“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

3.7.09

Espuma dos Dias que Foram 18


Saí de Portugal com a crise/eleições do Benfica a dominar paredes meias com o estado político já eleitoral, a agenda mediática. Uma das coisas aborrecidas do futebol é que nunca temos férias do dito, pois mesmo quando não há jogos há transferências, contratações, férias de futebolistas e crises clubísticas, nomeadamente a do Benfica. Nos primeiros minutos em que passeei em Praga deparei-me com esta variante de matrioskas que me custa entender, mas que parecem vender bem tanta a abundância das ditas por tudo quanto é loja de souvenir. Eu não consigo perceber quem é quer destas matrioskas feitas futebolistas com as camisolas dos clubes? Enfim, nem em Praga tenho férias do futebol, nomeadamente do Benfica. Chegada cá que é que domina a agenda mediática? Claro, as eleições do Benfica.

(Eu sei que esta afirmação é retórica. O debate do Estado da Nação e a demissão de Manuel Pinho estão, como é óbvio, também na agenda mediática).
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Agradeço ao Miguel Vaz o simpático destaque.
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1.7.09

Espuma dos Dias que Foram 17

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Rasgar e Romper

Manuel Pinho com seu coreografado gesto na entrevista na SICN e mostrado no Jornal da Noite, de, levando à letra as palavras de Manuela Ferreira Leite, rasgar a folha de papel com uma grelha onde a amarelo estavam amplamente destacadas as medidas de combate à crise do seu governo, não fez mais do que reforçar a nossa vontade de ver isso mesmo: um enorme rasgão a essas medidas pensadas em cima do joelho e sem nexo nem coerência que foram sobretudo feitas com intuitos eleitoralistas. Anunciadas a um ritmo constante e perseverante, até hoje muitas delas não foram sequer implementadas (provavelmente será caso para dizer “ainda bem”) outras mereciam alguma análise que verificasse o seu real âmbito de influência e a sua eficácia no tão desejado combate à crise.

Creio que Manuel Pinho queria com esse seu gesto dramatizar a intenção de MFL e encher-nos de temor perante a desgraça que pode acontecer ao país se o PSD ganhar eleições. Essa táctica foi amplamente usada pelo PS (nomeadamente por Santos Silva) no período eleitoral que antecedeu a eleição presidencial, não foi uma estratégia ganhadora! Na minha opinião MP conseguiu o contrário: a visualização da volatilização desses “medidas”, “linhas de crédito” e “incentivos” vários e dispersos só aguça o apetite quer dos descontentes do PS quer de quem votará no PSD para que se acabe com tudo rasgando e rompendo e se recomece de novo. Nomeadamente na Educação.

Hoje
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24.6.09

Uma semana.
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Aprendendo com Tolstói (*)

O que é a vida, o que é a morte? Que força governa tudo? (...) E não tinha resposta para nenhuma destas perguntas, excepto uma, ilógica, que, na verdade, não respondia a estas questões. A resposta era. “ Morremos e acaba tudo. Morremos e ficamos a saber tudo, ou deixamos de perguntar”. Mas também morrer era assustador.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(Título roubado daqui)

Amanhecer 15

Hoje
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Agradeço ao Tiago Moreira Ramalho do Corta-Fitas e de O Afilhado a simpática referência.
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23.6.09

Aprendendo com Tolstói 2 (*)

A mente humana não tem acesso à totalidade das causas dos fenómenos. A alma humana, porém, foi provida da necessidade de procurar as causas. Assim, a mente humana, incapaz de penetrar na imensidade e na complexidade das condições que geram os fenómenos, cada uma das quais em separado pode afigurar-se-lhe a causa, agarra-se à primeira e à mais próxima, à mais compreensível e diz: eis a causa.

(*) Título roubado aqui.
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Plataforma Contra a Obesidade 54

Paul Cezanne
Still Life with Cup, Jar and Apples
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Aprendendo com Tolstói (*)

É este o destino não dos homens grandes, não do grand homme que o espírito russo não reconhece, mas dos homens raros e solitários que, ao perceberem os desígnios da Providência, submetem-lhe a própria vontade. O ódio e o desprezo da multidão castigam essas pessoas pela compreensão das leis superiores.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(*) título roubado aqui.
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21.6.09

Velas 17

Hoje

Guerra e Paz 5

Aquela ferida na alma da mãe não podia sarar. (...) Mas a ferida que tirou meia vida à mãe, foi para Natasha a nova ferida que a incitou a viver. Uma ferida da alma causada pelo rasgão do corpo espiritual, tal como uma ferida física, apenas sara e cicatriza, por mais estranho que pareça, com a força da vida que irrompe de dentro.

Desta forma sarou a ferida de Natasha. Pensava que a vida tinha acabado, mas, de repente, o amor pela mãe mostrou-lhe que a essência da sua vida – o amor – ainda estava viva. Voltou a despertar o amor, despertou a vida. Os últimos dias (...) tinham ligado Natasha à princesa Mária. A nova desgraça aproximou-as ainda mais.

(...)

Falavam sobretudo dos seus passados longínquos. A princesa Mária contava coisas da sua infância, da mãe, do pai, dos seus sonhos; e Natasha, que dantes, com uma incompreensão tranquila não queria saber daquela existência devota e submissa da princesa Mária, nem daquela poesia do auto-sacrificio crsitão, agora, (...) começou também a amar o passado da princesa e a compreender aquela faceta da vida que antes lhe era inacessível. Não pensava aplicar à sua alma a submissão e o auto-sacrifício, porque estava habituada a procurar outras alegrias, mas compreendia e começava a amar na outra as virtudes que dantes não compreendia. Para a princesa Mária, quando ouvia Natasha contar a sua infância e a sua primeira juventude, também se revelava um lado da vida que dantes não entendia: a fé na vida, o prazer da vida.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Natasha e a princesa Mária são as duas mais importantes personagens femininas de Guerra e Paz. Natasha, pelo seu amor à vida, entusiasmo, espanto, pela sua entrega, pelo seu olhar que brilha, é uma personagem irresistível de quem é impossível não gostar. Vêmo-la crescer e tornar-se uma mulher, seguimos o seu percurso talhado de momentos de prazer e felicidade familiar, de brilho nos círculos aristocráticos de Moscovo e São Petersburgo, e de momentos de decisão, a ânsia da felicidade, o prazer dos pequenos momentos, o percurso de dor, a perda de saúde, o renascimento tal como o que se refere o início deste excerto e um renascimento que lhe permite aceitar o mundo com o olhar mais sábio e ir trilhando finalmente o seu caminho que é o seu. A princesa Mária pertencente a uma das melhores famílias e socialmente acima de Natasha, representa o contrário: a rapariga submissa, inteiramente dedicada ao pai, um velho excentrico e ateu que despreza a sua fé e não reconhece o valor nem da sua inteligência nem da sua generosidade. Mária, ao contrário de Natasha, não teve uma infância e juventude alegre e feliz e uma casa sempre cheia de família e amigos, por isso dedicava-se à oração e à caridade. Muitas vezes, na sua solidão, se perguntava se encontraria um homem com quem se casasse e pudesse constituir uma família.

As mulheres não pertencem ao “mundo da guerra”, mas a guerra, nas suas múltiplas faces, acaba por entrar no mundo destas duas mulheres expondo-as ao sofrimento e modificando para sempre quer as suas vidas quer as suas almas. Natasha recolhe-se em si, para dentro; a princesa Mária torna-se autónoma e abre-se ao mundo, para fora.

O romance é um hino à sempre espantosa manifestação da natureza humana na plenitude: fraquezas e riquezas, e nesse exercício de olhar e escrutínio, percebemos, como o exemplo destas duas mulheres nos mostra, que as circunstâncias que num primeiro momento parecem afastar e antagonizá-las, acaba por uni-las num percurso paralelo de sofrimento, de dor e de transformação. O entendimento e a sólida amizade que se forja, toma assim uma dimensão que está além da pertença social, do entendimento, da personalidade ou da opinião. Começa no sentir e estende-se à dimensão espiritual.

20.6.09

Em Flor 22

Vincent van Gogh (1853-1890)
Butterflies and Poppies

Do Rigor

As intenções de rigor e exigência patentes na linha traçada pela Ministra da Educação deste governo de José Sócrates estão a desfazer-se perante o nosso olhar. O resultado dos testes de aferição dos 4º e 6º anos com a sua percentagem de positivas de 90% desmente qualquer tentativa séria de avaliação e qualquer intenção de rigor na escola em geral e do ensino - o que de facto se aprende – em particular. O cenário parece querer repetir-se no caso dos exames nacionais do 9º ano, em que estes, ao contrário dos anteriores que são irrelevantes e um desbaratar de recursos para um resultado “político” e estatístico simpáticos, já contam para a nota final - uns meros 30%, mas pelo menos poderão eventualmente fazer alguma diferença. O exame de Português foi muito fácil, dizem os alunos. De facto e depois de olhar com mais atenção deparo-me com esta pergunta extraordinária (que neste vídeo do Público alguns alunos disseram ser a parte mais difícil de um exame facílimo e “básico”) sobre um excerto dos Lusíadas, as estrofes 122 e 123 do Canto III:

Redige um texto expositivo (...) no qual explicites (*) o conteúdo das estrofes 122 e 123. O teu (*) texto deve incluir:

• uma parte introdutória em que identifiques (*) o episódio a que pertencem as estrofes e as personagens históricas nelas mencionadas;
• um desenvolvimento, no qual indiques (*) a decisão referida na segunda estrofe e as razões que, segundo o narrador, motivaram essa decisão;
• uma parte final, em que refiras (*) o sentimento expresso pelo narrador com a interrogação final e a razão que originou esse sentimento.

Lendo esta questão percebemos que o enunciado dá a resposta: explicita a sua estrutura (limitando a escolha) e aponta as soluções; só não escolhe as palavras para responder. Com perguntas destas em que a resposta está à partida formatada e dada é impossível errar e difícil premiar a diferença do mérito de quem sabe e estudou aquele bocado mais que faz a diferença entre o bom e o muito bom. Não sou favorável a que se façam exames dificeis, mas tem que haver em qualquer exame uma ou duas questões feitas para que se pense, para premiar o esforço e trabalho de quem estudou um pouco mais e um pouco melhor. Um exame destes é paternalista, limitativo e condiciona o estudante cortando-lhe criatividade. O bom aluno e o mau darão resposta iguais. Enfim, tudo muito mau, muito medíocre, muito igual, desse perigoso igualitarismo pastoso com que insistem em nos moldar a todos. Se é para isto que serve o rigor...

Notas:
  1. (*) Não percebo também a necessidade de, em circunstâncias formais e oficiais, que é o que os exames nacionais são, tratar o interlocutor, mesmo que seja aluno, por “tu”, mas isso será esquisitice minha.
  2. Como pude constatar (ou confirmar) no vídeo, os umbigos à mostra deram lugar este ano aos “cai-cai”. Também houve quem fizesse o exame de fato de banho com top de alças por cima. No vídeo não pude confirmar as calças dos rapazes pelo meio do rabo a mostrar calções de banho ou boxers, mas aposto que todos andavam de chinelas havaianas. Tenho que dar razão à Sra. Ministra que timidamente e noutros tempos menos eleitoralistas, ousou falar em fardas para as escolas.

19.6.09


Notícias da Albânia (*):

O Primeiro-ministro muda de personalidade após derrota eleitoral. Ver aqui um retrato comparativo.

As notas de Português e Matemática das provas de aferição dos 4º e 6º anos contam com 90% de positivas.

Trabalhadores interrompem negociações com a Administração na Autoeuropa.

(*) com o devido respeito pela Albânia.


17.6.09

Em Flor 21

Da unidade no PSD

Da leitura de alguns blogues (sobretudo colectivos) dos últimos dias há uma nota curiosa que teima em aparecer, assumindo, em certos blogues, mais relevo do que noutros.

A ideia central é a de que só poderá o PSD estar preparado para enfrentar os próximos actos eleitorais e ter esperança de bons resultados, eventualmente uma vitória, com uma unidade que abarque em listas de deputados e em cargos todas as facções opostas (nomeadamente e sobretudo Pedro Passos Coelho). Esta preocupação e insistência com a unidade hoje – depois da vitória no último acto eleitoral que vale o que vale, nem mais nem menos – levanta-me algumas questões. A primeira e fundamental é o porquê desta preocupação hoje, a três meses (aproximadamente) do próximo acto eleitoral, quando três meses antes das eleições europeias choviam críticas em relação à líder do PSD, à sua estratégia, seu estilo, sua oportunidade, seu timing. Nessa altura uma certa opinião não escondia a premonição (óbvia sublimação de desejo?) de desastre e derrota deixando sempre a suspeita desse desejo nunca explícito de que MFL pudesse ser rapidamente declarada redundante e despachada. Nessa altura tudo o que MFL fazia ou dizia era alvo de forte crítica, até a nomeação de Paulo Rangel: por se perder um bom líder parlamentar, porque Marques Mendes teria sido melhor, porque foi tarde, porque, porque. Durante a campanha e com um certo entusiasmo a pairar Pedro Passos Coelho ousou acompanhar a líder, mas não surpreendeu, pois manteve-se fiel a si próprio: melífluo pediu – quando ninguém ousava sequer sonhar – uma vitória. Porque é que a unidade do partido hoje é tão mais importante do que era há três meses atrás? Porque a vitória já não é uma miragem ou improbabilidade, mas sim do domínio da possibilidade?

A segunda questão tem a ver com o tipo de “pressão” que é exercido com estes apelos à unidade. Parecem demasiado apelos ao não esquecimento, por isso à manutenção, da esfera de influência que essas “facções” têm ou possam ainda ter e que não querem – compreensivelmente – deixar de ter. Quando do debate interno no PSD e depois dele criaram-se essas “bolsas de influência” que mantiveram PPC nos media de forma sustentada e constante; que acontecerá se o seu papel nos próximos actos eleitorais não for marcante? Porque é que não leio a hipótese de voluntariamente e com dignidade (tal como MFL o fez quando Santana Lopes era líder) se manter afastado das listas de deputados por não concordar com a linha e estilo da liderança? A unidade – mais do que uma soma de partes - pressupõe uma liderança forte, uma direcção clara, um programa coerente e pessoas que acreditem neles: ninguém melhor do que o(a) líder para decidir quem, e renovar onde achar que há que renovar.

A terceira questão prende-se com o valor que essas “facções” internas do PSD têm no momento do voto. Isto é: perante os eleitores do país “real” que não são maioritariamente filiados em partidos, e que a votarem PSD votam também ou sobretudo em “não Sócrates”; quanto valem de facto os votos de Pedro Passos Coelho? Será que esse valor fará a diferença, ou estará PPC sobrevalorizado, por quem o acha imprescindível, em termos de votos de eleitores? De onde vem o valor de PPC perante um eleitorado “extra-muros” do PSD? Será que alguém sabe? Até prova em contrário, e sobretudo agora depois da vitória do PSD nas eleições europeias, mantenho sérias dúvidas em relação ao seu valor (em votos, claro). Para mim, e até agora, esse rei vai nu.


15.6.09

Há dois dias (clicar para aumentar)
Parece um porta qualquer coisa, mas não vejo o quê.

Nota: Um amável leitor esclarece-me, e diz tratar-se do porta-aviões Principe das Astúrias, o segundo maior navio da frota espanhola.


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