“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

29.10.08

Plataforma contra a Obesidade 45

Giorgio Morandi (1890–1964)
Natura morta

Simples e Transparente

Ao ler o parágrafo final deste post percebi que não ía resistir a escrever sobre o “valor” das empresas cotadas em mercado de capitais. O valor de mercado é um valor “fair” no sentido de transparente e justo: transparente porque reflecte toda a informação existente num determinado momento sobre a empresa que está a ser transaccionada e justo porque é o preço acordado entre ambas as partes, isto é, entre quem vende e quem compra. Se o preço reflecte toda a informação sobre a empresa ele também reflecte: a sua “dimensão real” que é um conceito algo vago onde poderíamos incluir os activos (e passivos) e as perspectivas de crescimento futuro da empresa - intervenção da Porshe; reflecte também a sua produtividade, conceito também vago que tomarei como resultados, que são dados pelos mapas contabilísticos e financeiros divulgados periodicamente (as empresas cotadas são obrigadas a darem ao mercado essa informação); reflecte também a sua competitividade através da comparação dos seus resultados com outras empresas do sector. O valor de mercado não é algo abstracto nem subjectivo, nem uma ideia vaga ou um capricho de meia dúzia de especuladores gananciosos, é justo porque é o valor pelo qual, num determinado dia, alguém está disposto a vender um determinado activo e outro alguém disposto a comprar esse mesmo activo. Nesse dia o preço da VW no mercado financeiro alemão reflectiu toda a informação mais depressa que o Spiegel, que só à posteriori o analisou e explicou: num determinado dia houve pessoas obrigadas (porque voluntariamente assumiram compromissos de compra e assumiram os riscos daí associados) a comprar e poucas a querem vender. A simples lei da oferta e da procura aponta o resultado: a subida do preço. Se ninguém tivesse querido comprar, o preço não teria subido e ter-se-ia mantido. Simples e transparente.

28.10.08

Rajasthan, (c 18th century A.D.),
Lady with a lotus,

Atributos para uma Mulher

‘In the arts of staining, dyeing, colouring and painting her teeth, her clothes, her nails and her body a woman should be beyond compare,’ the emperor said, his speech now sluggish with lust. (…) ‘A woman should know how to play music on glasses filled to different heights with liquids of various sorts’ (…) ‘ She should be able to fix stained glass into a floor. She should know how to make, trim and hang a picture; how to fashion a necklace, a rosary, a garland or a wreath; and how to store or gather water in a aqueduct or tank. She should know about scents. And about ornaments for the ear. And she should be able to act, and to lay on theatrical shows, and she should be quick and sure in her hands, and be able to cook and make lemonade or sherbet, and wear jewels, and bind a man’s turban. And she should, of course, know magic. A woman who knows these few things is almost the equal of any ignorant brute of a man.’

Salman Rushdie, “The Enchantress of Florence
.
A ligeireza e ignorância quer em termos gerais, quer no que diz respeito ao Portugal real (distante desse país ficcional ao qual ele sempre se dirige e para quem o seu governo age) de José Sócrates são bem patentes na forma como ele, já assumidamente em campanha eleitoral, lida com a crise. Ora uma crise financeira e económica desta dimensão (em duas vertentes não dissociáveis, porque representa uma enorme convulsão e porque é global) é incompatível com a estratégia de campanha eleitoral preparada há meses nas suas agências de comunicação e de marketing político em diálogo com os gabinetes. José Sócrates não está a saber fazer a adaptação dessa estratégia ao Portugal real num mundo real. Manuela Ferreira Leite lembrou bem.

27.10.08

Pronúncia do Norte 6

No Sábado, na Praia do Molhe


Praxes e Praxis

Há umas semanas que se ouvem e lêem rumores sobre as praxes académicas, hoje o que li aqui leva-me a esta breve reflexão. Nunca percebi estas praxes, a sua necessidade e a desculpa que usam, para justificar tanta estupidez e animalidade, de dizerem que era tradição. Também era tradição queimar hereges, chicotear gente, era tradição a pena de morte, a escravatura. Também era tradição ler à luz da vela, não mandar sms e não usar computadores nem fazer filmes para o youtube. Não há argumento que me faça ver como bons estes comportamentos e estas praxes feitas de irracionalidade num auge da estupidez humana, e de excesso premeditado e delineado em grupo. O excesso para ser “simpático” (partindo do principio que há consentimento e que ninguém é lesado, claro) tem que ser espontâneo, feito no calor do momento, algo que na altura parece ser impossível de conter, senão o excesso rapidamente toma a dimensão do abuso, da violentação, da violação. Realmente não entendo que meio é esse o da nossa academia (a inteligenzia nacional) que olha com complacência estes abusos e violências e se permite tanta estupidez humana. Se é assim nas casas do saber, das “elites” como será num meio popular, perguntamo-nos. Creio que a Lei deve ser implacável, e que o tempo da complacência e do fechar de olhos e encolher de ombros “são jovens” deveria acabar. Há tantas maneiras de fazer praxes, há tantas formas de divertir que não percebo o porquê deste retrocesso civilizacional que todos os anos acontece no início do ano lectivo académico.

26.10.08

Pronúncia do Norte 5

Ontem um dia de sol, enquanto passeava na praia do Molhe.

24.10.08

Amanhecer 4

Hoje
(clicar para aumentar)

As Palavras e as Circunstâncias

Manuela Ferreira Leite tem imposto um estilo comunicacional diferente do esperado e do habitual e certamente a anos luz do estilo do nosso Primeiro-Ministro. Este último fala para preencher quotas de “comunicação política”, MFL fala quando sente que tem alguma coisa para dizer. Não sei se a estratégia de MFL será sempre a melhor, mas é a dela e por isso mais genuína do que a de tantos políticos como José Sócrates sobretudo agora em fase pré-eleitoralista. Se se sente MFL às vezes ausente, diria mesmo alheia no quotidiano, JS é omni-presente multiplicando-se em anúncios, explicações, declarações slogans e frases encomendadas já pré-elaboradas.

Não sou adepta da teoria que faz de quem pouco fala um poço de sabedoria e que obriga a silêncio atento para ouvir as suas palavras raras, conheci aliás uma pessoa de poucas palavras que conseguia manter em silêncio referencial quem o rodeava e aguardava ansiosamente as palavras raras, que por acaso eram de uma banalidade e estupidez confrangedora. Neste caso a raridade não faz a preciosidade, mas o depuramento comunicacional bem como o facto de ser um estilo genuíno tem algum benefício: percentualmente menos asneiras são ditas, somos poupados a propaganda feita de frases e slogans medidos e estudados por profissionais da comunicação e cujo som final já adivinhamos, e não somos bombardeados constantemente com ruído comunicação e banalidades políticas que já ninguém respeita nem, sendo o caso, acredita. No entanto a outra face desse depuramento é a tendência, tão visível nos média e nos comentadores políticos, a confundir as palavras com as circunstâncias: mais do que analisar o que se diz, analisa-se o silêncio, o que se não disse, o porquê (parece incrível como é que) de não ter dito sobre isto e sobre aquilo e o porquê de (logo agora que ninguém se lembra) de se dizer o que se diz. Terreno minado e puramente especulativo para gáudio de alguns e aborrecimento de tantos.

22.10.08

Velas 14



Ontem e hoje
(Clicar para aumentar)

Intelligence is Relative


Burn After Reading com um adequado sub-título Intelligence is Relative, é certamente um dos melhores filmes sobre nada que já vi. Ou, se assim quisermos chamar, um hino à estupidez - se não fosse a estupidez, como lhe convém, levar ao caos e desastre. Entre o riso e o arrepio, vamo-nos espantando e divertindo relaxadamente com o virtuosismo dos irmãos Cohen que nada deixa ao acaso. Divertem-se a fazer filmes e divertem-nos a nós: com uma câmara cirúrgica, personagens idiotas e básicas servidas por magníficos actores, pormenores pensados ao milímetro, nada lhes escapa e nós entretemo-nos a olhar o cabelo de Brad Pitt, os tiques das personagens sempre no limite do “too much”, os detalhes de cada cena, a da consulta ao cirurgião plástico ou a da Embaixada Russa, são verdadeiros “bijoux”, e os diálogos como o da cena final, são delirantes. Nada escapa ao virtuoso, tudo tem o seu lugar, tudo encaixa em tudo, e nós percebemos que é nada e que de nada se trata. No fim a sensação de rir de nada, de ter visto nada e de gostar de nada.

20.10.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 37

John Frederick Kensett (1816–1872)
Newport Rocks

Antes que o Diabo Saiba que Morreste


Depois de ter lido este post fiquei com vontade de ver o filme “Antes que o diabo saiba que morreste” (título espantoso). Confesso a minha perplexidade por não ter visto publicidade ao filme e por ele estar tão discretamente nas salas de cinema, não entendo; merecia mais pois também o considero seguramente um dos melhores filmes que vi ultimamente, de um classicismo sólido e limpo apesar de insólito. O seu lado negro vem de uma intenção perversa à medida dos “tempos actuais” que corre mal e cuja situação já nenhum personagem domina, impondo-se o destino na ineveitabilidade de pulsões básicas, bem como de algum insólito formal de uma cronologia não linear feita em colagens dando a visão de cada uma das personagens, todas elas bem desenhadas. Os actores têm (já esperava) intrerpretações notáveis, e confesso o imenso prazer de ver um filme bem construído, sóbrio, frio, mas intenso e de me encontrar frente a frente com o cinema de que gosto. E já nem me lembrava que Sidney Lumet existia.

19.10.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 30

Eros adormecido
Grego ou Romano

Deixar-se dormir.

Bidimensionalidade

Passos Coelho e o seu círculo mais próximo reagiram com algum nojo à sugestão e à possibilidade de uma candidatura à Câmara Municipal de Lisboa. Parece estranha esta aversão à disputa democrática de lugares elegíveis e que requerem votos de cidadãos normais e não só de militantes partidários. Passos Coelho, ao contrário de Santana Lopes, para citar um exemplo, parece querer chegar à liderança partidária sem arregaçar as mangas, sem ir à luta num percurso político linear e bidimensional que considero pobre. Disputar lugares, nomeadamente a presidência de uma câmara, parece ser uma forma de arregaçar de mangas, de ir à luta, de experimentar o julgamento dos cidadãos, de fazer curriculum, que dá uma diversidade de experiências, um crescimento político e uma pluridimensionalidade ao percurso de alguém que ambiciona um lugar decisivo na estrutura do poder. Deslizar para o topo é de uma artificialidade e superficialidade notória porque para o topo não se desliza, escala-se, conquista-se, num movimento que poucas vezes é linear. Cavaco Silva ganhou, perdeu, voltou a ganhar. Santana Lopes já praticamente ganhou e perdeu de tudo, Rui Rio, um candidato “para perder” acabou ganhando, Carrilho acabou perdendo, Mário Soares ganhou e perdeu e ganhou e perdeu, até José Sócrates, enquanto ministros do ambiente, quis marcar posição fazendo apostas e arriscando novas políticas e novas soluções. No estrangeiro perder eleições é um acto tão nobre quanto ganhá-las e um acto que ajuda a marcar posição e segurar o terreno preparando as futuras vitórias. Porque é que há em Portugal este nojo por concorrer a uma cargo em incerteza? Se ganhar, (e porque não?) é uma conquista importante de um lugar a fazer, de uma voz que se quer mais forte, de uma experiência que amadurece; se perder, fica a posição que se marcou, o risco que se abraçou, a luta que se fez e a certeza de que nunca nada se perde.

17.10.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 36

Gustave Courbet (1819-1877)
La falaise d'Etretat après l'orage

Espiritualidade Pronta Para Consumo

Há uns dias reparei num anúncio de “Meditação Católica”, colocado numa das grandes e movimentadas paróquias da cidade de Lisboa em que convidavam os potenciais participantes a experimentar a meditação católica. É extraordinário ver o que a globalização e o marketing fazem. O que era, e é, vulgarmente conhecido como rezar o terço, para dar um só exemplo, brevemente arriscar-se-á a ser algo próximo de uma recitação de mantras ou uma busca introspectiva do verdadeiro eu, ou um re-equilíbrio com as energias do universo, ou qualquer um desses chavões new-age. Não tenho rigorosamente nada contra a meditação, e reconheço-lhe grandes benefícios, mas parece que precisamos do que nos vem de fora para descobrir e (re)conhecer o que temos cá dentro. A Religião Católica tem uma vastíssima tradição quer na área mística, quer na área contemplativa que tem sido desprezada por uma sociedade virada para pragmatismos, sentimentalismo descartável, sucesso e gadgets. A procura da espiritualidade e de algo “diferente” por tantos que se dizem cansados desta forma de vida, levou-os a locais distantes e abriu a porta a outras tradições espirituais que chegam aqui com o entusiasmo da coisa nova. Ainda bem, e que o entusiasmo não esmoreça como acontece tantas vezes com as coisas novas. Mas reconheça-se que rezar um terço não é uma técnica de meditação, embora possa ser, para escândalo de muitos, igualmente benéfico. Contemplação e oração vêm de uma tradição espiritual diferente da meditação, ambas buscam uma vivência espiritual mais intensa, mas que se reconheçam as diferentes tradições evitando um melting pot amorfo de uma espiritualidade de consumo.

15.10.08

Plataforma contra a Obesidade 44

Giorgio Morandi (1890-1964)
Natura Morta

Do Medo e da Tentação

Depois de ler esta notícia, e depois de passada a tentação do “bem me parecia!” instala-se em mim o conforto de ver a ordem das coisas reposta. Pode parecer perplexo, mas a confiança nos mercados não volta com planos dos estados, com mais estado, nem com medidas de emergência e reuniões “ao mais alto nível”. Sinto-me pouco hábil para julgar da pertinência de tratamentos de choque que estanquem a hemorragia de uma ferida, mas sei que isso não cura a ferida. Sei que é o medo que preside a essas medidas, pois elas são propícias ao despoletar do medo e de medos, só que o medo é uma reacção humana e não uma reacção de mercado. Os mercados não têm medo de nada: nem do “bull” nem do “bear”. A “crise” não se vai esconder debaixo do tapete, e a confiança dos agentes financeiros não se restaura com medidas exteriores. Ver que a euforia dos últimos dias parou é como que sentir que a poeira das medidas de emergência está a assentar e ordem se repõe, que agora sim, as coisas parecem estar em consonância com o que têm que ser e não com o que se gostaria que fossem. E como diz o ditado, “o que tem que ser tem muita força”. Por muito que custe, e custa, esta “crise” tem que fazer o seu percurso, os mercados têm que se refazer, que encontrar e renovar a sua confiança, têm que passar por este ciclo, que de ciclos é feito o mercado (e a vida). Não acredito que isto aconteça em dois ou três meses, e pensar assim é não ser realista e não conhecer o mercado. Tão pouco acredito que muita intervenção estatal resolva a “crise”, talvez ajude a estancar a ferida, mas não cura. Demasiado estado é pouco compatível com a liberdade inerente ao mercado. Então em países pequenos e muito circulares (o ponto de chegada é tantas vezes o ponto de partida) como o nosso persistir em estender os tentáculos do Estado é perigoso para a liberdade dos cidadãos. Imagine-se só, com a máquina fiscal que hoje temos, a mão presente do estado no sector da banca... É demasiada tentação.

13.10.08


Vi ontem o regresso dos Gatos Fedorentos À SIC. Soube-me como sabe comer à Segunda-feira os restos ressequidos do Cozido do Domingo, e só me lembrava do velho provérbio que diz que nunca se deve regressar ao lugar onde se foi feliz. Mas a tentação...


Os mercados asiáticos não abriram em baixa. E só me lembrava da velha frase “I should have known better” do que fazer destes (e dos outros) prognósticos. Mas o cepticismo é também uma tentação. Veremos como corre o dia.

12.10.08

Hoje

Os governos da zona Euro já chegaram a acordo sobre “estratégia comum” para responder à crise muito séria dos mercados financeiros que abala as economias europeias. Em Portugal já se disponibilizaram 20 milhões de euros em forma de garantias para estimular actividade bancária. Todos consideram as medidas intervencionistas por parte dos estados bem vindas. Já nas semanas anteriores medidas semelhantes foram tomadas, nomeadamente nos EUA com o Plano Paulson e outras injecções de moeda quer nos EUA quer na UE. Todos esperam estas medidas, todos as aplaudem. Todos menos o mercado que teimosamente se mantém a descer. Se a crise é de falta de confiança, então estas medidas estão longe de darem a confiança necessária ao mercado. Talvez os mercados não gostem de intervenções estatais. Veremos como abrem os mercados amanhã, olhemos para os mercados asiáticos, os primeiros a abrirem. Eu confesso o meu cepticismo em relação a estas intervenções.

11.10.08

Plataforma contra a Obesidade 43

Gustave Courbet (1819-1877)
Still Life with Apples and a Pomegranate
(Clicar para aumentar)


O Blogue, Os Blogues e o Mundo

Já são mais de dois anos a fazer este blogue. As semanas sucedem-se a um ritmo impiedoso e reparo que escrevo sempre menos do que o que gostaria e menos do que quereria. Mas mesmo assim o blogue vai-se fazendo. Já me conformei com o facto de que nunca vai ser o que eu pensei que seria, nunca vai ser perfeito, ou o que eu tinha em mente que queria fazer, porque num determinado momento parece que se solta de nós e se sente que o blogue ganha uma vida própria, uma rotina e inércia muito dele – coisa confortável, diga-se - que aponta caminhos, torce o nariz a algumas ideias de post ou a estilos diversos, exige imagens, pede atenção e parece ser avesso a grandes mudanças, pelo menos para já, não sinto o blogue com vontade de mudar seja o que for. Depois da fase inicial, de expectativas, entusiasmo, vontade, estabelece-se o conforto do conhecimento, de uma rotina, a chamada velocidade de cruzeiro. É assim que hoje eu sinto este fazer de blogue, sempre com gosto e prazer.

Ao longo deste segundo ano de vida o Hole Horror tem recebido visitas através das listas de links dos blogues, e também por vezes recebe destaques e menções simpáticas que fazem subir os números de visitantes.

Abrupto, Blasfémias, Corta-Fitas, Quase em Português,
31 da Armada, Portugal dos Pequeninos, Da Literatura, Espumadamente,
Do Portugal Profundo, Combustões, Direito de Opinião, José Maria Martins,
O Insurgente, Origem das Espécies, O Andarilho, Porta do Vento,
Coisas Sem importância, Don Vivo, Holocausto-Shoa, Clube Literário do Porto,
Imagens com Texto,

são os blogues a que me refiro. Tentei não esquecer nenhum, mas por lapso ou ignorância posso ter falhado. Se assim for peço que me alertem para o e-mail no cimo da página. Agradeço quer as visitas que proporcionam através das listas de links quer, no segundo caso, a simpatia da menção ou da referência especial que fazem disparar as visitas ao blogue. Enquanto leitora de blogues confesso que visito bastantes, mas nem sempre me fidelizo. Outras vezes as visitas são motivadas por se tratarem daquilo a que se chama “blogues de referência” e o que lá se escreve ser objecto de comentário noutros blogues, mais do que por eu gostar dom blogue. O acto de concordar, identificar não são são determinantes, concordar é uma motivação marginal ao impulso de ler um determinado blogue. Quero também referir que, para além de visitar os blogues que já mencionei, visito também com carácter regular:

Mar Salgado, A Natureza do Mal, Terceira Noite, Vox Pop,
Atlântico, Cachimbo de Magritte, Arrastão, 5 Dias,
A Causa foi Modificada, Bibliotecário de Babel, O Vermelho e o Negro, Estado Civil,
F-world, Crítico, Pedro Rolo Duarte.

Embora leia muitos blogues colectivos reconheço uma parcialidade especial para com os blogues individuais ou pelo menos aqueles em que o indivíduo se sobrepõe e impõe ao colectivo. Mais do que de blogues gosto dos fazedores de blogues, dos que não se diluem na espuma das notícias do dia ou da polémica do momento e sem se darem conta repetem o mesmo discurso vezes sem fim. Gosto de aprender com os blogues, gosto me me provoquem e desafiem, gosto de opiniões claras, argumentos pensados, teses fundadas e desabafos sentidos. Gosto mais da simplicidade do que da complexidade, gosto mais da incerteza curiosa do que da soberba da bibliografia “correcta”, gosto mais de frases próprias do que de citações, gosto mais do humor do que da arrogância, gosto mais do silêncio do que das piadas. E finalmente gosto sobretudo de sentir o pulsar de uma vida por trás das palavras: esse é o bem mais precioso e que nenhuma retórica ou artifício pode dar e o inimigo primeiro da banalidade.

8.10.08

Capitalismo

Cornelis de Man
Whale-Oil Factory of the Amsterdam Chamber of the Northern Company at Smerenburg (1639)
(Clicar para aumentar)

Instrumentos Financeiros e Liberdade

Mais um dia conturbado nos mercados financeiros a confirmar a globalidade da crise económica de que todos falamos. Os tempos de crise são tempos complexos, são duros e difíceis para muitos pois trazem perda e privação, para outros trazem depuração, mas para tantos trazem de volta velhos medos e preconceitos muito europeus e pelo menos desde o séc. XIX, tingidos de “esquerda”. Não falta quem declare a morte do capitalismo (as if...) e secretamente rejubile com esta crise que mais parece ter sido feita à medida para dar crédito às antigas, intelectuais e ideológicas desconfianças para com o capitalismo. No banco dos réus sentam-se os gananciosos, os especuladores, o capital, o mercado e os suspeitíssimos instrumentos financeiros. Neste momento é interessante ver o valor que se dão às palavras, como o peso da tradição as marca e como conceitos simples do tipo “ganhar dinheiro”, para uns é “criar riqueza” e para outros é “ganância”. Há hoje uma profunda dissonância na forma de olhar a crise e poderíamos deter-nos longamente nos meandros semânticos que fazem o discurso sobre a crise.

Os instrumentos financeiros são um dos bodes expiatórios apontados a dedo, é-lhes atribuída poderes maléficos, grande culpa pelo descalabro do capitalismo e há até quem declare a sua morte (pelo menos a morte daqueles mais complexos, menos compreensíveis e que por isso tanta desconfiança suscitam pelos poderes ocultos que detêm). Ora os instrumentos financeiros são uma das mais eficazes e simples expressões da liberdade individual e de uma sociedade e assim o têm sido ao longo dos tempos. Liberdade de comprar, liberdade de vender. Por muito sofisticados e abstractos que eles sejam- e às vezes, são-no, são sempre instrumentos da liberdade pois é livremente que alguém os compra ou os vende. Expressam uma vontade de resolver um sem número de situações normais (no sentido lato que envolve um julgamento assim como estatístico) como cobrir riscos, dar opções, precaver o futuro, alargar hipóteses, trocar riqueza, emprestar dinheiro, etc. É pena que o discurso normal sobre eles seja hermético e iniciático, pois essa dimensão confere opacidade e desconfiança a estes instrumentos de “troca”. Se olharmos para a História vemos que as civilizações mais dinâmicas e avançadas foram sempre as que estabeleceram “trocas”, e os instrumentos financeiros poderiam ser rudimentares e não precisarem de complexas fórmulas, mas existiam na mesma, através da palavra, promessa. Desde sempre se comprou hoje o que só existirá amanhã e desde sempre se vendeu o que (ainda) não se tem. Desde sempre que se pede dinheiro emprestado, se empresta e se cobram juros. Desde sempre que se vendem favores e se cobram favores, nomeadamente para cobrir o risco. As civilizações ditas ricas em tantas manifestações nomeadamente na arte são sociedades de mercado – de “trocas”, são sociedades mercantis, A Itália do Renascimento ou a Grécia Antiga, só para citar exemplos óbvios. Não há democracia sem essa liberdade de trocar bens, dinheiro e outros instrumentos financeiros. O contrário pode ser verdade, mas a democracia para florescer precisa de meios para com liberdade criar riqueza (ou ganhar dinheiro, ou se ser ganancioso). Para que haja essa liberdade o Estado não pode controlar todo o sistema de “troca”, se é o Estado que o controla perde-se a liberdade, o engenho. Por isso, os instrumentos financeiros não morrerão e provavelmente muitos novos surgirão depois desta crise anunciada e esperada. O capitalismo está bom e recomenda-se.

5.10.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 29

Henri Matisse (1869-1954).
Large Seated Nude.


Trabalhar os abdominais.

4.10.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 35

Degas (1834-1917)
Beach Scene

Sim ou Não

Ainda a propósito do programa “Momento da Verdade”, dizia-me pessoa amiga que interessante seria ver José Sócrates nele. A uma primeira reacção de “o quê?”, pensei melhor e confesso que acho interessante, e aposto que reveladora, a ideia, não só para ele como estenderia a intenção para os restantes líderes políticos, ou outros políticos relevantes, que temos: Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, para começar. O modelo teria de sofrer algumas adaptações uma vez que vida privada destes cidadãos, não seria (nem teria que ser) objecto de escrutínio para além do facto de ser irrelevante para o objectivo em vista. No entanto tudo o que dissesse respeito à vida pública destes políticos nomeadamente escolas e universidades em que estudou, desportos ou outras actividades que tenha feito, associações a que pertenceu e pertence, trabalhos que fez e onde, casas onde morou, e à vida política poderia ser alvo de escrutínio na base da pergunta em binómio: sim ou não. Por muitas explicações e justificações, por muita pedagogia política que se use, no fim ou fica um “sim”, ou fica um “não”. Um programa assim eu veria.

3.10.08

Asas 4

Vários pares de asas. Clicar para ver melhor.

Lixo Televisivo e Honra

Há alturas em que me sinto desfocada deste mundo. Pareço vinda de umas longas viagens que nos fazem demorar a reconhecer a casa onde moramos. Anda por aí, este “aí” num sentido verdadeiramente lato e indefinido, que tanto pode ser pelas ruas que percorremos, lugares em que pousamos, textos que lemos ou gentes cá da terra com quem falamos, uma certa indignação com um programa da televisão que passa na SIC e parece que se chama “Momento da Verdade”. Ao que parece perguntam coisas que, para sossego dos próximos e do mundo em geral, nunca se deveriam perguntar, e muito menos querer saber. Mas os concorrentes acham que não, e lá contam a vidinha toda, entre poses mais ou menos indignadas e ar compungido dos familiares, e vão respondendo a essas ditas perguntas para ganhar um prémio final. Pelo menos isto foi o que consegui detectar nos breves segundos que vi o dito programa, enquanto zapava. Breves segundos mesmo, porque tenho real incapacidade de ver estes programas, Big Brothers e afins. Irritam-me, incomodam-me questionam demasiado as minhas crenças sobre o género humano , fazem mal à alma e poluem, porque todo o lixo polui, incluindo o lixo televisivo.

Tenho, no entanto, seguido na RTP Memória uma série inglesa da LWT (a mesma que fez a Família Bellamy ou Upstairs Downstairs) passada na Ilha de Guernsey durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Nesta época de Dr. House, Perdidos, Donas de Casa Desesperadas, Anatomia de Grey ou Prison Break, é com curiosidade que revemos estas séries doutras épocas. Toda a narrativa é diferente, o ritmo, os enredos, as filmagens, a composição das personagens, os episódios parecem mais decalcados de uma sólida tradição teatral do que da vontade de exploração da televisão ou apostas em complicadas produções. Tudo prima pela sobriedade e ritmo adagio incluindo as paixões que movem as personagens, se é que adagio e paixão são conceitos compatíveis. Num complexo mundo em guerra, conseguem arrumar direitinho as pessoas por categorias: cavalheiros, oficiais, soldados, gente comum, políticos, militares de carreira, militares dos serviços secretos, espiões, etc. O mais interessante na série é ver estas divisões no lado alemão onde a tendência é serem catalogados na gaveta dos “maus”. Outra curiosidade é que o valor mais importante transmitido ao longo dos episódios é o da honra. Hoje em dia seria impensável fazer uma série em que o aspecto mais relevante fosse a honra, poderia ser a lealdade, a coragem, mas a honra está a cair em desuso e tanta gente já nem sabe o que isso é. Talvez se soubessem não fossem ao “Momento da Verdade”.

1.10.08

Amanhecer 3

Com uma ténue neblina. Hoje.
(clicar para aumentar)

29.9.08

Cores de Outono 5

Claude Monet. (1840-1926).
Poplars at Giverny, Sunrise

O Desconforto do Óbvio

Ouvi na semana passada na Quadratura do Círculo sérias objecções por parte de Lobo Xavier e de Pacheco Pereira a todo o processo “Magalhães”: a montagem propagandística da distribuição encenada dos computadores, a falta de software que maximize a sua utilidade bem como permita algum controle parental, os custos que terão as ligações à banda larga, a pertinência e necessidade dos mesmos em idades tão jovens e no início do contacto do aluno com a escrita e a leitura, a falsa nacionalidade do “Magalhães”, e as sérias questões relacionadas com o financiamento desta operação de charme. Aqui faz-se uma espécie de condensação estruturada dos argumentos ouvidos. Eu queria só deter-me nas últimas objecções relacionadas com o financiamento, escrutínio na “compra” dos 500 mil computadores e na logística que requer montar, embalar e distribuir tantos computadores. Não porque sejam as únicas relevantes ou importantes, mas simplesmente porque são as mais fáceis porque muito objectivas, quantificáveis, visíveis e mensuráveis. António Costa foi incapaz de responder de forma clara a estas objecções hesitando e mostrando um evidente desconforto. Para ele os fins justificam os meios (quando era criança uma das primeiras definições que ouvi sobre o comunismo era a de uma ideologia em que os fins justificavam os meios) e saber qual a rubrica do orçamento que contempla esta despesa, ou como é que o governo dá o que não tem, ou tem, mas não se sabe de onde vem, ou saber se houve um concurso público ou não, são questões laterais, tais os benefícios da operação Magalhães e a originalidade e criatividade do governo ao trazerem para Portugal um programa desenhado para os países em desenvolvimento.

Enquanto contribuinte e eleitora sinto um enorme desconforto pela falta de transparência neste processo, e incomoda-me a falta de resposta – e a falta de quem insista em perguntar. Em Portugal continuamos a aceitar com lusitano fado este tipo de buracos negros envoltos em neblinas e com fundo musical de cantos de sereias quando o que está em causa é um uso pouco transparente, opaco diria mesmo, e abusivo dos dinheiros públicos. Eu sinto o desconforto do óbvio.


27.9.08

Pretextos

(1925-2008)

O último pretexto para colocar, com pretexto, mais uma fotografia de Paul Newman neste blogue. Daqui para a frente será sem pretexto, só com a nostalgia do que já foi. "Piercing blue eyes and laid back style" forever.


26.9.08

Caça às Bruxas



Se há algo que considero sinistro é qualquer espécie de caça às bruxas, sejam as bruxas quem forem: bruxas propriamente ditas, pessoas com deficiências que desequilibrem a “normalidade”, pessoas de outras etnias ou raças que tentem trazer o desconhecido para perto de nós, de outras opiniões, etc, etc. A discriminação é uma ideia, é algo do domínio da racionalidade (ou da falta dela) e parece algo que se discute, que se critica. Já a caça às bruxas, apesar dos pretextos sempre “justos” e explicáveis toma dimensões sobretudo viscerais. Caçaram-se ao longo dos tempos as seguintes bruxas: católicos, judeus, protestantes, mulheres de sensibilidade “diferente”, pretos, índios, comunistas, fascistas, colaboracionistas, muçulmanos e tantos mais... Hoje, a caça às bruxas é mais sofisticada, mais metonímica, por exemplo, tomando-se os produtos pelas pessoas, mas faz sempre apelo às vísceras.

Só assim se pode explicar uma capa como a de hoje do jornal Público: de um produto chinês, uma bebida de leite a fazer “la une”. Só assim se pode explicar que hoje de manhã na rádio a notícia sensação tenham sido os caramelos chineses nas lojas chineses que escapam ao controle da AESE, essa grande ameaça à saúde pública europeia. Alguém, no seu perfeito juízo acredita em tal coisa? Hoje os caramelos chineses, iogurtes e bebidas lácteas – eufemismo para “os chineses”, são alvo de caça às bruxas. Ich bin ein Chinesisch Karamell!

25.9.08

Dias de Verão 9

André Derain. (1880-1954).
Landscape near Cassis

Da Periferia da Periferia

José Sócrates ainda parece mais postiço, e ainda parece mais um elaborado produto de um complicado programa inovador e cheio de tecnologia de fazer políticos, quando fala da crise económica e dos mercados financeiros. Nas poucas frases que ouvi na televisão há pouco saltam à vista (ouvido) e surpreendem (ou não) o uso de banalidades e demagogias que um primeiro-ministro informado não deveria sequer pensar em dizer; frases do género (cito de cor): “A ganância que preside a atitudes mais especuladoras", ou ”É inacreditável o que se está a passar” (referindo-se à crise financeira Norte Americana), ou “A Europa vai pagar a crise” (Norte Americana, claro) e “vai pagar a ausência de escrúpulos e a falta de regulamentação dos especuladores Norte Americanos”. O que me parece inacreditável é que um primeiro-ministro use a palavra “especulador” como qualquer militante comunista ou como um sindicalista radical usariam, como se fosse a encarnação de um espectro de forças negras, fantasmagóricas e maléficas da ganância capitalista. Isso não é um especulador. Exige-se um pouco mais de um primeiro-ministro.

José Sócrates, e tantos europeus, parecem esquecer-se que, fosse a Europa uma grande potência económica e financeira, a crise Norte Americana não nos afectaria tanto. A Europa é cada vez menos uma potência relevante no xadrez internacional e essa realidade é que custa aceitar, bem como custa ser lúcido em relação ao porquê da perda cada vez maior de influência da Europa.

Estas declarações de José Sócrates não só mostram, mais uma vez, o político superficial de chavões que ele é e a sedução que a propaganda exerce sobre ele, como mostram a dependência deste nosso país periférico numa Europa cada vez mais periférica. Tomara ela (Europa) ter uma pequena fracção da vitalidade norte-americana, mesmo em momentos de crise.


Embargo total a produtos vindos da China” (ouvido num noticiário televisivo) Pela frase nota-se o prazer de “cá” de finalmente ter um pretexto sólido para proibir algo que venha da China conspurcar o mercado europeu. Note-se, no entanto, que este “total” que dá o pathos à frase refere-se apenas aos produtos lácteos (mais de 15% na sua composição) e que apresentem um potencial perigo para as crianças. É certamente uma medida necessária, mas o velho proteccionismo espreitou nos interstícios retóricos.
----

Oh não! Hoje entregam-se computadores aos polícias. Amanhã aos taxistas com GPS incluído? E quem mais estará na lista, agora que percebo que existe uma lista?

23.9.08

Na dúvida

Ontem. Não sei o que é.
(Clicar para aumentar)

A privilegiada vista sobre o Tejo de que desfruto tem feito de mim uma “vessel watcher”. Ao contrário do “Bird Watcher” que sobe montes, percorre territórios e espera pacientemente munido de binóculos, máquina fotográfica e livros da especialidade cheios de gravuras, eu sou uma “vessel watcher” absolutamente passiva pois nada procuro, só só tenho que virar a cara em direcção ao rio, e em momentos especiais pegar nuns binóculos de longo alcance entretanto comprados, e na máquina fotográfica. Guardo uma colecção enorme de fotografias do rio, como pode perceber quem visita o Hole Horror, bem como de barcos à vela, navios, fragatas, porta aviões, submarinos, paquetes de dimensões espantosas. Os barcos à vela são os meus preferidos e os mais elegantes. Poderia ser uma “vessel watcher” malgré moi de tal forma o rio entra pela varanda dentro, mas não sou. Gosto de olhar o rio, ver a luz que muda conforme a estação do ano, as subtis diferenças da cor que muda com a meteorologia, a textura da superfície da água e também olho sempre curiosa as embarcações que o sobem, que saem, que passeiam. Nesta minha actividade contemplativa (e muito passiva) dou comigo a fotografar não só o rio e a sua foz, como qualquer embarcação mais interessante (o critério que define interessante é absolutamente aleatório e subjectivo, diga-se).

Ora, no exercício desta minha actividade, ontem deparei-me entre as brumas do rio com a embarcação cuja fotografia incluo. Pareceu-me primeiro um porta-aviões, nada que impressione como o USS Enterpsise que, creio, estacionou por cá em 2006, mas algo mais pequeno. Depois esqueci essa ideia por não me ter parecido ter dimensão suficiente para tal. Fiquei na dúvida . Se alguém souber e quiser fazer o favor de me elucidar através do e-mail que está no cimo da página, eu agradeço.

Adenda: Entretanto um leitor atento informa-me que um olhar mais demorado da fotografia o leva a concluir tratar-se de um navio anti-missel armado com baterias e radares de proximidade e um porta-helicópteros. Obrigada pela simpatia.

21.9.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 28

Aristide Maillol. (1861-1944).
Desire

Desejo?




Ontem entre zappings televisivos e no mesmo instante em que vi José Sócrates em Guimarães atrás de um púlpito no qual estava desejado um enorme slogan “A Força da Mudança”, ouvi uma parte do discurso em que surgiu a palavra “mudança”.

A previsibilidade destas encenações e deste “plástico” político – neste caso de nítida e demasiado óbvia inspiração obamiana como se diz aqui - deixa-me cada vez mais perplexa de como é possível que o nosso primeiro - ministro continue, aconselhado por sábios do marketing político, a tentar sem resultados como sabemos quando pensamos um pouco, transformar a todo o custo em ideias para o país e em projectos políticos, qualquer slogan mais vendável. Slogans são slogans, são palavras que ficam no ouvido, não são ideias nem projectos políticos coerentes, necessários, pensados e planeados. Para que as ideias e projectos políticos para o país sejam fazíveis e viáveis há que conhecer o país e os portugueses. Como já todos percebemos, José Sócrates não conhece nem Portugal nem os portugueses, tomando-nos a todos por parvos; se uns não dão por isso, outros não gostam e, utilizando a frase imortalizado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo, até diria “É uma coisa que me chateia, pá!”. Para a "mudança" o melhor mesmo será não votar nele.

19.9.08

Anti-oxidante



Há duas semanas vi o Mamma Mia!. Há uma semana vi o Mamma Mia!. Esta semana vou ver o Mamma Mia!. Farei este tratamento seis semanas consecutivas e abdicarei do complexo multivitamínico que se toma nas mudanças de estação. Acho que terá o mesmo, senão ainda melhor, efeito: anti-oxidante.

(Homens desenganai-vos! O filme é também para vós, e o efeito anti-oxidante é garantido.)

(By the way, Meryl Streep merece mais uma nomeação.)

Queen Mary 2 - Hoje
(clicar para aumentar)

18.9.08

Da Culpa 2

Quem lê este blogue sabe da pouca simpatia e, nalguns casos, da relativa indiferença aqui manifestada pelas chamadas “causas fracturantes”. Em relação à nova lei do divórcio no entanto, acompanho a linha do governo. Talvez por motivos distintos pois o governo, na onda fracturante em quer sobretudo piscar o olho a uma certa esquerda de causas, vai facilitar a vida a quem se quer divorciar “unilateralmente”. Mas, como diz o provérbio, se “quando um não quer, dois não brigam”, em última análise também se poderá dizer que “quando um não quer, dois não continuam casados”. Parece ser um facto da vida. Ponto. Não querendo cair no pano de fundo facilitista e relativista que de mansinho se vai instalando nas nossas sociedades com estas causas mais radicais, gosto desta nova lei. Gosto que o Estado não seja zelador dos problemas amorosos, por excesso ou defeito, dos cidadão, nem tão pouco dos seus dilemas morais de quebras de promessas, ou mesmo religiosos no caso do catolicismo (o mais comum) pelos dilemas sacramentais (o matrimónio é um sacramento, lembro), gosto por isso que o Estado seja pragmático permitindo e legislando eficazmente o que é hoje um facto normal e um acto corrente: o divórcio. Claro que é importante proteger o lado mais fraco, palavras subtis que querem dizer simplesmente a pessoa que menos recursos financeiros tem e cuja dependência financeira do outro é maior, normalmente a mulher que abdica de uma carreira mais ambiciosa e agressiva para ter disponibilidade para a família: o marido e os filhos. Noções como “culpa” ou “divórcio litigioso” (que em última análise é já um pleonasmo) não deviam fazer parte do léxico jurídico do divórcio no séc. XXI. Nunca vi que a culpa e que os longos divórcios litigiosos trouxessem proveito a seja quem for que directa ou indirectamente (os filhos) esteja envolvido em tal processo. Vejo, vemos todos, exemplos suficientes do que disse e vejo, vemos todos, os filhos de casais que se divorciam litigiosamente entre argumentos de “culpa”, insinuações e acusações mútuas em que mais não se descobre do que a miséria humana por todos partilhada, respirarem um ar pouco sadio feito de ressentimentos e acabarem tantas vezes como instrumentos de arremesso de um progenitor ao outro. Acabar com “culpas” e litígios talvez seja um começo para um ar menos podre entre quem se divorcia.

Nunca até hoje eu percebi que a parte mais fraca fosse protegida pela lei existente com a sua culpa e com o seu litígio. Mais do que uma lei, é uma mentalidade que se tem que mudar, é a necessidade de instituir rotinas de negociação de acordos bem como fiscalização do cumprimento dos mesmos. Os males do coração só o tempo poderá curar, não cabe ao Estado punir quem parte corações, deixa de sonhar no futuro a dois, trai expectativas ou fere orgulho, assim como não cabe ao Estado emendar corações partidos ou reparar ilusões desfeitas, mas cabe-lhe zelar para que as partes mais fracas tenham os meios justos para viverem com a dignidade com que viviam. Quem quebra contratos indemniza. Salvaguardar este aspecto é o maior contributo para que tantas e tantas mulheres não se vejam numa situação financeira alarmante para o resto das suas vidas e para que tantas deixem de criar sozinhas filhos anos ,quantas vezes sem contributo financeiro de ex-maridos, e processos no tribunal de família que nada conseguem fazer.

Hoje de manhã muito cedo
(Clicar para aumentar)

16.9.08

Plataforma contra a Obesidade 42

Paul Cézanne. (1839-1906).
Still Life with Ginger Jar, Sugar Bowl, and Oranges.


Dos Guias de Viagem

Não tenho muita experiência de Guias de Viagem, uma dúzia de Michelins verdes cheios de mapas e detalhes de arquitecturas de outros séculos, e um pouco mais de uma dúzia daqueles do American Express, simpáticos, coloridos, algo confusos e cheios de óbvio, são a totalidade do meu espólio. Sempre preparei muito mal – que é o mesmo que dizer, nada - as viagens que fiz. Aborrece-me ler sobre o que vou visitar, parece o mesmo que ler o último capítulo do livro quando ainda nem o começámos. Assim dou comigo in loco a ler sobre o que vejo e perceber que não tenho tempo nenhum para ver isto ou aquilo, que afinal são ex-libris do local e coisas fundamentais. Fico contente por saber que não vi, pois é sempre melhor do que não saber de todo, e fico contente pelo pretexto para regressar. Quero sempre regressar, desta vez, já sem inocência como quem relê um livro ou revê um filme, regressar para ver o que não vi e saborear o que primeiro espantou. Também tenho tido a sorte de regressar algumas vezes.

Mas nada, nada é tão forte do que procurar na Malásia as plantações de borracha que lemos na juventude em Somerset Maugham, procurar a China da adolescência aprendida entre os livros de Pearl Buck, tentar descobrir em Bath as personagens de Jane Austen. Foi com os romances que fiz as primeiras viagens, vi paisagens longínquas, cheirei odores espantosos, senti humidade dos trópicos, a areia do deserto ou o vento frio e seco do norte. Conheci gentes bizarras de costumes estranhos, famílias polígamas, mulheres que viviam separados dos homens, e rigidos rituais para casar. Antes de saber História, já sabia as histórias. O mesmo se passou com alguns filmes clássicos: antes de saber do Desembarque de 1944, já tinha visto O Dia Mais Longo, e nas praias da Normandia procurava os soldados que vi no filme. Posso ainda não conhecer os locais, mas eles já existem em mim, e parece que procuro nas terras novas que vejo a nostalgia dos romances lidos.

Aliás, pensando bem, talvez não seja só nas viagens que a nostalgia dos romances lidos é procurada.

15.9.08

A Espuma dos Dias que foram 12

(clicar para aumentar)

All That's to Come

...
All that is now
All that is gone
All that's to come
And everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon.

Dias de Verão 8

Charles-Louis Müller (1815-1892)
Le Bain de Mer



Não deixa de impressionar ver este pequeno vídeo, mas há algo que salta logo aos olhos: a diferença abissal entre Portugal, e diria até a Europa Continental, e os Estados Unidos e Grã-Bretanha onde se vive numa economia muito menos intervencionistas. Estas imagens de empregados de colarinho branco a saírem às centenas dos bancos nos EUA e na Grã-Bretanha, com caixas com objectos pessoais seriam – arrisco a dizer – impossíveis no nosso país, e isso não é necessariamente uma coisa boa. Já há quem classifique esta segunda-feira como um dos dias mais negras nas finanças americanas (ver também este vídeo da BBC) que promete não acabar por aqui.

11.9.08

A Espuma dos Dias que foram 11

(clicar para aumentar)

O Expresso da Meia Noite

Ao longo dos anos que não me habituo a ver o anúncio na SICN do programa “Expresso da Meia Noite”, e pasmo como é que ele se mantém inalterado e nunca ninguém se indignou com ele. O título do programa liga-o ao jornal Expresso uma vez que revela a manchete do dito, aliviando aqueles portugueses que não conseguem aguentar a tensão e a expectativa em relação à edição do Expresso do dia seguinte, é revelador de um estilo cúmplice que o anúncio explora ao exagero. A imagem dos dois jornalistas que conduzem o programa de debate, em conversa cochichada e risinhos cúmplices, é a pior imagem de jornalismo que se pode dar ao cidadão comum, pois desacredita-o da seriedade da profissão. No entanto esta é a imagem infelizmente tão aceite e tantas vezes tão real.

Jornalismo não deveria ser (como o anúncio do programa ilustra) conversa cochichada entre dois interlocutores, sempre propícia à criação conspirativa quer de confidencialidades múltiplas quer de factos e/ou de tabus que se faz em gabinetes diversos e nas redacções dos diferentes meios de informação. A recolha, compilação, estudo, escrutínio e tratamento da informação nada deveria ter de cochichado, mesmo quando nas alturas em que deve ser discreta ou até confidencial. Insistir na imagem do jornalismo cochichado é insistir nessa nuvem pantanosa que nada tem de sobriedade onde são geradas mais ou menos espontâneamente e onde fervilham as notícias que enchem os diferentes tipos de jornais, que por vezes não são a informação pertinente, e que não se sabe bem nem de onde vêm nem para o que vêm e que nos fazem sempre perguntar ao serviço de quem, ou de o quê, é que são feitas.

Debate político, ou debate sobre outros temas da actualidade, também não deveria ser um somatório de risinhos cúmplices bilaterais com eventual desdém por quem não partilha a cumplicidade, tal como a imagem do anúncio sugere, dando-nos uma ideia de algo fechado e limitado em que o preconceito existe. Ora um debate deveria ser o contrário: um espaço que se quer aberto, transparente e exigente porque isento de preconceito e onde impere a todo o momento um rigoroso respeito pelo outro e pela sua opinião mesmo quando diametralmente oposta à da maioria. O combate é feito com argumentos e não entre pessoas coisa que risinhos cúmplices deixam dúvida.

As coisas são o que são, e sugerem o que sugerem. Duvido que este anúncio sugira algo muito diferente do que aqui se escreve. E é uma infelicidade para a estação que se quer de notícias e para os jornalistas que o fazem. Talvez andem todos distraídos e nunca tenham reparado.

8.9.08

A Espuma dos Dias que foram 10

(clicar para aumentar)

6.9.08

Hoje de manhã
(Clicar para aumentar)

A Espuma dos Dias que foram 9

Continuação do post Espuma dos Dias que Foram 7, ainda uma breve colectânea de ideias, frases, cabeçalhos de jornais, declarações, comentários, ecos ouvidos e/ou com distracção e entre coisas dessas que se fazem em férias, mas que vão ficando à espera de serem organizadas à medida que a vida vai retomando as suas rotinas e os seus hábitos.

Sarah Palin foi Miss Alasca, mas parece saber falar o que aparentemente incomoda alguns.

Angola tem eleições mas não deixa que jornalistas portugueses ligados a certos grupos de imprensa possam lá ir e fazer a cobertura das ditas eleições.

A China deu por encerrada a maior e mais eficiente encenação de sempre: os melhores Jogos Olímpicos de sempre. Dizem.

Os silêncios de Manuela Ferreira Leite continuam a incomodar e passam a ser devidamente dissecados, analisados interpretados...

Luis Filipe Menezes comopara-se a um Ferrari para gaúdio e gozo de alguns comentadores.

Os fogos de verão, tal como as palavras de Manuela Ferreira Leite, foram os grandes ausentes este verão dos noticiários televisivos e dos seus emotivos e uteis directos.

Putin mexe-se com segurança felina e o à vontade de uma raposa enquanto os galos batem as asas e cacarejam na capoeira.

Paulo Pedroso e o cada vez mais estranho caso Casa Pia: onde se ganham causas sobretudo processuais, pois as investigações, ao que o tempo que passa indica, mais uma vez falharam (no alvo, no método, nos objectivos, eu sei lá) continuando a não encontrar os culpados que todos acreditam existirem - até ao dia em que são nomeados (isto é: pôr um nome, dar uma cara) suspeitos que no segundo a seguir invariavelmente são inocentes e vítimas de conspirações que ninguém sabe se existem - pois as vítimas essas, todos são unânimes em assegurar e lamentar, existem mesmo e que necessitam que se faça justiça.

5.9.08

A Espuma dos Dias que foram 8



Exemplos de fauna e flora locais.

A Espuma dos Dias que foram 7

As férias (conceito lato em que muitas vezes o que lá cabe não é mais do que uma deslocação física e uma vida desfocada que a ausência de horários e rotinas permite) são propícias a algum estupor nomeadamente no que diz respeito à preocupação com o que se “vai passando” pelo país e pelo mundo, embora se apanhem e permaneçam alguns ruídos, frases soltas, nomes, declarações, locais ou outro tipo de referências, quase sempre fora do contexto e à espera que o regresso à normalidade organize e ordene, se possível. Assim, acabada de chegar desse mundo desfocado, darei conta sem ordem nem organização, de algumas notícias e faits divers dispersos que soaram como quem ouve um eco longínquo e insistente. Palavras que permaneceram enquanto esperam contexto e ordem.

Manuel Pinho e Catherine Deneuve no Allgarve.

Marco Fortes, que de manhã gosta mesmo é de caminha, regressa mais cedo de Pequim.

O Presidente do Comité Olímpico Português, Vicente Moura, não se vai recandidatar, mas afinal uns dias depois e já com uma medalha de ouro para Portugal afirmou poder reconsiderar decisão e provavelmente recandidatar-se-á.

Mário Lino compensa o Oeste pela escolha de Alcochete.

Michael Phelps depois das oito medalhas de ouro também se deixa tentar pelo Allgarve e pela inevitabilidade de um encontro com Manuel Pinho.

Manuela Ferreira Leite teima em não falar, para incómodo de tantos.

Os Jornais da Noite da SIC terminam sempre com um retrato da mais pura banalidade e do mais puro mau gosto numa rubrica de televisão feita por todos e para todos a que chamaram “O Melhor e o Pior do Verão”. Coisa detestável.

Assaltos e mais assaltos. Criminalidade e (in)segurança. Operações policiais aparatosas preparadas em segredo e em simultâneo, e com meios vistosos em que se apreendem meia dúzia de coisas.

(Continua)

18.8.08


Até Setembro.

Educação para a Morte - O Regresso a Casa

Depois de 83 anos de vida, e alguns meses de quimioterapia, Paul Newman deixa o hospital e o tratamento e pede que o deixem ir morrer em casa junto da família. Um dos homens mais belos de sempre. Um deus. Que morra em paz.

17.8.08

Primeiros Socorros

Não sem ironia, ofereceram-me recentemente este simpático livro que promete aos “amis lecteurs”, a custos mínimos, “de prendre en charge votre bien-être” de cada vez que nos defrontarmos com as várias questões que podem atormentar uma vida: existenciais, financeiras, sentimentais ou mesmo “petits riens”. Diz-nos a autora que

(...) vous êtes peut-être tentés de courir chez votre psycanalyste (...) lequel, moyennant une somme exorbitante, va vous écouter en hochant la tête. Au mieux vous délivrera-t-il une petite dizaine de phrases qui vous auront couté la bagatelle de 80 euros (tarif parisien pour une demi-heure de thérapie). Autrement dit, chaque phrase vous aura coutê 8 euros). Savez-vous que pour ce même prix (8 euros), vous pouvez obtenir des centaines de phrases, voire des milliers? Il vous suffit (…) de trouver le roman (…) adapté à votre problème.»

A escolha dos romances é da autora e ao lado de tantos clássicos por vezes deparei-me com obras que não conhecia, ou cujos autores nunca tinha ouvido falar ou os dois casos. A literatura está assim ao serviço do bem estar, equilíbrio ou plenitude humana. Com uma linguagem e abordagem simples, despretensiosa, amigável e bem humorada com identificação de sintomas, indicações trapeuticas e contra indicações, bem como algumas pistas para leitura, percorremos a literatura de numa perspectiva de “auto-ajuda” porque, garante-nos a autora “il n’est pas un problème sur cette Terre qui n’est pas été expérimenté par un écrivain et relaté sous la forme d’une bonne histoire.” Esta constatação é reconfortante pois percebemos que há limites para os problemas, questões ou estados de alma que um ser humano possa experimentar ou de que possa padecer. O índice de sintomas é de 48 entradas e os remédios são os 100 romances anunciados no título, numa média de dois remédios ou indicações terapêuticas para cada sintoma. Uma das constantes ao longo do livro é o da relativização de qualquer problema de que o leitor possa padecer; se o leitor o tem, não é o fim do mundo, muitos outros padecem, padeceram e padecerão do mesmo mal, e veja lá que até já se escreveram uns livros retratando esse problema. Nada é assim tão extraordinário ou grave. A autora também tranquiliza demonstrando que, tal como num romance, tudo tem um desfecho, todos os problemas têm um final: não será sempre um final feliz, mas na vida há também sempre um desfecho para qualquer que seja a situação. O tom do livro é sempre levemente desprendido, mas amigável e são e, claro, pedagógico. No entanto eu tive sempre pena da mordacidade que não vi e pensei mesmo que se o livro tivesse sido pensado e escrito por um(a) autor(a) britânico o tom seria certamente um pouco mais irónico, mordaz e aquele pedacinho perverso.

(há dois dias)

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com