“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

1.10.08

Amanhecer 3

Com uma ténue neblina. Hoje.
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29.9.08

Cores de Outono 5

Claude Monet. (1840-1926).
Poplars at Giverny, Sunrise

O Desconforto do Óbvio

Ouvi na semana passada na Quadratura do Círculo sérias objecções por parte de Lobo Xavier e de Pacheco Pereira a todo o processo “Magalhães”: a montagem propagandística da distribuição encenada dos computadores, a falta de software que maximize a sua utilidade bem como permita algum controle parental, os custos que terão as ligações à banda larga, a pertinência e necessidade dos mesmos em idades tão jovens e no início do contacto do aluno com a escrita e a leitura, a falsa nacionalidade do “Magalhães”, e as sérias questões relacionadas com o financiamento desta operação de charme. Aqui faz-se uma espécie de condensação estruturada dos argumentos ouvidos. Eu queria só deter-me nas últimas objecções relacionadas com o financiamento, escrutínio na “compra” dos 500 mil computadores e na logística que requer montar, embalar e distribuir tantos computadores. Não porque sejam as únicas relevantes ou importantes, mas simplesmente porque são as mais fáceis porque muito objectivas, quantificáveis, visíveis e mensuráveis. António Costa foi incapaz de responder de forma clara a estas objecções hesitando e mostrando um evidente desconforto. Para ele os fins justificam os meios (quando era criança uma das primeiras definições que ouvi sobre o comunismo era a de uma ideologia em que os fins justificavam os meios) e saber qual a rubrica do orçamento que contempla esta despesa, ou como é que o governo dá o que não tem, ou tem, mas não se sabe de onde vem, ou saber se houve um concurso público ou não, são questões laterais, tais os benefícios da operação Magalhães e a originalidade e criatividade do governo ao trazerem para Portugal um programa desenhado para os países em desenvolvimento.

Enquanto contribuinte e eleitora sinto um enorme desconforto pela falta de transparência neste processo, e incomoda-me a falta de resposta – e a falta de quem insista em perguntar. Em Portugal continuamos a aceitar com lusitano fado este tipo de buracos negros envoltos em neblinas e com fundo musical de cantos de sereias quando o que está em causa é um uso pouco transparente, opaco diria mesmo, e abusivo dos dinheiros públicos. Eu sinto o desconforto do óbvio.


27.9.08

Pretextos

(1925-2008)

O último pretexto para colocar, com pretexto, mais uma fotografia de Paul Newman neste blogue. Daqui para a frente será sem pretexto, só com a nostalgia do que já foi. "Piercing blue eyes and laid back style" forever.


26.9.08

Caça às Bruxas



Se há algo que considero sinistro é qualquer espécie de caça às bruxas, sejam as bruxas quem forem: bruxas propriamente ditas, pessoas com deficiências que desequilibrem a “normalidade”, pessoas de outras etnias ou raças que tentem trazer o desconhecido para perto de nós, de outras opiniões, etc, etc. A discriminação é uma ideia, é algo do domínio da racionalidade (ou da falta dela) e parece algo que se discute, que se critica. Já a caça às bruxas, apesar dos pretextos sempre “justos” e explicáveis toma dimensões sobretudo viscerais. Caçaram-se ao longo dos tempos as seguintes bruxas: católicos, judeus, protestantes, mulheres de sensibilidade “diferente”, pretos, índios, comunistas, fascistas, colaboracionistas, muçulmanos e tantos mais... Hoje, a caça às bruxas é mais sofisticada, mais metonímica, por exemplo, tomando-se os produtos pelas pessoas, mas faz sempre apelo às vísceras.

Só assim se pode explicar uma capa como a de hoje do jornal Público: de um produto chinês, uma bebida de leite a fazer “la une”. Só assim se pode explicar que hoje de manhã na rádio a notícia sensação tenham sido os caramelos chineses nas lojas chineses que escapam ao controle da AESE, essa grande ameaça à saúde pública europeia. Alguém, no seu perfeito juízo acredita em tal coisa? Hoje os caramelos chineses, iogurtes e bebidas lácteas – eufemismo para “os chineses”, são alvo de caça às bruxas. Ich bin ein Chinesisch Karamell!

25.9.08

Dias de Verão 9

André Derain. (1880-1954).
Landscape near Cassis

Da Periferia da Periferia

José Sócrates ainda parece mais postiço, e ainda parece mais um elaborado produto de um complicado programa inovador e cheio de tecnologia de fazer políticos, quando fala da crise económica e dos mercados financeiros. Nas poucas frases que ouvi na televisão há pouco saltam à vista (ouvido) e surpreendem (ou não) o uso de banalidades e demagogias que um primeiro-ministro informado não deveria sequer pensar em dizer; frases do género (cito de cor): “A ganância que preside a atitudes mais especuladoras", ou ”É inacreditável o que se está a passar” (referindo-se à crise financeira Norte Americana), ou “A Europa vai pagar a crise” (Norte Americana, claro) e “vai pagar a ausência de escrúpulos e a falta de regulamentação dos especuladores Norte Americanos”. O que me parece inacreditável é que um primeiro-ministro use a palavra “especulador” como qualquer militante comunista ou como um sindicalista radical usariam, como se fosse a encarnação de um espectro de forças negras, fantasmagóricas e maléficas da ganância capitalista. Isso não é um especulador. Exige-se um pouco mais de um primeiro-ministro.

José Sócrates, e tantos europeus, parecem esquecer-se que, fosse a Europa uma grande potência económica e financeira, a crise Norte Americana não nos afectaria tanto. A Europa é cada vez menos uma potência relevante no xadrez internacional e essa realidade é que custa aceitar, bem como custa ser lúcido em relação ao porquê da perda cada vez maior de influência da Europa.

Estas declarações de José Sócrates não só mostram, mais uma vez, o político superficial de chavões que ele é e a sedução que a propaganda exerce sobre ele, como mostram a dependência deste nosso país periférico numa Europa cada vez mais periférica. Tomara ela (Europa) ter uma pequena fracção da vitalidade norte-americana, mesmo em momentos de crise.


Embargo total a produtos vindos da China” (ouvido num noticiário televisivo) Pela frase nota-se o prazer de “cá” de finalmente ter um pretexto sólido para proibir algo que venha da China conspurcar o mercado europeu. Note-se, no entanto, que este “total” que dá o pathos à frase refere-se apenas aos produtos lácteos (mais de 15% na sua composição) e que apresentem um potencial perigo para as crianças. É certamente uma medida necessária, mas o velho proteccionismo espreitou nos interstícios retóricos.
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Oh não! Hoje entregam-se computadores aos polícias. Amanhã aos taxistas com GPS incluído? E quem mais estará na lista, agora que percebo que existe uma lista?

23.9.08

Na dúvida

Ontem. Não sei o que é.
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A privilegiada vista sobre o Tejo de que desfruto tem feito de mim uma “vessel watcher”. Ao contrário do “Bird Watcher” que sobe montes, percorre territórios e espera pacientemente munido de binóculos, máquina fotográfica e livros da especialidade cheios de gravuras, eu sou uma “vessel watcher” absolutamente passiva pois nada procuro, só só tenho que virar a cara em direcção ao rio, e em momentos especiais pegar nuns binóculos de longo alcance entretanto comprados, e na máquina fotográfica. Guardo uma colecção enorme de fotografias do rio, como pode perceber quem visita o Hole Horror, bem como de barcos à vela, navios, fragatas, porta aviões, submarinos, paquetes de dimensões espantosas. Os barcos à vela são os meus preferidos e os mais elegantes. Poderia ser uma “vessel watcher” malgré moi de tal forma o rio entra pela varanda dentro, mas não sou. Gosto de olhar o rio, ver a luz que muda conforme a estação do ano, as subtis diferenças da cor que muda com a meteorologia, a textura da superfície da água e também olho sempre curiosa as embarcações que o sobem, que saem, que passeiam. Nesta minha actividade contemplativa (e muito passiva) dou comigo a fotografar não só o rio e a sua foz, como qualquer embarcação mais interessante (o critério que define interessante é absolutamente aleatório e subjectivo, diga-se).

Ora, no exercício desta minha actividade, ontem deparei-me entre as brumas do rio com a embarcação cuja fotografia incluo. Pareceu-me primeiro um porta-aviões, nada que impressione como o USS Enterpsise que, creio, estacionou por cá em 2006, mas algo mais pequeno. Depois esqueci essa ideia por não me ter parecido ter dimensão suficiente para tal. Fiquei na dúvida . Se alguém souber e quiser fazer o favor de me elucidar através do e-mail que está no cimo da página, eu agradeço.

Adenda: Entretanto um leitor atento informa-me que um olhar mais demorado da fotografia o leva a concluir tratar-se de um navio anti-missel armado com baterias e radares de proximidade e um porta-helicópteros. Obrigada pela simpatia.

21.9.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 28

Aristide Maillol. (1861-1944).
Desire

Desejo?




Ontem entre zappings televisivos e no mesmo instante em que vi José Sócrates em Guimarães atrás de um púlpito no qual estava desejado um enorme slogan “A Força da Mudança”, ouvi uma parte do discurso em que surgiu a palavra “mudança”.

A previsibilidade destas encenações e deste “plástico” político – neste caso de nítida e demasiado óbvia inspiração obamiana como se diz aqui - deixa-me cada vez mais perplexa de como é possível que o nosso primeiro - ministro continue, aconselhado por sábios do marketing político, a tentar sem resultados como sabemos quando pensamos um pouco, transformar a todo o custo em ideias para o país e em projectos políticos, qualquer slogan mais vendável. Slogans são slogans, são palavras que ficam no ouvido, não são ideias nem projectos políticos coerentes, necessários, pensados e planeados. Para que as ideias e projectos políticos para o país sejam fazíveis e viáveis há que conhecer o país e os portugueses. Como já todos percebemos, José Sócrates não conhece nem Portugal nem os portugueses, tomando-nos a todos por parvos; se uns não dão por isso, outros não gostam e, utilizando a frase imortalizado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo, até diria “É uma coisa que me chateia, pá!”. Para a "mudança" o melhor mesmo será não votar nele.

19.9.08

Anti-oxidante



Há duas semanas vi o Mamma Mia!. Há uma semana vi o Mamma Mia!. Esta semana vou ver o Mamma Mia!. Farei este tratamento seis semanas consecutivas e abdicarei do complexo multivitamínico que se toma nas mudanças de estação. Acho que terá o mesmo, senão ainda melhor, efeito: anti-oxidante.

(Homens desenganai-vos! O filme é também para vós, e o efeito anti-oxidante é garantido.)

(By the way, Meryl Streep merece mais uma nomeação.)

Queen Mary 2 - Hoje
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18.9.08

Da Culpa 2

Quem lê este blogue sabe da pouca simpatia e, nalguns casos, da relativa indiferença aqui manifestada pelas chamadas “causas fracturantes”. Em relação à nova lei do divórcio no entanto, acompanho a linha do governo. Talvez por motivos distintos pois o governo, na onda fracturante em quer sobretudo piscar o olho a uma certa esquerda de causas, vai facilitar a vida a quem se quer divorciar “unilateralmente”. Mas, como diz o provérbio, se “quando um não quer, dois não brigam”, em última análise também se poderá dizer que “quando um não quer, dois não continuam casados”. Parece ser um facto da vida. Ponto. Não querendo cair no pano de fundo facilitista e relativista que de mansinho se vai instalando nas nossas sociedades com estas causas mais radicais, gosto desta nova lei. Gosto que o Estado não seja zelador dos problemas amorosos, por excesso ou defeito, dos cidadão, nem tão pouco dos seus dilemas morais de quebras de promessas, ou mesmo religiosos no caso do catolicismo (o mais comum) pelos dilemas sacramentais (o matrimónio é um sacramento, lembro), gosto por isso que o Estado seja pragmático permitindo e legislando eficazmente o que é hoje um facto normal e um acto corrente: o divórcio. Claro que é importante proteger o lado mais fraco, palavras subtis que querem dizer simplesmente a pessoa que menos recursos financeiros tem e cuja dependência financeira do outro é maior, normalmente a mulher que abdica de uma carreira mais ambiciosa e agressiva para ter disponibilidade para a família: o marido e os filhos. Noções como “culpa” ou “divórcio litigioso” (que em última análise é já um pleonasmo) não deviam fazer parte do léxico jurídico do divórcio no séc. XXI. Nunca vi que a culpa e que os longos divórcios litigiosos trouxessem proveito a seja quem for que directa ou indirectamente (os filhos) esteja envolvido em tal processo. Vejo, vemos todos, exemplos suficientes do que disse e vejo, vemos todos, os filhos de casais que se divorciam litigiosamente entre argumentos de “culpa”, insinuações e acusações mútuas em que mais não se descobre do que a miséria humana por todos partilhada, respirarem um ar pouco sadio feito de ressentimentos e acabarem tantas vezes como instrumentos de arremesso de um progenitor ao outro. Acabar com “culpas” e litígios talvez seja um começo para um ar menos podre entre quem se divorcia.

Nunca até hoje eu percebi que a parte mais fraca fosse protegida pela lei existente com a sua culpa e com o seu litígio. Mais do que uma lei, é uma mentalidade que se tem que mudar, é a necessidade de instituir rotinas de negociação de acordos bem como fiscalização do cumprimento dos mesmos. Os males do coração só o tempo poderá curar, não cabe ao Estado punir quem parte corações, deixa de sonhar no futuro a dois, trai expectativas ou fere orgulho, assim como não cabe ao Estado emendar corações partidos ou reparar ilusões desfeitas, mas cabe-lhe zelar para que as partes mais fracas tenham os meios justos para viverem com a dignidade com que viviam. Quem quebra contratos indemniza. Salvaguardar este aspecto é o maior contributo para que tantas e tantas mulheres não se vejam numa situação financeira alarmante para o resto das suas vidas e para que tantas deixem de criar sozinhas filhos anos ,quantas vezes sem contributo financeiro de ex-maridos, e processos no tribunal de família que nada conseguem fazer.

Hoje de manhã muito cedo
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16.9.08

Plataforma contra a Obesidade 42

Paul Cézanne. (1839-1906).
Still Life with Ginger Jar, Sugar Bowl, and Oranges.


Dos Guias de Viagem

Não tenho muita experiência de Guias de Viagem, uma dúzia de Michelins verdes cheios de mapas e detalhes de arquitecturas de outros séculos, e um pouco mais de uma dúzia daqueles do American Express, simpáticos, coloridos, algo confusos e cheios de óbvio, são a totalidade do meu espólio. Sempre preparei muito mal – que é o mesmo que dizer, nada - as viagens que fiz. Aborrece-me ler sobre o que vou visitar, parece o mesmo que ler o último capítulo do livro quando ainda nem o começámos. Assim dou comigo in loco a ler sobre o que vejo e perceber que não tenho tempo nenhum para ver isto ou aquilo, que afinal são ex-libris do local e coisas fundamentais. Fico contente por saber que não vi, pois é sempre melhor do que não saber de todo, e fico contente pelo pretexto para regressar. Quero sempre regressar, desta vez, já sem inocência como quem relê um livro ou revê um filme, regressar para ver o que não vi e saborear o que primeiro espantou. Também tenho tido a sorte de regressar algumas vezes.

Mas nada, nada é tão forte do que procurar na Malásia as plantações de borracha que lemos na juventude em Somerset Maugham, procurar a China da adolescência aprendida entre os livros de Pearl Buck, tentar descobrir em Bath as personagens de Jane Austen. Foi com os romances que fiz as primeiras viagens, vi paisagens longínquas, cheirei odores espantosos, senti humidade dos trópicos, a areia do deserto ou o vento frio e seco do norte. Conheci gentes bizarras de costumes estranhos, famílias polígamas, mulheres que viviam separados dos homens, e rigidos rituais para casar. Antes de saber História, já sabia as histórias. O mesmo se passou com alguns filmes clássicos: antes de saber do Desembarque de 1944, já tinha visto O Dia Mais Longo, e nas praias da Normandia procurava os soldados que vi no filme. Posso ainda não conhecer os locais, mas eles já existem em mim, e parece que procuro nas terras novas que vejo a nostalgia dos romances lidos.

Aliás, pensando bem, talvez não seja só nas viagens que a nostalgia dos romances lidos é procurada.

15.9.08

A Espuma dos Dias que foram 12

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All That's to Come

...
All that is now
All that is gone
All that's to come
And everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon.

Dias de Verão 8

Charles-Louis Müller (1815-1892)
Le Bain de Mer



Não deixa de impressionar ver este pequeno vídeo, mas há algo que salta logo aos olhos: a diferença abissal entre Portugal, e diria até a Europa Continental, e os Estados Unidos e Grã-Bretanha onde se vive numa economia muito menos intervencionistas. Estas imagens de empregados de colarinho branco a saírem às centenas dos bancos nos EUA e na Grã-Bretanha, com caixas com objectos pessoais seriam – arrisco a dizer – impossíveis no nosso país, e isso não é necessariamente uma coisa boa. Já há quem classifique esta segunda-feira como um dos dias mais negras nas finanças americanas (ver também este vídeo da BBC) que promete não acabar por aqui.

11.9.08

A Espuma dos Dias que foram 11

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O Expresso da Meia Noite

Ao longo dos anos que não me habituo a ver o anúncio na SICN do programa “Expresso da Meia Noite”, e pasmo como é que ele se mantém inalterado e nunca ninguém se indignou com ele. O título do programa liga-o ao jornal Expresso uma vez que revela a manchete do dito, aliviando aqueles portugueses que não conseguem aguentar a tensão e a expectativa em relação à edição do Expresso do dia seguinte, é revelador de um estilo cúmplice que o anúncio explora ao exagero. A imagem dos dois jornalistas que conduzem o programa de debate, em conversa cochichada e risinhos cúmplices, é a pior imagem de jornalismo que se pode dar ao cidadão comum, pois desacredita-o da seriedade da profissão. No entanto esta é a imagem infelizmente tão aceite e tantas vezes tão real.

Jornalismo não deveria ser (como o anúncio do programa ilustra) conversa cochichada entre dois interlocutores, sempre propícia à criação conspirativa quer de confidencialidades múltiplas quer de factos e/ou de tabus que se faz em gabinetes diversos e nas redacções dos diferentes meios de informação. A recolha, compilação, estudo, escrutínio e tratamento da informação nada deveria ter de cochichado, mesmo quando nas alturas em que deve ser discreta ou até confidencial. Insistir na imagem do jornalismo cochichado é insistir nessa nuvem pantanosa que nada tem de sobriedade onde são geradas mais ou menos espontâneamente e onde fervilham as notícias que enchem os diferentes tipos de jornais, que por vezes não são a informação pertinente, e que não se sabe bem nem de onde vêm nem para o que vêm e que nos fazem sempre perguntar ao serviço de quem, ou de o quê, é que são feitas.

Debate político, ou debate sobre outros temas da actualidade, também não deveria ser um somatório de risinhos cúmplices bilaterais com eventual desdém por quem não partilha a cumplicidade, tal como a imagem do anúncio sugere, dando-nos uma ideia de algo fechado e limitado em que o preconceito existe. Ora um debate deveria ser o contrário: um espaço que se quer aberto, transparente e exigente porque isento de preconceito e onde impere a todo o momento um rigoroso respeito pelo outro e pela sua opinião mesmo quando diametralmente oposta à da maioria. O combate é feito com argumentos e não entre pessoas coisa que risinhos cúmplices deixam dúvida.

As coisas são o que são, e sugerem o que sugerem. Duvido que este anúncio sugira algo muito diferente do que aqui se escreve. E é uma infelicidade para a estação que se quer de notícias e para os jornalistas que o fazem. Talvez andem todos distraídos e nunca tenham reparado.

8.9.08

A Espuma dos Dias que foram 10

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6.9.08

Hoje de manhã
(Clicar para aumentar)

A Espuma dos Dias que foram 9

Continuação do post Espuma dos Dias que Foram 7, ainda uma breve colectânea de ideias, frases, cabeçalhos de jornais, declarações, comentários, ecos ouvidos e/ou com distracção e entre coisas dessas que se fazem em férias, mas que vão ficando à espera de serem organizadas à medida que a vida vai retomando as suas rotinas e os seus hábitos.

Sarah Palin foi Miss Alasca, mas parece saber falar o que aparentemente incomoda alguns.

Angola tem eleições mas não deixa que jornalistas portugueses ligados a certos grupos de imprensa possam lá ir e fazer a cobertura das ditas eleições.

A China deu por encerrada a maior e mais eficiente encenação de sempre: os melhores Jogos Olímpicos de sempre. Dizem.

Os silêncios de Manuela Ferreira Leite continuam a incomodar e passam a ser devidamente dissecados, analisados interpretados...

Luis Filipe Menezes comopara-se a um Ferrari para gaúdio e gozo de alguns comentadores.

Os fogos de verão, tal como as palavras de Manuela Ferreira Leite, foram os grandes ausentes este verão dos noticiários televisivos e dos seus emotivos e uteis directos.

Putin mexe-se com segurança felina e o à vontade de uma raposa enquanto os galos batem as asas e cacarejam na capoeira.

Paulo Pedroso e o cada vez mais estranho caso Casa Pia: onde se ganham causas sobretudo processuais, pois as investigações, ao que o tempo que passa indica, mais uma vez falharam (no alvo, no método, nos objectivos, eu sei lá) continuando a não encontrar os culpados que todos acreditam existirem - até ao dia em que são nomeados (isto é: pôr um nome, dar uma cara) suspeitos que no segundo a seguir invariavelmente são inocentes e vítimas de conspirações que ninguém sabe se existem - pois as vítimas essas, todos são unânimes em assegurar e lamentar, existem mesmo e que necessitam que se faça justiça.

5.9.08

A Espuma dos Dias que foram 8



Exemplos de fauna e flora locais.

A Espuma dos Dias que foram 7

As férias (conceito lato em que muitas vezes o que lá cabe não é mais do que uma deslocação física e uma vida desfocada que a ausência de horários e rotinas permite) são propícias a algum estupor nomeadamente no que diz respeito à preocupação com o que se “vai passando” pelo país e pelo mundo, embora se apanhem e permaneçam alguns ruídos, frases soltas, nomes, declarações, locais ou outro tipo de referências, quase sempre fora do contexto e à espera que o regresso à normalidade organize e ordene, se possível. Assim, acabada de chegar desse mundo desfocado, darei conta sem ordem nem organização, de algumas notícias e faits divers dispersos que soaram como quem ouve um eco longínquo e insistente. Palavras que permaneceram enquanto esperam contexto e ordem.

Manuel Pinho e Catherine Deneuve no Allgarve.

Marco Fortes, que de manhã gosta mesmo é de caminha, regressa mais cedo de Pequim.

O Presidente do Comité Olímpico Português, Vicente Moura, não se vai recandidatar, mas afinal uns dias depois e já com uma medalha de ouro para Portugal afirmou poder reconsiderar decisão e provavelmente recandidatar-se-á.

Mário Lino compensa o Oeste pela escolha de Alcochete.

Michael Phelps depois das oito medalhas de ouro também se deixa tentar pelo Allgarve e pela inevitabilidade de um encontro com Manuel Pinho.

Manuela Ferreira Leite teima em não falar, para incómodo de tantos.

Os Jornais da Noite da SIC terminam sempre com um retrato da mais pura banalidade e do mais puro mau gosto numa rubrica de televisão feita por todos e para todos a que chamaram “O Melhor e o Pior do Verão”. Coisa detestável.

Assaltos e mais assaltos. Criminalidade e (in)segurança. Operações policiais aparatosas preparadas em segredo e em simultâneo, e com meios vistosos em que se apreendem meia dúzia de coisas.

(Continua)

18.8.08


Até Setembro.

Educação para a Morte - O Regresso a Casa

Depois de 83 anos de vida, e alguns meses de quimioterapia, Paul Newman deixa o hospital e o tratamento e pede que o deixem ir morrer em casa junto da família. Um dos homens mais belos de sempre. Um deus. Que morra em paz.

17.8.08

Primeiros Socorros

Não sem ironia, ofereceram-me recentemente este simpático livro que promete aos “amis lecteurs”, a custos mínimos, “de prendre en charge votre bien-être” de cada vez que nos defrontarmos com as várias questões que podem atormentar uma vida: existenciais, financeiras, sentimentais ou mesmo “petits riens”. Diz-nos a autora que

(...) vous êtes peut-être tentés de courir chez votre psycanalyste (...) lequel, moyennant une somme exorbitante, va vous écouter en hochant la tête. Au mieux vous délivrera-t-il une petite dizaine de phrases qui vous auront couté la bagatelle de 80 euros (tarif parisien pour une demi-heure de thérapie). Autrement dit, chaque phrase vous aura coutê 8 euros). Savez-vous que pour ce même prix (8 euros), vous pouvez obtenir des centaines de phrases, voire des milliers? Il vous suffit (…) de trouver le roman (…) adapté à votre problème.»

A escolha dos romances é da autora e ao lado de tantos clássicos por vezes deparei-me com obras que não conhecia, ou cujos autores nunca tinha ouvido falar ou os dois casos. A literatura está assim ao serviço do bem estar, equilíbrio ou plenitude humana. Com uma linguagem e abordagem simples, despretensiosa, amigável e bem humorada com identificação de sintomas, indicações trapeuticas e contra indicações, bem como algumas pistas para leitura, percorremos a literatura de numa perspectiva de “auto-ajuda” porque, garante-nos a autora “il n’est pas un problème sur cette Terre qui n’est pas été expérimenté par un écrivain et relaté sous la forme d’une bonne histoire.” Esta constatação é reconfortante pois percebemos que há limites para os problemas, questões ou estados de alma que um ser humano possa experimentar ou de que possa padecer. O índice de sintomas é de 48 entradas e os remédios são os 100 romances anunciados no título, numa média de dois remédios ou indicações terapêuticas para cada sintoma. Uma das constantes ao longo do livro é o da relativização de qualquer problema de que o leitor possa padecer; se o leitor o tem, não é o fim do mundo, muitos outros padecem, padeceram e padecerão do mesmo mal, e veja lá que até já se escreveram uns livros retratando esse problema. Nada é assim tão extraordinário ou grave. A autora também tranquiliza demonstrando que, tal como num romance, tudo tem um desfecho, todos os problemas têm um final: não será sempre um final feliz, mas na vida há também sempre um desfecho para qualquer que seja a situação. O tom do livro é sempre levemente desprendido, mas amigável e são e, claro, pedagógico. No entanto eu tive sempre pena da mordacidade que não vi e pensei mesmo que se o livro tivesse sido pensado e escrito por um(a) autor(a) britânico o tom seria certamente um pouco mais irónico, mordaz e aquele pedacinho perverso.

(há dois dias)

13.8.08

As acrobacias que fazem com os números e com os pressupostos para nos convencerem de que este verão tem tido temperaturas superiores à média do “período de referência” e de que as suas previsões de médio/longo prazo estavam certas... E pelo caminho, mantém-se a inexorável convicção, mais a sua prima a culpa, do aquecimento global. Nós, os que vamos, ou não, à praia, que ligamos ou não o ar condicionado do carro que ficou ao sol, não percebemos nada de calor e frio. Como se cada um não pudesse olhar para os números e tirar a conclusão que bem lhe aprouver. Este nota do IM parece um pouco “silly”. Deve ser do calor.

11.8.08

Novas Geografias do Poder


Num período em que lemos coisas do género “geografia dos afectos” ou geografia disto e daquilo, um título deste género parece não destoar, apesar de ser algo óbvio e de não ter a subtileza estilística da primeira expressão. As imitações nunca têm a qualidade dos originais, mas mesmo assim apeteceu-me escrevê-lo.

É interessante ver que enquanto o ocidente veraneia à vela em Martha’s Vineyard ou em churrascos no Texas, em iates em Porto Cervo, à noite em Ibiza, ou no festival do Sudoeste (em países onde não há Salzburg), o que importa vai-se decidindo lá nessas novas (que de novas têm nada) geografias do poder. Geografias de sempre da arte, da subtileza, da poesia, da humanidade. Geografias de sempre de capacidade de decisão sem frou-frous nem concessões frouxas, de tantas tiranias, de frieza desapiedada. A Rússia mostra que sempre teve um exército digno desse nome, a China mostra que tem dinheiro a rodos exibindo uma cidade organizada e preparada para uns jogos olímpicos sem falhas em que todos os chineses participam, uma modernização urbana ímpar e num período de tempo record, bem como uma vitrine de arquitectura moderna no seu esplendor máximo e numa abundância de fazer corar a abastada Europa toda junta (uma pequena mostra aqui, por exemplo). Veraneemos pois nesta geografia da eterna esperança em contentamentos e finais felizes feita de Estado e de Prozac, enquanto a vida que importa para o futuro passa ao lado; noutras geografias.

8.8.08

Aos 8 minutos das 8 horas do dia 8 do 8 do ano 2008

Imagem tirada daqui

Tinha a certeza de que iria gostar e tinha a certeza que seria muito conseguida em termos criativos e estéticos. Assim foi: imaginativa, poderosa, bonita, inteligente, organizada, eficiente, disciplinada, atenta a todos os detalhes.

Foi tudo tão perfeito que me lembrei das antigas paradas militares soviéticas na Praça Vermelha, em que se “exibe” poder. Esta cerimónia é uma versão show-biz, mas nem por isso menos light, de uma exibição de poder ainda mais amplo do que o mostrado nas paradas militares soviéticas, pois não é só o poder militar que está em jogo: é o poder económico, o poder criativo, inovador e tecnológico, o poder diplomático - estava lá quem tinha que estar: Bush com um discurso de há dois dias amplamente debatido pelos comentadores de serviço da RTP, Putin que calmamente apreciava o espectáculo como se tudo estivesse tranquilo na frente de combate, Lula da Silva de uma das grandes potências emergentes bem como representantes das monarquias democráticas europeias e japonesa, enfim a quase totalidade do “who’s who” político do momento que importa estva lá – e, last but not least, o poder político que uniu o país, isto é os chineses, neste esforço comum e neste desígnio nacional que é mostrar uma nova China moderna, inovadora e competitiva ao mundo. Os números impressionantes de chineses que participaram na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim e que de uma forma ou de outra se voluntariaram (ou não) para colaborar na organização, mostram sem margem de dúvida que “lá” se joga com uma escala bem diferente do que estamos habituados. Embora esta dimensão de poder político seja a menos visível no espectáculo, não deixa de ser importante e convém estar atento ao que fica ou não quando os convidados se forem, se limpar a casa, sacudir o pó, arrumar as cadeiras e regressar ao trabalho.

(mais fotografias aqui)

5.8.08

Hoje cedo.

Educação Para a Morte (3)

... ou dando livre curso a algumas ideias a propósito e a despropósito da leitura de Educação Para a Morte de Filipe Nunes Vicente, tendo sempre em mente a máxima do autor: “o que pode acontecer é que através da conversa entre dois humanos um deles consiga organizar a colecção de banalidades que as redondezas da morte suscita.

Nestas conversas entre dois humanos perante a morte, um luto ou sofrimento profundo, muitas vezes há uma banalidade bem intencionada, mas carregada de veneno, que é comum dizer: vai correr tudo bem. Todo o livro de FNV é um manual exaustivo de como raramente tudo vai correr bem, o livro é também um manual de vida sem a esperança sem luz ao fundo do túnel, sem esse consolo dos aflitos, é uma provocação na aceitação tantas vezes da vida sem esperança (pode-se viver sem esperança, pág.47) fazendo-nos crer que o que nos move é uma força indiscernível (pág. 66) cuja origem divide os psicólogos (pág 66) que, ironiza o autor, são uma exigência da cultura ocidental dos últimos cem anos no que ela tem de técnica da alma: somos perfectíveis, só é preciso saber mexer nos botões certos (pág.66). Afinal também eles (psicólogos) acreditam que tudo vai correr bem e também eles acreditam em finais felizes e passam tantas vezes ao lado da “alma”(poder-se-ia abrir um debate sobre o que é isso da alma: fica para um dia...). Ora a morte e o luto transformam (pág.86 citando Lavoisier). Tudo fica diferente. E é essa evidência que é tão difícil para os interlocutores quando se tenta organizar a colecção de banalidades nestes momentos de sofrimento. Fazer crer que tudo vai correr bem, tantas vezes não é mais do que a evidência da incapacidade de lidar com o sofrimento, de o aceitar como parte integrante da vida, e saber partilha-lo com quem sofre. É a distância, a prudência, o não querer demasiado envolvimento. Acreditar na "cura", nessa capacidade da alma em nos tornar perfeitos é uma forma de simpático afastamento do outro, de iludir, de evitar olhar para a “alma”, é mais um sinal deste modo de viver em que tudo tem que "estar bem". Para isso adopta-se o wishfull thinking, a esperança em versão light de que realmente um dia tudo ficará bem.

3.8.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 28

Aristide Maillol (1861-1944).
The Mediterranean



Aperceber-se que já não há volta.

1.8.08

São Rosas, Senhor... 2

Vincent Van Gogh
Sunflowers

Li algures que este quadro, melhor esta série de quadros, é a obra mais copiada usada, imitada do mundo, desde quadros de parede a aventais, chapéus, t-shirts, puzzles, kits de pintura e stickers, devendo estar em muitos frigoríficos por esse mundo fora. No meu está. No entanto nada melhor do que estes girassois para começar o mês de Agosto: é impossível resistir-lhes.

Aposto que se Cavaco Silva tivese feito a declaração ao país num dia qualquer de Novembro, ou Janeiro ou Abril, dizendo exactamente o que disse, as reacções teriam sido diferentes. Às vezes não se percebe onde acaba o incómodo e enfado pelas declarações terem sido feitas a 31 de Julho - dia maldito para pensar em coisas “dessas", e começa o comentário genuino ao seu conteúdo.

31.7.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 35

Claude Monet (1840-1926)
Les rochers de Belle-Ile

Não é que não se deva tentar fazer justiça, não é que não se deve nunca parar de tentar ser justo, mas a justiça dos homens é tantas vezes tão imperfeita que deixa um certo amargo de boca, uma revolta, uma insatisfação. Às vezes é tardia, às vezes falha, às vezes é politizada, às vezes não se entende e tantas outras vezes apetece dizer “mas porque é que não se matou x ou y” para nos pouparmos a relembrar, reviver o que não queremos nem relembrar nem reviver, para nos pouparmos ao quão perturbante é ver os réus na televisão, no Tribunal Internacional de Haia, acusados de crimes de genocídio com ar digno e até um pouco arrogante de quem se julga ter sido fazedor e condutor de uma política ao serviço de algum ideal que o comum dos mortais não consegue entender (e não). A reparação de um mal é difícil e tantas vezes impossível. À justiça dos homens não cabe avaliar intenções, arrependimentos, desejos de reparação ou perdões. Por isso, e sem negligenciar a justiça dos homens, é tão melhor acreditar na Justiça Divina (pelo menos enquanto se pode...)

27.7.08

Jackson Pollock. (1912-1956).
Shimmering Substance.

Educação para a Morte (2)

... ou dando livre curso a algumas ideias que a leitura de Educação Para a Morte de Filipe Nunes Vicente desencadeou.

Acabei o primeiro texto sobre este livro dizendo quão ausente tinha sentido a morte, ou sendo mais precisa o morrer, num livro que é feito sobretudo das ausências e para as ausências – desses buracos escavados no ser – que a morte deixa aos que (sobre)vivem. Nesse sentido mais do que uma educação para a morte o livro pareceu-me uma reflexão e educação para o luto e as várias faces que pode tomar. Na primeira história, a da mãe que vai morrer e deixa filhos pequenos – uma das mortes mais cruéis de se ver morrer, se é que é permitida esta banalidade, (mas segundo o autor “o que pode acontecer é que através da conversa entre dois humanos um deles consiga organizar a colecção de banalidades que as redondezas da morte suscita” e que teimam em desorganizar-se e dispersar-se), esse luto toma uma forma perversa pois é o luto de uma responsabilidade que não se vai honrar, dos filhos que não se vão acompanhar e educar, do amor que não se vai dar, dos filhos que não se vão ver crescer. A forma como se faz a abordagem do tempo e da dimensão que adquire, ou limitado ou infinito em cada instante precioso, é muito tocante.

Tudo no livro se passa a um nível da reflexão, do desafio intelectual, do labirinto filosófico e simbólico, da retórica. Mas a morte não é complacente, é demasiado definitiva, demasiado irreversível, demasiado desconhecida, e sobretudo demasiado presente para quem "sabe" que vai morrer. Essa presença toma conta do ser e quase tudo o resto parece que se cala neste diálogo em frente-a-frente simples e desarmante: eu e a minha morte, que mesmo quando não se sabe de um saber que se faz linguagem e se faz presente, sabe-se de um saber mais visceral que se sente (a lucidez do moribundo, pág 34) ou que se teme e nem se quer verbalizar. Quase tudo, pois o sofrimento físico – outro ausente desta Educação Para a Morte, baralha os dados do binómio e tantas vezes a morte que é vista como a adversária, a inimiga passa a ser quase olhada como uma amiga, como o último conforto, a aliada desta provação. O sofrimento físico, ou melhor o medo do sofrimento físico é tão ou mais temido do que a morte não só de quem vai morrer como da família perplexa e aturdida, e o seu receio centra o debate e negociação internos de todos os intervenientes que mal conseguem dialogar entre eles, num plano terapêutico e médico em corredores ou quartos de hospitais. Mas afinal nestes momentos de solidão no frente-a-frente com a inevitabilidade, o conforto dos rituais de sempre, das pequenas tarefas, obrigações ou prazeres, arranjar as unhas ou as sobrancelhas, ou segundo FNV sentar na cadeira favorita (pág. 23) ou comer bolachas (pág.32), perante a perplexidade dos vivos (“os bem vivos sentem mal este último apego prazenteiro”, pág. 23) tornam-se símbolos de um controle e dignidade que ainda não se perdeu e dão segurança perante os silêncios de que estes momentos são feitos.

23.7.08



Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és(2). Esta semana é com Hugo Chavez que andamos.
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Combate ao Sedentarismo 56

Incontinência Verbal

A grande máxima O Silêncio é de Ouro já terá conhecido dias melhores neste cenário que é Portugal. Parece que nos últimos tempos estamos condenados a uma revisitação de Decartes sob a forma Falo, Logo Existo, em que este existo remete sobretudo para o lado patético e tantas vezes absurdo dessa existência por oposto à lógica limpa e cartesiana. Pergunto-me o porquê de forçar esse “existir”, o que leva a que as pessoas não consigam estar caladas, sobretudo em situações em que o ressentimento é óbvio e a falta de bom senso uma constante.

Foi Isabel Pires de Lima, foi Luís Filipe Menezes, só para citar alguns exemplos recentes, mas nestes últimos dias o caso Maddie tem-nos fornecido ampla incontinência verbal que, em última análise, descredibiliza de uma forma que dificilmente terá retorno as instituições em causa, a investigação, já para não falar dos intervenientes que se revelam vulneráveis ao ruído e carentes de bom senso mostrando o quão impróprios são para os cargos que detiveram ou detêm. Anteontem foi Alípio Ribeiro, ex-director da PJ a criticar o arquivamento do caso, ontem foi o actual director nacional da Polícia Judiciária (PJ), Almeida Rodrigues, a considerar que o seu antecessor "não ficou propriamente conhecido pelos seus dotes de investigador", hoje Gonçalo Amaral anuncia o seu livro em que defende a tese de que Maddie estará morta após um terrível acidente. Não há períodos de nojo, todos se atropelam, todos se interpelam, e o país assiste a isto já como se fosse mais uma das tantas telenovelas que diariamente se vêem. Claro que o problema começa em quem nomeia (ou elege, claro) quem para que cargos. A partir de agora a contenção deveria ser um requisito obrigatório.

21.7.08

Dias de Verão 7

Peter Paul Rubens (1577 - 1640)
The Judgement of Paris
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20.7.08

Educação Para a Morte 1

(imagem tirada daqui)

Filipe Nunes Vicente (co-autor e principal animador de O Mar Salgado) escreve bem demais para que o que diz faça sentido, faça um sentido, pensei eu ao começar a ler o seu ensaio, cuja retórica atordoa de prazer numa espécie de circuito semântico fechado cujas inúmeras referências filosóficas, literárias e outras servem de ponto de partida para os brevíssimos textos. Confesso que há muito tempo que um livro escrito em língua portuguesa editado recentemente não me dava tanto prazer ler, embora eu saiba que sou péssima a julgar pois leio pouco em língua portuguesa. Assim esta “Educação para a Morte” é uma peça literária antes de mais nada, e um belíssimo livro, com um título que ilude pois nada lá é educativo ou pedagógico quer no sentido mais pragmático quer na intencionalidade com que é talhado; não são apontados caminhos a seguir ou soluções a considerar, ficamo-nos pelas constatações, pela perplexidade, pelos tantos paradoxos que a vida nos traz, pela tentação de uma generalização que não chega a ser feita, pelo evitar da esperança que aconchega.

Sempre enleada ao ler as suas reflexões, fui a pouco e pouco entrando no domínio da alegoria, do símbolo, da alusão, da referência, ancorando-me ao fio de sentido e de continuidade – uma continuidade que é mais uma sequência do que um desenrolar - que cada série nos dá, num trabalho sempre notável e de rara sensibilidade. Ao longo da leitura pensei em Gil Vicente e no "Auto da Alma", pois parecia que estava perante uma versão menos pedagógica, mais erudita, mais moderna (óbvio) e mais existencialista do caminho das almas neste mundo. Tudo isto faz deste livro um livro para os vivos: muito mais para os vivos do que para os mortos. Enganam-se aqueles que esperam educar-se para a morte (a sua ou a dos outros) na tradição de Kubler-Ross ou mesmo de Hennezel. Neste livro a morte, ou dizendo melhor: o morrer é o grande ausente, num ensaio feito sobre a(s) ausência(s) que a morte gera.

Voltarei a este tema, e a este livro.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 27

Auguste Rodin. (1840-1917).
The Three Shades



Acertar a estratégia ganhadora.

19.7.08

Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és, assim reza o provérbio. Esta tem sido uma semana interessante para José Sócrates: ontem José Eduardo dos Santos, hoje Kadhafi, ambos importantes parceiros estratégicos, ambos notáveis e, claro, ambos amigos de Portugal. É também nestes momentos que vemos, com algum embaraço, como somos um país pobre.

15.7.08

Hoje cedo
(Clicar para aumentar)

14.7.08

Da Compaixão

Li com alguma sofreguidão e muita comoção o artigo do Caderno P2 do Público sobre Ingrid Bettancourt baseado em entrevistas dadas por ela a vários media internacionais. É todo ele um ensinamento dado com a enorme simplicidade que o sofrimento que se vence a cada dia com persistência, vontade, disciplina e trabalho interior vai expondo e, pareceu-me num primeiro momento, com uma linguagem que todos entendemos, ou pelo menos deveríamos entender que é a linguagem da humanidade do facto de todos partilharmos esse denominador comum que é sermos seres humanos.

Engano meu. Num relato, tudo ele pungente, Ingrid Bettancourt faz uma afirmação que me deixou chocada, porque ao quantificá-la a tira do universo abstracto das afirmações que se vão tornando lugares comuns ouvidos amiúde do tipo: os nazis eram implacáveis, ou os Khmer Rouge não tinham um pingo de compaixão ou a crueldade estalinista não tinha limites. Creio que ninguém no seu perfeito juízo procura compaixão (não um afastado “ter pena de”, mas um mais próximo “sofrer com”) num movimento terrorista cheio de fanáticos guerrilheiros que sabemos serem treinados e vigiados, nomeadamente para serem carrascos e implacáveis. No entanto, são de seres humanos que falamos e quando se lê nestes relatos de IB que terei contactado com mais de 300 guerrilheiros de todas as idades, de todas as condições. Destes 300, não terá havido mais de dois ou três a revelar um comportamento de compaixão, é profundamente perturbador e esta quantificação é duma violência enorme. Ao longo de seis anos de cativeiro e entre 300 guerrilheiros só dois ou três terão mostrado um comportamento de compaixão; ela mencionou um que lhe forneceu remédios, não falou nos outros dois, não sabemos o que fizeram, quem sabe se um deles se limitou a olhá-la como um ser humano olha para outro? O pior, diz ela, foi ter percebido que os seres humanos podem ser tão horríveis com outros seres humanos. E nós percebemos que a solidão que vem dessa constatação e dessa condição é imensa.

Admiro profundamente a dignidade desta mulher que – sabemos e ela nem precisava dizê-lo que só por ter sido a única mulher em cativeiro terá sofrido mais do que os outros reféns, que ela hoje considerou como a sua família lá - soube na solidão na provação e no sofrimento manter-se sã, de alma, de espírito, e também de corpo (tocante a forma como descreve a primeira noite dormida numa cama depois de tanto tempo em cativeiro) sem descrições, comiserações ou vitimizações desnecessárias e com, ela sim, verdadeira compaixão para com os seus carrascos. Ela sabe que perdoar a torna livre.

10.7.08

Best Of Booker


Perguntam-me às vezes onde fui buscar um nome tão horroroso para o blogue. Fiquei espantada por me ir apercebendo com o tempo e o fazer do blogue que, pelos vistos, tinha um blogue com um nome horroroso. Seja. Mas quem reparar na frase que está por baixo do título Hole Horror, talvez perceba de onde veio essa aversão (Horror) aos buracos (Hole, Vacancy) que vamos criando em nós, bem dentro. Veio de uns belíssimos primeiros parágrafos de um dos melhores romances das últimas décadas “Midnight’s Children” escrito por Salman Rushdie que hoje está (mais uma vez) de parabéns e este blogue, com horror aos vazios, não pode deixar de mencionar e se congratular com mais uma distinção, Best of Booker, desta obra.

7.7.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 34

Henri-Edmond Cross (1856-1910)
Les Iles d'Or

5.7.08

A capa da edição impressa do Público de hoje é um primeiro passo importante no dever de indignação nacional face à promoção da ignorância e da mediocridade através da mentira. Ao contrário do preço dos combustíveis, factor que cede pouco a indignações e que tem pouca cura com “medidas” governamentais – eu acredito pouco nas medidas “sociais” de governos face a crises económicas deste tipo, os exames do secundário espelham as políticas educativas aberrantes que temos tido ao longo dos anos e dos governos e muito especialmente as avaliações feitas com mentira e má-fé promovidas por este governo em particular. A indignação nesta área poderá dar frutos e criar pressão no governo, para que se comece a limpar o ensino da tralha que o asfixia e se passe a ensinar e exigir e a preparar desde cedo os alunos para um mundo e um mercado de trabalho exigente e competitivo. Não querem reprovações, acabem com elas e passem certidões de “Frequência” a quem frequentou mas não tem nota que satisfaça, mas que se permita sempre aos alunos aprovados poderem destacar-se uns dos outros, e que se possa sempre premiar o mérito, o trabalho, o esforço e a excelência. Não se pode é nivelar por baixo.

4.7.08

A baixa da taxa de reprovação a matemática tem sido, nos últimos três anos interessante: cada ano é metade da anterior. Por este caminho para o ano será um número insignificante o da taxa de reprovação e em três anos Portugal dá o grande salto em frente com taxa residual de chumbos a matemática do 12º ano. Se não tomarmos medidas arriscamo-nos a ser um país de sábios e de matemáticos natos, pois é preocupante o enaltecimento desta melhoria dos resultados que se “verifica pelo terceiro ano consecutivo”.

A Português, as variações parecem mais normais, o que não é normal é a média das classificações. Médias de dez (algo mais ou algo menos) é um sinal evidente da falta de preparação dos alunos para a utilização da sua Língua Materna e um sinal claro de baixo nível de literacia.

Entretanto vale a pena ler Maria Filomena Mónica (Edição Impressa do Público, P2) sobre os exames de Português, num exercício de verdadeiro Serviço Público. Só é pena que se tenha debruçado apenas sobre o Português.

1.7.08

Dias de Verão 6

Edward Hopper (1882-1967)
Sunlight in Cafeteria
(clicar para aumentar)

As Mulheres Fazem Política de Forma Diferente?

Tem-se perguntado “por aí” nestas últimas semanas se as mulheres têm uma maneira diferente de estar e de fazer política da dos homens. É a velha história de se as mulheres escrevem de forma diferente dos homens se gerem empresas de modo diferente dos homens etc, etc. Este item da agenda pensante do momento lembrou-me uma cena a que assisti há não muito tempo e que me pareceu interessante, bem como relevante para este caso.

Duas crianças, um rapaz de 7 anos e uma rapariga de 5 anos brincavam com um Action Man que tinha um enorme carro/habitação/quartel-general todo equipado para o conforto, para as imprescindíveis telecomunicações, para defesa, ataque, para camuflagem e para a sobrevivência em geral. O rapaz mexia mais nos gadjets do que no boneco propriamente dito; preparava a secretária para telecomunicar, as armas para defender e atacar, organizava os restantes equipamentos para que estivessem prontos para quando fossem necessários e dedicava-se com atenção a essas tarefas. A menina pegava no Action Man que estava vestido, talvez equipado fosse uma palavra mais correcta, e perguntava-lhe, com ar de quem sabe o que faz, se ele tinha feito cócó e se tinha limpo o rabo, isto perante o olhar atónito do miúdo. Depois disse que ele tinha que ir dormir e foi buscar a rede guardada num canto do veículo multi-funções, tentou desfazer a secretária, isto é a central de telecomunicações, para estender a rede e o pôr a dormir. O rapaz ficou parado, e depois de uma pausa para tentar perceber o que se passava, diz-nos de forma divertida mas paternal: “ela pensa que é a mãe dele!”

Esta cena não me sai da cabeça, mas creio que só posso tirar conclusões mais sérias e daí inferir algo de conclusivo para a forma de ambos os sexos fazerem política quando vir duas crianças, rapaz e rapariga a brincar com uma Barbie. É a peça que falta.

29.6.08

Plataforma contra a Obesidade 41

René Magritte. (1898-1967).
The Portrait


Numa época em que se insiste no truísmo de que “somos o que comemos”, esta ideia de “retrato” no prato de René Magritte faz todo o sentido e ao fazer todo o sentido pomos, num primeiro momento, em causa a retórica surrealista da incoerência, do contra senso e do inesperado. Mas quando o nosso olhar se demora no quadro, deixa-se seduzir pela sua simplicidade, deixa-se encantar pelo seu grafismo “clean”, pelo rigor do desenho, pela uniformidade da cor, pelo esperado dos contornos e das sombras, pelo equilíbrio formal, pela simplicidade temática. Só o olho, aquele pequeno olho na fatia de fiambre, chega para desequilibrar e perturbar a aparente tranquilidade que a paz gráfica nos dá. Quanto mais olhamos, mais nos surpreendemos. Surrealismo no seu melhor, e um quadro fabuloso.

The Flock

Ainda não me habituei a sair de um filme a meio numa sala de cinema. Vejo muito quem o faça, mas até hoje nunca o fiz. Já aprendi a abandonar livros, mas filmes ainda não. O que vi ontem, “The Flock”, traduzido, sabe-se lá porquê, para um “Obsessão Mortal” (porque não uma tradução literal para bando ou rebanho?), foi um sério candidato ao abandono da sala. Mau filme, aliás as primeiras frases do filme, clichés batidos, prenunciam o pior, mas depois de pagar um bilhete não queremos acreditar em maus prenúncios. Um filme sem densidade, sem uma verdadeira “história”, com personagens sem espessura, diálogos fracos, sem tensão dramática, (aliás, sem drama), com violência a rodos obrigando os espectadores (olhei à volta) a ter sempre as mãos próximas dos olhos, e sem sentido, nem propósito para tanta exibição de imagens violentas e soturnas. Um surpreendente (a única surpresa do filme) happy ending - se é que algo pode ser happy num filme tão mau, só piorou o que considerávamos impossível de piorar. Um filme a evitar, só não percebi porque ninguém abandonou a sala, nem eu própria.

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