“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

5.12.08

Amanhecer 7

Hoje, coisa de breves instantes.
(clicar para aumentar)

4.12.08

Tardes de Inverno 14

Lorenzo Lotto (1480-1556)
Venus and Cupid

Do Sexo

FNV diz aqui ter cumprido uma promessa na revista Ler deste mês; a de escrever sobre sexo sem guinchos nos currais, nem leite de mamas, e essas imagens pictóricas afins que parecem povoar a recente produção literária portuguesa, com a qual (excepção feita dos romances de Miguel Sousa Tavares) não estou familiarizada. Tomo, como é óbvio, por boas as suas palavras com que outros concordam. É um acto corajoso, pois põe a fasquia elevada, e espero que seja bem sucedido - ainda não vi a revista, muito menos a comprei e li. O meu alheamento da recente produção nacional de romances parece ter-me privado de momentos lúdicos que apelam de forma tentadora aos vários sentidos. Já não é mau quando pensamos nas cenas que nos são servidas nos filmes em geral, sobretudo produção americana, como cenas de sexo e que vemos com algum tédio de tal forma insistem nos mesmos estereótipos tornando-se de uma previsibilidade infinitamente superior à da mecânica de um Swatch o que deveria ser mais do mistério da Patek Phillipe. Ninguém parece incomodar-se com isso, não há manifestos a favor de uma melhoria das cenas de sexo, bem pelo contrário, o público parece estar satisfeito e quando se aumenta a exposição anatómica, aumenta-se a idade recomendada para ver o filme ou arrisca-se a uma classificação X. Essas são as variantes em jogo, as if... Quando se vê um filme com belas e realistas cenas de sexo como, por exemplo, Lust, Caution de Ang Lee, que comentei aqui, é com espanto que se constata que passou despercebido e não mereceu nenhum tipo de aplauso; porque era um bom filme que ousou filmar sexo sem medos e com outra coreografia, imprevisibilidade e ousadia que não a do esquema por demais usado e abusado. Conseguiu escapar a uma classificação X, mas pouco se falou dele. Nestes tempos actuais do politicamente correcto raramente vemos filmes como Body Heat ou Fatal Attraction. É pena que seja tão difícil ter a liberdade e equilíbrio necessárias quer à escrita quer à realização de cenas de sexo credíveis, mas que consigam, pelo menos, espelhar alguma da riqueza do eros.


3.12.08

Capitalismo

(Enviado por mail)

2.12.08

O Léxico Socrático

As palavras e expressões usadas pelo governo são sempre engenhosas, mas não sei que pensar do socialismo que, com elas, nos é servido. Oscilando entre as expressões “taxa Robin dos Bosques” para redistribuir a riqueza acumulada pelas petrolíferas e o “receio do efeito de contágio” que os leva a salvar bancos inviáveis, o BNP de má gestão e negócios obscuros e o pequeno BPP que serviu um reduzido nicho de mercado, nacionalizando-os o cidadão sente-se perdido. Uma coisa é certa: o outcome é sempre o mesmo: o Estado, e mais Estado e sempre Estado. Nunca se perde uma oportunidade de centralizar, controlar, deter poder, colocar pessoas, influenciar decisões, pactuar com os grandes grupos financeiros e económicos que viveram do centrão e com o centrão. Sempre mais do mesmo, por muito que as palavras mudem e as expressões nos surpreendam (ou não).

Era uma boa ideia fazer-se um léxico, para mais tarde recordar e perceber, destes anos de Socratismo. Não faltam palavras e expressões que nos dêem uma perspectiva destes tempos pragmáticos e ideologicamente abafados.

1.12.08

Entardecer

Hoje

A falsa novela Marcelo Rebelo de Sousa e Liderança do PSD já enjoa. Vi e ouvi o que ele disse há uma semana perante a enésima insistência da jornalista – como se nada de mais relevante houvesse para falar – sobre a sua possivel candidatura à liderança (cito de cor): um, não faz sentido e é contraproducente mudar a liderança antes de 2009 e das eleições; dois, depois disso, não quero, não penso nisso, não seria bom, não seria sinal de renovação a minha recandidatura; três, nunca mais digo nem que Cristo desça à terra. A coisa pareceu-me clara “não”, para mim é “não” e o não voltar a dizer nem que Cristo desça à terra parece-me bom senso, mas que não faz de um “não” um “sim”. Sempre pensei como seria estranho o mundo se eu olhasse para uma parede preta e alguém me afirmasse que ela era branca. Com esta novela de MRS sinto essa mesma sensação de estranheza e desconforto. De onde vêm os rumores se o homem disse “não” tantas vezes? Será que “não” é “sim”? Então que será o “sim”? E quem decide os “não” que são “sim”? Que coisa confusa se pode construir de coisas tão simples. No entanto ontem a jornalista – como se nada de mais relevante houvesse para falar – voltou a interrogá-lo sobre as suas intenções. Ele voltou a negar e isso até é notícia, coisa que me espanta ainda mais.


28.11.08

Ver os Filmes dos Livros 2


O filme “Brideshead Revisited”, só tem o mérito de ter sido uma aposta e ousadia, porque falha em tudo o resto. Afasta-se do espírito do romance (que a série televisiva mantém) se nos dar nada de novo, nem ousar quer a nível da interpretação nem a nível técnico e formal. O filme parece ter sido feito para estúpidos de tal forma é “explicadinho” e óbvio acabando com a neblina evocativa que paira no romance e na série. O que eram suposições, insinuações, tensões implícitas, teias de complexas relações algo imprecisas, mas fortes, ficou óbvio, explícito, e muito banal. O Catolicismo que funciona como a tela que suporta a pintura e sem a qual a pintura não existe e que tem uma presença real, tentacular e insidiosa, mas pouco precisa e óbvia, e sobretudo pouco folclórica, ocupa no filme uma posição explícita e folclórica que surpreende; tal como a cena da família a cantar o Salve Regina ou uma das derradeiras cenas, a da morte de Lord Marchmain e da excessiva dramatização do seu gesto final de reconciliação com a Igreja aceitando a confissão. Tudo no romance gira em torno do catolicismo tal como ela é nas classes altas em Inglaterra (diferente do catolicismo em Itália, como é demonstrado), e do seu peculiar “pathos”, mas nunca essa relação entre o catolicismo e as personagens é banal, corriqueira, folclórica ou confortável, burguesa e moderna.

As relações entre as pessoas nomeadamente entre Charles e os diferentes membros da família, bem como com Brideshead itself, são líquidas e sem contornos definidos no romance (e na série): não há casualidades explícitas. No filme essas relações são estandardizadas e simplificadas ao estilo telenovela em binómios, o primeiro do qual assenta no sistema de classes, e em modelos fáceis e explicados para consumo de massas. A homossexualidade de Sebastian, primeiro insinuada e só no fim percebida é convertida num patético manifesto gay, a ligação entre Charles e Julia aparece como contraponto da ligação entre ambos com Sebastian e não como uma fluída complementaridade, bem como a explicitude da relação entre Charles e lady Marchmain são exemplos dessa estandardização das relações perdendo-se a teia complexa e dinâmica em que todos estão ligados a todos. A própria Lady Marchmain (que nem Emma Thompson consegue salvar) é demasiado vulgar. Sebastian um autómato, Julia uma personagem oca, só Charles consegue ter um pouco de densidade, mas só se nunca nos lembrarmos do Charles interpretado por Jeremy Irons, coisa de difícil concretização.

No fim do filme, à laia de moral da história (coisa horrível) Julia pergunta a Charles o que é que ele afinal quer, e Charles acusa-se por ter querido ter tudo (ainda o binómio de classes). Não poderia discordar mais dessa visão reducionista e tão “actual”. A culpa dele não é a de ter querido tudo, se é que quis tudo, esse não é o centro da questão, nem ninguém naquele universo se preocuparia com tal mundaneidade. A culpa vem deles, vem de sempre, vem de serem como são, de não conseguirem ousar serem “felizes” (só Lord Marchmain o tentou), Charles ao ser mergulhado naquela família também não consegue escapar à culpa mesmo sem saber bem de onde vem: de trair Sebastian, de querer Julia? De não corresponder às expectativas de Lady Marchmain? A dúvida de uma culpa que não se percebe é que atormenta Charles.

O filme afasta-se demasiado do espírito do romance, simplificando-o e apatetando-o sem nos dar nada de novo, de ousado e interessante em troca: a realização é pastosa e cheia de clichés, o processo narrativo não é ousado e o flash-back é o esperado, os actores carecem de qualquer espessura, parecem bonecos postos num cenário que tenta ser grandioso, a fotografia que poderia ser boa é também banal. O filme deu-me uma vontade enorme de rever a série de tal forma foi uma posta perdedora.

27.11.08

Miguel Sousa Tavares no seu comentário semanal na TVI considerou os atentados em Mumbai mais como uma manifestações de extremismo religioso típico da Índia do que de um atentado terrorista e face do terrorismo extremista que hoje nos ameaça.

Confesso a minha perplexidade entre esse preciosismo de ser fruto de extremismos “locais” versus extremismos “globais”. Realmente isso é indiferente uma vez que o tom de ataques deste género afectando civis e inocentes indiscriminadamente foi dado pela Al Qaeda que foi essa organização que mudou a face do terrorismo. Depois é difícil estabelecer fronteiras nítidas entre as “intenções” ou “origens” deste tipo de terrorismo uma vez que a Al Qaeda é uma organização que funciona com células autónomas e descentralizadas que podem decidir autonomamente como agir.

Também confesso o meu espanto perante a sua preocupação pelas manifestações de extremismos religiosos na Índia uma vez que nunca o ouvi sobre os recentes ataques de Hindus às comunidades cristãs. Mas, claro, sobre isso nunca interessa falar.

Tardes de Inverno 13

Winslow Homer (1836-1910)
A Game of Croquet



Ver os Filmes dos Livros

Sempre achei que era extraordinariamente difícil comparar a leitura de romances com os filmes que se fazem baseados neles. São géneros com processos narrativos distintos e na mudança de registo, nomeadamente de livro para filme, há sempre algo que se perde, porque, por exemplo, ao dar um rosto a uma personagem há uma concretização daquilo que para cada leitor é uma ideia. Pode-se ganhar no joga da câmara, no ambiente que se escolhe, mas a perda inplícita é quase sempre vivida com alguma nostalgia do prazer tido, das evocações ou de outras sensações que, se esfumam nessa mudança. No entanto nunca li os livros que se fazem dos filmes, ou os livros que já se fazem a pensar nos filmes, (o que deve condicionar imenso a escrita que deverá ser pouco mais do que uma base simples para um script do que um romance, penso eu) por isso tenho dificuldade em falar desse sentido na mudança de registo.

Há casos interessantes de livros que dão filmes. Alguns criam sucesso próprio, outros não. Uns conseguem ser uma peça que vale só por si, outros não e nunca conseguem ganhar vida “própria” e mérito “próprio”. Não sei qual é o segredo, e se todos soubessem todos fariam belas peças de arte. Há duas situação: a primeira é a de tentar olhar para o filme como uma peça isolada sem muita comparação com o livro. Lembro-me de como gostei de ler “O Nome da Rosa” de Umberto Eco (um best-seller dos anos 80) e de como o filme me desiludiu, uma vez que não consegue transportar toda a riqueza do romance. Revi-o passado uns anos e tentei não o colar ao romance, tentei pensá-lo como um filme autónomo sem referência a nada e apercebi-me que não era assim tão mau. O segundo caso é o de de seguir à letra o romance o que leva muitas vezes a que se faça uma série e não um simples filme. Foi assim em “The Jewel in the Crown” uma belíssima série (1984) de uma tetralogia subestimada "Raj Quartet" de Paul Scott. Ambos romance(s) e série de altíssima qualidade. Foi assim com "The Lord of the Rings"de Tolkien também cujos filmes de Peter Jackson ganharamn Oscares.

Mas nos últimos anos temos assistido a um fenómeno interessante: fazer um filme de um romance que entretanto já deu origem a uma série de grande sucesso e qualidade. Tudo fica ainda mais complicado: há duas referências boas e aclamadas o terceiro desafio é, por isso, muito ousado e há que o ser na concretização do projecto mostrando-nos algo de novo. Assim aconteceu com o grande clássico “Pride and Predjudice” de Jane Austen cuja série de 1995 fez enorme sucesso e que posteriormente deu origem a um filme de 2005 de Joe Wright que, confesso, conseguiu surpreender. Não concordando com todas as suas opções e percebendo-o qui e ali longe do romance, reconheço que o filme vive por si, a produção tem qualidade e mérito, as opções funcionaram o ritmo prende e reconheço que foi uma aposta ganha. “Brideshead Revisited (The Sacred and Profane Memories of Captain Charles Ryder)” é outro exemplo, e ainda melhor, desta vontade arrojada de fazer sobre o que já existe e que é reconhecido como brilhante: um romance conhecido e valorizado de Evelyn Waugh que dá origem a uma das melhores séries televisivas de sempre (1981) de qualidade irrepreensível, fidelissima ao espírito do romance e aclamada unanimemente. Fazer um filme nestas condições é muito arrojo.

(continua)

26.11.08

Plataforma contra a Obesidade 47

Charles Sheeler (1883-1965)
American Interior

25.11.08

Ser ou não Ser Político

Via O Insurgente cheguei a esta entrevista de V. S. Naipul. É um dos melhores escritores actuais, porque escreve belissimamente, porque tem uma rara sensibilidade a tratar o que é ser membro desta raça que é a da humanidade, dos seus impulsos, medos forças e ambições, porque é um espírito livre, porque conhece o mundo, porque ousa ver o mundo e a realidade com um olhar diferente daquele olhar da habitual complacência que tanto abunda. Desde A Bend in the River onde expõe o pós–colonialismo africano e o seu mosaico de conflitos políticos, étnicos e corrupção, até Beyond Belief onde mostra a forte presença e crescimento do islamismo radical em meios e sociedades que gostaríamos e quereríamos insuspeitos, nada escapa a esta lucidez peculiar isenta de moralismos e falsas virtudes. Esta característica é sem dúvida politicamente incorrecta: este olhar sem culpa, sem justificar, sem explicar, sem tentar compreender,mostram uma liberdade incómoda e isso que já lhe valeu inúmeras críticas de alguns sectores políticos, a ele que confessa na entrevista não gostar de política. Depois de lermos as suas obras percebemos que a política, ele bebe-a na humanidade, na forma como, usando a imaginação que a ficção lhe permite, pensa nas coisas pequenas e vê uma imagem que, segundo ele cabe ao leitor analisar. O resultado é sempre, como não poderia deixar de ser, de uma actualidade desarmante.

23.11.08

Velas 13

Hoje


Igual a si Própria

Não me apetece fazer um quadro comparativo entre as várias personalidades e carácter dos nossos políticos, nem da forma como eles vivem o ser políticos, mas realmente não percebo que se espere, conte e coleccione as, presumíveis ou não, gaffes de Manuela Ferreira Leite como quem conta as gaffes de Pedro Santana Lopes ou quem conta as desaventuras (diploma, por exemplo) e horrores (“venda” de Magalhães na cimeira Ibero-Americana, por exemplo) do nosso actual primeiro-ministro. MFL é assim: um pouco rude, frontal, sem “jeito” para “a coisa”, séria, até sisuda e nunca pretendeu ser o que não era, nunca pretendeu parecer o que não é, nunca pretendeu mudar o seu “estilo” de fazer política, nunca tentou convencer ninguém que era diferente, nem tentou aprender e dominar técnicas de comunicação e marketing político. E depois as suas “gaffes” mais não são mais do que o reflexo destas características já tão conhecidas – ela não é propriamente uma novata em matéria de vida política. Elas não são propriamente passos em falso, numa já de si encenada falsidade em que tantos outros políticos se movem deslizando para nos fazer crer em algo que nunca é. As chamadas “gaffes” de MFL, de facto nunca o são, porque são manifestações de genuíno “sem jeito” e não pedaços do script que ficou por estudar, ou esqueletos que saem aos tombos dos armários que não ficaram convenientemente bem fechados (parece que nunca ficam). Por isso me parece estranho o interesse em contabilizar as vezes que MFL é igual a si própria. Goste-se ou não, e é tão legitimo gostar como não, pelo menos ela tem esse mérito já tão raro: ser igual a si própria.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 31

Aristide Maillol. (1861-1944).
The River

Deixar-se levar pela corrente.
.

Sair de Cena 4

Não tinha previsto fazer tantos posts com este título, mas parece que os tempos recentes se revelam propícios a mudança de página, “paradigma” diriam uns. Muitos teimam em não o querer ver, mas o tempo que é sempre implacável encarregar-se-á de o demonstrar. Aguardemos pois. Até lá, Dias Loureiro foi à televisão. Parecia frágil e com uma postura levemente obrigada e penitente, enredado numa história que ninguém dá sinais de querer confirmar, o que só o debilita ainda mais. Já não veste facilmente a pele de Conselheiro de Estado e deveria poupar ao Presidente, que o escolheu e nomeou, o embaraço de ter um conselheiro fragilizado. Também ele deveria sair de cena e libertar o Presidente.

21.11.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 39

Piet Mondrian (1872-1944)
View from the Dunes with Beach and Piers, Domburg.

A Espuma dos Dias que foram 16

Com um ar de quem explica as formas de pagamento numa reunião Tupperware diz “sexuality it’s about communication, not about great bodies, otherwise most of us wouldn’t be getting any, would we?” e depois com ar de quem recolhe os cheques que pagam os ditos tuppewares e se prepara para ir embora, lembra que um dia antes numa palestra para mais velhos, uma senhora velhota lhe deu “isto” e ela, agora já com um brilho quase nada irónico nos olhos, leu:

Today is Not a Good Day for Adultery

Today is not a day for adultery.
The sky is a wet blanket
Being shaken in anger. Thunder
Rumbles through the streets
Like malicious gossip.

Take my advice: braving
The storm will not impress your lover
When you turn up at the house
In an anorak. Wellingtons,
Even coloured, seldom arouse.

Your umbrella will leave a tell-tale
Puddle in the hall. Another stain
To be explained away. Stay in,
Keep your mucus to yourself.
Today is not a day for sin.

Best pick up the phone and cancel.
Postpone until the weather clears.
No point in getting soaked through.
At your age, a fuck’s not worth
The chance of catching ‘flu.

Roger McGough

A Espuma dos Dias que foram 15

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