“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

10.4.09

"Política de Verdade"

Costumo passar pelos momentos das campanhas eleitorais sem nenhum entusiasmo. Não costumo gostar do discurso eleitoralista, abomino as promessas vãs e demagógicas e desconfio das promessas realistas. Tenho alergia à encenação dos entusiasmos e crenças num Portugal e num futuro melhores. Aliás o passado recente tem demonstrado a incapacidade da utilização da palavra “melhor” aplicada ao universo político, onde nada parece melhorar. Cada vez há mais manipulação e tráfico de influência promotores da promiscuidade entre as “forças” políticas no poder e as “forças” da sociedade civil nomeadamente as forças económicas e financeiras tornando mais difícil separar o trigo do joio, a boa da má moeda e, se distraídos, diluir tudo muito bem para que seja mais difícil apurar a responsabilidade de sucesso de uma legislatura, de um mandato municipal, etc. Mas há quem não ande distraído e sinta o universo do poder cada vez mais nas mãos de mercenários e de profissionais que vivem de e para o poder sem o qual simplesmente não têm existência. Nota-se mais empenho, mais ambição, mais agilidade para tocar em vários instrumentos, mas menos inocência, certamente menos vocação e sentido de serviço.

Por mim, não precisava de campanhas eleitorais tal como elas se fazem hoje. Não gosto das ruas e praças (não é só a do Marquês, como o “Zé” num acesso de provincianismo sugere) cheias de outdoors, irritam-me os slogans, o barulho e o ruído políticos e incomoda-me ainda mais que nos tomem por parvos com promessas e discurso tão cheios de nada se olharmos para além da retórica e da demagogia. Nem quero nem pensar naquilo em que José Sócrates se transformará, no que dirá, no que prometerá quando a campanha eleitoral arrancar em pleno. A amostra destes últimos quatro anos tem sido ampla e elucidativa, e não gosto do que vejo nem do que ouço.

Por isso espero sinceramente que a frase que acompanha a fotografia de Manuela Ferreira Leite nos outdoors “Política de Verdade” seja um programa de como fazer campanha eleitoral e nunca esqueça a verdade que enuncia. Não importa que o cartaz seja “pobre” e banal, a fotografia demasiado normal e a frase tão comum que qualquer pessoa a poderia dizer. e diz ao ponto de a esvaziar de sentido. Nada disso interessa. Digo mais: antes assim do que um fundo intelectual ou esteticamente elaborado e antes assim do fotografias de pose complexa acompanhadas de frases todas “porreiro, pá” ou tecnologicamente humoradas do ponto de vista semântico e rimadas do ponto de vista fonético, todas inventadas em laboratório esterilizado, após intenso e caro brainstorming criativo pelo gabinete dos especialistas em comunicação que cuidam de tudo por fora com verniz, luz, animação 3D e sem nunca esquecer a música épica a animar as gentes, e esquecem o que deve estar por dentro: um programa político simples, coerente e realista e, claro, o sentido de missão, o sentido do dever, a honestidade, a honra. Nos dias que correm isto é puro luxo.
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8.4.09

Em Flor 20

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O Eduardo Pitta tem alguma razão, mas não a tem toda.

Em primeiro lugar porque a bondade do Código Contributivo apresentado para discussão não me parece assim tão óbvia. Neste período de crise, em que as empresas estão a falir a um ritmo assustador e o desemprego é uma realidade social, para não falar no drama que representa para as famílias, difícil de escapar, as contribuições da Segurança Social são ainda mais escassas do que as que existiam e que, como sabemos, eram baixas por causa do fraco crescimento demográfico e do envelhecimento da população. A preocupação do governo não é a do trabalhador dependente de 40 anos, é uma preocupação de cash-flow. O governo quer dinheiro já para poder pagar as pensões hoje e manter esse mito das nossas sociedades europeias ocidentais dependentes e viciadas em estado social, que é a Segurança Social. Para isso prepara-se para estrangular ainda mais as empresas portuguesas que não são em nada como a Mota e Engil ou a Portugal Telecom, excepções de uma regra feita de pequenas e médias empresas.

Em segundo lugar porque ninguém garante ao trabalhador dependente de 40 anos que ele quando se reformar possa uma pensão “por completo” para qual ele contribuiu ao longo da sua vida laboral. Ninguém pode garantir que a médio prazo (quanto mais a longo prazo) a segurança social tenha dinheiro suficiente para poder satisfazer as reformas de todos os contribuintes.

Em terceiro lugar porque muitas vezes os subsídios de que fala EP são uma das formas que as empresas têm de contornar o excessivo custo que é ter um empregado. Cada empregado contratado representa um enorme peso contributivo (Segurança Social e IRS retido). É verdade que muitas empresas poderiam dar salários mais interessantes e abandonar “esquemas” de subsídios e outras ajudas de custo tais, mas estamos a falar de grandes empresas com lucros razoáveis, excepção à regra, como já referi. Para muito do tecido empresarial português feito de pequenas e médias empresas cada empregado que se contrata é um peso tão grande que só o recurso a estes subsídios pode permitir que a empresa o consiga contratar. Infelizmente, num país onde a flexibilidade laboral é pouca contratar um empregado é uma decisão sempre difícil e cara. Cara demais.
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5.4.09

Mário Soares diz-se “enjoado” (SIC Jornal da Noite de hoje) com o caso Freeport. Eu também. Ele diz-se “enjoado” com as fugas ao segredo de justiça, com os julgamentos em praça pública. Eu, ao contrário de MS, estou enjoada com tudo o que vem à luz do dia do passado de José Sócrates e que teima em permanecer enevoado e nunca cabalmente esclarecido: licenciatura, projectos de engenharia, o caso Freeport, o tio, o primo, a mãe. Mas o pior é o pressentimento (já para não ser cínica e não falar de certeza) de que tudo permanecerá assim mesmo, num limbo jurídico processual entre fugas de informação, pressões aos magistrados, alvos de muitos Prós & Contras e debates cheios de especialistas deixando higienicamente de lado e os factos (nomeadamente os factos políticos relevantes) que nunca serão objecto de escrutínio, investigação séria e cabal, de apuramento da verdade e de esclarecimento do público. Talvez o “público” tenha exactamente o que merece, não é Dr. Mário Soares?
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Velas 14

Hoje
(Clicar para aumentar)
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3.4.09

"Read my lips"

José Sócrates, e os seus acólitos comunicacionais podem dar as voltas que quiserem à cabeça, esgotarem-se em brainstorming, consultarem dicionários de sinónimos e rimas para ajudar a fabricar os slogans e as frases “que ficam no ouvido”. Podem vasculhar catálogos de gadgets electrónicos acabados de sair e todas as novas tecnologias para “épater le bourgeois” e dar o lustro dos neons à pobreza portuguesa. Pode inaugurar escolas, lares, ou centros de excelência disto e daquilo; apresentar power-points bem como oferecer incentivos a plateias ensaiadas, ordenadas e agradecidas pelo obséquio. Pode, com ajuda da calculadora do Magalhães e a ajuda preciosa do sistema bancário calcular os descontos dos modelos de painéis solares das duas empresas bafejadas pela sorte do favor socrático, bem como calcular os descontos nas prestações das casas inferiores a 100€ para quem esteja desempregado. Pode pagar a “think tanks” para fazerem a “engenharia política” necessária para descobrirem a pólvora que só explode mediante um complexo cálculo de condições, mas sempre maximizando o impacto mediático, persistente com os actos eleitorais em pano de fundo, claro.

O problema é que não há nada a inventar. Dê-se a volta que se der, arranjem-se os incentivos que se arranjarem, os almoços nunca são de graça e a factura das medidas anti-crise desabarão em cima de todos, e talvez muito especialmente em cima daqueles que as medidas visavam defender. As medidas para efeito eleitoral nada ajudam a médio e a longo prazo (eu até duvido que sejam realmente úteis a curto prazo). A crise, a nossa e a que depois veio de “fora”, é uma crise que afecta a sociedade transversalmente, e a sociedade protuguesa não é excepção; é uma crise de todos sobretudo da classe média que, no nosso caso, não é particularmente rica. Por isso nenhum dos incentivos, medidas e apoios poderá ser eficaz no combate à crise. Só uma medida, clara e transparente como a água é que o poderia ser. Só que tem um problema: não é nova nem brilha como o neon, mas já foi usada e testada com sucesso por tantos e é amada sobretudo pelos políticos anglo-saxónicos em campanhas eleitorais, pois costuma ser do agrado de todos. os eleitores e contribuintes. Chama-se alívio da carga fiscal. Claro que esse alívio da carga fiscal exige uma gestão rigorosa dos dinheiros públicos, coisa que os nossos políticos não gostam, não estão habituados nem gostam que isso lhes seja exigido pois limita-lhes a faculdade de, arbitrariamente e de forma opaca, conceder benesses e favores sob forma de subsídios ou incentivos, a determinados grupos que nesse momento se apresentem melhores servidores dos interesses do grupo decisor.

Este é o retrato do combate à crise à maneira de José Sócrates, difícil de se levar a sério e pouco merecedor de aplauso.
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Dias de Verão 9

Wassily Kandinsky (!866-1944)
The Waterfall
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28.3.09


Pior do que isto, e pior do que o CCB não ter começado o espectáculo à hora anunciada (tanta subserviência!) só isto, que é a imputação de responsabilidade - culpa - a outro, uma de tantas formas de se fazer de vítima e de “fazer queixinhas”. É este o homem que temos, e esta a Republica das bananas em que vivemos.
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Capitalismo 5

John Frederick Lewis (1805-1876)
At Uncle Charles the Binder
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"Não me Entretenho a Descrever a Crise"

Ouvi da boca do Primeiro-ministro no Jornal da Noite da SIC de quinta-feira esta afirmação extraordinária: “não me entretenho a descrever a crise” nem (e cito de cor) a ser pessimista, astrólogo e vidente. Nestas declarações proferidas quando da visita a uma unidade industrial corticeira, mais uma vez se põe em evidência a distancia entre o Primeiro-ministro que nos governa, cada dia pior, de forma cada vez mais aleatória, caprichosa e insegura, e o país real que deveria conhecer e governar. Um Primeiro-ministro que se preze deveria descrever a crise, mas para isso precisa de saber, de estudar, de ouvir para a conhecer. Deveria saber explicar aos seus eleitores e aos cidadãos contribuintes os contornos da crise no país: o desemprego crescente decorrente de falências de um sector privado cada vez mais frágil face aos constrangimentos financeiros, fiscais e às dificuldades conjunturais de uma crise que afecta o mundo, um sector bancário sem liquidez e imóvel que não consegue investir nem emprestar, o empobrecimento geral da população, o gigantesco endividamento externo e uma maior restrição e custo de financiamento do estado no exterior causado pela baixa do rating da República Portuguesa, etc, etc.

A ligeireza e a sloganização da nossa política governativa impele o Primeiro-ministro a buscar (ou improvisar) medidas sem nexo aparente de combate à crise que caibam em duas frases e possam ser anunciadas com efeitos sonoros nos jornais televisivos. Não se detecta nessas medidas anunciadas um objectivo claro. As injecções de capitais dos contribuintes ao sector bancário são discutíveis e mal percebidas em alguns dos casos (BPN, por exemplo); a redução em 50% da prestação da casa, uma moratória por dois anos para quem tem prestações inferiores a 500€ mensais e que só afecta e interessa a um núcleo muito pequeno de cidadãos, que não sabem se daqui a dois anos estarão em condições de ressarcir o banco, é também um adiar da crise; o desconto para a compra de painéis solares de determinadas marcas e modelos comprados através de uma financiamento bancário (sempre a banca, sempre a banca como intermediária) mostra bem a irrelevância e leviandade destas medidas. A exortação feita por José Sócrates para que se comprem os ditos painéis solares para ajudar a crise é tão ridícula que embaraça quem ouve (já que não embaraça quem diz) pois expõe de forma inquestionável a distância entre a realidade da crise e o que se passa na cabeça de JS e dos seus assessores - um eufemismo para a ignorância total que revela sobre o mundo em que vive e a incapacidade de se rodear de quem saiba e lhe explique. A aposta cega nos grandes investimentos (TGV sobretudo) parece ser mais uma fuga para a frente, uma teimosia megalómana do que decorrente de análise das reais necessidades do país.

As medidas avulsas para a crise “vendem” bem do ponto de vista do sound bite: são como quem anuncia uma campanha de promoções, uma época de saldos, mas depois de se perceber o alcance das mesmas voltamos à estaca zero: a classe média que sustenta a economia dum país, e neste caso a nossa classe média, bem como as nossas pequenas empresas estão na mesma, isto é, cada dia pior: cada dia mais estranguladas com os impostos, com os custos sociais, com a insegurança das encomendas que não chegam e dos empregos que se podem perder. Neste caso não há painéis solares nem TCGs que lhes valham. O Primeiro-ministro devia parar um pouco para entender a crise, só assim poderá explicá-la devidamente (e não “entreter-se” nas palavras dele) aos cidadãos, só assim lhe será dada credibilidade, algo que manifestamente teima em lhe escapar um pouco mais a cada dia que passa, a ter uma base sólida para pensar as medidas contra a crise e não um desbaratar de dinheiros públicos que tornarão a situação financeira do país insustentável. José Sócrates não governa. Entretém.

Adenda: Li isto depois de escrever o este post. Alguém que parece não se importar de falar sobre a crise e de falar verdade. Mas nós temos eleições, não é? E falar a verdade em períodos eleitorais (e nos outros) não é lamentavelmente uma opção para o nosso Primeiro-ministro
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25.3.09

Em Flor 19

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24.3.09

A Doença e o Doente

Uma boa notícia esta de que “os médicos querem aprender a dar más notícias da melhor maneira”. O termo “os médicos” que parece dar um cunho geral é entusiasmante, mas a realidade obriga-nos a ser cautelosos - mesmo que sejam uma pequena minoria, é já um sinal que o caracter omnipotente e omnisciente do médico começa a ser equacionado. Eu nunca percebi como é que profissionais cuja actividade é lidar com pessoas que neles depositam tantas expectativas e confiança, não têm no seu curriculum académico disciplinas de comunicação, e não aprendem técnicas comunicacionais. Ninguém mais do que o médico (de muitas especialidades, nomeadamente a mais falada: oncologia) que vê o ser humano com as suas debilidades e fragilidades, que vê a vida e a morte de perto, que sugere e gere opções e dúvidas, deles e dos pacientes, deve saber abordar as questões difíceis e saber comunicar as más notícias. Se há aqueles que têm “jeito” e são mais dotados do ponto de vista comunicacional, há outros que não têm tanto “jeito”, e ao enfrentar um doente em situação de crise sente-se em confronto com os seus próprios medos e reagem de maneira defensiva (tantas vezes ofensiva) coisa que o paciente sente imediatamente e que tantas vezes determina o bom desenrolar da relação profissional e o resultado do tratamento. Hoje este facto parece incontestado: a boa relação médico-paciente é fundamental para a optimização do tratamento e, quando assim for o caso, da cura. Para todos os médicos é de extrema utilidade a aprendizagem de técnicas e de algumas regras comunicacionais que asseguram que o diálogo se faz respeitando a integridade do paciente, sem que o médico nunca esqueça a dimensão humana e os sentimentos: os seus e os do paciente. Estas técnicas que deveriam ser de aprendizagem obrigatória na faculdade e nas restantes etapas da formação profissional de um médico são um importante passo que se dá na reorientação da medicina da patologia para o doente, isto é: o doente é mais importante do que a doença.
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Dando Excessivamente Sobre o Mar 45

Richard Diebenkorn (1922–1993)
Ocean Park No. 24

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A questão, ao contrário do que é sugerido aqui por Eduardo Pitta, não me parece ser relacionada com a liberdade de expressão e com o que diz o anúncio - que não é anúncio, nem caricatura, é pura propaganda - mas sim quem o encomendou, quem o pagou e quem o distribui, isto é, em que media ele passou, e a razão (necessidade?) de o fazer. A questão é essa. Se fosse um cartoon numa página de jornal ou um cartaz de um partido político como tantos outros, nomeadamente o de José Sócrates com nariz de Pinóquio a indignação não faria sentido, mesmo que quisessem que fizesse.
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23.3.09

Grand Torino 2

(...)
So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering

Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
A heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long

(Kyle Eastwood, Jamie Cullum, Clint Eastwood)

Grand Torino



Às vezes já sei que vou gostar do filme e ainda não o vi; foi assim, sabendo exactamente que ía gostar e do que ía gostar que fui ver Grand Torino. Não houve surpresas só a confirmação de um excepcional fazedor de filmes que é Clint Eastwood.

A história, que tem algo de pascal (adjectivo de Páscoa e não referente ao filósofo e físico francês), e gira em torno de Walt Kowalsky, uma personagem complexa, que vive em guerra com o mundo que desconhece cada vez mais. É um cínico ex-veterano de guerra de humor eficaz e rude, que se vê no fim da sua vida, viúvo e só, a viver com os fantasmas que o acompanham desde os tempos passados e com os ódios e indiferenças do presente. Ele é o motor da narrativa e é à volta dele que gravitam as restantes personagens: o Padre Janovich, o "over-educated 27-year-old virgin", (segundo Kowalsky), que vai crescendo e se vai revelando ao longo do filme, bem como os dois irmãos Hmong, Thao e Sue, que farão despertar em Kowalsky uma solidária amizade e respeito. Kowalsky é ao mesmo tempo um herói e um anti-herói: se por um lado é destemido e não teme nem o confronto, nem o uso da violência para se proteger e proteger os “seus”, por outro lado não esquece o que fez num passado longínquo quando não lhe deram ordens para o fazer, e tem por isso sentimentos conflituosos em relação à medalha que recebeu por esses seus feitos “heróicos” na guerra.

Talvez o que mais tenha gostado, e sem surpresa mas sempre com prazer, foi da cadência do filme, um andante que dá um passo de cada vez, mas que pisa seguro e na direcção certa: as cenas não se atropelam, a câmara não saltita, a música não se sobrepõe à narrativa e a história desenrola-se com a naturalidade das coisas que acontecem aqui ao lado. A realização e direcção de actores é sóbria e de grande contenção o que valoriza essa cadência agradável, humana, esse ritmo que não atordoa e que permite que ao longo do filme se mantenha uma postura e atitude contemplativas e uma sensação de tranquilidade e de serenidade, mesmo quando sentimos que algo de desagradável vai acontecer. Há sempre um tom latente de redenção (daí o pascal) mesmo com o preço da culpa dos outros, daquilo que os irá atormentar, e creio que esta dualidade é uma característica de Eastwood, uma humanidade que procura no turbilhão de possibilidades um (o) sentido final, num filme que não quer atordoar o espectador nem provocar sensações mais imediatas e visíveis, mas que aposta no que há de mais íntimo, na sensibilidade e na inteligência. Uma última referência à música, excelente, que emoldura este ambiente intimista.
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21.3.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 44

André Derain
Fishing Boats, Collioure

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20.3.09


Em primeiro lugar eu não vejo porque é que têm que existir “pontos de contacto” entre as direcções partidárias e os jornais sejam eles quais forem. Cabe ao jornalista ir à procura da notícia, trabalhar para a ter, merecer a confiança dos seus interlocutores e finalmente decidir o que é importante noticiar ou não, e não o mais fácil: sentar-se à mesa (mesmo que seja uma mesa em restaurante ou outra qualquer) com os políticos para juntos pensarem e “fazerem” a notícia.

Em segundo lugar não entendo mesmo a relação causa/efeito nem a razão de ser do "círculo vicioso", que nem percebo bem qual é, pois presumo que Paulo Gorjão não sugira que um jornal (e os jornalistas que o fazem) seja permeável à intriga, quezília e pequena vingança e que estas influenciem a objectividade com que se decide da importância ou não de divulgar determinado acontecimento. Não me parece que o jornalismo tenha que ser nem do domínio dos “afectos” nem do domínio do “porreirismo”.
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Em Flor 18

O Preservativo, um Retrato

A pouco e pouco neste mundo atordoado vamos deixando que certos gadgets ganhem uma tal importância e posição de relevo na sociedade que ninguém parece querer contestar numa mostra de unanimidade digna de nota. São bons para tudo, evitam males, permitem a intercomunicabilidade, curam medos, acabam com inseguranças: verdadeiros objectos indispensáveis sem os quais o homem/mulher moderno já não sabe viver. O preservativo é um deles e está nas bocas do mundo, isto é, de um cada vez mais pequeno mundo europeu politicamente correcto que se indignou com o desdém manifestado pelo Papa Bento XVI em África ao dito, coisa que parece em nada afectar o sucesso da viagem lá. O Papa, heresia das heresias, não se curva perante o preservativo esse verdadeiro ícone de modernidade e liberdade e único tema que os media conseguem reter e especular sobre da viagem do Santo Padre, coisa reveladora da pobreza mental desta sociedade.

Tal como o telemóvel, as fraldas descartáveis, a televisão, a roupa da Zara, os toalhetes de limpeza (de tudo, desde rabos a móveis) os preservativos são alvo de culto e vieram para ficar com todas as bênçãos de governos, oposições, ONGs, políticos, estrelas de cinema, cantores rock, etc. Só não têm a bênção dos Papas.

Os preservativos dão dinheiro a ganhar: são negócio de milhões que interessam a muitos. Têm também uma função de ordem moral e ética importante no mundo actual: minimizam os dilemas morais, filosóficos, existenciais, espirituais ou outros, pois substituem a necessidade de decisão, capacidade de reflexão e escolha. Com eles pensar torna-se dispensável, não há necessidade de escolher ou decidir e tenta esvaziar conceitos como abstinência ridicularizando quem decide livremente optar por ela.

São também mais um dos mil modos que hoje arranjamos para ter e cultivar a culpa, não a antiga culpa de arder no inferno ou de “pecar” no sentido tradicional, mas a culpa de não ser correcto quando não se usa, apesar de ser tão pouco “sexy” e de diminuir sensações e prazer. No entanto ajudam à não propagação de doenças sexualmente transmissíveis, previnem infecções e às vezes evitam outros “males” (isto é, gravidez!) e podem ser rotulados de opção saudável. Apesar de feios, muito feios e pouco dignos, são práticos e muitas vezes coloridos com formas e sabores diferentes para aqueles que mais se interessam por “novidade”. Têm regras importante, mas simples para utilização e são total e absolutamente descartáveis. Finalmente: são de plástico, essa matéria trivial difundida no séc XX, elevada à imprescindibilidade e que domina o nosso mundo.

Foi você que pediu um preservativo?
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19.3.09

Natasha Richardson


Quando, com surpresa, pois a morte tem dessas coisas – a capacidade de teimosamente nos surpreender, li hoje cedo da morte tão inesperada quanto estúpida (como se diz normalmente nestes casos) de Natasha Richardson lembrei-me de como apreciava o seu trabalho, a sua voz o seu olhar e veio-me à memória um belo texto de Eduardo Pitta sobre o filme The White Countess com que me identifiquei de imediato: também eu tinha visto o filme e sentido esse sopro nostálgico tão bem evocado por Natasha Richardson e Ralph Fienes no filme. Descanse em paz.
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18.3.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 43

Antonio Joli (1700-?1770)
Embarco de Carlos III en Nápoles
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Hoje no Jornal da Noite a SIC questionou o montante do investimento no troço do traçado do TGV Lisboa-Alenquer recentemente alvo declaração de impacte ambiental favorável por parte do Ministério do Ambiente. Punha-se em causa a complexidade e custos da obra pela margem norte do Tejo e passando pela Ota obrigando a quilómetros de túneis e de viadutos bem como expropriações que a encarecem de forma exorbitante, em vez de um traçado mais simples e barato pela margem sul do Tejo mesmo tendo em consideração o custo de uma nova ponte. Van Zeller foi claro a expor as suas razões, dúvidas e críticas e José Gomes Ferreira que comentou a notícia disse que esperava forte contestação a este traçado e a este investimento por parte da oposição, mas não conseguiu impedir-se de deixar no ar a sua perplexidade perante estes números e de questionar a razão da opção por uma traçado tão caro, perguntando-se quem é que ganha com uma obra assim tão onerosa. Mário Lino foi irrelevante na declaração para a SIC. A questão fica, incómoda, no ar.
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Mas estavam e estão (bem como todos os outros que não tardarão em se fazer ouvir) à espera de quê? Que o Papa Bento XVI não fosse o Papa Bento XVI? Que de repente esquecesse a Humanae Vitae e se mostrasse a favor da distribuição generalisada e gratuita de preservativos seja em que continente for? Porque é que havia de ser diferente com África? Discriminação “positiva”? Extraordinário quem se indigna quando as pessoas são o que é esperado que sejam.
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15.3.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 36

Anónimo - Escola Italiana (séc. XVII)
El Espinario


Tirar um Espinho do Pé

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Mais Jogging

Não faltaram acontecimentos esta semana que passou, desde a visita do Presidente de Angola, à visita oficial do Primeiro-ministro a Cabo Verde, passando pela manifestação da CGTP que encheu a Avenida da Liberdade e dificultou o trânsito numa sexta-feira à tarde, por mais sessões do Fórum Portugal de Verdade com intervenções da líder da oposição, pelas indecisões de Manuel Alegre a deixar nervoso José Sócrates e o PS, por uma votação na AR de uma proposta de Lei para diminuir o teor de sal no pão e pela contestação por parte de alguns sectores da implementação de aulas de educação sexual nas escolas. Não faltou sequer, e infelizmente, um momento de horror em que o impossível e impensável acontece quando um bebé morre num carro esquecido pelo pai. Os momentos da semana têm servido para debate, comentário e indignação de todos os portugueses que, nomeadamente no sector político começam a sentir a agitação própria dos períodos eleitorais.

No entanto, e por estranho que pareça, as imagens que quase malgré moi, guardo da semana são duas de José Sócrates em Cabo Verde, ambas tão previsíveis e esperadas que me pergunto por que é que me continuam a espantar e a teimar em serem lembradas. A primeira é a do Primeiro-ministro numa escola em Cabo Verde com meninos de bata azul limpa e engomada, penteados impecáveis a cantar em uníssono e sem desafinar um “Obrigado” depois de lhes terem sido dados computadores Magalhães. A segunda imagem é a de José Sócrates a fazer o seu jogging matinal na marginal da Cidade da Praia, tal como faz de cada vez que se desloca ao estrangeiro e tal como nunca é visto nem fotografado na sua cidade de Lisboa. O que fica de uma deslocação oficial do nosso Primeiro-ministro são imagens de pura propaganda e de marketing pessoal que são hoje indissociáveis de José Sócrates, ou melhor, que são José Sócrates. O jogging é dum provincianismo atroz e a distribuição de Magalhães é, não faz mal repetir isto tantas vezes quantas as vezes que José Sócrates se preste a esta charada em Portugal, na Venezuela ou seja onde for, de um novo-riquismo e deslumbramento extraordinário e são ambos reveladores implacáveis do vazio de ideias e de projectos que aflige o nosso Primeiro-ministro. Este vazio é particularmente penalizador no momento de profunda crise económica em que estamos, e em que precisamos de medidas realistas e decisões firmes com um olhar para além do curto prazo, e é confrangedor em período eleitoral pois se tenta aliciar o voto através de medidas demagógicas e de slogan fácil, sem nenhuma conexão com o contexto de profunda crise e de desânimo que se irão agravar ainda nos próximos meses.

O olhar que os eleitores levantam para o actual executivo pedindo soluções em que possam confiar será enganado com mais Magalhães, muito jogging, menos sal no pão, educação sexual para todos e anúncios atrás de anúncios de medidas cujo resultado se desconhece ou cujas condições para que funcionem não foram tidas em conta. Salas de aula só com uma tomada para os alunos com Magalhães bem como falta de apoio técnico para os alunos, Bilhete de Identidade que já não se pode pedir pois já é obrigatório o Cartão do Cidadão sem que os serviços estejam preparados para o entregar no mesmo prazo do BI, são alguns exemplos concretos e recentes das inconsistências de uma política feita de e para a fachada.
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11.3.09

Velas 14

Hoje cedo.

Da Flexibilidade 2

No post anterior escrevi sobre o caso de Thomas More, bem ilustrado na série The Tudors, que lembrei ao ler o artigo do Público deste domingo de António Barreto sobre “O Direito à Honestidade” - pode ser lido aqui - e depois de nas últimas semanas ouvir amiúde falar de carácter, ou falta dele, do político A ou B. Tanta preocupação e tanta atenção dedicada ao carácter leva-me a perguntar se para além da retórica e da ligeireza da indignação circunstancial, o carácter de um político é ou não importante no processo de decisão de voto. Votamos num político pelo seu carácter ou nos projectos políticos que ele apresenta? Podemos dissociar um de outro? Eu pergunto-me também o que é um projecto político sem honestidade nem carácter de quem o quer implementar. Sempre me agarrei a uma noção mais tradicional de fazer política que, de acordo com o étimo da palavra, não é mais do que a arte de governar a cidade, o que faz dos políticos prestadores de serviço aos cidadãos, estando ao servido da “polis”. Eu confesso ter dificuldade em conceber um cargo que presta um serviço aos outros (os cidadãos) nas mãos de homem/mulher cujo carácter eventualmente apresente dúvidas. Mais dificuldade tenho ainda quando essas falhas de carácter são óbvias e ostensivas, pois parece-me que o carácter é um fundamental gerador, ou não, de confiança por parte dos eleitores. Parece-me difícil votar em consciência sem ter em consideração essa dimensão de confiança, e considero que não há melhor forma de inspirar credibilidade e confiança na bondade e justeza da acção política do que o carácter do político.

Ninguém hoje se lembra ou perde tempo a reclamar o direito à honestidade, o direito à verdade, à integridade, à boa índole, porque a questão não é de actos, que nem sempre serão os melhores, mas de índole. Na vida pública e na política hoje o consenso e as prioridades parecem estar, como diz António Barreto, do lado do “vencer, enriquecer, mandar, ganhar votos e triunfar (...) melhorar as sondagens. Passar nos exames. Alcançar um estatuto de importância e reconhecimento. Apostar no futuro e na tecnologia. Acreditar em si e nos seus. Ter êxito”. Ainda segundo AB “estes são os valores que presidem à nossa vida. De tal modo que os meios para atingir os objectivos são de menor ou nenhuma importância”. O que quer dizer que a flexibilidade moral é máxima e sem limites que a consciência imponha.

A questão que me preocupa já não é só a questão de o político A ou B ter falhas de carácter ou não e de conhecer ou não limites à flexibilidade moral e ética. O que me preocupa é o facto de isso já nem sequer ser importante e decisivo na hora do voto. O carácter, a honestidade, a integridade, a clareza de uma escala de valores morais e éticos já não são nem importantes nem relevantes na hora do voto. Ao contrário de Thomas More, já não há limites para a flexibilidade moral e ética. Tudo é permitido.
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9.3.09

Plataforma Contra a Obesidade 51

Henri Matisse
Gourds

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Da Flexibilidade

Vi recentemente a primeira e a segunda temporada de “The Tudors”, que se centra no reinado de Henrique VIII, não especialmente no facto de ter tido sete mulheres, mas nos restantes aspectos do seu conturbadíssimo e marcante reinado. A série é feita ao estilo de “Roma”, ambientes e adereços muito cuidados, mas alguma crueza (boldness). Tem também um acelerado ritmo narrativo, muita intriga política, muita intriga em geral, religião, sexo e violência quanto baste. Gostei particularmente da forma como caracterizaram algumas personagens: a Rainha Catarina de Aragão e algumas personagens ligadas à Igreja Católica: o Cardeal Wolsey, o Bispo Fisher e Thomas More (estes dois últimos mártires canonizados). Nenhuma destas personagens é banal ou estereotipada, e têm uma vida dura feita de opções difíceis pois são movidas por convicções morais e por uma força de carácter hoje quase incompreensíveis e ainda menos valorizadas, que as afasta para sempre dos confortos de uma vida. Em nome de convicções inabaláveis e de uma fé absoluta escolhem o caminho difícil para elas e para os seres que lhes são queridos.

Falo em fé absoluta, pois a fé dos homens (seja em que for) é também feita de medo, de hesitações, de compromissos, de dúvida. O caso de Thomas More é interessante pois ele, como advogado que era e como amigo leal do rei que era, tentou de várias formas ser flexível para evitar dissabores com o rei. Ele não queria ser mártir, não queria morrer, não queria deixar a família desamparada e usou essa flexibilidade nomeadamente na decisão de nunca falar mal do seu rei, nem de nunca condenar o seu casamento com Ana Bolena. Demitiu-se do cargo de Chanceler quando não concordou com as decisões políticas e retirou-se da vida pública para evitar demasiada exposição. Ao contrário do Bispo John Fisher que foi sempre mais frontal, More foi flexível e usou todas as armas que tinha (nomeadamente a retórica) para adiar e evitar o conflito aberto com o seu rei. Mas, claro, o momento de assinar o Act of Supremacy que proclamava o rei como chefe da Igreja em Inglaterra chegou, e perante esta opção a capacidade de flexibilidade de Thomas More esgotou-se pois tinha um claro limite que era o da sua consciência, das suas convicções e da sua fé. Este caso é interessante por causa deste momento em que ele já não pode ir mais além, deste limite que ele se recusa a ultrapassar, pois fazendo-o deixa de ser ele, põe em causa a sua integridade violando-se a si próprio, violando a sua consciência e renegando as suas convicções. Esse limite moral ele conheceu-o bem, e nada nem ninguém o fez demover da sua decisão.
(Continua)
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5.3.09

Tardes de Inverno 19

G. H. Boughton (1833-1905)
Memories

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DAS PETIÇÕES EM GERAL E DE UMA PETIÇÃO EM PARTICULAR

Se há coisa que a internet facilitou foi a recolha de assinaturas para uma petição. Regularmente na caixa de e-mail ou nos blogues andam petições a propósito de tudo e do nada. Já assinei umas quantas. Uma que tinha velinhas acesas e que é contra a pedofilia, outra contra a mudança mensal ( e seus gastos) do parlamento europeu para Estrasburgo, outra recente de alguns deputados europeus a favor de medidas integradas que permitam um combate mais eficaz contra a corrupção, e poucas mais (não, não assinei aquela que é contra o acordo ortográfico, tenho demasiadas dúvidas em relação a tudo). Tenho pena que nunca se saiba, com a mesma facilidade com que se assinam, do paradeiro e consequências de tais petições. Isto, bem como o facto de se tornarem cada vez mais banais do que as bananas nas bananeiras só faz desencadear o meu cepticismo em relação a elas, que vem gradualmente a aumentar. Tenho a convicção de que se decidir juntar meia dúzia de amigos crio uma petição e a consequente “vaga de fundo” (outra expressão que cai na banalidade) a exigir legislação que combata os maus tratos e desconfianças em relação aos gatos pretos, ou outra qualquer causa igualmente tão despropositada ou irrisória. Apostro que reunia mais de duas centenas de assinaturas em dois dias!

Tantas assinaturas quantas a da “suposta” (outra palavra da moda que se tornou hoje em dia indispensável) “vaga de fundo” que quer Marcelo Rebelo de Sousa para encabeçar a lista do PSD a deputados ao parlamento europeu. E era aqui que queria chegar. Em primeiro lugar quero esclarecer que nada tenho contra o facto de MRS concorrer e ir para o parlamento europeu. Cada um, MRS incluído, deve na medida do possível, fazer o que quer e o que gosta na vida. A questão é que nunca em momento algum eu ouvi explicita ou implicitamente MRS falar do seu empenho e mostrar a sua disponibilidade para se candidatar ao parlamento europeu, coisa que me parece ser uma premissa fundamental para que se crie uma “vaga de fundo” em torno do seu nome. Em segundo lugar, e reconhecendo o direito de cada um fazer as petições que bem (ou mal) se lembre e queira, parece-me que uma candidatura deste género teria que ser feita de dentro para fora do partido e não de fora para dentro, isto é, cabe à liderança do partido, em função dos seus objectivos políticos, inquirir da vontade e disponibilidade dos possíveis candidatos. Não cabe aos militantes, simpatizantes, gente em geral (eu incluo-me nesta última categoria da “gente em geral”), ou mesmo opositores e gente de outros partidos tentar impor à liderança uma candidatura que ela (liderança) não equacionou ou não considera coerente com o seu projecto político. Ora eu enquanto “gente em geral” algo simpatizante com esta liderança do PSD não sei, nem tenho que saber quais as vontades, opções e decisões políticas da liderança em relação às listas de deputados que concorrem ao Parlamento Europeu.

Estes são os motivos de ordem geral mais óbvios e incontornáveis que me levam a desconfiar desde logo da bondade de tal petição e a perguntar outras razões políticas menos óbvias que estejam na origem da sua elaboração, para além de uma razão que de tão previsível, também a mim me parece óbvia, de criar ruído e confusão, mais uma vez, à actual liderança do PSD. Com a guerra que lhe fazem, todos os dias, a todas as horas nos jornais, na televisão, nos blogues, fora do partido, dentro (muito dentro) do partido, a querer que ela fale, a dizer que quando fala é gaffe, a exigir espectáculo, a querer palavras ocas e vãs, a pedir visibilidade, (tudo coisas que o vento leva), Manuela Ferreira Leite, indiferente ao vento e aos assobios caminha com determinação pelo seu trilho irregular e pouco estável e mostra ser uma Mulher com “M” grande. Só faz aumentar a minha consideração por ela.

Este texto surgiu ao ler este e este.
Partilho o essencial (repito O essencial, não me detenho no acessório) deste texto e este e este e este.
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3.3.09

Em Flor 17

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Cafriela

Esperámos um pouco cá em baixo no grande salão da entrada cuja dignidade se adivinhava – quantas sessões de cumprimentos não teriam já lá acontecido - entre cadeiras, cadeirões e sofás, uns bons e antigos outros que mais pareciam ter vindo de um barato armazém de mobília, misturados e empilhados sem nexo aparente junto às paredes. Estava muito quente lá fora e a sombra e o fresco do rés-do chão eram bem-vindos. Quando nos pediram para subir fomos directamente para a grande varanda que dava para a praça e de onde partilhámos de novo o calor e o pulsar enigmático da cidade das mangueiras. Os empregados põem toalhas de quadrados de todos os dias nas mesas de plástico tipo AKI, juntam algumas cadeiras que mais parecia estarem lá por acaso e começam a servir os aperitivos: bebidas geladas, croquetes e rissóis acabados de fritar. Entre uma coisa e outra observa-se a noite e cumprimentam-se os convidados que continuam a chegar. Algumas senhoras com vestidos berrantes e típicos, turbantes na cabeça e muito ouro. O aniversariante, alto, imponente e de túnica branca, foi o último a chegar animando o ambiente.

Os salões de pé-direito alto e de tectos trabalhados perderam a grandeza de outros tempos, algumas janelas já sem cortinados têm as sanefas caídas e os cortinados de veludo ainda pendurados, hirtos, tristes e sem sinal de movimento parecem estar esquecidos na mesma posição há décadas. Há algum estuque estragado, pintura esfolada, portas empenadas. A boa disposição e alegria da festa destoa com o ar decadente e desleixado do salão principal. Passámos à mesa numa sala de jantar perto dos salões: uma grande mesa de toalha branca cheia de travessas de comida com ar caseiro e saboroso, e o vai-vem entre a sala e a copa dava o tom da informalidade que imperava. Os aparadores grandes e altos, de boas madeiras e antigos tinham restos do que adivinhei serem bonitos serviços de copos de cristal e restos de boa porcelana misturados com picadoras 1,2,3, latas de comida de bébés, guardanapos de papel e tuperwares. O ambiente era descontraído e simpático com o anfitrião e aniversariante de boa disposição a querer que todos estivessem bem. No fim de uma longa refeição cantaram-se os parabéns, brindou-se com champagne e trocaram-se discursos sempre com as portas da varanda abertas a deixar a noite, o seu calor, os seus sons, e o seu cheiro e mistérios entrar. O serão não tardou muito a terminar. Dessa refeição lembro um frango “cafriela” servido com um cuscuz manteiga de um grão pouco fino: absolutamente delicioso. Nunca mais comi nem um frango nem um cuscuz como aquele apesar de simpaticamente me terem dito o nome do prato e explicado como se preparava.
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1.3.09

Plataforma Contra a Obesidade 50

Paul Gauguin
Nature morte aux oranges
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Tirando a Dra. Manuel Ferreira Leite e uns milhares de ingénuos de província, o PSD não quer ganhar a eleição de Outubro. Meia dúzia de notáveis, a começar por Passos Coelho, querem suceder a Manuela. Dezenas de caciques querem as câmaras. Marcelo quer (presumivelmente) a presidência. E muita gente (mais do que se julga) quer a desforra. E, para chegar a esses nobres fins, quem se importa de abrir a porta ao PS de Sócrates? Quanto ao país, ele que se arranje como puder. E se puder.
Vasco Pulido Valente, no Público de hoje

Se ainda houvesse alguém iludido, Vasco Pulido Valente neste artigo acabaria com as ilusões. Este último parágrafo que aqui reproduzo não podia ser mais claro: ninguém, incluindo ele próprio, pelo que deduzo do restante artigo, está interessado em que MFL ganhe as legislativas, pelas razões que ele apresenta e que já todos conhecíamos. Tem toda a razão. Eu só não diria que a excepção são uns milhares de PSDs ingénuos de província. Há toda uma panóplia de portugueses, (talvez não tantos como gostaria) que não sendo militantes do PSD (nem sendo gente ingénua nem de província), se revê nessa área e preferiria mil vezes a Dra. Manuela Ferreira Leite com todas as suas limitações, (pseudo) gaffes, e intervenções a despropósito e fora de tom (citando VPV) mas feita de matéria nobre e genuína, a José Sócrates, figura feita de matéria plástica e de passado duvidoso que facilmente encalha em qualquer tipo de escrutínio que lhe seja feito, e cujo mandato como primeiro-ministro se tem revelado desastroso, sem nada de verdadeiramente estruturante feito nestes últimos quatro anos pelo país, e sempre mostrando um desprezo pelos portugueses, pela liberdade e pela democracia. No seu mandato, Portugal distancia-se cada vez mais dos restantes países europeus, coisa que nem a crise financeira e económica internacional conseguirá disfarçar. A alegada falta de jeito de Ferreira Leite, será bem-vinda se com ela vierem medidas menos populistas e demagógicas, maior seriedade, contenção, honestidade e transparência na forma de fazer política.
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27.2.09

Entardecer 6

Há uns dias
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O Sentido. A Dor

Disse que estava levemente medicada para que a sua vida não perdesse a normalidade feita de rotina, aparência e, ao fim do dia, uma noite de sono. Muito importante dormir tão bem quanto possível. Disse, com um olhar vazio, só assim conseguir olhar e estar com os outros, falar-lhes e mostrar-se presente nas conversas, quando tudo o que quer é alhear-se. Um dia de cada vez dizem-lhe. Mas a dor que não passa – há dores que nunca deveríamos sentir, cada dia parece pior do que o dia anterior, e a saudade maior. Revejo tudo e procuro o sentido. Todos os dias os porquês, os para quês. Todos os dias o que deveria perceber que ainda não percebi, encontrar o sentido para que ele aquiete a dor. (Ou não).
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Amanhecer 14

Ontem
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25.2.09


Será que ainda há algum blogue que não tenha colocado nas suas páginas a “Origem do Mundo” de Gustave Courbet?
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24.2.09

The Private Patient


And at last he knew the truth about those two deaths. Perhaps Philip Kershaw had been right: there was an arrogance in wanting always to know the truth, particularly the truth about human motives, the mysterious working of another’s mind. (…) The case would be close and his responsibilities over. There was nothing further he could do, or wanted to do.

Like every investigation, this one would leave him with memories, people who would, without any particular wish on his part, establish themselves as silent presences in his mind and thoughts for years but who could be brought to life by a place, a stranger’s face, a voice. He had no wish regularly to relive the past but these brief visitations left him curious to know why particular people where lodge in his memory and what their lives had become. They were seldom the most important of the investigations and he thought he knew which people from the past week would remain in memory.


P. D. James, The Private Patient

Creio que posso afirmar que os romances de P. D. James são praticamente os únicos policiais que hoje em dia leio e aguardo sempre com impaciência que saia mais um. É difícil ser indiferente ao misterioso poeta e inspector Adam Dalgliesh e à sua equipa de colaboradores. P.D. James desenha magnificamente todas as personagens dos seus romances, todas elas são ricas e cheias de vida, e nem as suas perversões ou impulsos mais negros nos são poupados, o que dificulta a tarefa de perceber quem é o criminoso do crime investigado. No entanto James põe especial empenho e cuidado, diria mesmo carinho, nas personagens que ao longo das investigações - romances - nos acompanham sempre, a equipa de investigadores. Sem nos darmos conta nós, fieis leitores, ficamos subtilmente envolvidos nas suas aspirações, dúvidas, memórias e medos, tecendo-se uma estranha teia, porque nunca óbvia, de romance em romance, de implícita cumplicidade. Tudo feito com uma elegância e objectividade ímpar. Os seus romances, na medida do possível, devem ser lidos por ordem cronológica para que este elo frágil e subtil, mas presente ao fim dos tempos não se perca.

P. D. James, para mim, superou-se em Devices and Desires (que belo título), e pensei que dificilmente manteria o mesmo nível. Enganei-me redondamente. Para encanto de todos continua a escrever autênticos romances que, por acaso, são policiais. A sua escrita rica, mas precisa e elegante, os seus retratos psicológicos, o seu instinto para a intriga e a sua capacidade para criar momentos de suspense e terror são únicos, e mantêm-nos interessados e atentos da primeira à última linha. The Private Patient é disso o mais recente exemplo. Agora já estou à espera do próximo romance.
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22.2.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 35

Alexandre Charpentier (1856-1909)
Tailleurs de pierre

Trabalhar a pedra.
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Na capa da Pública de hoje aparece uma fotografia de Pedro Passos anunciando a grande entrevista dentro da revista (entrevista desprovida de interesse) e um título sugestivo “Pedro Passos Coelho, O Candidato”. Ora eu pergunto-me: em ano eleitoral com as várias eleições que se avizinham, ele é exactamente candidato a quê? Deputado ao Parlamento Europeu? A Presidente de uma Câmara? A Primeiro-ministro?

Sobre a entrevista em si, há pouco a dizer, pois o que ele disse, apesar das páginas de texto, nada trouxe de novo, nem do ponto de vista político, nem sequer pessoal, antes pelo contrário. Reforçou a sua convicção (vontade) na fragilidade da liderança de Manuela Ferreira Leite, atribuindo o ónus dessa fragilidade a um "jogo de percepções", seja lá o que for que isto quer dizer (aparecer muito nos media, talvez?), em que ele acha que "(...) a sociedade em geral percepciona(r) como mais relevante a actividade daquele que não ganhou (a liderança do PSD), isso significa que o que ganhou não está a fazer o que deve". Parece-me uma manifestação de intenção e de alguma má-fé. Nada de novo, portanto.

Estranhei as suas leituras da juventude. Quem lê Voltaire antes de Camilo ou Eça? Fenomenologia do Ser de Sartre, não conheço, mas eu também não tenho pretensão a conhecer toda a obra de Sartre e sobretudo, não li obras filosóficas densas, nem na juventude, nem agora. Graças a Deus!
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20.2.09

Amanhecer 13

Ontem
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Foto daqui, claro

Um dos temas/posts mais provocatórios de toda a blogosfera é certamente o “A Passagem do Tempo por um Banco no Jardim de St. Amaro”, pela perplexidade que causa, pela irritação, pela incompreensão. Eu própria andava intrigada com aquela “treta” de banco postada vezes demais e que achava uma perda de espaço. Mas como com tudo na vida vamo-nos habituando e a pouco e pouco as coisas vão-se entranhando, e a provocação começa a esboçar-se e a tornar-se nítida.

O banco começa por ser enigmático e a intenção também. Porquê postar com tanta frequência um banco num jardim de Lisboa? A fotografia é demasiado normal e despretensiosa para que possa ser considerada uma obra de arte ou um golpe de génio. Para quê, então? Num segundo momento é a continuidade, a persistência: não é só uma fotografia, é outra e no dia a seguir outra, e mais outra e outra ainda, e sabemos que amanhã veremos outra. Primavera, Verão, Outono e Inverno. Há dois anos, no ano passado, este ano e no próximo. As pessoas fotografadas vêm e vão e o banco fica. As folhas das árvores caem voltam a nascer e o banco permanece. Está lá. Sempre. É símbolo da permanência versus o efémero, da constância versus o impulso, da solidez versus a fragilidade, da indiferença versus a “luta”. Ora este símbolo é contrário ao espírito dos tempos que correm, onde a mudança e a novidade são valorizados, onde as modas se sucedem e as inovações são aguardadas com curiosidade e reverência. Mas a novidade cedo se esgota, depressa passa. O banco no Jardim de St. Amaro, não. O banco, indiferente a quem lá se senta, à idade ou à roupa que veste, indiferente aos governos que nos governam, ao caso Freeport, pactos de regime, casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou até à existência de Pedro Passos Coelho, absolutamente indiferente ao facto de ser ou não objecto de fotografia e irritação de quem a vê (fotografia) regularmente “postada”, indiferente à polémica do momento, aos links feitos ou não, às audiências, ou até à sorte de quem o fotografa e de quem “posta” a fotografia, é a grande provocação com que o Abrupto brinda a blogosfera quase diariamente.


19.2.09


Enquanto isso, discutimos amplamente o sexo dos anjos, perdão o casamento de pessoas do mesmo sexo, seguindo à risca o script do Grande Líder e seus conselheiros que, diga-se em abono da verdade, não brincam em serviço.
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18.2.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 42

J. M. W. Turner
Calais Pier

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Um Mundo Disney

Entre o “monte de sarilhos” dito por D. José Policarpo (advertindo as mulheres católicas que pensem em casar com muçulmanos) há algumas semanas e a “muita cautela” proferida por D. José Saraiva Martins, há um mundo que os separa. A advertência é sempre pertinente, mas a linguística nada esconde: ela é a evidência do oceano que separa os seus mundos. Quem não entende esta diferença de mundos, terá ainda mais dificuldade em digerir a não normalidade da homossexualidade a que D. José Saraiva Martins se refere. Às vezes pergunto-me se ele, e tantos outros como ele no seio da Igreja Católica, não viverão numa outra dimensão, numa espécie de “Mundo Disney” do Catolicismo, tal a falta de conexão com o mundo de todos os dias bem mais duro, prosaico e em todas em matizes de cinzento.

Nas críticas que por vezes teço em relação à Igreja Católica institucional, uma que repito tem exactamente a ver com o facto de ainda, e apesar do Concílio Vaticano II, da televisão, dos computadores, dos aviões, tantas vezes sentirmos que o nosso interlocutor (membro do clero ou de uma ordem religiosa e porque pertence à estrutura hierárquica da Igreja) vive num mundo à parte que não é o nosso e que não conhece o nosso, onde os católicos vivem, trabalham, casam, se divorciam, tentam educar filhos, pagar contas etc. Que tantas vezes ainda as realidades experimentadas por uns e por outros são tão díspares que tornam o diálogo quase um eco em que cada um só se ouve a si próprio.

Nota: a não normalidade da homossexualidade poderá sempre ser entendida e demonstrada do ponto de vista estatístico. Duvido, no entanto, que tenha sido essa a intenção neste caso, onde essa “normalidade” certamente pressupõe um juízo de valor.
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17.2.09


Victor Constâncio parece estar condenado a não conseguir sair do patamar da irrelevância e a acordar sempre mais tarde do que os outros, chegando sem graça nem jeito ao final do acontecimento. Perde sempre a parte mais importante. Alguém a oferecer-lhe um despertador?
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Tardes de Inverno 18

Hendrick der Brugghen(1588-1629)
The Concert
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Felizes Para Sempre ou Um Post Confuso

Ontem o país parece ter acordado para o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Falo do país relutante, no qual eu me incluo, em parar para pensar nesse tema que José Sócrates tão convenientemente lançou agora para a arena do circo com a missão bem clara de entreter quem tem mais em que pensar. Mais e pior. Esta questão deixa-me sem jeito. Muitas vezes tenho opiniões claras, mas não é o caso. Acho tudo confuso e confesso que não tenho uma visão apaixonada pelo assunto, muito menos uma opinião fundada e que sinta coerente. Nem me apetece ter. Se querem casar, que casem. Mas logo a seguir pergunto-me: mas porque carga de água hão-de querer casar? Só para dizer que se casam, fazerem uma boda e tudo como manda o figurino copiando os modelos que rejeitam? Para se divorciarem? Para dizermos que Portugal é um país evoluído (é assim que se mede o grau de desenvolvimento de um país?) Sempre pensei que com a regulamentação e reconhecimento das uniões de facto entre casais do mesmo sexo, os direitos exigidos (e legitimamente, do meu ponto de vista) já são reconhecidos. Para quê casar se o casamento é uma realidade feita do e para o mundo “heterossexual”? Mas, voltando ao inicio: se querem casar, casem. Só não percebo porque o querem fazer. Só para terem esse direito? De serem iguais aos heterossexuais que rejeitam? Não consigo sair daqui e confesso que também não me tenho esforçado, nem sequer tentado evoluir.

Ontem, com debate televisivo assim ao longe, porque distraída e sem grande motivação, ouvi algo que ainda me pôs mais perplexa e é uma questão de terminologia, que parece ter um simbolismo ou um sentido que me escapou (repito que não estive muito atenta) até agora. Parece existir por parte das partes interessadas (na defesa do casamento) uma recusa, ou um evitar da expressão “casamento homossexual”. Mas não é disso mesmo que se trata, ou querem criar frases eufemísticas e politicamente correctas para o que é um casamento homossexual? Ou então, será que querem deixar a porta aberta aos casamentos entre duas pessoas do mesmo sexo, mas que sejam heterossexuais? Eu gosto de conhecer a razão e o porquê das coisas e este tema é debatido de forma demasiado fundamentalista e urgente, para sentir seriedade na intenção e na razão. O país afunda-se em medidas eleitoralistas e essas sim deveriam manter-nos alerta. Quanto aos casamentos, tudo o que desejo é que sejam felizes para sempre.
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14.2.09

Sherrie Levine
Large Check:12
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O Leitor

É inegável que estamos cheios de opções para ver bons filmes no cinema. Desta vez “O Leitor”- talvez o filme que vi nos últimos tempos de que mais gostei - será pretexto para um comentário e algumas reflexões. Estamos em território de adultos, não por causa da exposição anatómica ou das razoáveis cenas de sexo, mas porque entramos num mundo complexo, desarmante e cerebral.

É um filme cuja estrutura narrativa, em variados e nem sempre aparentemente sequenciais flash-back, tem planos que se sobrepõem e percebemos uma falta, ou melhor, "a" falta; a falta de matéria de união, não me refiro a uma união sequencial ou cronológica, mas sim a algo como uma argamassa que une os tijolos, um fio motivador, a identidade do filme, o que quer que seja que faz mover as personagens e faz acontecer a história, que se desenrola de uma forma fria e quase que automática. Essa matéria nem sempre é evidente e a riqueza do filme é que nós enquanto espectadores vamo-nos questionando e tentando perceber do que é que ele (filme) trata. Será o amor? O erotismo? Será o interesse? O destino? Será a verdade? Será o cumprimento do dever? A frieza de nunca o questionar? Será a vergonha (do analfabetismo)? A honestidade? Será a culpa ou a falta dela? Será o sentido do sofrimento? A justiça? Há de tudo um pouco, e no fim, para além da desarmante honestidade de Hanna, que é sempre um desafio às outras personagens e a nós espectadores, e de um sempre desconcertado (e porquê, tentamos nós perceber até ao fim do filme) Michael Berg, vemos e lemos o que queremos ou o que somos levados a ver e a ler.

A realização é metódica e os actores são tão bons quanto esperávamos. Kate Winslet mais uma vez prova a grande actriz que é despojada de si e entregue totalmente a uma Hanna misteriosa, desarmante, mas digna. O jovem David Cross (Michael Berg na juventude) e Ralph Fienes são competentíssimos parceiros de Winslett.

Da culpa.
O jovem Michael estudou direito e um professor seu explica-lhe que não é a moral que rege o mundo, mas sim a lei, mas Michael parece não ter nunca absorvido esta noção. As aulas de Direito coincidem com o julgamento de Hanna e com o turbilhão de sentimentos conflituosos de Michael. Ele quer perceber culpa (a dita Moral que não rege o mundo) em Hanna, ele espera percebê-la mas nunca a consegue ver, o que lhe trará consequências de peso: ele faz sua a culpa que gostaria de ter visto nela e vai ser ele que a vai expiar numa vida ao longo de grande parte da sua vida. Essa inexistência de culpa en Hanna é talvez o elo que os liga ao longo dos anos de uma forma que só eles entendem, pois o segredo dela só ele o conhece. Para Hanna a culpa é o segredo, de tal forma que o guarda e está preparada para uma maior e “injusta” condenação por parte do tribunal; a culpa não está nos factos por que foi julgada.

Do sentido do sofrimento.
Michael quer que o sofrimento tenha sentido e gostava de ver um propósito, tirar uma lição desse sofrimento, talvez para poder entender os seus actos, o seu sofrimento. Mas as voltas estão trocadas. Por duas vezes ele se depara com o vazio, o nada do sofrimento. Depois de tudo o que se passou Michael pergunta a Hanna, pouco antes dela sair da prisão o que é que ela aprendeu com a prisão. Vê-se que ele está à espera de uma resposta existencial, de crescimento individual, mas a desarmante honestidade de Hanna e a cerebralidade da sua resposta não deixam margens para dúvidas: a aprendizagem (aceitação da culpa, sentido do sofrimento) que ele procura não está lá. Do sofrimento não aprendeu nada. Do mesmo modo na conversa final entre Michael Berg e Llana Mather, ela lhe diz para não procurar a sua catarse nos campos (de concentração): não há lá nada. Não se aprende nada, não se ganha nada. Aquele sofrimento é nada. Michael está entregue a si próprio.
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13.2.09

Amanhecer 12

Ontem
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Cinco Mil Euros

José Sócrates considera-se rico com 5 mil euros, e eu acho que ele é um homem de sorte e fico feliz por ele. Como cada um tem o direito de fazer ao dinheiro o que bem lhe apetece, não me cabe perguntar-lhe como é que faz para ser assim tão rico. É que eu pensei nas muitas famílias portuguesas com esse rendimento mensal que, apesar de terem uma vida própria da classe média, estão longe de se considerarem ricas. Repito que falamos de classe média (ou média alta, se preferirem), que vive num apartamento na cidade, que tem dois filhos, dois carros , usa o sistema de saúde privado e escolas privadas, tem empregada doméstica, mas que leva uma vida “normal” de classe média. Deixo aqui um exemplo (há outras situações de casas que não se pagam porque os pais ofereceram, de pensões alimentares a pagar, de colégios para dois ou três, ou não, haveria outros exemplos mas escolhi este) de despesas possíveis para ver como se vive com 5 mil euros e quão rico se é:

Prestação da Casa (t3 em Lisboa/Porto,...) 800
Prestação carros (2) 400
Colégio (1 filho, o outro fica ainda com a avó) 500
Despesas da casa (luz, gás, água) 300
Telefones, telemóveis, TVs; internets 300
Alimentação 400
Almoços e restaurantes 350
Gasolina 150
Empregada Doméstica (tempo parcial ) 400
Seguros (saúde, vida, carros...) 200
Despesas saúde (médicos, farmácias) 100
Roupas e calçado crianças 100

Para este exemplo de despesas o total já são 4000 euros mensais. Sobram 1000 euros. Se me explicarem como é que mil euros dão para o fato Armani, os sapatos Prada, as férias seja lá onde forem, aquele sofá que tanto precisamos, a Bimby, o cabeleireiro, o ginásio, a roupa interior, os saldos da Zara, a carteira Vuitton, as calças de ganga, as férias de ski, já para não falar nos livros, DVD, nos concertos, no cinema, uns pneus do carro, na playstation, nos presentes para aniversários, etc, etc... ficaria muito satisfeita.
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12.2.09

Doubt

Por vezes parecia que estava a ver um filme de acção: suspirava de alívio de cada vez que terminava um diálogo, tal a tensão dramática e a atenção que eles requeriam. Todos os detalhes contam: o cenário, os gestos, os tempos de fazer o que se faz, ou de dizer o que se diz, a expressão da cara que os inúmeros primeiros planos ajudam a decifrar. Outro filme feito para ver os actores brilharem e eles brilham. Todos eles o que é também um claro sinal de mérito do realizador.

Tudo se passa em pouco tempo e em pouco espaço. Grandes dúvidas, grandes certezas, algumas hesitações. “Kindness” contra “virtue”. Complacência contra determinação. Tolerância contra intolerância. O que é a verdade, onde está a verdade. Todos estes tópicos fluem inteligentemente, evitando slogans, verdades pré-fabricadas ou politicamente correctas, polémicas fracturantes e sentimentalismos fáceis, num ambiente depurado quer do ponto de vista formal quer psicológico. Cada diálogo é uma luta entre verdades num pano de fundo de catolicismo. Para nosso desafio e deleite neste filme não há um minuto perdido, e vê-se avidamente sem sentir o tempo passar.
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10.2.09

Capitalismo 4

Christopher Richard Wynne Nevinson (1889-1946)
Making the Engine

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A Voz Moralizadora

Como eu receio vozes moralizadores, sobretudo vindas do Estado e dos políticos. Agora, numa declaração que é mais uma desavergonhada medida propagandística e eleitoralista, Teixeira dos Santos fala da limitação dos salários dos quadros superiores dos bancos que recorram às garantias do Estado, e fala da legitimidade do Estado em ter uma voz – que eu diria moralizadora – nesse domínio. Malhar nos ricos, legitimando que salte cá para fora esse sentimento mesquinho mas poderoso que é a inveja, e que jaz latente em todos os pobres de espírito que aspirando a ser ricos nunca conseguiram ou puderam, foi sempre fácil e os nossos governantes perceberam-no bem: não faltam palavras de ordem e slogans sonantes e que colem facilmente ao ouvido (oh, delícia das delícias) bem como frases finas, elegantemente construídas e de aparente subtileza ideológica para deleite dos intelectuais. Malhar nos ricos moralizando a sociedade e a política: oh prazer dos prazeres, sublime desígnio político, que o diga o Presidente Chavez inspirador e amigo dos nossos governantes: puxando à inveja, chafurdemos todos pois no caldo medíocre do igualitarismo, enalteçamos os sentimentos básicos das justiças populares e das vozes moralazadoras. Depois da ressaca da festança, pagaremos todos caro por tais desvarios. Todos?
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Plataforma Contra a Obesidade 49

Pierre Bonnard (1867-1947)
Breakfast
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9.2.09

Em relação à “Taxa Robin dos Bosques” (da qual discordo como princípio e na aplicação, mas isso daria um outro post), que prevê diminuição das deduções para efeitos fiscais dos ricos para aumentar as deduções dos pobres, Manuela Ferreira Leite foi certeira (Jornal da Noite da SIC): falta a José Sócrates definir o que é um rico. Se se considera “rico” um agregado familiar com rendimentos acima dos 40 mil euros anuais, então está tudo explicado e é escandalosa a desculpa “Robin dos Bosques” – mais um slogan eleitoral mentiroso - para aquilo que é nada mais nada menos que uma nova subida de impostos para a classe média. Nós somos muito pobres; não só mas também de espírito quando se considera “rico” um agregado com rendimentos acima dos 40 mil euros!
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8.2.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 34

Albert Bartholomé (1948-1928)
Petite fille pleurant


Chorar
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Actos Estúpidos

Michael Phelps pediu desculpa por aquilo que considerou ter sido um “acto estúpido” (Público, edição impressa de ontem). É mais um a entrar no universo dos que pedem desculpa em público de “actos estúpidos” tantas vezes privados e que nunca sequer deveriam ser do conhecimento público. Mas o mundo é como é e as figuras públicas estão constantemente debaixo do olho dos media que não perdem o scoop que um “acto estúpido” promete sempre. Gostei desta definição de “acto estúpido” que Phelps deu, pois pareceu-me muito mais rigorosa do que outras mais sofisticadas tantas vezes dadas a actos semelhantes. Phelps é um ser humano e os seres humanos fazem coisas estúpidas em privado e em público. O problema de Phelps foi ter sido fotografado e ter visto a sua foto a fumar cannabis correr o mundo com a rapidez e eficácia que todos hoje conhecemos. Aí Phelps pessoa e Phelps “marca” entram em conflito e alguns patrocinadores recuam nos patrocínios, pois a imagem dada pela “marca” não é coerente com a imagem da marca dos produtos que vendem. Como a marca Phelps tem um valor (em termos de dólares) que não pode ser negligenciado, a pessoa Phelps sente-se na obrigação de fazer um pedido de desculpas público, e fá-lo, coisa que me parece desnecessária e até ridícula. Como se o acto de fumar cannabis numa festa com amigos fosse um gesto premeditado e deliberado para ofender alguém, e não um possível (e discutível) “acto estúpido” que Phelps tão sensatamente qualificou.

Estes pedidos de desculpa, que agora tão na moda estão, parecem ser úteis a ajudar a limpar as consciências colectivas habitadas pelas várias culpas que a nossa sociedade se propõe expiar. Nos EUA um pedido de desculpas público por “actos estúpidos” cometidos, ou até por outros menos estúpidos e mais sérios mas do foro privado, tem mérito e a capacidade de regeneração e aceitação pública de quem o faz parece ser inegável. Estes gestos sempre me intrigaram, tão alheios parecem ser à minha genética, sempre me causaram algum repúdio e tantas vezes me parecem mais abertamente atentados ao pudor e à honra do que os “actos estúpidos” de facto cometidos. Uma sociedade que exige pedidos de desculpa públicos por “actos estúpidos” é uma sociedade malsã e hipócrita que desbarata e maltrata os conceitos de ofensa, de arrependimento e de perdão.
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6.2.09

O Comissário Europeu para o Ambiente acha supérflua a discussão em Portugal sobre o caso Freeport, pois a Comissão Europeia analisou a questão baseada numa queixa apresentada pela Quercus em 2002 e concluiu que a construção do centro comercial não tinha impactos significativos sobre as aves protegidas pela ZPE, independentemente das modificações do seu perímetro. Estas declarações, para além de parecerem demasiado concertadas com o nosso governo e o braço longa da sua propaganda é absolutamente inoportuna. Primeiro porque a questão do caso Freeport não é uma questão técnica, como não é uma questão de justiça: é uma questão política (a lembrar: uma investigação do SFO do Reino Unido que põe em causa a pessoa do nosso primeiro ministro, a aprovação por um governo de gestão do licenciamento do projecto a uns dias das eleições, a celeridade com que as autorizações foram dadas comparando com casos semelhantes, a presença da família do então Ministro do Ambiente neste processo, as contradições entre o que os vários intervenientes dizem, o porquê do não andamento da investigação deste caso em Portugal desde 2005) à qual o nosso primeiro ministro continua a não dar respostas concretas e satisfatórias. Segundo porque cabe aos eleitores portugueses, e não aos burocratas em Bruxelas, decidir da pertinência e do supérfluo das discussões em Portugal. A democracia é assim, coisa que parece ser frequentemente esquecida em Bruxelas.
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4.2.09

Revolutionary Road



Revolutionary Road não é um filme que cause grande entusiasmo generalizado, nem é “diferente” ou deslumbrante, mas é sólido e de uma qualidade irrepreensível. Eu gostei muito de o ver. Parece ter sido feito para enaltecer o trabalho dos actores e conseguiu isso mesmo: fá-los brilhar da primeira à última cena e creio que ninguém duvidada disso. Kate Winslet, Leonardo di Caprio e um fabuloso Michael Shannon dão o seu melhor para deleite de quem os vê. O filme explora o sentimento de frustração de um casal de um subúrbio norte-americano nas suas múltiplas facetas e ao fazê-lo deixa vir à tona o que move cada um dos elementos do casal, o que os liga e o que os afasta. Implacavelmente comprometida com a “sua” verdade, April Wheeler não desiste de lutar e exigir o seu sonho daquilo que pensa ser uma vida com sentido, num percurso em que a questão de ser ou não verdadeiro, onde está a verdade e o que é a verdade se coloca inúmeras vezes a cada um e ao casal, bem como os limites dessa mesma verdade. John Givings, o outsider visionário e em tratamento numa clínica psiquiátrica, funciona quase como uma espécie de coro da tragédia clássica: vê o que ninguém ousa ver, diz o que ninguém ousa dizer. Nada é adquirido neste filme: não há bons nem maus, justos nem injustos, boa fé nem má fé, mas há sobretudo uma transpiração dramática inequívoca, ou não fosse Sam Mendes um homem vindo da produção teatral.
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