“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

31.1.09

Sherrie Levine (1947)
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30.1.09

Dr. Vasco Pulido Valente

Percebo bem quando, hoje no Jornal Público, diz ter uma aversão a "escândalos" sejam de que espécie forem e uma incapacidade nata para os perceber (...) e percebo-o ainda melhor quando afirma ser a história do tio, do primo, do licenciamento, do prazo, do e-mail, da carta, da empresa, do intermediário, do processo e por aí fora (...), para mim, puro mistério. Também eu tenho dificuldade em seguir processos, licenciamentos, e a coisa fica ainda pior quando entra no reino jurídico. Nem sempre entendo o jargão usado e sinto-me perdida entre cartas rogatórias, arguidos, suspeitos, investigações, instruções de processos, julgamentos, trânsitos em julgado etc. Apesar do curso intensivo de juridiquês que todos os portugueses fizeram quando do caso Casa Pia, às vezes as coisas não são imediatamente claras. Mas lamento que desde o princípio me perdi no meio da embrulhada, pois neste seu artigo acaba por reduzir a fragilidade de José Sócrates ao facto de as coisas passarem o limite do que pode ser esquecido e arrumado, esquecendo a dimensão política do caso, e explica também que se JS fosse um primeiro-ministro eficaz e se o resto corresse bem, o "caso Freeport" não iria longe. Este argumento não me parece correcto. Não é só porque há barulho na rua e na comunicação social, num momento em que a governação não corre bem, que um primeiro-ministro deve ver o seu lugar posto em causa. O que está em causa é, como sabemos, a incapacidade de em Portugal se ver fazer justiça, a desconfiança do cidadão comum que sabe que nunca serão encontrados culpados seja de que processo for. O cerne da questão é também, e mais uma vez, um primeiro-ministro que, perante factos novos suspeitos e desconfortáveis para com a sua pessoa, não esclarece devidamente o cidadão comum, não responde de forma objectiva ao que lhe é perguntado. Como sempre, vitimiza-se, fala em forças ocultas, posiciona-se de uma forma arrogante acima da lei ajudado pela conhecida instrumentalização dos meios de comunicação em benefício da sua política espectáculo, mas NUNCA esclarece, e porque nunca esclarece, deixa o cidadão comum no pântano da dúvida que só vem confirmar a ideia latente de que todos os políticos são corruptos e sem credibilidade.
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29.1.09

Campanhas Negras e Calúnias

José Sócrates não disse nada de novo: considera-se vítima de campanhas negras (a terceira, segundo ele), notícias difamatórias e calúnias, e reafirmou a sua força e determinação em vencer essas forças do mal. Fez mal em falar sem ter nada de novo para dizer (pois enquanto nada for provado contra ele presume-se a sua inocência) e sobretudo fez mal em falar sem uma única vez confirmar ou desmentir, nem tão pouco analisar os factos: carta rogatória que existe, prazos apressados indesmentíveis, por exemplo, que se conhecem, limitando-se a sacudir a água do capote dizendo que tudo foi feito na estrita legalidade. Shame on you que tenta fazer de nós parvos.


Benjamin Button


Não há fome que não dê fartura, assim diz o provérbio popular. Depois de um Outono em que as escolhas cinematográficas me pareceram sempre poucas, segue-se um período de abundância em que todas as semanas estreiam filmes que me apetece ver. Haja oportunidade para os ver, e para aqui os anotar, pelo menos alguns.

Devo ser um caso único, mas o filme “O Estranho Caso de Benjamin Button” não me comoveu nem me entusiasmou. A aparente originalidade de nascer velho e morrer novo não me pareceu mais do que a figuração invertida (e muito pouco prática) da realidade cíclica que é sempre a vida, e pareceu pouco mais do que um pretexto para fazer caracterização, efeitos visuais e explorar as capacidades do actor, que se revela competente mas sem deslumbrar. Tem ingredientes para ganhar Óscares, mas pareceu-me um filme incapaz de superar o óbvio e por isso não o catalogo como um dos melhores filmes do ano. O que de mais simpático retenho deste filme são as personagens secundárias: Queenie a mãe no seu simpático lar de idosos, e sobretudo o capitão Mike no seu Chelsea, bem Elisabeth Abbott a aristocrata, uma Tilda Swinton muito convincente que parece actuar como quem respira. Aliás é neste período no mar e durante a guerra, no Chelsea, em que Benjamin começa a descobrir o mundo que o filme atinge o pico de densidade, vida e propósito, pois conta com as personagens mais densas, vividas e peculiares; até Benjamin com o seu olhar deslumbrado e a consequente perda de inocência se revela interessante por uma vez. Cate Blanchett pareceu-me uma sombra da grande actriz que é e a sua personagem é plana e pouco interessante, nomeadamente velha no seu leito da morte quando olha para a vida e a conta à filha numa confissão pouco verosímil. Posso dizer o mesmo em relação a Brad Pitt, que me pareceu muito melhor em Babel, por exemplo. Ser um bom actor não passa só por ter a caracterização e maquilhagem certas, não são só as camadas que se põe por fora que têm que bater certo, a respiração certa, a alma têm que lá estar e o olhar também.


A singular rapidez de José Sócrates, ou melhor as singulares celeridades tão peculiares de todo o percurso do primeiro-ministro, aqui bem retratadas. Só faltou mesmo a VLX lembrar os igualmente céleres exames de final de curso. É o elo comum a todas as "trapalhadas", de José Sócrates, sendo umas mais graves e com mais implicações políticas do que outras.


27.1.09

Tardes de Inverno 17

Henri Fantin-Latour (1836-1904)
La liseuse
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O Tsunami

A crise financeira começada no fim do verão passado provocou um verdadeiro terramoto nas sociedades financeiras, com falências de bancos, nacionalizações de outros, descobertas de esquemas ilegais de investimento e uma resposta por parte dos governos norte americano e europeus de medidas excepcionais, e para alguns discutíveis, de apoio ao sector financeiro. Segue-se ao terramoto o “tsunami” e as ondas de crise estão hoje a céu aberto na chamada economia real. Os anúncios de empresas que fecham, falem e despedem é uma lista diária, e é impossível ser insensível aos números de desempregos que este ano tem gerado e gerará. Não são só números, são pessoas, e o drama de ter uma economia em recessão é o drama de quem não mantém o posto de trabalho. De quem se vê de repente despedido, o vizinho despedido, a família despedida e todos com as contas de uma vida a terem de ser pagas mensalmente, anualmente. E inexoravelmente todos os dias, todas as horas o número de desempregados cresce.


25.1.09

Sherrie Levine (1947)
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De cada vez que se conhece o envolvimento do primeiro-ministro em mais um “caso”, ele desagua no lago turvo que é o carácter de José Sócrates. Depois dos não esclarecimentos em relação à sua licenciatura, desde as certidões passadas ao Domingo com data pouco credível pois o papel timbrado era actual e posterior à data do documento, até ao curriculum rasurado na Assembleia da República, sem esquecer o ridículo das suas afirmações sobre os projectos de engenharia, agora deparamo-nos com um caso de possível corrupção mais sério, e politicamente mais relevante do que os anteriores, mas onde as contradições abundam. José Sócrates afirma que vai lutar para defender a minha honra e a minha honestidade. O problema é que agora já poucos acreditam que ele tenha uma e outra.

23.1.09

Changeling


A Troca não é uma obra-prima, nem o melhor dos filmes de Clint Eastwood, mas é de uma enorme solidez e muito “reliable” sem cair em facilitismos sentimentais e exageros maneiristas num filme que onde isso seria tão fácil e num filme que é sempre duro. Tão duro quanto só a esperança da mãe, apesar de tudo, o pode ser. É a esperança que é dura e cruel, que não deixa viver nem respirar. É também um filme tão duro quanto o “fazer” de uma verdade oportunista e para consumo exterior e tão longe da única verdade o pode ser. É o fabricar desta verdade tão desrespeitosamente longe da realidade que é duro. Não se dá pelo tempo passar. Envolvemo-nos naquele clacissismo que já todos reconheceram e glosam em Eastwood. Bom casting, boa fotografia, boa música. “A Troca” é um filme de qualidade indiscutível.


22.1.09

Capitalismo 3

Max Berthelin (1811-1877)
Palais de l'industrie, coupe transversale




Depreendo, depois de ler este post de João Villalobos, que Pedro Passos Coelho, ao contrário de Manuela Ferreira Leite, tem uma “estratégia de comunicação coerente” e presumo que para a elaboração dessa estratégia de comunicação coerente PPC tenha contratado os serviços de aconselhamento de agências de comunicação e marketing político, sendo o “coerente” um símbolo de apoio profissional comunicacional, mais do que um símbolo de coerência das suas políticas. Nada contra a contratação de profissionais. Como aliás reconheço o direito e riscos de quem opta por não o fazer. O ter ou não uma agência de comunicação e de marketing político com uma agressiva política de distribuição, nunca deveria ofuscar o conteúdo da mensagem política de cada um, que é o que normalmente acontece. As agências de comunicação deveriam esforçar-se e lutar por algum espaço nos jornais e outros meios de comunicação e não ter autoestradas rasgadas de acesso fácil a eles que garantam presença mediática indiscriminada e sistemática (ver evidência aqui). Deveria caber aos jornais, televisões, rádios, etc e a quem neles decide e trabalha fazer a triagem de acordo com a pertinência, interesse ou novidade do que é divulgado. O que me incomoda hoje é saber que contratar os serviços de agências de comunicação é quase automaticamente ter um livre trânsito nos media, pelo menos nalguns, acabando com o discernimento e julgamento (face à pertinência, interesse ou novidade, repito) de quem divulga. O resultado é tantas vezes uma colecção de banalidades, discursos redondos, repetições, contradições e vazio. Mas isto já nós sabemos, não é?


Adenda: Deixo só mais este breve comentário após a resposta de João Villalobos a este meu post. O que quero reforçar é que se para uma empresa de comunicação é indiferente, coisa que não questiono, um político ter ou não um projecto sólido e credível para o partido, o país, o sindicato ou seja o que for, como aliás João Villalobos refere ao dizer que não cabe ao consultor “vestir camisolas”, para mim não. É importante a solidez coerência e consistência da mensagem. Por isso, cabe ao distribuidor (media) ajuizar da pertinência, interesse ou novidade das mensagens que vende e passa. Ao eleitor, no fim, caber-lhe-á comprar ou não o que lhe querem vender e tentar perceber a verdadeira mensagem para lá dos mais imediatos soundbytes e slogans. No caso de que falamos, como noutros que tenho referido (por exemplo aqui), eu vejo muito pouco.


21.1.09

Do Engano 2

In the present “culture”, few care to distinguish – indeed, few are capable of distinguishing – between sincerity and the performance of sincerity, just as few distinguish between religious faith and religious observance. To the dubious question, Is this true faith? or, Is this true sincerity? one receives only a blank look. Truth? What is that? Sincerity? Of course I’m sincere – didn’t I say so?

J. M. Coetzee, Diary of a Bad Year
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Amanhecer 11

Hoje

20.1.09

Do Engano

Cada dia que passa o engano deliberado e com dolo em que vivemos é maior. Tudo é falso e postiço. Uma crise internacional há muitos meses conhecida e com perspectivas e previsões dramáticas não foram suficientes para que o governo apresentasse um orçamento fundado em expectativas realistas. Vivendo no seu parque temático José Sócrates recusa-se a olhar o futuro tal com ele está a vir. A um orçamento rectificativo feito mal o ano começou, já um segundo se anuncia tendo o Ministro das Finanças insinuado a sua necessidade. A permanente tentativa de, a propósito do que for, enganar os eleitores é um dos traços deste executivo que usa e abusa de todos os meios para o fazer, e nós assistimos incrédulos como quem assite a uma ficção barata, mas cujos custos tememos. Hoje mais uma vez as previsões da EU vêm lembrar que é para o mundo real que se deve governar e não para o mundo virtual. Também o Banco de Portugal acorda tarde. Tanto engano é demais.
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Sherrie Levine (1947)
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Pedro Passos Coelho, uma produção fictícia e mediática, diz por um lado e desdiz por outro. Diz que não faz oposição activa à líder do PSD e contradiz tudo o que ela diz, cheio de ressalvas e discursos redondos. Agora do alto da sua cátedra discorre sobre o porquê da bondade de uma baixa de IRC e o porquê da perversidade de uma baixa de IRS numa declaração que merece ser lida pelo vazio que encerra.



Hoje um grupo de Pais mostrou que finalmente está a acordar para o que tem sido e promete ser a escola em Portugal vítima do conflito entre o Ministério da Educação e os professores. Alguém devia quantificar os custos do actual conflito e saber definir o prejuízo que já causaram aos alunos espalhados por esse país fora. Não falo daquelas estatísticas, feitas para enganar os números que dão a imagem do nosso país dentro e fora, e que são baseadas nos conhecimentos dos alunos e em que lhes são pedidos no 9º ano de escolaridade as competências e conhecimentos do 6º ano, podendo assim qualquer aluno fraco ter notas espantosas, falo da instabilidade nas escolas, das faltas, das aulas que mal se dão, etc. Estes pais pedem ao PR que use da sua influência para pôr fim à crise na educação. Os sindicatos, depois das cedências da Ministra, num conflito que o governo nunca soube gerir sabiamente, sabem que ainda têm poder negocial e vão tentar aproveitá-lo em ano de eleições e em ano em que os sinais de descontentamento na rua são de temer e evitar, mas as repercussões deste conflito estão por medir. Como é que é afectada a escolaridade dos alunos? O que é que o ensino em Portugal ganhou com esta guerra entre o Ministério da Educação e os professores? Será que alguma vez, e sem enganos, o chegaremos a saber?
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18.1.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 33

Ernest Barrias (1841-1905)
Nature Unveiling Herself to Science

Levantar o Véu.
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Da Má Fé

Ontem, no Jornal da Noite da SIC anunciava-se mais uma gaffe de Manuela Ferreira Leite a propósito do caso do jornalista da Lusa que teria ido fazer “queixinhas” ao PS Espanhol sobre a posição do PSD em relação ao TGV. Já percebi de está na moda falar das gaffes de MFL, e eu fico perplexa com essa moda. Por gaffe entendo lapsus linguae, descuidos, mas sobretudo enganos involuntários, isto é, dizer sem querer, algo que não se queria dizer. Nada mais longe do que acontece com MFL. Ela sabe perfeitamente o que está a dizer e não o diz com leveza nem de cabeça no ar. Ela pode estar errada, pode não “ter jeito” (seja lá o que isso for) para dizer as coisas, pode ter sido mal informada, pode até ser inoportuna, mas que não se chame gaffe ao que ela diz e que quer realmente dizer. MFL não é Santana Lopes. MFL é ousada e até espontânea – e tão diferente de José Sócrates - na maneira algo brusca de dizer o que pensa. Os seus discursos e intervenções não passam pela peneira do marketing comunicacional político, e isso choca uma comunicação social entorpecida e embrutecida pelo socialismo no poder que quando ouve algo mais “brusco” contra o status quo e a manipulação a que ela própria está sujeita, imediatamente tenta desvalorizar e menorizar. Chamar gaffe ao que MFL diz é mais uma das forma em que a sistemática má fé de grande parte dos media em relação à líder do PSD se manifesta. Muita indignação se ouviu, mas afinal ainda ninguém desmentiu o jornalista em causa tenha ido falar ao PS espanhol, pois não?
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17.1.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 41

Gustave Courbet (1819-1877)
The Stormy Sea

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