“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

11.7.09

Fugir para Marte

Não sou um homem de partido - no que sou acompanhado por 95% dos portugueses! - e quero é que eles (partidos) se danem pelo que nos têm tramado. Pode publicar isto...

Assim diz Manuel Villaverde Cabral ontem em entrevista ao i. Também me sinto assim: pertenço aos 95% que nunca militou, nem tão pouco se filiou num partido político e que se sente constantemente refém de máquinas partidárias que não entende – nem gosta do que vê. No entanto isso não tira nenhum tipo de legitimidade de olhar para a “coisa pública” e para a política, pensando, decidindo, pesando argumentos, analisando comportamentos, detectando padrões, nem tão pouco se está inapto a comentar, emitir juízos e claro, exercer o poder formal que se tem sobre a decisão de quem nos governa, votando.

MVC na sua entrevista detem-se sobre o impasse em que o país vive alternando governos entre o PS e o PSD e vai mais longe considerando que o outro lado da nossa ingovernabilidade são a corrupção e a incompetência sistémicas dos dois partidos - até por causa do rotativismo que lhes permite passarem as culpas um para o outro.

Se ainda nutríssemos algumas ilusões quanto à matéria de que são feitos os principais partidos e o tipo de curriculum de tantos dos nossos políticos e detentores de poder (autárquico, governamental, em comissões, etc), José Pacheco Pereira que, ao contrário de MVC, está nos 5% da população que milita num partido e é por isso conhecedor das chamadas “máquinas partidárias”, acabaria com elas num ápice; o tempo de ler o seu artigo de hoje no Público (Edição Impressa, sem link) que nos chega como um balde de água fria. Nada que não suspeitássemos, nada que não se insinuássemos em “casos” que, com um ritmo constante, chegam ao conhecimento público ou aos tribunais, nada que não víssemos nas investigações feitas e publicadas ou ouvidas nesta notícia, naquela referência, naqueloutro recado. Nada que não desabafássemos em conversas mais ou menos informais, nada que não escrevêssemos em posts. Mas dito assim, preto no branco, por quem conhece tem um impacto e um efeito maior, como se a escala com que se olha o mapa mudasse e víssemos muito mais. O artigo é impiedoso recriando histórias de um nascer, fazer e crescer de influência (e nem se falou muito da influência com a comunicação social) desses políticos, cujo prototipo de biografia é esquematizada de forma crua, uma espécie de condenação à morte da inocência com que se poderia ainda tentar olhar para a vida dentro de um partido.

Uma coisa é certa: o sentimento de emparedamento é grande, e a falta de uma luz verde com o sinal “saída” deixa-nos “assim”, no meio de coisa nenhuma porque nem a seriedade e a dedicação de alguns parece chegar para fazer essa luz. Só apetece mesmo é fugir para Marte.
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10.7.09

A Espuma dos Dias que Foram 20

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9.7.09


Parece que o Zé "faz falta" a ele próprio. Nada que não estivesse já há muito escrito nas estrelas.

Os ganhos na auto-estima dos participantes é um dos efeitos que mais compensou e que, a médio prazo, poderá revolucionar o tecido empresarial. Finalmente, a auto-estima elevada a objectivo político com garantidos efeitos revolucionários a médio prazo.

Se não "rasga", nomeadamente uma grande parte das supostas "medidas sociais" feitas à pressa para cumprir calendário de anúncios eleitorais, eu lamento.
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6.7.09

A Espuma dos Dias que Foram 19

A Barca do Inferno

Creio que o ambiente político e mediático de hoje em Portugal tem inspiração suficiente para que um moderno Gil Vicente pudesse fazer um remake do Auto das Barcas. Não faltam exemplos de candidatos a uma nova Barca do Inferno (a barca dos “maus” que vão para o Inferno, para quem não se lembre). Nesta época pré-eleitoral em que o poder balança e é incerto, e as tentativas de ancoragem a ele por demais óbvias, há suficientes estereo(tipos) que ilustram algumas das “classes” de pessoas que representam as diferentes tendências e interesses que procuram de uma forma ou de outra agarrar um pedaço desse poder. Normalmente detestam a liberdade dos outros de (bem ou mal, mas abertamente) olharem e perceberem aquilo que de facto representam e os move.

José Pacheco Pereira, que por acaso tem um programa novo no horário nobre de Domingo à noite na SICN, fez o favor (e deu-se ao trabalho) de simplificar a tarefa de escolha de insultos e vocabulário vernáculo ao publicar uma interessante compilação de insultos dos tempos modernos que lhe são dirigidos, e que podem bem ser usados pelo diabo. Só podem ser saudades de Gil Vicente.
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5.7.09

Entardecer 7

Hoje
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A Problemática do "nós"

Não percebo nada de marketing político nem tão pouco de como se faz uma campanha política, mas Deus deu-me dois olhos, dois ouvidos e tento fazer um tão bom uso deles quanto possível. Como gosto de símbolos, simbologias, semióticas, e afins dificilmente consigo ser indiferente a mensagens que queiram transmitir, sobretudo quando têm alguma importância na minha escala de valores. Ao confrontar-me com este “outdoor” do PS para as legislativas fico perplexa. Parece-me que se concertaram para encontrar as opções erradas, ou que continuam longe da realidade que os rodeia. Ou ignorância ou soberba; ambas más.


Primeiro o slogan: “Nós conseguimos!” É por demais óbvia a ligação ao slogan “Yes, we can!” de um Obama estreante e entusiasta com um “estilo novo” e que se propunha iniciar um primeiro mandato com presidente. Outra coisa é José Sócrates, desgastado com quatro anos de uma governação polémica e difícil centrada muito mais no pronome pessoal “eu” do que no “nós”. O PS nestes quatro anos viu-se reduzido a Sócrates, o governo é Sócrates, a imagem do desgaste é Sócrates. Os portugueses, ou pelo menos um número muito considerável, está simplesmente cansado e farto de Sócrates; do curso de Sócrates, dos projectos de engenharia de Sócrates, da casa da mãe de Sócrates, da ligação de Sócrates ao Freeport, dos “momentos-Chavez” de Sócrates, dos anúncios de Sócrates, das mentiras de Sócrates, das contradições de Sócrates. Sócrates, animal feroz, depois coelhinho manso, Sócrates teimoso, decidido, arrogante e determinado foi sempre o marco desta legislatura que está a acabar. Os seus ministros, com duas ou três excepções, viveram à sombra do líder, ao ritmo do líder, de acordo com o líder, mesmo quando os víamos serem desmentidos ou desautorizados. Nunca se percebeu que a governação fosse colegial, fosse um trabalho de “nós”. Os eleitores (pelo menos aqueles a que me referi) também sentiram Sócrates sempre distante da realidade e do quotidiano das gentes e do país: ao hostilizar as diferentes classes profissionais, ao ignorar a crise e suas severas consequências sociais, ao minimizar o descontentamento, ao controlar a informação. A derrota nas eleições para o parlamento europeu foram uma chamada para a realidade da qual Sócrates cada vez mais se alheara. Esse “nós” do slogan nos outdoors soa a falso, a quem quer atirar areia para os olhos - não toca nem implica o eleitor.

Em segundo lugar a fotografia: é uma contradição do slogan, mas mais fiel à realidade no que diz respeito ao “estilo Sócrates”, que é, ele também, centrado na sua pessoa. José Sócrates destaca-se num primeiro plano sobressaindo nítido, a cores e muito clean no meio de um “nós”algo esbatido pelo tom monocromático com que se compõe a fotografia para se insinuar os tons da bandeira portuguesa (com Sócrates no meio). Este “nós” não é “povo”, não são os portugueses reais do dia a dia, são também eles parte de um arranjo, muito clean, muito direitinho, muito sorridente e embevecido, muito casting, muito artificial, muito programado para admirar o grande líder. É essa a visão do “nós” – bem distante da realidade – dada pela campanha eleitoral do PS; mais uma vez o alheamento da realidade é notório. Aquele “nós” é artificial. Com José Sócrates não há nós, há um produto de casting, pré-programado e pronto a ver e aplaudir o grande líder. Só não vê quem não quer. Tudo se mantém igual ao que foi, tudo será como até agora foi: longe da realidade, longe da verdade.
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3.7.09

Espuma dos Dias que Foram 18


Saí de Portugal com a crise/eleições do Benfica a dominar paredes meias com o estado político já eleitoral, a agenda mediática. Uma das coisas aborrecidas do futebol é que nunca temos férias do dito, pois mesmo quando não há jogos há transferências, contratações, férias de futebolistas e crises clubísticas, nomeadamente a do Benfica. Nos primeiros minutos em que passeei em Praga deparei-me com esta variante de matrioskas que me custa entender, mas que parecem vender bem tanta a abundância das ditas por tudo quanto é loja de souvenir. Eu não consigo perceber quem é quer destas matrioskas feitas futebolistas com as camisolas dos clubes? Enfim, nem em Praga tenho férias do futebol, nomeadamente do Benfica. Chegada cá que é que domina a agenda mediática? Claro, as eleições do Benfica.

(Eu sei que esta afirmação é retórica. O debate do Estado da Nação e a demissão de Manuel Pinho estão, como é óbvio, também na agenda mediática).
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Agradeço ao Miguel Vaz o simpático destaque.
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1.7.09

Espuma dos Dias que Foram 17

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Rasgar e Romper

Manuel Pinho com seu coreografado gesto na entrevista na SICN e mostrado no Jornal da Noite, de, levando à letra as palavras de Manuela Ferreira Leite, rasgar a folha de papel com uma grelha onde a amarelo estavam amplamente destacadas as medidas de combate à crise do seu governo, não fez mais do que reforçar a nossa vontade de ver isso mesmo: um enorme rasgão a essas medidas pensadas em cima do joelho e sem nexo nem coerência que foram sobretudo feitas com intuitos eleitoralistas. Anunciadas a um ritmo constante e perseverante, até hoje muitas delas não foram sequer implementadas (provavelmente será caso para dizer “ainda bem”) outras mereciam alguma análise que verificasse o seu real âmbito de influência e a sua eficácia no tão desejado combate à crise.

Creio que Manuel Pinho queria com esse seu gesto dramatizar a intenção de MFL e encher-nos de temor perante a desgraça que pode acontecer ao país se o PSD ganhar eleições. Essa táctica foi amplamente usada pelo PS (nomeadamente por Santos Silva) no período eleitoral que antecedeu a eleição presidencial, não foi uma estratégia ganhadora! Na minha opinião MP conseguiu o contrário: a visualização da volatilização desses “medidas”, “linhas de crédito” e “incentivos” vários e dispersos só aguça o apetite quer dos descontentes do PS quer de quem votará no PSD para que se acabe com tudo rasgando e rompendo e se recomece de novo. Nomeadamente na Educação.

Hoje
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24.6.09

Uma semana.
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Aprendendo com Tolstói (*)

O que é a vida, o que é a morte? Que força governa tudo? (...) E não tinha resposta para nenhuma destas perguntas, excepto uma, ilógica, que, na verdade, não respondia a estas questões. A resposta era. “ Morremos e acaba tudo. Morremos e ficamos a saber tudo, ou deixamos de perguntar”. Mas também morrer era assustador.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(Título roubado daqui)

Amanhecer 15

Hoje
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Agradeço ao Tiago Moreira Ramalho do Corta-Fitas e de O Afilhado a simpática referência.
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23.6.09

Aprendendo com Tolstói 2 (*)

A mente humana não tem acesso à totalidade das causas dos fenómenos. A alma humana, porém, foi provida da necessidade de procurar as causas. Assim, a mente humana, incapaz de penetrar na imensidade e na complexidade das condições que geram os fenómenos, cada uma das quais em separado pode afigurar-se-lhe a causa, agarra-se à primeira e à mais próxima, à mais compreensível e diz: eis a causa.

(*) Título roubado aqui.
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Plataforma Contra a Obesidade 54

Paul Cezanne
Still Life with Cup, Jar and Apples
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Aprendendo com Tolstói (*)

É este o destino não dos homens grandes, não do grand homme que o espírito russo não reconhece, mas dos homens raros e solitários que, ao perceberem os desígnios da Providência, submetem-lhe a própria vontade. O ódio e o desprezo da multidão castigam essas pessoas pela compreensão das leis superiores.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(*) título roubado aqui.
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21.6.09

Velas 17

Hoje

Guerra e Paz 5

Aquela ferida na alma da mãe não podia sarar. (...) Mas a ferida que tirou meia vida à mãe, foi para Natasha a nova ferida que a incitou a viver. Uma ferida da alma causada pelo rasgão do corpo espiritual, tal como uma ferida física, apenas sara e cicatriza, por mais estranho que pareça, com a força da vida que irrompe de dentro.

Desta forma sarou a ferida de Natasha. Pensava que a vida tinha acabado, mas, de repente, o amor pela mãe mostrou-lhe que a essência da sua vida – o amor – ainda estava viva. Voltou a despertar o amor, despertou a vida. Os últimos dias (...) tinham ligado Natasha à princesa Mária. A nova desgraça aproximou-as ainda mais.

(...)

Falavam sobretudo dos seus passados longínquos. A princesa Mária contava coisas da sua infância, da mãe, do pai, dos seus sonhos; e Natasha, que dantes, com uma incompreensão tranquila não queria saber daquela existência devota e submissa da princesa Mária, nem daquela poesia do auto-sacrificio crsitão, agora, (...) começou também a amar o passado da princesa e a compreender aquela faceta da vida que antes lhe era inacessível. Não pensava aplicar à sua alma a submissão e o auto-sacrifício, porque estava habituada a procurar outras alegrias, mas compreendia e começava a amar na outra as virtudes que dantes não compreendia. Para a princesa Mária, quando ouvia Natasha contar a sua infância e a sua primeira juventude, também se revelava um lado da vida que dantes não entendia: a fé na vida, o prazer da vida.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Natasha e a princesa Mária são as duas mais importantes personagens femininas de Guerra e Paz. Natasha, pelo seu amor à vida, entusiasmo, espanto, pela sua entrega, pelo seu olhar que brilha, é uma personagem irresistível de quem é impossível não gostar. Vêmo-la crescer e tornar-se uma mulher, seguimos o seu percurso talhado de momentos de prazer e felicidade familiar, de brilho nos círculos aristocráticos de Moscovo e São Petersburgo, e de momentos de decisão, a ânsia da felicidade, o prazer dos pequenos momentos, o percurso de dor, a perda de saúde, o renascimento tal como o que se refere o início deste excerto e um renascimento que lhe permite aceitar o mundo com o olhar mais sábio e ir trilhando finalmente o seu caminho que é o seu. A princesa Mária pertencente a uma das melhores famílias e socialmente acima de Natasha, representa o contrário: a rapariga submissa, inteiramente dedicada ao pai, um velho excentrico e ateu que despreza a sua fé e não reconhece o valor nem da sua inteligência nem da sua generosidade. Mária, ao contrário de Natasha, não teve uma infância e juventude alegre e feliz e uma casa sempre cheia de família e amigos, por isso dedicava-se à oração e à caridade. Muitas vezes, na sua solidão, se perguntava se encontraria um homem com quem se casasse e pudesse constituir uma família.

As mulheres não pertencem ao “mundo da guerra”, mas a guerra, nas suas múltiplas faces, acaba por entrar no mundo destas duas mulheres expondo-as ao sofrimento e modificando para sempre quer as suas vidas quer as suas almas. Natasha recolhe-se em si, para dentro; a princesa Mária torna-se autónoma e abre-se ao mundo, para fora.

O romance é um hino à sempre espantosa manifestação da natureza humana na plenitude: fraquezas e riquezas, e nesse exercício de olhar e escrutínio, percebemos, como o exemplo destas duas mulheres nos mostra, que as circunstâncias que num primeiro momento parecem afastar e antagonizá-las, acaba por uni-las num percurso paralelo de sofrimento, de dor e de transformação. O entendimento e a sólida amizade que se forja, toma assim uma dimensão que está além da pertença social, do entendimento, da personalidade ou da opinião. Começa no sentir e estende-se à dimensão espiritual.

20.6.09

Em Flor 22

Vincent van Gogh (1853-1890)
Butterflies and Poppies

Do Rigor

As intenções de rigor e exigência patentes na linha traçada pela Ministra da Educação deste governo de José Sócrates estão a desfazer-se perante o nosso olhar. O resultado dos testes de aferição dos 4º e 6º anos com a sua percentagem de positivas de 90% desmente qualquer tentativa séria de avaliação e qualquer intenção de rigor na escola em geral e do ensino - o que de facto se aprende – em particular. O cenário parece querer repetir-se no caso dos exames nacionais do 9º ano, em que estes, ao contrário dos anteriores que são irrelevantes e um desbaratar de recursos para um resultado “político” e estatístico simpáticos, já contam para a nota final - uns meros 30%, mas pelo menos poderão eventualmente fazer alguma diferença. O exame de Português foi muito fácil, dizem os alunos. De facto e depois de olhar com mais atenção deparo-me com esta pergunta extraordinária (que neste vídeo do Público alguns alunos disseram ser a parte mais difícil de um exame facílimo e “básico”) sobre um excerto dos Lusíadas, as estrofes 122 e 123 do Canto III:

Redige um texto expositivo (...) no qual explicites (*) o conteúdo das estrofes 122 e 123. O teu (*) texto deve incluir:

• uma parte introdutória em que identifiques (*) o episódio a que pertencem as estrofes e as personagens históricas nelas mencionadas;
• um desenvolvimento, no qual indiques (*) a decisão referida na segunda estrofe e as razões que, segundo o narrador, motivaram essa decisão;
• uma parte final, em que refiras (*) o sentimento expresso pelo narrador com a interrogação final e a razão que originou esse sentimento.

Lendo esta questão percebemos que o enunciado dá a resposta: explicita a sua estrutura (limitando a escolha) e aponta as soluções; só não escolhe as palavras para responder. Com perguntas destas em que a resposta está à partida formatada e dada é impossível errar e difícil premiar a diferença do mérito de quem sabe e estudou aquele bocado mais que faz a diferença entre o bom e o muito bom. Não sou favorável a que se façam exames dificeis, mas tem que haver em qualquer exame uma ou duas questões feitas para que se pense, para premiar o esforço e trabalho de quem estudou um pouco mais e um pouco melhor. Um exame destes é paternalista, limitativo e condiciona o estudante cortando-lhe criatividade. O bom aluno e o mau darão resposta iguais. Enfim, tudo muito mau, muito medíocre, muito igual, desse perigoso igualitarismo pastoso com que insistem em nos moldar a todos. Se é para isto que serve o rigor...

Notas:
  1. (*) Não percebo também a necessidade de, em circunstâncias formais e oficiais, que é o que os exames nacionais são, tratar o interlocutor, mesmo que seja aluno, por “tu”, mas isso será esquisitice minha.
  2. Como pude constatar (ou confirmar) no vídeo, os umbigos à mostra deram lugar este ano aos “cai-cai”. Também houve quem fizesse o exame de fato de banho com top de alças por cima. No vídeo não pude confirmar as calças dos rapazes pelo meio do rabo a mostrar calções de banho ou boxers, mas aposto que todos andavam de chinelas havaianas. Tenho que dar razão à Sra. Ministra que timidamente e noutros tempos menos eleitoralistas, ousou falar em fardas para as escolas.

19.6.09


Notícias da Albânia (*):

O Primeiro-ministro muda de personalidade após derrota eleitoral. Ver aqui um retrato comparativo.

As notas de Português e Matemática das provas de aferição dos 4º e 6º anos contam com 90% de positivas.

Trabalhadores interrompem negociações com a Administração na Autoeuropa.

(*) com o devido respeito pela Albânia.


17.6.09

Em Flor 21

Da unidade no PSD

Da leitura de alguns blogues (sobretudo colectivos) dos últimos dias há uma nota curiosa que teima em aparecer, assumindo, em certos blogues, mais relevo do que noutros.

A ideia central é a de que só poderá o PSD estar preparado para enfrentar os próximos actos eleitorais e ter esperança de bons resultados, eventualmente uma vitória, com uma unidade que abarque em listas de deputados e em cargos todas as facções opostas (nomeadamente e sobretudo Pedro Passos Coelho). Esta preocupação e insistência com a unidade hoje – depois da vitória no último acto eleitoral que vale o que vale, nem mais nem menos – levanta-me algumas questões. A primeira e fundamental é o porquê desta preocupação hoje, a três meses (aproximadamente) do próximo acto eleitoral, quando três meses antes das eleições europeias choviam críticas em relação à líder do PSD, à sua estratégia, seu estilo, sua oportunidade, seu timing. Nessa altura uma certa opinião não escondia a premonição (óbvia sublimação de desejo?) de desastre e derrota deixando sempre a suspeita desse desejo nunca explícito de que MFL pudesse ser rapidamente declarada redundante e despachada. Nessa altura tudo o que MFL fazia ou dizia era alvo de forte crítica, até a nomeação de Paulo Rangel: por se perder um bom líder parlamentar, porque Marques Mendes teria sido melhor, porque foi tarde, porque, porque. Durante a campanha e com um certo entusiasmo a pairar Pedro Passos Coelho ousou acompanhar a líder, mas não surpreendeu, pois manteve-se fiel a si próprio: melífluo pediu – quando ninguém ousava sequer sonhar – uma vitória. Porque é que a unidade do partido hoje é tão mais importante do que era há três meses atrás? Porque a vitória já não é uma miragem ou improbabilidade, mas sim do domínio da possibilidade?

A segunda questão tem a ver com o tipo de “pressão” que é exercido com estes apelos à unidade. Parecem demasiado apelos ao não esquecimento, por isso à manutenção, da esfera de influência que essas “facções” têm ou possam ainda ter e que não querem – compreensivelmente – deixar de ter. Quando do debate interno no PSD e depois dele criaram-se essas “bolsas de influência” que mantiveram PPC nos media de forma sustentada e constante; que acontecerá se o seu papel nos próximos actos eleitorais não for marcante? Porque é que não leio a hipótese de voluntariamente e com dignidade (tal como MFL o fez quando Santana Lopes era líder) se manter afastado das listas de deputados por não concordar com a linha e estilo da liderança? A unidade – mais do que uma soma de partes - pressupõe uma liderança forte, uma direcção clara, um programa coerente e pessoas que acreditem neles: ninguém melhor do que o(a) líder para decidir quem, e renovar onde achar que há que renovar.

A terceira questão prende-se com o valor que essas “facções” internas do PSD têm no momento do voto. Isto é: perante os eleitores do país “real” que não são maioritariamente filiados em partidos, e que a votarem PSD votam também ou sobretudo em “não Sócrates”; quanto valem de facto os votos de Pedro Passos Coelho? Será que esse valor fará a diferença, ou estará PPC sobrevalorizado, por quem o acha imprescindível, em termos de votos de eleitores? De onde vem o valor de PPC perante um eleitorado “extra-muros” do PSD? Será que alguém sabe? Até prova em contrário, e sobretudo agora depois da vitória do PSD nas eleições europeias, mantenho sérias dúvidas em relação ao seu valor (em votos, claro). Para mim, e até agora, esse rei vai nu.


15.6.09

Há dois dias (clicar para aumentar)
Parece um porta qualquer coisa, mas não vejo o quê.

Nota: Um amável leitor esclarece-me, e diz tratar-se do porta-aviões Principe das Astúrias, o segundo maior navio da frota espanhola.


Hoje Acordei Assim *

Oh the wind whistles down
The cold dark street tonight
And the people they were dancing to the music vibe
And the boys chase the girls with the curls in their hair
While the shy tormented youth sit way over there
And the songs they get louder
Each one better than before

And you're singing the songs
Thinking this is the life
And you wake up in the morning and you're head feels twice the size
Where you gonna go? Where you gonna go?
Where you gonna sleep tonight?

And you're singing the songs
Thinking this is the life
And you wake up in the morning and you're head feels twice the size
Where you gonna go? Where you gonna go?
Where you gonna sleep tonight?
Where you gonna sleep tonight?

So you're heading down the road in your taxi for four
And you're waiting outside Jimmy's front door
But nobody's in and nobody's home 'til four
So you're sitting there with nothing to do
Talking about Robert Riger and his motley crew
And where you're gonna go and where you're gonna sleep tonight

And you're singing the songs
Thinking this is the life
And you wake up in the morning and you're head feels twice the size
Where you gonna go? Where you gonna go?
Where you gonna sleep tonight?
Where you gonna sleep tonight?


Amy MacDonald, This is the Life.
AQUI

(* Com a devida vénia)


14.6.09

Georgia O' Keeffe (1887-1986)
Evening Star, Nº III
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13.6.09

Guerra e Paz 4

Na barraca da sua prisão, Pierre ficou ciente, não só com a inteligência, mas com todo o seu ser, com a sua vida, de que o homem foi criado para a felicidade, que a felicidade residia no próprio homem (...) e que toda a desgraça não provinha da carência, mas do excesso; (...) (e) ficou ciente de mais uma nova verdade consoladora; no mundo nada havia de assustador. (...) Do mesmo modo que não existia uma situação em que o homem fosse totalmente feliz e livre, também não existia para o homem uma situação de felicidade absoluta e de privação total de liberdade. Ficou a saber que havia um limite para o sofrimento e um limite para a liberdade, (...).

Só agora Pierre percebia toda a força da capacidade da sobrevivência humana e a força salvadora, dada ao homem, da transferência da atenção, à semelhança daquela válvula de segurança nas máquinas a vapor que permite a descarga do excesso de vapor mal a sua densidade ultrapassa determinada medida. (...)

(...)Aquilo que dantes o atormentava, aquilo que procurava constantemente – o objectivo da vida – já não existia para ele. (...) E era esta inexistência (...) que lhe dava aquela consciência plena e feliz de liberdade que, nesses dias, constituía a sua felicidade.

Agora não podia ter objectivo porque tinha fé: não uma fé numas quaisquer regras, ou palavras ou ideias, mas a fé num Deus vivo, constantemente sentido. Dantes procurava-O nos objectivos que se colocava. A sua procura de objectivo era tão só a procura de Deus (...).
Lev Tolstói, Guerra e Paz

A busca da felicidade tem muitas caras e toma muitas formas. Pierre, talvez a personagem central de Guerra e Paz, vive com um pé no mundo da Paz: o mundo urbano da sociedade aristocrática que vive em luxo e conforto; e o outro pé no mundo da guerra, sobretudo na altura da batalha de Borodino e na ocupação de Moscovo: o mundo dos homens que estão nos diferentes ramos das forças armadas e que fazem a guerra defendendo o seu país. Ele começa por ser uma personagem intrigante e estranha com dificuldade em se afirmar no mundo em que, de repente, se vê pertencer. Teve o privilégio de uma esmerada e completa educação no ocidente (França sobretudo), mas havia sempre algo que lhe escapava, que lhe faltava e procurava incessantemente aquilo a que chamava o objectivo da vida, ou felicidade pois parecem ambos, neste caso funcionar como sinónimos. Tentou várias formas e escolheu várias caras, mas via sempre a felicidade, mais cedo ou mais tarde, escapar-lhe de cada vez que sentia, com alguma ingenuidade – própria das “boas pessoas” - que a conseguiria aprisionar. Tomou decisões fez escolhas, mudou de rumo, mas tudo parecia em vão, uma procura estéril dessa ilusão que é a felicidade que se “encontra” nisto ou naquilo, ou na descoberta do objectivo da vida nesta ou naquela ideologia e teoria.. Como todas as personagens deste romance, Pierre vive uma vida peculiar, cresce interiormente, sofre, adapta-se às circunstâncias, molda-se e descobre-se. Nestes breves excertos do romance tirados de capítulos diferentes e “colados” de uma forma que tento que faça um todo tão coerente quanto possível (um só excerto parecia-me demasiado redutor para personagem tão complexa), percebe-se que Pierre um dia é feliz: quando descobre que existe um limite ao sofrimento que se suporta, que a felicidade nunca é absoluta e que – mesmo em cativeiro – nunca há privação total da liberdade. Talvez mais importante, e num segundo momento, ele percebe que não precisa já não procura o objectivo da vida, em regras, palavras ou ideias, pois tem fé num Deus vivo e que é sempre sentido.

Atrevo-me a dizer que Pierre concordaria com o João Gonçalves: toda a felicidade, a não ser a dos tolos, pressupõe amargura, solidão e sofrimento.

12.6.09

Overdose 2

Um jejum de José Sócrates dá imediatamente lugar a outro tipo de alienações: ao benfiquismo (diferente do Benfica) que, como sempre, ocupa demasiado espaço mediático; aos desapontamentos em relação à selecção nacional que – tal como o país que representa - parece fadada ao empate; e ao Ronaldismo fenómeno nacional que envolve sempre movimentações de milhões de euros, porque vai para o real Madrid, ou porque espatifou um Ferrari, ou porque comprou uma casa, ou porque passa férias com os famosos em Los Angeles. Hoje o caso culmina com uma verdadeira dúvida existencial que o deve atormentar em LA onde foi avistado a brindar com Paris Hilton. Grande Ronaldo!

11.6.09

Hoje

Overdose

Confesso o bom que é este jejum de José Sócrates que a ressaca eleitoral e os feriados seguidos de fim-de-semana nos impuseram. As breves declarações do Primeiro-ministro ontem nas comemorações do 10 de Junho quando abordado pelos jornalistas, porque mais “naturais” e porque tão pouco usuais nele, não contam. De facto há vários dias que não leio "anúncios" nos jornais nem os vejo nas TVs, naquele ímpeto salvífico de quem tem que salvar rapidamente a pátria do desastre e por isso “toma medidas”. Não nego que há um mérito em “decidir” e “tomar medidas” e que ninguém nega a determinação do nosso primeiro-ministro. Dois problemas, no entanto: a qualidade das medidas e sua oportunidade, e a comunicação dessas medidas que com este governo se tem centrado nos anúncios à medida de um telejornal. Não há debate sobre a substância e o formato tem sido pouco variado, e pela persistência e regularidade com que o ritual é cumprido tem, inevitavelmente (e porque a verdade vem sempre acima) emergido a artificialidade do acto de encenar, de cada vez, um anúncio. Sem nos apercebermos fomos, ao longo destes anos com especial incidência nos últimos meses, objecto de uma intoxicação e de uma overdose de José Sócrates como nunca o fomos de mais nenhum primeiro-ministro. Nestes dias notam-se os sintomas de abstinência: uns talvez com pena, outros nos quais eu me incluo com considerável alívio.

9.6.09

Dias de Verão 12

Gifford Beal (1879–1956)
Mayfair


8.6.09

Muito boa a análise de Eduardo Cintra Torres no Público caderno principal da edição impressa de hoje com o título: Dez Derrotados na Comunicação. A saber, mesmo que seja importante ler todo o artigo: 1 - A reportagem opinativa, 2 - A campanha enviesada da RTP, 3 – A Credibilidade das sondagens, 4 – A artificialidade comunicativa do PS e da LPM, 5 – A comunicação arrogante e sufocante, 6 – Os comentadores da direita socratista, 7 – Miguel Sousa Tavares, 8 – A sobrevalorização da sondagem das legislativas na SIC, 9 – A infelicidade do humor, 10 – O novo riquismo cenográfico (RTP).

7.6.09

Que alívio!

Depois dos discursos de Paulo Rangel e de Manuela Ferreira Leite, os grandes vencedores da noite, registo o alívio que é finalmente ouvir discursos com sentido. O de Paulo Rangel foi particularmente bem conseguido, estruturado, claro, incisivo e politicamente pertinente e oportuno, quer para os seus eleitores quer para os seus opositores: levantou a questão da mudança do quadro político em Portugal que impede o governo de tomar decisões que comprometam a próxima legislatura e as gerações futuras. É um alívio sair do modelo redondo e vazio dos discursos de circunstância, de anúncios e unidireccionais de José Sócrates que com a sobranceria da superficialidade ignora sistematicamente a oposição e a crítica e seus argumentos.

Hoje

Guerra e Paz 3

Além das suas rezas, Platon Karatáev não sabia nada de cor. Quando começava os seus discursos, parecia não saber como os iria terminar. (...) Platon não conseguia lembrar-se do que dissera um minuto antes (do mesmo modo que nunca conseguia dizer a letra da sua cantiga preferida). Havia nestas cantiga palavras – “querida”, “betulazinha”, e “estou muito triste” – mas, recontadas, nunca faziam qualquer sentido. Karatáev era incapaz de compreender o significado das palavras fora do discurso. Cada palavra e cada procedimento seus eram manifestações de uma actividade espontânea e que era a própria vida. Entretanto, a vida, tal como ele a encarava, não tinha sentido como vida separada. Apenas tinha sentido como partícula de existência geral que ele permanentemente sentia. As palavras e os actos de Platon derramavam-se de forma tão regular, necessária e espontânea como o cheiro emana da flor. Era incapaz de compreender o valor e o significado de uma acção ou de uma palavra tomadas em separado.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Platon Karatáev é uma personagem menor, mas com grande valor simbólico num romance onde abundam personagens da aristocracia culta que de formas diferentes procuram encontrar o sentido da vida e um objectivo que as faça agir. Karatáev é um camponês inculto, mas dotado de uma sensibilidade existencial muito peculiar. Ele, tal como o excerto acima nos diz, existe em ligação com o mundo, uma partícula na existência que ele sente e sabe, não deixando muito espaço ao cultivo do ego, estados de alma ou a problemas existenciais relacionados com o sentido da vida ou os objectivos das opções que se tomam e que caracterizam na obra as personagens principais. Ele existe como contraponto a essas personagens e é capaz de seduzir quelquer um pela simplicidade e harmonia do seu ser e viver. Como parte integrante de um universo e de uma existência que o transcende, mas que ele sente ternamente na vida que vive e que vê ser vivida, ao seu redor pelos homens, cães, árvores ou flores, Karatáev não questiona o que lhe acontece, não combate o seu fado - pelo contrário entrega-se, sem ressentimentos nem questionamentos e com uma simplicidade e aceitação tão naturais quanto desarmantes que, nesta sua forma de estar perante o mundo e o momento presente, ele acaba por transmitir aos que o rodeiam paz e ternura em momentos de dor e de aflição. Há nele uma entrega à vida, e consequentemente à morte, que espanta quem o rodeia, no seio dos quais está Pierre, que será fortemente marcado por este homem camponês e iletrado, mas dono de uma sabedoria e liberdade imensas.

O meu conhecimento de filosofia é infelizmente (e tal como o de tantas outras matérias) muito limitado, mas sei reconhecer neste excerto matéria que nos remete, pelo menos, para questões filosóficas antigas, sobre as quais não sou capaz de dissertar. Ouso, no entanto, algumas deixas; mais uma vez o Platonismo e o Nominalismo e Realismo que na Idade Média ocuparam tantos filósofos e teólogos.

6.6.09

5.6.09

Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa!

Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa!

Esta frase que Paulo Rangel elegeu para palavra de ordem é um alívio para a alma. Estamos fartos de socialismo. Abstenho-me agora de comentar José Sócrates, a sua imagem cultivada em think tank de marketing, as suas frases inventadas em laboratório de ideias e desenhadas e arquitectadas de modo a bastarem-se por si, no discurso redondo que usa tão típico dos monólogos por ele promovidos às horas que lhe convém, não vale a pena agora explorar o que ele representa de superficialidade e frivolidade, nem alongar-me nas incessantes dúvidas sobre o seu percurso e as razoáveis dúvidas sobre o seu carácter. Deixemos isso hoje.

Basta de socialismo! Estamos fartos do peso do Estado do seu excessivo poder, do crescente endividamento da sociedade portuguesa, do constante e crescente peso do fisco sobre as pessoas e as empresas, da prepotência das medidas tomadas aleatoriamente, dos ajustes directos entre o estado e empresas que promovem as ideias que geram anúncios que nem sempre se vão realizando. Estamos fartos de projectos megalómanos que servem para dar a ilusão e a patine moderna ao país pobre em dinheiro e em espírito que somos. Parafraseando Vasco Pulido Valente hoje no Público: para um povo melancólic(o), desiludid(o) e sem esperança. Que lhe pode trazer um novo regime: uma terceira auto-estrada?

Paulo Rangel conseguiu gerar algum ímpeto e entusiasmo numa campanha eleitoral que normalmente mobiliza pouco e em que a Europa e os seus impasses foram os grandes ausentes, mas que permitiu ao eleitor aperceber-se e ver que se desenha uma alternativa ao PS e a José Sócrates. Muito mérito de Paulo Rangel certamente, mas mérito também de Manuela Ferreira Leite. A líder do PSD que não entusiasma ninguém, que fica bem criticar, e que se confronta diariamente com a má fé e com os seus maiores críticos dentro do seu partido, é a grande responsável pela escolha e pelas decisões tomadas no PSD. Por muito hábil, e comum, que seja a retórica iluminada que tente demarcar Paulo Rangel de MFL, não o conseguirão. Qualquer vitória dele será sempre uma vitória dela. Eu espero por Domingo, e espero que Domingo um passo mais na direcção do Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa! seja dado.
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4.6.09

Andy Warhol
Hammer and Sickle
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Educação Sexual na Escola

Eu sou muito crítica em relação a muito do que é a Escola hoje. E por escola entendo quer a escola pública, quer a privada, pois ambas têm que seguir as disciplinas, os programas e os horários estabelecidos pelo Ministério da Educação. Em Portugal não há, infelizmente, verdadeira liberdade no ensino. A escola privada não pode escolher os seus programas, os pais não podem escolher o que os filhos aprendem. Ninguém se queixa muito!

Não gosto nem das disciplinas, nem tão pouco da distribuição horária. Ao fim de todos estes anos ainda estou para perceber o que é que no ensino básico se aprende, ou quais as mais valias de disciplinas como Educação Cívica (bullshit de quem tem medo da palavra “moral”), Área Projecto (twice bullshit que só serve para debitar banalidades “criativas” em power-point) e Estudo Acompanhado (thrice bullshit). Continuo a perguntar-me se não era melhor usar este tempo para a Matemática, o Português, a História, o Inglês. A distribuição da carga horária parece-me peculiar, há disciplinas cujos dois blocos semanais são dados seguidos – os célebres 90 minutos - e no mesmo dia da semana, claro, o que me parece verdadeiramente antipedagógico sobretudo num país com tantos feriados. Em cada trimestre há sempre um dia da semana que sai penalizado em relação aos outros.

Não gosto de muitos dos programas que conheço: lamento que o programa de Língua Portuguesa se faça totalmente até ao 9º ano à margem dos clássicos da Literatura Portuguesa. Lamento que a gramática seja palco de sucessivas experiências que umas avançam, outras avançam para depois (e felizmente) recuarem (lembrar a TLEBS). Não gosto do Estudo do Meio do 1º Ciclo em que cedo obrigam os meninos a conhecerem o 25 de Abril e a longa noite escura do fascismo de Salazar, antes de saberem quem é D. Afonso Henriques. Não gosto do tom das Ciências Naturais e muito menos do programa de Geografia (3ª Ciclo) em que os estudantes aprendem tantas competências que mal sabem onde são os cinco continentes e principais (maiores) países, mas sabem distinguir os diferentes tipos de planta das cidades (planta irregular, concêntrica ou ortogonal, segundo creio), sabem os problemas ambientais, mas não sabem onde fica o Sri Lanka ou a Bolívia. Poderia dar mais exemplos noutras disciplinas e se mais conhecesse, mais criticava com toda a probabilidade.

Dito isto, não tenho razão para esperar vir alguma vez a concordar com o teor do programa de Educação Sexual que este governo, tão amigo dos temas fracturantes e radicais, pretende implementar. Também confesso que isso não me preocupa tanto assim. Afinal, nos dias que correm é mais fácil em casa falar de preservativos, Kama Sutra ou homossexualidade do que dar a conhecer Fernão Lopes, Júlio Dinis ou Camilo Castelo Branco.


Vejam só: fizeram o mesmo ao meu dinheiro! Se Manuel Pinho assim o determina, quem sou eu para o contradizer? Então parece que só nos resta esperar tranquilamente os dividendos que receberemos deste, e de todos os outros negócios altamente rentáveis que em nosso nome e para nosso bem o Estado fez nestes últimos tempos. Ficaremos ricos em breve.

Ah, estes bloggers dotados de bom humor matinal...
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Dando Excessivamente Sobre o Mar 47

Edouard Manet (1832-1883)
Sur la plage

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A Cidade Hoje

Quem andar de carro em Lisboa e viver o caos instalado em que hoje, por exemplo, perdi 30 minutos desde a estação do Cais do Sodré até ao início da rua do Alecrim e que se alimenta de ruas cortadas, acessos modificados, ruas que são a espinha dorsal da circulação em Lisboa cortadas, faixas de rodagem diminuídas, rotundas em obras, terá certamente pouca vontade de votar no actual presidente da Câmara nas próximas eleições locais, pelo menos enquanto este caos durar. Esta explosão simultânea de diversas obras em vários pontos importantes da circulação que literalmente inferniza a vida de quem circula, põe a nu, mais uma vez, a falta de planeamento da intervenção na cidade deixando-nos a sensação de que a “obra feita” é feita porque há um calendário eleitoral a cumprir e não porque tem de ser em função de um planeamento e um estudo faseado e coerente e, claro, e mais uma vez fica a nu a face da falta de respeito por quem paga impostos - nomeadamente os dos combustíveis, indispensáveis ao funcionamento dos automóveis e igualmente indispensáveis aos sempre sôfregos cofres do Estado.

2.6.09

Hoje, um iate

Arrepio

A tecnologia hoje permite-nos ver quase tudo e comunicar imediatamente seja onde for que estejamos. Os meios de comunicação sociais estão em todo o lado, os telemóveis filmam, fotografam, os satélites também. Há registos e imagens de guerra, concertos, crianças a trabalhar como não deveriam, Britney Spears de cabelo rapado, ciclones a devastar cidades, Sarkozy com tacões de 5cm.. Fenómenos como Susan Boyle, que teriam uma dimensão nacional, eclodem no mundo inteiro de um dia para o outro. Sabemos tudo sobre todos, vemos tudo de todos, conhecemo-nos todos. Por isso foi com um arrepio na espinha que ouvi ontem a notícia do avião da Air France que desapareceu. Simplesmente desapareceu; ele e as pessoas que levava a bordo. Sem aviso, sem deixar rasto (imediato), sem imagens. Só a angústia e uma espera fria pois não se sabe de quê. No aeroporto de chegada as pessoas aguardavam os familiares e amigos no avião que não chegava, aquele de que nada se sabia. O nada. Este vazio informativo a que já nos desabituámos, porque há sempre uma imagem, uma mensagem, um telefonema que alguém recebe, atingiu-nos com força. Nem as mensagens automáticas do equipamento colmatam este vazio, pois não têm a dimensão humana. Talvez os vestígios que hoje foram encontrados, a seu tempo e feita a prova de pertencerem ao avião em causa, ajude a dar essa dimensão humana e um sentido a esta tragédia vazia. Se é que isso importa...

31.5.09


















Hoje. Navios de guerra a abandonar o Tejo. (Clicar para aumentar)

Guerra e Paz 2

“Sim, o amor (pensava ele, de novo com toda a clareza), mas não aquele amor que ama por um qualquer mérito, com uma qualquer intenção ou por um qualquer motivo; mas aquele amor que experimentei pela primeira vez quando, moribundo, vi o meu inimigo e mesmo assim o amei. Experimentei aquele sentimento de amor que é a essência da alma e para o qual é desnecessário objecto. Ainda agora tenho em mim esse sentimento ditoso. Amar o próximo, amar o inimigo. Amar tudo é amar Deus em todas as Suas manifestações. É possível amar de amor humano um ser querido; mas apenas o amor divino torna possível amar o inimigo. Foi por isso que tiver tanta alegria quando senti que amava aquele homem. (...) Amando com amor humano pode passar-se do amor ao ódio; só o amor divino é constante. Nada, nem a morte o pode destruir. É a essência da alma. Ora quantas pessoas eu odiei na minha vida! E, entre todos não amava nem odiava ninguém mais do que a ela.”
(...)
Naquelas horas de solidão, sofrimento e delírio depois do ferimento, quanto mais pensava no princípio novo do amor eterno que se lhe revelava, mais renegava, sem se dar conta, a vida terrena. (...) e com mais perfeição eliminava a barreira terrível que, sem amor, se ergue entre a vida e a morte.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Do Amor. O amor tal como o Principe Andrei o descobre quando jaz ferido depois da batalha de Borodino, e que lhe é revelado na sua essência divina, para lá dos motivos, das pessoas, dos “afectos”, e por isso também para além da vida e da morte tornando ténue, na sua presença, a separação que se faz entre uma e outra. Ao ler Guerra e Paz é impossível não pensar em Platão e na dimensão existencial que está para lá da vida material e que encaixa tão bem na fé e misticismo que atravessam esta obra e moldam as suas personagens. O Principe Andrei, um aristocrata culto, orgulhoso, e bem formado, mas algo rígido e cínico e com uma família peculiar: um pai racionalista e uma irmã mística, é outra das personagens fascinantes do romance. Ao longo da sua vida, opções profissionais (se é que se pode dar este nome às carreiras desta aristocracia que vive dos rendimentos das imensas propriedades e dos servos que as trabalham), ferimentos de guerra, amores e desamores percebemos que se vai moldando e adaptando às descobertas que faz sobre si, sobre a sua resposta à vida que vai vivendo, sobre a evolução do seu íntimo. Aliás este é um romance voyerista, porque entra e vê dentro da alma das personagens, alma essa que é, quase só por si e pela sua essência universal, a personagem principal do romance. Nada nos é poupado dos dilemas, descobertas, contradições, fraquezas e revelações das personagens, e claro, ad descoberta da sua “alma”. Estas personagens tão ricas e densas são irresistíveis na sua humanidade e complexidade que, de repente – e pelos instantes que dura a nossa ligação com a obra - até parece que esquecemos outras personagens de outros romances cuja forma, ao olhar do alto deste cume literário e filosófico, se torna, em perspectiva, linear, plana e previsível.

29.5.09

Dias de Verão 11

Paul Gauguin (1848-1903)
Paysage de Bretagne. Le moulin David
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Do Escrutínio

Desde que nasceu que se tornou um sucesso de audiências e nunca mais deixou de se falar do Jornal Nacional 6ª. Porque persegue o Primeiro-ministro numa inaceitável caça ao Homem, porque pertence ao grupo dos que se dedicam à maledicência, ou porque Manuela Moura Guedes tem um estilo “irritante” e estridente, porque MMG é opinativa e agressiva, etc, etc. Uma coisa é certa, nenhuma televisão ou jornal faz um tão exaustivo e persistente trabalho de investigação ou mesmo de escrutínio. Só hoje soubemos – com a devida documentação que foi certamente encontrada fruto de trabalho de pesquisa da equipa do JN6 - da história do arquitecto do PS que, caso lhe fosse dado o projecto do Freeport, faria o processo avançar mais depressa; soubemos da contradição do PGR que diz uma coisa, mas que quando confrontado um pedido de cópia do ofício em que se regista o que ele afirma, já se contradiz; fomos confrontados com os pormenores, e a forma abrupta como terminou por não conseguir reunir provas, do processo disciplinar de que Lopes da Costa foi alvo no tempo de Fátima Felgueiras em que já aí houve “alegadas” pressões, e até vimos uma fotografia de um jornal local de um jantar que nem Lopes da Mota nem Fátima Felgueiras lembravam bem, em que estavam juntos e até fomos lembrados de como, apesar dos anúncios em contrário, o estado, pronto recebedor, continua a ser um péssimo pagador deixando empresas em situações muito difíceis. Percebemos pelo que ouvimos durante o Jornal nacional, e independentemente do estilo opinativo, algo impertinente e sempre provocatório da apresentadora que há por trás de cada peça e como seu suporte uma equipa séria que faz um exaustivo, e por isso incomodativo, trabalho de investigação. Este trabalho de investigação de ir aos locais, ver registos, procurar jornais velhos, ler processos, é a marca do JN6 que faz a diferença.

Não é o estilo da apresentadora que parece ser “bem” criticar, que faz a diferença, é a investigação, a procura da notícia e a persistência que tornam este jornal noticioso tão único em Portugal, onde quase nada diferencia um meio de comunicação de outro neste pântano informativo em que nos tornamos.


Preto no branco aqui. Outras grelhas semelhantes poderiam certamente ser feitas para Lopes da Mota e mesmo para Victor Constâncio.

27.5.09

Plataforma Contra a Obesidade 53

John William Hill (1812-1879)
Plums


Na SICN, Helena Roseta expôs calma e claramente alguns dos problemas deste executivo em lidar com a coisa pública – o caso em debate era a intervenção no Terreiro do Paço. Foi, creio que em seu nome e representando o movimento cidadãos por Lisboa, muito contundente e crítica em relação à atitude do executivo de José Sócrates perante a coisa pública. De forma muito articulada explicou como o executivo se comporta sempre como se fosse o dono, e não um executivo ao serviço do que é público Como ele com facilidade e naturalidade abdica, em nome do descerrar de uma lápide de inauguração, de qualquer concurso público que, mais transparente do que uma encomenda privada ou um ajuste directo, optimiza uma solução, pois permite uma escolha entre várias opções apresentadas. HR evitou a crítica directa ao projecto em causa, pois, como ela bem frisou, o problema essencial não é o projecto em si, mas a atitude do executivo que se pensando dono, se permite abdicar do concurso público, para ter a obra terminada a tempo de a poder inaugurar.

Da Maledicência

José Sócrates, de cada vez que fala da “maledicência” e a confunde com crítica, naquele seu habitual discurso em que mistura conceitos e exorciza o pessimismo e a crítica que não combatem a crise nem resolvem problema algum, prova uma vez atrás da outra que nada percebe sobre a democracia, nem sequer de um ponto de vista teórico.


26.5.09

Velas 16

Ontem. (Sagres)
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25.5.09

Guerra e Paz

Tudo o que lhe expôs Denissov era razoável e inteligente. Tudo o que lhe estava a dizer o general-inspector era ainda mais razoável e inteligente, mas era visível que Kutúzov desprezava os conhecimentos e a inteligência, e que estava na posse de alguma coisa que resolveria tudo – de qualquer outra coisa, independente dos conhecimentos e da inteligência. (...). Era evidente que Kutúsov desprezava a inteligência, os conhecimentos e até o sentimento de patriotismo que Deníssov manifestara, mas não os desprezava com a inteligência, o sentimento ou o conhecimento dele próprio (porque nem tentava manifestá-los), mas com qualquer outra coisa. Desprezava-os com a sua velhice e a sua experiência da vida. Uma decisão que Kutúsov tomou (motivada pelo relatório do general) dizia respeita às pilhagens cometidas pelas tropas russas. No final do relatório, o general-inspector apresentou a sua alteza sereníssima um papel, para que o assinasse, com vista à responsabilização dos comandantes militares por uma aveia ainda verde que os homens tinham cortado, em consequência da queixa de um proprietário.

Ouvido o caso, Kutúsov deu um estalido com os lábios e abanou a cabeça.

Para o fogão... lume com isso! E, meu caro, vou dizer-te de uma vez por todas: assuntos desses, deitá-los todos ao fogo. Que eles ceifem as sementeiras e queimem lenha à vontade. Eu não dou ordens para isso, nem o autorizo, mas também não posso puni-lo. Sem isso é impossível. Para cortar lenha, há sempre lascam que saltam. – Olhou mais uma vez para o papel. – Oh, a minúcia alemã! – disse, abanando a cabeça.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Kutúsov é, neste romance, apresentado como uma personagem fascinante e contraditória, tanto dado a algumas mundanidades e a pequenas vaidades e confortos, como senhor de uma esperteza e sabedoria profundas feitas da guerra, de negociações e da observação da natureza humana. Na sua velhice tem o hábito de se deixar adormecer nas importantes reuniões, nomeadamente quando da definição de estratégias para as batalhas, em que os mais jovens oficiais entusiasmados, cheios de energia e patriotismo e motivados por uma ambição de recompensas por mérito, tomam a palavra e mostram bons planos para acções. Kutusóv sabe que há uma força, uma inércia própria da actividade bélica que está para além de discursos inflamados e que assenta sobretudo na dinâmica própria da guerra e consequente esgotamento dessa dinâmica, da capacidade e do espírito bélico. A sua política de retirar, deixando o inimigo (os Franceses) avançar, expondo-os – a seu tempo - às suas próprias (franceses) fraquezas e limitações, foi amplamente contestada por muitas chefias militares, pois sem batalhas as medalhas de mérito e as promoções são mais difíceis de obter, sem batalhas o povo não sente que se lute pela pátria, sem batalhas não se expõe o orgulho de um povo, de um regimento. No entanto Kutúsov sabia que retirando e esperando se evitariam batalhas desnecessárias e sangrentas; Borodino foi a ilustração de uma batalha enorme em que houve grandes perdas e grande derramamento de sangue, sem claro vencedor e vencido, apesar de Kutúsov ter sentido que aí Napoleão começou o seu fim. Sabia que a seu tempo se conseguiria de forma eficaz expulsar um inimigo que inevitavelmente chegará ao esgotamento e ficará sem força. Não conseguiu contenção total, pois era difícil travar totalmente o movimento das tropas russas e de alguns grupos mais ousados que se envolveram em pequenas acções, mas o grosso do exército russo retirou evitando grandes banhos de sangue e deixando Moscovo cair nas mãos inimigas. Mas, a Rússia não era Moscovo, como Kutúsov bem sabia e Napoleão cedo percebeu e cedo retirou saindo da Rússia com um exército desfeito e desmoralizado.

Kutúsov na sua velhice e na sua sabedoria, sabia também o preço que há a pagar para se fazer e manter uma guerra. Não só um preço contabilizado em homens que se mantêm ou que se perdem, em bens destruídos e saqueados, em cidades e campos incendiados, em dinheiro, em provisões e material, mas também um preço moral. Que se as regras devem existir, nem sempre se podem cumprir. Ele sabe, por exemplo e como o excerto transcrito mostra, que sem pilhagens não há soldados, sem soldados não se faz a guerra de quem quer, de quem tem e de quem pode.


23.5.09

Velas 15

Há dois dias
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Da Natureza das "Coisas"

A ler José Pacheco Pereira no Público de hoje sobre o “falso” debate sobre a Europa, e do adormecimento perante o unanimismo.

(...) Todo este dinheiro atirado para cima de "acções de esclarecimento" nada tem de inocente. Contribui e muito para reforçar um falso debate, viciado à partida por ter um só lado. E um meio comunicacional já muito dependente de um aparente "consenso" europeu, que aliás reflecte o "consenso" político, ainda se torna mais pobre quando é manipulado por estas actividades. Na verdade, elas não são muito diferentes nos seus resultados, nas suas técnicas de "massagem do ego" (...) Não se trata de venialidade, mas de manipulação, e da moleza que vem da proximidade, do contacto, do grupismo, e, no fundo, da vaidade de se ter sido convidado e da vontade de responder à amabilidade do convidante. É um contrato invisível, mas é um contrato.

A propósito desta moleza não deixo de reparar como, de repente e bem visível no blogue Papa Myzena, os Passoscoelhistas se converteram (adaptaram, reconciliaram, querem lugares no parlamento, assessorias, nas consultorias, é mais uma questão de significado do que de significante....) ao mainstream do partido depois de todas as críticas e ataques a Manuela Ferreira Leite pelo que ela é, pelo que representa, pela forma de comunicar, pela forma de manter-se em silêncio quando nada tinha a dizer, pelas “gaffes” que tanto notaram, ridicularizaram e tanta visibilidade lhes deram, e pela escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista às europeias. Eu sei que em tempo de guerra não se limpam armas, mas há algo que é difícil ignorar: por muito que o partido seja o mesmo e o sentido do voto seja o mesmo, a natureza das coisas não o é: isto é, as pessoas não o são. Passos Coelho (tal como José Sócrates) é de diferente natureza de Manuela Ferreira Leite. Mas parece que isso agora, já não conta.

21.5.09


Parece que o Estado este ano cobrou menos dois mil milhões de euros em impostos. Uma boa razão para avançar (ou justificar) com mais uma “medida” de combate à crise que, na sua aparente bondade social, dificilmente esconde a pura demagogia e oportunismo e o delírio fiscal em que vivemos. É um sem fim de medidas "anti-crise" que se sucedem a ritmo estonteante. Que seria deste governo sem a crise? A crise foi um pretexto fabuloso para tapar a incompetência, falta de trabalho e de seriedade deste executivo. O problema é que nós ficamos anestesiados com tal abundância e criatividade legislativa face da força impulsionadora e optimista do nosso líder, e só pondo a cabeça de fora é que vemos o estado degradado do país.

20.5.09

Ontem
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Elogio do Nada

Hoje é dia de Prova de Aferição de Matemática para os 4º e 6º anos de escolaridade. As provas não contam para a nota e, tal como aconteceu com a prova de Língua Portuguesa, esta de Matemática deverá também ser fácil. As “provas” não são “exames”, conceito aterrorizador para as criancinhas, (esta dança de vocábulos no mundo do ensino é espantosa), e as criancinhas não podem ser reprovadas, pois há que combater a discriminação e exclusão, altamente traumatizantes e desmotivadoras, e fazer testes fáceis para que nunca se premeie a excelência, dedicação, esforço e trabalho, e para que possamos ser todos cada vez mais iguais, mais banais, mais medíocres.

Pergunto-me, então, para que servem realmente estas provas, e qual o mérito – sobretudo para os alunos, claro – desta política de Provas de Aferição. São meios, nomeadamente financeiros, que se mobilizam para realizar estas provas que não servem para nada. Perdão, servem fabricar e dar “credibilidade” a umas estatísticas falaciosas sobre a qualidade do ensino em Portugal. Servem para a imagem, o verdadeiro interesse e a real obsessão deste governo PS. Dar a imagem de um Portugal melhor: lavar a fachada, esfregar a soleira da entrada, pintar a porta, o que está dentro pouco interessa.
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19.5.09



A “medida” de hoje (que combate a crise e contra o bota-abaixismo) com o respectivo “momento Chavez” televisivo, que pude ver, foi o anúncio da meta de 8000 camas de Cuidados Continuados já para 2009. Oxalá.


No Reino-Unido aconteceu por muito menos. O parlamento exigiu. Houve um escândalo, suspeitas conivências e demissões. Cá assobia-se para o ar, fazem-se “alegadas” pressões que num primeiro tempo os magistrados dizem que não que não, depois já é um nim, os políticos falam em cabalas e campanhas negras, os familiares dizem-se e contradizem-se. Não há respeito pelo eleitor talvez porque o eleitor não se dê ao respeito, não exija demissões e seriedade. Não há também nem honra nem vergonha na cara. Mas sobre isso já falei neste post. Hoje, Gabriel Silva no Blasfémias mostra do que se fala, traça um retrato e compara.

17.5.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 39

Alphonse Mucha (1860-1939), Auguste Seysses (1862-1946)
Femme aux lys

Colher lírios
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Vergonha na Cara

Diz António Barreto que “O Magistrado Lopes da Mota não deve sair do EUROJUST. Não deve suspender o seu cargo. Nem pedir a demissão. Nem ser demitido. Se a representação de um Estado deve traduzir a verdade, ele é o homem certo no lugar certo (...)Ele é o genuíno e fiel símbolo da justiça portuguesa”. Tem toda a razão, mas eu tenho vergonha que assim seja. Problema meu, eu sei, mas tenho vergonha – já nem falo de ética, de moral, só de vergonha - de Lopes da Mota, de Cândida de Almeida que não sabe estar calada, do “primo do Kung-Fu”, do primo do primo, enfim... calarei a minha lenga-lenga de satélites que gravitam à volta do poder e com “respeitinho” para com o poder, para não maçar ninguém. Eles não têm vergonha mas eu tenho por eles e tenho mais por eles não a terem do que por fazerem o que fazem. A vergonha genuina aparece pouco. Muitas vezes esconde-se a vergonha com humor desprendido, com inteligentes análises, com críticas acutilantes, com inflamada indignação, com protesto, mas no fim do dia fica o embaraço e a vergonha de sermos o que somos: um país pobre, sobretudo de espírito, um povo de brandos costumes que se acomoda à mediocridade que lhe permite ir ao café dizer mal de tudo e de todos. Brandos costumes da treta que imobilizam o cérebro e o corpo, que impedem um rasgo de genuína revolta e vergonha. Enchem-se as praias ou os shoppings, abstemo-nos nas eleições porque “não vale a pena” - dito com um suspiro de quem se habitua a um fado que não merece mas suporta com estoicismo. Ah, merecemos sim; merecemos cada um dos políticos que temos, cada uma das “elites” administrativas, financeiras, judiciárias e mediáticas que temos. Que importa Lopes da Mota, Pinho, o primo do Kung-Fu, o primo do primo, a mãe do primo do primo, o tio do primo do primo, o Freeport, as “alegadas” pressões. Tudo bem, tudo normal, ninguém se demite. Outros fizeram-no por muito menos cá em Portugal e no estrangeiro, mas nestes casos deste consulado Socrático essa questão nunca se coloca. Ninguém tem vergonha na cara.

Uma pergunta que fiz aqui, encontrou resposta aqui. Fantástico! Afinal existe mesmo uma “papa maizena”, tem receita e tudo e houve quem a tivesse comido. Alguns, claramente em excesso. Coisa de deixar más recordações


Pede-me Nelson Reprezas para mencionar séries televisivas, não percebi muito bem – nem procurei perceber, confesso - com base em que critério. Mas creio que seja que critério for andará sempre à volta da nossa experiência e gosto pessoal. Embora avessa a correntes blogosféricas, gostando de poucas e quebrando-as todas, este pedido revela-se um pretexto para escrever sobre algo de que gosto, e instantaneamente – mesmo antes de eu ter tempo para pensar, accionou a minha memória porque toda a vida gostei, e gosto de séries televisivas. Lembro tempos em que a semana funcionava em função de um determinado dia de semana em que a televisão (quando televisão era algo que não tinha mais do que dois canais, e até quando era a preto e branco) dava esta ou aquela série. Agradeço o DVD (e antes o VHS) que tornaram possível comprar alguns packs de séries completas (ou temporadas) antigas e recentes, que me permitem uma saudável e total alienação da realidade durante um fim-de-semana ou uns dias seguidos. Vi muitas séries, boas e menos boas - estas últimas são sobretudo muito marcadas por uma determinada época ou “moda” - mas há algumas que lembro com saudade pois marcaram a minha infância ou adolescência e remetem para um mundo diferente e para um momento de inocência quase rousseauniano. Só essa inocência permitia que gostássemos das séries que hoje não me apetece propriamente rever, no entanto fica a nostalgia dos momentos em que fui feliz a vê-las, fica a espécie de ternura pela recordação. Todas as séries que mais à frente menciono foram vistas, até fora de Portugal, e algumas vistas e revistas. Sei que com mais tempo a minha memória se avivaria e lembraria outras tantas. Opto por umas escolhas sobretudo nostálgicas, de séries de outras décadas e de outros mundos, à excepção do Dr. House. que está presente porque é a única que hoje recria um pouco o ritual de ver uma série “em directo”: é a única que me obriga, todas as semanas à segunda-feira no canal Fox, a repetir esse ritual que já é quase de outros tempos: sentar em frente à televisão quieta e parada. Outras séries actuais vejo-as normalmente em diferido falhando alguns episódios, ou vejo posteriormente em DVD se gostei particularmente.

Get Smart (Olho Vivo), Green Acres (Viver no Campo), Bewitched (Casei com uma Feiticeira), Gabriela Cravo e Canela, Upstairs, Downstairs (A Família Bellamy), Brideshead Revisited (Reviver o Passado em Brideshead), La Piovra (O Polvo), We’ll Meet Again, A Town Like Alice, The Jewel in the Crown (A Jóia da Coroa), Hill Sreet Blues (A Balada de Hill Street), The Muppet Show (Os Marretas), Blackadder, Twin Peaks, Yes, Minister e Dr. House.
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15.5.09


Depois de uma semana arredada da actualidade – tanto quanto nos é permitido, claro, e do blogue li agora no Público online esta notícia, só com exame psicológico será possível tirar ou revalidar a carta de condução, que me tranquilizou pois me demonstrou que afinal é verdade, não é só uma suspeita minha: o país caminha impávida e serenamente para o absurdo. Repito: absurdo. Já não falo da crise económica que o governo combate com medidas contra “bota-abaixismo”, do desemprego que se resolve com formações e parcerias inventadas em mesas de reunião, da segurança que sai à rua em força no dia a seguir a distúrbios, das “alegadas pressões” aos magistrados do caso Freeport em que José Sócrates é, alegadamente, suspeito, da “delação” de quem se incomoda com pressões; já não falo da Europa que não se discute, das eleições e do financiamento dos partidos, do PSD que sobe nas sondagens, das hesitações de Alegre, dos “momentos Chavez” do Primeiro-ministro que se sucedem para as televisões a um ritmo diário iludindo-nos com “medidas”, da crescente presença mediática e com sucesso de Paulo Rangel (aquela escolha duvidosa e tão criticável – e criticada - de Manuela Ferreira Leite), do recente silêncio de Pedro Passos Coelho.

O país caminha para o absurdo porque ninguém pára para pensar, porque não se deixa que o tempo seja bom conselheiro, porque se perdeu o norte, porque não se distingue o essencial do acessório, o que é norma do que deve ser excepção, porque na ânsia de se querer ser politicamente correcto se legisla de qualquer maneira sem olhar as consequências, porque não se preza a liberdade individual e se permite que o estado nos vá, a pouco e pouco, estreitando numa camisa de forças. Um destes dias nem estrebuchar podemos. Psicólogo para tirar a carta? E para ser político e Primeiro-ministro? E para ser médico? E para ser gestor de um Banco? E para ser magistrado? E para ser professor? E para ter filhos? E para casar (homo ou hetero)? E para comprar casa?

Está tudo doido?
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Dando Excessivamente Sobre o Mar 46

Odile Redon (1840-1916)
Rocks on the Beach
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8.5.09

Diferenças

Sobre a viagem do Papa ao Médio oriente

Bento XVI não deixará de insistir num facto que o preocupa: o êxodo dos cristãos do Médio Oriente. Em quatro décadas, só em Israel e na Palestina, eles passaram de vinte para dois por cento numa população de nove milhões.
(Público, Ed. Impressa)

Este facto é uma das mais significativas imagens – e de difícil contestação - sobre a gradual radicalização das sociedades islâmicas do Médio Oriente ao longo das últimas quatro ou cinco décadas. Intolerância, violência, abuso, pressões várias têm sido e são o quotidiano das minorias cristãs (sobretudo católicas) nos países islâmicos. Em contra-partida, no ocidente, o acesso ao estado providência (sobretudo na Europa), o respeito pela diferença, a integração – com maior sucesso nos EUA – foi sendo, mesmo que por vezes de forma controversa ou pontualmente pouco sucedida, a política dos diferentes governos. Enquanto que no ocidente as mesquitas aumentam, as igrejas no Médio Oriente estão em vias de extinção.
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6.5.09

Plataforma contra a Obesidade 52

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Bacon Sandwich

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If everyone improved their lifestyle just a bit, then the benefits to the overall health of the nation would be large but each individual would not notice the difference. An inspired epidemiologist, Geoffrey Rose, called this the Prevention Paradox and we see it being played out again and again.

That is why it is understandable that attempts to create these shifts in behaviour by exhorting people to change tend to fail - and make them anxious and guilty. It explains the current call for society-wide actions such as minimum alcohol pricing, and enthusiasm for 'nudging' people towards better behaviour. When you find the muesli at the front of the breakfast counter, and the bacon sandwiches in an unmarked gloomy corner of the canteen, you know you're being nudged.

So as you reach for your yum, perhaps sometimes pause a moment and realise that you are taking a gamble on the yuk occurring, but that it may be a risk worth taking.

Uma perspectiva individualista e desapaixonada sobre os prazeres e o risco numa prosa inspiradora.

Adenda: Não é bacon sandwich, mas “tem tudo a ver” (para usar uma expressão modernaça) na ânsia de regular os costumes; neste caso “regular a cama ou o vão de escada”. Uma outra prosa inspirada, desta vez da pluma de João Gonçalves.
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