Já se ouviu a presidência eslovena da União Europeia a dizer alguma coisa? E a Comissão Europeia, já disse alguma coisa? O Banco Europeu? O Parlamento Europeu, que se preocupa tanto com os voos da CIA, não se preocupa com a maior crise mundial que existe nos últimos 100? As pessoas estarão cegas e surdas? Tal como ele tenho a convicção de que se assiste a uma das maiores crises mundiais dos últimos tempos, e acrescentaria que existe uma diferença notável hoje: são as lideranças no mundo ocidental, maioritariamente ocas, plásticas e fracas e nem a a perspectiva de um futuro presidente dos EUA, ainda a maior potência mundial, nos anima.
O governo negociou, pagando (nós) um preço, o fim das hostilidades com os camionistas, (afinal não tem negociado com todos?) apaziguou o país que o próprio primeiro-ministro confessou, dando um sinal de que está cá, ter sentido frágil, mas desenganem-se os que pensam que no pasa nada, que já está tudo bem. A história ainda não acabou como diz Vasco Pulido Valente hoje no Público.
11.6.08
As bichas junto aos postos de combustível, bombas sem bichas que já não têm nem gasóleo nem gasolina, supermercados com falhas, aeroportos a sentirem os efeitos da paralisação de camionistas, a sensação de que nem sempre o governo está a saber e a exercer devidamente a autoridade do Estado, deixam o país num estado de fragilidade que incomoda. Neste mundo, tal como o conhecemos, abundância de recursos – mesmo em Portugal onde as famílias estão financeiramente muito pouco flexíveis, é um dado adquirido. Poder ou não comprá-los é outra questão, mas saber que se os quisermos eles estão lá, é algo que nem questionamos. Hoje a fragilidade da abundância vem à tona, e com ela a fragilidade de um estado pouco preparado para situações de crise, sejam elas greves, cheias, fogos florestais, insubordinação civil. Mas não nos preocupemos, pois no essencial, no que preocupa realmente os Portugueses tudo está bem: Portugal ganhou à República Checa e vai aos quartos de final do Euro 2008.
9.6.08
8.6.08
Repensar o Mundo
O buzinão saiu à rua. A manifestação da CGTP encheu a Avenida da Liberdade. Começa a ser por demais evidente e inegável que se adensam os sinais exteriores de insatisfação dos portugueses, que ele é transversal, que o bolso dos eleitores está cada vez mais vazio, e que os serviços do estado ao serviço dos cidadãos, para os quais pagamos impostos, continuam preguiçosos, escandalosamente lentos como a justiça ou as listas de espera na saúde, e a não ser nem melhores nem mais eficientes. Somando a este descontentamento temos um primeiro-ministro que paira por cima desta névoa em que está mergulhado o Portugal real, com arrogância e autismo, subestimando o que já parece impossível de subestimar, refugiando-se em cimeiras ou TGVs.
Se o descontentamento é real, há que ser frio em relação às causas dele. O aumento do preço dos combustíveis é uma realidade difícil de atribuir exclusivamente ao governo ou ao regime, apesar de em Portugal todas as petrolíferas beberem da mesma bica (refinarias), de se preocuparem mais com o retorno dos accionistas do que com a satisfação dos clientes, e do ridículo da conclusão da Autoridade para a Concorrência (outra inutilidade) que afirma não haver indícios de concertação de preços por parte das distribuidoras de gasolina. A subida do preço do petróleo nos mercados internacionais não se repercute unicamente em Portugal. Os mercados não mentem e não há “especulação” que sustentem mentiras ou “bolhas” por muito tempo. Os dias estão difíceis e o mundo (a Europa à cabeça) tem que se habituar a um novo ordenamento e reajuste de riqueza e de poder, nomeadamente com as novas potências asiáticas a entrarem no mercado do consumo, a quererem comer mais e diferente, a quererem ter mais carros, frigoríficos, telemóveis. Dá vontade de dizer: habituem-se! E mais do que isso, a o mundo ocidental tem que perceber que dificilmente o preço do petróleo voltará a ser o que foi, e as políticas energéticas, bem como as agrícolas terão que ser revistas e reajustadas a pensar no mundo tal como ele é e vai ser, e não no mundo que já foi e cuja nostalgia cega quer os cidadãos quer os políticos que facilmente se deixam tentar por medidas populistas, mas desastrosas a longo prazo. Resta saber se hoje temos líderes capazes para tal tarefa, mas que pelo menos com o nosso voto possamos contribuir para isso.
5.6.08
O Lado Negro (*)
Eduardo Pitta assina hoje no Corta-Fitas um texto interessante O Lado Negro da Bloga (*) sobre os lados negros da blogosfera - EP usa o termo “bloga” cuja sonoridade me parece (ainda?) estranha. A sua tese é a de que a blogosfera reflecte, na intolerância perante a opinião do outro, o crónico défice de democracia na sociedade portuguesa, pois onde quer que haja discordância o azedume toma conta da discussão. Concordo com o que escreveu Eduardo Pitta e iria um pouco mais longe. Sendo a blogosfera um território que espelha razoavelmente a sociedade, ou pelo menos uma parte dela aqui em Portugal, podemos notar algumas tendências que não são mais do que o aquilo com que nos deparamos no quotidiano e que propiciam esse azedume, essa facilidade de estremar posições e de dificilmente sair do preconceito.
A primeira tendência é a dificuldade em lidar ou mesmo aceitar a diferença e/ou o desconhecido: a opiniões diferentes reage-se com desconfiança e “à defesa” em vez de reagir com abertura analítica e crítica; ponto final. Cada um tem uma forma única e sua de olhar o mundo e olhar uma determinada questão, mesmo que as opiniões sejam convergentes raramente o olhar é semelhante; o contrário também pode acontecer embora mais raramente.
A segunda tem a ver com uma forma de olhar para o outro e de nunca conseguir separar a pessoa da sua opinião, e por isso raramente assisto a discussões na blogosfera que não acabem mais cedo ou mais tarde por se pessoalizarem atacando e por vezes insultando o outro em vez de se argumentar contra a ideia, opinião e por isso o ataque pessoal substitui a argumentação. O pressuposto, dito de forma simples para crianças de cinco anos, é o seguinte: se atacam a minha ideia o meu texto, se questionam a minha tese, se discordam de mim já não são meus amigos, já não sou amigo deles, já não não podemos brincar juntos. Já vimos blogues desfazerem-se, membros abandonarem os blogues, ou blogues virarem costas, por cairem nesse erro. O contrário também é válido e tentação constante: assumir como “amigo” alguém com quem se partilha uma opinião, uma causa, uma luta pontual. Sempre me desconcertou a facilidade com que, enquanto leitora de blogues, vi fazerem-se e desfazerem-se “amizades”, lealdades e afinidades na blogosfera. Em Portugal (por oposição a países anglo-saxónicos, por exemplo) é muito comum “levar a mal" uma crítica, sentir-se ofendido sem querer sequer perceber a argumentação do outro e sem saber também separar a pessoa da sua opinião, ou por exemplo, da sua performance profissional num momento de avaliação.
A terceira tendência é também comum mas muito redutora, e EP no seu texto refere-a quando fala no estremar de posições e simetria de argumento. Esta simetria é o caminho fácil para a definição estanque de territórios e para rapidamente catalogar e conseguir “reconhecer” o outro e o campo a que pertence. Estando o outro catalogado e preso a um território é muito mais cómodo prever os seus argumentos, as tomadas de posição para – na dita simetria - as rebater. Como se pode ver este é um meio propício ao preconceito. Definiria a quarta tendência como aquela que em Portugal, com ou sem 48 anos de ditadura, fez com que o português não ame, não sinta, não preze, não viva e não defenda com unhas e dentes a liberdade, o ser único, e o ser tantas vezes só. Todos temos que estar presos e dependentes de todos, ser amigos ou inimigos (outra forma de ser amigo) de todos, posicionarmo-nos em relação a algo, para em troca podermos esperar reconhecimento, gratidão, troca de favores, etc. Na blogosfera não é diferente, e traduz-se em ser ou não linkado, destacado, referido, e tudo o mais.
Termino numa nota mais técnica: a facilidade com que se faz um “enter” e se coloca um texto num blogue, às vezes impede que se respire fundo e conte até três - um velho remédio, mas de eficácia comprovada. Em casos mais complicados a recomendação seria uma noite de sono. Mas a tecla do enter está ali tão perto, e eu até tinha tanta vontade, e no fundo a blogosfera é isso mesmo: o tempo real, o agora com o que tem de lado claro e de lado negro.
3.6.08
2.6.08
Pousar o Olhar
Em tempos de Rock in Rio e de Selecção Nacional foi refrescante limpar a mente e pousar o olhar no CCB no espectáculo de Ballet/Dança BAHOK / AKRAM KHAN COMPANY AND NATIONAL BALLET OF CHINA. Uma excelente coreografia e óptimos bailarinos (com sólida formação clássica quase todos), bem como uma música forte, fizeram um espectáculo de grande qualidade, intenso, rápido e tecnicamente exigente, apesar de alguns momentos intencionalmente simbólicos mas coreograficamente mortos.
1.6.08

Há momentos em que tenho nostalgia de monarquia, esta semana isso aconteceu quando vi o Rei da Noruega no Continente do Colombo. O Centro Comercial Colombo que é por excelência o templo e símbolo de consumismo que as elites (intelectuais, sociais, etc) adoram detestar – como se os restantes Centros Comerciais fossem mais bonitos, inteligentes e não padecessem dos mesmos males. O Rei, alheio a essas fúteis considerações estético-teóricas, foi lá. Lá onde os interesses económicos noruegueses se jogam a cada dia e a cada hora, lá onde os portugueses contribuem para o enriquecimento do povo norueguês, e um rei sabe que não está a cumprir um mandato, sabe que não está sujeito a calendários eleitorais que podem comprometer o serviço ao seu país, sabe desde o dia em que nasce que está lá porque tem que servir o povo norueguês, tem que ser o símbolo de união e de identidade de uma nação . E vai ao Colombo com a mesma naturalidade com que os portugueses lá vão. E nisso é tão diferente dum presidente de república.
Nós por cá também temos uma espécie de rei, o Mister Scolari, que tem surgido (desde 2004) no seu esplendor de dois em dois anos apelando aos valores, ao orgulho e à identidade nacional como nenhum presidente da república o conseguiu fazer. Pôs Portugal a comprar bandeiras nacionais para as exibir nas janelas e a cantar o hino sentido e do fundo do coração. Cada povo tem o rei que merece.
Manuela Ferreira Leite assumiu na entrevista à Sábado desta semana que se o boletim de voto das últimas eleições legislativas tivesse o nome de Santana Lopes escrito em vez de PSD, ela não teria votado nele. Esta declaração é ousada e gosto dessa frontalidade, desse carácter que não perde a noção de livre arbítrio mesmo pertencente a um partido. Os partidos ganhariam mais com pessoas livres assim. A pertença não é sinónimo de unanimidade e o valor de uma decisão que é feita solitária e secretamente só se assume plenamente se feita em total liberdade. Manuela Ferreira Leite assumiu essa liberdade e nem tinha que o fazer. Gostei.
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