“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

11.3.09

Velas 14

Hoje cedo.

Da Flexibilidade 2

No post anterior escrevi sobre o caso de Thomas More, bem ilustrado na série The Tudors, que lembrei ao ler o artigo do Público deste domingo de António Barreto sobre “O Direito à Honestidade” - pode ser lido aqui - e depois de nas últimas semanas ouvir amiúde falar de carácter, ou falta dele, do político A ou B. Tanta preocupação e tanta atenção dedicada ao carácter leva-me a perguntar se para além da retórica e da ligeireza da indignação circunstancial, o carácter de um político é ou não importante no processo de decisão de voto. Votamos num político pelo seu carácter ou nos projectos políticos que ele apresenta? Podemos dissociar um de outro? Eu pergunto-me também o que é um projecto político sem honestidade nem carácter de quem o quer implementar. Sempre me agarrei a uma noção mais tradicional de fazer política que, de acordo com o étimo da palavra, não é mais do que a arte de governar a cidade, o que faz dos políticos prestadores de serviço aos cidadãos, estando ao servido da “polis”. Eu confesso ter dificuldade em conceber um cargo que presta um serviço aos outros (os cidadãos) nas mãos de homem/mulher cujo carácter eventualmente apresente dúvidas. Mais dificuldade tenho ainda quando essas falhas de carácter são óbvias e ostensivas, pois parece-me que o carácter é um fundamental gerador, ou não, de confiança por parte dos eleitores. Parece-me difícil votar em consciência sem ter em consideração essa dimensão de confiança, e considero que não há melhor forma de inspirar credibilidade e confiança na bondade e justeza da acção política do que o carácter do político.

Ninguém hoje se lembra ou perde tempo a reclamar o direito à honestidade, o direito à verdade, à integridade, à boa índole, porque a questão não é de actos, que nem sempre serão os melhores, mas de índole. Na vida pública e na política hoje o consenso e as prioridades parecem estar, como diz António Barreto, do lado do “vencer, enriquecer, mandar, ganhar votos e triunfar (...) melhorar as sondagens. Passar nos exames. Alcançar um estatuto de importância e reconhecimento. Apostar no futuro e na tecnologia. Acreditar em si e nos seus. Ter êxito”. Ainda segundo AB “estes são os valores que presidem à nossa vida. De tal modo que os meios para atingir os objectivos são de menor ou nenhuma importância”. O que quer dizer que a flexibilidade moral é máxima e sem limites que a consciência imponha.

A questão que me preocupa já não é só a questão de o político A ou B ter falhas de carácter ou não e de conhecer ou não limites à flexibilidade moral e ética. O que me preocupa é o facto de isso já nem sequer ser importante e decisivo na hora do voto. O carácter, a honestidade, a integridade, a clareza de uma escala de valores morais e éticos já não são nem importantes nem relevantes na hora do voto. Ao contrário de Thomas More, já não há limites para a flexibilidade moral e ética. Tudo é permitido.
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9.3.09

Plataforma Contra a Obesidade 51

Henri Matisse
Gourds

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Da Flexibilidade

Vi recentemente a primeira e a segunda temporada de “The Tudors”, que se centra no reinado de Henrique VIII, não especialmente no facto de ter tido sete mulheres, mas nos restantes aspectos do seu conturbadíssimo e marcante reinado. A série é feita ao estilo de “Roma”, ambientes e adereços muito cuidados, mas alguma crueza (boldness). Tem também um acelerado ritmo narrativo, muita intriga política, muita intriga em geral, religião, sexo e violência quanto baste. Gostei particularmente da forma como caracterizaram algumas personagens: a Rainha Catarina de Aragão e algumas personagens ligadas à Igreja Católica: o Cardeal Wolsey, o Bispo Fisher e Thomas More (estes dois últimos mártires canonizados). Nenhuma destas personagens é banal ou estereotipada, e têm uma vida dura feita de opções difíceis pois são movidas por convicções morais e por uma força de carácter hoje quase incompreensíveis e ainda menos valorizadas, que as afasta para sempre dos confortos de uma vida. Em nome de convicções inabaláveis e de uma fé absoluta escolhem o caminho difícil para elas e para os seres que lhes são queridos.

Falo em fé absoluta, pois a fé dos homens (seja em que for) é também feita de medo, de hesitações, de compromissos, de dúvida. O caso de Thomas More é interessante pois ele, como advogado que era e como amigo leal do rei que era, tentou de várias formas ser flexível para evitar dissabores com o rei. Ele não queria ser mártir, não queria morrer, não queria deixar a família desamparada e usou essa flexibilidade nomeadamente na decisão de nunca falar mal do seu rei, nem de nunca condenar o seu casamento com Ana Bolena. Demitiu-se do cargo de Chanceler quando não concordou com as decisões políticas e retirou-se da vida pública para evitar demasiada exposição. Ao contrário do Bispo John Fisher que foi sempre mais frontal, More foi flexível e usou todas as armas que tinha (nomeadamente a retórica) para adiar e evitar o conflito aberto com o seu rei. Mas, claro, o momento de assinar o Act of Supremacy que proclamava o rei como chefe da Igreja em Inglaterra chegou, e perante esta opção a capacidade de flexibilidade de Thomas More esgotou-se pois tinha um claro limite que era o da sua consciência, das suas convicções e da sua fé. Este caso é interessante por causa deste momento em que ele já não pode ir mais além, deste limite que ele se recusa a ultrapassar, pois fazendo-o deixa de ser ele, põe em causa a sua integridade violando-se a si próprio, violando a sua consciência e renegando as suas convicções. Esse limite moral ele conheceu-o bem, e nada nem ninguém o fez demover da sua decisão.
(Continua)
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5.3.09

Tardes de Inverno 19

G. H. Boughton (1833-1905)
Memories

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DAS PETIÇÕES EM GERAL E DE UMA PETIÇÃO EM PARTICULAR

Se há coisa que a internet facilitou foi a recolha de assinaturas para uma petição. Regularmente na caixa de e-mail ou nos blogues andam petições a propósito de tudo e do nada. Já assinei umas quantas. Uma que tinha velinhas acesas e que é contra a pedofilia, outra contra a mudança mensal ( e seus gastos) do parlamento europeu para Estrasburgo, outra recente de alguns deputados europeus a favor de medidas integradas que permitam um combate mais eficaz contra a corrupção, e poucas mais (não, não assinei aquela que é contra o acordo ortográfico, tenho demasiadas dúvidas em relação a tudo). Tenho pena que nunca se saiba, com a mesma facilidade com que se assinam, do paradeiro e consequências de tais petições. Isto, bem como o facto de se tornarem cada vez mais banais do que as bananas nas bananeiras só faz desencadear o meu cepticismo em relação a elas, que vem gradualmente a aumentar. Tenho a convicção de que se decidir juntar meia dúzia de amigos crio uma petição e a consequente “vaga de fundo” (outra expressão que cai na banalidade) a exigir legislação que combata os maus tratos e desconfianças em relação aos gatos pretos, ou outra qualquer causa igualmente tão despropositada ou irrisória. Apostro que reunia mais de duas centenas de assinaturas em dois dias!

Tantas assinaturas quantas a da “suposta” (outra palavra da moda que se tornou hoje em dia indispensável) “vaga de fundo” que quer Marcelo Rebelo de Sousa para encabeçar a lista do PSD a deputados ao parlamento europeu. E era aqui que queria chegar. Em primeiro lugar quero esclarecer que nada tenho contra o facto de MRS concorrer e ir para o parlamento europeu. Cada um, MRS incluído, deve na medida do possível, fazer o que quer e o que gosta na vida. A questão é que nunca em momento algum eu ouvi explicita ou implicitamente MRS falar do seu empenho e mostrar a sua disponibilidade para se candidatar ao parlamento europeu, coisa que me parece ser uma premissa fundamental para que se crie uma “vaga de fundo” em torno do seu nome. Em segundo lugar, e reconhecendo o direito de cada um fazer as petições que bem (ou mal) se lembre e queira, parece-me que uma candidatura deste género teria que ser feita de dentro para fora do partido e não de fora para dentro, isto é, cabe à liderança do partido, em função dos seus objectivos políticos, inquirir da vontade e disponibilidade dos possíveis candidatos. Não cabe aos militantes, simpatizantes, gente em geral (eu incluo-me nesta última categoria da “gente em geral”), ou mesmo opositores e gente de outros partidos tentar impor à liderança uma candidatura que ela (liderança) não equacionou ou não considera coerente com o seu projecto político. Ora eu enquanto “gente em geral” algo simpatizante com esta liderança do PSD não sei, nem tenho que saber quais as vontades, opções e decisões políticas da liderança em relação às listas de deputados que concorrem ao Parlamento Europeu.

Estes são os motivos de ordem geral mais óbvios e incontornáveis que me levam a desconfiar desde logo da bondade de tal petição e a perguntar outras razões políticas menos óbvias que estejam na origem da sua elaboração, para além de uma razão que de tão previsível, também a mim me parece óbvia, de criar ruído e confusão, mais uma vez, à actual liderança do PSD. Com a guerra que lhe fazem, todos os dias, a todas as horas nos jornais, na televisão, nos blogues, fora do partido, dentro (muito dentro) do partido, a querer que ela fale, a dizer que quando fala é gaffe, a exigir espectáculo, a querer palavras ocas e vãs, a pedir visibilidade, (tudo coisas que o vento leva), Manuela Ferreira Leite, indiferente ao vento e aos assobios caminha com determinação pelo seu trilho irregular e pouco estável e mostra ser uma Mulher com “M” grande. Só faz aumentar a minha consideração por ela.

Este texto surgiu ao ler este e este.
Partilho o essencial (repito O essencial, não me detenho no acessório) deste texto e este e este e este.
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3.3.09

Em Flor 17

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Cafriela

Esperámos um pouco cá em baixo no grande salão da entrada cuja dignidade se adivinhava – quantas sessões de cumprimentos não teriam já lá acontecido - entre cadeiras, cadeirões e sofás, uns bons e antigos outros que mais pareciam ter vindo de um barato armazém de mobília, misturados e empilhados sem nexo aparente junto às paredes. Estava muito quente lá fora e a sombra e o fresco do rés-do chão eram bem-vindos. Quando nos pediram para subir fomos directamente para a grande varanda que dava para a praça e de onde partilhámos de novo o calor e o pulsar enigmático da cidade das mangueiras. Os empregados põem toalhas de quadrados de todos os dias nas mesas de plástico tipo AKI, juntam algumas cadeiras que mais parecia estarem lá por acaso e começam a servir os aperitivos: bebidas geladas, croquetes e rissóis acabados de fritar. Entre uma coisa e outra observa-se a noite e cumprimentam-se os convidados que continuam a chegar. Algumas senhoras com vestidos berrantes e típicos, turbantes na cabeça e muito ouro. O aniversariante, alto, imponente e de túnica branca, foi o último a chegar animando o ambiente.

Os salões de pé-direito alto e de tectos trabalhados perderam a grandeza de outros tempos, algumas janelas já sem cortinados têm as sanefas caídas e os cortinados de veludo ainda pendurados, hirtos, tristes e sem sinal de movimento parecem estar esquecidos na mesma posição há décadas. Há algum estuque estragado, pintura esfolada, portas empenadas. A boa disposição e alegria da festa destoa com o ar decadente e desleixado do salão principal. Passámos à mesa numa sala de jantar perto dos salões: uma grande mesa de toalha branca cheia de travessas de comida com ar caseiro e saboroso, e o vai-vem entre a sala e a copa dava o tom da informalidade que imperava. Os aparadores grandes e altos, de boas madeiras e antigos tinham restos do que adivinhei serem bonitos serviços de copos de cristal e restos de boa porcelana misturados com picadoras 1,2,3, latas de comida de bébés, guardanapos de papel e tuperwares. O ambiente era descontraído e simpático com o anfitrião e aniversariante de boa disposição a querer que todos estivessem bem. No fim de uma longa refeição cantaram-se os parabéns, brindou-se com champagne e trocaram-se discursos sempre com as portas da varanda abertas a deixar a noite, o seu calor, os seus sons, e o seu cheiro e mistérios entrar. O serão não tardou muito a terminar. Dessa refeição lembro um frango “cafriela” servido com um cuscuz manteiga de um grão pouco fino: absolutamente delicioso. Nunca mais comi nem um frango nem um cuscuz como aquele apesar de simpaticamente me terem dito o nome do prato e explicado como se preparava.
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1.3.09

Plataforma Contra a Obesidade 50

Paul Gauguin
Nature morte aux oranges
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Tirando a Dra. Manuel Ferreira Leite e uns milhares de ingénuos de província, o PSD não quer ganhar a eleição de Outubro. Meia dúzia de notáveis, a começar por Passos Coelho, querem suceder a Manuela. Dezenas de caciques querem as câmaras. Marcelo quer (presumivelmente) a presidência. E muita gente (mais do que se julga) quer a desforra. E, para chegar a esses nobres fins, quem se importa de abrir a porta ao PS de Sócrates? Quanto ao país, ele que se arranje como puder. E se puder.
Vasco Pulido Valente, no Público de hoje

Se ainda houvesse alguém iludido, Vasco Pulido Valente neste artigo acabaria com as ilusões. Este último parágrafo que aqui reproduzo não podia ser mais claro: ninguém, incluindo ele próprio, pelo que deduzo do restante artigo, está interessado em que MFL ganhe as legislativas, pelas razões que ele apresenta e que já todos conhecíamos. Tem toda a razão. Eu só não diria que a excepção são uns milhares de PSDs ingénuos de província. Há toda uma panóplia de portugueses, (talvez não tantos como gostaria) que não sendo militantes do PSD (nem sendo gente ingénua nem de província), se revê nessa área e preferiria mil vezes a Dra. Manuela Ferreira Leite com todas as suas limitações, (pseudo) gaffes, e intervenções a despropósito e fora de tom (citando VPV) mas feita de matéria nobre e genuína, a José Sócrates, figura feita de matéria plástica e de passado duvidoso que facilmente encalha em qualquer tipo de escrutínio que lhe seja feito, e cujo mandato como primeiro-ministro se tem revelado desastroso, sem nada de verdadeiramente estruturante feito nestes últimos quatro anos pelo país, e sempre mostrando um desprezo pelos portugueses, pela liberdade e pela democracia. No seu mandato, Portugal distancia-se cada vez mais dos restantes países europeus, coisa que nem a crise financeira e económica internacional conseguirá disfarçar. A alegada falta de jeito de Ferreira Leite, será bem-vinda se com ela vierem medidas menos populistas e demagógicas, maior seriedade, contenção, honestidade e transparência na forma de fazer política.
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27.2.09

Entardecer 6

Há uns dias
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O Sentido. A Dor

Disse que estava levemente medicada para que a sua vida não perdesse a normalidade feita de rotina, aparência e, ao fim do dia, uma noite de sono. Muito importante dormir tão bem quanto possível. Disse, com um olhar vazio, só assim conseguir olhar e estar com os outros, falar-lhes e mostrar-se presente nas conversas, quando tudo o que quer é alhear-se. Um dia de cada vez dizem-lhe. Mas a dor que não passa – há dores que nunca deveríamos sentir, cada dia parece pior do que o dia anterior, e a saudade maior. Revejo tudo e procuro o sentido. Todos os dias os porquês, os para quês. Todos os dias o que deveria perceber que ainda não percebi, encontrar o sentido para que ele aquiete a dor. (Ou não).
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Amanhecer 14

Ontem
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25.2.09


Será que ainda há algum blogue que não tenha colocado nas suas páginas a “Origem do Mundo” de Gustave Courbet?
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24.2.09

The Private Patient


And at last he knew the truth about those two deaths. Perhaps Philip Kershaw had been right: there was an arrogance in wanting always to know the truth, particularly the truth about human motives, the mysterious working of another’s mind. (…) The case would be close and his responsibilities over. There was nothing further he could do, or wanted to do.

Like every investigation, this one would leave him with memories, people who would, without any particular wish on his part, establish themselves as silent presences in his mind and thoughts for years but who could be brought to life by a place, a stranger’s face, a voice. He had no wish regularly to relive the past but these brief visitations left him curious to know why particular people where lodge in his memory and what their lives had become. They were seldom the most important of the investigations and he thought he knew which people from the past week would remain in memory.


P. D. James, The Private Patient

Creio que posso afirmar que os romances de P. D. James são praticamente os únicos policiais que hoje em dia leio e aguardo sempre com impaciência que saia mais um. É difícil ser indiferente ao misterioso poeta e inspector Adam Dalgliesh e à sua equipa de colaboradores. P.D. James desenha magnificamente todas as personagens dos seus romances, todas elas são ricas e cheias de vida, e nem as suas perversões ou impulsos mais negros nos são poupados, o que dificulta a tarefa de perceber quem é o criminoso do crime investigado. No entanto James põe especial empenho e cuidado, diria mesmo carinho, nas personagens que ao longo das investigações - romances - nos acompanham sempre, a equipa de investigadores. Sem nos darmos conta nós, fieis leitores, ficamos subtilmente envolvidos nas suas aspirações, dúvidas, memórias e medos, tecendo-se uma estranha teia, porque nunca óbvia, de romance em romance, de implícita cumplicidade. Tudo feito com uma elegância e objectividade ímpar. Os seus romances, na medida do possível, devem ser lidos por ordem cronológica para que este elo frágil e subtil, mas presente ao fim dos tempos não se perca.

P. D. James, para mim, superou-se em Devices and Desires (que belo título), e pensei que dificilmente manteria o mesmo nível. Enganei-me redondamente. Para encanto de todos continua a escrever autênticos romances que, por acaso, são policiais. A sua escrita rica, mas precisa e elegante, os seus retratos psicológicos, o seu instinto para a intriga e a sua capacidade para criar momentos de suspense e terror são únicos, e mantêm-nos interessados e atentos da primeira à última linha. The Private Patient é disso o mais recente exemplo. Agora já estou à espera do próximo romance.
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22.2.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 35

Alexandre Charpentier (1856-1909)
Tailleurs de pierre

Trabalhar a pedra.
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Na capa da Pública de hoje aparece uma fotografia de Pedro Passos anunciando a grande entrevista dentro da revista (entrevista desprovida de interesse) e um título sugestivo “Pedro Passos Coelho, O Candidato”. Ora eu pergunto-me: em ano eleitoral com as várias eleições que se avizinham, ele é exactamente candidato a quê? Deputado ao Parlamento Europeu? A Presidente de uma Câmara? A Primeiro-ministro?

Sobre a entrevista em si, há pouco a dizer, pois o que ele disse, apesar das páginas de texto, nada trouxe de novo, nem do ponto de vista político, nem sequer pessoal, antes pelo contrário. Reforçou a sua convicção (vontade) na fragilidade da liderança de Manuela Ferreira Leite, atribuindo o ónus dessa fragilidade a um "jogo de percepções", seja lá o que for que isto quer dizer (aparecer muito nos media, talvez?), em que ele acha que "(...) a sociedade em geral percepciona(r) como mais relevante a actividade daquele que não ganhou (a liderança do PSD), isso significa que o que ganhou não está a fazer o que deve". Parece-me uma manifestação de intenção e de alguma má-fé. Nada de novo, portanto.

Estranhei as suas leituras da juventude. Quem lê Voltaire antes de Camilo ou Eça? Fenomenologia do Ser de Sartre, não conheço, mas eu também não tenho pretensão a conhecer toda a obra de Sartre e sobretudo, não li obras filosóficas densas, nem na juventude, nem agora. Graças a Deus!
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20.2.09

Amanhecer 13

Ontem
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Foto daqui, claro

Um dos temas/posts mais provocatórios de toda a blogosfera é certamente o “A Passagem do Tempo por um Banco no Jardim de St. Amaro”, pela perplexidade que causa, pela irritação, pela incompreensão. Eu própria andava intrigada com aquela “treta” de banco postada vezes demais e que achava uma perda de espaço. Mas como com tudo na vida vamo-nos habituando e a pouco e pouco as coisas vão-se entranhando, e a provocação começa a esboçar-se e a tornar-se nítida.

O banco começa por ser enigmático e a intenção também. Porquê postar com tanta frequência um banco num jardim de Lisboa? A fotografia é demasiado normal e despretensiosa para que possa ser considerada uma obra de arte ou um golpe de génio. Para quê, então? Num segundo momento é a continuidade, a persistência: não é só uma fotografia, é outra e no dia a seguir outra, e mais outra e outra ainda, e sabemos que amanhã veremos outra. Primavera, Verão, Outono e Inverno. Há dois anos, no ano passado, este ano e no próximo. As pessoas fotografadas vêm e vão e o banco fica. As folhas das árvores caem voltam a nascer e o banco permanece. Está lá. Sempre. É símbolo da permanência versus o efémero, da constância versus o impulso, da solidez versus a fragilidade, da indiferença versus a “luta”. Ora este símbolo é contrário ao espírito dos tempos que correm, onde a mudança e a novidade são valorizados, onde as modas se sucedem e as inovações são aguardadas com curiosidade e reverência. Mas a novidade cedo se esgota, depressa passa. O banco no Jardim de St. Amaro, não. O banco, indiferente a quem lá se senta, à idade ou à roupa que veste, indiferente aos governos que nos governam, ao caso Freeport, pactos de regime, casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou até à existência de Pedro Passos Coelho, absolutamente indiferente ao facto de ser ou não objecto de fotografia e irritação de quem a vê (fotografia) regularmente “postada”, indiferente à polémica do momento, aos links feitos ou não, às audiências, ou até à sorte de quem o fotografa e de quem “posta” a fotografia, é a grande provocação com que o Abrupto brinda a blogosfera quase diariamente.


19.2.09


Enquanto isso, discutimos amplamente o sexo dos anjos, perdão o casamento de pessoas do mesmo sexo, seguindo à risca o script do Grande Líder e seus conselheiros que, diga-se em abono da verdade, não brincam em serviço.
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