“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com
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3.8.09
Um Admirável Mundo Novo
Estes são os tempos dos politólogos. Nos últimos anos reproduzem-se com um dinamismo peculiar e a pouco e pouco vão tomando conta de comentário político nas televisões, e outros meios de comunicação. Fazem-nos crer representar um assepticismo pretensamente livre de bactérias partidárias, de vírus corporativos, e não contaminados pelo regime que, no entanto, lhes assenta como uma luva e lhes dá sustento. Falam de alto de uma qualquer cátedra da nossa academia, e comportam-se como se estivessem ”de fora” desse mundo conspurcado que analisam e comentam, assim como quem analisa os comportamentos das abelhas, não fosse aquela luz de cepticismo de quem “já percebeu tudo” e de quem já percebeu “como tudo vai acabar”. Falam de uma realidade que tentam afastar de si, como se nada dentro dessa realidade os movesse ou interessasse, como se nós acreditássemos, e como se isso fosse possível neste pequeno jardim que é Portugal onde todos os interesses se cruzam interligam e traficam. Usam uma linguagem pretensamente académica e normalmente são desprovidos de interesse, de alma e de paixão. Ouvi-los é, para mim, um tédio absoluto e uma irritação.
Parece que este é o caminho que a plastificação da sociedade, que organismos diferentes como a ASEA, ou a ERC, tentam implementar (numa directiva polémica), onde se inclui também a plastificação do comentário político. Na carta que Estrela Serrano escreveu para o Abrupto, ela dá-nos uma antevisão desse mundo de plástico regido por quotas e igualdades impostas artificialmente. Toda a carta é merecedora de atenção e comentário, mas detenho-me numa frase que é exemplar, pois ilustra uma “forma de estar“ que vive da administração, da legislação e da regulação impondo formas pouco naturais (contra-natura), para uma democracia e em sociedades que prezam o indivíduo e a liberdade individual, tal a artificial igualdade e controle que preconizam. Diz Estrela Serrano, nessa frase que
1- a liberdade editorial e os critérios jornalísticos não são absolutos e
2- que em período eleitoral os critérios jornalísticos não podem sobrepor-se ao princípio da igualdade de oportunidades e da não discriminação entre candidatos. A propósito desta segunda parte da frase , mais à frente ela refere-se a candidatos de primeira e candidatos de segunda (acusando JPP de os discriminar uns dos outros).
Em democracia a liberdade de opinião ou é absoluta ou não é. A liberdade editorial ou é absoluta ou não é. Ponto final e parágrafo.
Os candidatos de primeira e os candidatos de segunda não são definidos por JPP, (que parece estar mais do que nunca no auge da sua influência a julgar pela capacidade de irritação que provoca em tantos sectores), por muito que isso lhe custe a ele ou a quem quer que seja que lhe queira imputar essa responsabilidade. O voto popular, traduzido em mandatos, é que determina quem são os candidatos de primeira e os candidatos de segunda. José Sócrates, candidato a Primeiro-ministro e Manuela Ferreira Leite, candidata a Primeira-ministra são simplesmente diferentes de candidatos como Carmelinda Pereira ou como Rui Marques. por muita que seja a simpatia que possamos nutrir quer pelas pessoas quer pelas causas que representam.
(Continua)
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Parece que este é o caminho que a plastificação da sociedade, que organismos diferentes como a ASEA, ou a ERC, tentam implementar (numa directiva polémica), onde se inclui também a plastificação do comentário político. Na carta que Estrela Serrano escreveu para o Abrupto, ela dá-nos uma antevisão desse mundo de plástico regido por quotas e igualdades impostas artificialmente. Toda a carta é merecedora de atenção e comentário, mas detenho-me numa frase que é exemplar, pois ilustra uma “forma de estar“ que vive da administração, da legislação e da regulação impondo formas pouco naturais (contra-natura), para uma democracia e em sociedades que prezam o indivíduo e a liberdade individual, tal a artificial igualdade e controle que preconizam. Diz Estrela Serrano, nessa frase que
1- a liberdade editorial e os critérios jornalísticos não são absolutos e
2- que em período eleitoral os critérios jornalísticos não podem sobrepor-se ao princípio da igualdade de oportunidades e da não discriminação entre candidatos. A propósito desta segunda parte da frase , mais à frente ela refere-se a candidatos de primeira e candidatos de segunda (acusando JPP de os discriminar uns dos outros).
Em democracia a liberdade de opinião ou é absoluta ou não é. A liberdade editorial ou é absoluta ou não é. Ponto final e parágrafo.
Os candidatos de primeira e os candidatos de segunda não são definidos por JPP, (que parece estar mais do que nunca no auge da sua influência a julgar pela capacidade de irritação que provoca em tantos sectores), por muito que isso lhe custe a ele ou a quem quer que seja que lhe queira imputar essa responsabilidade. O voto popular, traduzido em mandatos, é que determina quem são os candidatos de primeira e os candidatos de segunda. José Sócrates, candidato a Primeiro-ministro e Manuela Ferreira Leite, candidata a Primeira-ministra são simplesmente diferentes de candidatos como Carmelinda Pereira ou como Rui Marques. por muita que seja a simpatia que possamos nutrir quer pelas pessoas quer pelas causas que representam.
(Continua)
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27.7.09
Da Modernização do País
Ao entregar o computador 1 milhão no âmbito das Novas Oportunidades (*) o Primeiro-ministro disse tratar-se de “um passo significativo na modernização do país” (cito de cor, ouvido na TV) e explicou ser Portugal o único país do mundo onde um aluno, ao entrar para o primeiro ciclo, tem à sua disposição um computador. Não sei porquê, mas este chavão do “passo significativo na modernização do país” fez-me lembrar um outro chavão: o do “avanço civilizacional” que nos fez avançar 20 anos quando se legalizou o aborto até às dez semanas. Ao fim de um dia, cansados, olhamos para o país e vemos que se vai fazendo assim, de chavão em chavão. Que vai avançando e modernizando assim, com o estado a distribuir computadores e a legalizar o aborto até às dez semanas. Fazem-nos crer que são estes os pólos motores e os símbolos do “avanço” e da “modernização” do país. Mas no fim do dia, cansados, já nem queremos discutir ou contrariar; já só pedimos um pouco de respeito pela nossa inteligência.
Nota. (*) A questão contabilística de como se chegou ao número 1 milhão não foi devidamente esclarecida na peça jornalístico-propagandística. Isso costuma importar pouco a uma política de anúncio e chavões, mas eu gostaria de saber como se chegou a esse número. Estará englobado todo o “choque tecnológico”, sem o qual “tantos portugueses teriam de esperar dez anos para terem estes computadores” (cito de cor o Primeiro-ministro hoje à noite num jornal televisivo), isto é, o Magalhães, o “e-escolas” e o programa Novas Oportunidades? Ou pretenderam passar a comemoração dessa efeméride como um exclusivo das NO? Rigor e propaganda dão-se mal.
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Nota. (*) A questão contabilística de como se chegou ao número 1 milhão não foi devidamente esclarecida na peça jornalístico-propagandística. Isso costuma importar pouco a uma política de anúncio e chavões, mas eu gostaria de saber como se chegou a esse número. Estará englobado todo o “choque tecnológico”, sem o qual “tantos portugueses teriam de esperar dez anos para terem estes computadores” (cito de cor o Primeiro-ministro hoje à noite num jornal televisivo), isto é, o Magalhães, o “e-escolas” e o programa Novas Oportunidades? Ou pretenderam passar a comemoração dessa efeméride como um exclusivo das NO? Rigor e propaganda dão-se mal.
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25.7.09
23.7.09
Portugal dos Pequeninos, Uma Leitura (3)
“Há já uns tempos que o senhor engenheiro não nos fornecia, em nome da modernidade que vagueia na sua soturna cabeça, uma sigla (...) Por isso, chega hoje, certamente em Power Point, o Plano de Acção do Ano Europeu de Oportunidades para Todos (o PNAAEAEOT). O título – pura poesia concreta - mais parece coisa da sinistra 1ª República, ou mesmo da FNAT do ominoso Salazar, do que de modernaços como Sócrates e seus epígonos amestrados.(...)” (1)
Parágrafos como este têm o cunho João Gonçalves que tem o condão de verbalizar o seu desencanto e cepticismo de uma forma muito particular. Usa extensivamente e abusa graças a deus, dos vocábulos que a língua portuguesa lhe oferece, o que lhe permite dar textura e colorir à media os retratos que vai fazendo ao longo do seu livro. Utiliza, desde o calão de bas-fonds às palavras mais densas e sofisticadas, passando pelas banalidades massificadas, com a mesma simplicidade e à vontade para sustentar e servir o seu tom de puros e duros sarcasmos e ironias. (2) Muitas vezes espanta-nos pela sua peculiar capacidade de esgotar uma palavra levando o seu significado ao extremo, ao absurdo, ou simplesmente remetendo e brincando com outros significados, subvertendo a intenção ou decisão iniciais e desarmando a ideia que critica ou contesta. Este jogo quase surrealista tantas vezes surpreende e provoca mesmo o riso. (3)
A falta de “respeitinho“ de JG está também patente na desmistificação das palavras e dos conceitos retirando-lhes a “mística” e o “enevoado”, patines habituais na linguagem do poder e na “langue de bois” (governamental, política, judicial, mediática...) concretizando, e fazendo descer à terra - e tantas vezes ao chinelo - o mais sofisticado dos conceitos, a mais brilhante “ideia”, ou a mais fina imagem.(4) Tédio é uma palavra que não se pode usar para falar do livro Portugal dos Pequeninos.
Notas
(1) Pág 193 “O PNAAEOT”
(2) Pág. 226 “o Puzzle do Dr. Costa”, pág. 128 “O “Mar da Língua?”
(3) Pág. 139 “Novos Monstros”, pág 232 “O Huis clos Socrático”
(4) Pág 167 “Que Deus lhes Perdoe”, pág. 218 “Inala sem Engolir”
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Parágrafos como este têm o cunho João Gonçalves que tem o condão de verbalizar o seu desencanto e cepticismo de uma forma muito particular. Usa extensivamente e abusa graças a deus, dos vocábulos que a língua portuguesa lhe oferece, o que lhe permite dar textura e colorir à media os retratos que vai fazendo ao longo do seu livro. Utiliza, desde o calão de bas-fonds às palavras mais densas e sofisticadas, passando pelas banalidades massificadas, com a mesma simplicidade e à vontade para sustentar e servir o seu tom de puros e duros sarcasmos e ironias. (2) Muitas vezes espanta-nos pela sua peculiar capacidade de esgotar uma palavra levando o seu significado ao extremo, ao absurdo, ou simplesmente remetendo e brincando com outros significados, subvertendo a intenção ou decisão iniciais e desarmando a ideia que critica ou contesta. Este jogo quase surrealista tantas vezes surpreende e provoca mesmo o riso. (3)
A falta de “respeitinho“ de JG está também patente na desmistificação das palavras e dos conceitos retirando-lhes a “mística” e o “enevoado”, patines habituais na linguagem do poder e na “langue de bois” (governamental, política, judicial, mediática...) concretizando, e fazendo descer à terra - e tantas vezes ao chinelo - o mais sofisticado dos conceitos, a mais brilhante “ideia”, ou a mais fina imagem.(4) Tédio é uma palavra que não se pode usar para falar do livro Portugal dos Pequeninos.
Notas
(1) Pág 193 “O PNAAEOT”
(2) Pág. 226 “o Puzzle do Dr. Costa”, pág. 128 “O “Mar da Língua?”
(3) Pág. 139 “Novos Monstros”, pág 232 “O Huis clos Socrático”
(4) Pág 167 “Que Deus lhes Perdoe”, pág. 218 “Inala sem Engolir”
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20.7.09
A ler hoje no Cachimbo de Magritte, sobre o PSD, este post e este post. A estas reflexões acrescentaria uma dúvida minha: qual a diferença do valor - em votos no PSD - entre um PSD com Passos Coelho nas listas para deputado, ou um PSD sem ele. O caso de Manuel Alegre, é diferente porque poderá ter um significado real em termos votos pois, como já sabemos, teve nas presidenciais uma votação expressiva, apesar de ir contra a indicação do aparelho do PS. Passos Coelho nunca foi a votos fora da esfera partidária..
19.7.09
Portugal dos Pequeninos, uma Leitura 2
A leitura do livro Portugal dos Pequeninos dá-nos uma história dos anos da governação de José Sócrates e do seu (de José Sócrates) PS. Ao longo das páginas desfila uma cronologia dos actos governativos em forma de intenção de reformas, legislação, anúncios, nomeações, declarações, influências, gaffes, insucessos, mentiras, casos judiciais em investigação etc. Aviva-se a memória que é coisa sempre salutar, sobretudo em época de balanço e de aferição do que conseguiu um governo com maioria absoluta e condições excepcionais de governabilidade (para usar uma palavra tão na moda) apesar do revés da crise financeira internacional. Esse olhar para trás talvez ajude, ou simplesmente reforce, alguma decisão, de quem lê, para os próximos actos eleitorais. Neste sentido o livro Portugal dos Pequeninos em boa hora se fez e se pôs à venda.
João Gonçalves é senhor de um olhar muito próprio, impiedoso e cortante, e de um apurado sentido crítico que o impede de ceder a qualquer tipo de complacência ou, usando as suas palavras “respeitinho”, seja por pessoas ou por instituições (1). Desmonta impiedosa e lucidamente as intenções e os mecanismos decisórios (2), denuncia os falsos ídolos (3) e denuncia pressões políticas de vários tipos a vários organismos ou instituições (4). O retrato traçado ao longo das páginas do livro destes últimos anos é um retrato desencantado de um país errático que não se encontra nem se sabe. JG não esconde o seu desencanto pelo regime que sustenta a nossa democracia, parece que o considera esgotado, ou pelo menos exausto (5) e esse desencanto e desalento muitas vezes surgem como premonitórios pois é apartir do presente que JG projecta no futuro (6) um insucesso, uma derrota ou ainda mais um impasse, que infelizmente se confirmaram.
Todas estas críticas políticas assentam numa visão também ela desencantada do mundo actual e JG é especialmente perspicaz nos retratos “psico-sociais” - uso o plural pois JG sabe distinguir os diferentes tipos que fazem a aparentemente colorida e heterogénea sociedade (no fundo tão igual) - com os seus tiques comportamentais e as suas modas, bem como na crítica de costumes (7). No entanto, o que dá substância - matéria e alma – ao seu olhar crítico e desencantado sobre o nosso país pequenino e sobre a sociedade actual é a fé e a defesa aguerrida dos valores que considera básicos na civilização ocidental: o primado do Homem, a liberdade e a defesa da vida. São estes os pilares em que assenta o seu olhar e que impede os seus textos de se tornem estéreis, frios e (des)almados como se fossem meros exercícios de deprimida retórica política e social. JG acredita na liberdade que se conquista com o saber e com o pensar, e os seus textos são sempre estímulos e provocações, nem sempre simpáticas, nem sempre de agradável leitura, nem sempre óbvias a que se aprenda e se pense, quanto mais não seja para dele discordar.
Notas:
(1) pág.126 “Emporio”, pág. 135 “Querido Líder”, ...
(2) pág. 148 “Os ‘Testes de Credibilidade’”, ...
(3) pág. 200 “Wotan/Sócrates”, pág. 225 “o Ministro TOYS R US”, pág. 286 “O Mundo Segundo Sócrates”, pág. 265 “AGITROP”, pág. 400 “Soares e os Males da Existência”, ...
(4) Pág. 243 “A Senhora Diectora”, pág. 218 “Inala sem Engolir”, ...
(5) Pág. 290 “Pensar Nisto”, ...
(6) Pág. 125 “O Homem Médio”, pág. 143 “Sócrates e o Lugar-Comum”, ...
(7) Pág. 231 “Os Novos Monstros”, pág. 236 “Sampaio, o Outro”, ...
(Continua)
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João Gonçalves é senhor de um olhar muito próprio, impiedoso e cortante, e de um apurado sentido crítico que o impede de ceder a qualquer tipo de complacência ou, usando as suas palavras “respeitinho”, seja por pessoas ou por instituições (1). Desmonta impiedosa e lucidamente as intenções e os mecanismos decisórios (2), denuncia os falsos ídolos (3) e denuncia pressões políticas de vários tipos a vários organismos ou instituições (4). O retrato traçado ao longo das páginas do livro destes últimos anos é um retrato desencantado de um país errático que não se encontra nem se sabe. JG não esconde o seu desencanto pelo regime que sustenta a nossa democracia, parece que o considera esgotado, ou pelo menos exausto (5) e esse desencanto e desalento muitas vezes surgem como premonitórios pois é apartir do presente que JG projecta no futuro (6) um insucesso, uma derrota ou ainda mais um impasse, que infelizmente se confirmaram.
Todas estas críticas políticas assentam numa visão também ela desencantada do mundo actual e JG é especialmente perspicaz nos retratos “psico-sociais” - uso o plural pois JG sabe distinguir os diferentes tipos que fazem a aparentemente colorida e heterogénea sociedade (no fundo tão igual) - com os seus tiques comportamentais e as suas modas, bem como na crítica de costumes (7). No entanto, o que dá substância - matéria e alma – ao seu olhar crítico e desencantado sobre o nosso país pequenino e sobre a sociedade actual é a fé e a defesa aguerrida dos valores que considera básicos na civilização ocidental: o primado do Homem, a liberdade e a defesa da vida. São estes os pilares em que assenta o seu olhar e que impede os seus textos de se tornem estéreis, frios e (des)almados como se fossem meros exercícios de deprimida retórica política e social. JG acredita na liberdade que se conquista com o saber e com o pensar, e os seus textos são sempre estímulos e provocações, nem sempre simpáticas, nem sempre de agradável leitura, nem sempre óbvias a que se aprenda e se pense, quanto mais não seja para dele discordar.
Notas:
(1) pág.126 “Emporio”, pág. 135 “Querido Líder”, ...
(2) pág. 148 “Os ‘Testes de Credibilidade’”, ...
(3) pág. 200 “Wotan/Sócrates”, pág. 225 “o Ministro TOYS R US”, pág. 286 “O Mundo Segundo Sócrates”, pág. 265 “AGITROP”, pág. 400 “Soares e os Males da Existência”, ...
(4) Pág. 243 “A Senhora Diectora”, pág. 218 “Inala sem Engolir”, ...
(5) Pág. 290 “Pensar Nisto”, ...
(6) Pág. 125 “O Homem Médio”, pág. 143 “Sócrates e o Lugar-Comum”, ...
(7) Pág. 231 “Os Novos Monstros”, pág. 236 “Sampaio, o Outro”, ...
(Continua)
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17.7.09
Portugal dos Pequeninos, Uma Leitura
Apesar de leitora fiel do blogue Portugal dos Pequeninos de João Gonçalves, quase desde o seu início, decidi ler o livro do blogue. O contacto físico com o livro parece que estabelece um contracto mais tangível e relacional entre ele, ou melhor, entre o que lá está escrito, e o leitor. O livro é sempre um blogue editado onde se procura maximizar um estilo, uma lógica, uma coerência. Esse contracto é coisa muito mais ligeira e volátil na leitura, mesmo regular de um blogue: porque se lê aos pedaços, no meio dos pedaços que se lêem dos outros blogues, hoje uns, amanhã outros, uns dias sem ler para depois recomeçar e assim sucessivamente. É verdade que, com o tempo, se vai percebendo um estilo, um fio condutor, mas no livro essa lógica individual revela-se com mais clareza e mais facilidade. Por isso foi com prazer, algumas gargalhadas, umas indignações, meia dúzia de repulsas, bastantes concordâncias – algumas delas, confesso, que a contra-gosto -, e sorrisos cúmplices que li o livro Portugal dos Pequeninos. JG, estabelece, na sua “maldade”, uma cumplicidade e um trato com qualquer leitor que não se consiga impedir de concordar com ele e por isso participar da sua “maldade”. Essa cumplicidade torna-se mais fácil porque JG nunca é ligeiro, leviano ou superficial. Pelo contrário, é um fino observador, culto e de boas leituras apesar de não as exibir, nem delas precisar para “embelezar” os posts que escreve. O seu gosto pela cultura, leitura e música (como se vê no blogue) está a montante dos posts concretos, da coisa escrita; molda a pessoa, mais do que faz o post. Sente-se e percebe-se sobretudo quando não se vê. Privilégio de poucos.
(Continua)
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(Continua)
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16.7.09
Com tantos jovens portugueses impedidos de estudar medicina, e com tantos outros, com meios financeiros, forçados a estudar medicina noutros países, porque cá não tiveram notas suficientemente elevadas para entrar nas diferentes faculdades de medicina, este absurdo, serve quem exactamente? E a política de acesso às faculdades de medicina vai-se manter? Para servir quem? Ninguém percebe que isto é mau demais e que já chega? Eu sei que este post é pouco original, mas notícias deste género, apesar de se repetirem com regularidade, ainda mantêm intacto o poder de me revoltar..
No Bolso de António Costa
O que ao longo dos tempos perdoava qualquer tontice em Helena Roseta era o facto de, para além da inteligência, HR ser irreverente, de se pensar e se crer única e por isso pouco propícia a ser apropriada e devidamente triturada e homogeneizada por máquinas partidárias, ideológicas ou outros interesses mais ou menos instalados, reconhecidos e venerados. O seu movimento “Cidadãos por Lisboa” que começou como um movimento cívico razoavelmente afastado do mainstream partidário veio, a troco de uma quota de lugares na Assembleia Municipal, domesticar-se. Mesmo depois de ouvir as "juras" de HR na SICN ontem, não exite maneira de acreditar que autonomia que HR faz questão de apregoar, dure muito coligada com o PS. Pode ser que me engane, mas os factos e a história provam que o poder tem poderes que o não-poder não tem.
Duvido também que estas coligações em forma de coligatório representem uma soma aritmética de votos. Para todos os efeitos é o PS e António Costa que contam, e muitos dos simpatizantes “Cidadãos por Lisboa” não votarão nem em AC, nem tão pouco no PS. As dúvidas que teria entre votar no movimento de HR ou em Pedro Santana Lopes, esfumaram-se num ápice. Mal por mal, prefiro o já conhecido e multi-resistente “pathos” de PSL, a uma HR que se funde e domestica no bolso de António Costa e se perde no PS.
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Duvido também que estas coligações em forma de coligatório representem uma soma aritmética de votos. Para todos os efeitos é o PS e António Costa que contam, e muitos dos simpatizantes “Cidadãos por Lisboa” não votarão nem em AC, nem tão pouco no PS. As dúvidas que teria entre votar no movimento de HR ou em Pedro Santana Lopes, esfumaram-se num ápice. Mal por mal, prefiro o já conhecido e multi-resistente “pathos” de PSL, a uma HR que se funde e domestica no bolso de António Costa e se perde no PS.
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14.7.09
Do Rigor 2
As notas do exame de Português do 9º ano foram más, não porque o exame fosse difícil, que não foi, mas porque os critérios de avaliação são uma aberração e as indicações e contra-indicações de ME sobre eles parecem saídos de uma sitcom. Pretende-se avaliar o Português como quem avalia a Matemática, mas sem o seu rigor e o seu inequívoco "errado". É totalmente desencorajada a leitura pessoal dos textos, a criatividade perante um objecto (num exame com três textos, só dois eram literários e só um um clássico da língua) bem como a interpretação individual (a “recriação” do objecto) que não siga os rigorosos e (pseudo) objectivos critérios estabelecidos para as respostas. Foi por isso que os bons alunos não brilharam, os maus se safaram e todos ficaram num caldo de notas medianas muito igualitário. Mas ninguém se importa muito: como estes exames só contam 30% para a nota final, raros são os casos em que os resultados realmente fazem diferença. As férias estão à porta e é preciso virar a página inscrevendo os alunos no secundário, quem quer por isso e nesta altura chatear-se com uma nota que “vale” pouco? No fundo, no fundo, no ensino básico é tudo a feijões.
O ensino em Portugal tem sido ao longo do tempo uma verdadeira comédia de costumes. Estes últimos anos esmeraram-se. Pena que os estudantes sejam cobaias de experimentalismos, estatísticas, buscas de consensos culturais e mediáticos, critérios medianos e de finca-pés políticos. Parece que nunca se consegue estabelecer uma rotina em que se conhece a política educacional, em que é previsível o estilo, o rigor e o bom-senso.
(Quem gostar da língua Portuguesa, quem achar, como eu, que o ensino da nossa língua é vilipendiado nos programas escolares, e sobretudo quem quiser “perder” algum tempo pode verificar o exame e os ditos critérios de avaliação aqui).
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O ensino em Portugal tem sido ao longo do tempo uma verdadeira comédia de costumes. Estes últimos anos esmeraram-se. Pena que os estudantes sejam cobaias de experimentalismos, estatísticas, buscas de consensos culturais e mediáticos, critérios medianos e de finca-pés políticos. Parece que nunca se consegue estabelecer uma rotina em que se conhece a política educacional, em que é previsível o estilo, o rigor e o bom-senso.
(Quem gostar da língua Portuguesa, quem achar, como eu, que o ensino da nossa língua é vilipendiado nos programas escolares, e sobretudo quem quiser “perder” algum tempo pode verificar o exame e os ditos critérios de avaliação aqui).
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12.7.09
11.7.09
Fugir para Marte
Não sou um homem de partido - no que sou acompanhado por 95% dos portugueses! - e quero é que eles (partidos) se danem pelo que nos têm tramado. Pode publicar isto...
Assim diz Manuel Villaverde Cabral ontem em entrevista ao i. Também me sinto assim: pertenço aos 95% que nunca militou, nem tão pouco se filiou num partido político e que se sente constantemente refém de máquinas partidárias que não entende – nem gosta do que vê. No entanto isso não tira nenhum tipo de legitimidade de olhar para a “coisa pública” e para a política, pensando, decidindo, pesando argumentos, analisando comportamentos, detectando padrões, nem tão pouco se está inapto a comentar, emitir juízos e claro, exercer o poder formal que se tem sobre a decisão de quem nos governa, votando.
MVC na sua entrevista detem-se sobre o impasse em que o país vive alternando governos entre o PS e o PSD e vai mais longe considerando que o outro lado da nossa ingovernabilidade são a corrupção e a incompetência sistémicas dos dois partidos - até por causa do rotativismo que lhes permite passarem as culpas um para o outro.
Se ainda nutríssemos algumas ilusões quanto à matéria de que são feitos os principais partidos e o tipo de curriculum de tantos dos nossos políticos e detentores de poder (autárquico, governamental, em comissões, etc), José Pacheco Pereira que, ao contrário de MVC, está nos 5% da população que milita num partido e é por isso conhecedor das chamadas “máquinas partidárias”, acabaria com elas num ápice; o tempo de ler o seu artigo de hoje no Público (Edição Impressa, sem link) que nos chega como um balde de água fria. Nada que não suspeitássemos, nada que não se insinuássemos em “casos” que, com um ritmo constante, chegam ao conhecimento público ou aos tribunais, nada que não víssemos nas investigações feitas e publicadas ou ouvidas nesta notícia, naquela referência, naqueloutro recado. Nada que não desabafássemos em conversas mais ou menos informais, nada que não escrevêssemos em posts. Mas dito assim, preto no branco, por quem conhece tem um impacto e um efeito maior, como se a escala com que se olha o mapa mudasse e víssemos muito mais. O artigo é impiedoso recriando histórias de um nascer, fazer e crescer de influência (e nem se falou muito da influência com a comunicação social) desses políticos, cujo prototipo de biografia é esquematizada de forma crua, uma espécie de condenação à morte da inocência com que se poderia ainda tentar olhar para a vida dentro de um partido.
Uma coisa é certa: o sentimento de emparedamento é grande, e a falta de uma luz verde com o sinal “saída” deixa-nos “assim”, no meio de coisa nenhuma porque nem a seriedade e a dedicação de alguns parece chegar para fazer essa luz. Só apetece mesmo é fugir para Marte.
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MVC na sua entrevista detem-se sobre o impasse em que o país vive alternando governos entre o PS e o PSD e vai mais longe considerando que o outro lado da nossa ingovernabilidade são a corrupção e a incompetência sistémicas dos dois partidos - até por causa do rotativismo que lhes permite passarem as culpas um para o outro.
Se ainda nutríssemos algumas ilusões quanto à matéria de que são feitos os principais partidos e o tipo de curriculum de tantos dos nossos políticos e detentores de poder (autárquico, governamental, em comissões, etc), José Pacheco Pereira que, ao contrário de MVC, está nos 5% da população que milita num partido e é por isso conhecedor das chamadas “máquinas partidárias”, acabaria com elas num ápice; o tempo de ler o seu artigo de hoje no Público (Edição Impressa, sem link) que nos chega como um balde de água fria. Nada que não suspeitássemos, nada que não se insinuássemos em “casos” que, com um ritmo constante, chegam ao conhecimento público ou aos tribunais, nada que não víssemos nas investigações feitas e publicadas ou ouvidas nesta notícia, naquela referência, naqueloutro recado. Nada que não desabafássemos em conversas mais ou menos informais, nada que não escrevêssemos em posts. Mas dito assim, preto no branco, por quem conhece tem um impacto e um efeito maior, como se a escala com que se olha o mapa mudasse e víssemos muito mais. O artigo é impiedoso recriando histórias de um nascer, fazer e crescer de influência (e nem se falou muito da influência com a comunicação social) desses políticos, cujo prototipo de biografia é esquematizada de forma crua, uma espécie de condenação à morte da inocência com que se poderia ainda tentar olhar para a vida dentro de um partido.
Uma coisa é certa: o sentimento de emparedamento é grande, e a falta de uma luz verde com o sinal “saída” deixa-nos “assim”, no meio de coisa nenhuma porque nem a seriedade e a dedicação de alguns parece chegar para fazer essa luz. Só apetece mesmo é fugir para Marte.
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