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“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com
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31.10.08
Afinal não Somos Parvos
(...) a eficácia de uma máquina de propaganda depende antes de mais nada da disciplina política. O que Sócrates conseguiu foi impor uma disciplina, e uma disciplina severa, ao Governo, à burocracia e ao partido. Como no comunismo clássico, Sócrates tem uma "linha" sobre qualquer assunto que interesse à saúde e sobrevivência da maioria. (...) Por natureza, a "linha" não pode "dar" muita informação. Se "desse", não entrava na cabeça dos gnomos que a repetem e, principalmente, do público em geral. Para cada pergunta (...) basta uma resposta: simples, curta, final. Não é grave se a resposta for falaciosa ou hipócrita, ou não for, como costuma suceder, resposta nenhuma: a insistência, a convicção e a unanimidade acabam sempre por convencer os tolos.
VPV no Público de hoje
Este diagnóstico parece ser uma explicação convincente do porquê da minha revolta, e de outros tantos, que constantemente sentem que os estão a tomar por parvos com um desplante e um descaradamente que até agora nos era desconhecido. Afinal não somos assim tão parvos, resta-nos esse consolo pelo menos, já que vivemos tantas vezes sem percebermos nessa espiral centrípeta de nada e de vazio que nos atordoa. Tudo se reduz a um ou dois chavões, fáceis de entrar na cabeça, algo próximo da lavagem cerebral, creio. Vale a pena ler todo o artigo.
VPV no Público de hoje
Este diagnóstico parece ser uma explicação convincente do porquê da minha revolta, e de outros tantos, que constantemente sentem que os estão a tomar por parvos com um desplante e um descaradamente que até agora nos era desconhecido. Afinal não somos assim tão parvos, resta-nos esse consolo pelo menos, já que vivemos tantas vezes sem percebermos nessa espiral centrípeta de nada e de vazio que nos atordoa. Tudo se reduz a um ou dois chavões, fáceis de entrar na cabeça, algo próximo da lavagem cerebral, creio. Vale a pena ler todo o artigo.
29.10.08
Simples e Transparente
Ao ler o parágrafo final deste post percebi que não ía resistir a escrever sobre o “valor” das empresas cotadas em mercado de capitais. O valor de mercado é um valor “fair” no sentido de transparente e justo: transparente porque reflecte toda a informação existente num determinado momento sobre a empresa que está a ser transaccionada e justo porque é o preço acordado entre ambas as partes, isto é, entre quem vende e quem compra. Se o preço reflecte toda a informação sobre a empresa ele também reflecte: a sua “dimensão real” que é um conceito algo vago onde poderíamos incluir os activos (e passivos) e as perspectivas de crescimento futuro da empresa - intervenção da Porshe; reflecte também a sua produtividade, conceito também vago que tomarei como resultados, que são dados pelos mapas contabilísticos e financeiros divulgados periodicamente (as empresas cotadas são obrigadas a darem ao mercado essa informação); reflecte também a sua competitividade através da comparação dos seus resultados com outras empresas do sector. O valor de mercado não é algo abstracto nem subjectivo, nem uma ideia vaga ou um capricho de meia dúzia de especuladores gananciosos, é justo porque é o valor pelo qual, num determinado dia, alguém está disposto a vender um determinado activo e outro alguém disposto a comprar esse mesmo activo. Nesse dia o preço da VW no mercado financeiro alemão reflectiu toda a informação mais depressa que o Spiegel, que só à posteriori o analisou e explicou: num determinado dia houve pessoas obrigadas (porque voluntariamente assumiram compromissos de compra e assumiram os riscos daí associados) a comprar e poucas a querem vender. A simples lei da oferta e da procura aponta o resultado: a subida do preço. Se ninguém tivesse querido comprar, o preço não teria subido e ter-se-ia mantido. Simples e transparente.
28.10.08
Atributos para uma Mulher
‘In the arts of staining, dyeing, colouring and painting her teeth, her clothes, her nails and her body a woman should be beyond compare,’ the emperor said, his speech now sluggish with lust. (…) ‘A woman should know how to play music on glasses filled to different heights with liquids of various sorts’ (…) ‘ She should be able to fix stained glass into a floor. She should know how to make, trim and hang a picture; how to fashion a necklace, a rosary, a garland or a wreath; and how to store or gather water in a aqueduct or tank. She should know about scents. And about ornaments for the ear. And she should be able to act, and to lay on theatrical shows, and she should be quick and sure in her hands, and be able to cook and make lemonade or sherbet, and wear jewels, and bind a man’s turban. And she should, of course, know magic. A woman who knows these few things is almost the equal of any ignorant brute of a man.’
Salman Rushdie, “The Enchantress of Florence”
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A ligeireza e ignorância quer em termos gerais, quer no que diz respeito ao Portugal real (distante desse país ficcional ao qual ele sempre se dirige e para quem o seu governo age) de José Sócrates são bem patentes na forma como ele, já assumidamente em campanha eleitoral, lida com a crise. Ora uma crise financeira e económica desta dimensão (em duas vertentes não dissociáveis, porque representa uma enorme convulsão e porque é global) é incompatível com a estratégia de campanha eleitoral preparada há meses nas suas agências de comunicação e de marketing político em diálogo com os gabinetes. José Sócrates não está a saber fazer a adaptação dessa estratégia ao Portugal real num mundo real. Manuela Ferreira Leite lembrou bem.27.10.08
Praxes e Praxis
Há umas semanas que se ouvem e lêem rumores sobre as praxes académicas, hoje o que li aqui leva-me a esta breve reflexão. Nunca percebi estas praxes, a sua necessidade e a desculpa que usam, para justificar tanta estupidez e animalidade, de dizerem que era tradição. Também era tradição queimar hereges, chicotear gente, era tradição a pena de morte, a escravatura. Também era tradição ler à luz da vela, não mandar sms e não usar computadores nem fazer filmes para o youtube. Não há argumento que me faça ver como bons estes comportamentos e estas praxes feitas de irracionalidade num auge da estupidez humana, e de excesso premeditado e delineado em grupo. O excesso para ser “simpático” (partindo do principio que há consentimento e que ninguém é lesado, claro) tem que ser espontâneo, feito no calor do momento, algo que na altura parece ser impossível de conter, senão o excesso rapidamente toma a dimensão do abuso, da violentação, da violação. Realmente não entendo que meio é esse o da nossa academia (a inteligenzia nacional) que olha com complacência estes abusos e violências e se permite tanta estupidez humana. Se é assim nas casas do saber, das “elites” como será num meio popular, perguntamo-nos. Creio que a Lei deve ser implacável, e que o tempo da complacência e do fechar de olhos e encolher de ombros “são jovens” deveria acabar. Há tantas maneiras de fazer praxes, há tantas formas de divertir que não percebo o porquê deste retrocesso civilizacional que todos os anos acontece no início do ano lectivo académico.
26.10.08
24.10.08
As Palavras e as Circunstâncias
Manuela Ferreira Leite tem imposto um estilo comunicacional diferente do esperado e do habitual e certamente a anos luz do estilo do nosso Primeiro-Ministro. Este último fala para preencher quotas de “comunicação política”, MFL fala quando sente que tem alguma coisa para dizer. Não sei se a estratégia de MFL será sempre a melhor, mas é a dela e por isso mais genuína do que a de tantos políticos como José Sócrates sobretudo agora em fase pré-eleitoralista. Se se sente MFL às vezes ausente, diria mesmo alheia no quotidiano, JS é omni-presente multiplicando-se em anúncios, explicações, declarações slogans e frases encomendadas já pré-elaboradas.
Não sou adepta da teoria que faz de quem pouco fala um poço de sabedoria e que obriga a silêncio atento para ouvir as suas palavras raras, conheci aliás uma pessoa de poucas palavras que conseguia manter em silêncio referencial quem o rodeava e aguardava ansiosamente as palavras raras, que por acaso eram de uma banalidade e estupidez confrangedora. Neste caso a raridade não faz a preciosidade, mas o depuramento comunicacional bem como o facto de ser um estilo genuíno tem algum benefício: percentualmente menos asneiras são ditas, somos poupados a propaganda feita de frases e slogans medidos e estudados por profissionais da comunicação e cujo som final já adivinhamos, e não somos bombardeados constantemente com ruído comunicação e banalidades políticas que já ninguém respeita nem, sendo o caso, acredita. No entanto a outra face desse depuramento é a tendência, tão visível nos média e nos comentadores políticos, a confundir as palavras com as circunstâncias: mais do que analisar o que se diz, analisa-se o silêncio, o que se não disse, o porquê (parece incrível como é que) de não ter dito sobre isto e sobre aquilo e o porquê de (logo agora que ninguém se lembra) de se dizer o que se diz. Terreno minado e puramente especulativo para gáudio de alguns e aborrecimento de tantos.
Etiquetas:
Comunicação Social,
José Sócrates,
Manuela Ferreira Leite
22.10.08
Intelligence is Relative

Burn After Reading com um adequado sub-título Intelligence is Relative, é certamente um dos melhores filmes sobre nada que já vi. Ou, se assim quisermos chamar, um hino à estupidez - se não fosse a estupidez, como lhe convém, levar ao caos e desastre. Entre o riso e o arrepio, vamo-nos espantando e divertindo relaxadamente com o virtuosismo dos irmãos Cohen que nada deixa ao acaso. Divertem-se a fazer filmes e divertem-nos a nós: com uma câmara cirúrgica, personagens idiotas e básicas servidas por magníficos actores, pormenores pensados ao milímetro, nada lhes escapa e nós entretemo-nos a olhar o cabelo de Brad Pitt, os tiques das personagens sempre no limite do “too much”, os detalhes de cada cena, a da consulta ao cirurgião plástico ou a da Embaixada Russa, são verdadeiros “bijoux”, e os diálogos como o da cena final, são delirantes. Nada escapa ao virtuoso, tudo tem o seu lugar, tudo encaixa em tudo, e nós percebemos que é nada e que de nada se trata. No fim a sensação de rir de nada, de ter visto nada e de gostar de nada.
20.10.08
Antes que o Diabo Saiba que Morreste

Depois de ter lido este post fiquei com vontade de ver o filme “Antes que o diabo saiba que morreste” (título espantoso). Confesso a minha perplexidade por não ter visto publicidade ao filme e por ele estar tão discretamente nas salas de cinema, não entendo; merecia mais pois também o considero seguramente um dos melhores filmes que vi ultimamente, de um classicismo sólido e limpo apesar de insólito. O seu lado negro vem de uma intenção perversa à medida dos “tempos actuais” que corre mal e cuja situação já nenhum personagem domina, impondo-se o destino na ineveitabilidade de pulsões básicas, bem como de algum insólito formal de uma cronologia não linear feita em colagens dando a visão de cada uma das personagens, todas elas bem desenhadas. Os actores têm (já esperava) intrerpretações notáveis, e confesso o imenso prazer de ver um filme bem construído, sóbrio, frio, mas intenso e de me encontrar frente a frente com o cinema de que gosto. E já nem me lembrava que Sidney Lumet existia.
19.10.08
Bidimensionalidade
Passos Coelho e o seu círculo mais próximo reagiram com algum nojo à sugestão e à possibilidade de uma candidatura à Câmara Municipal de Lisboa. Parece estranha esta aversão à disputa democrática de lugares elegíveis e que requerem votos de cidadãos normais e não só de militantes partidários. Passos Coelho, ao contrário de Santana Lopes, para citar um exemplo, parece querer chegar à liderança partidária sem arregaçar as mangas, sem ir à luta num percurso político linear e bidimensional que considero pobre. Disputar lugares, nomeadamente a presidência de uma câmara, parece ser uma forma de arregaçar de mangas, de ir à luta, de experimentar o julgamento dos cidadãos, de fazer curriculum, que dá uma diversidade de experiências, um crescimento político e uma pluridimensionalidade ao percurso de alguém que ambiciona um lugar decisivo na estrutura do poder. Deslizar para o topo é de uma artificialidade e superficialidade notória porque para o topo não se desliza, escala-se, conquista-se, num movimento que poucas vezes é linear. Cavaco Silva ganhou, perdeu, voltou a ganhar. Santana Lopes já praticamente ganhou e perdeu de tudo, Rui Rio, um candidato “para perder” acabou ganhando, Carrilho acabou perdendo, Mário Soares ganhou e perdeu e ganhou e perdeu, até José Sócrates, enquanto ministros do ambiente, quis marcar posição fazendo apostas e arriscando novas políticas e novas soluções. No estrangeiro perder eleições é um acto tão nobre quanto ganhá-las e um acto que ajuda a marcar posição e segurar o terreno preparando as futuras vitórias. Porque é que há em Portugal este nojo por concorrer a uma cargo em incerteza? Se ganhar, (e porque não?) é uma conquista importante de um lugar a fazer, de uma voz que se quer mais forte, de uma experiência que amadurece; se perder, fica a posição que se marcou, o risco que se abraçou, a luta que se fez e a certeza de que nunca nada se perde.
17.10.08
Espiritualidade Pronta Para Consumo
Há uns dias reparei num anúncio de “Meditação Católica”, colocado numa das grandes e movimentadas paróquias da cidade de Lisboa em que convidavam os potenciais participantes a experimentar a meditação católica. É extraordinário ver o que a globalização e o marketing fazem. O que era, e é, vulgarmente conhecido como rezar o terço, para dar um só exemplo, brevemente arriscar-se-á a ser algo próximo de uma recitação de mantras ou uma busca introspectiva do verdadeiro eu, ou um re-equilíbrio com as energias do universo, ou qualquer um desses chavões new-age. Não tenho rigorosamente nada contra a meditação, e reconheço-lhe grandes benefícios, mas parece que precisamos do que nos vem de fora para descobrir e (re)conhecer o que temos cá dentro. A Religião Católica tem uma vastíssima tradição quer na área mística, quer na área contemplativa que tem sido desprezada por uma sociedade virada para pragmatismos, sentimentalismo descartável, sucesso e gadgets. A procura da espiritualidade e de algo “diferente” por tantos que se dizem cansados desta forma de vida, levou-os a locais distantes e abriu a porta a outras tradições espirituais que chegam aqui com o entusiasmo da coisa nova. Ainda bem, e que o entusiasmo não esmoreça como acontece tantas vezes com as coisas novas. Mas reconheça-se que rezar um terço não é uma técnica de meditação, embora possa ser, para escândalo de muitos, igualmente benéfico. Contemplação e oração vêm de uma tradição espiritual diferente da meditação, ambas buscam uma vivência espiritual mais intensa, mas que se reconheçam as diferentes tradições evitando um melting pot amorfo de uma espiritualidade de consumo.
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