“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

1.12.08

Entardecer

Hoje

A falsa novela Marcelo Rebelo de Sousa e Liderança do PSD já enjoa. Vi e ouvi o que ele disse há uma semana perante a enésima insistência da jornalista – como se nada de mais relevante houvesse para falar – sobre a sua possivel candidatura à liderança (cito de cor): um, não faz sentido e é contraproducente mudar a liderança antes de 2009 e das eleições; dois, depois disso, não quero, não penso nisso, não seria bom, não seria sinal de renovação a minha recandidatura; três, nunca mais digo nem que Cristo desça à terra. A coisa pareceu-me clara “não”, para mim é “não” e o não voltar a dizer nem que Cristo desça à terra parece-me bom senso, mas que não faz de um “não” um “sim”. Sempre pensei como seria estranho o mundo se eu olhasse para uma parede preta e alguém me afirmasse que ela era branca. Com esta novela de MRS sinto essa mesma sensação de estranheza e desconforto. De onde vêm os rumores se o homem disse “não” tantas vezes? Será que “não” é “sim”? Então que será o “sim”? E quem decide os “não” que são “sim”? Que coisa confusa se pode construir de coisas tão simples. No entanto ontem a jornalista – como se nada de mais relevante houvesse para falar – voltou a interrogá-lo sobre as suas intenções. Ele voltou a negar e isso até é notícia, coisa que me espanta ainda mais.


28.11.08

Ver os Filmes dos Livros 2


O filme “Brideshead Revisited”, só tem o mérito de ter sido uma aposta e ousadia, porque falha em tudo o resto. Afasta-se do espírito do romance (que a série televisiva mantém) se nos dar nada de novo, nem ousar quer a nível da interpretação nem a nível técnico e formal. O filme parece ter sido feito para estúpidos de tal forma é “explicadinho” e óbvio acabando com a neblina evocativa que paira no romance e na série. O que eram suposições, insinuações, tensões implícitas, teias de complexas relações algo imprecisas, mas fortes, ficou óbvio, explícito, e muito banal. O Catolicismo que funciona como a tela que suporta a pintura e sem a qual a pintura não existe e que tem uma presença real, tentacular e insidiosa, mas pouco precisa e óbvia, e sobretudo pouco folclórica, ocupa no filme uma posição explícita e folclórica que surpreende; tal como a cena da família a cantar o Salve Regina ou uma das derradeiras cenas, a da morte de Lord Marchmain e da excessiva dramatização do seu gesto final de reconciliação com a Igreja aceitando a confissão. Tudo no romance gira em torno do catolicismo tal como ela é nas classes altas em Inglaterra (diferente do catolicismo em Itália, como é demonstrado), e do seu peculiar “pathos”, mas nunca essa relação entre o catolicismo e as personagens é banal, corriqueira, folclórica ou confortável, burguesa e moderna.

As relações entre as pessoas nomeadamente entre Charles e os diferentes membros da família, bem como com Brideshead itself, são líquidas e sem contornos definidos no romance (e na série): não há casualidades explícitas. No filme essas relações são estandardizadas e simplificadas ao estilo telenovela em binómios, o primeiro do qual assenta no sistema de classes, e em modelos fáceis e explicados para consumo de massas. A homossexualidade de Sebastian, primeiro insinuada e só no fim percebida é convertida num patético manifesto gay, a ligação entre Charles e Julia aparece como contraponto da ligação entre ambos com Sebastian e não como uma fluída complementaridade, bem como a explicitude da relação entre Charles e lady Marchmain são exemplos dessa estandardização das relações perdendo-se a teia complexa e dinâmica em que todos estão ligados a todos. A própria Lady Marchmain (que nem Emma Thompson consegue salvar) é demasiado vulgar. Sebastian um autómato, Julia uma personagem oca, só Charles consegue ter um pouco de densidade, mas só se nunca nos lembrarmos do Charles interpretado por Jeremy Irons, coisa de difícil concretização.

No fim do filme, à laia de moral da história (coisa horrível) Julia pergunta a Charles o que é que ele afinal quer, e Charles acusa-se por ter querido ter tudo (ainda o binómio de classes). Não poderia discordar mais dessa visão reducionista e tão “actual”. A culpa dele não é a de ter querido tudo, se é que quis tudo, esse não é o centro da questão, nem ninguém naquele universo se preocuparia com tal mundaneidade. A culpa vem deles, vem de sempre, vem de serem como são, de não conseguirem ousar serem “felizes” (só Lord Marchmain o tentou), Charles ao ser mergulhado naquela família também não consegue escapar à culpa mesmo sem saber bem de onde vem: de trair Sebastian, de querer Julia? De não corresponder às expectativas de Lady Marchmain? A dúvida de uma culpa que não se percebe é que atormenta Charles.

O filme afasta-se demasiado do espírito do romance, simplificando-o e apatetando-o sem nos dar nada de novo, de ousado e interessante em troca: a realização é pastosa e cheia de clichés, o processo narrativo não é ousado e o flash-back é o esperado, os actores carecem de qualquer espessura, parecem bonecos postos num cenário que tenta ser grandioso, a fotografia que poderia ser boa é também banal. O filme deu-me uma vontade enorme de rever a série de tal forma foi uma posta perdedora.

27.11.08

Miguel Sousa Tavares no seu comentário semanal na TVI considerou os atentados em Mumbai mais como uma manifestações de extremismo religioso típico da Índia do que de um atentado terrorista e face do terrorismo extremista que hoje nos ameaça.

Confesso a minha perplexidade entre esse preciosismo de ser fruto de extremismos “locais” versus extremismos “globais”. Realmente isso é indiferente uma vez que o tom de ataques deste género afectando civis e inocentes indiscriminadamente foi dado pela Al Qaeda que foi essa organização que mudou a face do terrorismo. Depois é difícil estabelecer fronteiras nítidas entre as “intenções” ou “origens” deste tipo de terrorismo uma vez que a Al Qaeda é uma organização que funciona com células autónomas e descentralizadas que podem decidir autonomamente como agir.

Também confesso o meu espanto perante a sua preocupação pelas manifestações de extremismos religiosos na Índia uma vez que nunca o ouvi sobre os recentes ataques de Hindus às comunidades cristãs. Mas, claro, sobre isso nunca interessa falar.

Tardes de Inverno 13

Winslow Homer (1836-1910)
A Game of Croquet



Ver os Filmes dos Livros

Sempre achei que era extraordinariamente difícil comparar a leitura de romances com os filmes que se fazem baseados neles. São géneros com processos narrativos distintos e na mudança de registo, nomeadamente de livro para filme, há sempre algo que se perde, porque, por exemplo, ao dar um rosto a uma personagem há uma concretização daquilo que para cada leitor é uma ideia. Pode-se ganhar no joga da câmara, no ambiente que se escolhe, mas a perda inplícita é quase sempre vivida com alguma nostalgia do prazer tido, das evocações ou de outras sensações que, se esfumam nessa mudança. No entanto nunca li os livros que se fazem dos filmes, ou os livros que já se fazem a pensar nos filmes, (o que deve condicionar imenso a escrita que deverá ser pouco mais do que uma base simples para um script do que um romance, penso eu) por isso tenho dificuldade em falar desse sentido na mudança de registo.

Há casos interessantes de livros que dão filmes. Alguns criam sucesso próprio, outros não. Uns conseguem ser uma peça que vale só por si, outros não e nunca conseguem ganhar vida “própria” e mérito “próprio”. Não sei qual é o segredo, e se todos soubessem todos fariam belas peças de arte. Há duas situação: a primeira é a de tentar olhar para o filme como uma peça isolada sem muita comparação com o livro. Lembro-me de como gostei de ler “O Nome da Rosa” de Umberto Eco (um best-seller dos anos 80) e de como o filme me desiludiu, uma vez que não consegue transportar toda a riqueza do romance. Revi-o passado uns anos e tentei não o colar ao romance, tentei pensá-lo como um filme autónomo sem referência a nada e apercebi-me que não era assim tão mau. O segundo caso é o de de seguir à letra o romance o que leva muitas vezes a que se faça uma série e não um simples filme. Foi assim em “The Jewel in the Crown” uma belíssima série (1984) de uma tetralogia subestimada "Raj Quartet" de Paul Scott. Ambos romance(s) e série de altíssima qualidade. Foi assim com "The Lord of the Rings"de Tolkien também cujos filmes de Peter Jackson ganharamn Oscares.

Mas nos últimos anos temos assistido a um fenómeno interessante: fazer um filme de um romance que entretanto já deu origem a uma série de grande sucesso e qualidade. Tudo fica ainda mais complicado: há duas referências boas e aclamadas o terceiro desafio é, por isso, muito ousado e há que o ser na concretização do projecto mostrando-nos algo de novo. Assim aconteceu com o grande clássico “Pride and Predjudice” de Jane Austen cuja série de 1995 fez enorme sucesso e que posteriormente deu origem a um filme de 2005 de Joe Wright que, confesso, conseguiu surpreender. Não concordando com todas as suas opções e percebendo-o qui e ali longe do romance, reconheço que o filme vive por si, a produção tem qualidade e mérito, as opções funcionaram o ritmo prende e reconheço que foi uma aposta ganha. “Brideshead Revisited (The Sacred and Profane Memories of Captain Charles Ryder)” é outro exemplo, e ainda melhor, desta vontade arrojada de fazer sobre o que já existe e que é reconhecido como brilhante: um romance conhecido e valorizado de Evelyn Waugh que dá origem a uma das melhores séries televisivas de sempre (1981) de qualidade irrepreensível, fidelissima ao espírito do romance e aclamada unanimemente. Fazer um filme nestas condições é muito arrojo.

(continua)

26.11.08

Plataforma contra a Obesidade 47

Charles Sheeler (1883-1965)
American Interior

25.11.08

Ser ou não Ser Político

Via O Insurgente cheguei a esta entrevista de V. S. Naipul. É um dos melhores escritores actuais, porque escreve belissimamente, porque tem uma rara sensibilidade a tratar o que é ser membro desta raça que é a da humanidade, dos seus impulsos, medos forças e ambições, porque é um espírito livre, porque conhece o mundo, porque ousa ver o mundo e a realidade com um olhar diferente daquele olhar da habitual complacência que tanto abunda. Desde A Bend in the River onde expõe o pós–colonialismo africano e o seu mosaico de conflitos políticos, étnicos e corrupção, até Beyond Belief onde mostra a forte presença e crescimento do islamismo radical em meios e sociedades que gostaríamos e quereríamos insuspeitos, nada escapa a esta lucidez peculiar isenta de moralismos e falsas virtudes. Esta característica é sem dúvida politicamente incorrecta: este olhar sem culpa, sem justificar, sem explicar, sem tentar compreender,mostram uma liberdade incómoda e isso que já lhe valeu inúmeras críticas de alguns sectores políticos, a ele que confessa na entrevista não gostar de política. Depois de lermos as suas obras percebemos que a política, ele bebe-a na humanidade, na forma como, usando a imaginação que a ficção lhe permite, pensa nas coisas pequenas e vê uma imagem que, segundo ele cabe ao leitor analisar. O resultado é sempre, como não poderia deixar de ser, de uma actualidade desarmante.

23.11.08

Velas 13

Hoje


Igual a si Própria

Não me apetece fazer um quadro comparativo entre as várias personalidades e carácter dos nossos políticos, nem da forma como eles vivem o ser políticos, mas realmente não percebo que se espere, conte e coleccione as, presumíveis ou não, gaffes de Manuela Ferreira Leite como quem conta as gaffes de Pedro Santana Lopes ou quem conta as desaventuras (diploma, por exemplo) e horrores (“venda” de Magalhães na cimeira Ibero-Americana, por exemplo) do nosso actual primeiro-ministro. MFL é assim: um pouco rude, frontal, sem “jeito” para “a coisa”, séria, até sisuda e nunca pretendeu ser o que não era, nunca pretendeu parecer o que não é, nunca pretendeu mudar o seu “estilo” de fazer política, nunca tentou convencer ninguém que era diferente, nem tentou aprender e dominar técnicas de comunicação e marketing político. E depois as suas “gaffes” mais não são mais do que o reflexo destas características já tão conhecidas – ela não é propriamente uma novata em matéria de vida política. Elas não são propriamente passos em falso, numa já de si encenada falsidade em que tantos outros políticos se movem deslizando para nos fazer crer em algo que nunca é. As chamadas “gaffes” de MFL, de facto nunca o são, porque são manifestações de genuíno “sem jeito” e não pedaços do script que ficou por estudar, ou esqueletos que saem aos tombos dos armários que não ficaram convenientemente bem fechados (parece que nunca ficam). Por isso me parece estranho o interesse em contabilizar as vezes que MFL é igual a si própria. Goste-se ou não, e é tão legitimo gostar como não, pelo menos ela tem esse mérito já tão raro: ser igual a si própria.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 31

Aristide Maillol. (1861-1944).
The River

Deixar-se levar pela corrente.
.

Sair de Cena 4

Não tinha previsto fazer tantos posts com este título, mas parece que os tempos recentes se revelam propícios a mudança de página, “paradigma” diriam uns. Muitos teimam em não o querer ver, mas o tempo que é sempre implacável encarregar-se-á de o demonstrar. Aguardemos pois. Até lá, Dias Loureiro foi à televisão. Parecia frágil e com uma postura levemente obrigada e penitente, enredado numa história que ninguém dá sinais de querer confirmar, o que só o debilita ainda mais. Já não veste facilmente a pele de Conselheiro de Estado e deveria poupar ao Presidente, que o escolheu e nomeou, o embaraço de ter um conselheiro fragilizado. Também ele deveria sair de cena e libertar o Presidente.

21.11.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 39

Piet Mondrian (1872-1944)
View from the Dunes with Beach and Piers, Domburg.

A Espuma dos Dias que foram 16

Com um ar de quem explica as formas de pagamento numa reunião Tupperware diz “sexuality it’s about communication, not about great bodies, otherwise most of us wouldn’t be getting any, would we?” e depois com ar de quem recolhe os cheques que pagam os ditos tuppewares e se prepara para ir embora, lembra que um dia antes numa palestra para mais velhos, uma senhora velhota lhe deu “isto” e ela, agora já com um brilho quase nada irónico nos olhos, leu:

Today is Not a Good Day for Adultery

Today is not a day for adultery.
The sky is a wet blanket
Being shaken in anger. Thunder
Rumbles through the streets
Like malicious gossip.

Take my advice: braving
The storm will not impress your lover
When you turn up at the house
In an anorak. Wellingtons,
Even coloured, seldom arouse.

Your umbrella will leave a tell-tale
Puddle in the hall. Another stain
To be explained away. Stay in,
Keep your mucus to yourself.
Today is not a day for sin.

Best pick up the phone and cancel.
Postpone until the weather clears.
No point in getting soaked through.
At your age, a fuck’s not worth
The chance of catching ‘flu.

Roger McGough

A Espuma dos Dias que foram 15

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Sair de Cena 3

A partir de ontem tudo será diferente pa Maria de Lurdes Rodrigues. Cedeu provavelmente às pressões eleitoralistas do Primeiro-ministro perante aquilo que se acredita ser a opinião pública (isto é os pais que querem boas notas e bons professores, mas duvido que queiram mais exigência) e, last but not least, perante os sindicatos. Tudo o que foi já era, e hoje já nada era como dantes. MLR já não está no seu cenário. Pode sair de cena sem esperar que tudo piore para ela: não a nível de contestação que vai continuar e issso já é irrelevante nesta abordagem (não o é politicamente, claro), mas a nível da sua credibilidade e da sua honra.

20.11.08


Pergunto-me o que será daqui a um ano e meio a avaliação de professores. Já não me pergunto por este modelo visto e revisitado “n” vezes, falo de avaliação como um conceito global. Será apenas um fumo, uma miragem? Uma intenção? Já terá sido transformado num gabinete que estuda o modelo e outro a estudar a sua implementação?

Também me pergunto como estarão os sindicatos? Continuam iguais a si próprios? E os professores? Continuarão todos a afirmar que querem ser avaliados, mas..., ou só que...?

A Espuma dos Dias que foram 14



(A mesma árvore fotografada com 4 dias de diferença)



Sair de Cena 2

Por vezes olho intrigada para uma determinada personagem do xadrez da actualidade e só consigo perguntar-me porquê: porque é que foi o que foi, porque é que é o que é. Tem sido recentemente o caso com o Governador do Banco de Portugal (BP) Victor Constâncio (VC), uma figura desconfortável. Nunca mostrou, desde a célebre auditoria às contas do país após os governos PSD e ao número de 6,... a que chegou para o deficit e tão diferente do que era então afirmado pelos ministros do anterior governo, uma verdadeira isenção e desprendimento político: a sua camisola do PS e o seu interesse foram sempre bem patentes no exercício do seu cargo. Portugal agora tem o Euro e as políticas monetária e cambial já não são atributos do BP, as suas atribuições e competências diminuíram drasticamente e libertaram (infere-se) recursos afectos a essas áreas, por isso esperava-se que o banco exercesse as suas funções de supervisão com redobrada competência e eficácia. Não foi o caso. A um enorme escândalo (BCP) segue-se outro de dimensões ainda por perceber (BPN); isto sem me referir às dificuldades e falhas de supervisão que a actual crise internacional veio detectar de forma generalizada nos diferentes países. Também não falo da polémica venda de ouro - concentro-me só nas evidentes e chocantes lacunas de supervisão do BP e creio que estas são suficientes para deixar qualquer pessoa num cargo de maior responsabilidade desconfortável, mas o que me espanta é que não deixa. VC continua com o mesmo ar apregoando que dorme descansado de noite e se nunca agiu de má-fé não tem razão para perder o sono, mas tem razão suficiente para repensar o seu cargo e a pertinência em o manter. A questão não é de má-fé, é simplesmente a de não cumprimento eficaz das suas funções; de incompetência, seja por desleixo, por preguiça, por inércia, ou por outro motivo qualquer.

O Banco de Portugal não fez o que deveria fazer, não esteve onde deveria ter estado, e alguém deve responder por isso. Ao constatar este facto percebe-se que uma época da história do BP acaba agora e uma nova era se abre. Constâncio pertence ao passado e ele já não é mais do que uma sombra: é isso que nós de fora vemos. Muitos pedem a sua demissão, e eu pergunto-me porque é que ele próprio não põe o seu cargo à disposição. Porque é que é sempre tão difícil perceber a mudança, perceber que o hoje já é outra coisa, porque é tão difícil sair de cena.

18.11.08

A Espuma dos Dias que foram 13

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Os Alunos em Amarante

Ontem vi no Jornal da Noite da SIC a cobertura que a estação fez à manifestação de estudantes do Secundário ( e também do Básico?) em Amarante. Confesso que fiquei chocada com a dita manifestação e o tempo de antena que a televisão deu àqueles alunos que não pensaram um segundo sequer em alinhavar duas ou três ideias simples, mas credíveis e sensatas que justificassem aquele aparato e aquele tumulto. Se alguma dúvida tínhamos sobre o nível da escola em Portugal, aquela manifestação tirou-a. Aqueles alunos trogloditas cujos argumentos fariam corar de vergonha qualquer ser com um mínimo de exigência intelectual são mais um dos retratos de uma escola que hoje parece ter perdido o pé e a cabeça. Nada como ser “chico esperto” e aproveitar os tempos conturbados de tensão professores/governo e sair à rua para criar ainda mais agitação. Porquê não se sabe bem, mas o que conta é a confusão.

Alunos que reivindicam o direito a faltar às aulas porque são “jovens” e os jovens faltam e que reclamam porque têm aulas de substituição em vez de irem para o recreio, são um ex-libris da sociedade complacente em que estamos. Estes jovens sofrem de excessos e de abundância: tudo lhes é dado tudo lhes é devido. Na escola nas últimas décadas o ensino é organizado de modo a não traumatizar os meninos e as meninas, de modo a acomodar os ritmos de aprendizagem de cada aluno sem ferir eventuais “diferenças”, nem premiar a diferença pela positiva, a deixar desenvolver as suas competências à medida que passam os dias, meses e anos com programas escolares que pouco ensinam, a dar espaço à criatividade, a compreender as falhas, e a não exigir qualidade, a não valorizar as faltas. A infantilização completa é mostrada quando alunos que deveriam querer aproveitar tudo, cada aula, cada tempo para se prepararem para exames e para o mundo competitivo da entrada para as universidades ou para a chegada ao mercado de trabalho, se passeiam em grandes números e dizerem querer faltar porque “são jovens” e querer mais recreio num nível próprio dos primeiros anos do ensino básico. Não se vislumbra a ponta de responsabilidade, de maturidade, de querer atingir metas de ter objectivos. Nada, bem pelo contrário, a imagem que é dada é de que se pensa que a vida é um grande carrossel: cores vivas, música, muitos telemóveis e alguém que nunca se sabe, nem quer saber quem, sempre a dar à manivela, e isso é alarmante. Claro que não é só responsabilidade da escola, é a imagem de uma mentalidade de um Portugal no seu pior.

17.11.08

A Educação Vista ao Longe

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Educação, Educação, Educação, Ministra, Ovos, Educação, Educação, Avaliações, Educação, Educação, Manifestações, foram estas as palavras ouvidas e que me trouxeram de volta à terra, no meu caso a Portugal dos portugueses, quando desembarquei de uma viagem de avião tão magnificamente extra-terrestre quanto possível. Sempre por cima de uma fabuloso e esponjoso manto de nuvens, só via o infinito em pôr-de-sol que se perde no tempo e se perpetua por duas horas: uma bola laranja ao longe num fundo de cor viva e num ar límpido como só o frio o sabe ser, que demorou a cair. Momentos pendurados no fio do tempo em que se esquece que lá em baixo é preciso (!) ter Ministérios de Educação, que se tem o Primeiro Ministro, que se atiram ovos a quem desagrada, que as avaliações são o que são e o que afinal já não vão ser. Ainda tenho que esfregar os olhos para ver se vejo melhor.


8.11.08

Dez dias

Velas 13



Chegada e Partida. Hoje

Amanhecer 6

Hoje

Avaliar 2

Sou uma grande defensora de avaliação recorrendo a entidades externas. Não só para professores, mas para alunos também. Aliás acho que se respiraria um ar muito mais puro e salutar se as avaliações de alunos e professores saíssem da alçada do Ministério da Educação. Só assim também se poderá garantir um mínimo de independência e isenção de interesses políticos de gabinete e de jeitinhos que se fazem para dar outros números às estatísticas. Muitos países adoptam este método com sucesso e eficácia. Manuela Ferreira Leite mostra coragem em apoiá-lo e em mostrar vontade de o ver implementado em Portugal, o que considero uma importante inovação (muito mais importante do que as inovações dos gadjets tecnológicos), mas gostaria sinceramente que esta ideia não passasse de palavras ocas num discurso de circunstância em dia de mais uma manifestação de professores. Seria bom que ao propor um projecto sério e concretizável de avaliação ela se demarcasse da vaga “anti-avaliação” que nunca explicitamente, mas certamente de forma implícita domina a classe dos professores. Esse é que é o desafio.

Dando Excessivamente sobre o Mar 38

Claude Monet (1840-1926)
Camille on the Beach at Trouville

7.11.08



Berlusconi é um político como já não se fazem. Não discrimina; por isso nunca mais mulher alguma se poderá queixar de ele a tratar como objecto. Ele trata assim qualquer um, como se pode ver aqui no Público on-line .A forma como descreveu Obama deve entrar nas antologias de frases célebres pelo mais puro instinto e oportunidade política revelada. Um momento raro (e também um momento único uma vez que só ele com eufemismo fashion, é certo, se atreveu a dizer que Obama é preto, em vez de se congratular, como todos, com o momento histórico que vivemos).
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Os Romances e as Histórias

Terá António Lobo Antunes (ALA) dito recentemente que “os maus romances são os que contam uma história” (já não me lembro onde li isto, por isso não cito a fonte), tal pareceu-me uma afirmação extraordinária. Nunca dei demasiada importância a ALA, nem nunca me apeteceu ler nenhum dos seus romances (agora e finalmente sei porquê), mas por vezes fica a sensação de que ele faria e diria qualquer coisa só para chamar a atenção sobre si. Ora para isso já tínhamos José Saramago que, a pretexto de seja o que for passeia, acompanhado pela sua sombra, a sua importância pelas ruas e corredores desse mundo em que se move ou que, mesmo estando (sendo?) o mundo indiferente ao facto de ele pensar ou não, não se coíbe de opinar em tom de conferência de imprensa sobre a última polémica do momento. Não precisávamos de uma segunda Diva, clone (sem Nobel, e por isso mais amargo) da primeira.

Num primeiro momento até percebo ALA. Contar histórias todos contam: na rua, nos autocarros, em casa, no trabalho, em férias, no café a ver futebol, o que não falta por aí são pessoas que contem histórias. Também escrever qualquer um escreve, num blogue, nos jornais gratuitos, nos jornais pagos, nos semanários, nas revistas, e até tantos editam livros disto e daquilo; os mais ousados até contam histórias escrevendo-as, e publicam contos ou romances e dizem-se escritores. ALA tem implicitamente razão: melhor ou pior hoje somos todos escritores e contadores de histórias, e ele quer-se demarcar dessa massa informe de talentos que desponta como cogumelos na floresta. Ele que sua cada frase escrita, ele que sofre, ele que se atormenta por cada livro editado não só dá por mal empregue o seu esforço para no fim “só” contar uma história, como convive mal com a rapidez e a facilidade dos talentos romancistas de hoje. Tem razão: publica-se demais e a qualidade não é proporcional à quantidade, mas talvez também não tenha que ser, pois parece legítima a vontade de ler apenas uma história tanto quanto é não a querer ler. A sua (de ALA) razão fica aqui e só aqui pois o desejo de ler ou ouvir uma história é algo de muito primitivo ao ser humano, que o digam os antropólogos, e algo que atravessa todas as sociedades e civilizações. Nesse aspecto sinto-me muito primitiva, adoro uma boa história, e se for bem escrita então... É nas boas histórias que se contam que se conta a Vida, às vezes mais e melhor do em tratados de Filosofia ou Psicologia, e como a Literatura se faz também, a escrever e contar histórias, é, no entanto, muito mais do que a história que se conta; “Guerra e Paz”, por exemplo, não é só uma história que se conta, transborda essa história redobrando assim o prazer de quem lê o romance. É pena que nesta afirmação de ALA se leia tanta sobranceria, desconforto, inverdade, rancor e... até parece ignorância, ou não fosse toda a História da Literatura da nossa civilização ocidental, e tantas das sua obras-primas, construída em cima de histórias contadas. A História se encarregará de colocar no devido lugar tantos e tantos romances “experimentalistas” das últimas décadas escritos sem histórias”. O Tempo julgará.

4.11.08

In Bruges


Não sei bem porquê, talvez seguindo um qualquer cheiro, vi-me sentada numa sala de cinema em frente a In Bruges. Não conhecia o realizador, Martin McDonagh, não sou fã de Colin Farrell (antes pelo contrário), não me lembrava de Brendon Gleeson e Ralph Fiennes não é motivo suficiente para me fazer ver um filme. Nunca tinha lido nada sobre o filme nem visto referência nenhuma. Aliás, dez segundos antes de decidir vê-lo nem sabia que existia. Mas vi e saí agradavelmente surpreendida desta história insólita e estranhissimamente divertida, num lugar tão inesperado quanto insólito mas muitíssimo bem explorado. Num filme em que o ritmo é um andante, a cidade de Bruges (ou melhor, de “fucking Bruges”) funciona como um cenário magnífico, explorando o seu lado turístico e histórico que permite que ela tome conta de grandes planos visuais de efeito dramático - às vezes até pensei em Peter Greenaway - e serve como uma luva a cada pedacinho deste enredo em que o humor negro se mistura com algum fatalismo, muito pragmatismo, e também uma boa medida de contemplação (Ken deslumbrado perante as maravilhas de Bruges), nervosismo (o iniciado Ray cujo primeiro trabalho corre mal) os pudores morais que levam ao desfecho final. O humor é negro mas bem afinado, os diálogos são bons e as interpretações são de excelente nível destacando, por uma vez, Colin Farrell. Enquanto espectadores nunca estamos inteiramente confortáveis, mas não é isso que esperamos de um bom filme?

3.11.08


Será que a nacionalização do BPN, depois de os bancos privados terem manifestado desinteresse em comprá-lo (porque seria?), é um precedente que nos indica que daqui para o futuro todas as empresas do sector financeiro ou outro (porque não?) em risco de falirem ou com uma gestão de “legalidade duvidosa” (Público, Ed. Impressa) serão nacionalizadas pelo estado português? Se não, quem é que decide que empresas do sector financeiro ou outro devem ou não ser privatizadas?


2.11.08

Velas 12

Ontem
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Obama

Porque não sou cidadã norte americana, e porque não sou espectadora atenta, não me sinto à vontade para me pronunciar sobre estas eleições nem os seus candidatos, nem tão pouco sobre as propostas eleitorais de cada um. No entanto com um olho mais ou menos aberto vou seguindo ao longe a disputa eleitoral. Simpatizava com a candidatura de Hillary Clinton, desconhecia McCain e desconfiava da retórica escorreita e da lisura de Obama. Continuo a sentir que desconheço McCain e a desconfiar da fluidez de Obama e da eficácia com que colou o seu slogan “change” (o que é isso mesmo?) a todos, dentro e fora dos EUA. Dizem as sondagens que Obama está claramente à frente e que será o futuro presidente dos Estados Unidos.

Se assim for, e independentemente de Obama himself, não deixo de ficar comovida com a ideia de um presidente de cor nos EUA. Eu sei que ele é de uma cor “diferente” da cor negra dos Afro-Americanos descendentes de escravos, eu sei que ele tem feições “caucasianas” e um percurso de “branco”, também sei que a cor não deveria ser importante, mas mais forte do que todas essas certezas é a de que um homem de cor na presidência dos EUA é algo de extraordinariamente revelador da forma como a América tem sabido integrar os seus imigrantes e de como eles têm sido ao longo dos tempos e ainda são, parte estruturante do seu tecido social. É também a ilustração fiel de que tudo é possível nesse “american way of life”. Esta sim é uma lição para o mundo e para uma Europa arrogante onde se tolera tanto a diferença em belos discursos ideológicos cheios de culpa e complacência, mas onde a mentalidade é tão pouco propícia a uma eficaz integração e aceitação da diferença.


1.11.08

Amanhecer 5

Hoje.
(Clicar para aumentar)
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Atributos para uma Mulher 2

‘In my city’, he said much later, reclining on cushions, amid the melancholy of women after love, ‘a woman of breeding should be prudent and chaste, and should not be the object of gossip. Such a woman must be modest and calm, candid and benign. When she dances she should not make energetic movements and when she plays music she should avoid the brazenness of brass, and the drumness of drums. She should be painted sparingly and her hairstyle should not be elaborate.’ The emperor, even though he was mostly asleep, made a noise of disgust. ‘Then your men of breeding must die of boredom’, he pronounced. ‘Ah, but the courtesan,’ said Mogor, ‘she fulfils all your ideals, except, possibly, for the business about the stained glass.’ ‘Never make love to a woman who is bad with stained glass,’ the emperor said solemnly, giving no indication of humorous intent. ‘Such a woman is an ignorant shrew.

Salman Rushdie, “The Enchantress of Florence
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31.10.08

Plataforma contra a Obesidade 46

Luiz Meléndez (1716-1780)
Still Life with Oranges and Walnuts
(Clicar para aumentar)

Afinal não Somos Parvos

(...) a eficácia de uma máquina de propaganda depende antes de mais nada da disciplina política. O que Sócrates conseguiu foi impor uma disciplina, e uma disciplina severa, ao Governo, à burocracia e ao partido. Como no comunismo clássico, Sócrates tem uma "linha" sobre qualquer assunto que interesse à saúde e sobrevivência da maioria. (...) Por natureza, a "linha" não pode "dar" muita informação. Se "desse", não entrava na cabeça dos gnomos que a repetem e, principalmente, do público em geral. Para cada pergunta (...) basta uma resposta: simples, curta, final. Não é grave se a resposta for falaciosa ou hipócrita, ou não for, como costuma suceder, resposta nenhuma: a insistência, a convicção e a unanimidade acabam sempre por convencer os tolos.
VPV no Público de hoje

Este diagnóstico parece ser uma explicação convincente do porquê da minha revolta, e de outros tantos, que constantemente sentem que os estão a tomar por parvos com um desplante e um descaradamente que até agora nos era desconhecido. Afinal não somos assim tão parvos, resta-nos esse consolo pelo menos, já que vivemos tantas vezes sem percebermos nessa espiral centrípeta de nada e de vazio que nos atordoa. Tudo se reduz a um ou dois chavões, fáceis de entrar na cabeça, algo próximo da lavagem cerebral, creio. Vale a pena ler todo o artigo.


29.10.08

Plataforma contra a Obesidade 45

Giorgio Morandi (1890–1964)
Natura morta

Simples e Transparente

Ao ler o parágrafo final deste post percebi que não ía resistir a escrever sobre o “valor” das empresas cotadas em mercado de capitais. O valor de mercado é um valor “fair” no sentido de transparente e justo: transparente porque reflecte toda a informação existente num determinado momento sobre a empresa que está a ser transaccionada e justo porque é o preço acordado entre ambas as partes, isto é, entre quem vende e quem compra. Se o preço reflecte toda a informação sobre a empresa ele também reflecte: a sua “dimensão real” que é um conceito algo vago onde poderíamos incluir os activos (e passivos) e as perspectivas de crescimento futuro da empresa - intervenção da Porshe; reflecte também a sua produtividade, conceito também vago que tomarei como resultados, que são dados pelos mapas contabilísticos e financeiros divulgados periodicamente (as empresas cotadas são obrigadas a darem ao mercado essa informação); reflecte também a sua competitividade através da comparação dos seus resultados com outras empresas do sector. O valor de mercado não é algo abstracto nem subjectivo, nem uma ideia vaga ou um capricho de meia dúzia de especuladores gananciosos, é justo porque é o valor pelo qual, num determinado dia, alguém está disposto a vender um determinado activo e outro alguém disposto a comprar esse mesmo activo. Nesse dia o preço da VW no mercado financeiro alemão reflectiu toda a informação mais depressa que o Spiegel, que só à posteriori o analisou e explicou: num determinado dia houve pessoas obrigadas (porque voluntariamente assumiram compromissos de compra e assumiram os riscos daí associados) a comprar e poucas a querem vender. A simples lei da oferta e da procura aponta o resultado: a subida do preço. Se ninguém tivesse querido comprar, o preço não teria subido e ter-se-ia mantido. Simples e transparente.

28.10.08

Rajasthan, (c 18th century A.D.),
Lady with a lotus,

Atributos para uma Mulher

‘In the arts of staining, dyeing, colouring and painting her teeth, her clothes, her nails and her body a woman should be beyond compare,’ the emperor said, his speech now sluggish with lust. (…) ‘A woman should know how to play music on glasses filled to different heights with liquids of various sorts’ (…) ‘ She should be able to fix stained glass into a floor. She should know how to make, trim and hang a picture; how to fashion a necklace, a rosary, a garland or a wreath; and how to store or gather water in a aqueduct or tank. She should know about scents. And about ornaments for the ear. And she should be able to act, and to lay on theatrical shows, and she should be quick and sure in her hands, and be able to cook and make lemonade or sherbet, and wear jewels, and bind a man’s turban. And she should, of course, know magic. A woman who knows these few things is almost the equal of any ignorant brute of a man.’

Salman Rushdie, “The Enchantress of Florence
.
A ligeireza e ignorância quer em termos gerais, quer no que diz respeito ao Portugal real (distante desse país ficcional ao qual ele sempre se dirige e para quem o seu governo age) de José Sócrates são bem patentes na forma como ele, já assumidamente em campanha eleitoral, lida com a crise. Ora uma crise financeira e económica desta dimensão (em duas vertentes não dissociáveis, porque representa uma enorme convulsão e porque é global) é incompatível com a estratégia de campanha eleitoral preparada há meses nas suas agências de comunicação e de marketing político em diálogo com os gabinetes. José Sócrates não está a saber fazer a adaptação dessa estratégia ao Portugal real num mundo real. Manuela Ferreira Leite lembrou bem.

27.10.08

Pronúncia do Norte 6

No Sábado, na Praia do Molhe


Praxes e Praxis

Há umas semanas que se ouvem e lêem rumores sobre as praxes académicas, hoje o que li aqui leva-me a esta breve reflexão. Nunca percebi estas praxes, a sua necessidade e a desculpa que usam, para justificar tanta estupidez e animalidade, de dizerem que era tradição. Também era tradição queimar hereges, chicotear gente, era tradição a pena de morte, a escravatura. Também era tradição ler à luz da vela, não mandar sms e não usar computadores nem fazer filmes para o youtube. Não há argumento que me faça ver como bons estes comportamentos e estas praxes feitas de irracionalidade num auge da estupidez humana, e de excesso premeditado e delineado em grupo. O excesso para ser “simpático” (partindo do principio que há consentimento e que ninguém é lesado, claro) tem que ser espontâneo, feito no calor do momento, algo que na altura parece ser impossível de conter, senão o excesso rapidamente toma a dimensão do abuso, da violentação, da violação. Realmente não entendo que meio é esse o da nossa academia (a inteligenzia nacional) que olha com complacência estes abusos e violências e se permite tanta estupidez humana. Se é assim nas casas do saber, das “elites” como será num meio popular, perguntamo-nos. Creio que a Lei deve ser implacável, e que o tempo da complacência e do fechar de olhos e encolher de ombros “são jovens” deveria acabar. Há tantas maneiras de fazer praxes, há tantas formas de divertir que não percebo o porquê deste retrocesso civilizacional que todos os anos acontece no início do ano lectivo académico.

26.10.08

Pronúncia do Norte 5

Ontem um dia de sol, enquanto passeava na praia do Molhe.

24.10.08

Amanhecer 4

Hoje
(clicar para aumentar)

As Palavras e as Circunstâncias

Manuela Ferreira Leite tem imposto um estilo comunicacional diferente do esperado e do habitual e certamente a anos luz do estilo do nosso Primeiro-Ministro. Este último fala para preencher quotas de “comunicação política”, MFL fala quando sente que tem alguma coisa para dizer. Não sei se a estratégia de MFL será sempre a melhor, mas é a dela e por isso mais genuína do que a de tantos políticos como José Sócrates sobretudo agora em fase pré-eleitoralista. Se se sente MFL às vezes ausente, diria mesmo alheia no quotidiano, JS é omni-presente multiplicando-se em anúncios, explicações, declarações slogans e frases encomendadas já pré-elaboradas.

Não sou adepta da teoria que faz de quem pouco fala um poço de sabedoria e que obriga a silêncio atento para ouvir as suas palavras raras, conheci aliás uma pessoa de poucas palavras que conseguia manter em silêncio referencial quem o rodeava e aguardava ansiosamente as palavras raras, que por acaso eram de uma banalidade e estupidez confrangedora. Neste caso a raridade não faz a preciosidade, mas o depuramento comunicacional bem como o facto de ser um estilo genuíno tem algum benefício: percentualmente menos asneiras são ditas, somos poupados a propaganda feita de frases e slogans medidos e estudados por profissionais da comunicação e cujo som final já adivinhamos, e não somos bombardeados constantemente com ruído comunicação e banalidades políticas que já ninguém respeita nem, sendo o caso, acredita. No entanto a outra face desse depuramento é a tendência, tão visível nos média e nos comentadores políticos, a confundir as palavras com as circunstâncias: mais do que analisar o que se diz, analisa-se o silêncio, o que se não disse, o porquê (parece incrível como é que) de não ter dito sobre isto e sobre aquilo e o porquê de (logo agora que ninguém se lembra) de se dizer o que se diz. Terreno minado e puramente especulativo para gáudio de alguns e aborrecimento de tantos.

22.10.08

Velas 14



Ontem e hoje
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Intelligence is Relative


Burn After Reading com um adequado sub-título Intelligence is Relative, é certamente um dos melhores filmes sobre nada que já vi. Ou, se assim quisermos chamar, um hino à estupidez - se não fosse a estupidez, como lhe convém, levar ao caos e desastre. Entre o riso e o arrepio, vamo-nos espantando e divertindo relaxadamente com o virtuosismo dos irmãos Cohen que nada deixa ao acaso. Divertem-se a fazer filmes e divertem-nos a nós: com uma câmara cirúrgica, personagens idiotas e básicas servidas por magníficos actores, pormenores pensados ao milímetro, nada lhes escapa e nós entretemo-nos a olhar o cabelo de Brad Pitt, os tiques das personagens sempre no limite do “too much”, os detalhes de cada cena, a da consulta ao cirurgião plástico ou a da Embaixada Russa, são verdadeiros “bijoux”, e os diálogos como o da cena final, são delirantes. Nada escapa ao virtuoso, tudo tem o seu lugar, tudo encaixa em tudo, e nós percebemos que é nada e que de nada se trata. No fim a sensação de rir de nada, de ter visto nada e de gostar de nada.

20.10.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 37

John Frederick Kensett (1816–1872)
Newport Rocks

Antes que o Diabo Saiba que Morreste


Depois de ter lido este post fiquei com vontade de ver o filme “Antes que o diabo saiba que morreste” (título espantoso). Confesso a minha perplexidade por não ter visto publicidade ao filme e por ele estar tão discretamente nas salas de cinema, não entendo; merecia mais pois também o considero seguramente um dos melhores filmes que vi ultimamente, de um classicismo sólido e limpo apesar de insólito. O seu lado negro vem de uma intenção perversa à medida dos “tempos actuais” que corre mal e cuja situação já nenhum personagem domina, impondo-se o destino na ineveitabilidade de pulsões básicas, bem como de algum insólito formal de uma cronologia não linear feita em colagens dando a visão de cada uma das personagens, todas elas bem desenhadas. Os actores têm (já esperava) intrerpretações notáveis, e confesso o imenso prazer de ver um filme bem construído, sóbrio, frio, mas intenso e de me encontrar frente a frente com o cinema de que gosto. E já nem me lembrava que Sidney Lumet existia.

19.10.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 30

Eros adormecido
Grego ou Romano

Deixar-se dormir.

Bidimensionalidade

Passos Coelho e o seu círculo mais próximo reagiram com algum nojo à sugestão e à possibilidade de uma candidatura à Câmara Municipal de Lisboa. Parece estranha esta aversão à disputa democrática de lugares elegíveis e que requerem votos de cidadãos normais e não só de militantes partidários. Passos Coelho, ao contrário de Santana Lopes, para citar um exemplo, parece querer chegar à liderança partidária sem arregaçar as mangas, sem ir à luta num percurso político linear e bidimensional que considero pobre. Disputar lugares, nomeadamente a presidência de uma câmara, parece ser uma forma de arregaçar de mangas, de ir à luta, de experimentar o julgamento dos cidadãos, de fazer curriculum, que dá uma diversidade de experiências, um crescimento político e uma pluridimensionalidade ao percurso de alguém que ambiciona um lugar decisivo na estrutura do poder. Deslizar para o topo é de uma artificialidade e superficialidade notória porque para o topo não se desliza, escala-se, conquista-se, num movimento que poucas vezes é linear. Cavaco Silva ganhou, perdeu, voltou a ganhar. Santana Lopes já praticamente ganhou e perdeu de tudo, Rui Rio, um candidato “para perder” acabou ganhando, Carrilho acabou perdendo, Mário Soares ganhou e perdeu e ganhou e perdeu, até José Sócrates, enquanto ministros do ambiente, quis marcar posição fazendo apostas e arriscando novas políticas e novas soluções. No estrangeiro perder eleições é um acto tão nobre quanto ganhá-las e um acto que ajuda a marcar posição e segurar o terreno preparando as futuras vitórias. Porque é que há em Portugal este nojo por concorrer a uma cargo em incerteza? Se ganhar, (e porque não?) é uma conquista importante de um lugar a fazer, de uma voz que se quer mais forte, de uma experiência que amadurece; se perder, fica a posição que se marcou, o risco que se abraçou, a luta que se fez e a certeza de que nunca nada se perde.

17.10.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 36

Gustave Courbet (1819-1877)
La falaise d'Etretat après l'orage

Espiritualidade Pronta Para Consumo

Há uns dias reparei num anúncio de “Meditação Católica”, colocado numa das grandes e movimentadas paróquias da cidade de Lisboa em que convidavam os potenciais participantes a experimentar a meditação católica. É extraordinário ver o que a globalização e o marketing fazem. O que era, e é, vulgarmente conhecido como rezar o terço, para dar um só exemplo, brevemente arriscar-se-á a ser algo próximo de uma recitação de mantras ou uma busca introspectiva do verdadeiro eu, ou um re-equilíbrio com as energias do universo, ou qualquer um desses chavões new-age. Não tenho rigorosamente nada contra a meditação, e reconheço-lhe grandes benefícios, mas parece que precisamos do que nos vem de fora para descobrir e (re)conhecer o que temos cá dentro. A Religião Católica tem uma vastíssima tradição quer na área mística, quer na área contemplativa que tem sido desprezada por uma sociedade virada para pragmatismos, sentimentalismo descartável, sucesso e gadgets. A procura da espiritualidade e de algo “diferente” por tantos que se dizem cansados desta forma de vida, levou-os a locais distantes e abriu a porta a outras tradições espirituais que chegam aqui com o entusiasmo da coisa nova. Ainda bem, e que o entusiasmo não esmoreça como acontece tantas vezes com as coisas novas. Mas reconheça-se que rezar um terço não é uma técnica de meditação, embora possa ser, para escândalo de muitos, igualmente benéfico. Contemplação e oração vêm de uma tradição espiritual diferente da meditação, ambas buscam uma vivência espiritual mais intensa, mas que se reconheçam as diferentes tradições evitando um melting pot amorfo de uma espiritualidade de consumo.

15.10.08

Plataforma contra a Obesidade 44

Giorgio Morandi (1890-1964)
Natura Morta

Do Medo e da Tentação

Depois de ler esta notícia, e depois de passada a tentação do “bem me parecia!” instala-se em mim o conforto de ver a ordem das coisas reposta. Pode parecer perplexo, mas a confiança nos mercados não volta com planos dos estados, com mais estado, nem com medidas de emergência e reuniões “ao mais alto nível”. Sinto-me pouco hábil para julgar da pertinência de tratamentos de choque que estanquem a hemorragia de uma ferida, mas sei que isso não cura a ferida. Sei que é o medo que preside a essas medidas, pois elas são propícias ao despoletar do medo e de medos, só que o medo é uma reacção humana e não uma reacção de mercado. Os mercados não têm medo de nada: nem do “bull” nem do “bear”. A “crise” não se vai esconder debaixo do tapete, e a confiança dos agentes financeiros não se restaura com medidas exteriores. Ver que a euforia dos últimos dias parou é como que sentir que a poeira das medidas de emergência está a assentar e ordem se repõe, que agora sim, as coisas parecem estar em consonância com o que têm que ser e não com o que se gostaria que fossem. E como diz o ditado, “o que tem que ser tem muita força”. Por muito que custe, e custa, esta “crise” tem que fazer o seu percurso, os mercados têm que se refazer, que encontrar e renovar a sua confiança, têm que passar por este ciclo, que de ciclos é feito o mercado (e a vida). Não acredito que isto aconteça em dois ou três meses, e pensar assim é não ser realista e não conhecer o mercado. Tão pouco acredito que muita intervenção estatal resolva a “crise”, talvez ajude a estancar a ferida, mas não cura. Demasiado estado é pouco compatível com a liberdade inerente ao mercado. Então em países pequenos e muito circulares (o ponto de chegada é tantas vezes o ponto de partida) como o nosso persistir em estender os tentáculos do Estado é perigoso para a liberdade dos cidadãos. Imagine-se só, com a máquina fiscal que hoje temos, a mão presente do estado no sector da banca... É demasiada tentação.

13.10.08


Vi ontem o regresso dos Gatos Fedorentos À SIC. Soube-me como sabe comer à Segunda-feira os restos ressequidos do Cozido do Domingo, e só me lembrava do velho provérbio que diz que nunca se deve regressar ao lugar onde se foi feliz. Mas a tentação...


Os mercados asiáticos não abriram em baixa. E só me lembrava da velha frase “I should have known better” do que fazer destes (e dos outros) prognósticos. Mas o cepticismo é também uma tentação. Veremos como corre o dia.

12.10.08

Hoje

Os governos da zona Euro já chegaram a acordo sobre “estratégia comum” para responder à crise muito séria dos mercados financeiros que abala as economias europeias. Em Portugal já se disponibilizaram 20 milhões de euros em forma de garantias para estimular actividade bancária. Todos consideram as medidas intervencionistas por parte dos estados bem vindas. Já nas semanas anteriores medidas semelhantes foram tomadas, nomeadamente nos EUA com o Plano Paulson e outras injecções de moeda quer nos EUA quer na UE. Todos esperam estas medidas, todos as aplaudem. Todos menos o mercado que teimosamente se mantém a descer. Se a crise é de falta de confiança, então estas medidas estão longe de darem a confiança necessária ao mercado. Talvez os mercados não gostem de intervenções estatais. Veremos como abrem os mercados amanhã, olhemos para os mercados asiáticos, os primeiros a abrirem. Eu confesso o meu cepticismo em relação a estas intervenções.

11.10.08

Plataforma contra a Obesidade 43

Gustave Courbet (1819-1877)
Still Life with Apples and a Pomegranate
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O Blogue, Os Blogues e o Mundo

Já são mais de dois anos a fazer este blogue. As semanas sucedem-se a um ritmo impiedoso e reparo que escrevo sempre menos do que o que gostaria e menos do que quereria. Mas mesmo assim o blogue vai-se fazendo. Já me conformei com o facto de que nunca vai ser o que eu pensei que seria, nunca vai ser perfeito, ou o que eu tinha em mente que queria fazer, porque num determinado momento parece que se solta de nós e se sente que o blogue ganha uma vida própria, uma rotina e inércia muito dele – coisa confortável, diga-se - que aponta caminhos, torce o nariz a algumas ideias de post ou a estilos diversos, exige imagens, pede atenção e parece ser avesso a grandes mudanças, pelo menos para já, não sinto o blogue com vontade de mudar seja o que for. Depois da fase inicial, de expectativas, entusiasmo, vontade, estabelece-se o conforto do conhecimento, de uma rotina, a chamada velocidade de cruzeiro. É assim que hoje eu sinto este fazer de blogue, sempre com gosto e prazer.

Ao longo deste segundo ano de vida o Hole Horror tem recebido visitas através das listas de links dos blogues, e também por vezes recebe destaques e menções simpáticas que fazem subir os números de visitantes.

Abrupto, Blasfémias, Corta-Fitas, Quase em Português,
31 da Armada, Portugal dos Pequeninos, Da Literatura, Espumadamente,
Do Portugal Profundo, Combustões, Direito de Opinião, José Maria Martins,
O Insurgente, Origem das Espécies, O Andarilho, Porta do Vento,
Coisas Sem importância, Don Vivo, Holocausto-Shoa, Clube Literário do Porto,
Imagens com Texto,

são os blogues a que me refiro. Tentei não esquecer nenhum, mas por lapso ou ignorância posso ter falhado. Se assim for peço que me alertem para o e-mail no cimo da página. Agradeço quer as visitas que proporcionam através das listas de links quer, no segundo caso, a simpatia da menção ou da referência especial que fazem disparar as visitas ao blogue. Enquanto leitora de blogues confesso que visito bastantes, mas nem sempre me fidelizo. Outras vezes as visitas são motivadas por se tratarem daquilo a que se chama “blogues de referência” e o que lá se escreve ser objecto de comentário noutros blogues, mais do que por eu gostar dom blogue. O acto de concordar, identificar não são são determinantes, concordar é uma motivação marginal ao impulso de ler um determinado blogue. Quero também referir que, para além de visitar os blogues que já mencionei, visito também com carácter regular:

Mar Salgado, A Natureza do Mal, Terceira Noite, Vox Pop,
Atlântico, Cachimbo de Magritte, Arrastão, 5 Dias,
A Causa foi Modificada, Bibliotecário de Babel, O Vermelho e o Negro, Estado Civil,
F-world, Crítico, Pedro Rolo Duarte.

Embora leia muitos blogues colectivos reconheço uma parcialidade especial para com os blogues individuais ou pelo menos aqueles em que o indivíduo se sobrepõe e impõe ao colectivo. Mais do que de blogues gosto dos fazedores de blogues, dos que não se diluem na espuma das notícias do dia ou da polémica do momento e sem se darem conta repetem o mesmo discurso vezes sem fim. Gosto de aprender com os blogues, gosto me me provoquem e desafiem, gosto de opiniões claras, argumentos pensados, teses fundadas e desabafos sentidos. Gosto mais da simplicidade do que da complexidade, gosto mais da incerteza curiosa do que da soberba da bibliografia “correcta”, gosto mais de frases próprias do que de citações, gosto mais do humor do que da arrogância, gosto mais do silêncio do que das piadas. E finalmente gosto sobretudo de sentir o pulsar de uma vida por trás das palavras: esse é o bem mais precioso e que nenhuma retórica ou artifício pode dar e o inimigo primeiro da banalidade.

8.10.08

Capitalismo

Cornelis de Man
Whale-Oil Factory of the Amsterdam Chamber of the Northern Company at Smerenburg (1639)
(Clicar para aumentar)

Instrumentos Financeiros e Liberdade

Mais um dia conturbado nos mercados financeiros a confirmar a globalidade da crise económica de que todos falamos. Os tempos de crise são tempos complexos, são duros e difíceis para muitos pois trazem perda e privação, para outros trazem depuração, mas para tantos trazem de volta velhos medos e preconceitos muito europeus e pelo menos desde o séc. XIX, tingidos de “esquerda”. Não falta quem declare a morte do capitalismo (as if...) e secretamente rejubile com esta crise que mais parece ter sido feita à medida para dar crédito às antigas, intelectuais e ideológicas desconfianças para com o capitalismo. No banco dos réus sentam-se os gananciosos, os especuladores, o capital, o mercado e os suspeitíssimos instrumentos financeiros. Neste momento é interessante ver o valor que se dão às palavras, como o peso da tradição as marca e como conceitos simples do tipo “ganhar dinheiro”, para uns é “criar riqueza” e para outros é “ganância”. Há hoje uma profunda dissonância na forma de olhar a crise e poderíamos deter-nos longamente nos meandros semânticos que fazem o discurso sobre a crise.

Os instrumentos financeiros são um dos bodes expiatórios apontados a dedo, é-lhes atribuída poderes maléficos, grande culpa pelo descalabro do capitalismo e há até quem declare a sua morte (pelo menos a morte daqueles mais complexos, menos compreensíveis e que por isso tanta desconfiança suscitam pelos poderes ocultos que detêm). Ora os instrumentos financeiros são uma das mais eficazes e simples expressões da liberdade individual e de uma sociedade e assim o têm sido ao longo dos tempos. Liberdade de comprar, liberdade de vender. Por muito sofisticados e abstractos que eles sejam- e às vezes, são-no, são sempre instrumentos da liberdade pois é livremente que alguém os compra ou os vende. Expressam uma vontade de resolver um sem número de situações normais (no sentido lato que envolve um julgamento assim como estatístico) como cobrir riscos, dar opções, precaver o futuro, alargar hipóteses, trocar riqueza, emprestar dinheiro, etc. É pena que o discurso normal sobre eles seja hermético e iniciático, pois essa dimensão confere opacidade e desconfiança a estes instrumentos de “troca”. Se olharmos para a História vemos que as civilizações mais dinâmicas e avançadas foram sempre as que estabeleceram “trocas”, e os instrumentos financeiros poderiam ser rudimentares e não precisarem de complexas fórmulas, mas existiam na mesma, através da palavra, promessa. Desde sempre se comprou hoje o que só existirá amanhã e desde sempre se vendeu o que (ainda) não se tem. Desde sempre que se pede dinheiro emprestado, se empresta e se cobram juros. Desde sempre que se vendem favores e se cobram favores, nomeadamente para cobrir o risco. As civilizações ditas ricas em tantas manifestações nomeadamente na arte são sociedades de mercado – de “trocas”, são sociedades mercantis, A Itália do Renascimento ou a Grécia Antiga, só para citar exemplos óbvios. Não há democracia sem essa liberdade de trocar bens, dinheiro e outros instrumentos financeiros. O contrário pode ser verdade, mas a democracia para florescer precisa de meios para com liberdade criar riqueza (ou ganhar dinheiro, ou se ser ganancioso). Para que haja essa liberdade o Estado não pode controlar todo o sistema de “troca”, se é o Estado que o controla perde-se a liberdade, o engenho. Por isso, os instrumentos financeiros não morrerão e provavelmente muitos novos surgirão depois desta crise anunciada e esperada. O capitalismo está bom e recomenda-se.

5.10.08

Coisas que se podem fazer ao Domingo 29

Henri Matisse (1869-1954).
Large Seated Nude.


Trabalhar os abdominais.

4.10.08

Dando Excessivamente sobre o Mar 35

Degas (1834-1917)
Beach Scene

Sim ou Não

Ainda a propósito do programa “Momento da Verdade”, dizia-me pessoa amiga que interessante seria ver José Sócrates nele. A uma primeira reacção de “o quê?”, pensei melhor e confesso que acho interessante, e aposto que reveladora, a ideia, não só para ele como estenderia a intenção para os restantes líderes políticos, ou outros políticos relevantes, que temos: Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, para começar. O modelo teria de sofrer algumas adaptações uma vez que vida privada destes cidadãos, não seria (nem teria que ser) objecto de escrutínio para além do facto de ser irrelevante para o objectivo em vista. No entanto tudo o que dissesse respeito à vida pública destes políticos nomeadamente escolas e universidades em que estudou, desportos ou outras actividades que tenha feito, associações a que pertenceu e pertence, trabalhos que fez e onde, casas onde morou, e à vida política poderia ser alvo de escrutínio na base da pergunta em binómio: sim ou não. Por muitas explicações e justificações, por muita pedagogia política que se use, no fim ou fica um “sim”, ou fica um “não”. Um programa assim eu veria.

3.10.08

Asas 4

Vários pares de asas. Clicar para ver melhor.

Lixo Televisivo e Honra

Há alturas em que me sinto desfocada deste mundo. Pareço vinda de umas longas viagens que nos fazem demorar a reconhecer a casa onde moramos. Anda por aí, este “aí” num sentido verdadeiramente lato e indefinido, que tanto pode ser pelas ruas que percorremos, lugares em que pousamos, textos que lemos ou gentes cá da terra com quem falamos, uma certa indignação com um programa da televisão que passa na SIC e parece que se chama “Momento da Verdade”. Ao que parece perguntam coisas que, para sossego dos próximos e do mundo em geral, nunca se deveriam perguntar, e muito menos querer saber. Mas os concorrentes acham que não, e lá contam a vidinha toda, entre poses mais ou menos indignadas e ar compungido dos familiares, e vão respondendo a essas ditas perguntas para ganhar um prémio final. Pelo menos isto foi o que consegui detectar nos breves segundos que vi o dito programa, enquanto zapava. Breves segundos mesmo, porque tenho real incapacidade de ver estes programas, Big Brothers e afins. Irritam-me, incomodam-me questionam demasiado as minhas crenças sobre o género humano , fazem mal à alma e poluem, porque todo o lixo polui, incluindo o lixo televisivo.

Tenho, no entanto, seguido na RTP Memória uma série inglesa da LWT (a mesma que fez a Família Bellamy ou Upstairs Downstairs) passada na Ilha de Guernsey durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Nesta época de Dr. House, Perdidos, Donas de Casa Desesperadas, Anatomia de Grey ou Prison Break, é com curiosidade que revemos estas séries doutras épocas. Toda a narrativa é diferente, o ritmo, os enredos, as filmagens, a composição das personagens, os episódios parecem mais decalcados de uma sólida tradição teatral do que da vontade de exploração da televisão ou apostas em complicadas produções. Tudo prima pela sobriedade e ritmo adagio incluindo as paixões que movem as personagens, se é que adagio e paixão são conceitos compatíveis. Num complexo mundo em guerra, conseguem arrumar direitinho as pessoas por categorias: cavalheiros, oficiais, soldados, gente comum, políticos, militares de carreira, militares dos serviços secretos, espiões, etc. O mais interessante na série é ver estas divisões no lado alemão onde a tendência é serem catalogados na gaveta dos “maus”. Outra curiosidade é que o valor mais importante transmitido ao longo dos episódios é o da honra. Hoje em dia seria impensável fazer uma série em que o aspecto mais relevante fosse a honra, poderia ser a lealdade, a coragem, mas a honra está a cair em desuso e tanta gente já nem sabe o que isso é. Talvez se soubessem não fossem ao “Momento da Verdade”.

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