“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

17.2.09


Victor Constâncio parece estar condenado a não conseguir sair do patamar da irrelevância e a acordar sempre mais tarde do que os outros, chegando sem graça nem jeito ao final do acontecimento. Perde sempre a parte mais importante. Alguém a oferecer-lhe um despertador?
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Tardes de Inverno 18

Hendrick der Brugghen(1588-1629)
The Concert
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Felizes Para Sempre ou Um Post Confuso

Ontem o país parece ter acordado para o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Falo do país relutante, no qual eu me incluo, em parar para pensar nesse tema que José Sócrates tão convenientemente lançou agora para a arena do circo com a missão bem clara de entreter quem tem mais em que pensar. Mais e pior. Esta questão deixa-me sem jeito. Muitas vezes tenho opiniões claras, mas não é o caso. Acho tudo confuso e confesso que não tenho uma visão apaixonada pelo assunto, muito menos uma opinião fundada e que sinta coerente. Nem me apetece ter. Se querem casar, que casem. Mas logo a seguir pergunto-me: mas porque carga de água hão-de querer casar? Só para dizer que se casam, fazerem uma boda e tudo como manda o figurino copiando os modelos que rejeitam? Para se divorciarem? Para dizermos que Portugal é um país evoluído (é assim que se mede o grau de desenvolvimento de um país?) Sempre pensei que com a regulamentação e reconhecimento das uniões de facto entre casais do mesmo sexo, os direitos exigidos (e legitimamente, do meu ponto de vista) já são reconhecidos. Para quê casar se o casamento é uma realidade feita do e para o mundo “heterossexual”? Mas, voltando ao inicio: se querem casar, casem. Só não percebo porque o querem fazer. Só para terem esse direito? De serem iguais aos heterossexuais que rejeitam? Não consigo sair daqui e confesso que também não me tenho esforçado, nem sequer tentado evoluir.

Ontem, com debate televisivo assim ao longe, porque distraída e sem grande motivação, ouvi algo que ainda me pôs mais perplexa e é uma questão de terminologia, que parece ter um simbolismo ou um sentido que me escapou (repito que não estive muito atenta) até agora. Parece existir por parte das partes interessadas (na defesa do casamento) uma recusa, ou um evitar da expressão “casamento homossexual”. Mas não é disso mesmo que se trata, ou querem criar frases eufemísticas e politicamente correctas para o que é um casamento homossexual? Ou então, será que querem deixar a porta aberta aos casamentos entre duas pessoas do mesmo sexo, mas que sejam heterossexuais? Eu gosto de conhecer a razão e o porquê das coisas e este tema é debatido de forma demasiado fundamentalista e urgente, para sentir seriedade na intenção e na razão. O país afunda-se em medidas eleitoralistas e essas sim deveriam manter-nos alerta. Quanto aos casamentos, tudo o que desejo é que sejam felizes para sempre.
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14.2.09

Sherrie Levine
Large Check:12
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O Leitor

É inegável que estamos cheios de opções para ver bons filmes no cinema. Desta vez “O Leitor”- talvez o filme que vi nos últimos tempos de que mais gostei - será pretexto para um comentário e algumas reflexões. Estamos em território de adultos, não por causa da exposição anatómica ou das razoáveis cenas de sexo, mas porque entramos num mundo complexo, desarmante e cerebral.

É um filme cuja estrutura narrativa, em variados e nem sempre aparentemente sequenciais flash-back, tem planos que se sobrepõem e percebemos uma falta, ou melhor, "a" falta; a falta de matéria de união, não me refiro a uma união sequencial ou cronológica, mas sim a algo como uma argamassa que une os tijolos, um fio motivador, a identidade do filme, o que quer que seja que faz mover as personagens e faz acontecer a história, que se desenrola de uma forma fria e quase que automática. Essa matéria nem sempre é evidente e a riqueza do filme é que nós enquanto espectadores vamo-nos questionando e tentando perceber do que é que ele (filme) trata. Será o amor? O erotismo? Será o interesse? O destino? Será a verdade? Será o cumprimento do dever? A frieza de nunca o questionar? Será a vergonha (do analfabetismo)? A honestidade? Será a culpa ou a falta dela? Será o sentido do sofrimento? A justiça? Há de tudo um pouco, e no fim, para além da desarmante honestidade de Hanna, que é sempre um desafio às outras personagens e a nós espectadores, e de um sempre desconcertado (e porquê, tentamos nós perceber até ao fim do filme) Michael Berg, vemos e lemos o que queremos ou o que somos levados a ver e a ler.

A realização é metódica e os actores são tão bons quanto esperávamos. Kate Winslet mais uma vez prova a grande actriz que é despojada de si e entregue totalmente a uma Hanna misteriosa, desarmante, mas digna. O jovem David Cross (Michael Berg na juventude) e Ralph Fienes são competentíssimos parceiros de Winslett.

Da culpa.
O jovem Michael estudou direito e um professor seu explica-lhe que não é a moral que rege o mundo, mas sim a lei, mas Michael parece não ter nunca absorvido esta noção. As aulas de Direito coincidem com o julgamento de Hanna e com o turbilhão de sentimentos conflituosos de Michael. Ele quer perceber culpa (a dita Moral que não rege o mundo) em Hanna, ele espera percebê-la mas nunca a consegue ver, o que lhe trará consequências de peso: ele faz sua a culpa que gostaria de ter visto nela e vai ser ele que a vai expiar numa vida ao longo de grande parte da sua vida. Essa inexistência de culpa en Hanna é talvez o elo que os liga ao longo dos anos de uma forma que só eles entendem, pois o segredo dela só ele o conhece. Para Hanna a culpa é o segredo, de tal forma que o guarda e está preparada para uma maior e “injusta” condenação por parte do tribunal; a culpa não está nos factos por que foi julgada.

Do sentido do sofrimento.
Michael quer que o sofrimento tenha sentido e gostava de ver um propósito, tirar uma lição desse sofrimento, talvez para poder entender os seus actos, o seu sofrimento. Mas as voltas estão trocadas. Por duas vezes ele se depara com o vazio, o nada do sofrimento. Depois de tudo o que se passou Michael pergunta a Hanna, pouco antes dela sair da prisão o que é que ela aprendeu com a prisão. Vê-se que ele está à espera de uma resposta existencial, de crescimento individual, mas a desarmante honestidade de Hanna e a cerebralidade da sua resposta não deixam margens para dúvidas: a aprendizagem (aceitação da culpa, sentido do sofrimento) que ele procura não está lá. Do sofrimento não aprendeu nada. Do mesmo modo na conversa final entre Michael Berg e Llana Mather, ela lhe diz para não procurar a sua catarse nos campos (de concentração): não há lá nada. Não se aprende nada, não se ganha nada. Aquele sofrimento é nada. Michael está entregue a si próprio.
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13.2.09

Amanhecer 12

Ontem
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Cinco Mil Euros

José Sócrates considera-se rico com 5 mil euros, e eu acho que ele é um homem de sorte e fico feliz por ele. Como cada um tem o direito de fazer ao dinheiro o que bem lhe apetece, não me cabe perguntar-lhe como é que faz para ser assim tão rico. É que eu pensei nas muitas famílias portuguesas com esse rendimento mensal que, apesar de terem uma vida própria da classe média, estão longe de se considerarem ricas. Repito que falamos de classe média (ou média alta, se preferirem), que vive num apartamento na cidade, que tem dois filhos, dois carros , usa o sistema de saúde privado e escolas privadas, tem empregada doméstica, mas que leva uma vida “normal” de classe média. Deixo aqui um exemplo (há outras situações de casas que não se pagam porque os pais ofereceram, de pensões alimentares a pagar, de colégios para dois ou três, ou não, haveria outros exemplos mas escolhi este) de despesas possíveis para ver como se vive com 5 mil euros e quão rico se é:

Prestação da Casa (t3 em Lisboa/Porto,...) 800
Prestação carros (2) 400
Colégio (1 filho, o outro fica ainda com a avó) 500
Despesas da casa (luz, gás, água) 300
Telefones, telemóveis, TVs; internets 300
Alimentação 400
Almoços e restaurantes 350
Gasolina 150
Empregada Doméstica (tempo parcial ) 400
Seguros (saúde, vida, carros...) 200
Despesas saúde (médicos, farmácias) 100
Roupas e calçado crianças 100

Para este exemplo de despesas o total já são 4000 euros mensais. Sobram 1000 euros. Se me explicarem como é que mil euros dão para o fato Armani, os sapatos Prada, as férias seja lá onde forem, aquele sofá que tanto precisamos, a Bimby, o cabeleireiro, o ginásio, a roupa interior, os saldos da Zara, a carteira Vuitton, as calças de ganga, as férias de ski, já para não falar nos livros, DVD, nos concertos, no cinema, uns pneus do carro, na playstation, nos presentes para aniversários, etc, etc... ficaria muito satisfeita.
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12.2.09

Doubt

Por vezes parecia que estava a ver um filme de acção: suspirava de alívio de cada vez que terminava um diálogo, tal a tensão dramática e a atenção que eles requeriam. Todos os detalhes contam: o cenário, os gestos, os tempos de fazer o que se faz, ou de dizer o que se diz, a expressão da cara que os inúmeros primeiros planos ajudam a decifrar. Outro filme feito para ver os actores brilharem e eles brilham. Todos eles o que é também um claro sinal de mérito do realizador.

Tudo se passa em pouco tempo e em pouco espaço. Grandes dúvidas, grandes certezas, algumas hesitações. “Kindness” contra “virtue”. Complacência contra determinação. Tolerância contra intolerância. O que é a verdade, onde está a verdade. Todos estes tópicos fluem inteligentemente, evitando slogans, verdades pré-fabricadas ou politicamente correctas, polémicas fracturantes e sentimentalismos fáceis, num ambiente depurado quer do ponto de vista formal quer psicológico. Cada diálogo é uma luta entre verdades num pano de fundo de catolicismo. Para nosso desafio e deleite neste filme não há um minuto perdido, e vê-se avidamente sem sentir o tempo passar.
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10.2.09

Capitalismo 4

Christopher Richard Wynne Nevinson (1889-1946)
Making the Engine

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A Voz Moralizadora

Como eu receio vozes moralizadores, sobretudo vindas do Estado e dos políticos. Agora, numa declaração que é mais uma desavergonhada medida propagandística e eleitoralista, Teixeira dos Santos fala da limitação dos salários dos quadros superiores dos bancos que recorram às garantias do Estado, e fala da legitimidade do Estado em ter uma voz – que eu diria moralizadora – nesse domínio. Malhar nos ricos, legitimando que salte cá para fora esse sentimento mesquinho mas poderoso que é a inveja, e que jaz latente em todos os pobres de espírito que aspirando a ser ricos nunca conseguiram ou puderam, foi sempre fácil e os nossos governantes perceberam-no bem: não faltam palavras de ordem e slogans sonantes e que colem facilmente ao ouvido (oh, delícia das delícias) bem como frases finas, elegantemente construídas e de aparente subtileza ideológica para deleite dos intelectuais. Malhar nos ricos moralizando a sociedade e a política: oh prazer dos prazeres, sublime desígnio político, que o diga o Presidente Chavez inspirador e amigo dos nossos governantes: puxando à inveja, chafurdemos todos pois no caldo medíocre do igualitarismo, enalteçamos os sentimentos básicos das justiças populares e das vozes moralazadoras. Depois da ressaca da festança, pagaremos todos caro por tais desvarios. Todos?
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Plataforma Contra a Obesidade 49

Pierre Bonnard (1867-1947)
Breakfast
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9.2.09

Em relação à “Taxa Robin dos Bosques” (da qual discordo como princípio e na aplicação, mas isso daria um outro post), que prevê diminuição das deduções para efeitos fiscais dos ricos para aumentar as deduções dos pobres, Manuela Ferreira Leite foi certeira (Jornal da Noite da SIC): falta a José Sócrates definir o que é um rico. Se se considera “rico” um agregado familiar com rendimentos acima dos 40 mil euros anuais, então está tudo explicado e é escandalosa a desculpa “Robin dos Bosques” – mais um slogan eleitoral mentiroso - para aquilo que é nada mais nada menos que uma nova subida de impostos para a classe média. Nós somos muito pobres; não só mas também de espírito quando se considera “rico” um agregado com rendimentos acima dos 40 mil euros!
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8.2.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 34

Albert Bartholomé (1948-1928)
Petite fille pleurant


Chorar
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Actos Estúpidos

Michael Phelps pediu desculpa por aquilo que considerou ter sido um “acto estúpido” (Público, edição impressa de ontem). É mais um a entrar no universo dos que pedem desculpa em público de “actos estúpidos” tantas vezes privados e que nunca sequer deveriam ser do conhecimento público. Mas o mundo é como é e as figuras públicas estão constantemente debaixo do olho dos media que não perdem o scoop que um “acto estúpido” promete sempre. Gostei desta definição de “acto estúpido” que Phelps deu, pois pareceu-me muito mais rigorosa do que outras mais sofisticadas tantas vezes dadas a actos semelhantes. Phelps é um ser humano e os seres humanos fazem coisas estúpidas em privado e em público. O problema de Phelps foi ter sido fotografado e ter visto a sua foto a fumar cannabis correr o mundo com a rapidez e eficácia que todos hoje conhecemos. Aí Phelps pessoa e Phelps “marca” entram em conflito e alguns patrocinadores recuam nos patrocínios, pois a imagem dada pela “marca” não é coerente com a imagem da marca dos produtos que vendem. Como a marca Phelps tem um valor (em termos de dólares) que não pode ser negligenciado, a pessoa Phelps sente-se na obrigação de fazer um pedido de desculpas público, e fá-lo, coisa que me parece desnecessária e até ridícula. Como se o acto de fumar cannabis numa festa com amigos fosse um gesto premeditado e deliberado para ofender alguém, e não um possível (e discutível) “acto estúpido” que Phelps tão sensatamente qualificou.

Estes pedidos de desculpa, que agora tão na moda estão, parecem ser úteis a ajudar a limpar as consciências colectivas habitadas pelas várias culpas que a nossa sociedade se propõe expiar. Nos EUA um pedido de desculpas público por “actos estúpidos” cometidos, ou até por outros menos estúpidos e mais sérios mas do foro privado, tem mérito e a capacidade de regeneração e aceitação pública de quem o faz parece ser inegável. Estes gestos sempre me intrigaram, tão alheios parecem ser à minha genética, sempre me causaram algum repúdio e tantas vezes me parecem mais abertamente atentados ao pudor e à honra do que os “actos estúpidos” de facto cometidos. Uma sociedade que exige pedidos de desculpa públicos por “actos estúpidos” é uma sociedade malsã e hipócrita que desbarata e maltrata os conceitos de ofensa, de arrependimento e de perdão.
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6.2.09

O Comissário Europeu para o Ambiente acha supérflua a discussão em Portugal sobre o caso Freeport, pois a Comissão Europeia analisou a questão baseada numa queixa apresentada pela Quercus em 2002 e concluiu que a construção do centro comercial não tinha impactos significativos sobre as aves protegidas pela ZPE, independentemente das modificações do seu perímetro. Estas declarações, para além de parecerem demasiado concertadas com o nosso governo e o braço longa da sua propaganda é absolutamente inoportuna. Primeiro porque a questão do caso Freeport não é uma questão técnica, como não é uma questão de justiça: é uma questão política (a lembrar: uma investigação do SFO do Reino Unido que põe em causa a pessoa do nosso primeiro ministro, a aprovação por um governo de gestão do licenciamento do projecto a uns dias das eleições, a celeridade com que as autorizações foram dadas comparando com casos semelhantes, a presença da família do então Ministro do Ambiente neste processo, as contradições entre o que os vários intervenientes dizem, o porquê do não andamento da investigação deste caso em Portugal desde 2005) à qual o nosso primeiro ministro continua a não dar respostas concretas e satisfatórias. Segundo porque cabe aos eleitores portugueses, e não aos burocratas em Bruxelas, decidir da pertinência e do supérfluo das discussões em Portugal. A democracia é assim, coisa que parece ser frequentemente esquecida em Bruxelas.
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4.2.09

Revolutionary Road



Revolutionary Road não é um filme que cause grande entusiasmo generalizado, nem é “diferente” ou deslumbrante, mas é sólido e de uma qualidade irrepreensível. Eu gostei muito de o ver. Parece ter sido feito para enaltecer o trabalho dos actores e conseguiu isso mesmo: fá-los brilhar da primeira à última cena e creio que ninguém duvidada disso. Kate Winslet, Leonardo di Caprio e um fabuloso Michael Shannon dão o seu melhor para deleite de quem os vê. O filme explora o sentimento de frustração de um casal de um subúrbio norte-americano nas suas múltiplas facetas e ao fazê-lo deixa vir à tona o que move cada um dos elementos do casal, o que os liga e o que os afasta. Implacavelmente comprometida com a “sua” verdade, April Wheeler não desiste de lutar e exigir o seu sonho daquilo que pensa ser uma vida com sentido, num percurso em que a questão de ser ou não verdadeiro, onde está a verdade e o que é a verdade se coloca inúmeras vezes a cada um e ao casal, bem como os limites dessa mesma verdade. John Givings, o outsider visionário e em tratamento numa clínica psiquiátrica, funciona quase como uma espécie de coro da tragédia clássica: vê o que ninguém ousa ver, diz o que ninguém ousa dizer. Nada é adquirido neste filme: não há bons nem maus, justos nem injustos, boa fé nem má fé, mas há sobretudo uma transpiração dramática inequívoca, ou não fosse Sam Mendes um homem vindo da produção teatral.
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3.2.09

Entardecer 5

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Um Serão Televisivo

Televisão ligada para assistir à competência desalmada (sem anima) e polida de Pedro Passos Coelho. Nunca aquele homem me faz abrir um pouco mais os olhos, me faz mudar a expressão dos lábios, me faz franzir um sobrolho. Tudo nele é liso, estudado, aprendido, ensaiado e competente. Não há nunca um rasgo de humor, um lapso (então gaffes nem falar), um tom confessional a permitir um desabafo. Tudo dito como manda o manual de como ser líder e primeiro ministro com um mínimo de risco, de investimento pessoal e de esforço. Mas o pior é a dificuldade que PPC tem em lidar com a verdade pois, tal como aquelas flores que de tão bonitas até parecem de plástico, também ele respira plástico, falso e hipocrisia. Senão vejamos: para quê insistir na legitimidade de Manuela Ferreira Leite, valorizar que ele cumpra o seu mandato se no minuto a seguir ele se diz disponível para ser primeiro-ministro e se o seu percurso é o de sistematicamente contradizer e opor qualquer declaração da líder do PSD? Porque é que ele investe tanto em, sempre que MFL toma uma posição, vir para a comunicação social dizer o contrário e o oposto. Se acredita que é importante estabilidade no PSD porque é que a sua intervenção política é tão activa enquanto oposição. PPC parece ser mais um deste políticos que infelizmente tão bem representam o pior dos políticos em Portugal, para quem a verdade é um conceito oco e que demonstram inconstância e desajuste entre as suas palavras e os seus actos, bem como nenhum respeito pelos cidadãos que o ouvem dizer num dia e desdizer no dia a seguir.

Também fiquei espantada com as políticas que preconiza para o país, e o tornam diferente de MFL e a forma como se demarca do governo socialista actual: lançou umas frases banais, desinspiradas e sem nexo para um ouvido mais exigente em que mistura liberalismo com intervenção moderadora do estado que impeça as injustiças de um mercado livre, no quel, se bem entendi, ele não acredita. Se isto é liberalismo, então os porcos devem também voar. Eu não percebi nada, mas deve ter sido problema meu.

A segunda parte do serão televisivo foi passado a discutir a justiça, mais do que discutir o caso real de José Sócrates com o Freeport. Não vi até ao fim, porque me cansou ver tantos representantes do regime a evitarem o tema e a evitarem questionar o Primeiro-ministro nas suas decisões políticas enquanto Ministro do Ambiente e em questionarem as actuais declarações de José Sócrates. Ao que parece, segundo o que já li na blogosfera o Prós e Contras foi, sem surpresa, mais uma manifestação do seguidismo da RTP face ao poder actual. Portanto, nada de novo.

No intervalo dei graças a Deus pelo Dr. House. Um rasgo, aí sim, de inteligência, de humor e de talento que permite a evasão, sair daqui, coisa de alguns instantes, e pensar que lá longe muito longe Portugal é mesmo um pobre e pequeno país.

31.1.09

Sherrie Levine (1947)
Large Check:11
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30.1.09

Dr. Vasco Pulido Valente

Percebo bem quando, hoje no Jornal Público, diz ter uma aversão a "escândalos" sejam de que espécie forem e uma incapacidade nata para os perceber (...) e percebo-o ainda melhor quando afirma ser a história do tio, do primo, do licenciamento, do prazo, do e-mail, da carta, da empresa, do intermediário, do processo e por aí fora (...), para mim, puro mistério. Também eu tenho dificuldade em seguir processos, licenciamentos, e a coisa fica ainda pior quando entra no reino jurídico. Nem sempre entendo o jargão usado e sinto-me perdida entre cartas rogatórias, arguidos, suspeitos, investigações, instruções de processos, julgamentos, trânsitos em julgado etc. Apesar do curso intensivo de juridiquês que todos os portugueses fizeram quando do caso Casa Pia, às vezes as coisas não são imediatamente claras. Mas lamento que desde o princípio me perdi no meio da embrulhada, pois neste seu artigo acaba por reduzir a fragilidade de José Sócrates ao facto de as coisas passarem o limite do que pode ser esquecido e arrumado, esquecendo a dimensão política do caso, e explica também que se JS fosse um primeiro-ministro eficaz e se o resto corresse bem, o "caso Freeport" não iria longe. Este argumento não me parece correcto. Não é só porque há barulho na rua e na comunicação social, num momento em que a governação não corre bem, que um primeiro-ministro deve ver o seu lugar posto em causa. O que está em causa é, como sabemos, a incapacidade de em Portugal se ver fazer justiça, a desconfiança do cidadão comum que sabe que nunca serão encontrados culpados seja de que processo for. O cerne da questão é também, e mais uma vez, um primeiro-ministro que, perante factos novos suspeitos e desconfortáveis para com a sua pessoa, não esclarece devidamente o cidadão comum, não responde de forma objectiva ao que lhe é perguntado. Como sempre, vitimiza-se, fala em forças ocultas, posiciona-se de uma forma arrogante acima da lei ajudado pela conhecida instrumentalização dos meios de comunicação em benefício da sua política espectáculo, mas NUNCA esclarece, e porque nunca esclarece, deixa o cidadão comum no pântano da dúvida que só vem confirmar a ideia latente de que todos os políticos são corruptos e sem credibilidade.
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29.1.09

Campanhas Negras e Calúnias

José Sócrates não disse nada de novo: considera-se vítima de campanhas negras (a terceira, segundo ele), notícias difamatórias e calúnias, e reafirmou a sua força e determinação em vencer essas forças do mal. Fez mal em falar sem ter nada de novo para dizer (pois enquanto nada for provado contra ele presume-se a sua inocência) e sobretudo fez mal em falar sem uma única vez confirmar ou desmentir, nem tão pouco analisar os factos: carta rogatória que existe, prazos apressados indesmentíveis, por exemplo, que se conhecem, limitando-se a sacudir a água do capote dizendo que tudo foi feito na estrita legalidade. Shame on you que tenta fazer de nós parvos.


Benjamin Button


Não há fome que não dê fartura, assim diz o provérbio popular. Depois de um Outono em que as escolhas cinematográficas me pareceram sempre poucas, segue-se um período de abundância em que todas as semanas estreiam filmes que me apetece ver. Haja oportunidade para os ver, e para aqui os anotar, pelo menos alguns.

Devo ser um caso único, mas o filme “O Estranho Caso de Benjamin Button” não me comoveu nem me entusiasmou. A aparente originalidade de nascer velho e morrer novo não me pareceu mais do que a figuração invertida (e muito pouco prática) da realidade cíclica que é sempre a vida, e pareceu pouco mais do que um pretexto para fazer caracterização, efeitos visuais e explorar as capacidades do actor, que se revela competente mas sem deslumbrar. Tem ingredientes para ganhar Óscares, mas pareceu-me um filme incapaz de superar o óbvio e por isso não o catalogo como um dos melhores filmes do ano. O que de mais simpático retenho deste filme são as personagens secundárias: Queenie a mãe no seu simpático lar de idosos, e sobretudo o capitão Mike no seu Chelsea, bem Elisabeth Abbott a aristocrata, uma Tilda Swinton muito convincente que parece actuar como quem respira. Aliás é neste período no mar e durante a guerra, no Chelsea, em que Benjamin começa a descobrir o mundo que o filme atinge o pico de densidade, vida e propósito, pois conta com as personagens mais densas, vividas e peculiares; até Benjamin com o seu olhar deslumbrado e a consequente perda de inocência se revela interessante por uma vez. Cate Blanchett pareceu-me uma sombra da grande actriz que é e a sua personagem é plana e pouco interessante, nomeadamente velha no seu leito da morte quando olha para a vida e a conta à filha numa confissão pouco verosímil. Posso dizer o mesmo em relação a Brad Pitt, que me pareceu muito melhor em Babel, por exemplo. Ser um bom actor não passa só por ter a caracterização e maquilhagem certas, não são só as camadas que se põe por fora que têm que bater certo, a respiração certa, a alma têm que lá estar e o olhar também.


A singular rapidez de José Sócrates, ou melhor as singulares celeridades tão peculiares de todo o percurso do primeiro-ministro, aqui bem retratadas. Só faltou mesmo a VLX lembrar os igualmente céleres exames de final de curso. É o elo comum a todas as "trapalhadas", de José Sócrates, sendo umas mais graves e com mais implicações políticas do que outras.


27.1.09

Tardes de Inverno 17

Henri Fantin-Latour (1836-1904)
La liseuse
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O Tsunami

A crise financeira começada no fim do verão passado provocou um verdadeiro terramoto nas sociedades financeiras, com falências de bancos, nacionalizações de outros, descobertas de esquemas ilegais de investimento e uma resposta por parte dos governos norte americano e europeus de medidas excepcionais, e para alguns discutíveis, de apoio ao sector financeiro. Segue-se ao terramoto o “tsunami” e as ondas de crise estão hoje a céu aberto na chamada economia real. Os anúncios de empresas que fecham, falem e despedem é uma lista diária, e é impossível ser insensível aos números de desempregos que este ano tem gerado e gerará. Não são só números, são pessoas, e o drama de ter uma economia em recessão é o drama de quem não mantém o posto de trabalho. De quem se vê de repente despedido, o vizinho despedido, a família despedida e todos com as contas de uma vida a terem de ser pagas mensalmente, anualmente. E inexoravelmente todos os dias, todas as horas o número de desempregados cresce.


25.1.09

Sherrie Levine (1947)
Large Check:10

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De cada vez que se conhece o envolvimento do primeiro-ministro em mais um “caso”, ele desagua no lago turvo que é o carácter de José Sócrates. Depois dos não esclarecimentos em relação à sua licenciatura, desde as certidões passadas ao Domingo com data pouco credível pois o papel timbrado era actual e posterior à data do documento, até ao curriculum rasurado na Assembleia da República, sem esquecer o ridículo das suas afirmações sobre os projectos de engenharia, agora deparamo-nos com um caso de possível corrupção mais sério, e politicamente mais relevante do que os anteriores, mas onde as contradições abundam. José Sócrates afirma que vai lutar para defender a minha honra e a minha honestidade. O problema é que agora já poucos acreditam que ele tenha uma e outra.

23.1.09

Changeling


A Troca não é uma obra-prima, nem o melhor dos filmes de Clint Eastwood, mas é de uma enorme solidez e muito “reliable” sem cair em facilitismos sentimentais e exageros maneiristas num filme que onde isso seria tão fácil e num filme que é sempre duro. Tão duro quanto só a esperança da mãe, apesar de tudo, o pode ser. É a esperança que é dura e cruel, que não deixa viver nem respirar. É também um filme tão duro quanto o “fazer” de uma verdade oportunista e para consumo exterior e tão longe da única verdade o pode ser. É o fabricar desta verdade tão desrespeitosamente longe da realidade que é duro. Não se dá pelo tempo passar. Envolvemo-nos naquele clacissismo que já todos reconheceram e glosam em Eastwood. Bom casting, boa fotografia, boa música. “A Troca” é um filme de qualidade indiscutível.


22.1.09

Capitalismo 3

Max Berthelin (1811-1877)
Palais de l'industrie, coupe transversale




Depreendo, depois de ler este post de João Villalobos, que Pedro Passos Coelho, ao contrário de Manuela Ferreira Leite, tem uma “estratégia de comunicação coerente” e presumo que para a elaboração dessa estratégia de comunicação coerente PPC tenha contratado os serviços de aconselhamento de agências de comunicação e marketing político, sendo o “coerente” um símbolo de apoio profissional comunicacional, mais do que um símbolo de coerência das suas políticas. Nada contra a contratação de profissionais. Como aliás reconheço o direito e riscos de quem opta por não o fazer. O ter ou não uma agência de comunicação e de marketing político com uma agressiva política de distribuição, nunca deveria ofuscar o conteúdo da mensagem política de cada um, que é o que normalmente acontece. As agências de comunicação deveriam esforçar-se e lutar por algum espaço nos jornais e outros meios de comunicação e não ter autoestradas rasgadas de acesso fácil a eles que garantam presença mediática indiscriminada e sistemática (ver evidência aqui). Deveria caber aos jornais, televisões, rádios, etc e a quem neles decide e trabalha fazer a triagem de acordo com a pertinência, interesse ou novidade do que é divulgado. O que me incomoda hoje é saber que contratar os serviços de agências de comunicação é quase automaticamente ter um livre trânsito nos media, pelo menos nalguns, acabando com o discernimento e julgamento (face à pertinência, interesse ou novidade, repito) de quem divulga. O resultado é tantas vezes uma colecção de banalidades, discursos redondos, repetições, contradições e vazio. Mas isto já nós sabemos, não é?


Adenda: Deixo só mais este breve comentário após a resposta de João Villalobos a este meu post. O que quero reforçar é que se para uma empresa de comunicação é indiferente, coisa que não questiono, um político ter ou não um projecto sólido e credível para o partido, o país, o sindicato ou seja o que for, como aliás João Villalobos refere ao dizer que não cabe ao consultor “vestir camisolas”, para mim não. É importante a solidez coerência e consistência da mensagem. Por isso, cabe ao distribuidor (media) ajuizar da pertinência, interesse ou novidade das mensagens que vende e passa. Ao eleitor, no fim, caber-lhe-á comprar ou não o que lhe querem vender e tentar perceber a verdadeira mensagem para lá dos mais imediatos soundbytes e slogans. No caso de que falamos, como noutros que tenho referido (por exemplo aqui), eu vejo muito pouco.


21.1.09

Do Engano 2

In the present “culture”, few care to distinguish – indeed, few are capable of distinguishing – between sincerity and the performance of sincerity, just as few distinguish between religious faith and religious observance. To the dubious question, Is this true faith? or, Is this true sincerity? one receives only a blank look. Truth? What is that? Sincerity? Of course I’m sincere – didn’t I say so?

J. M. Coetzee, Diary of a Bad Year
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Amanhecer 11

Hoje

20.1.09

Do Engano

Cada dia que passa o engano deliberado e com dolo em que vivemos é maior. Tudo é falso e postiço. Uma crise internacional há muitos meses conhecida e com perspectivas e previsões dramáticas não foram suficientes para que o governo apresentasse um orçamento fundado em expectativas realistas. Vivendo no seu parque temático José Sócrates recusa-se a olhar o futuro tal com ele está a vir. A um orçamento rectificativo feito mal o ano começou, já um segundo se anuncia tendo o Ministro das Finanças insinuado a sua necessidade. A permanente tentativa de, a propósito do que for, enganar os eleitores é um dos traços deste executivo que usa e abusa de todos os meios para o fazer, e nós assistimos incrédulos como quem assite a uma ficção barata, mas cujos custos tememos. Hoje mais uma vez as previsões da EU vêm lembrar que é para o mundo real que se deve governar e não para o mundo virtual. Também o Banco de Portugal acorda tarde. Tanto engano é demais.
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Sherrie Levine (1947)
Large Check:9
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Pedro Passos Coelho, uma produção fictícia e mediática, diz por um lado e desdiz por outro. Diz que não faz oposição activa à líder do PSD e contradiz tudo o que ela diz, cheio de ressalvas e discursos redondos. Agora do alto da sua cátedra discorre sobre o porquê da bondade de uma baixa de IRC e o porquê da perversidade de uma baixa de IRS numa declaração que merece ser lida pelo vazio que encerra.



Hoje um grupo de Pais mostrou que finalmente está a acordar para o que tem sido e promete ser a escola em Portugal vítima do conflito entre o Ministério da Educação e os professores. Alguém devia quantificar os custos do actual conflito e saber definir o prejuízo que já causaram aos alunos espalhados por esse país fora. Não falo daquelas estatísticas, feitas para enganar os números que dão a imagem do nosso país dentro e fora, e que são baseadas nos conhecimentos dos alunos e em que lhes são pedidos no 9º ano de escolaridade as competências e conhecimentos do 6º ano, podendo assim qualquer aluno fraco ter notas espantosas, falo da instabilidade nas escolas, das faltas, das aulas que mal se dão, etc. Estes pais pedem ao PR que use da sua influência para pôr fim à crise na educação. Os sindicatos, depois das cedências da Ministra, num conflito que o governo nunca soube gerir sabiamente, sabem que ainda têm poder negocial e vão tentar aproveitá-lo em ano de eleições e em ano em que os sinais de descontentamento na rua são de temer e evitar, mas as repercussões deste conflito estão por medir. Como é que é afectada a escolaridade dos alunos? O que é que o ensino em Portugal ganhou com esta guerra entre o Ministério da Educação e os professores? Será que alguma vez, e sem enganos, o chegaremos a saber?
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18.1.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 33

Ernest Barrias (1841-1905)
Nature Unveiling Herself to Science

Levantar o Véu.
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Da Má Fé

Ontem, no Jornal da Noite da SIC anunciava-se mais uma gaffe de Manuela Ferreira Leite a propósito do caso do jornalista da Lusa que teria ido fazer “queixinhas” ao PS Espanhol sobre a posição do PSD em relação ao TGV. Já percebi de está na moda falar das gaffes de MFL, e eu fico perplexa com essa moda. Por gaffe entendo lapsus linguae, descuidos, mas sobretudo enganos involuntários, isto é, dizer sem querer, algo que não se queria dizer. Nada mais longe do que acontece com MFL. Ela sabe perfeitamente o que está a dizer e não o diz com leveza nem de cabeça no ar. Ela pode estar errada, pode não “ter jeito” (seja lá o que isso for) para dizer as coisas, pode ter sido mal informada, pode até ser inoportuna, mas que não se chame gaffe ao que ela diz e que quer realmente dizer. MFL não é Santana Lopes. MFL é ousada e até espontânea – e tão diferente de José Sócrates - na maneira algo brusca de dizer o que pensa. Os seus discursos e intervenções não passam pela peneira do marketing comunicacional político, e isso choca uma comunicação social entorpecida e embrutecida pelo socialismo no poder que quando ouve algo mais “brusco” contra o status quo e a manipulação a que ela própria está sujeita, imediatamente tenta desvalorizar e menorizar. Chamar gaffe ao que MFL diz é mais uma das forma em que a sistemática má fé de grande parte dos media em relação à líder do PSD se manifesta. Muita indignação se ouviu, mas afinal ainda ninguém desmentiu o jornalista em causa tenha ido falar ao PS espanhol, pois não?
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17.1.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 41

Gustave Courbet (1819-1877)
The Stormy Sea

14.1.09

Véu Islâmico 11

Este “depende” parece-me fácil demais. O “depende” é raramente circunstancial e tem muito mais a ver com o grau de informação que a mulher, que casa com um muçulmano tem. Duvido, tal como o Cardeal Patriarca afirma (no final do texto), que as mulheres cristãs apaixonadas pelos homens muçulmanos se dêem ao trabalho de ler o Corão e de saberem exactamente no que se estão a meter. A questão não é nova, em Maio de 2004 o então Papa João Paulo II alertou e bem, para surpresa e espanto de muitos, para essa situação prevenindo as mulheres cristãs que querem casar com homens muçulmanos e implorando-as a que pensassem bem antes de se comprometerem.

E se poucas vezes “depende”, tem sobretudo a ver com o facto de que para os muçulmanos maridos não “depende” certamente. De acordo com a lei islâmica a mulher quando casa passa a ser tutelada pelo marido, passa a ser “posse” do marido e família do marido – por isso é que as mulheres muçulmanas, de acordo com o Corão, não podem casar com homens cristãos, para não passarem a pertencer ao mundo cristão. Por isso as regras que o marido reconhece e aplica são as do Islão e não as “civis” ou até as cristãs, e essas regras são sobre obediência, divórcio, bens, tutela dos filhos do casal (que “pertencem” sempre ao pai e nunca à mãe), etc. Duvido sinceramente que as mulheres cristãs (ou não confessionais, mas de tradição cristã) que casam com muçulmanos estejam informadas sobre o que as espera e, pior ainda, acredito que “por amor”, e num primeiro momento, estejam dispostas a abraçar certas tradições muçulmanas suavemente impostas. Quando derem conta do que fizeram já é tarde demais. Esta questão, que está longe de ser meramente teórica e que tem levado a inúmeros casos dramáticos, tem merecido a atenção de muitos governos e instituições por essa Europa fora em países haja grandes comunidades islâmicas.
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12.1.09

Sherrie Levine
Large Check:8

Da acefalia

Depois de uma semana cheia de acontecimentos políticos relevantes (medidas anti-crise anunciadas pelo primeiro-ministro, declarações da chefe da oposição, especulação em torno das datas das eleições) e de factos, que apesar de menos relevantes do ponto de vista nacional são importantes porque ilustram o estado imbecilizante em que o país se encontra (polémica as bandeiras nos Açores, texto de José Sócrates a ser objecto de comentário para candidatos a vagas abertas pelo IEFP de Técnico Administrativo Principal), vi anunciado para hoje um Prós e Contras sobre o sucesso de Cristiano Ronaldo, chamado O Sucesso de Ronaldo. Nada me move contra Cristiano Ronaldo, e desejo-lhe desde já a maior felicidade para a sua vida, mas creio que debater o seu sucesso num programa como o Prós e Contras é uma mostra da acefalia a que o país chegou. O seu sucesso parece gerar consenso e unanimidade. Vivemos tempos perigosos em que a unanimidade é um valor em alta e a alienação é procurada nomeadamente pela RTP atirando futebol aos olhos dos cidadãos. Francamente, como é que um tema destes se debate? Ou este debate é feito para que outros e mais importantes debates sejam evitados?

11.1.09

"Austrália"


Dificilmente resisto a um épico em forma de livro ou em forma de filme, e nesta última forma gosto especialmente de ver grandes produções que não apostem em efeitos especiais, monstros e outros seres bizarros, construções fantásticas e mundos esquisitos. Por isso, mal vi anunciado o Austrália soube logo que iria vê-lo mal estreasse e assim foi. Apesar de gostar deste género, já não nutro grandes ilusões, nem grandes expectativas em relação a este tipo de filmes em cartaz, o que me torna numa espectadora mais livre. O filme não surpreendeu em nada – já nem sei se é uma coisa boa ou má - e foi o que esperava: nem melhor, nem pior. Vê-se com agrado, é competente, bonito, mas longe da obra-prima que eu já não ouso esperar, mas com que ainda sonho. A história, é linear e sem grande complexidade, mas com um ou dois momentos de inconsistência que irritam. As personagens são planas, com pouca densidade existencial e não são dotadas de grandes tensões psicológicas, sociais ou outras, ressalvando o miúdo aborígene, o narrador com que todos simpatizamos e que centra nele quase toda a possível espessura do filme, contradições e complexidades do mundo a que pertence, ou não. As paisagens são, como esperado, deslumbrantes e de fazer sonhar, os actores são competentes, mas sem rasgos de genialidade, a música é boa e a fotografia também. No entanto, e apesar de ter visto o filme com gosto foi impossível esquecer a densidade e tensão dramáticas bem como a complexidade psicológica dessa obra prima que dá pelo nome de “E Tudo o Vento Levou”, ou a exacerbação romântica que é “África Minha”, ou o ritmo e contemplação de “Lawrence da Arábia”. Na comparação, creio que “Austrália” perde sempre. Talvez seja do meu olhar e talvez a passagem do tempo o torne mais macio e mais clemente, e daqui a uns anos, à medida que me for apropriando do filme, pense diferentemente. Tem potencial para isso.
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10.1.09

Combate ao Sedentarismo 57

La Dolce Vita
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Manuela Ferreira Leite ontem no Jornal Nacional da TVI à vontade, tranquila, mas muito clara, frontal, incisiva na crítica às medidas do governo para combater a crise exercendo cada vez mais o seu controle sobre a economia, e segura dos seus argumentos e da validade dos mesmo.s E tem toda a razão em cada crítica que apontou a José Sócrates e no caminho que traçou. Tudo o que disse faz todo o sentido. Espero que a comunicação social, no seu papel de informar, dê o destaque merecido às suas declarações.

Tem razão João Gonçalves na análise que faz do comentário de VPV no Jornal Nacional da TVI de ontem (hoje também se pode ler aqui a mesma ideia). Para além de ser incomparável a nossa AR com a Câmara dos Comuns, convém lembrar que na Assembleia da República está quem o partido designa para as listas e aceita nelas estar (Manuela Ferreira Leite não quis integrar as listas, era presidente do PSD Pedro Santana Lopes) e na Câmara dos Comuns está quem o eleitorado escolhe.
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8.1.09

Sherrie Levine (1947)
Large Check:7
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Depositantes e Investidores

Em tempos de crise financeira, em que se acredita que o diabo anda à solta no mundo dos bancos numa perigosa conspiração contra os mais desfavorecidos, tenho lido muita ignorância e muita demagogia que se resumem numa espécie de “nojo” em relação ao capitalismo. Há uma tendência para querer que tudo fique muito mal para então sim, finalmente e com prazer, se dizer com propriedade que se e enterrou o capitalismo. Mas o capitalismo é resiliente e resistente e sobretudo ainda não se inventou nada melhor. Uma das coisas que me tem deixado perplexa, nestas ladainhas demagógicas é a facilidade com que se faz uma diferenciação entre depositantes e investidores, como se uns, os primeiros, fossem os “bons”, os coitados apanhados desprevenidos, e os outros, os segundos, os “maus” que deveriam ser castigados por terem mostrado ambição e terem querido investir. Ora, e mais uma vez, o mundo não é feito a preto e branco e esta separação é artificial e enganadora. A menos que alguém se limite a ter o seu dinheiro numa conta à ordem não remunerada, ou com uma remuneração mínima, como alternativa mais segura à de deixar o seu dinheiro debaixo do colchão, qualquer depositante é também um investidor. Qualquer produto financeiro que seja remunerado é um investimento, pois pressupõe a expectativa de um ganho e pretende ser mais vantajoso do que o colchão. No colchão o dinheiro pode ser roubado, arder num incêndio, ou desfazer-se numa cheia. No banco não se corre esse risco, mas corre-se o risco do banco falir. Daí aquela velha máxima de que não se deve por os ovos todos no mesmo cesto. Nada está 100% garantido nunca. Mas isso é senso comum.

Há, no entanto, duas distinções que se podem fazer: a primeira é a distinção entre os diversos produtos de investimento sabendo que há produtos de risco baixo, médio ou elevado, A relação entre o risco e os ganhos é o bê-á-bá do investimento e qualquer pessoa com conta bancária já deve ter ouvido falar dele. Ninguém se queixa quando os ganhos são muitos, mas é sempre difícil aceitar as grandes perdas, mas o “risco” é isso mesmo. A segunda distinção é entre os montantes que se investem: há pequenos investidores e grandes investidores. Posso perceber que haja, do ponto de vista político, um discurso que aponte para uma maior vontade em proteger os pequenos investidores do que os grandes (a realidade é outra, no entanto), mas isso é outra questão, e é uma questão de política, o que não se pode é, diabolizar os investidores, isto é, todas as pessoas que têm expectativas de ganhos financeiros, e todo o conceito de investimento particular. Sem investimento privado, por muito pequeno que seja, não há economia, nem se gera riqueza. Convém nunca esquecer este princípio básico. Investimento não é só o TGV.
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Sherrie Levine (1947)
Large Check:6

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Sobre o ambiente nas salas de aula dos estabelecimentos de ensino, sobre os professores e sobre a autoridade

(...) ao contrário do que se passava no meu tempo de estudante liceal, a noção de hierarquia perdeu-se (mercê das reformas educativas delirantes que foram retirando aos poucos a autoridade aos docentes). Os rebeldes do meu tempo quando desafiavam, desafiavam a autoridade, por isso quem sabia exercê-la podia aspirar a uma docência sem incidentes de maior. Hoje o conceito de autoridade quase não existe na escola. Aquela insolência (...) é diferente da que eu conhecia. Os olhos destes miúdos (...) têm raios laser, como os dos bonecos dos jogos vídeo. E atiram a matar.

Teresa Ribeiro in Delito de Opinião.
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7.1.09

Entardecer 4

Ontem
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Amanhecer 10

Ontem
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Grito de Guerra

Às vezes não escrevo porque não posso. Às vezes não escrevo porque não quero. Às vezes não escrevo porque não me apetece. Às vezes não escrevo porque não sei. Às vezes não escrevo porque já muitos escreveram. Às vezes não escrevo porque já se escreveu demais. Muitas vezes não escrevo porque outros escreveram muito melhor do que eu escreveria. É este o caso,

sobre Gaza: sei que não sou original porque já aqui e aqui o transcreveram ou fizeram referência. Mas mesmo assim repito aquele que é também o meu grito de guerra.

Para não dar azo a muitas especulações vou sintetizar: quero que Israel ganhe a guerra contra o Hamas, o Hezbollah, o Irão e os fundamentalistas árabes. Que os palestinianos tenham uma pátria. Que em Israel e na Palestina os moderados consigam impor uma negociação. (Luis Januário in A Natureza do Mal)

6.1.09

When the Going Gets Tough, the Tough Gets Going


Easy Virtue (Virtude Fácil) não é uma obra prima, nem sequer um marco no cinema do ano. Vai passar despercebido pelo circuito comercial dos cinemas, e muitos dos que o vão ver, acha-lo-ão dispensável. Não é o meu caso. Trata-se de uma comédia romântica que em nada faz lembrar o género a que pertence: não há grandes trapalhadas, nem equívocos, nem qui pro quo que nos levem às gargalhadas, mas a partir dos primeiros momentos respira-se um ambiente especial e uma longa tradição de humor fino, de ironia e de fazer pouco de si próprio, coisa em que os ingleses ainda são exímios e mestres, mesmo com equipe multinacional e um realizador australiano. Boa música, bons adereços, bom guarda-roupa, boas personagens. Eu gostei.

5.1.09

Sherrie Levine (1947).
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2008 (3)

Outra das características de 2008 foi o facto de se acentuarem os acordos e ajustes directos entre o governo e um determinado grupo de actividade de uma forma pouco transparente, mas de facto eficaz. São os recados que vão e vêm entre as direcções de informação dos diferentes e de comunicação social, as perguntas que se combinam (com a comunicação social) fazer aos políticos em determinadas circunstâncias, os horários que se modificam (Marcelo Rebelo de Sousa já só dispõe de 15 minutos para o seu comentário semanal de grande audiência), os alinhamentos que se sugerem, tudo num clima de conspiração e cumplicidades mútuas difíceis de perceber para um cidadão. Quem não alinha, quem não é cúmplice é acusado de levar a cabo uma campanha contra a pessoa do Primeiro-ministro ou do governo, como foi o caso do jornal Público. O Magalhães (dos prometidos 500 000 para serem distribuídos gratuitamente pelos alunos do 1º ciclo que, só para recordar, até agora só foram distribuídos 35 000) foi outro exemplo acabado de cumplicidades tecidas em ajuste directo, já para não falar da propaganda do governo/primeiro-ministro por algumas escolas do país, nem das sessões de vendas na cimeira Ibero-Americana deste ano.

Também foi o ano em que a dificuldade e mesmo a incapacidade de fazer reformas foi visível de forma mais destacada do que nos anos anteriores, em que a palavra reforma, hoje caída em esquecimento, era uma das palavras mais usadas, com orgulho deve dizer-se, pelo primeiro-ministro. Atente-se, por exemplo, ao caso da saúde: depois da mudança do ministro, e como que por milagre, nunca mais se ouviu uma queixa na área da saúde. De repente deixaram de morrer pessoas nas ambulâncias a caminho dos hospitais, as criancinhas parecem estar todas a nascer nos sítios certos, as distâncias das maternidades encurtaram-se e os inúmeros protestos populares ouvidos amiúde nas televisões acabaram. Só a Educação foi excepção, mas com um ano de eleições à porta e perante os primeiros sinais de cedência no final de 2008 é fácil prever que também nesta área a “reforma” se esfumará.

4.1.09

Coisas que se podem fazer ao Domingo 32

Furienmeister.
Furie (1610-20)

Ter um ataque de Fúria
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Sherrie Levine (1947).
Large Check:4


2008 (2)

2008 foi também mais um ano em que, tal como nos anos anteriores, não se chegou a conclusão nenhuma sobre o que quer que seja que precisasse de ser investigado, averiguado. O Caso Maddie ficou sem conclusão satisfatória e envolto numa aura de suspeição de conflitos de interesses, o Director da ASAE fumou violando a polémica lei anti-tabaco cuja implementação os seus serviços têm que fiscalizar, mas rapidamente se contentou e se encantou encontrando nas excepções da lei uma interpretação que julgou favorável.

Mais um ano em que o caso Casa Pia continuou a deixar no cidadão um forte amargo de boca e a sensação de que nada será resolvido. A forma amadora com que se resolvem os problemas sejam eles em que sector de actividade forem, faz com que o cidadão comum não se reveja na forma como são conduzidos os processos nem como é feita a justiça. O caso Casa Pia continua a ser a melhor ilustração da ineficiência e dos jogos de interesses em causa, pois a ninguém passa despercebido o facto de neste caso só existirem vítimas mas não agressores, com excepção de Carlos Silvino o funcionário casapiano - ilustre desconhecido até ao início da investigação - que será o bode expiatório deste processo judiciário que se arrasta e que arrasta a nossa justiça e investigação pela lama, desacreditando-as mais ainda.

No meio financeiro foi também digno de nota a forma como o governo lidou com o caso BPP tendo um dia afirmado que não teria dinheiro do Estado para a instituição financeira em causa, e no dia seguinte, depois de uma espécie de revelação, o governo decidiu que seria dada uma má imagem do país de não se socorresse o BPP, tendo assim disponibilizado de imediato um apoio financeiro ao banco. Os escândalos, ilegalidades, corrupção, trocas de favores, e gestão de interesses comuns falam sempre mais alto do que a verdade e, por ineficiência, negligência, incompetência ou manipulação, são sistematicamente, abafados, contidos e controlados.
(Continua)
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2.1.09

Capitalismo 2

Maxwell Ashby Armfield (1881-1972)
This England: Portrait of an Owner

2008

2008 revelou-se um ano muito igual ao que já eram os anteriores. Neste país, onde não existe uma verdadeira cultura democrática, nem um gosto individual pela democracia e liberdade, nem tão pouco uma rigorosa separação entre os diversos poderes que são os pilares da democracia e que permitem que se evitem excessos de autoritarismo ou mesmo de “ilusões”, continuamos a afundar-nos suavemente (se a crise o permitir, senão será fortemente) em caldinhos, paninhos quentes e palmadas nas costas (como o gesto supremo de virilidade de uma nação). Estes gestos têm por objectivo a salvaguarda dos interesses do “regime” por oposição à salvaguarda dos interesses nacionais e dos cidadãos. Portugal é um país pequeno, e como todas as comunidades pequenas há uma forte tendência para um pouco salutar “in-breathing” onde os interesses de alguns se sobrepõem aos interesses de outros, e de outros com outros, e por aí fora num círculo fechado acabando sempre nos mesmos. Salvaguardar os interesses de todos esses grupos com alguma dimensão passa a ser um desígnio nacional mais do que a salvaguarda da democracia e dos interesses dos cidadãos. Aliás os interesses dos cidadãos (e contribuintes), individualmente falando, raramente coincide com o interesse dos grandes grupos económicos e financeiros que se protegem uns aos outros com a bênção dos políticos, que também eles, de uma forma directa ou indirecta, acabam reféns voluntários desses interesses. Um verdadeiro “caldinho” feito de uma carga fiscal absurda num país como o nosso, que é, infelizmente, nada propício a rupturas, desafios, e ao desenvolvimento da liberdade de expressão não só na sua forma verbal e linguística, mas também na forma de investimento e criatividade económica geradora de postos de trabalho e de riqueza e essencial para o progresso e desenvolvimento do país.
(Continua)
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A questão levantada aqui por Pedro Correia parece-me não ser totalmente correcta. Diria, de uma forma simples e genérica, que problema não está nos comentadores; em bom rigor qualquer um pode ser comentador, ou pagos na comunicação social dita “clássica” ou por gosto nos blogues: médicos, futebolistas, top models, engenheiros, politólogos, jornalistas, qualquer um pode ser comentador e veicular a sua leitura da actualidade. O problema parece-me ser o da falta de limite “higiénico” entre o acto de informar e o acto de comentar. O problema é querer fazer passar por informação o que afinal não passa de um comentário, mesmo que contenha alguma informação relevante. O problema é também decidir que muita irrelevância factual é informação. As fronteiras esbatidas propiciam a falta de clareza e de transparência entre informar - que deve ser feito por jornalistas - e comentar. Quem perde é a a sociedade em geral que não dispõe de uma informação verdadeiramente profissional.

31.12.08


A TODOS
UM BOM ANO DE 2009

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Lisas e Insufladas, mas Subnutridas

Mulheres é um filme mau. E a tornar a experiência ainda mais deprimente estiveram as actrizes. Eva Mendez a mostrar a má actriz que é, Jada Pinket Smith dispensável, Debra Messing indiferente. Annette Bening é uma sombra da actriz que conhecia e Meg Ryan (actriz que nunca me “disse nada”) está de uma banalidade que assusta. Ambas, mas sobretudo Bening que parece ter mudado de traços, diferentes do que eram: muito esculpidas, ainda mais magras, sem uma ruga na testa. Annette Bening até perdeu as rugas que tinha quando era mais nova e que a faziam ser a actriz que era e ambas de feições algo insufladas. Será que é preciso tanto botox, tanto enchimento facial e tanta subnutrição em geral, para se ter trabalho em Hollywood? E porque é que escolhem actrizes mulheres próximas dos cinquenta anos (senão já com os cinquenta feitos) a fazerem papeis de mulheres de trinta e muitos? O filme não é bom, e perante essa evidência pouco há a fazer, mas pelo menos as actrizes poderiam ter aproveitado a oportunidade de fazerem melhor e de elevarem o filme. Afinal só o conseguiram tornar ainda mais deprimente. Ainda bem que George Cukor não pode ver este “remake”. Um mau filme, um mau mundo.

30.12.08

Ontem
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"Com ou sem divergências sobre este diploma específico, a obrigação do Presidente da República é continuar a colaborar com o Governo, pois até se candidatou vencendo as eleições presidenciais em nome dessa cooperação estratégica. O mesmo dever é atribuível ao Governo, em nome da melhor concretização dos interesses nacionais, o que tem feito com a maior correcção e empenhamento", diz Carlos César.

Há quem nunca perceba, nem sequer tenha o mínimo de sensibilidade nem sentido de oportunidade, que às vezes é melhor estar calado. Não dizer nada. Ficar em silêncio. A tentação de falar aproveitando o momento aparentemente propício e em que as circunstâncias são aparentemente favoráveis é demasiada, mas não se dão contam que perdem o tino nas palavras, nas considerações e nas explicações e que, sem querer se tornam tão patéticas.


29.12.08

Tardes de Inverno 16

Pieter Bruegel the Elder (1525/30-1569)
The Return of the Herd


Os únicos “óscares” da blogosfera que realmente contam, mas que ninguém admite e muito menos menciona, foram ontem atribuídos. Assobia-se para o ar.
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A Trilogia do Cairo

Li na Ipsilon as escolhas em estilo “Best of” de 2008 que estão reproduzidas no blogue Da Literatura. Creio que ninguém resiste a estas listas em que se resume tematicamente o passar de um ano. Como quem fecha um capítulo antes de virar a página para o próximo. Há os resumos dos principais acontecimentos políticos nacionais e internacionais, dos momentos culturais importantes, dos avanços tecnológicos e científicos, dos ilustres que morreram, dos filmes e dos livros que saíram, etc. Ficamos sempre surpreendidos com a quantidade de acontecimentos que cabem num ano e estranhamos o passar tão rápido do tempo tudo parece ter acontecido entre ontem e o mês passado.

Voltando à lista das escolhas de livros da Ípsilon. Não li nem metade dos livros referenciados, embora esteja a ler um e já estejam dois na calha de leituras próximas, mas apesar desta confissão fico espantada por ter visto a “Trilogia do Cairo” de Naguib Mahfouz em décima oitava posição ora, para mim, esta obra mereceria um lugar de topo numa lista dos melhores romances do século XX. Pergunto-me quem é que a terá lido mesmo e que critérios usam para classificar as obras. Bem sei que se trata de um romance já “velho”, isto é, dos finais dos anos cinquenta do século passado e que nunca mereceu nenhum tipo de curiosidade ou entusiasmo português apesar do Nobel atribuído ao autor em 1988 e das excelentes críticas internacionais, mas finalmente é traduzido e editado em Portugal e é recebido com indiferença reverencial, (só assim se explica o lugar na lista) mais do que com aplauso e gosto. A Triologia do Cairo, que li faz muito tempo numa tradução em Inglês, não corresponde aos cânones das obras modernas pois é daqueles romances inteligentes e de grande fôlego, uma enorme saga familiar que se estende por várias décadas que nos remete para escritores clássicos tais como Dickens, Tolstoi ou Flaubert e não para autores contemporâneos nem tão pouco para romances abstractos e “sem história”. É uma obra riquíssima, com histórias – aliás várias histórias dentro da história – e muita História, que retrata uma família, uma cidade, um país em constante mudança política, e os seus costumes, religião, modos de vida e desejos das personagens ao longo desses anos. Tem uma grande panóplia de personagens riquíssimas e psicologicamente densas, que agem numa teia às vezes mais visível do que outras e um pathos muito próprio. É uma obra muito gratificante e que dá um prazer imenso ler, desafiando e desaquietando o leitor, sobretudo o leitor ocidental, mas de uma grande sensibilidade e momentos de verdadeiro lirismo.

Confesso a minha perplexidade perante estas listas que se subjugam a critérios de “moda” e “conveniência” incompreensíveis para leigos que gostam de ler e de bons romances.

26.12.08

Plataforma contra a Obesidade 48

Paulus Theodorus van Brussel (1754 - 1795)
Fruit and Flowers



A DREN classifica de “brincadeira de mau gosto” o incidente em que alunos ameaçam a professora com uma arma de plástico e filmam o sucedido. Para além dos desajustes da leitura da realidade entre a DREN e o Conselho Executivo da escola, bem como o espanto da Direcção Regional pelo facto de o incidente ter chegado primeiro ao conhecimento da comunicação social do que da Direcção Regional, este é mais um incidente que demonstra o desnorte em termos de responsabilidade e de valores com a DREN a personalizá-lo impecavelmente. Tudo normal num mundo em que se glorifica quem atira sapatos ao Presidente Norte Americano numa conferência de imprensa no Iraque, ou em que se concorda com quem atira ovos e tomates a uma ministra. Não se pára um segundo para exercer algum tipo de actividade crítica sobre as intenções, sobre os meios e o mérito dos actos praticados. Discordar e saber escolher os suportes que exteriorizem essa discórdia, protestar sabendo argumentar o protesto, ou brincar e saber respeitar a integridade e dignidade do outro dá muito mais trabalho do que atirar sapatos, ovos e ameaçar com armas de plástico filmando. Para além disso um atirar de sapatos ou de ovos bem como ameaças com armas de plástico a professores dão uns óptimos vídeos que poderão eternizar esse grandiloquente momento no youtube. E, claro, dar oportunidades únicas à comunicação social que repetirá à exaustão os vídeos que farão a delícia de quem vê e correrão em horas o mundo nas páginas da internet...

23.12.08


UM FELIZ NATAL


21.12.08

Oh When the Saints...

Louis Armstrong and Danny Kaye AQUI.
Imperdível
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Nevoeiro

Há três dias

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