Diz António Barreto que “O Magistrado Lopes da Mota não deve sair do EUROJUST. Não deve suspender o seu cargo. Nem pedir a demissão. Nem ser demitido. Se a representação de um Estado deve traduzir a verdade, ele é o homem certo no lugar certo (...)Ele é o genuíno e fiel símbolo da justiça portuguesa”. Tem toda a razão, mas eu tenho vergonha que assim seja. Problema meu, eu sei, mas tenho vergonha – já nem falo de ética, de moral, só de vergonha - de Lopes da Mota, de Cândida de Almeida que não sabe estar calada, do “primo do Kung-Fu”, do primo do primo, enfim... calarei a minha lenga-lenga de satélites que gravitam à volta do poder e com “respeitinho” para com o poder, para não maçar ninguém. Eles não têm vergonha mas eu tenho por eles e tenho mais por eles não a terem do que por fazerem o que fazem. A vergonha genuina aparece pouco. Muitas vezes esconde-se a vergonha com humor desprendido, com inteligentes análises, com críticas acutilantes, com inflamada indignação, com protesto, mas no fim do dia fica o embaraço e a vergonha de sermos o que somos: um país pobre, sobretudo de espírito, um povo de brandos costumes que se acomoda à mediocridade que lhe permite ir ao café dizer mal de tudo e de todos. Brandos costumes da treta que imobilizam o cérebro e o corpo, que impedem um rasgo de genuína revolta e vergonha. Enchem-se as praias ou os shoppings, abstemo-nos nas eleições porque “não vale a pena” - dito com um suspiro de quem se habitua a um fado que não merece mas suporta com estoicismo. Ah, merecemos sim; merecemos cada um dos políticos que temos, cada uma das “elites” administrativas, financeiras, judiciárias e mediáticas que temos. Que importa Lopes da Mota, Pinho, o primo do Kung-Fu, o primo do primo, a mãe do primo do primo, o tio do primo do primo, o Freeport, as “alegadas” pressões. Tudo bem, tudo normal, ninguém se demite. Outros fizeram-no por muito menos cá em Portugal e no estrangeiro, mas nestes casos deste consulado Socrático essa questão nunca se coloca. Ninguém tem vergonha na cara.
“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com
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17.5.09
Uma pergunta que fiz aqui, encontrou resposta aqui. Fantástico! Afinal existe mesmo uma “papa maizena”, tem receita e tudo e houve quem a tivesse comido. Alguns, claramente em excesso. Coisa de deixar más recordaçõesPede-me Nelson Reprezas para mencionar séries televisivas, não percebi muito bem – nem procurei perceber, confesso - com base em que critério. Mas creio que seja que critério for andará sempre à volta da nossa experiência e gosto pessoal. Embora avessa a correntes blogosféricas, gostando de poucas e quebrando-as todas, este pedido revela-se um pretexto para escrever sobre algo de que gosto, e instantaneamente – mesmo antes de eu ter tempo para pensar, accionou a minha memória porque toda a vida gostei, e gosto de séries televisivas. Lembro tempos em que a semana funcionava em função de um determinado dia de semana em que a televisão (quando televisão era algo que não tinha mais do que dois canais, e até quando era a preto e branco) dava esta ou aquela série. Agradeço o DVD (e antes o VHS) que tornaram possível comprar alguns packs de séries completas (ou temporadas) antigas e recentes, que me permitem uma saudável e total alienação da realidade durante um fim-de-semana ou uns dias seguidos. Vi muitas séries, boas e menos boas - estas últimas são sobretudo muito marcadas por uma determinada época ou “moda” - mas há algumas que lembro com saudade pois marcaram a minha infância ou adolescência e remetem para um mundo diferente e para um momento de inocência quase rousseauniano. Só essa inocência permitia que gostássemos das séries que hoje não me apetece propriamente rever, no entanto fica a nostalgia dos momentos em que fui feliz a vê-las, fica a espécie de ternura pela recordação. Todas as séries que mais à frente menciono foram vistas, até fora de Portugal, e algumas vistas e revistas. Sei que com mais tempo a minha memória se avivaria e lembraria outras tantas. Opto por umas escolhas sobretudo nostálgicas, de séries de outras décadas e de outros mundos, à excepção do Dr. House. que está presente porque é a única que hoje recria um pouco o ritual de ver uma série “em directo”: é a única que me obriga, todas as semanas à segunda-feira no canal Fox, a repetir esse ritual que já é quase de outros tempos: sentar em frente à televisão quieta e parada. Outras séries actuais vejo-as normalmente em diferido falhando alguns episódios, ou vejo posteriormente em DVD se gostei particularmente.
Get Smart (Olho Vivo), Green Acres (Viver no Campo), Bewitched (Casei com uma Feiticeira), Gabriela Cravo e Canela, Upstairs, Downstairs (A Família Bellamy), Brideshead Revisited (Reviver o Passado em Brideshead), La Piovra (O Polvo), We’ll Meet Again, A Town Like Alice, The Jewel in the Crown (A Jóia da Coroa), Hill Sreet Blues (A Balada de Hill Street), The Muppet Show (Os Marretas), Blackadder, Twin Peaks, Yes, Minister e Dr. House.
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15.5.09

Depois de uma semana arredada da actualidade – tanto quanto nos é permitido, claro, e do blogue li agora no Público online esta notícia, só com exame psicológico será possível tirar ou revalidar a carta de condução, que me tranquilizou pois me demonstrou que afinal é verdade, não é só uma suspeita minha: o país caminha impávida e serenamente para o absurdo. Repito: absurdo. Já não falo da crise económica que o governo combate com medidas contra “bota-abaixismo”, do desemprego que se resolve com formações e parcerias inventadas em mesas de reunião, da segurança que sai à rua em força no dia a seguir a distúrbios, das “alegadas pressões” aos magistrados do caso Freeport em que José Sócrates é, alegadamente, suspeito, da “delação” de quem se incomoda com pressões; já não falo da Europa que não se discute, das eleições e do financiamento dos partidos, do PSD que sobe nas sondagens, das hesitações de Alegre, dos “momentos Chavez” do Primeiro-ministro que se sucedem para as televisões a um ritmo diário iludindo-nos com “medidas”, da crescente presença mediática e com sucesso de Paulo Rangel (aquela escolha duvidosa e tão criticável – e criticada - de Manuela Ferreira Leite), do recente silêncio de Pedro Passos Coelho.
O país caminha para o absurdo porque ninguém pára para pensar, porque não se deixa que o tempo seja bom conselheiro, porque se perdeu o norte, porque não se distingue o essencial do acessório, o que é norma do que deve ser excepção, porque na ânsia de se querer ser politicamente correcto se legisla de qualquer maneira sem olhar as consequências, porque não se preza a liberdade individual e se permite que o estado nos vá, a pouco e pouco, estreitando numa camisa de forças. Um destes dias nem estrebuchar podemos. Psicólogo para tirar a carta? E para ser político e Primeiro-ministro? E para ser médico? E para ser gestor de um Banco? E para ser magistrado? E para ser professor? E para ter filhos? E para casar (homo ou hetero)? E para comprar casa?
Está tudo doido?
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Está tudo doido?
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8.5.09
Diferenças
Sobre a viagem do Papa ao Médio oriente
Bento XVI não deixará de insistir num facto que o preocupa: o êxodo dos cristãos do Médio Oriente. Em quatro décadas, só em Israel e na Palestina, eles passaram de vinte para dois por cento numa população de nove milhões.
(Público, Ed. Impressa)
Este facto é uma das mais significativas imagens – e de difícil contestação - sobre a gradual radicalização das sociedades islâmicas do Médio Oriente ao longo das últimas quatro ou cinco décadas. Intolerância, violência, abuso, pressões várias têm sido e são o quotidiano das minorias cristãs (sobretudo católicas) nos países islâmicos. Em contra-partida, no ocidente, o acesso ao estado providência (sobretudo na Europa), o respeito pela diferença, a integração – com maior sucesso nos EUA – foi sendo, mesmo que por vezes de forma controversa ou pontualmente pouco sucedida, a política dos diferentes governos. Enquanto que no ocidente as mesquitas aumentam, as igrejas no Médio Oriente estão em vias de extinção.
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Bento XVI não deixará de insistir num facto que o preocupa: o êxodo dos cristãos do Médio Oriente. Em quatro décadas, só em Israel e na Palestina, eles passaram de vinte para dois por cento numa população de nove milhões.
(Público, Ed. Impressa)
Este facto é uma das mais significativas imagens – e de difícil contestação - sobre a gradual radicalização das sociedades islâmicas do Médio Oriente ao longo das últimas quatro ou cinco décadas. Intolerância, violência, abuso, pressões várias têm sido e são o quotidiano das minorias cristãs (sobretudo católicas) nos países islâmicos. Em contra-partida, no ocidente, o acesso ao estado providência (sobretudo na Europa), o respeito pela diferença, a integração – com maior sucesso nos EUA – foi sendo, mesmo que por vezes de forma controversa ou pontualmente pouco sucedida, a política dos diferentes governos. Enquanto que no ocidente as mesquitas aumentam, as igrejas no Médio Oriente estão em vias de extinção.
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6.5.09
Bacon Sandwich
(...)
If everyone improved their lifestyle just a bit, then the benefits to the overall health of the nation would be large but each individual would not notice the difference. An inspired epidemiologist, Geoffrey Rose, called this the Prevention Paradox and we see it being played out again and again.
That is why it is understandable that attempts to create these shifts in behaviour by exhorting people to change tend to fail - and make them anxious and guilty. It explains the current call for society-wide actions such as minimum alcohol pricing, and enthusiasm for 'nudging' people towards better behaviour. When you find the muesli at the front of the breakfast counter, and the bacon sandwiches in an unmarked gloomy corner of the canteen, you know you're being nudged.
So as you reach for your yum, perhaps sometimes pause a moment and realise that you are taking a gamble on the yuk occurring, but that it may be a risk worth taking.
Uma perspectiva individualista e desapaixonada sobre os prazeres e o risco numa prosa inspiradora.
Adenda: Não é bacon sandwich, mas “tem tudo a ver” (para usar uma expressão modernaça) na ânsia de regular os costumes; neste caso “regular a cama ou o vão de escada”. Uma outra prosa inspirada, desta vez da pluma de João Gonçalves.
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If everyone improved their lifestyle just a bit, then the benefits to the overall health of the nation would be large but each individual would not notice the difference. An inspired epidemiologist, Geoffrey Rose, called this the Prevention Paradox and we see it being played out again and again.
That is why it is understandable that attempts to create these shifts in behaviour by exhorting people to change tend to fail - and make them anxious and guilty. It explains the current call for society-wide actions such as minimum alcohol pricing, and enthusiasm for 'nudging' people towards better behaviour. When you find the muesli at the front of the breakfast counter, and the bacon sandwiches in an unmarked gloomy corner of the canteen, you know you're being nudged.
So as you reach for your yum, perhaps sometimes pause a moment and realise that you are taking a gamble on the yuk occurring, but that it may be a risk worth taking.
Uma perspectiva individualista e desapaixonada sobre os prazeres e o risco numa prosa inspiradora.
Adenda: Não é bacon sandwich, mas “tem tudo a ver” (para usar uma expressão modernaça) na ânsia de regular os costumes; neste caso “regular a cama ou o vão de escada”. Uma outra prosa inspirada, desta vez da pluma de João Gonçalves.
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Lantejoulas e Tutus
Esta notícia chamou a minha atenção. Já várias vezes me tinha perguntado quando é que a modalidade de natação sincronizada se alargaria aos homens e como. Sou contra qualquer tipo de discriminação, mas também sou céptica em relação às proclamações de igualdade a propósito de tudo e de nada. Rapaz não é igual a rapariga por muitas voltas que se tentem dar. Devem ter igualdade de oportunidades quer no ensino da matemática, como na entrada para as Forças Armadas ou na prática de natação sincronizada. O que já me parece forçada é a ideia de que um rapaz para que pratique esta modalidade desportiva o tenha que fazer como as mulheres o fazem: pinça no nariz, maquilhagem, fatos brilhantes e com lantejoulas. Nem tão pouco consigo ver o interesse desportivo e estético de um rapaz em reproduzir os movimentos que as raparigas fazem e que são sobretudo adaptados à anatomia feminina. Na dança clássica, Ballet, os homens não usam tutu, não fazem pontas, nem fazem o mesmo trabalho de pés que as mulheres. Fazem outros em que se destacam: piruetas, saltos. Também é assim noutras modalidades desportivas mesmo quando há equipes mistas. No atletismo em competição, e apesar de fazerem as mesmas modalidades, há a separação entre homens e mulheres. Abrir a natação sincronizada aos homens não passa por travesti-los e pô-los a fazer os mesmos movimentos que as raparigas fazem, passa sim por adaptar e explorar as possibilidades da modalidade à anatomia masculina. Talvez nadar com as raparigas e como as raparigas não seja a melhor forma de persuadir a federação desportiva a alargar a modalidade a rapazes. Parece que hoje, no nosso mundo, a ânsia igualitária não conhece limites.
5.5.09
A deselegância e o ressabiamento político unidos num comentário do ministro do Allgarve contra Paulo Rangel. Mais a mais em pura dissonância com o espírito de Plataforma contra a Obesidade engendrada pelo seu – nosso – Primeiro-ministro. Senhor Ministro, deixe as papas maizena (que é isso? O Senhor algum dia as comeu?) eu aconselho-o trocá-las por umas sopas de legumes..
Sair de Cena 5
Dias Loureiro continua, vítima das suspeitas que pesam sobre si, a arrastar-se penosa e desconfortavelmente pelos corredores do regime. Claro que ele pode teimar em continuar este percurso de penitente e obrigado, nada que outros nos dias de hoje não o façam com a diferença de ostentarem a arrogância dos fariseus e a determinação dos heróis vencedores. Para não continuar a colocar o Presidente da República numa situação inusitada e desconfortável, para lhe (ao PR) devolver a liberdade que está comprometida, mas sobretudo por ele, pelo que ainda resta de dignidade da sua pessoa, era bem melhor que pedisse para abandonar o Conselho de Estado. Já deixou passar tempo demais. Será que não vê?
4.5.09

Mais um cartão amarelo a MFL. O PS lidera a intenção de voto para as legislativas nesta última sondagem, apesar de uma subida do PSD.
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28.4.09
Hoje são os Cheque-dentista
O pior desta política de medidas/anúncios/inaugurações diários, - hoje são os cheque-dentista - calendarizados milimetricamente para que o “efeito” de empenhamento político do governo e do Primeiro-ministro se mantenha elevado, com deslocações, pompa e cenário cuidadosamente estudado, um discurso mais estudado ainda para sair natural e em frases simples e sonantes de frente (ou será ¾?) para as câmaras de televisão, num exercício que durará até às eleições (talvez uma treguazita lá para Agosto?), é o facto de que as medidas em si, lidas e vistas assim em título de jornal, são feitas de forma a dificultar o questionamento sobre a sua bondade, necessidade ou interesse e são feitas de forma a minimizar a discórdia e contestação. Quem discorda de que se deva incentivar a higiene oral das crianças prevenindo doenças da boca? Quem discorda da extensão da escolaridade para 12 anos? Quem discorda que os medicamentos genéricos sejam comparticipados a 100% para reformados dos escalões de rendimentos mais baixos? Assim, de repente, é difícil discordar, no entanto estas medidas são demagógicas e populistas, são mais pensadas pelo efeito que causam ao eleitor do que pensadas em função de uma coerente política sectorial. Da forma como são apresentadas, elas estimulam o sentimento de dependência das pessoas ou empresas do Estado paternalista que zela por nós e a todo o momento nos salva e nos dá uma mãozinha quando as circunstâncias apertam, transmitem também uma noção de facilitismo irrealista e contraproducente. O Estado não pode tudo nem tem que poder tudo. Os cheques-dentista têm que estar inseridos num sistema de saúde racional e de custos controlados. O ensino até aos 18 anos tem que ser pensado em termos de dar a formação devida às diferentes pessoas, diferentes talentos e diferentes ambições. Estas medidas nunca deviam ser olhadas isoladamente, deveriam sempre ser parte de algo mais estruturado e abrangente em que se percebesse um sentido, uma lógica, um orçamento, uma racionalização de custos. Mas não – o governo não quer que pensemos, que discutamos as políticas sectoriais, o governo quer-nos calar com medidas “simpáticas”, mas que não restem ilusões, todas estas medidas têm custos que ninguém questiona, o deficit aumentará ainda mais bem como o endividamento externo, e nenhuma destas “medidas” nos fará estar melhor quando a crise passar, nem contribuirá para o enriquecimento do país. Até lá o calendário eleitoral terá sido cumprido com um ritmo de inexorável cegueira em que nos empobrecemos um pouquinho mais cada dia que passa.
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26.4.09

A propósito da extensão do ensino obrigatório para 12 anos (pretexto para o meu post de ontem) é de ler o artigo hoje no Público de António Barreto do qual transcrevo o parágrafo final:
Esta teria sido uma excelente oportunidade para repensar o ensino secundário, a sua função e a sua natureza. Poder-se-ia ter examinado o ensino profissional equiparado ao secundário, dando-lhe mais importância. Era uma ocasião excelente para revigorar o ensino tecnológico, que este Governo promoveu, é certo, mas que espera pela definição de uma vocação forte e de uma missão de longo alcance. Teria sido possível rever questões fundamentais como sejam a duração do secundário ou a organização curricular que, actualmente, deixa muito a desejar. Era a altura ideal para apreciar serenamente a articulação do secundário com o ensino superior, tanto politécnico como universitário. Era uma grande oportunidade, era. Mas já não é.
E não é porque é mais importante anunciar neste frenesim mediático do que planear e reformar.
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Esta teria sido uma excelente oportunidade para repensar o ensino secundário, a sua função e a sua natureza. Poder-se-ia ter examinado o ensino profissional equiparado ao secundário, dando-lhe mais importância. Era uma ocasião excelente para revigorar o ensino tecnológico, que este Governo promoveu, é certo, mas que espera pela definição de uma vocação forte e de uma missão de longo alcance. Teria sido possível rever questões fundamentais como sejam a duração do secundário ou a organização curricular que, actualmente, deixa muito a desejar. Era a altura ideal para apreciar serenamente a articulação do secundário com o ensino superior, tanto politécnico como universitário. Era uma grande oportunidade, era. Mas já não é.
E não é porque é mais importante anunciar neste frenesim mediático do que planear e reformar.
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25.4.09
"Tomar Medidas"
A capa do Público de hoje “Os jovens têm que estudar até aos 18 anos, mas podem trabalhar com 16” mostra a ligeireza com que se anunciam medidas sem aprofundar todas as implicações, nomeadamente em termos de legislação já existente, que cada nova medida/lei pressupõe.
Não ponho em causa a bondade da lei que, no entanto, exigia ser bem amadurecida em termos do sistema de ensino e de opções que os jovens de 14 anos para cima e sem “vocação” para os estudos possam contemplar de forma positiva e útil para o futuro. Ponho em causa, no entanto, a forma como é feita e a calendarização do anúncio. Todos os dias um anúncio; todos os dias uma medida: um dia a possibilidade de acesso às nossas contas bancárias por funcionários administrativos, com inversão do ónus da prova para fiscalizar eventuais enriquecimentos ilícitos, no outro dia é uma nova auto-estrada que se anuncia e no dia seguinte são os genéricos gratuitos para os mais velhos e mais pobres, e no dia seguinte a escolaridade obrigatória até ao 12º ano. Tantas medidas deixam-me algo atordoada: um dia olho para a saúde, outro para a educação, outro para as obras públicas, outro para as liberdades individuais, outro para os impostos numa tentativa de perceber a conveniência, justeza e bondade das medidas. Torna-se complicado uma avaliação séria por parte dos eleitores, e capaz de passar para além do ruído do marketing político e da retórica do “anúncio”; mas talvez a intenção seja essa mesma: a de que os eleitores se atordoem, se deslumbrem e se percam no mar de anúncios. Eu confesso a minha incapacidade para descobrir uma política coerente, uma estratégia para o país e para o combate à crise; não consigo perceber um rumo, uma visão um “todo” coerente que faça algum sentido.
Estas medidas avulsas parecem ser de quem desesperadamente precisa de “fazer alguma coisa” para que ninguém se detenha a pensar “noutras coisas”. E assim sendo, até parece que a crise financeira internacional que desencadeou “a” crise em que o mundo mergulha, não poderia ter chegado a uma hora mais conveniente para José Sócrates. É o pretexto perfeito para legitimar anúncios (contra o bota-abaixismo, há que tomar medidas para combater a crise, diz o Primeiro-ministro), uns atrás dos outros, sempre em ambiente preparado para o efeito e para maximizar o impacto mediático, que se materializam em medidas dispersas e de razoabilidade e viabilidade discutíveis e tantas vezes contestadas por vários sectores da sociedade. Se tem sido assim até agora como será daqui para a frente, e até às eleições legislativas? Temo pelo que ainda nos espera e pergunto-me se não haverá também alguma má-fé nesta torrente de anúncios em clima eleitoral com o caso Freeport em pano de fundo. Nada me faz esperar melhor pois nada parece abalar a determinação do Primeiro-ministro que está empenhado numa verdadeira luta mediática apostada em vencer o pessimismo (e em distrair os eleitores?), se lança numa cega fuga para a frente, afundando a pouco e pouco o país num desequilibro financeiro perigoso que tantos já vêem. Tudo leva a crer que, tal como já tem sido dito, nos arriscamos a sair da “crise” (a internacional) pior do que estávamos quando nela entrámos.
Não ponho em causa a bondade da lei que, no entanto, exigia ser bem amadurecida em termos do sistema de ensino e de opções que os jovens de 14 anos para cima e sem “vocação” para os estudos possam contemplar de forma positiva e útil para o futuro. Ponho em causa, no entanto, a forma como é feita e a calendarização do anúncio. Todos os dias um anúncio; todos os dias uma medida: um dia a possibilidade de acesso às nossas contas bancárias por funcionários administrativos, com inversão do ónus da prova para fiscalizar eventuais enriquecimentos ilícitos, no outro dia é uma nova auto-estrada que se anuncia e no dia seguinte são os genéricos gratuitos para os mais velhos e mais pobres, e no dia seguinte a escolaridade obrigatória até ao 12º ano. Tantas medidas deixam-me algo atordoada: um dia olho para a saúde, outro para a educação, outro para as obras públicas, outro para as liberdades individuais, outro para os impostos numa tentativa de perceber a conveniência, justeza e bondade das medidas. Torna-se complicado uma avaliação séria por parte dos eleitores, e capaz de passar para além do ruído do marketing político e da retórica do “anúncio”; mas talvez a intenção seja essa mesma: a de que os eleitores se atordoem, se deslumbrem e se percam no mar de anúncios. Eu confesso a minha incapacidade para descobrir uma política coerente, uma estratégia para o país e para o combate à crise; não consigo perceber um rumo, uma visão um “todo” coerente que faça algum sentido.
Estas medidas avulsas parecem ser de quem desesperadamente precisa de “fazer alguma coisa” para que ninguém se detenha a pensar “noutras coisas”. E assim sendo, até parece que a crise financeira internacional que desencadeou “a” crise em que o mundo mergulha, não poderia ter chegado a uma hora mais conveniente para José Sócrates. É o pretexto perfeito para legitimar anúncios (contra o bota-abaixismo, há que tomar medidas para combater a crise, diz o Primeiro-ministro), uns atrás dos outros, sempre em ambiente preparado para o efeito e para maximizar o impacto mediático, que se materializam em medidas dispersas e de razoabilidade e viabilidade discutíveis e tantas vezes contestadas por vários sectores da sociedade. Se tem sido assim até agora como será daqui para a frente, e até às eleições legislativas? Temo pelo que ainda nos espera e pergunto-me se não haverá também alguma má-fé nesta torrente de anúncios em clima eleitoral com o caso Freeport em pano de fundo. Nada me faz esperar melhor pois nada parece abalar a determinação do Primeiro-ministro que está empenhado numa verdadeira luta mediática apostada em vencer o pessimismo (e em distrair os eleitores?), se lança numa cega fuga para a frente, afundando a pouco e pouco o país num desequilibro financeiro perigoso que tantos já vêem. Tudo leva a crer que, tal como já tem sido dito, nos arriscamos a sair da “crise” (a internacional) pior do que estávamos quando nela entrámos.
22.4.09

Fiquei ontem na dúvida (na entrevista da RTP ao Primeiro-ministro) sobre quem estaria mais incomodado por ter que abordar o caso Freeport, se os jornalistas se José Sócrates. De olhar cerrado e postura entre o ausente e o glaciar colocaram as questões como quem cumpre um guião (ou como quem cumpre uma pena?). Nem mais. O que foi manifestamente “menos” para quem ouviu. O Primeiro-ministro de Portugal só disse o que tinha ensaiado e só falou do que quis.
Uma das piores características do nosso Primeiro-ministro José Sócrates é tomar-nos por parvos, e tomarem-me por parva é, parafraseando Pinheiro de Azevedo, “uma coisa que me chateia”. Toda a entrevista se pautou por um ar falsamente ingénuo e espantado que com a maior naturalidade e desplante nega evidências (por exemplo, o PR não falou para o governo porque estamos em consonância) e também não esqueceu o seu “momento Chavez” ao anunciar o reforço do subsidio social assim como quem passa a mão pelo pêlo afagando o eleitor. Já são quatro anos de deliberadamente distorcer e contorcer a verdade e de querer enganar com frases feitas em laboratório, e medidas costuradas em patchwork com o retalho que na altura vier calhar à mão.
Adenda, e ainda sobre a entrevista do Primeiro-ministro:
Deixando comentários mais profundos de lado, eu bem gostava de saber a que obras é que o nosso primeiro-ministro se referia, na entrevista de hoje à RTP, quando falava de “livros da literatura da América Latina onde se viam organizar processos contra políticos”? É que, mesmo depois de dar várias voltas à cabeça, não percebi. É uma espécie particular à América Latina? Há alguma obra imorredoira, superior a todas as outras, por lá produzida sobre a matéria? Alguém me ajuda?
Paulo Tunhas no Cachimbo de Magritte
Também eu reparei nessa referência "cultural" e, por um momento tentei perceber que obra o PM teria em mente. A única explicação que encontro é a de confundir o conceito de "República das Bananas" com "Literatura Latino-Americana". Será?
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Uma das piores características do nosso Primeiro-ministro José Sócrates é tomar-nos por parvos, e tomarem-me por parva é, parafraseando Pinheiro de Azevedo, “uma coisa que me chateia”. Toda a entrevista se pautou por um ar falsamente ingénuo e espantado que com a maior naturalidade e desplante nega evidências (por exemplo, o PR não falou para o governo porque estamos em consonância) e também não esqueceu o seu “momento Chavez” ao anunciar o reforço do subsidio social assim como quem passa a mão pelo pêlo afagando o eleitor. Já são quatro anos de deliberadamente distorcer e contorcer a verdade e de querer enganar com frases feitas em laboratório, e medidas costuradas em patchwork com o retalho que na altura vier calhar à mão.
Adenda, e ainda sobre a entrevista do Primeiro-ministro:
Deixando comentários mais profundos de lado, eu bem gostava de saber a que obras é que o nosso primeiro-ministro se referia, na entrevista de hoje à RTP, quando falava de “livros da literatura da América Latina onde se viam organizar processos contra políticos”? É que, mesmo depois de dar várias voltas à cabeça, não percebi. É uma espécie particular à América Latina? Há alguma obra imorredoira, superior a todas as outras, por lá produzida sobre a matéria? Alguém me ajuda?
Paulo Tunhas no Cachimbo de Magritte
Também eu reparei nessa referência "cultural" e, por um momento tentei perceber que obra o PM teria em mente. A única explicação que encontro é a de confundir o conceito de "República das Bananas" com "Literatura Latino-Americana". Será?
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21.4.09
Da Cultura
Neste Domingo que passou fiquei admirada por estar tanto tempo sentada em frente da televisão a ver um programa “cultural”. Não me acontece com frequência tal coisa. Os programas culturais normalmente têm o condão de, mais cedo ou mais tarde me aborrecerem ou irritarem, por isso já nem me preocupo em vê-los ou em saber quem quem é o convidado, qual é o tema de que programa. Neste Domingo enquanto zapava já naquele impulso de “ah, não há nada, desliga-se” apanhei o Câmara Clara com António M. Feijó e Vasco Graça e Moura a falar de Shakespeare e fiquei a ouvir. O programa estava a começar e não era sobre Shakespeare, mas sim sobre Grandes Romances de Amor em que se pedia a cada um dos convidados para levar alguns romances e falar sobre eles. Nunca resisto a nada que tenha a ver com romance quando sinto o séc. XIX por perto, (coisa que considero inevitável quando se fala em romance), e por isso encostei-me para trás e deixei-me levar por aqueles dois amantes de literatura no percurso que cada um talhou com as escolhas que fez.
AMF e VGM falavam com uma voz tranquila e baixa, opinavam, teciam relações, encontravam referências, ajustavam ideias e nada era complicado, obscuro ou rebuscado, só transparecia a simplicidade de quem se deixa levar pelo verdadeiro prazer da leitura de cada uma das obras, a vontade de mostrar os caminhos que elas abrem, de pousar o olhar de uma ou de outra forma. Foi bom relembrar umas, querer ler outras e sobretudo foi bom tentar perceber porque se perde tanto tempo a ler tralha e mais tralha com tanta boa literatura que passou o teste do tempo e das modas a merecer ser (re)descoberta e desvendada. O paraíso poderia (também) ser algo parecido com aquilo. As poucas interrupções e gargalhadas de Paula Moura Pinheiro destoavam um pouco, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma pois quebrava o ritmo e o tom que os convidados impuseram ao programa. Mas pior do que isso foram as ruidosas interrupções, sem aviso e no meio da conversa, de pura propaganda “cultural” a filmes, temporadas musicais ou concertos. Porque é que era preciso aquilo? Não é mais importante para a “cultura” saber passar o prazer de a usufruir do que cansar-nos com a lista exaustiva daquilo que vai acontecer, e que já todos tivemos oportunidade de ver e ler nos jornais e nos cartazes espalhados pelas cidades?
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AMF e VGM falavam com uma voz tranquila e baixa, opinavam, teciam relações, encontravam referências, ajustavam ideias e nada era complicado, obscuro ou rebuscado, só transparecia a simplicidade de quem se deixa levar pelo verdadeiro prazer da leitura de cada uma das obras, a vontade de mostrar os caminhos que elas abrem, de pousar o olhar de uma ou de outra forma. Foi bom relembrar umas, querer ler outras e sobretudo foi bom tentar perceber porque se perde tanto tempo a ler tralha e mais tralha com tanta boa literatura que passou o teste do tempo e das modas a merecer ser (re)descoberta e desvendada. O paraíso poderia (também) ser algo parecido com aquilo. As poucas interrupções e gargalhadas de Paula Moura Pinheiro destoavam um pouco, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma pois quebrava o ritmo e o tom que os convidados impuseram ao programa. Mas pior do que isso foram as ruidosas interrupções, sem aviso e no meio da conversa, de pura propaganda “cultural” a filmes, temporadas musicais ou concertos. Porque é que era preciso aquilo? Não é mais importante para a “cultura” saber passar o prazer de a usufruir do que cansar-nos com a lista exaustiva daquilo que vai acontecer, e que já todos tivemos oportunidade de ver e ler nos jornais e nos cartazes espalhados pelas cidades?
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20.4.09
Da Apatia
Já passaram alguns dias sobre a divulgação na TVI deste vídeo. Enquanto o PS, o Governo e o Primeiro-ministro José Sócrates em particular “assobiam para o lado” (movendo processos contra jornalistas escolhidos a dedo e evitando nomes conceituados, influentes e pesados da crítica e comentário político), o país parece adormecido e já nem reage a algo que me parece merecedor de atenção, de rigoroso escrutínio, e de questionamento. A chuva caiu, o sol brilhou, o Presidente da República fez um discurso que incomodou, trocaram-se recados dizendo que não se recebem recados, os “momentos Chavez” sucedem-se, esconjuram-se os “bota-abaixistas” e a nefasta influência que exercem sobre o optimismo reinante de que “é com medidas que se combate a crise”, inventam-se medidas para combater a crise, fazem-se leis contra o enriquecimento ilícito, discute-se, o timing do anúncio pelo PSD do seu candidato às Europeias, discute-se o candidato himself que não é tão abrangente como deveria, que não é uma figura tão histórica como deveria, Jorge Sampaio falando disse que não falaria, Vital Moreira esclareceu que afinal poderá falar sobre política nacional e que afinal poderá votar Durão Barroso, o FCP ganhou, os preservativos continuaram a dar pretexto para que se fale deles, o vídeo de Susan Boyle fez sucesso na internet.
Quem olhe de fora para o nosso país nada vê. Estamos todos resignados e adaptados à possibilidade de um certo nível de corrupção na classe dirigente. Isso já não nos indigna, não nos revolta. Mais, até desculpamos (vejam-se os casos Fátima Felgueiras e afins) se forem populares e tiverem “obra feita”. Depois de rever o vídeo e me intrigar com esta apatia com que os portugueses o viram nos sofás das suas casas, porque será que não me intriga que se deixe ao poder discricionário de uma administração fiscal, e dos sentimentos (normalmente pouco nobres, louváveis e recomendáveis) que na altura moverem quem de direito, o poder de entrar pelas nossas contas bancárias dentro e saber de que matérias é feita a nossa vida.
Quem olhe de fora para o nosso país nada vê. Estamos todos resignados e adaptados à possibilidade de um certo nível de corrupção na classe dirigente. Isso já não nos indigna, não nos revolta. Mais, até desculpamos (vejam-se os casos Fátima Felgueiras e afins) se forem populares e tiverem “obra feita”. Depois de rever o vídeo e me intrigar com esta apatia com que os portugueses o viram nos sofás das suas casas, porque será que não me intriga que se deixe ao poder discricionário de uma administração fiscal, e dos sentimentos (normalmente pouco nobres, louváveis e recomendáveis) que na altura moverem quem de direito, o poder de entrar pelas nossas contas bancárias dentro e saber de que matérias é feita a nossa vida.
10.4.09
"Política de Verdade"
Costumo passar pelos momentos das campanhas eleitorais sem nenhum entusiasmo. Não costumo gostar do discurso eleitoralista, abomino as promessas vãs e demagógicas e desconfio das promessas realistas. Tenho alergia à encenação dos entusiasmos e crenças num Portugal e num futuro melhores. Aliás o passado recente tem demonstrado a incapacidade da utilização da palavra “melhor” aplicada ao universo político, onde nada parece melhorar. Cada vez há mais manipulação e tráfico de influência promotores da promiscuidade entre as “forças” políticas no poder e as “forças” da sociedade civil nomeadamente as forças económicas e financeiras tornando mais difícil separar o trigo do joio, a boa da má moeda e, se distraídos, diluir tudo muito bem para que seja mais difícil apurar a responsabilidade de sucesso de uma legislatura, de um mandato municipal, etc. Mas há quem não ande distraído e sinta o universo do poder cada vez mais nas mãos de mercenários e de profissionais que vivem de e para o poder sem o qual simplesmente não têm existência. Nota-se mais empenho, mais ambição, mais agilidade para tocar em vários instrumentos, mas menos inocência, certamente menos vocação e sentido de serviço.
Por mim, não precisava de campanhas eleitorais tal como elas se fazem hoje. Não gosto das ruas e praças (não é só a do Marquês, como o “Zé” num acesso de provincianismo sugere) cheias de outdoors, irritam-me os slogans, o barulho e o ruído políticos e incomoda-me ainda mais que nos tomem por parvos com promessas e discurso tão cheios de nada se olharmos para além da retórica e da demagogia. Nem quero nem pensar naquilo em que José Sócrates se transformará, no que dirá, no que prometerá quando a campanha eleitoral arrancar em pleno. A amostra destes últimos quatro anos tem sido ampla e elucidativa, e não gosto do que vejo nem do que ouço.
Por isso espero sinceramente que a frase que acompanha a fotografia de Manuela Ferreira Leite nos outdoors “Política de Verdade” seja um programa de como fazer campanha eleitoral e nunca esqueça a verdade que enuncia. Não importa que o cartaz seja “pobre” e banal, a fotografia demasiado normal e a frase tão comum que qualquer pessoa a poderia dizer. e diz ao ponto de a esvaziar de sentido. Nada disso interessa. Digo mais: antes assim do que um fundo intelectual ou esteticamente elaborado e antes assim do fotografias de pose complexa acompanhadas de frases todas “porreiro, pá” ou tecnologicamente humoradas do ponto de vista semântico e rimadas do ponto de vista fonético, todas inventadas em laboratório esterilizado, após intenso e caro brainstorming criativo pelo gabinete dos especialistas em comunicação que cuidam de tudo por fora com verniz, luz, animação 3D e sem nunca esquecer a música épica a animar as gentes, e esquecem o que deve estar por dentro: um programa político simples, coerente e realista e, claro, o sentido de missão, o sentido do dever, a honestidade, a honra. Nos dias que correm isto é puro luxo.
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Por mim, não precisava de campanhas eleitorais tal como elas se fazem hoje. Não gosto das ruas e praças (não é só a do Marquês, como o “Zé” num acesso de provincianismo sugere) cheias de outdoors, irritam-me os slogans, o barulho e o ruído políticos e incomoda-me ainda mais que nos tomem por parvos com promessas e discurso tão cheios de nada se olharmos para além da retórica e da demagogia. Nem quero nem pensar naquilo em que José Sócrates se transformará, no que dirá, no que prometerá quando a campanha eleitoral arrancar em pleno. A amostra destes últimos quatro anos tem sido ampla e elucidativa, e não gosto do que vejo nem do que ouço.
Por isso espero sinceramente que a frase que acompanha a fotografia de Manuela Ferreira Leite nos outdoors “Política de Verdade” seja um programa de como fazer campanha eleitoral e nunca esqueça a verdade que enuncia. Não importa que o cartaz seja “pobre” e banal, a fotografia demasiado normal e a frase tão comum que qualquer pessoa a poderia dizer. e diz ao ponto de a esvaziar de sentido. Nada disso interessa. Digo mais: antes assim do que um fundo intelectual ou esteticamente elaborado e antes assim do fotografias de pose complexa acompanhadas de frases todas “porreiro, pá” ou tecnologicamente humoradas do ponto de vista semântico e rimadas do ponto de vista fonético, todas inventadas em laboratório esterilizado, após intenso e caro brainstorming criativo pelo gabinete dos especialistas em comunicação que cuidam de tudo por fora com verniz, luz, animação 3D e sem nunca esquecer a música épica a animar as gentes, e esquecem o que deve estar por dentro: um programa político simples, coerente e realista e, claro, o sentido de missão, o sentido do dever, a honestidade, a honra. Nos dias que correm isto é puro luxo.
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8.4.09
O Eduardo Pitta tem alguma razão, mas não a tem toda.Em primeiro lugar porque a bondade do Código Contributivo apresentado para discussão não me parece assim tão óbvia. Neste período de crise, em que as empresas estão a falir a um ritmo assustador e o desemprego é uma realidade social, para não falar no drama que representa para as famílias, difícil de escapar, as contribuições da Segurança Social são ainda mais escassas do que as que existiam e que, como sabemos, eram baixas por causa do fraco crescimento demográfico e do envelhecimento da população. A preocupação do governo não é a do trabalhador dependente de 40 anos, é uma preocupação de cash-flow. O governo quer dinheiro já para poder pagar as pensões hoje e manter esse mito das nossas sociedades europeias ocidentais dependentes e viciadas em estado social, que é a Segurança Social. Para isso prepara-se para estrangular ainda mais as empresas portuguesas que não são em nada como a Mota e Engil ou a Portugal Telecom, excepções de uma regra feita de pequenas e médias empresas.
Em segundo lugar porque ninguém garante ao trabalhador dependente de 40 anos que ele quando se reformar possa uma pensão “por completo” para qual ele contribuiu ao longo da sua vida laboral. Ninguém pode garantir que a médio prazo (quanto mais a longo prazo) a segurança social tenha dinheiro suficiente para poder satisfazer as reformas de todos os contribuintes.
Em terceiro lugar porque muitas vezes os subsídios de que fala EP são uma das formas que as empresas têm de contornar o excessivo custo que é ter um empregado. Cada empregado contratado representa um enorme peso contributivo (Segurança Social e IRS retido). É verdade que muitas empresas poderiam dar salários mais interessantes e abandonar “esquemas” de subsídios e outras ajudas de custo tais, mas estamos a falar de grandes empresas com lucros razoáveis, excepção à regra, como já referi. Para muito do tecido empresarial português feito de pequenas e médias empresas cada empregado que se contrata é um peso tão grande que só o recurso a estes subsídios pode permitir que a empresa o consiga contratar. Infelizmente, num país onde a flexibilidade laboral é pouca contratar um empregado é uma decisão sempre difícil e cara. Cara demais.
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Em segundo lugar porque ninguém garante ao trabalhador dependente de 40 anos que ele quando se reformar possa uma pensão “por completo” para qual ele contribuiu ao longo da sua vida laboral. Ninguém pode garantir que a médio prazo (quanto mais a longo prazo) a segurança social tenha dinheiro suficiente para poder satisfazer as reformas de todos os contribuintes.
Em terceiro lugar porque muitas vezes os subsídios de que fala EP são uma das formas que as empresas têm de contornar o excessivo custo que é ter um empregado. Cada empregado contratado representa um enorme peso contributivo (Segurança Social e IRS retido). É verdade que muitas empresas poderiam dar salários mais interessantes e abandonar “esquemas” de subsídios e outras ajudas de custo tais, mas estamos a falar de grandes empresas com lucros razoáveis, excepção à regra, como já referi. Para muito do tecido empresarial português feito de pequenas e médias empresas cada empregado que se contrata é um peso tão grande que só o recurso a estes subsídios pode permitir que a empresa o consiga contratar. Infelizmente, num país onde a flexibilidade laboral é pouca contratar um empregado é uma decisão sempre difícil e cara. Cara demais.
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5.4.09
Mário Soares diz-se “enjoado” (SIC Jornal da Noite de hoje) com o caso Freeport. Eu também. Ele diz-se “enjoado” com as fugas ao segredo de justiça, com os julgamentos em praça pública. Eu, ao contrário de MS, estou enjoada com tudo o que vem à luz do dia do passado de José Sócrates e que teima em permanecer enevoado e nunca cabalmente esclarecido: licenciatura, projectos de engenharia, o caso Freeport, o tio, o primo, a mãe. Mas o pior é o pressentimento (já para não ser cínica e não falar de certeza) de que tudo permanecerá assim mesmo, num limbo jurídico processual entre fugas de informação, pressões aos magistrados, alvos de muitos Prós & Contras e debates cheios de especialistas deixando higienicamente de lado e os factos (nomeadamente os factos políticos relevantes) que nunca serão objecto de escrutínio, investigação séria e cabal, de apuramento da verdade e de esclarecimento do público. Talvez o “público” tenha exactamente o que merece, não é Dr. Mário Soares?.
3.4.09
"Read my lips"
José Sócrates, e os seus acólitos comunicacionais podem dar as voltas que quiserem à cabeça, esgotarem-se em brainstorming, consultarem dicionários de sinónimos e rimas para ajudar a fabricar os slogans e as frases “que ficam no ouvido”. Podem vasculhar catálogos de gadgets electrónicos acabados de sair e todas as novas tecnologias para “épater le bourgeois” e dar o lustro dos neons à pobreza portuguesa. Pode inaugurar escolas, lares, ou centros de excelência disto e daquilo; apresentar power-points bem como oferecer incentivos a plateias ensaiadas, ordenadas e agradecidas pelo obséquio. Pode, com ajuda da calculadora do Magalhães e a ajuda preciosa do sistema bancário calcular os descontos dos modelos de painéis solares das duas empresas bafejadas pela sorte do favor socrático, bem como calcular os descontos nas prestações das casas inferiores a 100€ para quem esteja desempregado. Pode pagar a “think tanks” para fazerem a “engenharia política” necessária para descobrirem a pólvora que só explode mediante um complexo cálculo de condições, mas sempre maximizando o impacto mediático, persistente com os actos eleitorais em pano de fundo, claro.
O problema é que não há nada a inventar. Dê-se a volta que se der, arranjem-se os incentivos que se arranjarem, os almoços nunca são de graça e a factura das medidas anti-crise desabarão em cima de todos, e talvez muito especialmente em cima daqueles que as medidas visavam defender. As medidas para efeito eleitoral nada ajudam a médio e a longo prazo (eu até duvido que sejam realmente úteis a curto prazo). A crise, a nossa e a que depois veio de “fora”, é uma crise que afecta a sociedade transversalmente, e a sociedade protuguesa não é excepção; é uma crise de todos sobretudo da classe média que, no nosso caso, não é particularmente rica. Por isso nenhum dos incentivos, medidas e apoios poderá ser eficaz no combate à crise. Só uma medida, clara e transparente como a água é que o poderia ser. Só que tem um problema: não é nova nem brilha como o neon, mas já foi usada e testada com sucesso por tantos e é amada sobretudo pelos políticos anglo-saxónicos em campanhas eleitorais, pois costuma ser do agrado de todos. os eleitores e contribuintes. Chama-se alívio da carga fiscal. Claro que esse alívio da carga fiscal exige uma gestão rigorosa dos dinheiros públicos, coisa que os nossos políticos não gostam, não estão habituados nem gostam que isso lhes seja exigido pois limita-lhes a faculdade de, arbitrariamente e de forma opaca, conceder benesses e favores sob forma de subsídios ou incentivos, a determinados grupos que nesse momento se apresentem melhores servidores dos interesses do grupo decisor.
Este é o retrato do combate à crise à maneira de José Sócrates, difícil de se levar a sério e pouco merecedor de aplauso.
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O problema é que não há nada a inventar. Dê-se a volta que se der, arranjem-se os incentivos que se arranjarem, os almoços nunca são de graça e a factura das medidas anti-crise desabarão em cima de todos, e talvez muito especialmente em cima daqueles que as medidas visavam defender. As medidas para efeito eleitoral nada ajudam a médio e a longo prazo (eu até duvido que sejam realmente úteis a curto prazo). A crise, a nossa e a que depois veio de “fora”, é uma crise que afecta a sociedade transversalmente, e a sociedade protuguesa não é excepção; é uma crise de todos sobretudo da classe média que, no nosso caso, não é particularmente rica. Por isso nenhum dos incentivos, medidas e apoios poderá ser eficaz no combate à crise. Só uma medida, clara e transparente como a água é que o poderia ser. Só que tem um problema: não é nova nem brilha como o neon, mas já foi usada e testada com sucesso por tantos e é amada sobretudo pelos políticos anglo-saxónicos em campanhas eleitorais, pois costuma ser do agrado de todos. os eleitores e contribuintes. Chama-se alívio da carga fiscal. Claro que esse alívio da carga fiscal exige uma gestão rigorosa dos dinheiros públicos, coisa que os nossos políticos não gostam, não estão habituados nem gostam que isso lhes seja exigido pois limita-lhes a faculdade de, arbitrariamente e de forma opaca, conceder benesses e favores sob forma de subsídios ou incentivos, a determinados grupos que nesse momento se apresentem melhores servidores dos interesses do grupo decisor.
Este é o retrato do combate à crise à maneira de José Sócrates, difícil de se levar a sério e pouco merecedor de aplauso.
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28.3.09

Pior do que isto, e pior do que o CCB não ter começado o espectáculo à hora anunciada (tanta subserviência!) só isto, que é a imputação de responsabilidade - culpa - a outro, uma de tantas formas de se fazer de vítima e de “fazer queixinhas”. É este o homem que temos, e esta a Republica das bananas em que vivemos.
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"Não me Entretenho a Descrever a Crise"
Ouvi da boca do Primeiro-ministro no Jornal da Noite da SIC de quinta-feira esta afirmação extraordinária: “não me entretenho a descrever a crise” nem (e cito de cor) a ser pessimista, astrólogo e vidente. Nestas declarações proferidas quando da visita a uma unidade industrial corticeira, mais uma vez se põe em evidência a distancia entre o Primeiro-ministro que nos governa, cada dia pior, de forma cada vez mais aleatória, caprichosa e insegura, e o país real que deveria conhecer e governar. Um Primeiro-ministro que se preze deveria descrever a crise, mas para isso precisa de saber, de estudar, de ouvir para a conhecer. Deveria saber explicar aos seus eleitores e aos cidadãos contribuintes os contornos da crise no país: o desemprego crescente decorrente de falências de um sector privado cada vez mais frágil face aos constrangimentos financeiros, fiscais e às dificuldades conjunturais de uma crise que afecta o mundo, um sector bancário sem liquidez e imóvel que não consegue investir nem emprestar, o empobrecimento geral da população, o gigantesco endividamento externo e uma maior restrição e custo de financiamento do estado no exterior causado pela baixa do rating da República Portuguesa, etc, etc.
A ligeireza e a sloganização da nossa política governativa impele o Primeiro-ministro a buscar (ou improvisar) medidas sem nexo aparente de combate à crise que caibam em duas frases e possam ser anunciadas com efeitos sonoros nos jornais televisivos. Não se detecta nessas medidas anunciadas um objectivo claro. As injecções de capitais dos contribuintes ao sector bancário são discutíveis e mal percebidas em alguns dos casos (BPN, por exemplo); a redução em 50% da prestação da casa, uma moratória por dois anos para quem tem prestações inferiores a 500€ mensais e que só afecta e interessa a um núcleo muito pequeno de cidadãos, que não sabem se daqui a dois anos estarão em condições de ressarcir o banco, é também um adiar da crise; o desconto para a compra de painéis solares de determinadas marcas e modelos comprados através de uma financiamento bancário (sempre a banca, sempre a banca como intermediária) mostra bem a irrelevância e leviandade destas medidas. A exortação feita por José Sócrates para que se comprem os ditos painéis solares para ajudar a crise é tão ridícula que embaraça quem ouve (já que não embaraça quem diz) pois expõe de forma inquestionável a distância entre a realidade da crise e o que se passa na cabeça de JS e dos seus assessores - um eufemismo para a ignorância total que revela sobre o mundo em que vive e a incapacidade de se rodear de quem saiba e lhe explique. A aposta cega nos grandes investimentos (TGV sobretudo) parece ser mais uma fuga para a frente, uma teimosia megalómana do que decorrente de análise das reais necessidades do país.
As medidas avulsas para a crise “vendem” bem do ponto de vista do sound bite: são como quem anuncia uma campanha de promoções, uma época de saldos, mas depois de se perceber o alcance das mesmas voltamos à estaca zero: a classe média que sustenta a economia dum país, e neste caso a nossa classe média, bem como as nossas pequenas empresas estão na mesma, isto é, cada dia pior: cada dia mais estranguladas com os impostos, com os custos sociais, com a insegurança das encomendas que não chegam e dos empregos que se podem perder. Neste caso não há painéis solares nem TCGs que lhes valham. O Primeiro-ministro devia parar um pouco para entender a crise, só assim poderá explicá-la devidamente (e não “entreter-se” nas palavras dele) aos cidadãos, só assim lhe será dada credibilidade, algo que manifestamente teima em lhe escapar um pouco mais a cada dia que passa, a ter uma base sólida para pensar as medidas contra a crise e não um desbaratar de dinheiros públicos que tornarão a situação financeira do país insustentável. José Sócrates não governa. Entretém.
Adenda: Li isto depois de escrever o este post. Alguém que parece não se importar de falar sobre a crise e de falar verdade. Mas nós temos eleições, não é? E falar a verdade em períodos eleitorais (e nos outros) não é lamentavelmente uma opção para o nosso Primeiro-ministro
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A ligeireza e a sloganização da nossa política governativa impele o Primeiro-ministro a buscar (ou improvisar) medidas sem nexo aparente de combate à crise que caibam em duas frases e possam ser anunciadas com efeitos sonoros nos jornais televisivos. Não se detecta nessas medidas anunciadas um objectivo claro. As injecções de capitais dos contribuintes ao sector bancário são discutíveis e mal percebidas em alguns dos casos (BPN, por exemplo); a redução em 50% da prestação da casa, uma moratória por dois anos para quem tem prestações inferiores a 500€ mensais e que só afecta e interessa a um núcleo muito pequeno de cidadãos, que não sabem se daqui a dois anos estarão em condições de ressarcir o banco, é também um adiar da crise; o desconto para a compra de painéis solares de determinadas marcas e modelos comprados através de uma financiamento bancário (sempre a banca, sempre a banca como intermediária) mostra bem a irrelevância e leviandade destas medidas. A exortação feita por José Sócrates para que se comprem os ditos painéis solares para ajudar a crise é tão ridícula que embaraça quem ouve (já que não embaraça quem diz) pois expõe de forma inquestionável a distância entre a realidade da crise e o que se passa na cabeça de JS e dos seus assessores - um eufemismo para a ignorância total que revela sobre o mundo em que vive e a incapacidade de se rodear de quem saiba e lhe explique. A aposta cega nos grandes investimentos (TGV sobretudo) parece ser mais uma fuga para a frente, uma teimosia megalómana do que decorrente de análise das reais necessidades do país.
As medidas avulsas para a crise “vendem” bem do ponto de vista do sound bite: são como quem anuncia uma campanha de promoções, uma época de saldos, mas depois de se perceber o alcance das mesmas voltamos à estaca zero: a classe média que sustenta a economia dum país, e neste caso a nossa classe média, bem como as nossas pequenas empresas estão na mesma, isto é, cada dia pior: cada dia mais estranguladas com os impostos, com os custos sociais, com a insegurança das encomendas que não chegam e dos empregos que se podem perder. Neste caso não há painéis solares nem TCGs que lhes valham. O Primeiro-ministro devia parar um pouco para entender a crise, só assim poderá explicá-la devidamente (e não “entreter-se” nas palavras dele) aos cidadãos, só assim lhe será dada credibilidade, algo que manifestamente teima em lhe escapar um pouco mais a cada dia que passa, a ter uma base sólida para pensar as medidas contra a crise e não um desbaratar de dinheiros públicos que tornarão a situação financeira do país insustentável. José Sócrates não governa. Entretém.
Adenda: Li isto depois de escrever o este post. Alguém que parece não se importar de falar sobre a crise e de falar verdade. Mas nós temos eleições, não é? E falar a verdade em períodos eleitorais (e nos outros) não é lamentavelmente uma opção para o nosso Primeiro-ministro
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25.3.09
24.3.09
A Doença e o Doente
Uma boa notícia esta de que “os médicos querem aprender a dar más notícias da melhor maneira”. O termo “os médicos” que parece dar um cunho geral é entusiasmante, mas a realidade obriga-nos a ser cautelosos - mesmo que sejam uma pequena minoria, é já um sinal que o caracter omnipotente e omnisciente do médico começa a ser equacionado. Eu nunca percebi como é que profissionais cuja actividade é lidar com pessoas que neles depositam tantas expectativas e confiança, não têm no seu curriculum académico disciplinas de comunicação, e não aprendem técnicas comunicacionais. Ninguém mais do que o médico (de muitas especialidades, nomeadamente a mais falada: oncologia) que vê o ser humano com as suas debilidades e fragilidades, que vê a vida e a morte de perto, que sugere e gere opções e dúvidas, deles e dos pacientes, deve saber abordar as questões difíceis e saber comunicar as más notícias. Se há aqueles que têm “jeito” e são mais dotados do ponto de vista comunicacional, há outros que não têm tanto “jeito”, e ao enfrentar um doente em situação de crise sente-se em confronto com os seus próprios medos e reagem de maneira defensiva (tantas vezes ofensiva) coisa que o paciente sente imediatamente e que tantas vezes determina o bom desenrolar da relação profissional e o resultado do tratamento. Hoje este facto parece incontestado: a boa relação médico-paciente é fundamental para a optimização do tratamento e, quando assim for o caso, da cura. Para todos os médicos é de extrema utilidade a aprendizagem de técnicas e de algumas regras comunicacionais que asseguram que o diálogo se faz respeitando a integridade do paciente, sem que o médico nunca esqueça a dimensão humana e os sentimentos: os seus e os do paciente. Estas técnicas que deveriam ser de aprendizagem obrigatória na faculdade e nas restantes etapas da formação profissional de um médico são um importante passo que se dá na reorientação da medicina da patologia para o doente, isto é: o doente é mais importante do que a doença.
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A questão, ao contrário do que é sugerido aqui por Eduardo Pitta, não me parece ser relacionada com a liberdade de expressão e com o que diz o anúncio - que não é anúncio, nem caricatura, é pura propaganda - mas sim quem o encomendou, quem o pagou e quem o distribui, isto é, em que media ele passou, e a razão (necessidade?) de o fazer. A questão é essa. Se fosse um cartoon numa página de jornal ou um cartaz de um partido político como tantos outros, nomeadamente o de José Sócrates com nariz de Pinóquio a indignação não faria sentido, mesmo que quisessem que fizesse.
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23.3.09
Grand Torino 2
(...)
So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering
Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
A heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long
So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering
Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
A heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long
Grand Torino

Às vezes já sei que vou gostar do filme e ainda não o vi; foi assim, sabendo exactamente que ía gostar e do que ía gostar que fui ver Grand Torino. Não houve surpresas só a confirmação de um excepcional fazedor de filmes que é Clint Eastwood.
A história, que tem algo de pascal (adjectivo de Páscoa e não referente ao filósofo e físico francês), e gira em torno de Walt Kowalsky, uma personagem complexa, que vive em guerra com o mundo que desconhece cada vez mais. É um cínico ex-veterano de guerra de humor eficaz e rude, que se vê no fim da sua vida, viúvo e só, a viver com os fantasmas que o acompanham desde os tempos passados e com os ódios e indiferenças do presente. Ele é o motor da narrativa e é à volta dele que gravitam as restantes personagens: o Padre Janovich, o "over-educated 27-year-old virgin", (segundo Kowalsky), que vai crescendo e se vai revelando ao longo do filme, bem como os dois irmãos Hmong, Thao e Sue, que farão despertar em Kowalsky uma solidária amizade e respeito. Kowalsky é ao mesmo tempo um herói e um anti-herói: se por um lado é destemido e não teme nem o confronto, nem o uso da violência para se proteger e proteger os “seus”, por outro lado não esquece o que fez num passado longínquo quando não lhe deram ordens para o fazer, e tem por isso sentimentos conflituosos em relação à medalha que recebeu por esses seus feitos “heróicos” na guerra.
Talvez o que mais tenha gostado, e sem surpresa mas sempre com prazer, foi da cadência do filme, um andante que dá um passo de cada vez, mas que pisa seguro e na direcção certa: as cenas não se atropelam, a câmara não saltita, a música não se sobrepõe à narrativa e a história desenrola-se com a naturalidade das coisas que acontecem aqui ao lado. A realização e direcção de actores é sóbria e de grande contenção o que valoriza essa cadência agradável, humana, esse ritmo que não atordoa e que permite que ao longo do filme se mantenha uma postura e atitude contemplativas e uma sensação de tranquilidade e de serenidade, mesmo quando sentimos que algo de desagradável vai acontecer. Há sempre um tom latente de redenção (daí o pascal) mesmo com o preço da culpa dos outros, daquilo que os irá atormentar, e creio que esta dualidade é uma característica de Eastwood, uma humanidade que procura no turbilhão de possibilidades um (o) sentido final, num filme que não quer atordoar o espectador nem provocar sensações mais imediatas e visíveis, mas que aposta no que há de mais íntimo, na sensibilidade e na inteligência. Uma última referência à música, excelente, que emoldura este ambiente intimista.
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A história, que tem algo de pascal (adjectivo de Páscoa e não referente ao filósofo e físico francês), e gira em torno de Walt Kowalsky, uma personagem complexa, que vive em guerra com o mundo que desconhece cada vez mais. É um cínico ex-veterano de guerra de humor eficaz e rude, que se vê no fim da sua vida, viúvo e só, a viver com os fantasmas que o acompanham desde os tempos passados e com os ódios e indiferenças do presente. Ele é o motor da narrativa e é à volta dele que gravitam as restantes personagens: o Padre Janovich, o "over-educated 27-year-old virgin", (segundo Kowalsky), que vai crescendo e se vai revelando ao longo do filme, bem como os dois irmãos Hmong, Thao e Sue, que farão despertar em Kowalsky uma solidária amizade e respeito. Kowalsky é ao mesmo tempo um herói e um anti-herói: se por um lado é destemido e não teme nem o confronto, nem o uso da violência para se proteger e proteger os “seus”, por outro lado não esquece o que fez num passado longínquo quando não lhe deram ordens para o fazer, e tem por isso sentimentos conflituosos em relação à medalha que recebeu por esses seus feitos “heróicos” na guerra.
Talvez o que mais tenha gostado, e sem surpresa mas sempre com prazer, foi da cadência do filme, um andante que dá um passo de cada vez, mas que pisa seguro e na direcção certa: as cenas não se atropelam, a câmara não saltita, a música não se sobrepõe à narrativa e a história desenrola-se com a naturalidade das coisas que acontecem aqui ao lado. A realização e direcção de actores é sóbria e de grande contenção o que valoriza essa cadência agradável, humana, esse ritmo que não atordoa e que permite que ao longo do filme se mantenha uma postura e atitude contemplativas e uma sensação de tranquilidade e de serenidade, mesmo quando sentimos que algo de desagradável vai acontecer. Há sempre um tom latente de redenção (daí o pascal) mesmo com o preço da culpa dos outros, daquilo que os irá atormentar, e creio que esta dualidade é uma característica de Eastwood, uma humanidade que procura no turbilhão de possibilidades um (o) sentido final, num filme que não quer atordoar o espectador nem provocar sensações mais imediatas e visíveis, mas que aposta no que há de mais íntimo, na sensibilidade e na inteligência. Uma última referência à música, excelente, que emoldura este ambiente intimista.
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20.3.09
Segundo Paulo Gorjão, JPP não percebe que é difícil estabelecer pontos de contacto entre a direcção de MFL e o DN com esta política de terra queimada. E que hostilizando o DN o empurra para os braços de Passos Coelho. É um ciclo vicioso, será assim tão difícil de perceber?Em primeiro lugar eu não vejo porque é que têm que existir “pontos de contacto” entre as direcções partidárias e os jornais sejam eles quais forem. Cabe ao jornalista ir à procura da notícia, trabalhar para a ter, merecer a confiança dos seus interlocutores e finalmente decidir o que é importante noticiar ou não, e não o mais fácil: sentar-se à mesa (mesmo que seja uma mesa em restaurante ou outra qualquer) com os políticos para juntos pensarem e “fazerem” a notícia.
Em segundo lugar não entendo mesmo a relação causa/efeito nem a razão de ser do "círculo vicioso", que nem percebo bem qual é, pois presumo que Paulo Gorjão não sugira que um jornal (e os jornalistas que o fazem) seja permeável à intriga, quezília e pequena vingança e que estas influenciem a objectividade com que se decide da importância ou não de divulgar determinado acontecimento. Não me parece que o jornalismo tenha que ser nem do domínio dos “afectos” nem do domínio do “porreirismo”.
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O Preservativo, um Retrato
A pouco e pouco neste mundo atordoado vamos deixando que certos gadgets ganhem uma tal importância e posição de relevo na sociedade que ninguém parece querer contestar numa mostra de unanimidade digna de nota. São bons para tudo, evitam males, permitem a intercomunicabilidade, curam medos, acabam com inseguranças: verdadeiros objectos indispensáveis sem os quais o homem/mulher moderno já não sabe viver. O preservativo é um deles e está nas bocas do mundo, isto é, de um cada vez mais pequeno mundo europeu politicamente correcto que se indignou com o desdém manifestado pelo Papa Bento XVI em África ao dito, coisa que parece em nada afectar o sucesso da viagem lá. O Papa, heresia das heresias, não se curva perante o preservativo esse verdadeiro ícone de modernidade e liberdade e único tema que os media conseguem reter e especular sobre da viagem do Santo Padre, coisa reveladora da pobreza mental desta sociedade.
Tal como o telemóvel, as fraldas descartáveis, a televisão, a roupa da Zara, os toalhetes de limpeza (de tudo, desde rabos a móveis) os preservativos são alvo de culto e vieram para ficar com todas as bênçãos de governos, oposições, ONGs, políticos, estrelas de cinema, cantores rock, etc. Só não têm a bênção dos Papas.
Os preservativos dão dinheiro a ganhar: são negócio de milhões que interessam a muitos. Têm também uma função de ordem moral e ética importante no mundo actual: minimizam os dilemas morais, filosóficos, existenciais, espirituais ou outros, pois substituem a necessidade de decisão, capacidade de reflexão e escolha. Com eles pensar torna-se dispensável, não há necessidade de escolher ou decidir e tenta esvaziar conceitos como abstinência ridicularizando quem decide livremente optar por ela.
São também mais um dos mil modos que hoje arranjamos para ter e cultivar a culpa, não a antiga culpa de arder no inferno ou de “pecar” no sentido tradicional, mas a culpa de não ser correcto quando não se usa, apesar de ser tão pouco “sexy” e de diminuir sensações e prazer. No entanto ajudam à não propagação de doenças sexualmente transmissíveis, previnem infecções e às vezes evitam outros “males” (isto é, gravidez!) e podem ser rotulados de opção saudável. Apesar de feios, muito feios e pouco dignos, são práticos e muitas vezes coloridos com formas e sabores diferentes para aqueles que mais se interessam por “novidade”. Têm regras importante, mas simples para utilização e são total e absolutamente descartáveis. Finalmente: são de plástico, essa matéria trivial difundida no séc XX, elevada à imprescindibilidade e que domina o nosso mundo.
Foi você que pediu um preservativo?
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Tal como o telemóvel, as fraldas descartáveis, a televisão, a roupa da Zara, os toalhetes de limpeza (de tudo, desde rabos a móveis) os preservativos são alvo de culto e vieram para ficar com todas as bênçãos de governos, oposições, ONGs, políticos, estrelas de cinema, cantores rock, etc. Só não têm a bênção dos Papas.
Os preservativos dão dinheiro a ganhar: são negócio de milhões que interessam a muitos. Têm também uma função de ordem moral e ética importante no mundo actual: minimizam os dilemas morais, filosóficos, existenciais, espirituais ou outros, pois substituem a necessidade de decisão, capacidade de reflexão e escolha. Com eles pensar torna-se dispensável, não há necessidade de escolher ou decidir e tenta esvaziar conceitos como abstinência ridicularizando quem decide livremente optar por ela.
São também mais um dos mil modos que hoje arranjamos para ter e cultivar a culpa, não a antiga culpa de arder no inferno ou de “pecar” no sentido tradicional, mas a culpa de não ser correcto quando não se usa, apesar de ser tão pouco “sexy” e de diminuir sensações e prazer. No entanto ajudam à não propagação de doenças sexualmente transmissíveis, previnem infecções e às vezes evitam outros “males” (isto é, gravidez!) e podem ser rotulados de opção saudável. Apesar de feios, muito feios e pouco dignos, são práticos e muitas vezes coloridos com formas e sabores diferentes para aqueles que mais se interessam por “novidade”. Têm regras importante, mas simples para utilização e são total e absolutamente descartáveis. Finalmente: são de plástico, essa matéria trivial difundida no séc XX, elevada à imprescindibilidade e que domina o nosso mundo.
Foi você que pediu um preservativo?
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19.3.09
Natasha Richardson

Quando, com surpresa, pois a morte tem dessas coisas – a capacidade de teimosamente nos surpreender, li hoje cedo da morte tão inesperada quanto estúpida (como se diz normalmente nestes casos) de Natasha Richardson lembrei-me de como apreciava o seu trabalho, a sua voz o seu olhar e veio-me à memória um belo texto de Eduardo Pitta sobre o filme The White Countess com que me identifiquei de imediato: também eu tinha visto o filme e sentido esse sopro nostálgico tão bem evocado por Natasha Richardson e Ralph Fienes no filme. Descanse em paz.
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18.3.09
Hoje no Jornal da Noite a SIC questionou o montante do investimento no troço do traçado do TGV Lisboa-Alenquer recentemente alvo declaração de impacte ambiental favorável por parte do Ministério do Ambiente. Punha-se em causa a complexidade e custos da obra pela margem norte do Tejo e passando pela Ota obrigando a quilómetros de túneis e de viadutos bem como expropriações que a encarecem de forma exorbitante, em vez de um traçado mais simples e barato pela margem sul do Tejo mesmo tendo em consideração o custo de uma nova ponte. Van Zeller foi claro a expor as suas razões, dúvidas e críticas e José Gomes Ferreira que comentou a notícia disse que esperava forte contestação a este traçado e a este investimento por parte da oposição, mas não conseguiu impedir-se de deixar no ar a sua perplexidade perante estes números e de questionar a razão da opção por uma traçado tão caro, perguntando-se quem é que ganha com uma obra assim tão onerosa. Mário Lino foi irrelevante na declaração para a SIC. A questão fica, incómoda, no ar..

Mas estavam e estão (bem como todos os outros que não tardarão em se fazer ouvir) à espera de quê? Que o Papa Bento XVI não fosse o Papa Bento XVI? Que de repente esquecesse a Humanae Vitae e se mostrasse a favor da distribuição generalisada e gratuita de preservativos seja em que continente for? Porque é que havia de ser diferente com África? Discriminação “positiva”? Extraordinário quem se indigna quando as pessoas são o que é esperado que sejam.
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15.3.09
Mais Jogging
Não faltaram acontecimentos esta semana que passou, desde a visita do Presidente de Angola, à visita oficial do Primeiro-ministro a Cabo Verde, passando pela manifestação da CGTP que encheu a Avenida da Liberdade e dificultou o trânsito numa sexta-feira à tarde, por mais sessões do Fórum Portugal de Verdade com intervenções da líder da oposição, pelas indecisões de Manuel Alegre a deixar nervoso José Sócrates e o PS, por uma votação na AR de uma proposta de Lei para diminuir o teor de sal no pão e pela contestação por parte de alguns sectores da implementação de aulas de educação sexual nas escolas. Não faltou sequer, e infelizmente, um momento de horror em que o impossível e impensável acontece quando um bebé morre num carro esquecido pelo pai. Os momentos da semana têm servido para debate, comentário e indignação de todos os portugueses que, nomeadamente no sector político começam a sentir a agitação própria dos períodos eleitorais.
No entanto, e por estranho que pareça, as imagens que quase malgré moi, guardo da semana são duas de José Sócrates em Cabo Verde, ambas tão previsíveis e esperadas que me pergunto por que é que me continuam a espantar e a teimar em serem lembradas. A primeira é a do Primeiro-ministro numa escola em Cabo Verde com meninos de bata azul limpa e engomada, penteados impecáveis a cantar em uníssono e sem desafinar um “Obrigado” depois de lhes terem sido dados computadores Magalhães. A segunda imagem é a de José Sócrates a fazer o seu jogging matinal na marginal da Cidade da Praia, tal como faz de cada vez que se desloca ao estrangeiro e tal como nunca é visto nem fotografado na sua cidade de Lisboa. O que fica de uma deslocação oficial do nosso Primeiro-ministro são imagens de pura propaganda e de marketing pessoal que são hoje indissociáveis de José Sócrates, ou melhor, que são José Sócrates. O jogging é dum provincianismo atroz e a distribuição de Magalhães é, não faz mal repetir isto tantas vezes quantas as vezes que José Sócrates se preste a esta charada em Portugal, na Venezuela ou seja onde for, de um novo-riquismo e deslumbramento extraordinário e são ambos reveladores implacáveis do vazio de ideias e de projectos que aflige o nosso Primeiro-ministro. Este vazio é particularmente penalizador no momento de profunda crise económica em que estamos, e em que precisamos de medidas realistas e decisões firmes com um olhar para além do curto prazo, e é confrangedor em período eleitoral pois se tenta aliciar o voto através de medidas demagógicas e de slogan fácil, sem nenhuma conexão com o contexto de profunda crise e de desânimo que se irão agravar ainda nos próximos meses.
O olhar que os eleitores levantam para o actual executivo pedindo soluções em que possam confiar será enganado com mais Magalhães, muito jogging, menos sal no pão, educação sexual para todos e anúncios atrás de anúncios de medidas cujo resultado se desconhece ou cujas condições para que funcionem não foram tidas em conta. Salas de aula só com uma tomada para os alunos com Magalhães bem como falta de apoio técnico para os alunos, Bilhete de Identidade que já não se pode pedir pois já é obrigatório o Cartão do Cidadão sem que os serviços estejam preparados para o entregar no mesmo prazo do BI, são alguns exemplos concretos e recentes das inconsistências de uma política feita de e para a fachada.
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No entanto, e por estranho que pareça, as imagens que quase malgré moi, guardo da semana são duas de José Sócrates em Cabo Verde, ambas tão previsíveis e esperadas que me pergunto por que é que me continuam a espantar e a teimar em serem lembradas. A primeira é a do Primeiro-ministro numa escola em Cabo Verde com meninos de bata azul limpa e engomada, penteados impecáveis a cantar em uníssono e sem desafinar um “Obrigado” depois de lhes terem sido dados computadores Magalhães. A segunda imagem é a de José Sócrates a fazer o seu jogging matinal na marginal da Cidade da Praia, tal como faz de cada vez que se desloca ao estrangeiro e tal como nunca é visto nem fotografado na sua cidade de Lisboa. O que fica de uma deslocação oficial do nosso Primeiro-ministro são imagens de pura propaganda e de marketing pessoal que são hoje indissociáveis de José Sócrates, ou melhor, que são José Sócrates. O jogging é dum provincianismo atroz e a distribuição de Magalhães é, não faz mal repetir isto tantas vezes quantas as vezes que José Sócrates se preste a esta charada em Portugal, na Venezuela ou seja onde for, de um novo-riquismo e deslumbramento extraordinário e são ambos reveladores implacáveis do vazio de ideias e de projectos que aflige o nosso Primeiro-ministro. Este vazio é particularmente penalizador no momento de profunda crise económica em que estamos, e em que precisamos de medidas realistas e decisões firmes com um olhar para além do curto prazo, e é confrangedor em período eleitoral pois se tenta aliciar o voto através de medidas demagógicas e de slogan fácil, sem nenhuma conexão com o contexto de profunda crise e de desânimo que se irão agravar ainda nos próximos meses.
O olhar que os eleitores levantam para o actual executivo pedindo soluções em que possam confiar será enganado com mais Magalhães, muito jogging, menos sal no pão, educação sexual para todos e anúncios atrás de anúncios de medidas cujo resultado se desconhece ou cujas condições para que funcionem não foram tidas em conta. Salas de aula só com uma tomada para os alunos com Magalhães bem como falta de apoio técnico para os alunos, Bilhete de Identidade que já não se pode pedir pois já é obrigatório o Cartão do Cidadão sem que os serviços estejam preparados para o entregar no mesmo prazo do BI, são alguns exemplos concretos e recentes das inconsistências de uma política feita de e para a fachada.
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11.3.09
Da Flexibilidade 2
No post anterior escrevi sobre o caso de Thomas More, bem ilustrado na série The Tudors, que lembrei ao ler o artigo do Público deste domingo de António Barreto sobre “O Direito à Honestidade” - pode ser lido aqui - e depois de nas últimas semanas ouvir amiúde falar de carácter, ou falta dele, do político A ou B. Tanta preocupação e tanta atenção dedicada ao carácter leva-me a perguntar se para além da retórica e da ligeireza da indignação circunstancial, o carácter de um político é ou não importante no processo de decisão de voto. Votamos num político pelo seu carácter ou nos projectos políticos que ele apresenta? Podemos dissociar um de outro? Eu pergunto-me também o que é um projecto político sem honestidade nem carácter de quem o quer implementar. Sempre me agarrei a uma noção mais tradicional de fazer política que, de acordo com o étimo da palavra, não é mais do que a arte de governar a cidade, o que faz dos políticos prestadores de serviço aos cidadãos, estando ao servido da “polis”. Eu confesso ter dificuldade em conceber um cargo que presta um serviço aos outros (os cidadãos) nas mãos de homem/mulher cujo carácter eventualmente apresente dúvidas. Mais dificuldade tenho ainda quando essas falhas de carácter são óbvias e ostensivas, pois parece-me que o carácter é um fundamental gerador, ou não, de confiança por parte dos eleitores. Parece-me difícil votar em consciência sem ter em consideração essa dimensão de confiança, e considero que não há melhor forma de inspirar credibilidade e confiança na bondade e justeza da acção política do que o carácter do político.
Ninguém hoje se lembra ou perde tempo a reclamar o direito à honestidade, o direito à verdade, à integridade, à boa índole, porque a questão não é de actos, que nem sempre serão os melhores, mas de índole. Na vida pública e na política hoje o consenso e as prioridades parecem estar, como diz António Barreto, do lado do “vencer, enriquecer, mandar, ganhar votos e triunfar (...) melhorar as sondagens. Passar nos exames. Alcançar um estatuto de importância e reconhecimento. Apostar no futuro e na tecnologia. Acreditar em si e nos seus. Ter êxito”. Ainda segundo AB “estes são os valores que presidem à nossa vida. De tal modo que os meios para atingir os objectivos são de menor ou nenhuma importância”. O que quer dizer que a flexibilidade moral é máxima e sem limites que a consciência imponha.
A questão que me preocupa já não é só a questão de o político A ou B ter falhas de carácter ou não e de conhecer ou não limites à flexibilidade moral e ética. O que me preocupa é o facto de isso já nem sequer ser importante e decisivo na hora do voto. O carácter, a honestidade, a integridade, a clareza de uma escala de valores morais e éticos já não são nem importantes nem relevantes na hora do voto. Ao contrário de Thomas More, já não há limites para a flexibilidade moral e ética. Tudo é permitido.
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Ninguém hoje se lembra ou perde tempo a reclamar o direito à honestidade, o direito à verdade, à integridade, à boa índole, porque a questão não é de actos, que nem sempre serão os melhores, mas de índole. Na vida pública e na política hoje o consenso e as prioridades parecem estar, como diz António Barreto, do lado do “vencer, enriquecer, mandar, ganhar votos e triunfar (...) melhorar as sondagens. Passar nos exames. Alcançar um estatuto de importância e reconhecimento. Apostar no futuro e na tecnologia. Acreditar em si e nos seus. Ter êxito”. Ainda segundo AB “estes são os valores que presidem à nossa vida. De tal modo que os meios para atingir os objectivos são de menor ou nenhuma importância”. O que quer dizer que a flexibilidade moral é máxima e sem limites que a consciência imponha.
A questão que me preocupa já não é só a questão de o político A ou B ter falhas de carácter ou não e de conhecer ou não limites à flexibilidade moral e ética. O que me preocupa é o facto de isso já nem sequer ser importante e decisivo na hora do voto. O carácter, a honestidade, a integridade, a clareza de uma escala de valores morais e éticos já não são nem importantes nem relevantes na hora do voto. Ao contrário de Thomas More, já não há limites para a flexibilidade moral e ética. Tudo é permitido.
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9.3.09
Da Flexibilidade
Vi recentemente a primeira e a segunda temporada de “The Tudors”, que se centra no reinado de Henrique VIII, não especialmente no facto de ter tido sete mulheres, mas nos restantes aspectos do seu conturbadíssimo e marcante reinado. A série é feita ao estilo de “Roma”, ambientes e adereços muito cuidados, mas alguma crueza (boldness). Tem também um acelerado ritmo narrativo, muita intriga política, muita intriga em geral, religião, sexo e violência quanto baste. Gostei particularmente da forma como caracterizaram algumas personagens: a Rainha Catarina de Aragão e algumas personagens ligadas à Igreja Católica: o Cardeal Wolsey, o Bispo Fisher e Thomas More (estes dois últimos mártires canonizados). Nenhuma destas personagens é banal ou estereotipada, e têm uma vida dura feita de opções difíceis pois são movidas por convicções morais e por uma força de carácter hoje quase incompreensíveis e ainda menos valorizadas, que as afasta para sempre dos confortos de uma vida. Em nome de convicções inabaláveis e de uma fé absoluta escolhem o caminho difícil para elas e para os seres que lhes são queridos.
Falo em fé absoluta, pois a fé dos homens (seja em que for) é também feita de medo, de hesitações, de compromissos, de dúvida. O caso de Thomas More é interessante pois ele, como advogado que era e como amigo leal do rei que era, tentou de várias formas ser flexível para evitar dissabores com o rei. Ele não queria ser mártir, não queria morrer, não queria deixar a família desamparada e usou essa flexibilidade nomeadamente na decisão de nunca falar mal do seu rei, nem de nunca condenar o seu casamento com Ana Bolena. Demitiu-se do cargo de Chanceler quando não concordou com as decisões políticas e retirou-se da vida pública para evitar demasiada exposição. Ao contrário do Bispo John Fisher que foi sempre mais frontal, More foi flexível e usou todas as armas que tinha (nomeadamente a retórica) para adiar e evitar o conflito aberto com o seu rei. Mas, claro, o momento de assinar o Act of Supremacy que proclamava o rei como chefe da Igreja em Inglaterra chegou, e perante esta opção a capacidade de flexibilidade de Thomas More esgotou-se pois tinha um claro limite que era o da sua consciência, das suas convicções e da sua fé. Este caso é interessante por causa deste momento em que ele já não pode ir mais além, deste limite que ele se recusa a ultrapassar, pois fazendo-o deixa de ser ele, põe em causa a sua integridade violando-se a si próprio, violando a sua consciência e renegando as suas convicções. Esse limite moral ele conheceu-o bem, e nada nem ninguém o fez demover da sua decisão.
(Continua)
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Falo em fé absoluta, pois a fé dos homens (seja em que for) é também feita de medo, de hesitações, de compromissos, de dúvida. O caso de Thomas More é interessante pois ele, como advogado que era e como amigo leal do rei que era, tentou de várias formas ser flexível para evitar dissabores com o rei. Ele não queria ser mártir, não queria morrer, não queria deixar a família desamparada e usou essa flexibilidade nomeadamente na decisão de nunca falar mal do seu rei, nem de nunca condenar o seu casamento com Ana Bolena. Demitiu-se do cargo de Chanceler quando não concordou com as decisões políticas e retirou-se da vida pública para evitar demasiada exposição. Ao contrário do Bispo John Fisher que foi sempre mais frontal, More foi flexível e usou todas as armas que tinha (nomeadamente a retórica) para adiar e evitar o conflito aberto com o seu rei. Mas, claro, o momento de assinar o Act of Supremacy que proclamava o rei como chefe da Igreja em Inglaterra chegou, e perante esta opção a capacidade de flexibilidade de Thomas More esgotou-se pois tinha um claro limite que era o da sua consciência, das suas convicções e da sua fé. Este caso é interessante por causa deste momento em que ele já não pode ir mais além, deste limite que ele se recusa a ultrapassar, pois fazendo-o deixa de ser ele, põe em causa a sua integridade violando-se a si próprio, violando a sua consciência e renegando as suas convicções. Esse limite moral ele conheceu-o bem, e nada nem ninguém o fez demover da sua decisão.
(Continua)
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5.3.09

DAS PETIÇÕES EM GERAL E DE UMA PETIÇÃO EM PARTICULAR
Se há coisa que a internet facilitou foi a recolha de assinaturas para uma petição. Regularmente na caixa de e-mail ou nos blogues andam petições a propósito de tudo e do nada. Já assinei umas quantas. Uma que tinha velinhas acesas e que é contra a pedofilia, outra contra a mudança mensal ( e seus gastos) do parlamento europeu para Estrasburgo, outra recente de alguns deputados europeus a favor de medidas integradas que permitam um combate mais eficaz contra a corrupção, e poucas mais (não, não assinei aquela que é contra o acordo ortográfico, tenho demasiadas dúvidas em relação a tudo). Tenho pena que nunca se saiba, com a mesma facilidade com que se assinam, do paradeiro e consequências de tais petições. Isto, bem como o facto de se tornarem cada vez mais banais do que as bananas nas bananeiras só faz desencadear o meu cepticismo em relação a elas, que vem gradualmente a aumentar. Tenho a convicção de que se decidir juntar meia dúzia de amigos crio uma petição e a consequente “vaga de fundo” (outra expressão que cai na banalidade) a exigir legislação que combata os maus tratos e desconfianças em relação aos gatos pretos, ou outra qualquer causa igualmente tão despropositada ou irrisória. Apostro que reunia mais de duas centenas de assinaturas em dois dias!
Tantas assinaturas quantas a da “suposta” (outra palavra da moda que se tornou hoje em dia indispensável) “vaga de fundo” que quer Marcelo Rebelo de Sousa para encabeçar a lista do PSD a deputados ao parlamento europeu. E era aqui que queria chegar. Em primeiro lugar quero esclarecer que nada tenho contra o facto de MRS concorrer e ir para o parlamento europeu. Cada um, MRS incluído, deve na medida do possível, fazer o que quer e o que gosta na vida. A questão é que nunca em momento algum eu ouvi explicita ou implicitamente MRS falar do seu empenho e mostrar a sua disponibilidade para se candidatar ao parlamento europeu, coisa que me parece ser uma premissa fundamental para que se crie uma “vaga de fundo” em torno do seu nome. Em segundo lugar, e reconhecendo o direito de cada um fazer as petições que bem (ou mal) se lembre e queira, parece-me que uma candidatura deste género teria que ser feita de dentro para fora do partido e não de fora para dentro, isto é, cabe à liderança do partido, em função dos seus objectivos políticos, inquirir da vontade e disponibilidade dos possíveis candidatos. Não cabe aos militantes, simpatizantes, gente em geral (eu incluo-me nesta última categoria da “gente em geral”), ou mesmo opositores e gente de outros partidos tentar impor à liderança uma candidatura que ela (liderança) não equacionou ou não considera coerente com o seu projecto político. Ora eu enquanto “gente em geral” algo simpatizante com esta liderança do PSD não sei, nem tenho que saber quais as vontades, opções e decisões políticas da liderança em relação às listas de deputados que concorrem ao Parlamento Europeu.
Estes são os motivos de ordem geral mais óbvios e incontornáveis que me levam a desconfiar desde logo da bondade de tal petição e a perguntar outras razões políticas menos óbvias que estejam na origem da sua elaboração, para além de uma razão que de tão previsível, também a mim me parece óbvia, de criar ruído e confusão, mais uma vez, à actual liderança do PSD. Com a guerra que lhe fazem, todos os dias, a todas as horas nos jornais, na televisão, nos blogues, fora do partido, dentro (muito dentro) do partido, a querer que ela fale, a dizer que quando fala é gaffe, a exigir espectáculo, a querer palavras ocas e vãs, a pedir visibilidade, (tudo coisas que o vento leva), Manuela Ferreira Leite, indiferente ao vento e aos assobios caminha com determinação pelo seu trilho irregular e pouco estável e mostra ser uma Mulher com “M” grande. Só faz aumentar a minha consideração por ela.
Este texto surgiu ao ler este e este.
Partilho o essencial (repito O essencial, não me detenho no acessório) deste texto e este e este e este.
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3.3.09
Cafriela
Esperámos um pouco cá em baixo no grande salão da entrada cuja dignidade se adivinhava – quantas sessões de cumprimentos não teriam já lá acontecido - entre cadeiras, cadeirões e sofás, uns bons e antigos outros que mais pareciam ter vindo de um barato armazém de mobília, misturados e empilhados sem nexo aparente junto às paredes. Estava muito quente lá fora e a sombra e o fresco do rés-do chão eram bem-vindos. Quando nos pediram para subir fomos directamente para a grande varanda que dava para a praça e de onde partilhámos de novo o calor e o pulsar enigmático da cidade das mangueiras. Os empregados põem toalhas de quadrados de todos os dias nas mesas de plástico tipo AKI, juntam algumas cadeiras que mais parecia estarem lá por acaso e começam a servir os aperitivos: bebidas geladas, croquetes e rissóis acabados de fritar. Entre uma coisa e outra observa-se a noite e cumprimentam-se os convidados que continuam a chegar. Algumas senhoras com vestidos berrantes e típicos, turbantes na cabeça e muito ouro. O aniversariante, alto, imponente e de túnica branca, foi o último a chegar animando o ambiente.
Os salões de pé-direito alto e de tectos trabalhados perderam a grandeza de outros tempos, algumas janelas já sem cortinados têm as sanefas caídas e os cortinados de veludo ainda pendurados, hirtos, tristes e sem sinal de movimento parecem estar esquecidos na mesma posição há décadas. Há algum estuque estragado, pintura esfolada, portas empenadas. A boa disposição e alegria da festa destoa com o ar decadente e desleixado do salão principal. Passámos à mesa numa sala de jantar perto dos salões: uma grande mesa de toalha branca cheia de travessas de comida com ar caseiro e saboroso, e o vai-vem entre a sala e a copa dava o tom da informalidade que imperava. Os aparadores grandes e altos, de boas madeiras e antigos tinham restos do que adivinhei serem bonitos serviços de copos de cristal e restos de boa porcelana misturados com picadoras 1,2,3, latas de comida de bébés, guardanapos de papel e tuperwares. O ambiente era descontraído e simpático com o anfitrião e aniversariante de boa disposição a querer que todos estivessem bem. No fim de uma longa refeição cantaram-se os parabéns, brindou-se com champagne e trocaram-se discursos sempre com as portas da varanda abertas a deixar a noite, o seu calor, os seus sons, e o seu cheiro e mistérios entrar. O serão não tardou muito a terminar. Dessa refeição lembro um frango “cafriela” servido com um cuscuz manteiga de um grão pouco fino: absolutamente delicioso. Nunca mais comi nem um frango nem um cuscuz como aquele apesar de simpaticamente me terem dito o nome do prato e explicado como se preparava.
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Os salões de pé-direito alto e de tectos trabalhados perderam a grandeza de outros tempos, algumas janelas já sem cortinados têm as sanefas caídas e os cortinados de veludo ainda pendurados, hirtos, tristes e sem sinal de movimento parecem estar esquecidos na mesma posição há décadas. Há algum estuque estragado, pintura esfolada, portas empenadas. A boa disposição e alegria da festa destoa com o ar decadente e desleixado do salão principal. Passámos à mesa numa sala de jantar perto dos salões: uma grande mesa de toalha branca cheia de travessas de comida com ar caseiro e saboroso, e o vai-vem entre a sala e a copa dava o tom da informalidade que imperava. Os aparadores grandes e altos, de boas madeiras e antigos tinham restos do que adivinhei serem bonitos serviços de copos de cristal e restos de boa porcelana misturados com picadoras 1,2,3, latas de comida de bébés, guardanapos de papel e tuperwares. O ambiente era descontraído e simpático com o anfitrião e aniversariante de boa disposição a querer que todos estivessem bem. No fim de uma longa refeição cantaram-se os parabéns, brindou-se com champagne e trocaram-se discursos sempre com as portas da varanda abertas a deixar a noite, o seu calor, os seus sons, e o seu cheiro e mistérios entrar. O serão não tardou muito a terminar. Dessa refeição lembro um frango “cafriela” servido com um cuscuz manteiga de um grão pouco fino: absolutamente delicioso. Nunca mais comi nem um frango nem um cuscuz como aquele apesar de simpaticamente me terem dito o nome do prato e explicado como se preparava.
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1.3.09

Tirando a Dra. Manuel Ferreira Leite e uns milhares de ingénuos de província, o PSD não quer ganhar a eleição de Outubro. Meia dúzia de notáveis, a começar por Passos Coelho, querem suceder a Manuela. Dezenas de caciques querem as câmaras. Marcelo quer (presumivelmente) a presidência. E muita gente (mais do que se julga) quer a desforra. E, para chegar a esses nobres fins, quem se importa de abrir a porta ao PS de Sócrates? Quanto ao país, ele que se arranje como puder. E se puder.
Vasco Pulido Valente, no Público de hoje
Se ainda houvesse alguém iludido, Vasco Pulido Valente neste artigo acabaria com as ilusões. Este último parágrafo que aqui reproduzo não podia ser mais claro: ninguém, incluindo ele próprio, pelo que deduzo do restante artigo, está interessado em que MFL ganhe as legislativas, pelas razões que ele apresenta e que já todos conhecíamos. Tem toda a razão. Eu só não diria que a excepção são uns milhares de PSDs ingénuos de província. Há toda uma panóplia de portugueses, (talvez não tantos como gostaria) que não sendo militantes do PSD (nem sendo gente ingénua nem de província), se revê nessa área e preferiria mil vezes a Dra. Manuela Ferreira Leite com todas as suas limitações, (pseudo) gaffes, e intervenções a despropósito e fora de tom (citando VPV) mas feita de matéria nobre e genuína, a José Sócrates, figura feita de matéria plástica e de passado duvidoso que facilmente encalha em qualquer tipo de escrutínio que lhe seja feito, e cujo mandato como primeiro-ministro se tem revelado desastroso, sem nada de verdadeiramente estruturante feito nestes últimos quatro anos pelo país, e sempre mostrando um desprezo pelos portugueses, pela liberdade e pela democracia. No seu mandato, Portugal distancia-se cada vez mais dos restantes países europeus, coisa que nem a crise financeira e económica internacional conseguirá disfarçar. A alegada falta de jeito de Ferreira Leite, será bem-vinda se com ela vierem medidas menos populistas e demagógicas, maior seriedade, contenção, honestidade e transparência na forma de fazer política.
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Vasco Pulido Valente, no Público de hoje
Se ainda houvesse alguém iludido, Vasco Pulido Valente neste artigo acabaria com as ilusões. Este último parágrafo que aqui reproduzo não podia ser mais claro: ninguém, incluindo ele próprio, pelo que deduzo do restante artigo, está interessado em que MFL ganhe as legislativas, pelas razões que ele apresenta e que já todos conhecíamos. Tem toda a razão. Eu só não diria que a excepção são uns milhares de PSDs ingénuos de província. Há toda uma panóplia de portugueses, (talvez não tantos como gostaria) que não sendo militantes do PSD (nem sendo gente ingénua nem de província), se revê nessa área e preferiria mil vezes a Dra. Manuela Ferreira Leite com todas as suas limitações, (pseudo) gaffes, e intervenções a despropósito e fora de tom (citando VPV) mas feita de matéria nobre e genuína, a José Sócrates, figura feita de matéria plástica e de passado duvidoso que facilmente encalha em qualquer tipo de escrutínio que lhe seja feito, e cujo mandato como primeiro-ministro se tem revelado desastroso, sem nada de verdadeiramente estruturante feito nestes últimos quatro anos pelo país, e sempre mostrando um desprezo pelos portugueses, pela liberdade e pela democracia. No seu mandato, Portugal distancia-se cada vez mais dos restantes países europeus, coisa que nem a crise financeira e económica internacional conseguirá disfarçar. A alegada falta de jeito de Ferreira Leite, será bem-vinda se com ela vierem medidas menos populistas e demagógicas, maior seriedade, contenção, honestidade e transparência na forma de fazer política.
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27.2.09
O Sentido. A Dor
Disse que estava levemente medicada para que a sua vida não perdesse a normalidade feita de rotina, aparência e, ao fim do dia, uma noite de sono. Muito importante dormir tão bem quanto possível. Disse, com um olhar vazio, só assim conseguir olhar e estar com os outros, falar-lhes e mostrar-se presente nas conversas, quando tudo o que quer é alhear-se. Um dia de cada vez dizem-lhe. Mas a dor que não passa – há dores que nunca deveríamos sentir, cada dia parece pior do que o dia anterior, e a saudade maior. Revejo tudo e procuro o sentido. Todos os dias os porquês, os para quês. Todos os dias o que deveria perceber que ainda não percebi, encontrar o sentido para que ele aquiete a dor. (Ou não).
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Maio
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