“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

29.5.09

Do Escrutínio

Desde que nasceu que se tornou um sucesso de audiências e nunca mais deixou de se falar do Jornal Nacional 6ª. Porque persegue o Primeiro-ministro numa inaceitável caça ao Homem, porque pertence ao grupo dos que se dedicam à maledicência, ou porque Manuela Moura Guedes tem um estilo “irritante” e estridente, porque MMG é opinativa e agressiva, etc, etc. Uma coisa é certa, nenhuma televisão ou jornal faz um tão exaustivo e persistente trabalho de investigação ou mesmo de escrutínio. Só hoje soubemos – com a devida documentação que foi certamente encontrada fruto de trabalho de pesquisa da equipa do JN6 - da história do arquitecto do PS que, caso lhe fosse dado o projecto do Freeport, faria o processo avançar mais depressa; soubemos da contradição do PGR que diz uma coisa, mas que quando confrontado um pedido de cópia do ofício em que se regista o que ele afirma, já se contradiz; fomos confrontados com os pormenores, e a forma abrupta como terminou por não conseguir reunir provas, do processo disciplinar de que Lopes da Costa foi alvo no tempo de Fátima Felgueiras em que já aí houve “alegadas” pressões, e até vimos uma fotografia de um jornal local de um jantar que nem Lopes da Mota nem Fátima Felgueiras lembravam bem, em que estavam juntos e até fomos lembrados de como, apesar dos anúncios em contrário, o estado, pronto recebedor, continua a ser um péssimo pagador deixando empresas em situações muito difíceis. Percebemos pelo que ouvimos durante o Jornal nacional, e independentemente do estilo opinativo, algo impertinente e sempre provocatório da apresentadora que há por trás de cada peça e como seu suporte uma equipa séria que faz um exaustivo, e por isso incomodativo, trabalho de investigação. Este trabalho de investigação de ir aos locais, ver registos, procurar jornais velhos, ler processos, é a marca do JN6 que faz a diferença.

Não é o estilo da apresentadora que parece ser “bem” criticar, que faz a diferença, é a investigação, a procura da notícia e a persistência que tornam este jornal noticioso tão único em Portugal, onde quase nada diferencia um meio de comunicação de outro neste pântano informativo em que nos tornamos.


Preto no branco aqui. Outras grelhas semelhantes poderiam certamente ser feitas para Lopes da Mota e mesmo para Victor Constâncio.

27.5.09

Plataforma Contra a Obesidade 53

John William Hill (1812-1879)
Plums


Na SICN, Helena Roseta expôs calma e claramente alguns dos problemas deste executivo em lidar com a coisa pública – o caso em debate era a intervenção no Terreiro do Paço. Foi, creio que em seu nome e representando o movimento cidadãos por Lisboa, muito contundente e crítica em relação à atitude do executivo de José Sócrates perante a coisa pública. De forma muito articulada explicou como o executivo se comporta sempre como se fosse o dono, e não um executivo ao serviço do que é público Como ele com facilidade e naturalidade abdica, em nome do descerrar de uma lápide de inauguração, de qualquer concurso público que, mais transparente do que uma encomenda privada ou um ajuste directo, optimiza uma solução, pois permite uma escolha entre várias opções apresentadas. HR evitou a crítica directa ao projecto em causa, pois, como ela bem frisou, o problema essencial não é o projecto em si, mas a atitude do executivo que se pensando dono, se permite abdicar do concurso público, para ter a obra terminada a tempo de a poder inaugurar.

Da Maledicência

José Sócrates, de cada vez que fala da “maledicência” e a confunde com crítica, naquele seu habitual discurso em que mistura conceitos e exorciza o pessimismo e a crítica que não combatem a crise nem resolvem problema algum, prova uma vez atrás da outra que nada percebe sobre a democracia, nem sequer de um ponto de vista teórico.


26.5.09

Velas 16

Ontem. (Sagres)
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25.5.09

Guerra e Paz

Tudo o que lhe expôs Denissov era razoável e inteligente. Tudo o que lhe estava a dizer o general-inspector era ainda mais razoável e inteligente, mas era visível que Kutúzov desprezava os conhecimentos e a inteligência, e que estava na posse de alguma coisa que resolveria tudo – de qualquer outra coisa, independente dos conhecimentos e da inteligência. (...). Era evidente que Kutúsov desprezava a inteligência, os conhecimentos e até o sentimento de patriotismo que Deníssov manifestara, mas não os desprezava com a inteligência, o sentimento ou o conhecimento dele próprio (porque nem tentava manifestá-los), mas com qualquer outra coisa. Desprezava-os com a sua velhice e a sua experiência da vida. Uma decisão que Kutúsov tomou (motivada pelo relatório do general) dizia respeita às pilhagens cometidas pelas tropas russas. No final do relatório, o general-inspector apresentou a sua alteza sereníssima um papel, para que o assinasse, com vista à responsabilização dos comandantes militares por uma aveia ainda verde que os homens tinham cortado, em consequência da queixa de um proprietário.

Ouvido o caso, Kutúsov deu um estalido com os lábios e abanou a cabeça.

Para o fogão... lume com isso! E, meu caro, vou dizer-te de uma vez por todas: assuntos desses, deitá-los todos ao fogo. Que eles ceifem as sementeiras e queimem lenha à vontade. Eu não dou ordens para isso, nem o autorizo, mas também não posso puni-lo. Sem isso é impossível. Para cortar lenha, há sempre lascam que saltam. – Olhou mais uma vez para o papel. – Oh, a minúcia alemã! – disse, abanando a cabeça.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Kutúsov é, neste romance, apresentado como uma personagem fascinante e contraditória, tanto dado a algumas mundanidades e a pequenas vaidades e confortos, como senhor de uma esperteza e sabedoria profundas feitas da guerra, de negociações e da observação da natureza humana. Na sua velhice tem o hábito de se deixar adormecer nas importantes reuniões, nomeadamente quando da definição de estratégias para as batalhas, em que os mais jovens oficiais entusiasmados, cheios de energia e patriotismo e motivados por uma ambição de recompensas por mérito, tomam a palavra e mostram bons planos para acções. Kutusóv sabe que há uma força, uma inércia própria da actividade bélica que está para além de discursos inflamados e que assenta sobretudo na dinâmica própria da guerra e consequente esgotamento dessa dinâmica, da capacidade e do espírito bélico. A sua política de retirar, deixando o inimigo (os Franceses) avançar, expondo-os – a seu tempo - às suas próprias (franceses) fraquezas e limitações, foi amplamente contestada por muitas chefias militares, pois sem batalhas as medalhas de mérito e as promoções são mais difíceis de obter, sem batalhas o povo não sente que se lute pela pátria, sem batalhas não se expõe o orgulho de um povo, de um regimento. No entanto Kutúsov sabia que retirando e esperando se evitariam batalhas desnecessárias e sangrentas; Borodino foi a ilustração de uma batalha enorme em que houve grandes perdas e grande derramamento de sangue, sem claro vencedor e vencido, apesar de Kutúsov ter sentido que aí Napoleão começou o seu fim. Sabia que a seu tempo se conseguiria de forma eficaz expulsar um inimigo que inevitavelmente chegará ao esgotamento e ficará sem força. Não conseguiu contenção total, pois era difícil travar totalmente o movimento das tropas russas e de alguns grupos mais ousados que se envolveram em pequenas acções, mas o grosso do exército russo retirou evitando grandes banhos de sangue e deixando Moscovo cair nas mãos inimigas. Mas, a Rússia não era Moscovo, como Kutúsov bem sabia e Napoleão cedo percebeu e cedo retirou saindo da Rússia com um exército desfeito e desmoralizado.

Kutúsov na sua velhice e na sua sabedoria, sabia também o preço que há a pagar para se fazer e manter uma guerra. Não só um preço contabilizado em homens que se mantêm ou que se perdem, em bens destruídos e saqueados, em cidades e campos incendiados, em dinheiro, em provisões e material, mas também um preço moral. Que se as regras devem existir, nem sempre se podem cumprir. Ele sabe, por exemplo e como o excerto transcrito mostra, que sem pilhagens não há soldados, sem soldados não se faz a guerra de quem quer, de quem tem e de quem pode.


23.5.09

Velas 15

Há dois dias
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Da Natureza das "Coisas"

A ler José Pacheco Pereira no Público de hoje sobre o “falso” debate sobre a Europa, e do adormecimento perante o unanimismo.

(...) Todo este dinheiro atirado para cima de "acções de esclarecimento" nada tem de inocente. Contribui e muito para reforçar um falso debate, viciado à partida por ter um só lado. E um meio comunicacional já muito dependente de um aparente "consenso" europeu, que aliás reflecte o "consenso" político, ainda se torna mais pobre quando é manipulado por estas actividades. Na verdade, elas não são muito diferentes nos seus resultados, nas suas técnicas de "massagem do ego" (...) Não se trata de venialidade, mas de manipulação, e da moleza que vem da proximidade, do contacto, do grupismo, e, no fundo, da vaidade de se ter sido convidado e da vontade de responder à amabilidade do convidante. É um contrato invisível, mas é um contrato.

A propósito desta moleza não deixo de reparar como, de repente e bem visível no blogue Papa Myzena, os Passoscoelhistas se converteram (adaptaram, reconciliaram, querem lugares no parlamento, assessorias, nas consultorias, é mais uma questão de significado do que de significante....) ao mainstream do partido depois de todas as críticas e ataques a Manuela Ferreira Leite pelo que ela é, pelo que representa, pela forma de comunicar, pela forma de manter-se em silêncio quando nada tinha a dizer, pelas “gaffes” que tanto notaram, ridicularizaram e tanta visibilidade lhes deram, e pela escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista às europeias. Eu sei que em tempo de guerra não se limpam armas, mas há algo que é difícil ignorar: por muito que o partido seja o mesmo e o sentido do voto seja o mesmo, a natureza das coisas não o é: isto é, as pessoas não o são. Passos Coelho (tal como José Sócrates) é de diferente natureza de Manuela Ferreira Leite. Mas parece que isso agora, já não conta.

21.5.09


Parece que o Estado este ano cobrou menos dois mil milhões de euros em impostos. Uma boa razão para avançar (ou justificar) com mais uma “medida” de combate à crise que, na sua aparente bondade social, dificilmente esconde a pura demagogia e oportunismo e o delírio fiscal em que vivemos. É um sem fim de medidas "anti-crise" que se sucedem a ritmo estonteante. Que seria deste governo sem a crise? A crise foi um pretexto fabuloso para tapar a incompetência, falta de trabalho e de seriedade deste executivo. O problema é que nós ficamos anestesiados com tal abundância e criatividade legislativa face da força impulsionadora e optimista do nosso líder, e só pondo a cabeça de fora é que vemos o estado degradado do país.

20.5.09

Ontem
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Elogio do Nada

Hoje é dia de Prova de Aferição de Matemática para os 4º e 6º anos de escolaridade. As provas não contam para a nota e, tal como aconteceu com a prova de Língua Portuguesa, esta de Matemática deverá também ser fácil. As “provas” não são “exames”, conceito aterrorizador para as criancinhas, (esta dança de vocábulos no mundo do ensino é espantosa), e as criancinhas não podem ser reprovadas, pois há que combater a discriminação e exclusão, altamente traumatizantes e desmotivadoras, e fazer testes fáceis para que nunca se premeie a excelência, dedicação, esforço e trabalho, e para que possamos ser todos cada vez mais iguais, mais banais, mais medíocres.

Pergunto-me, então, para que servem realmente estas provas, e qual o mérito – sobretudo para os alunos, claro – desta política de Provas de Aferição. São meios, nomeadamente financeiros, que se mobilizam para realizar estas provas que não servem para nada. Perdão, servem fabricar e dar “credibilidade” a umas estatísticas falaciosas sobre a qualidade do ensino em Portugal. Servem para a imagem, o verdadeiro interesse e a real obsessão deste governo PS. Dar a imagem de um Portugal melhor: lavar a fachada, esfregar a soleira da entrada, pintar a porta, o que está dentro pouco interessa.
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19.5.09



A “medida” de hoje (que combate a crise e contra o bota-abaixismo) com o respectivo “momento Chavez” televisivo, que pude ver, foi o anúncio da meta de 8000 camas de Cuidados Continuados já para 2009. Oxalá.


No Reino-Unido aconteceu por muito menos. O parlamento exigiu. Houve um escândalo, suspeitas conivências e demissões. Cá assobia-se para o ar, fazem-se “alegadas” pressões que num primeiro tempo os magistrados dizem que não que não, depois já é um nim, os políticos falam em cabalas e campanhas negras, os familiares dizem-se e contradizem-se. Não há respeito pelo eleitor talvez porque o eleitor não se dê ao respeito, não exija demissões e seriedade. Não há também nem honra nem vergonha na cara. Mas sobre isso já falei neste post. Hoje, Gabriel Silva no Blasfémias mostra do que se fala, traça um retrato e compara.

17.5.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 39

Alphonse Mucha (1860-1939), Auguste Seysses (1862-1946)
Femme aux lys

Colher lírios
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Vergonha na Cara

Diz António Barreto que “O Magistrado Lopes da Mota não deve sair do EUROJUST. Não deve suspender o seu cargo. Nem pedir a demissão. Nem ser demitido. Se a representação de um Estado deve traduzir a verdade, ele é o homem certo no lugar certo (...)Ele é o genuíno e fiel símbolo da justiça portuguesa”. Tem toda a razão, mas eu tenho vergonha que assim seja. Problema meu, eu sei, mas tenho vergonha – já nem falo de ética, de moral, só de vergonha - de Lopes da Mota, de Cândida de Almeida que não sabe estar calada, do “primo do Kung-Fu”, do primo do primo, enfim... calarei a minha lenga-lenga de satélites que gravitam à volta do poder e com “respeitinho” para com o poder, para não maçar ninguém. Eles não têm vergonha mas eu tenho por eles e tenho mais por eles não a terem do que por fazerem o que fazem. A vergonha genuina aparece pouco. Muitas vezes esconde-se a vergonha com humor desprendido, com inteligentes análises, com críticas acutilantes, com inflamada indignação, com protesto, mas no fim do dia fica o embaraço e a vergonha de sermos o que somos: um país pobre, sobretudo de espírito, um povo de brandos costumes que se acomoda à mediocridade que lhe permite ir ao café dizer mal de tudo e de todos. Brandos costumes da treta que imobilizam o cérebro e o corpo, que impedem um rasgo de genuína revolta e vergonha. Enchem-se as praias ou os shoppings, abstemo-nos nas eleições porque “não vale a pena” - dito com um suspiro de quem se habitua a um fado que não merece mas suporta com estoicismo. Ah, merecemos sim; merecemos cada um dos políticos que temos, cada uma das “elites” administrativas, financeiras, judiciárias e mediáticas que temos. Que importa Lopes da Mota, Pinho, o primo do Kung-Fu, o primo do primo, a mãe do primo do primo, o tio do primo do primo, o Freeport, as “alegadas” pressões. Tudo bem, tudo normal, ninguém se demite. Outros fizeram-no por muito menos cá em Portugal e no estrangeiro, mas nestes casos deste consulado Socrático essa questão nunca se coloca. Ninguém tem vergonha na cara.

Uma pergunta que fiz aqui, encontrou resposta aqui. Fantástico! Afinal existe mesmo uma “papa maizena”, tem receita e tudo e houve quem a tivesse comido. Alguns, claramente em excesso. Coisa de deixar más recordações


Pede-me Nelson Reprezas para mencionar séries televisivas, não percebi muito bem – nem procurei perceber, confesso - com base em que critério. Mas creio que seja que critério for andará sempre à volta da nossa experiência e gosto pessoal. Embora avessa a correntes blogosféricas, gostando de poucas e quebrando-as todas, este pedido revela-se um pretexto para escrever sobre algo de que gosto, e instantaneamente – mesmo antes de eu ter tempo para pensar, accionou a minha memória porque toda a vida gostei, e gosto de séries televisivas. Lembro tempos em que a semana funcionava em função de um determinado dia de semana em que a televisão (quando televisão era algo que não tinha mais do que dois canais, e até quando era a preto e branco) dava esta ou aquela série. Agradeço o DVD (e antes o VHS) que tornaram possível comprar alguns packs de séries completas (ou temporadas) antigas e recentes, que me permitem uma saudável e total alienação da realidade durante um fim-de-semana ou uns dias seguidos. Vi muitas séries, boas e menos boas - estas últimas são sobretudo muito marcadas por uma determinada época ou “moda” - mas há algumas que lembro com saudade pois marcaram a minha infância ou adolescência e remetem para um mundo diferente e para um momento de inocência quase rousseauniano. Só essa inocência permitia que gostássemos das séries que hoje não me apetece propriamente rever, no entanto fica a nostalgia dos momentos em que fui feliz a vê-las, fica a espécie de ternura pela recordação. Todas as séries que mais à frente menciono foram vistas, até fora de Portugal, e algumas vistas e revistas. Sei que com mais tempo a minha memória se avivaria e lembraria outras tantas. Opto por umas escolhas sobretudo nostálgicas, de séries de outras décadas e de outros mundos, à excepção do Dr. House. que está presente porque é a única que hoje recria um pouco o ritual de ver uma série “em directo”: é a única que me obriga, todas as semanas à segunda-feira no canal Fox, a repetir esse ritual que já é quase de outros tempos: sentar em frente à televisão quieta e parada. Outras séries actuais vejo-as normalmente em diferido falhando alguns episódios, ou vejo posteriormente em DVD se gostei particularmente.

Get Smart (Olho Vivo), Green Acres (Viver no Campo), Bewitched (Casei com uma Feiticeira), Gabriela Cravo e Canela, Upstairs, Downstairs (A Família Bellamy), Brideshead Revisited (Reviver o Passado em Brideshead), La Piovra (O Polvo), We’ll Meet Again, A Town Like Alice, The Jewel in the Crown (A Jóia da Coroa), Hill Sreet Blues (A Balada de Hill Street), The Muppet Show (Os Marretas), Blackadder, Twin Peaks, Yes, Minister e Dr. House.
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15.5.09


Depois de uma semana arredada da actualidade – tanto quanto nos é permitido, claro, e do blogue li agora no Público online esta notícia, só com exame psicológico será possível tirar ou revalidar a carta de condução, que me tranquilizou pois me demonstrou que afinal é verdade, não é só uma suspeita minha: o país caminha impávida e serenamente para o absurdo. Repito: absurdo. Já não falo da crise económica que o governo combate com medidas contra “bota-abaixismo”, do desemprego que se resolve com formações e parcerias inventadas em mesas de reunião, da segurança que sai à rua em força no dia a seguir a distúrbios, das “alegadas pressões” aos magistrados do caso Freeport em que José Sócrates é, alegadamente, suspeito, da “delação” de quem se incomoda com pressões; já não falo da Europa que não se discute, das eleições e do financiamento dos partidos, do PSD que sobe nas sondagens, das hesitações de Alegre, dos “momentos Chavez” do Primeiro-ministro que se sucedem para as televisões a um ritmo diário iludindo-nos com “medidas”, da crescente presença mediática e com sucesso de Paulo Rangel (aquela escolha duvidosa e tão criticável – e criticada - de Manuela Ferreira Leite), do recente silêncio de Pedro Passos Coelho.

O país caminha para o absurdo porque ninguém pára para pensar, porque não se deixa que o tempo seja bom conselheiro, porque se perdeu o norte, porque não se distingue o essencial do acessório, o que é norma do que deve ser excepção, porque na ânsia de se querer ser politicamente correcto se legisla de qualquer maneira sem olhar as consequências, porque não se preza a liberdade individual e se permite que o estado nos vá, a pouco e pouco, estreitando numa camisa de forças. Um destes dias nem estrebuchar podemos. Psicólogo para tirar a carta? E para ser político e Primeiro-ministro? E para ser médico? E para ser gestor de um Banco? E para ser magistrado? E para ser professor? E para ter filhos? E para casar (homo ou hetero)? E para comprar casa?

Está tudo doido?
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Dando Excessivamente Sobre o Mar 46

Odile Redon (1840-1916)
Rocks on the Beach
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8.5.09

Diferenças

Sobre a viagem do Papa ao Médio oriente

Bento XVI não deixará de insistir num facto que o preocupa: o êxodo dos cristãos do Médio Oriente. Em quatro décadas, só em Israel e na Palestina, eles passaram de vinte para dois por cento numa população de nove milhões.
(Público, Ed. Impressa)

Este facto é uma das mais significativas imagens – e de difícil contestação - sobre a gradual radicalização das sociedades islâmicas do Médio Oriente ao longo das últimas quatro ou cinco décadas. Intolerância, violência, abuso, pressões várias têm sido e são o quotidiano das minorias cristãs (sobretudo católicas) nos países islâmicos. Em contra-partida, no ocidente, o acesso ao estado providência (sobretudo na Europa), o respeito pela diferença, a integração – com maior sucesso nos EUA – foi sendo, mesmo que por vezes de forma controversa ou pontualmente pouco sucedida, a política dos diferentes governos. Enquanto que no ocidente as mesquitas aumentam, as igrejas no Médio Oriente estão em vias de extinção.
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6.5.09

Plataforma contra a Obesidade 52

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Bacon Sandwich

(...)
If everyone improved their lifestyle just a bit, then the benefits to the overall health of the nation would be large but each individual would not notice the difference. An inspired epidemiologist, Geoffrey Rose, called this the Prevention Paradox and we see it being played out again and again.

That is why it is understandable that attempts to create these shifts in behaviour by exhorting people to change tend to fail - and make them anxious and guilty. It explains the current call for society-wide actions such as minimum alcohol pricing, and enthusiasm for 'nudging' people towards better behaviour. When you find the muesli at the front of the breakfast counter, and the bacon sandwiches in an unmarked gloomy corner of the canteen, you know you're being nudged.

So as you reach for your yum, perhaps sometimes pause a moment and realise that you are taking a gamble on the yuk occurring, but that it may be a risk worth taking.

Uma perspectiva individualista e desapaixonada sobre os prazeres e o risco numa prosa inspiradora.

Adenda: Não é bacon sandwich, mas “tem tudo a ver” (para usar uma expressão modernaça) na ânsia de regular os costumes; neste caso “regular a cama ou o vão de escada”. Uma outra prosa inspirada, desta vez da pluma de João Gonçalves.
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Ontem
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Lantejoulas e Tutus

Esta notícia chamou a minha atenção. Já várias vezes me tinha perguntado quando é que a modalidade de natação sincronizada se alargaria aos homens e como. Sou contra qualquer tipo de discriminação, mas também sou céptica em relação às proclamações de igualdade a propósito de tudo e de nada. Rapaz não é igual a rapariga por muitas voltas que se tentem dar. Devem ter igualdade de oportunidades quer no ensino da matemática, como na entrada para as Forças Armadas ou na prática de natação sincronizada. O que já me parece forçada é a ideia de que um rapaz para que pratique esta modalidade desportiva o tenha que fazer como as mulheres o fazem: pinça no nariz, maquilhagem, fatos brilhantes e com lantejoulas. Nem tão pouco consigo ver o interesse desportivo e estético de um rapaz em reproduzir os movimentos que as raparigas fazem e que são sobretudo adaptados à anatomia feminina. Na dança clássica, Ballet, os homens não usam tutu, não fazem pontas, nem fazem o mesmo trabalho de pés que as mulheres. Fazem outros em que se destacam: piruetas, saltos. Também é assim noutras modalidades desportivas mesmo quando há equipes mistas. No atletismo em competição, e apesar de fazerem as mesmas modalidades, há a separação entre homens e mulheres. Abrir a natação sincronizada aos homens não passa por travesti-los e pô-los a fazer os mesmos movimentos que as raparigas fazem, passa sim por adaptar e explorar as possibilidades da modalidade à anatomia masculina. Talvez nadar com as raparigas e como as raparigas não seja a melhor forma de persuadir a federação desportiva a alargar a modalidade a rapazes. Parece que hoje, no nosso mundo, a ânsia igualitária não conhece limites.

5.5.09

A deselegância e o ressabiamento político unidos num comentário do ministro do Allgarve contra Paulo Rangel. Mais a mais em pura dissonância com o espírito de Plataforma contra a Obesidade engendrada pelo seu – nosso – Primeiro-ministro. Senhor Ministro, deixe as papas maizena (que é isso? O Senhor algum dia as comeu?) eu aconselho-o trocá-las por umas sopas de legumes.
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Dias de Verão 10

Pablo Picasso
Sleaping Peasants
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Sair de Cena 5

Dias Loureiro continua, vítima das suspeitas que pesam sobre si, a arrastar-se penosa e desconfortavelmente pelos corredores do regime. Claro que ele pode teimar em continuar este percurso de penitente e obrigado, nada que outros nos dias de hoje não o façam com a diferença de ostentarem a arrogância dos fariseus e a determinação dos heróis vencedores. Para não continuar a colocar o Presidente da República numa situação inusitada e desconfortável, para lhe (ao PR) devolver a liberdade que está comprometida, mas sobretudo por ele, pelo que ainda resta de dignidade da sua pessoa, era bem melhor que pedisse para abandonar o Conselho de Estado. Já deixou passar tempo demais. Será que não vê?


4.5.09


Mais um cartão amarelo a MFL. O PS lidera a intenção de voto para as legislativas nesta última sondagem, apesar de uma subida do PSD.
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Obrigada ao Pedro Correia pela referência. Como sempre, estas correntes deixam-me sem jeito.
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28.4.09

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Hoje são os Cheque-dentista

O pior desta política de medidas/anúncios/inaugurações diários, - hoje são os cheque-dentista - calendarizados milimetricamente para que o “efeito” de empenhamento político do governo e do Primeiro-ministro se mantenha elevado, com deslocações, pompa e cenário cuidadosamente estudado, um discurso mais estudado ainda para sair natural e em frases simples e sonantes de frente (ou será ¾?) para as câmaras de televisão, num exercício que durará até às eleições (talvez uma treguazita lá para Agosto?), é o facto de que as medidas em si, lidas e vistas assim em título de jornal, são feitas de forma a dificultar o questionamento sobre a sua bondade, necessidade ou interesse e são feitas de forma a minimizar a discórdia e contestação. Quem discorda de que se deva incentivar a higiene oral das crianças prevenindo doenças da boca? Quem discorda da extensão da escolaridade para 12 anos? Quem discorda que os medicamentos genéricos sejam comparticipados a 100% para reformados dos escalões de rendimentos mais baixos? Assim, de repente, é difícil discordar, no entanto estas medidas são demagógicas e populistas, são mais pensadas pelo efeito que causam ao eleitor do que pensadas em função de uma coerente política sectorial. Da forma como são apresentadas, elas estimulam o sentimento de dependência das pessoas ou empresas do Estado paternalista que zela por nós e a todo o momento nos salva e nos dá uma mãozinha quando as circunstâncias apertam, transmitem também uma noção de facilitismo irrealista e contraproducente. O Estado não pode tudo nem tem que poder tudo. Os cheques-dentista têm que estar inseridos num sistema de saúde racional e de custos controlados. O ensino até aos 18 anos tem que ser pensado em termos de dar a formação devida às diferentes pessoas, diferentes talentos e diferentes ambições. Estas medidas nunca deviam ser olhadas isoladamente, deveriam sempre ser parte de algo mais estruturado e abrangente em que se percebesse um sentido, uma lógica, um orçamento, uma racionalização de custos. Mas não – o governo não quer que pensemos, que discutamos as políticas sectoriais, o governo quer-nos calar com medidas “simpáticas”, mas que não restem ilusões, todas estas medidas têm custos que ninguém questiona, o deficit aumentará ainda mais bem como o endividamento externo, e nenhuma destas “medidas” nos fará estar melhor quando a crise passar, nem contribuirá para o enriquecimento do país. Até lá o calendário eleitoral terá sido cumprido com um ritmo de inexorável cegueira em que nos empobrecemos um pouquinho mais cada dia que passa.
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26.4.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 38



Ser proclamado Santo

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A propósito da extensão do ensino obrigatório para 12 anos (pretexto para o meu post de ontem) é de ler o artigo hoje no Público de António Barreto do qual transcrevo o parágrafo final:

Esta teria sido uma excelente oportunidade para repensar o ensino secundário, a sua função e a sua natureza. Poder-se-ia ter examinado o ensino profissional equiparado ao secundário, dando-lhe mais importância. Era uma ocasião excelente para revigorar o ensino tecnológico, que este Governo promoveu, é certo, mas que espera pela definição de uma vocação forte e de uma missão de longo alcance. Teria sido possível rever questões fundamentais como sejam a duração do secundário ou a organização curricular que, actualmente, deixa muito a desejar. Era a altura ideal para apreciar serenamente a articulação do secundário com o ensino superior, tanto politécnico como universitário. Era uma grande oportunidade, era. Mas já não é.

E não é porque é mais importante anunciar neste frenesim mediático do que planear e reformar.
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25.4.09

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"Tomar Medidas"

A capa do Público de hoje “Os jovens têm que estudar até aos 18 anos, mas podem trabalhar com 16” mostra a ligeireza com que se anunciam medidas sem aprofundar todas as implicações, nomeadamente em termos de legislação já existente, que cada nova medida/lei pressupõe.

Não ponho em causa a bondade da lei que, no entanto, exigia ser bem amadurecida em termos do sistema de ensino e de opções que os jovens de 14 anos para cima e sem “vocação” para os estudos possam contemplar de forma positiva e útil para o futuro. Ponho em causa, no entanto, a forma como é feita e a calendarização do anúncio. Todos os dias um anúncio; todos os dias uma medida: um dia a possibilidade de acesso às nossas contas bancárias por funcionários administrativos, com inversão do ónus da prova para fiscalizar eventuais enriquecimentos ilícitos, no outro dia é uma nova auto-estrada que se anuncia e no dia seguinte são os genéricos gratuitos para os mais velhos e mais pobres, e no dia seguinte a escolaridade obrigatória até ao 12º ano. Tantas medidas deixam-me algo atordoada: um dia olho para a saúde, outro para a educação, outro para as obras públicas, outro para as liberdades individuais, outro para os impostos numa tentativa de perceber a conveniência, justeza e bondade das medidas. Torna-se complicado uma avaliação séria por parte dos eleitores, e capaz de passar para além do ruído do marketing político e da retórica do “anúncio”; mas talvez a intenção seja essa mesma: a de que os eleitores se atordoem, se deslumbrem e se percam no mar de anúncios. Eu confesso a minha incapacidade para descobrir uma política coerente, uma estratégia para o país e para o combate à crise; não consigo perceber um rumo, uma visão um “todo” coerente que faça algum sentido.

Estas medidas avulsas parecem ser de quem desesperadamente precisa de “fazer alguma coisa” para que ninguém se detenha a pensar “noutras coisas”. E assim sendo, até parece que a crise financeira internacional que desencadeou “a” crise em que o mundo mergulha, não poderia ter chegado a uma hora mais conveniente para José Sócrates. É o pretexto perfeito para legitimar anúncios (contra o bota-abaixismo, há que tomar medidas para combater a crise, diz o Primeiro-ministro), uns atrás dos outros, sempre em ambiente preparado para o efeito e para maximizar o impacto mediático, que se materializam em medidas dispersas e de razoabilidade e viabilidade discutíveis e tantas vezes contestadas por vários sectores da sociedade. Se tem sido assim até agora como será daqui para a frente, e até às eleições legislativas? Temo pelo que ainda nos espera e pergunto-me se não haverá também alguma má-fé nesta torrente de anúncios em clima eleitoral com o caso Freeport em pano de fundo. Nada me faz esperar melhor pois nada parece abalar a determinação do Primeiro-ministro que está empenhado numa verdadeira luta mediática apostada em vencer o pessimismo (e em distrair os eleitores?), se lança numa cega fuga para a frente, afundando a pouco e pouco o país num desequilibro financeiro perigoso que tantos já vêem. Tudo leva a crer que, tal como já tem sido dito, nos arriscamos a sair da “crise” (a internacional) pior do que estávamos quando nela entrámos.

22.4.09

São Rosas, Senhor... 3

Ambrosius BOSSCHAERT, le Vieux (1573 - 1621)
Bouquet de fleurs dans une arcature de pierre s'ouvrant sur un paysage
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Fiquei ontem na dúvida (na entrevista da RTP ao Primeiro-ministro) sobre quem estaria mais incomodado por ter que abordar o caso Freeport, se os jornalistas se José Sócrates. De olhar cerrado e postura entre o ausente e o glaciar colocaram as questões como quem cumpre um guião (ou como quem cumpre uma pena?). Nem mais. O que foi manifestamente “menos” para quem ouviu. O Primeiro-ministro de Portugal só disse o que tinha ensaiado e só falou do que quis.

Uma das piores características do nosso Primeiro-ministro José Sócrates é tomar-nos por parvos, e tomarem-me por parva é, parafraseando Pinheiro de Azevedo, “uma coisa que me chateia”. Toda a entrevista se pautou por um ar falsamente ingénuo e espantado que com a maior naturalidade e desplante nega evidências (por exemplo, o PR não falou para o governo porque estamos em consonância) e também não esqueceu o seu “momento Chavez” ao anunciar o reforço do subsidio social assim como quem passa a mão pelo pêlo afagando o eleitor. Já são quatro anos de deliberadamente distorcer e contorcer a verdade e de querer enganar com frases feitas em laboratório, e medidas costuradas em patchwork com o retalho que na altura vier calhar à mão.

Adenda, e ainda sobre a entrevista do Primeiro-ministro:
Deixando comentários mais profundos de lado, eu bem gostava de saber a que obras é que o nosso primeiro-ministro se referia, na entrevista de hoje à RTP, quando falava de “livros da literatura da América Latina onde se viam organizar processos contra políticos”? É que, mesmo depois de dar várias voltas à cabeça, não percebi. É uma espécie particular à América Latina? Há alguma obra imorredoira, superior a todas as outras, por lá produzida sobre a matéria? Alguém me ajuda?
Paulo Tunhas no Cachimbo de Magritte

Também eu reparei nessa referência "cultural" e, por um momento tentei perceber que obra o PM teria em mente. A única explicação que encontro é a de confundir o conceito de "República das Bananas" com "Literatura Latino-Americana". Será?
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21.4.09

Da Cultura

Neste Domingo que passou fiquei admirada por estar tanto tempo sentada em frente da televisão a ver um programa “cultural”. Não me acontece com frequência tal coisa. Os programas culturais normalmente têm o condão de, mais cedo ou mais tarde me aborrecerem ou irritarem, por isso já nem me preocupo em vê-los ou em saber quem quem é o convidado, qual é o tema de que programa. Neste Domingo enquanto zapava já naquele impulso de “ah, não há nada, desliga-se” apanhei o Câmara Clara com António M. Feijó e Vasco Graça e Moura a falar de Shakespeare e fiquei a ouvir. O programa estava a começar e não era sobre Shakespeare, mas sim sobre Grandes Romances de Amor em que se pedia a cada um dos convidados para levar alguns romances e falar sobre eles. Nunca resisto a nada que tenha a ver com romance quando sinto o séc. XIX por perto, (coisa que considero inevitável quando se fala em romance), e por isso encostei-me para trás e deixei-me levar por aqueles dois amantes de literatura no percurso que cada um talhou com as escolhas que fez.

AMF e VGM falavam com uma voz tranquila e baixa, opinavam, teciam relações, encontravam referências, ajustavam ideias e nada era complicado, obscuro ou rebuscado, só transparecia a simplicidade de quem se deixa levar pelo verdadeiro prazer da leitura de cada uma das obras, a vontade de mostrar os caminhos que elas abrem, de pousar o olhar de uma ou de outra forma. Foi bom relembrar umas, querer ler outras e sobretudo foi bom tentar perceber porque se perde tanto tempo a ler tralha e mais tralha com tanta boa literatura que passou o teste do tempo e das modas a merecer ser (re)descoberta e desvendada. O paraíso poderia (também) ser algo parecido com aquilo. As poucas interrupções e gargalhadas de Paula Moura Pinheiro destoavam um pouco, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma pois quebrava o ritmo e o tom que os convidados impuseram ao programa. Mas pior do que isso foram as ruidosas interrupções, sem aviso e no meio da conversa, de pura propaganda “cultural” a filmes, temporadas musicais ou concertos. Porque é que era preciso aquilo? Não é mais importante para a “cultura” saber passar o prazer de a usufruir do que cansar-nos com a lista exaustiva daquilo que vai acontecer, e que já todos tivemos oportunidade de ver e ler nos jornais e nos cartazes espalhados pelas cidades?
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20.4.09

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Da Apatia

Já passaram alguns dias sobre a divulgação na TVI deste vídeo. Enquanto o PS, o Governo e o Primeiro-ministro José Sócrates em particular “assobiam para o lado” (movendo processos contra jornalistas escolhidos a dedo e evitando nomes conceituados, influentes e pesados da crítica e comentário político), o país parece adormecido e já nem reage a algo que me parece merecedor de atenção, de rigoroso escrutínio, e de questionamento. A chuva caiu, o sol brilhou, o Presidente da República fez um discurso que incomodou, trocaram-se recados dizendo que não se recebem recados, os “momentos Chavez” sucedem-se, esconjuram-se os “bota-abaixistas” e a nefasta influência que exercem sobre o optimismo reinante de que “é com medidas que se combate a crise”, inventam-se medidas para combater a crise, fazem-se leis contra o enriquecimento ilícito, discute-se, o timing do anúncio pelo PSD do seu candidato às Europeias, discute-se o candidato himself que não é tão abrangente como deveria, que não é uma figura tão histórica como deveria, Jorge Sampaio falando disse que não falaria, Vital Moreira esclareceu que afinal poderá falar sobre política nacional e que afinal poderá votar Durão Barroso, o FCP ganhou, os preservativos continuaram a dar pretexto para que se fale deles, o vídeo de Susan Boyle fez sucesso na internet.

Quem olhe de fora para o nosso país nada vê. Estamos todos resignados e adaptados à possibilidade de um certo nível de corrupção na classe dirigente. Isso já não nos indigna, não nos revolta. Mais, até desculpamos (vejam-se os casos Fátima Felgueiras e afins) se forem populares e tiverem “obra feita”. Depois de rever o vídeo e me intrigar com esta apatia com que os portugueses o viram nos sofás das suas casas, porque será que não me intriga que se deixe ao poder discricionário de uma administração fiscal, e dos sentimentos (normalmente pouco nobres, louváveis e recomendáveis) que na altura moverem quem de direito, o poder de entrar pelas nossas contas bancárias dentro e saber de que matérias é feita a nossa vida.

10.4.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 37

Numa pouco ortodoxa antecipação do Domingo de Páscoa

Caminhar para Emaús.
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"Política de Verdade"

Costumo passar pelos momentos das campanhas eleitorais sem nenhum entusiasmo. Não costumo gostar do discurso eleitoralista, abomino as promessas vãs e demagógicas e desconfio das promessas realistas. Tenho alergia à encenação dos entusiasmos e crenças num Portugal e num futuro melhores. Aliás o passado recente tem demonstrado a incapacidade da utilização da palavra “melhor” aplicada ao universo político, onde nada parece melhorar. Cada vez há mais manipulação e tráfico de influência promotores da promiscuidade entre as “forças” políticas no poder e as “forças” da sociedade civil nomeadamente as forças económicas e financeiras tornando mais difícil separar o trigo do joio, a boa da má moeda e, se distraídos, diluir tudo muito bem para que seja mais difícil apurar a responsabilidade de sucesso de uma legislatura, de um mandato municipal, etc. Mas há quem não ande distraído e sinta o universo do poder cada vez mais nas mãos de mercenários e de profissionais que vivem de e para o poder sem o qual simplesmente não têm existência. Nota-se mais empenho, mais ambição, mais agilidade para tocar em vários instrumentos, mas menos inocência, certamente menos vocação e sentido de serviço.

Por mim, não precisava de campanhas eleitorais tal como elas se fazem hoje. Não gosto das ruas e praças (não é só a do Marquês, como o “Zé” num acesso de provincianismo sugere) cheias de outdoors, irritam-me os slogans, o barulho e o ruído políticos e incomoda-me ainda mais que nos tomem por parvos com promessas e discurso tão cheios de nada se olharmos para além da retórica e da demagogia. Nem quero nem pensar naquilo em que José Sócrates se transformará, no que dirá, no que prometerá quando a campanha eleitoral arrancar em pleno. A amostra destes últimos quatro anos tem sido ampla e elucidativa, e não gosto do que vejo nem do que ouço.

Por isso espero sinceramente que a frase que acompanha a fotografia de Manuela Ferreira Leite nos outdoors “Política de Verdade” seja um programa de como fazer campanha eleitoral e nunca esqueça a verdade que enuncia. Não importa que o cartaz seja “pobre” e banal, a fotografia demasiado normal e a frase tão comum que qualquer pessoa a poderia dizer. e diz ao ponto de a esvaziar de sentido. Nada disso interessa. Digo mais: antes assim do que um fundo intelectual ou esteticamente elaborado e antes assim do fotografias de pose complexa acompanhadas de frases todas “porreiro, pá” ou tecnologicamente humoradas do ponto de vista semântico e rimadas do ponto de vista fonético, todas inventadas em laboratório esterilizado, após intenso e caro brainstorming criativo pelo gabinete dos especialistas em comunicação que cuidam de tudo por fora com verniz, luz, animação 3D e sem nunca esquecer a música épica a animar as gentes, e esquecem o que deve estar por dentro: um programa político simples, coerente e realista e, claro, o sentido de missão, o sentido do dever, a honestidade, a honra. Nos dias que correm isto é puro luxo.
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8.4.09

Em Flor 20

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O Eduardo Pitta tem alguma razão, mas não a tem toda.

Em primeiro lugar porque a bondade do Código Contributivo apresentado para discussão não me parece assim tão óbvia. Neste período de crise, em que as empresas estão a falir a um ritmo assustador e o desemprego é uma realidade social, para não falar no drama que representa para as famílias, difícil de escapar, as contribuições da Segurança Social são ainda mais escassas do que as que existiam e que, como sabemos, eram baixas por causa do fraco crescimento demográfico e do envelhecimento da população. A preocupação do governo não é a do trabalhador dependente de 40 anos, é uma preocupação de cash-flow. O governo quer dinheiro já para poder pagar as pensões hoje e manter esse mito das nossas sociedades europeias ocidentais dependentes e viciadas em estado social, que é a Segurança Social. Para isso prepara-se para estrangular ainda mais as empresas portuguesas que não são em nada como a Mota e Engil ou a Portugal Telecom, excepções de uma regra feita de pequenas e médias empresas.

Em segundo lugar porque ninguém garante ao trabalhador dependente de 40 anos que ele quando se reformar possa uma pensão “por completo” para qual ele contribuiu ao longo da sua vida laboral. Ninguém pode garantir que a médio prazo (quanto mais a longo prazo) a segurança social tenha dinheiro suficiente para poder satisfazer as reformas de todos os contribuintes.

Em terceiro lugar porque muitas vezes os subsídios de que fala EP são uma das formas que as empresas têm de contornar o excessivo custo que é ter um empregado. Cada empregado contratado representa um enorme peso contributivo (Segurança Social e IRS retido). É verdade que muitas empresas poderiam dar salários mais interessantes e abandonar “esquemas” de subsídios e outras ajudas de custo tais, mas estamos a falar de grandes empresas com lucros razoáveis, excepção à regra, como já referi. Para muito do tecido empresarial português feito de pequenas e médias empresas cada empregado que se contrata é um peso tão grande que só o recurso a estes subsídios pode permitir que a empresa o consiga contratar. Infelizmente, num país onde a flexibilidade laboral é pouca contratar um empregado é uma decisão sempre difícil e cara. Cara demais.
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5.4.09

Mário Soares diz-se “enjoado” (SIC Jornal da Noite de hoje) com o caso Freeport. Eu também. Ele diz-se “enjoado” com as fugas ao segredo de justiça, com os julgamentos em praça pública. Eu, ao contrário de MS, estou enjoada com tudo o que vem à luz do dia do passado de José Sócrates e que teima em permanecer enevoado e nunca cabalmente esclarecido: licenciatura, projectos de engenharia, o caso Freeport, o tio, o primo, a mãe. Mas o pior é o pressentimento (já para não ser cínica e não falar de certeza) de que tudo permanecerá assim mesmo, num limbo jurídico processual entre fugas de informação, pressões aos magistrados, alvos de muitos Prós & Contras e debates cheios de especialistas deixando higienicamente de lado e os factos (nomeadamente os factos políticos relevantes) que nunca serão objecto de escrutínio, investigação séria e cabal, de apuramento da verdade e de esclarecimento do público. Talvez o “público” tenha exactamente o que merece, não é Dr. Mário Soares?
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Velas 14

Hoje
(Clicar para aumentar)
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3.4.09

"Read my lips"

José Sócrates, e os seus acólitos comunicacionais podem dar as voltas que quiserem à cabeça, esgotarem-se em brainstorming, consultarem dicionários de sinónimos e rimas para ajudar a fabricar os slogans e as frases “que ficam no ouvido”. Podem vasculhar catálogos de gadgets electrónicos acabados de sair e todas as novas tecnologias para “épater le bourgeois” e dar o lustro dos neons à pobreza portuguesa. Pode inaugurar escolas, lares, ou centros de excelência disto e daquilo; apresentar power-points bem como oferecer incentivos a plateias ensaiadas, ordenadas e agradecidas pelo obséquio. Pode, com ajuda da calculadora do Magalhães e a ajuda preciosa do sistema bancário calcular os descontos dos modelos de painéis solares das duas empresas bafejadas pela sorte do favor socrático, bem como calcular os descontos nas prestações das casas inferiores a 100€ para quem esteja desempregado. Pode pagar a “think tanks” para fazerem a “engenharia política” necessária para descobrirem a pólvora que só explode mediante um complexo cálculo de condições, mas sempre maximizando o impacto mediático, persistente com os actos eleitorais em pano de fundo, claro.

O problema é que não há nada a inventar. Dê-se a volta que se der, arranjem-se os incentivos que se arranjarem, os almoços nunca são de graça e a factura das medidas anti-crise desabarão em cima de todos, e talvez muito especialmente em cima daqueles que as medidas visavam defender. As medidas para efeito eleitoral nada ajudam a médio e a longo prazo (eu até duvido que sejam realmente úteis a curto prazo). A crise, a nossa e a que depois veio de “fora”, é uma crise que afecta a sociedade transversalmente, e a sociedade protuguesa não é excepção; é uma crise de todos sobretudo da classe média que, no nosso caso, não é particularmente rica. Por isso nenhum dos incentivos, medidas e apoios poderá ser eficaz no combate à crise. Só uma medida, clara e transparente como a água é que o poderia ser. Só que tem um problema: não é nova nem brilha como o neon, mas já foi usada e testada com sucesso por tantos e é amada sobretudo pelos políticos anglo-saxónicos em campanhas eleitorais, pois costuma ser do agrado de todos. os eleitores e contribuintes. Chama-se alívio da carga fiscal. Claro que esse alívio da carga fiscal exige uma gestão rigorosa dos dinheiros públicos, coisa que os nossos políticos não gostam, não estão habituados nem gostam que isso lhes seja exigido pois limita-lhes a faculdade de, arbitrariamente e de forma opaca, conceder benesses e favores sob forma de subsídios ou incentivos, a determinados grupos que nesse momento se apresentem melhores servidores dos interesses do grupo decisor.

Este é o retrato do combate à crise à maneira de José Sócrates, difícil de se levar a sério e pouco merecedor de aplauso.
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Dias de Verão 9

Wassily Kandinsky (!866-1944)
The Waterfall
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28.3.09


Pior do que isto, e pior do que o CCB não ter começado o espectáculo à hora anunciada (tanta subserviência!) só isto, que é a imputação de responsabilidade - culpa - a outro, uma de tantas formas de se fazer de vítima e de “fazer queixinhas”. É este o homem que temos, e esta a Republica das bananas em que vivemos.
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Capitalismo 5

John Frederick Lewis (1805-1876)
At Uncle Charles the Binder
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"Não me Entretenho a Descrever a Crise"

Ouvi da boca do Primeiro-ministro no Jornal da Noite da SIC de quinta-feira esta afirmação extraordinária: “não me entretenho a descrever a crise” nem (e cito de cor) a ser pessimista, astrólogo e vidente. Nestas declarações proferidas quando da visita a uma unidade industrial corticeira, mais uma vez se põe em evidência a distancia entre o Primeiro-ministro que nos governa, cada dia pior, de forma cada vez mais aleatória, caprichosa e insegura, e o país real que deveria conhecer e governar. Um Primeiro-ministro que se preze deveria descrever a crise, mas para isso precisa de saber, de estudar, de ouvir para a conhecer. Deveria saber explicar aos seus eleitores e aos cidadãos contribuintes os contornos da crise no país: o desemprego crescente decorrente de falências de um sector privado cada vez mais frágil face aos constrangimentos financeiros, fiscais e às dificuldades conjunturais de uma crise que afecta o mundo, um sector bancário sem liquidez e imóvel que não consegue investir nem emprestar, o empobrecimento geral da população, o gigantesco endividamento externo e uma maior restrição e custo de financiamento do estado no exterior causado pela baixa do rating da República Portuguesa, etc, etc.

A ligeireza e a sloganização da nossa política governativa impele o Primeiro-ministro a buscar (ou improvisar) medidas sem nexo aparente de combate à crise que caibam em duas frases e possam ser anunciadas com efeitos sonoros nos jornais televisivos. Não se detecta nessas medidas anunciadas um objectivo claro. As injecções de capitais dos contribuintes ao sector bancário são discutíveis e mal percebidas em alguns dos casos (BPN, por exemplo); a redução em 50% da prestação da casa, uma moratória por dois anos para quem tem prestações inferiores a 500€ mensais e que só afecta e interessa a um núcleo muito pequeno de cidadãos, que não sabem se daqui a dois anos estarão em condições de ressarcir o banco, é também um adiar da crise; o desconto para a compra de painéis solares de determinadas marcas e modelos comprados através de uma financiamento bancário (sempre a banca, sempre a banca como intermediária) mostra bem a irrelevância e leviandade destas medidas. A exortação feita por José Sócrates para que se comprem os ditos painéis solares para ajudar a crise é tão ridícula que embaraça quem ouve (já que não embaraça quem diz) pois expõe de forma inquestionável a distância entre a realidade da crise e o que se passa na cabeça de JS e dos seus assessores - um eufemismo para a ignorância total que revela sobre o mundo em que vive e a incapacidade de se rodear de quem saiba e lhe explique. A aposta cega nos grandes investimentos (TGV sobretudo) parece ser mais uma fuga para a frente, uma teimosia megalómana do que decorrente de análise das reais necessidades do país.

As medidas avulsas para a crise “vendem” bem do ponto de vista do sound bite: são como quem anuncia uma campanha de promoções, uma época de saldos, mas depois de se perceber o alcance das mesmas voltamos à estaca zero: a classe média que sustenta a economia dum país, e neste caso a nossa classe média, bem como as nossas pequenas empresas estão na mesma, isto é, cada dia pior: cada dia mais estranguladas com os impostos, com os custos sociais, com a insegurança das encomendas que não chegam e dos empregos que se podem perder. Neste caso não há painéis solares nem TCGs que lhes valham. O Primeiro-ministro devia parar um pouco para entender a crise, só assim poderá explicá-la devidamente (e não “entreter-se” nas palavras dele) aos cidadãos, só assim lhe será dada credibilidade, algo que manifestamente teima em lhe escapar um pouco mais a cada dia que passa, a ter uma base sólida para pensar as medidas contra a crise e não um desbaratar de dinheiros públicos que tornarão a situação financeira do país insustentável. José Sócrates não governa. Entretém.

Adenda: Li isto depois de escrever o este post. Alguém que parece não se importar de falar sobre a crise e de falar verdade. Mas nós temos eleições, não é? E falar a verdade em períodos eleitorais (e nos outros) não é lamentavelmente uma opção para o nosso Primeiro-ministro
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25.3.09

Em Flor 19

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24.3.09

A Doença e o Doente

Uma boa notícia esta de que “os médicos querem aprender a dar más notícias da melhor maneira”. O termo “os médicos” que parece dar um cunho geral é entusiasmante, mas a realidade obriga-nos a ser cautelosos - mesmo que sejam uma pequena minoria, é já um sinal que o caracter omnipotente e omnisciente do médico começa a ser equacionado. Eu nunca percebi como é que profissionais cuja actividade é lidar com pessoas que neles depositam tantas expectativas e confiança, não têm no seu curriculum académico disciplinas de comunicação, e não aprendem técnicas comunicacionais. Ninguém mais do que o médico (de muitas especialidades, nomeadamente a mais falada: oncologia) que vê o ser humano com as suas debilidades e fragilidades, que vê a vida e a morte de perto, que sugere e gere opções e dúvidas, deles e dos pacientes, deve saber abordar as questões difíceis e saber comunicar as más notícias. Se há aqueles que têm “jeito” e são mais dotados do ponto de vista comunicacional, há outros que não têm tanto “jeito”, e ao enfrentar um doente em situação de crise sente-se em confronto com os seus próprios medos e reagem de maneira defensiva (tantas vezes ofensiva) coisa que o paciente sente imediatamente e que tantas vezes determina o bom desenrolar da relação profissional e o resultado do tratamento. Hoje este facto parece incontestado: a boa relação médico-paciente é fundamental para a optimização do tratamento e, quando assim for o caso, da cura. Para todos os médicos é de extrema utilidade a aprendizagem de técnicas e de algumas regras comunicacionais que asseguram que o diálogo se faz respeitando a integridade do paciente, sem que o médico nunca esqueça a dimensão humana e os sentimentos: os seus e os do paciente. Estas técnicas que deveriam ser de aprendizagem obrigatória na faculdade e nas restantes etapas da formação profissional de um médico são um importante passo que se dá na reorientação da medicina da patologia para o doente, isto é: o doente é mais importante do que a doença.
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Dando Excessivamente Sobre o Mar 45

Richard Diebenkorn (1922–1993)
Ocean Park No. 24

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A questão, ao contrário do que é sugerido aqui por Eduardo Pitta, não me parece ser relacionada com a liberdade de expressão e com o que diz o anúncio - que não é anúncio, nem caricatura, é pura propaganda - mas sim quem o encomendou, quem o pagou e quem o distribui, isto é, em que media ele passou, e a razão (necessidade?) de o fazer. A questão é essa. Se fosse um cartoon numa página de jornal ou um cartaz de um partido político como tantos outros, nomeadamente o de José Sócrates com nariz de Pinóquio a indignação não faria sentido, mesmo que quisessem que fizesse.
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23.3.09

Grand Torino 2

(...)
So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering

Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
A heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long

(Kyle Eastwood, Jamie Cullum, Clint Eastwood)

Grand Torino



Às vezes já sei que vou gostar do filme e ainda não o vi; foi assim, sabendo exactamente que ía gostar e do que ía gostar que fui ver Grand Torino. Não houve surpresas só a confirmação de um excepcional fazedor de filmes que é Clint Eastwood.

A história, que tem algo de pascal (adjectivo de Páscoa e não referente ao filósofo e físico francês), e gira em torno de Walt Kowalsky, uma personagem complexa, que vive em guerra com o mundo que desconhece cada vez mais. É um cínico ex-veterano de guerra de humor eficaz e rude, que se vê no fim da sua vida, viúvo e só, a viver com os fantasmas que o acompanham desde os tempos passados e com os ódios e indiferenças do presente. Ele é o motor da narrativa e é à volta dele que gravitam as restantes personagens: o Padre Janovich, o "over-educated 27-year-old virgin", (segundo Kowalsky), que vai crescendo e se vai revelando ao longo do filme, bem como os dois irmãos Hmong, Thao e Sue, que farão despertar em Kowalsky uma solidária amizade e respeito. Kowalsky é ao mesmo tempo um herói e um anti-herói: se por um lado é destemido e não teme nem o confronto, nem o uso da violência para se proteger e proteger os “seus”, por outro lado não esquece o que fez num passado longínquo quando não lhe deram ordens para o fazer, e tem por isso sentimentos conflituosos em relação à medalha que recebeu por esses seus feitos “heróicos” na guerra.

Talvez o que mais tenha gostado, e sem surpresa mas sempre com prazer, foi da cadência do filme, um andante que dá um passo de cada vez, mas que pisa seguro e na direcção certa: as cenas não se atropelam, a câmara não saltita, a música não se sobrepõe à narrativa e a história desenrola-se com a naturalidade das coisas que acontecem aqui ao lado. A realização e direcção de actores é sóbria e de grande contenção o que valoriza essa cadência agradável, humana, esse ritmo que não atordoa e que permite que ao longo do filme se mantenha uma postura e atitude contemplativas e uma sensação de tranquilidade e de serenidade, mesmo quando sentimos que algo de desagradável vai acontecer. Há sempre um tom latente de redenção (daí o pascal) mesmo com o preço da culpa dos outros, daquilo que os irá atormentar, e creio que esta dualidade é uma característica de Eastwood, uma humanidade que procura no turbilhão de possibilidades um (o) sentido final, num filme que não quer atordoar o espectador nem provocar sensações mais imediatas e visíveis, mas que aposta no que há de mais íntimo, na sensibilidade e na inteligência. Uma última referência à música, excelente, que emoldura este ambiente intimista.
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21.3.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 44

André Derain
Fishing Boats, Collioure

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20.3.09


Em primeiro lugar eu não vejo porque é que têm que existir “pontos de contacto” entre as direcções partidárias e os jornais sejam eles quais forem. Cabe ao jornalista ir à procura da notícia, trabalhar para a ter, merecer a confiança dos seus interlocutores e finalmente decidir o que é importante noticiar ou não, e não o mais fácil: sentar-se à mesa (mesmo que seja uma mesa em restaurante ou outra qualquer) com os políticos para juntos pensarem e “fazerem” a notícia.

Em segundo lugar não entendo mesmo a relação causa/efeito nem a razão de ser do "círculo vicioso", que nem percebo bem qual é, pois presumo que Paulo Gorjão não sugira que um jornal (e os jornalistas que o fazem) seja permeável à intriga, quezília e pequena vingança e que estas influenciem a objectividade com que se decide da importância ou não de divulgar determinado acontecimento. Não me parece que o jornalismo tenha que ser nem do domínio dos “afectos” nem do domínio do “porreirismo”.
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Em Flor 18

O Preservativo, um Retrato

A pouco e pouco neste mundo atordoado vamos deixando que certos gadgets ganhem uma tal importância e posição de relevo na sociedade que ninguém parece querer contestar numa mostra de unanimidade digna de nota. São bons para tudo, evitam males, permitem a intercomunicabilidade, curam medos, acabam com inseguranças: verdadeiros objectos indispensáveis sem os quais o homem/mulher moderno já não sabe viver. O preservativo é um deles e está nas bocas do mundo, isto é, de um cada vez mais pequeno mundo europeu politicamente correcto que se indignou com o desdém manifestado pelo Papa Bento XVI em África ao dito, coisa que parece em nada afectar o sucesso da viagem lá. O Papa, heresia das heresias, não se curva perante o preservativo esse verdadeiro ícone de modernidade e liberdade e único tema que os media conseguem reter e especular sobre da viagem do Santo Padre, coisa reveladora da pobreza mental desta sociedade.

Tal como o telemóvel, as fraldas descartáveis, a televisão, a roupa da Zara, os toalhetes de limpeza (de tudo, desde rabos a móveis) os preservativos são alvo de culto e vieram para ficar com todas as bênçãos de governos, oposições, ONGs, políticos, estrelas de cinema, cantores rock, etc. Só não têm a bênção dos Papas.

Os preservativos dão dinheiro a ganhar: são negócio de milhões que interessam a muitos. Têm também uma função de ordem moral e ética importante no mundo actual: minimizam os dilemas morais, filosóficos, existenciais, espirituais ou outros, pois substituem a necessidade de decisão, capacidade de reflexão e escolha. Com eles pensar torna-se dispensável, não há necessidade de escolher ou decidir e tenta esvaziar conceitos como abstinência ridicularizando quem decide livremente optar por ela.

São também mais um dos mil modos que hoje arranjamos para ter e cultivar a culpa, não a antiga culpa de arder no inferno ou de “pecar” no sentido tradicional, mas a culpa de não ser correcto quando não se usa, apesar de ser tão pouco “sexy” e de diminuir sensações e prazer. No entanto ajudam à não propagação de doenças sexualmente transmissíveis, previnem infecções e às vezes evitam outros “males” (isto é, gravidez!) e podem ser rotulados de opção saudável. Apesar de feios, muito feios e pouco dignos, são práticos e muitas vezes coloridos com formas e sabores diferentes para aqueles que mais se interessam por “novidade”. Têm regras importante, mas simples para utilização e são total e absolutamente descartáveis. Finalmente: são de plástico, essa matéria trivial difundida no séc XX, elevada à imprescindibilidade e que domina o nosso mundo.

Foi você que pediu um preservativo?
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19.3.09

Natasha Richardson


Quando, com surpresa, pois a morte tem dessas coisas – a capacidade de teimosamente nos surpreender, li hoje cedo da morte tão inesperada quanto estúpida (como se diz normalmente nestes casos) de Natasha Richardson lembrei-me de como apreciava o seu trabalho, a sua voz o seu olhar e veio-me à memória um belo texto de Eduardo Pitta sobre o filme The White Countess com que me identifiquei de imediato: também eu tinha visto o filme e sentido esse sopro nostálgico tão bem evocado por Natasha Richardson e Ralph Fienes no filme. Descanse em paz.
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18.3.09

Dando Excessivamente sobre o Mar 43

Antonio Joli (1700-?1770)
Embarco de Carlos III en Nápoles
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Hoje no Jornal da Noite a SIC questionou o montante do investimento no troço do traçado do TGV Lisboa-Alenquer recentemente alvo declaração de impacte ambiental favorável por parte do Ministério do Ambiente. Punha-se em causa a complexidade e custos da obra pela margem norte do Tejo e passando pela Ota obrigando a quilómetros de túneis e de viadutos bem como expropriações que a encarecem de forma exorbitante, em vez de um traçado mais simples e barato pela margem sul do Tejo mesmo tendo em consideração o custo de uma nova ponte. Van Zeller foi claro a expor as suas razões, dúvidas e críticas e José Gomes Ferreira que comentou a notícia disse que esperava forte contestação a este traçado e a este investimento por parte da oposição, mas não conseguiu impedir-se de deixar no ar a sua perplexidade perante estes números e de questionar a razão da opção por uma traçado tão caro, perguntando-se quem é que ganha com uma obra assim tão onerosa. Mário Lino foi irrelevante na declaração para a SIC. A questão fica, incómoda, no ar.
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Mas estavam e estão (bem como todos os outros que não tardarão em se fazer ouvir) à espera de quê? Que o Papa Bento XVI não fosse o Papa Bento XVI? Que de repente esquecesse a Humanae Vitae e se mostrasse a favor da distribuição generalisada e gratuita de preservativos seja em que continente for? Porque é que havia de ser diferente com África? Discriminação “positiva”? Extraordinário quem se indigna quando as pessoas são o que é esperado que sejam.
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15.3.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 36

Anónimo - Escola Italiana (séc. XVII)
El Espinario


Tirar um Espinho do Pé

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Mais Jogging

Não faltaram acontecimentos esta semana que passou, desde a visita do Presidente de Angola, à visita oficial do Primeiro-ministro a Cabo Verde, passando pela manifestação da CGTP que encheu a Avenida da Liberdade e dificultou o trânsito numa sexta-feira à tarde, por mais sessões do Fórum Portugal de Verdade com intervenções da líder da oposição, pelas indecisões de Manuel Alegre a deixar nervoso José Sócrates e o PS, por uma votação na AR de uma proposta de Lei para diminuir o teor de sal no pão e pela contestação por parte de alguns sectores da implementação de aulas de educação sexual nas escolas. Não faltou sequer, e infelizmente, um momento de horror em que o impossível e impensável acontece quando um bebé morre num carro esquecido pelo pai. Os momentos da semana têm servido para debate, comentário e indignação de todos os portugueses que, nomeadamente no sector político começam a sentir a agitação própria dos períodos eleitorais.

No entanto, e por estranho que pareça, as imagens que quase malgré moi, guardo da semana são duas de José Sócrates em Cabo Verde, ambas tão previsíveis e esperadas que me pergunto por que é que me continuam a espantar e a teimar em serem lembradas. A primeira é a do Primeiro-ministro numa escola em Cabo Verde com meninos de bata azul limpa e engomada, penteados impecáveis a cantar em uníssono e sem desafinar um “Obrigado” depois de lhes terem sido dados computadores Magalhães. A segunda imagem é a de José Sócrates a fazer o seu jogging matinal na marginal da Cidade da Praia, tal como faz de cada vez que se desloca ao estrangeiro e tal como nunca é visto nem fotografado na sua cidade de Lisboa. O que fica de uma deslocação oficial do nosso Primeiro-ministro são imagens de pura propaganda e de marketing pessoal que são hoje indissociáveis de José Sócrates, ou melhor, que são José Sócrates. O jogging é dum provincianismo atroz e a distribuição de Magalhães é, não faz mal repetir isto tantas vezes quantas as vezes que José Sócrates se preste a esta charada em Portugal, na Venezuela ou seja onde for, de um novo-riquismo e deslumbramento extraordinário e são ambos reveladores implacáveis do vazio de ideias e de projectos que aflige o nosso Primeiro-ministro. Este vazio é particularmente penalizador no momento de profunda crise económica em que estamos, e em que precisamos de medidas realistas e decisões firmes com um olhar para além do curto prazo, e é confrangedor em período eleitoral pois se tenta aliciar o voto através de medidas demagógicas e de slogan fácil, sem nenhuma conexão com o contexto de profunda crise e de desânimo que se irão agravar ainda nos próximos meses.

O olhar que os eleitores levantam para o actual executivo pedindo soluções em que possam confiar será enganado com mais Magalhães, muito jogging, menos sal no pão, educação sexual para todos e anúncios atrás de anúncios de medidas cujo resultado se desconhece ou cujas condições para que funcionem não foram tidas em conta. Salas de aula só com uma tomada para os alunos com Magalhães bem como falta de apoio técnico para os alunos, Bilhete de Identidade que já não se pode pedir pois já é obrigatório o Cartão do Cidadão sem que os serviços estejam preparados para o entregar no mesmo prazo do BI, são alguns exemplos concretos e recentes das inconsistências de uma política feita de e para a fachada.
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