“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

29.1.09

Benjamin Button


Não há fome que não dê fartura, assim diz o provérbio popular. Depois de um Outono em que as escolhas cinematográficas me pareceram sempre poucas, segue-se um período de abundância em que todas as semanas estreiam filmes que me apetece ver. Haja oportunidade para os ver, e para aqui os anotar, pelo menos alguns.

Devo ser um caso único, mas o filme “O Estranho Caso de Benjamin Button” não me comoveu nem me entusiasmou. A aparente originalidade de nascer velho e morrer novo não me pareceu mais do que a figuração invertida (e muito pouco prática) da realidade cíclica que é sempre a vida, e pareceu pouco mais do que um pretexto para fazer caracterização, efeitos visuais e explorar as capacidades do actor, que se revela competente mas sem deslumbrar. Tem ingredientes para ganhar Óscares, mas pareceu-me um filme incapaz de superar o óbvio e por isso não o catalogo como um dos melhores filmes do ano. O que de mais simpático retenho deste filme são as personagens secundárias: Queenie a mãe no seu simpático lar de idosos, e sobretudo o capitão Mike no seu Chelsea, bem Elisabeth Abbott a aristocrata, uma Tilda Swinton muito convincente que parece actuar como quem respira. Aliás é neste período no mar e durante a guerra, no Chelsea, em que Benjamin começa a descobrir o mundo que o filme atinge o pico de densidade, vida e propósito, pois conta com as personagens mais densas, vividas e peculiares; até Benjamin com o seu olhar deslumbrado e a consequente perda de inocência se revela interessante por uma vez. Cate Blanchett pareceu-me uma sombra da grande actriz que é e a sua personagem é plana e pouco interessante, nomeadamente velha no seu leito da morte quando olha para a vida e a conta à filha numa confissão pouco verosímil. Posso dizer o mesmo em relação a Brad Pitt, que me pareceu muito melhor em Babel, por exemplo. Ser um bom actor não passa só por ter a caracterização e maquilhagem certas, não são só as camadas que se põe por fora que têm que bater certo, a respiração certa, a alma têm que lá estar e o olhar também.


A singular rapidez de José Sócrates, ou melhor as singulares celeridades tão peculiares de todo o percurso do primeiro-ministro, aqui bem retratadas. Só faltou mesmo a VLX lembrar os igualmente céleres exames de final de curso. É o elo comum a todas as "trapalhadas", de José Sócrates, sendo umas mais graves e com mais implicações políticas do que outras.


27.1.09

Tardes de Inverno 17

Henri Fantin-Latour (1836-1904)
La liseuse
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O Tsunami

A crise financeira começada no fim do verão passado provocou um verdadeiro terramoto nas sociedades financeiras, com falências de bancos, nacionalizações de outros, descobertas de esquemas ilegais de investimento e uma resposta por parte dos governos norte americano e europeus de medidas excepcionais, e para alguns discutíveis, de apoio ao sector financeiro. Segue-se ao terramoto o “tsunami” e as ondas de crise estão hoje a céu aberto na chamada economia real. Os anúncios de empresas que fecham, falem e despedem é uma lista diária, e é impossível ser insensível aos números de desempregos que este ano tem gerado e gerará. Não são só números, são pessoas, e o drama de ter uma economia em recessão é o drama de quem não mantém o posto de trabalho. De quem se vê de repente despedido, o vizinho despedido, a família despedida e todos com as contas de uma vida a terem de ser pagas mensalmente, anualmente. E inexoravelmente todos os dias, todas as horas o número de desempregados cresce.


25.1.09

Sherrie Levine (1947)
Large Check:10

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De cada vez que se conhece o envolvimento do primeiro-ministro em mais um “caso”, ele desagua no lago turvo que é o carácter de José Sócrates. Depois dos não esclarecimentos em relação à sua licenciatura, desde as certidões passadas ao Domingo com data pouco credível pois o papel timbrado era actual e posterior à data do documento, até ao curriculum rasurado na Assembleia da República, sem esquecer o ridículo das suas afirmações sobre os projectos de engenharia, agora deparamo-nos com um caso de possível corrupção mais sério, e politicamente mais relevante do que os anteriores, mas onde as contradições abundam. José Sócrates afirma que vai lutar para defender a minha honra e a minha honestidade. O problema é que agora já poucos acreditam que ele tenha uma e outra.

23.1.09

Changeling


A Troca não é uma obra-prima, nem o melhor dos filmes de Clint Eastwood, mas é de uma enorme solidez e muito “reliable” sem cair em facilitismos sentimentais e exageros maneiristas num filme que onde isso seria tão fácil e num filme que é sempre duro. Tão duro quanto só a esperança da mãe, apesar de tudo, o pode ser. É a esperança que é dura e cruel, que não deixa viver nem respirar. É também um filme tão duro quanto o “fazer” de uma verdade oportunista e para consumo exterior e tão longe da única verdade o pode ser. É o fabricar desta verdade tão desrespeitosamente longe da realidade que é duro. Não se dá pelo tempo passar. Envolvemo-nos naquele clacissismo que já todos reconheceram e glosam em Eastwood. Bom casting, boa fotografia, boa música. “A Troca” é um filme de qualidade indiscutível.


22.1.09

Capitalismo 3

Max Berthelin (1811-1877)
Palais de l'industrie, coupe transversale




Depreendo, depois de ler este post de João Villalobos, que Pedro Passos Coelho, ao contrário de Manuela Ferreira Leite, tem uma “estratégia de comunicação coerente” e presumo que para a elaboração dessa estratégia de comunicação coerente PPC tenha contratado os serviços de aconselhamento de agências de comunicação e marketing político, sendo o “coerente” um símbolo de apoio profissional comunicacional, mais do que um símbolo de coerência das suas políticas. Nada contra a contratação de profissionais. Como aliás reconheço o direito e riscos de quem opta por não o fazer. O ter ou não uma agência de comunicação e de marketing político com uma agressiva política de distribuição, nunca deveria ofuscar o conteúdo da mensagem política de cada um, que é o que normalmente acontece. As agências de comunicação deveriam esforçar-se e lutar por algum espaço nos jornais e outros meios de comunicação e não ter autoestradas rasgadas de acesso fácil a eles que garantam presença mediática indiscriminada e sistemática (ver evidência aqui). Deveria caber aos jornais, televisões, rádios, etc e a quem neles decide e trabalha fazer a triagem de acordo com a pertinência, interesse ou novidade do que é divulgado. O que me incomoda hoje é saber que contratar os serviços de agências de comunicação é quase automaticamente ter um livre trânsito nos media, pelo menos nalguns, acabando com o discernimento e julgamento (face à pertinência, interesse ou novidade, repito) de quem divulga. O resultado é tantas vezes uma colecção de banalidades, discursos redondos, repetições, contradições e vazio. Mas isto já nós sabemos, não é?


Adenda: Deixo só mais este breve comentário após a resposta de João Villalobos a este meu post. O que quero reforçar é que se para uma empresa de comunicação é indiferente, coisa que não questiono, um político ter ou não um projecto sólido e credível para o partido, o país, o sindicato ou seja o que for, como aliás João Villalobos refere ao dizer que não cabe ao consultor “vestir camisolas”, para mim não. É importante a solidez coerência e consistência da mensagem. Por isso, cabe ao distribuidor (media) ajuizar da pertinência, interesse ou novidade das mensagens que vende e passa. Ao eleitor, no fim, caber-lhe-á comprar ou não o que lhe querem vender e tentar perceber a verdadeira mensagem para lá dos mais imediatos soundbytes e slogans. No caso de que falamos, como noutros que tenho referido (por exemplo aqui), eu vejo muito pouco.


21.1.09

Do Engano 2

In the present “culture”, few care to distinguish – indeed, few are capable of distinguishing – between sincerity and the performance of sincerity, just as few distinguish between religious faith and religious observance. To the dubious question, Is this true faith? or, Is this true sincerity? one receives only a blank look. Truth? What is that? Sincerity? Of course I’m sincere – didn’t I say so?

J. M. Coetzee, Diary of a Bad Year
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Amanhecer 11

Hoje

20.1.09

Do Engano

Cada dia que passa o engano deliberado e com dolo em que vivemos é maior. Tudo é falso e postiço. Uma crise internacional há muitos meses conhecida e com perspectivas e previsões dramáticas não foram suficientes para que o governo apresentasse um orçamento fundado em expectativas realistas. Vivendo no seu parque temático José Sócrates recusa-se a olhar o futuro tal com ele está a vir. A um orçamento rectificativo feito mal o ano começou, já um segundo se anuncia tendo o Ministro das Finanças insinuado a sua necessidade. A permanente tentativa de, a propósito do que for, enganar os eleitores é um dos traços deste executivo que usa e abusa de todos os meios para o fazer, e nós assistimos incrédulos como quem assite a uma ficção barata, mas cujos custos tememos. Hoje mais uma vez as previsões da EU vêm lembrar que é para o mundo real que se deve governar e não para o mundo virtual. Também o Banco de Portugal acorda tarde. Tanto engano é demais.
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Sherrie Levine (1947)
Large Check:9
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Pedro Passos Coelho, uma produção fictícia e mediática, diz por um lado e desdiz por outro. Diz que não faz oposição activa à líder do PSD e contradiz tudo o que ela diz, cheio de ressalvas e discursos redondos. Agora do alto da sua cátedra discorre sobre o porquê da bondade de uma baixa de IRC e o porquê da perversidade de uma baixa de IRS numa declaração que merece ser lida pelo vazio que encerra.



Hoje um grupo de Pais mostrou que finalmente está a acordar para o que tem sido e promete ser a escola em Portugal vítima do conflito entre o Ministério da Educação e os professores. Alguém devia quantificar os custos do actual conflito e saber definir o prejuízo que já causaram aos alunos espalhados por esse país fora. Não falo daquelas estatísticas, feitas para enganar os números que dão a imagem do nosso país dentro e fora, e que são baseadas nos conhecimentos dos alunos e em que lhes são pedidos no 9º ano de escolaridade as competências e conhecimentos do 6º ano, podendo assim qualquer aluno fraco ter notas espantosas, falo da instabilidade nas escolas, das faltas, das aulas que mal se dão, etc. Estes pais pedem ao PR que use da sua influência para pôr fim à crise na educação. Os sindicatos, depois das cedências da Ministra, num conflito que o governo nunca soube gerir sabiamente, sabem que ainda têm poder negocial e vão tentar aproveitá-lo em ano de eleições e em ano em que os sinais de descontentamento na rua são de temer e evitar, mas as repercussões deste conflito estão por medir. Como é que é afectada a escolaridade dos alunos? O que é que o ensino em Portugal ganhou com esta guerra entre o Ministério da Educação e os professores? Será que alguma vez, e sem enganos, o chegaremos a saber?
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18.1.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 33

Ernest Barrias (1841-1905)
Nature Unveiling Herself to Science

Levantar o Véu.
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Da Má Fé

Ontem, no Jornal da Noite da SIC anunciava-se mais uma gaffe de Manuela Ferreira Leite a propósito do caso do jornalista da Lusa que teria ido fazer “queixinhas” ao PS Espanhol sobre a posição do PSD em relação ao TGV. Já percebi de está na moda falar das gaffes de MFL, e eu fico perplexa com essa moda. Por gaffe entendo lapsus linguae, descuidos, mas sobretudo enganos involuntários, isto é, dizer sem querer, algo que não se queria dizer. Nada mais longe do que acontece com MFL. Ela sabe perfeitamente o que está a dizer e não o diz com leveza nem de cabeça no ar. Ela pode estar errada, pode não “ter jeito” (seja lá o que isso for) para dizer as coisas, pode ter sido mal informada, pode até ser inoportuna, mas que não se chame gaffe ao que ela diz e que quer realmente dizer. MFL não é Santana Lopes. MFL é ousada e até espontânea – e tão diferente de José Sócrates - na maneira algo brusca de dizer o que pensa. Os seus discursos e intervenções não passam pela peneira do marketing comunicacional político, e isso choca uma comunicação social entorpecida e embrutecida pelo socialismo no poder que quando ouve algo mais “brusco” contra o status quo e a manipulação a que ela própria está sujeita, imediatamente tenta desvalorizar e menorizar. Chamar gaffe ao que MFL diz é mais uma das forma em que a sistemática má fé de grande parte dos media em relação à líder do PSD se manifesta. Muita indignação se ouviu, mas afinal ainda ninguém desmentiu o jornalista em causa tenha ido falar ao PS espanhol, pois não?
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17.1.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 41

Gustave Courbet (1819-1877)
The Stormy Sea

14.1.09

Véu Islâmico 11

Este “depende” parece-me fácil demais. O “depende” é raramente circunstancial e tem muito mais a ver com o grau de informação que a mulher, que casa com um muçulmano tem. Duvido, tal como o Cardeal Patriarca afirma (no final do texto), que as mulheres cristãs apaixonadas pelos homens muçulmanos se dêem ao trabalho de ler o Corão e de saberem exactamente no que se estão a meter. A questão não é nova, em Maio de 2004 o então Papa João Paulo II alertou e bem, para surpresa e espanto de muitos, para essa situação prevenindo as mulheres cristãs que querem casar com homens muçulmanos e implorando-as a que pensassem bem antes de se comprometerem.

E se poucas vezes “depende”, tem sobretudo a ver com o facto de que para os muçulmanos maridos não “depende” certamente. De acordo com a lei islâmica a mulher quando casa passa a ser tutelada pelo marido, passa a ser “posse” do marido e família do marido – por isso é que as mulheres muçulmanas, de acordo com o Corão, não podem casar com homens cristãos, para não passarem a pertencer ao mundo cristão. Por isso as regras que o marido reconhece e aplica são as do Islão e não as “civis” ou até as cristãs, e essas regras são sobre obediência, divórcio, bens, tutela dos filhos do casal (que “pertencem” sempre ao pai e nunca à mãe), etc. Duvido sinceramente que as mulheres cristãs (ou não confessionais, mas de tradição cristã) que casam com muçulmanos estejam informadas sobre o que as espera e, pior ainda, acredito que “por amor”, e num primeiro momento, estejam dispostas a abraçar certas tradições muçulmanas suavemente impostas. Quando derem conta do que fizeram já é tarde demais. Esta questão, que está longe de ser meramente teórica e que tem levado a inúmeros casos dramáticos, tem merecido a atenção de muitos governos e instituições por essa Europa fora em países haja grandes comunidades islâmicas.
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12.1.09

Sherrie Levine
Large Check:8

Da acefalia

Depois de uma semana cheia de acontecimentos políticos relevantes (medidas anti-crise anunciadas pelo primeiro-ministro, declarações da chefe da oposição, especulação em torno das datas das eleições) e de factos, que apesar de menos relevantes do ponto de vista nacional são importantes porque ilustram o estado imbecilizante em que o país se encontra (polémica as bandeiras nos Açores, texto de José Sócrates a ser objecto de comentário para candidatos a vagas abertas pelo IEFP de Técnico Administrativo Principal), vi anunciado para hoje um Prós e Contras sobre o sucesso de Cristiano Ronaldo, chamado O Sucesso de Ronaldo. Nada me move contra Cristiano Ronaldo, e desejo-lhe desde já a maior felicidade para a sua vida, mas creio que debater o seu sucesso num programa como o Prós e Contras é uma mostra da acefalia a que o país chegou. O seu sucesso parece gerar consenso e unanimidade. Vivemos tempos perigosos em que a unanimidade é um valor em alta e a alienação é procurada nomeadamente pela RTP atirando futebol aos olhos dos cidadãos. Francamente, como é que um tema destes se debate? Ou este debate é feito para que outros e mais importantes debates sejam evitados?

11.1.09

"Austrália"


Dificilmente resisto a um épico em forma de livro ou em forma de filme, e nesta última forma gosto especialmente de ver grandes produções que não apostem em efeitos especiais, monstros e outros seres bizarros, construções fantásticas e mundos esquisitos. Por isso, mal vi anunciado o Austrália soube logo que iria vê-lo mal estreasse e assim foi. Apesar de gostar deste género, já não nutro grandes ilusões, nem grandes expectativas em relação a este tipo de filmes em cartaz, o que me torna numa espectadora mais livre. O filme não surpreendeu em nada – já nem sei se é uma coisa boa ou má - e foi o que esperava: nem melhor, nem pior. Vê-se com agrado, é competente, bonito, mas longe da obra-prima que eu já não ouso esperar, mas com que ainda sonho. A história, é linear e sem grande complexidade, mas com um ou dois momentos de inconsistência que irritam. As personagens são planas, com pouca densidade existencial e não são dotadas de grandes tensões psicológicas, sociais ou outras, ressalvando o miúdo aborígene, o narrador com que todos simpatizamos e que centra nele quase toda a possível espessura do filme, contradições e complexidades do mundo a que pertence, ou não. As paisagens são, como esperado, deslumbrantes e de fazer sonhar, os actores são competentes, mas sem rasgos de genialidade, a música é boa e a fotografia também. No entanto, e apesar de ter visto o filme com gosto foi impossível esquecer a densidade e tensão dramáticas bem como a complexidade psicológica dessa obra prima que dá pelo nome de “E Tudo o Vento Levou”, ou a exacerbação romântica que é “África Minha”, ou o ritmo e contemplação de “Lawrence da Arábia”. Na comparação, creio que “Austrália” perde sempre. Talvez seja do meu olhar e talvez a passagem do tempo o torne mais macio e mais clemente, e daqui a uns anos, à medida que me for apropriando do filme, pense diferentemente. Tem potencial para isso.
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10.1.09

Combate ao Sedentarismo 57

La Dolce Vita
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Manuela Ferreira Leite ontem no Jornal Nacional da TVI à vontade, tranquila, mas muito clara, frontal, incisiva na crítica às medidas do governo para combater a crise exercendo cada vez mais o seu controle sobre a economia, e segura dos seus argumentos e da validade dos mesmo.s E tem toda a razão em cada crítica que apontou a José Sócrates e no caminho que traçou. Tudo o que disse faz todo o sentido. Espero que a comunicação social, no seu papel de informar, dê o destaque merecido às suas declarações.

Tem razão João Gonçalves na análise que faz do comentário de VPV no Jornal Nacional da TVI de ontem (hoje também se pode ler aqui a mesma ideia). Para além de ser incomparável a nossa AR com a Câmara dos Comuns, convém lembrar que na Assembleia da República está quem o partido designa para as listas e aceita nelas estar (Manuela Ferreira Leite não quis integrar as listas, era presidente do PSD Pedro Santana Lopes) e na Câmara dos Comuns está quem o eleitorado escolhe.
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8.1.09

Sherrie Levine (1947)
Large Check:7
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Depositantes e Investidores

Em tempos de crise financeira, em que se acredita que o diabo anda à solta no mundo dos bancos numa perigosa conspiração contra os mais desfavorecidos, tenho lido muita ignorância e muita demagogia que se resumem numa espécie de “nojo” em relação ao capitalismo. Há uma tendência para querer que tudo fique muito mal para então sim, finalmente e com prazer, se dizer com propriedade que se e enterrou o capitalismo. Mas o capitalismo é resiliente e resistente e sobretudo ainda não se inventou nada melhor. Uma das coisas que me tem deixado perplexa, nestas ladainhas demagógicas é a facilidade com que se faz uma diferenciação entre depositantes e investidores, como se uns, os primeiros, fossem os “bons”, os coitados apanhados desprevenidos, e os outros, os segundos, os “maus” que deveriam ser castigados por terem mostrado ambição e terem querido investir. Ora, e mais uma vez, o mundo não é feito a preto e branco e esta separação é artificial e enganadora. A menos que alguém se limite a ter o seu dinheiro numa conta à ordem não remunerada, ou com uma remuneração mínima, como alternativa mais segura à de deixar o seu dinheiro debaixo do colchão, qualquer depositante é também um investidor. Qualquer produto financeiro que seja remunerado é um investimento, pois pressupõe a expectativa de um ganho e pretende ser mais vantajoso do que o colchão. No colchão o dinheiro pode ser roubado, arder num incêndio, ou desfazer-se numa cheia. No banco não se corre esse risco, mas corre-se o risco do banco falir. Daí aquela velha máxima de que não se deve por os ovos todos no mesmo cesto. Nada está 100% garantido nunca. Mas isso é senso comum.

Há, no entanto, duas distinções que se podem fazer: a primeira é a distinção entre os diversos produtos de investimento sabendo que há produtos de risco baixo, médio ou elevado, A relação entre o risco e os ganhos é o bê-á-bá do investimento e qualquer pessoa com conta bancária já deve ter ouvido falar dele. Ninguém se queixa quando os ganhos são muitos, mas é sempre difícil aceitar as grandes perdas, mas o “risco” é isso mesmo. A segunda distinção é entre os montantes que se investem: há pequenos investidores e grandes investidores. Posso perceber que haja, do ponto de vista político, um discurso que aponte para uma maior vontade em proteger os pequenos investidores do que os grandes (a realidade é outra, no entanto), mas isso é outra questão, e é uma questão de política, o que não se pode é, diabolizar os investidores, isto é, todas as pessoas que têm expectativas de ganhos financeiros, e todo o conceito de investimento particular. Sem investimento privado, por muito pequeno que seja, não há economia, nem se gera riqueza. Convém nunca esquecer este princípio básico. Investimento não é só o TGV.
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Sherrie Levine (1947)
Large Check:6

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Sobre o ambiente nas salas de aula dos estabelecimentos de ensino, sobre os professores e sobre a autoridade

(...) ao contrário do que se passava no meu tempo de estudante liceal, a noção de hierarquia perdeu-se (mercê das reformas educativas delirantes que foram retirando aos poucos a autoridade aos docentes). Os rebeldes do meu tempo quando desafiavam, desafiavam a autoridade, por isso quem sabia exercê-la podia aspirar a uma docência sem incidentes de maior. Hoje o conceito de autoridade quase não existe na escola. Aquela insolência (...) é diferente da que eu conhecia. Os olhos destes miúdos (...) têm raios laser, como os dos bonecos dos jogos vídeo. E atiram a matar.

Teresa Ribeiro in Delito de Opinião.
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7.1.09

Entardecer 4

Ontem
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Amanhecer 10

Ontem
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Grito de Guerra

Às vezes não escrevo porque não posso. Às vezes não escrevo porque não quero. Às vezes não escrevo porque não me apetece. Às vezes não escrevo porque não sei. Às vezes não escrevo porque já muitos escreveram. Às vezes não escrevo porque já se escreveu demais. Muitas vezes não escrevo porque outros escreveram muito melhor do que eu escreveria. É este o caso,

sobre Gaza: sei que não sou original porque já aqui e aqui o transcreveram ou fizeram referência. Mas mesmo assim repito aquele que é também o meu grito de guerra.

Para não dar azo a muitas especulações vou sintetizar: quero que Israel ganhe a guerra contra o Hamas, o Hezbollah, o Irão e os fundamentalistas árabes. Que os palestinianos tenham uma pátria. Que em Israel e na Palestina os moderados consigam impor uma negociação. (Luis Januário in A Natureza do Mal)

6.1.09

When the Going Gets Tough, the Tough Gets Going


Easy Virtue (Virtude Fácil) não é uma obra prima, nem sequer um marco no cinema do ano. Vai passar despercebido pelo circuito comercial dos cinemas, e muitos dos que o vão ver, acha-lo-ão dispensável. Não é o meu caso. Trata-se de uma comédia romântica que em nada faz lembrar o género a que pertence: não há grandes trapalhadas, nem equívocos, nem qui pro quo que nos levem às gargalhadas, mas a partir dos primeiros momentos respira-se um ambiente especial e uma longa tradição de humor fino, de ironia e de fazer pouco de si próprio, coisa em que os ingleses ainda são exímios e mestres, mesmo com equipe multinacional e um realizador australiano. Boa música, bons adereços, bom guarda-roupa, boas personagens. Eu gostei.

5.1.09

Sherrie Levine (1947).
Large Check:5

2008 (3)

Outra das características de 2008 foi o facto de se acentuarem os acordos e ajustes directos entre o governo e um determinado grupo de actividade de uma forma pouco transparente, mas de facto eficaz. São os recados que vão e vêm entre as direcções de informação dos diferentes e de comunicação social, as perguntas que se combinam (com a comunicação social) fazer aos políticos em determinadas circunstâncias, os horários que se modificam (Marcelo Rebelo de Sousa já só dispõe de 15 minutos para o seu comentário semanal de grande audiência), os alinhamentos que se sugerem, tudo num clima de conspiração e cumplicidades mútuas difíceis de perceber para um cidadão. Quem não alinha, quem não é cúmplice é acusado de levar a cabo uma campanha contra a pessoa do Primeiro-ministro ou do governo, como foi o caso do jornal Público. O Magalhães (dos prometidos 500 000 para serem distribuídos gratuitamente pelos alunos do 1º ciclo que, só para recordar, até agora só foram distribuídos 35 000) foi outro exemplo acabado de cumplicidades tecidas em ajuste directo, já para não falar da propaganda do governo/primeiro-ministro por algumas escolas do país, nem das sessões de vendas na cimeira Ibero-Americana deste ano.

Também foi o ano em que a dificuldade e mesmo a incapacidade de fazer reformas foi visível de forma mais destacada do que nos anos anteriores, em que a palavra reforma, hoje caída em esquecimento, era uma das palavras mais usadas, com orgulho deve dizer-se, pelo primeiro-ministro. Atente-se, por exemplo, ao caso da saúde: depois da mudança do ministro, e como que por milagre, nunca mais se ouviu uma queixa na área da saúde. De repente deixaram de morrer pessoas nas ambulâncias a caminho dos hospitais, as criancinhas parecem estar todas a nascer nos sítios certos, as distâncias das maternidades encurtaram-se e os inúmeros protestos populares ouvidos amiúde nas televisões acabaram. Só a Educação foi excepção, mas com um ano de eleições à porta e perante os primeiros sinais de cedência no final de 2008 é fácil prever que também nesta área a “reforma” se esfumará.

4.1.09

Coisas que se podem fazer ao Domingo 32

Furienmeister.
Furie (1610-20)

Ter um ataque de Fúria
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Sherrie Levine (1947).
Large Check:4


2008 (2)

2008 foi também mais um ano em que, tal como nos anos anteriores, não se chegou a conclusão nenhuma sobre o que quer que seja que precisasse de ser investigado, averiguado. O Caso Maddie ficou sem conclusão satisfatória e envolto numa aura de suspeição de conflitos de interesses, o Director da ASAE fumou violando a polémica lei anti-tabaco cuja implementação os seus serviços têm que fiscalizar, mas rapidamente se contentou e se encantou encontrando nas excepções da lei uma interpretação que julgou favorável.

Mais um ano em que o caso Casa Pia continuou a deixar no cidadão um forte amargo de boca e a sensação de que nada será resolvido. A forma amadora com que se resolvem os problemas sejam eles em que sector de actividade forem, faz com que o cidadão comum não se reveja na forma como são conduzidos os processos nem como é feita a justiça. O caso Casa Pia continua a ser a melhor ilustração da ineficiência e dos jogos de interesses em causa, pois a ninguém passa despercebido o facto de neste caso só existirem vítimas mas não agressores, com excepção de Carlos Silvino o funcionário casapiano - ilustre desconhecido até ao início da investigação - que será o bode expiatório deste processo judiciário que se arrasta e que arrasta a nossa justiça e investigação pela lama, desacreditando-as mais ainda.

No meio financeiro foi também digno de nota a forma como o governo lidou com o caso BPP tendo um dia afirmado que não teria dinheiro do Estado para a instituição financeira em causa, e no dia seguinte, depois de uma espécie de revelação, o governo decidiu que seria dada uma má imagem do país de não se socorresse o BPP, tendo assim disponibilizado de imediato um apoio financeiro ao banco. Os escândalos, ilegalidades, corrupção, trocas de favores, e gestão de interesses comuns falam sempre mais alto do que a verdade e, por ineficiência, negligência, incompetência ou manipulação, são sistematicamente, abafados, contidos e controlados.
(Continua)
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2.1.09

Capitalismo 2

Maxwell Ashby Armfield (1881-1972)
This England: Portrait of an Owner

2008

2008 revelou-se um ano muito igual ao que já eram os anteriores. Neste país, onde não existe uma verdadeira cultura democrática, nem um gosto individual pela democracia e liberdade, nem tão pouco uma rigorosa separação entre os diversos poderes que são os pilares da democracia e que permitem que se evitem excessos de autoritarismo ou mesmo de “ilusões”, continuamos a afundar-nos suavemente (se a crise o permitir, senão será fortemente) em caldinhos, paninhos quentes e palmadas nas costas (como o gesto supremo de virilidade de uma nação). Estes gestos têm por objectivo a salvaguarda dos interesses do “regime” por oposição à salvaguarda dos interesses nacionais e dos cidadãos. Portugal é um país pequeno, e como todas as comunidades pequenas há uma forte tendência para um pouco salutar “in-breathing” onde os interesses de alguns se sobrepõem aos interesses de outros, e de outros com outros, e por aí fora num círculo fechado acabando sempre nos mesmos. Salvaguardar os interesses de todos esses grupos com alguma dimensão passa a ser um desígnio nacional mais do que a salvaguarda da democracia e dos interesses dos cidadãos. Aliás os interesses dos cidadãos (e contribuintes), individualmente falando, raramente coincide com o interesse dos grandes grupos económicos e financeiros que se protegem uns aos outros com a bênção dos políticos, que também eles, de uma forma directa ou indirecta, acabam reféns voluntários desses interesses. Um verdadeiro “caldinho” feito de uma carga fiscal absurda num país como o nosso, que é, infelizmente, nada propício a rupturas, desafios, e ao desenvolvimento da liberdade de expressão não só na sua forma verbal e linguística, mas também na forma de investimento e criatividade económica geradora de postos de trabalho e de riqueza e essencial para o progresso e desenvolvimento do país.
(Continua)
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A questão levantada aqui por Pedro Correia parece-me não ser totalmente correcta. Diria, de uma forma simples e genérica, que problema não está nos comentadores; em bom rigor qualquer um pode ser comentador, ou pagos na comunicação social dita “clássica” ou por gosto nos blogues: médicos, futebolistas, top models, engenheiros, politólogos, jornalistas, qualquer um pode ser comentador e veicular a sua leitura da actualidade. O problema parece-me ser o da falta de limite “higiénico” entre o acto de informar e o acto de comentar. O problema é querer fazer passar por informação o que afinal não passa de um comentário, mesmo que contenha alguma informação relevante. O problema é também decidir que muita irrelevância factual é informação. As fronteiras esbatidas propiciam a falta de clareza e de transparência entre informar - que deve ser feito por jornalistas - e comentar. Quem perde é a a sociedade em geral que não dispõe de uma informação verdadeiramente profissional.

31.12.08


A TODOS
UM BOM ANO DE 2009

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Lisas e Insufladas, mas Subnutridas

Mulheres é um filme mau. E a tornar a experiência ainda mais deprimente estiveram as actrizes. Eva Mendez a mostrar a má actriz que é, Jada Pinket Smith dispensável, Debra Messing indiferente. Annette Bening é uma sombra da actriz que conhecia e Meg Ryan (actriz que nunca me “disse nada”) está de uma banalidade que assusta. Ambas, mas sobretudo Bening que parece ter mudado de traços, diferentes do que eram: muito esculpidas, ainda mais magras, sem uma ruga na testa. Annette Bening até perdeu as rugas que tinha quando era mais nova e que a faziam ser a actriz que era e ambas de feições algo insufladas. Será que é preciso tanto botox, tanto enchimento facial e tanta subnutrição em geral, para se ter trabalho em Hollywood? E porque é que escolhem actrizes mulheres próximas dos cinquenta anos (senão já com os cinquenta feitos) a fazerem papeis de mulheres de trinta e muitos? O filme não é bom, e perante essa evidência pouco há a fazer, mas pelo menos as actrizes poderiam ter aproveitado a oportunidade de fazerem melhor e de elevarem o filme. Afinal só o conseguiram tornar ainda mais deprimente. Ainda bem que George Cukor não pode ver este “remake”. Um mau filme, um mau mundo.

30.12.08

Ontem
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"Com ou sem divergências sobre este diploma específico, a obrigação do Presidente da República é continuar a colaborar com o Governo, pois até se candidatou vencendo as eleições presidenciais em nome dessa cooperação estratégica. O mesmo dever é atribuível ao Governo, em nome da melhor concretização dos interesses nacionais, o que tem feito com a maior correcção e empenhamento", diz Carlos César.

Há quem nunca perceba, nem sequer tenha o mínimo de sensibilidade nem sentido de oportunidade, que às vezes é melhor estar calado. Não dizer nada. Ficar em silêncio. A tentação de falar aproveitando o momento aparentemente propício e em que as circunstâncias são aparentemente favoráveis é demasiada, mas não se dão contam que perdem o tino nas palavras, nas considerações e nas explicações e que, sem querer se tornam tão patéticas.


29.12.08

Tardes de Inverno 16

Pieter Bruegel the Elder (1525/30-1569)
The Return of the Herd


Os únicos “óscares” da blogosfera que realmente contam, mas que ninguém admite e muito menos menciona, foram ontem atribuídos. Assobia-se para o ar.
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A Trilogia do Cairo

Li na Ipsilon as escolhas em estilo “Best of” de 2008 que estão reproduzidas no blogue Da Literatura. Creio que ninguém resiste a estas listas em que se resume tematicamente o passar de um ano. Como quem fecha um capítulo antes de virar a página para o próximo. Há os resumos dos principais acontecimentos políticos nacionais e internacionais, dos momentos culturais importantes, dos avanços tecnológicos e científicos, dos ilustres que morreram, dos filmes e dos livros que saíram, etc. Ficamos sempre surpreendidos com a quantidade de acontecimentos que cabem num ano e estranhamos o passar tão rápido do tempo tudo parece ter acontecido entre ontem e o mês passado.

Voltando à lista das escolhas de livros da Ípsilon. Não li nem metade dos livros referenciados, embora esteja a ler um e já estejam dois na calha de leituras próximas, mas apesar desta confissão fico espantada por ter visto a “Trilogia do Cairo” de Naguib Mahfouz em décima oitava posição ora, para mim, esta obra mereceria um lugar de topo numa lista dos melhores romances do século XX. Pergunto-me quem é que a terá lido mesmo e que critérios usam para classificar as obras. Bem sei que se trata de um romance já “velho”, isto é, dos finais dos anos cinquenta do século passado e que nunca mereceu nenhum tipo de curiosidade ou entusiasmo português apesar do Nobel atribuído ao autor em 1988 e das excelentes críticas internacionais, mas finalmente é traduzido e editado em Portugal e é recebido com indiferença reverencial, (só assim se explica o lugar na lista) mais do que com aplauso e gosto. A Triologia do Cairo, que li faz muito tempo numa tradução em Inglês, não corresponde aos cânones das obras modernas pois é daqueles romances inteligentes e de grande fôlego, uma enorme saga familiar que se estende por várias décadas que nos remete para escritores clássicos tais como Dickens, Tolstoi ou Flaubert e não para autores contemporâneos nem tão pouco para romances abstractos e “sem história”. É uma obra riquíssima, com histórias – aliás várias histórias dentro da história – e muita História, que retrata uma família, uma cidade, um país em constante mudança política, e os seus costumes, religião, modos de vida e desejos das personagens ao longo desses anos. Tem uma grande panóplia de personagens riquíssimas e psicologicamente densas, que agem numa teia às vezes mais visível do que outras e um pathos muito próprio. É uma obra muito gratificante e que dá um prazer imenso ler, desafiando e desaquietando o leitor, sobretudo o leitor ocidental, mas de uma grande sensibilidade e momentos de verdadeiro lirismo.

Confesso a minha perplexidade perante estas listas que se subjugam a critérios de “moda” e “conveniência” incompreensíveis para leigos que gostam de ler e de bons romances.

26.12.08

Plataforma contra a Obesidade 48

Paulus Theodorus van Brussel (1754 - 1795)
Fruit and Flowers



A DREN classifica de “brincadeira de mau gosto” o incidente em que alunos ameaçam a professora com uma arma de plástico e filmam o sucedido. Para além dos desajustes da leitura da realidade entre a DREN e o Conselho Executivo da escola, bem como o espanto da Direcção Regional pelo facto de o incidente ter chegado primeiro ao conhecimento da comunicação social do que da Direcção Regional, este é mais um incidente que demonstra o desnorte em termos de responsabilidade e de valores com a DREN a personalizá-lo impecavelmente. Tudo normal num mundo em que se glorifica quem atira sapatos ao Presidente Norte Americano numa conferência de imprensa no Iraque, ou em que se concorda com quem atira ovos e tomates a uma ministra. Não se pára um segundo para exercer algum tipo de actividade crítica sobre as intenções, sobre os meios e o mérito dos actos praticados. Discordar e saber escolher os suportes que exteriorizem essa discórdia, protestar sabendo argumentar o protesto, ou brincar e saber respeitar a integridade e dignidade do outro dá muito mais trabalho do que atirar sapatos, ovos e ameaçar com armas de plástico filmando. Para além disso um atirar de sapatos ou de ovos bem como ameaças com armas de plástico a professores dão uns óptimos vídeos que poderão eternizar esse grandiloquente momento no youtube. E, claro, dar oportunidades únicas à comunicação social que repetirá à exaustão os vídeos que farão a delícia de quem vê e correrão em horas o mundo nas páginas da internet...

23.12.08


UM FELIZ NATAL


21.12.08

Oh When the Saints...

Louis Armstrong and Danny Kaye AQUI.
Imperdível
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Nevoeiro

Há três dias

Léxico Socrático 3

Depois de um “once in a life time crisis” pronunciado no seminário promovido pelo Diário Económico sobre o tema “Como Crescer em Crise”, em que o primeiro-ministro pastoreou cinco receitas para crescer que deve ter deixado impressionados os participantes desse dia que nunca se riram e que acataram, quais alunos bem comportados, os ensinamentos do mestre (fazendo fé no que vi na televisão, a tentação é demasiada de classificar a plateia de bloco central mostrando, mais uma vez, como é pequenino o nosso país), temos agora os anunciados “apoios financeiros a funcionários públicos em dificuldade”. Tudo propaganda que deixa adivinhar um ano eleitoralista que deitará por terra qualquer esforço de contenção orçamental, num país sem rumo que há muito esqueceu as reformas prometidas, com um governo a seduzir o eleitorado. Nunca mais critiquem quem oferecia frigoríficos e torradeiras, pois os cordões à bolsa abrem-se perante o olhar atónito dos contribuintes que não se deixam iludir com falsas promessas de ajudas e que pagarão, mais uma vez, esta factura de desnorteamento que a “Crise” está a permitir. A mais pura propaganda e demagogia.

19.12.08

Tardes de Inverno 15

Jean-Honoré FRAGONARD (1732 – 1806)
Curiosity

Encontros e Desencontros

Aqui há umas semanas fui surpreendida, quando ouvia rádio no carro, pela voz mágica da Simone. Há tanto tempo não a ouvia que até, infelizmente, já nem me lembrava que existia, num daqueles desencontros de que é feita a vida. Reconheci logo a sua voz , mas fiquei espantada por a ouvir num dueto com o Luis Represas, um odiozinho de estimação meu que só tem igual ao que nutro por Mafalda Veiga. Problema meu, eu sei, e sem razão aparente por isso no seu esplendor irracional, mas não consigo ouvir as canções deles, não suporto a voz melodiosamente bonita e correcta, no caso Luis Represas, nem as letras “mundo metafórico dos afectos correctos” à maneira de Mafalda Veiga. Fiquei num impasse radiofónico, entre o mudar de estação ou continuar, entre a vontade e sedução da voz de Simone e a irritação causada por Represas. Simone venceu, e tenho conseguido ouvir o seu dueto “Desencontro” algumas vezes que tem um refrão a duas vozes muito bem conseguido (apesar de Represas ser tão Represas como era esperado que fosse). Este refrão fez-me imediatamente pensar numa outra música de um outro tempo cantada pelos grandes Chico Buarque e Maria Bethânia, “Sinal Fechado”, toda ela cantada num fôlego, intensamente dramática na sua grande simplicidade e realismo. Sempre considerei esta música um daqueles casos raríssimos em que, aparentemente sem se querer e sem se saber como, se constrói uma pequena obra-prima. Voltar a lembrá-la, e perceber que ainda a sabia de cor, foi um dos prazeres que o dueto Simone/Represas me trouxe.

17.12.08

Entardecer 3

Hoje



“Passos Coelho alerta…”, lê-se aqui. Não é aquilo para que ele alerta que surpreende, é o facto de alertar. Passos Coelho já deixou de “parece-me que...”, “creio que”, “na minha opinião...” para uma posição de grande autoridade partidártia (e nacional porque lhe dão cobertura) “alertando”. Pois ele pode alertar quem quiser sobre o que quiser que eu, pelo menos para já, não lhe reconheço autoridade, nem curriculum, nem obra suficientes para me sentir alertada por muito que se dê ares de “reserva política e moral” do PSD e que já se sinta capaz de “alertar”. Já agora gostava de saber se não há, também no PSD, mais candidatos a “alertar” e porque é que só é dado espaço mediático a este "alerta".

Amanhecer 9

Hoje

16.12.08

Mário Soares e a Roleta Russa

Confesso que tenho pouca paciência para com Mário Soares. Creio que todos nós portugueses já lhe pagamos com complacência, indulgência e tolerância suficientes tudo o que lhe devemos pelo seu papel na consolidação da democracia em Portugal. Já há muito que o saldo não está a seu favor, mas a nosso, tal como o resultado da sua candidatura presidencial o demonstrou. Já ninguém lhe deve nada porque as contas já há muito que estão saldadas. Só ele parece não perceber isto. Lê-lo (aqui no DN de hoje) é muitas vezes penoso, mas quando escreve sobre economia é um verdadeiro atentado contra a integridade intelectual de qualquer um. Para além de utilizar uma linguagem de café que dispensávamos, mistura tudo: conceitos, ideias, demagogia, slogans, frases feitas esquerdizantes, e expressões tipo : “na roleta russa das economias de casino” num pot-pourri de lugares comuns.

Para Mário Soares, uma economia de mercado é uma economia de casino e as desvalorizações bolsistas são roletas russas. O que choca nesta frase, para além da ignorância, é insinuação de negócio ilícito, escuro, lucros chorudos para uma máfia ilícita e a exploração de pobres inocentes. Nada mais errado. Nos países ocidentais, pelo menos, o negócio de Casinos, apesar de lucrativo (senão ninguém o quereria fazer) é extremamente regulado, taxado e cheio de contrapartidas e é por isso uma mau exemplo de economia de mercado que se quer mais fluída e menos regulada. Além de tudo o mais só vai ao casino quem quer: nenhum estado obriga os cidadãos a jogarem e a exporem-se. Não conheço, do ponto de vista estatístico, os padrões de incidências da roleta russa, acredito por isso que sejam algo diferentes dos padrões (estatísticos, também) de subida/descida dos índices bolsistas, mas uma coisa é certa, tanto há imprevisibilidade na roleta russa como num investimento bolsista ou dito de outra forma, tão previsível é uma bala que acabará por ser disparada, como um índice bolsista que acabará um dia por descer.

A visão de Mário Soares é a de um esquerdista que desconfia do mercado e que acha que as crises financeiras são complots dos ricos (os multimilionários que engordam) contra os pobres que acabam sempre por pagar a crise. Diferente é a visão de quem acredita no funcionamento do mercado, e que é a de que os mercados se ajustam e corrigem eles próprios os seus excessos. MS também não quer que “os Estados desviam(em) milhões, que vêm directamente dos bolsos dos contribuintes, para evitar as falências de bancos mal geridos ou que se meteram em escandalosas negociatas”, os que acreditam no funcionamento do mercado também não porque sabem que numa economia de mercado as instituições ou empresas que não são viáveis e eficientes acabam por desaparecer, processo importante para regenerar e limpar a própria economia. Se estamos de acordo na crítica ao desvio de fundos para os bancos, não o estamos pelas razões porque ele não deve ser feito, nem na forma como nos relacionamos com a crise e o mercado.

Estamos também de acordo, na importância pelo cumprimento da Lei numa democracia: se há quem viole a Lei por ter permitido transacções e investimentos ilícitos, por ter mentido aos accionistas ou enganado-os deliberadamente bem como aos clientes, deverá ser punido porque em democracia quem viola a Lei deve responder por isso. Simples.


Manuel Alegre diz-se num “processo”: “Isto é um processo, não quer dizer que, no futuro, não possa desembocar num partido, mas não é um partido o que está a ser feito. Nem um partido se faz assim. Estes processos são assim, são feitos de ambiguidades e de tensões, não posso dizer se vou fundar partido ou não. Isto é um processo, um caminho.” (Público Ed. Impressa de hoje) Não percebo nada do que é que Manuel Alegre quer, e calculo que como eu, a comunicação social tenha ficado perplexa com as suas intenções. Aguardemos, pois que o processo se processe, para vermos no que dá.

No CDS a contestação a Paulo Portas (com os seus 95% de votos no congresso) adensa-se com militantes a abandonar o partido pois questionam a falta de rumo deste bem como a sua liderança.

Quem nos últimos meses concentrou toda a atenção nos sempre tumultuoso PSD, pensaria que nos restantes partidos se respira um ar puro sem conspiração, parece afinal que o PSD não é detentor exclusivo da conspiração fratricida. Estes turbilhões à esquerda e à direita tão pessoais quanto políticos (se não mais ainda) dão oportunidade, por um ou dois dias, a Manuela Ferreira Leite de poder respirar à vontade: as luzes não estão voltadas para ela, e ninguém tomará a sua respiração por “gaffe”.

15.12.08

Hoje
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Léxico Socrático 2

“Plano anti-crise”, expressão que ouviremos amiúde, vai servir de desculpa para esbanjar milhões a um ritmo bastante acelerado. Aliás os primeiros sinais do dinheiro deitado aos pardais já está aí, com Teixeira dos Santos, numa atitude algo patética, a dizer que é preciso pressionar os bancos para que o dinheiro das linhas de crédito chegue à economia real, isto é às empresas. Nada que não se tivesse previsto, convinha só esclarecer o que é que é isso de “pressionar os bancos” e como é que o ministro o propõe fazer. Quem é que vai pressionar? Ele aparentemente não consegue. O Banco de Portugal que até agora mostrou o péssimo supervisor que é? O Primeiro-ministro? As ONGs? O depositante? A polícia? O fisco? E como é que isso se faz? Com cartas intimidatórias? Manifestações de rua? Aplicação de sanções? Como? Eu não faço ideia e aposto que os bancos, neste caso, serão muito pouco pressionáveis. O dinheiro já está do lado deles. Talvez se descubra mais cedo do que prevíamos as virtudes do capitalismo e o quão inconveniente pode ser o braço longo do Estado.

14.12.08

Sherrie Levine (1947)
Large Check: 3

Dos Interditos

Leio, vejo e ouço na comunicação social que o Papa Bento XVI divulgou um documento com mais interdições. Claro que a mensagem subentendida era a de “mais interdições do Vaticano”, mais interditos, interditos sempre mais e mais. Leio os artigos (este, por exemplo) procuro alguma informação (aqui) e agora finalmente preto no branco o que se suspeitava mas ainda não se sabia ao certo: o pensamento oficial do Vaticano sobre a procriação medicamente assistida. Infelizmente, também eu digo: mais interditos em cima dos já conhecidos interditos, mais do mesmo e nada de novo. Voltamos à estaca zero. Ao que já era conhecido em matéria de contracepção e moral sexual agora reafirmam-se esses bem como se afirmam os novos interditos sobre a bioética e a procriação medicamente assistida.

Mantém-se assim a célebre dissonância entre o Vaticano e os crentes que, uns com indiferença e naturalidade, mas outros com coragem individual e contrariedade - coisas imperceptíveis e invisíveis neste mundo feito de dados adquiridos - tomam a pílula, usam o dispositivo intra-uterino, fazem bébés proveta, têm relações sexuais fora do casamento. Tudo um pouco longe desse mundo cor-de-rosa pensado pelo Vaticano onde supostamente se fazem os filhos como “fruto do acto conjugal específico do amor entre os esposos”, os filhos fazem-se como sempre se fizeram: fazendo-se. Aliás esta frase é o paradigma do deste desfasamento que teima em perpetuar-se no corpo da Igreja. É impossível evitar uma primeira e básica reacção: Meu Deus perdoai-lhes que presumivelmente “eles” (se houvesse mais “elas” talvez não se dissessem tantas imbecilidades, mas isso é outra conversa) não sabem do que falam.

Na sua ida aos Estados Unidos, onde vimos para escândalo de tantos Rudolph Giuliani, um reincidente divorciado recasado, comungar, o Papa criticou aquilo que ele considerou como uma moderna forma de catolicismo: o “pick and choose catholicism”, em que as pessoas ajustam a doutrina à medida das suas conveniências e das suas vidas e expectativas ignorando algumas directivas. O Papa Bento XVI tem alguma razão na sua crítica, mas não é com documentos destes e com a habitual posição do Vaticano sobre as questões da sexualidade e da bioética que se minimiza a distância entre os crentes e a sua Igreja. Não falo nem em facilitismos, nem relativismos, muito menos em porreirismos, lembro só que há mais correntes teológicas dentro do catolicismo do que aquela que representa o Papa, que a Igreja é diversa e livremente pensante e esta matéria, mesmo entre teólogos, quanto mais entre os leigos que enchem as igrejas ao domingo e os que não as enchendo dão no mundo o seu testemunho do Cristo vivo, está longe de ser consensual.

Mais do que julgamentos e interditos eu acredito na liberdade que a Ressurreição de Cristo nos dá e na Misericórdia Divina que, porque Deus se fez Homem e porque é isso que todos os anos nesta época o Natal se celebra, essa encarnação em que o Verbo se faz Homem, conhece a nossa condição humana, conhece a curiosidade que nos leva a querer saber mais e conhecer melhor o mundo na forma dos avanços científicos e tecnológicos, conhece a dúvida que nos faz vacilar, conhece a dor e a alegria. Acredito na Igreja (comunidade de crentes, e não só instituição), que melhor ou pior é presença no mundo e que se constrói tantas vezes apesar de interditos e mais interditos.

12.12.08

Entardecer 2

Hoje

Esta é uma boa notícia para a salubridade do espaço político do espaço dos media e das conversas privadas. Tanta negociação que não leva a lado nenhum, com ambas as partes a acreditarem terem a razão do seu lado (venha o diabo esclarecer-nos que coisa é essa da “razão”) tanta negociação já enjoava. Já enjoava vê-los antes e ouvi-los depois. Ver a ministra mostrar intenções dialogantes e os sindicatos intenções empertigadas num processo de argumentos se petrificados. A imagem que se gasta e que gasta a causa seja de que lado for, o que está realmente em causa para um lado e para o outro que se perde no embrenhado condicional que são as negociações. Creio que a “opinião pública” já se cansou, já se fartou. Este intervalo é bem vindo. Pelo menos para isso que sirva o estafado “espírito natalício”.


11.12.08

Amanhecer 8

Hoje

Esta é a altura do ano a que eu chamo época alta do nascer do sol. De Novembro a Janeiro (mais ou menos) é quando vejo o nascer do sol de formas espectaculares e esplendorosas. Esta é a altura do ano em que vários factores se conjugam: a luz é boa, é uma luz de inverno tantas vezes transparente e limpa. A hora em que o sol nasce é uma hora conveniente para mim, e o local em que nasce, não podia ser melhor. Por trás da ponte 25 de Abril, ou por trás do Cristo-Rei de Almada, o sol nasce do “outro” lado do rio de uma forma bem fácil de fotografar. Da mesma maneira que há uma época alta para as velas, outra para a luz no rio à tarde, ou outra época para o pôr-do-sol, o inverno é por excelência a época do nascer do sol.

10.12.08

Sherrie Levine (1947)
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O Parque Temático

Ontem escrevi aqui sobre o facto de Victor Constâncio já ter sido ultrapassado pela realidade. Não é só ele que padece desse mal. Parece ser um mal geral que mina não só os governadores como os governantes bem como muitos presidentes de conselho de administração ou Accionistas principais. A realidade costuma ser diferente daquilo que são as expectativas sobretudo para quem só e sempre espera mais benefícios, mais lucros, mais votos. A vida raramente é só “mais”. Muitas vezes é “menos” e essa é a verdade crua e nua que tanto custa ver, sobretudo para quem vive em constante ilusão de que pode criar a realidade. Ver o governo a fazer um orçamento é ver o governo a esperar “mais” e não a perceber que este ano é “menos”. Manuela Ferreira Leite ontem foi explícita em relação à incapacidade do governo de ver e de ler os factos gerando por isso um orçamento de pouco rigor e irrealista.

José Sócrates crê criar a realidade em Portugal e trabalha na ilusão de que a cria, mas a sua é uma realidade feita como quem faz um parque temático. Entra-se num mundo de fantasia - que neste caso pouco diverte. Meia dúzia de cenários e recriações pensados para seduzir o cliente, palavras e discurso chamativos que entusiasmam e criam ilusões, máquinas cheias de efeitos especiais, outras de fazer vertigem, e no meio de toda a euforia criativa que se gera esquece-se o mundo lá fora. Sócrates governa esse parque temático chamado Portugal: tem TGV, tem Magalhães, tem Simplex, tem Aeroporto, tem Plataforma contra a Obesidade, tem novas Oportunidades, tem polícias e ASAE a trabalhar por objectivos, tem nacionalizações de bancos, tem museus Africa cont. e muito muito mais num mix completo de entretenimento com posters de Allgarve e de West Coast of Europe onde as prioridades políticas e a visão para o país são pouco percebidas e parecem reduzidas a um conjunto de funções e a vontade sequer de conceber uma política se esvai no espectáculo permanente. O problema acontece de cada vez que se sai desse parque temático e se experimenta o mundo real, na forma de manifestações, greves, críticas, a rara comunicação social indomável, o mal estar social, o consumo que desce, os números económicos cada vez mais pessimistas, a economia mundial a desacelerar, os mercados que teimam em não mostrar confiança (chatice!), as previsões económicas, o desemprego, o congresso do PCP. Este é o mundo os políticos teimam em não (re)conhecer pois é muito mais incómodo do que o mundo fantasia do parque temático onde tudo é melhor porque as taxas de juro descem. Como se o mundo fosse assim tão simples.

Sherrie Levine (1947)
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9.12.08


A proposta de Guilherme Silva veio retirar qualquer credibilidade ás suas críticas quanto ao comportamento dos deputados e veio mostrar a esquizofrenia desvairada e sem nexo em que se vive hoje em Portugal. Se não há plenários nem à segunda nem à sexta para evitar faltas de deputados, porque não propor também que os médicos não operem às segundas e sextas dias reservados só para consultas ou trabalho administrativo, os professores não ensinem matéria nem às segundas nem às sextas, não vão os alunos faltar, que façam revisões e reuniões. Acho que é um bom princípio: para evitar faltas dá-se tolerância de ponto. Não sei em que mundo vive Guilherme Silva, não é no mesmo que o meu.


Victor Constâncio literalmente já não sabe de que terra é. É de Portugal, homem! Aquele país que tem tido ao longo dos anos o menor crescimento europeu, que se tem afastado cada vez mais da Europa, que por muito que digam não está protegido de nenhuma recessão. Victor Constâncio já foi ultrapassado pela realidade há muito, só que agora está à vista de todos, menos dele.
Adenda: Acabei de testemunhar através da televisão o quão consternado se mostrou o governador do Banco de Portugal por ser, contra a vontade dele, o governador de banco central mais bem pago do mundo. Patético. Poupem-nos por favor.



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