“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

12.8.09

Leitura de Verão


Mão amiga fez-me chegar, via Amazon, este simpático livro que olha para o cérebro feminino e mostra o quão diferente ele é do masculino. Nada que nós mulheres, que o somos porque temos um corpo de mulher, ao longo dos tempos não tivéssemos vindo a perceber. Mas até esta intuição, que não precisou de grandes estudos científicos, este gut feeling é explicado,

Gut feelings are not just free-floating emotional states but actual physical sensations that convey meaning to certain areas in the brain. (…). The areas of the brain that track gut feelings are larger and more sensitive in the female brain, according to brain scan studies. Therefore the relationship between a woman’s gut feelings and her intuitive hunches is grounded in biology. (Segue-se uma descrição científica sobre os circuitos e a química cerebrais que me abstenho de transcrever).

Assim, e de uma vez por todas, arrumamos com o feminismo dominante dos anos 70 que pretendia unisexizar tudo e incutir às mulheres a ideia de que elas eram iguais aos homens, incitando-as a fazerem o que os homens faziam segundo as regras por eles estabelecidas ao longo de milénios. Nunca conseguiram estabelecer a diferença entre igualdade tout court e igualdade de oportunidades e direitos. Foi pena. Perdeu-se muito tempo e a sociedade não ficou melhor por isso.

The biological reality, however, is that there is no unisex brain. The fear of discrimination based on differences runs deep, and for many years assumptions about sex differences went scientifically unexamined for fear that women wouldn’t be able to claim equality with men. But pretending that women and men are the same , while doing a disservice to both men and women, ultimately hurts women. (…) Assuming the male norm also means undervaluing the powerful, sex-specific strengths and talents of the female brain.

Estes livros científicos pensados para o grande público e convertidos em best-sellers, feito em que os norte-americanos são exímios, conseguem ser boa leitura. Porque sérios e credíveis para percebermos que não lidamos com videntes, curiosos ou gurus espirituais de uma qualquer escola de auto-ajuda, e porque permitem uma leitura apelativa. A obra é pensada para o leitor: desde a estrutura do livro aos exemplos dados, tudo se lê facilmente, com interesse e bem. Há momentos especialmente engraçados (o capítulo sobre a adolescência é uma mina deles) e o capítulo “The Mature Female Brain” é particularmente interessante. Podem-se, nestes capítulos ler coisas como:

Every brain begins as a female brain (...) it only becomes male eight weeks after conception when excess testosterone shrinks the communication centre, reduces the hearing cortex and makes the part of the brain that processes sex twice as large.

Ou

Connecting through talking activates the pleasure centers in a girl’s brain. Sharing secrets that have romantic and sexual implications activates those centers even more. We’re not talking about a small amount of pleasure. This is huge. It’s a major dopamine and oxytocin rush, which is the biggest, fattest neurological reward you can get outside an orgasm. (…) It keeps them motivated to seek these intimate connections. What they don’t know is that this is their own special girl reality. Most boys don’t share this intense desire for verbal connection. (…) Girls who expect their boyfriends to chat with them the way their girlfriends do are in for a big surprise. (…)The testicular surges of testosterone marinate the boys’ brains. Testosterone has been shown to decrease talking (…). In fact, sexual pursuit and body parts become pretty much obsessions.

Ou

A menopausal woman becomes less worried in pleasing others and now wants to please herself. This change (…) is triggered by a new biological reality based in the female brain as it makes it’s last big hormonal change of life. (…) She’s less interested in the nuances of emotions; she is less concerned about keeping the peace; and she is getting less of a dopamine rush from the things she did before, even talking with her friends.

Estes são alguns excertos, uma pequeníssima amostra deste livro interessante sério e de fácil leitura. Registo, no entanto, as sempre presentes intenções pedagógicas e a pontinha moralista tão características destas obras norte-americanas. Mais uma tentativa – entre tantas já feitas ao longo dos séculos (a psicanálise, por exemplo a que tantas mulheres recorreram sabe Deus porquê) com ou sem base sólida científica - de melhorar o relacionamento entre homens e mulheres (em saudável monogamia, claro) através do conhecimento científico e aprofundado do cérebro feminino e das suas diferenças biológicas e químicas em relação ao cérebro masculino. Este conhecimento permitiria quer à mulher quer ao homem, uma maior compreensão do cérebro feminino ao longo dos anos que deveria ser usado para melhorar os relacionamentos. Talvez assim, homens e mulheres juntos, consigam finalmente, mais depressa e melhor serem felizes para sempre. Nunca se sabe...
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6.8.09

Olhei para o Céu 2

Ontem
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Contos de Fadas e Príncipes Encantados

Existe uma grande diferença entre a maioria de futuros votantes do PSD - mesmo os que votarem sem grande entusiasmo, e e os impulsionadores e entusiastas da pessoa de Pedro Passos Coelho. Os primeiros, longe dos dramas internos do partido e da guerra das distritais, estão fartos de José Sócrates, do seu estilo, dos seus casos, das suas mentiras, das suas promessas, da sua governação e querem mais do que tudo uma alternativa política séria e minimamente credível. Manuela Ferreira Leite pode não os entusiasmar, mas acreditam que ela é, substancial e politicamente, diferente de José Sócrates. Os segundos, para além do facto de acreditarem em contos de fadas (ou em príncipes encantados, vai tudo dar ao mesmo), mantidos através de uma atenção ímpar que a comunicação social dedica ao seu “ex-candidato” a líder, revoltam-se mais com o facto de não serem a liderança do PSD ou não terem a liderança do PSD que preferem, do que o que se revoltam com a governação de José Sócrates. Este grau de descontentamento dá que pensar, pois alguns até preferem, ainda que indirectamente, deixar a porta aberta a uma nova victória de José Sócrates, a apostar mesmo que sem grande entusiasmo (mas também, entusiasmo porquê e para quê?) numa alternativa credível, que não é a ideal e que tem todas as fragilidades que todas as coisas que não são contos de fadas nem príncipes encantados têm.
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Índice de Situacionismo (*)

Afinal todas as críticas feitas aos “Índices de Situacionismo” acusando-os de serem baseados em ficcionais teorias conspirativas e/ou em pura má-fé, inveja e em mais-não-sei-quê, conhecem hoje um grande revés com o situacionismo a vir finalmente para a luz do dia e de mão dada com José Sócrates, como convém e o dito "índice" denunciava. Filipa Martins a ex-mandatária de Pedro Passos Coelho na sua candidatura a líder do PSD, que perdeu para Manuela Ferreira Leite, escreve apartir de amanhã no Blogue de Esquerda da Sábado (via). Mais elucidativo do que este gesto é difícil.

(*) Título e conceito, por demais conhecidos, daqui
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Entardecer 8

Ontem
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Quero Conversar Consigo

Com a usual dificuldade que a pouca mobilidade que ainda tem nas mãos lhe permite, escreveu na página de word sempre aberta e que vai sendo apagada à medida que precisa de escrever mais, “quero conversar consigo”. Virou as costas e foi para a varanda cheia de sol, talvez para não ver a perplexidade que eventualmente se estampasse na minha cara. Segui-o e perguntei se tinha alguma coisa especial que me quisesse dizer ou sobre a qual quisesse falar. Fez que não com a cabeça e olhou em frente com um ar determinado, à espera que eu “conversasse”. Balbuciei umas banalidades sobre o Tejo que se conseguia ver por cima dos telhados das casas do bairro, ele assentiu, mas sem olhar para mim. Depois demorei-me um pouco mais a comentar a casa da frente grande e com jardim que parece albergar várias famílias. Com um gesto do queixo fez-me ver quatro garagens cujas entradas ficavam em frente à sua casa e percebi que eram quatro as famílias. Então lembrei-me de lhe perguntar há quanto tempo vivia naquela casa. Ainda não tinha terminado a frase e já ele, com o passo rápido entrava novamente na sala para escrever, devagar, no computador “8 anos”. Assim começou a nossa conversa ao ritmo desajeitado, mas voluntarioso, com que, entre assentimentos de cabeça e outras perguntas minhas, ia escrevendo uma frase após a outra.
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5.8.09


Eu sei que estamos no fim da legislatura e que nada está garantido para o PS e para José Sócrates para a próxima; mas mesmo assim, José Sócrates deve estar contente. Foi in extremis, mas o que ele tanto queria foi conseguido. Nada será como dantes. Está de parabéns.


Vladimir Putin não faz as coisas por menos. Fotos e vídeo para divulgação. Pensado ao pormenor. Indiana Jones em versão russa. De quoi faire revêr...
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4.8.09

Olhei para o Céu

Ontem

Um Admirável Mundo Novo 2

Querer impor uma total igualdade entre candidatos, que só existe na ficção e que a democracia não reconhece, querer impor um limite à liberdade de opinião, que a democracia não tem, parece ser o caminho traçado por esta entidade reguladoras tão cara ao governo socialista de José Sócrates, que lhe tem dado um relevo e um poder ímpar. Regular, controlar, formatar e conter a comunicação social e o fluxo de notícias e comentários que a alimenta. Igualar com quotas de opinião os partidos ou movimentos, independentemente da expressão representativa de cada um. De facto faltava, um passo só, entretanto dado, para que a ERC interferisse no comentário político desvirtuando o carácter pessoal, individual e único de cada comentador que se converte num mero símbolo ou código acéfalo de um colectivo político e às vezes ideológico, como se fossem meras partes de um todo. Não sei o que será mais interessante e mais saudável para uma democracia: se o comentário de alguém cujos interesses e filiações partidárias são sobejamente conhecidos, e sobejamente reconhecidos nos seus próprios comentários; se a opinião aparente e superficialmente independente de profissionais do comentário que também eles se intitulam de independente, jornalistas, politólogos e outros teóricos da política e da comunicação. Como se essa independência existisse, ou como se fosse mais meritória do que a não-independência. Numa democracia tem de haver lugar para todos.

Neste novo modelo preconizado pela ERC os comentadores deixam de ser vistos como seres humanos únicos, com as suas idiossincrasias, contradições, fobias, indignações, lutas, ódios ou paixões, com a sua retórica própria, o seu humor ou falta dele, e passam a ser vistas meramente como um estereotipo representativo de um partido, de uma organização ou movimento preenchendo uma quota correspondente à organização em causa. As pessoas passam a ser fungíveis, de valor igual: José Pacheco Pereira será igual a Marcelo Rebelo de Sousa; António Costa igual a João Soares, e Lobo Xavier igual a Maria José Nogueira Pinto, para não dar exemplos mais caricatos que facilmente se encontrariam. Esbate-se assim a primazia do indivíduo sobre o colectivo, noção tão cara ao socialismo. Estamos perante o “Admirável Mundo Novo” do comentário político onde – pretensamente - a isenção existe em quem não se “filia” em partido nenhum, ou em quem não se candidata a nada (como se isso fosse possível) nem representa nenhum interesse (seja lá o que isso for, se é que alguma vez o pode ser), a não ser que preencha a respectiva “quota”. De resto sobra a linguagem do “politoliguês”. Que forma tão básica e tão perigosa de ver o mundo.
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3.8.09

São Rosas, Senhor... 5

Bertha Trabich (1879-1941)
Flower Arrangement

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Um Admirável Mundo Novo

Estes são os tempos dos politólogos. Nos últimos anos reproduzem-se com um dinamismo peculiar e a pouco e pouco vão tomando conta de comentário político nas televisões, e outros meios de comunicação. Fazem-nos crer representar um assepticismo pretensamente livre de bactérias partidárias, de vírus corporativos, e não contaminados pelo regime que, no entanto, lhes assenta como uma luva e lhes dá sustento. Falam de alto de uma qualquer cátedra da nossa academia, e comportam-se como se estivessem ”de fora” desse mundo conspurcado que analisam e comentam, assim como quem analisa os comportamentos das abelhas, não fosse aquela luz de cepticismo de quem “já percebeu tudo” e de quem já percebeu “como tudo vai acabar”. Falam de uma realidade que tentam afastar de si, como se nada dentro dessa realidade os movesse ou interessasse, como se nós acreditássemos, e como se isso fosse possível neste pequeno jardim que é Portugal onde todos os interesses se cruzam interligam e traficam. Usam uma linguagem pretensamente académica e normalmente são desprovidos de interesse, de alma e de paixão. Ouvi-los é, para mim, um tédio absoluto e uma irritação.

Parece que este é o caminho que a plastificação da sociedade, que organismos diferentes como a ASEA, ou a ERC, tentam implementar (numa directiva polémica), onde se inclui também a plastificação do comentário político. Na carta que Estrela Serrano escreveu para o Abrupto, ela dá-nos uma antevisão desse mundo de plástico regido por quotas e igualdades impostas artificialmente. Toda a carta é merecedora de atenção e comentário, mas detenho-me numa frase que é exemplar, pois ilustra uma “forma de estar“ que vive da administração, da legislação e da regulação impondo formas pouco naturais (contra-natura), para uma democracia e em sociedades que prezam o indivíduo e a liberdade individual, tal a artificial igualdade e controle que preconizam. Diz Estrela Serrano, nessa frase que

1- a liberdade editorial e os critérios jornalísticos não são absolutos e

2- que em período eleitoral os critérios jornalísticos não podem sobrepor-se ao princípio da igualdade de oportunidades e da não discriminação entre candidatos. A propósito desta segunda parte da frase , mais à frente ela refere-se a candidatos de primeira e candidatos de segunda (acusando JPP de os discriminar uns dos outros).

Em democracia a liberdade de opinião ou é absoluta ou não é. A liberdade editorial ou é absoluta ou não é. Ponto final e parágrafo.

Os candidatos de primeira e os candidatos de segunda não são definidos por JPP, (que parece estar mais do que nunca no auge da sua influência a julgar pela capacidade de irritação que provoca em tantos sectores), por muito que isso lhe custe a ele ou a quem quer que seja que lhe queira imputar essa responsabilidade. O voto popular, traduzido em mandatos, é que determina quem são os candidatos de primeira e os candidatos de segunda. José Sócrates, candidato a Primeiro-ministro e Manuela Ferreira Leite, candidata a Primeira-ministra são simplesmente diferentes de candidatos como Carmelinda Pereira ou como Rui Marques. por muita que seja a simpatia que possamos nutrir quer pelas pessoas quer pelas causas que representam.
(Continua)
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27.7.09

Velas 18

Ontem
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Da Modernização do País

Ao entregar o computador 1 milhão no âmbito das Novas Oportunidades (*) o Primeiro-ministro disse tratar-se de “um passo significativo na modernização do país” (cito de cor, ouvido na TV) e explicou ser Portugal o único país do mundo onde um aluno, ao entrar para o primeiro ciclo, tem à sua disposição um computador. Não sei porquê, mas este chavão do “passo significativo na modernização do país” fez-me lembrar um outro chavão: o do “avanço civilizacional” que nos fez avançar 20 anos quando se legalizou o aborto até às dez semanas. Ao fim de um dia, cansados, olhamos para o país e vemos que se vai fazendo assim, de chavão em chavão. Que vai avançando e modernizando assim, com o estado a distribuir computadores e a legalizar o aborto até às dez semanas. Fazem-nos crer que são estes os pólos motores e os símbolos do “avanço” e da “modernização” do país. Mas no fim do dia, cansados, já nem queremos discutir ou contrariar; já só pedimos um pouco de respeito pela nossa inteligência.

Nota. (*) A questão contabilística de como se chegou ao número 1 milhão não foi devidamente esclarecida na peça jornalístico-propagandística. Isso costuma importar pouco a uma política de anúncio e chavões, mas eu gostaria de saber como se chegou a esse número. Estará englobado todo o “choque tecnológico”, sem o qual “tantos portugueses teriam de esperar dez anos para terem estes computadores” (cito de cor o Primeiro-ministro hoje à noite num jornal televisivo), isto é, o Magalhães, o “e-escolas” e o programa Novas Oportunidades? Ou pretenderam passar a comemoração dessa efeméride como um exclusivo das NO? Rigor e propaganda dão-se mal.
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25.7.09

A Espuma dos dias que Foram 23

23.7.09

Portugal dos Pequeninos, Uma Leitura (3)

“Há já uns tempos que o senhor engenheiro não nos fornecia, em nome da modernidade que vagueia na sua soturna cabeça, uma sigla (...) Por isso, chega hoje, certamente em Power Point, o Plano de Acção do Ano Europeu de Oportunidades para Todos (o PNAAEAEOT). O título – pura poesia concreta - mais parece coisa da sinistra 1ª República, ou mesmo da FNAT do ominoso Salazar, do que de modernaços como Sócrates e seus epígonos amestrados.(...)” (1)

Parágrafos como este têm o cunho João Gonçalves que tem o condão de verbalizar o seu desencanto e cepticismo de uma forma muito particular. Usa extensivamente e abusa graças a deus, dos vocábulos que a língua portuguesa lhe oferece, o que lhe permite dar textura e colorir à media os retratos que vai fazendo ao longo do seu livro. Utiliza, desde o calão de bas-fonds às palavras mais densas e sofisticadas, passando pelas banalidades massificadas, com a mesma simplicidade e à vontade para sustentar e servir o seu tom de puros e duros sarcasmos e ironias. (2) Muitas vezes espanta-nos pela sua peculiar capacidade de esgotar uma palavra levando o seu significado ao extremo, ao absurdo, ou simplesmente remetendo e brincando com outros significados, subvertendo a intenção ou decisão iniciais e desarmando a ideia que critica ou contesta. Este jogo quase surrealista tantas vezes surpreende e provoca mesmo o riso. (3)

A falta de “respeitinho“ de JG está também patente na desmistificação das palavras e dos conceitos retirando-lhes a “mística” e o “enevoado”, patines habituais na linguagem do poder e na “langue de bois” (governamental, política, judicial, mediática...) concretizando, e fazendo descer à terra - e tantas vezes ao chinelo - o mais sofisticado dos conceitos, a mais brilhante “ideia”, ou a mais fina imagem.(4) Tédio é uma palavra que não se pode usar para falar do livro Portugal dos Pequeninos.

Notas
(1) Pág 193 “O PNAAEOT”
(2) Pág. 226 “o Puzzle do Dr. Costa”, pág. 128 “O “Mar da Língua?”
(3) Pág. 139 “Novos Monstros”, pág 232 “O Huis clos Socrático”
(4) Pág 167 “Que Deus lhes Perdoe”, pág. 218 “Inala sem Engolir”

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Dias de Verão 13

Julian Alden Weir (1852–1919)
Idle Hours

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20.7.09

A ler hoje no Cachimbo de Magritte, sobre o PSD, este post e este post. A estas reflexões acrescentaria uma dúvida minha: qual a diferença do valor - em votos no PSD - entre um PSD com Passos Coelho nas listas para deputado, ou um PSD sem ele. O caso de Manuel Alegre, é diferente porque poderá ter um significado real em termos votos pois, como já sabemos, teve nas presidenciais uma votação expressiva, apesar de ir contra a indicação do aparelho do PS. Passos Coelho nunca foi a votos fora da esfera partidária.
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19.7.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 40


Matar Tritões
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Portugal dos Pequeninos, uma Leitura 2

A leitura do livro Portugal dos Pequeninos dá-nos uma história dos anos da governação de José Sócrates e do seu (de José Sócrates) PS. Ao longo das páginas desfila uma cronologia dos actos governativos em forma de intenção de reformas, legislação, anúncios, nomeações, declarações, influências, gaffes, insucessos, mentiras, casos judiciais em investigação etc. Aviva-se a memória que é coisa sempre salutar, sobretudo em época de balanço e de aferição do que conseguiu um governo com maioria absoluta e condições excepcionais de governabilidade (para usar uma palavra tão na moda) apesar do revés da crise financeira internacional. Esse olhar para trás talvez ajude, ou simplesmente reforce, alguma decisão, de quem lê, para os próximos actos eleitorais. Neste sentido o livro Portugal dos Pequeninos em boa hora se fez e se pôs à venda.

João Gonçalves é senhor de um olhar muito próprio, impiedoso e cortante, e de um apurado sentido crítico que o impede de ceder a qualquer tipo de complacência ou, usando as suas palavras “respeitinho”, seja por pessoas ou por instituições (1). Desmonta impiedosa e lucidamente as intenções e os mecanismos decisórios (2), denuncia os falsos ídolos (3) e denuncia pressões políticas de vários tipos a vários organismos ou instituições (4). O retrato traçado ao longo das páginas do livro destes últimos anos é um retrato desencantado de um país errático que não se encontra nem se sabe. JG não esconde o seu desencanto pelo regime que sustenta a nossa democracia, parece que o considera esgotado, ou pelo menos exausto (5) e esse desencanto e desalento muitas vezes surgem como premonitórios pois é apartir do presente que JG projecta no futuro (6) um insucesso, uma derrota ou ainda mais um impasse, que infelizmente se confirmaram.

Todas estas críticas políticas assentam numa visão também ela desencantada do mundo actual e JG é especialmente perspicaz nos retratos “psico-sociais” - uso o plural pois JG sabe distinguir os diferentes tipos que fazem a aparentemente colorida e heterogénea sociedade (no fundo tão igual) - com os seus tiques comportamentais e as suas modas, bem como na crítica de costumes (7). No entanto, o que dá substância - matéria e alma – ao seu olhar crítico e desencantado sobre o nosso país pequenino e sobre a sociedade actual é a fé e a defesa aguerrida dos valores que considera básicos na civilização ocidental: o primado do Homem, a liberdade e a defesa da vida. São estes os pilares em que assenta o seu olhar e que impede os seus textos de se tornem estéreis, frios e (des)almados como se fossem meros exercícios de deprimida retórica política e social. JG acredita na liberdade que se conquista com o saber e com o pensar, e os seus textos são sempre estímulos e provocações, nem sempre simpáticas, nem sempre de agradável leitura, nem sempre óbvias a que se aprenda e se pense, quanto mais não seja para dele discordar.

Notas:
(1) pág.126 “Emporio”, pág. 135 “Querido Líder”, ...
(2) pág. 148 “Os ‘Testes de Credibilidade’”, ...
(3) pág. 200 “Wotan/Sócrates”, pág. 225 “o Ministro TOYS R US”, pág. 286 “O Mundo Segundo Sócrates”, pág. 265 “AGITROP”, pág. 400 “Soares e os Males da Existência”, ...
(4) Pág. 243 “A Senhora Diectora”, pág. 218 “Inala sem Engolir”, ...
(5) Pág. 290 “Pensar Nisto”, ...
(6) Pág. 125 “O Homem Médio”, pág. 143 “Sócrates e o Lugar-Comum”, ...
(7) Pág. 231 “Os Novos Monstros”, pág. 236 “Sampaio, o Outro”
, ...
(Continua)
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São Rosas, Senhor... 4

Jan Brueghel
Großer Blumenstrauß in einem Holzgefäß
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17.7.09

Portugal dos Pequeninos, Uma Leitura


Apesar de leitora fiel do blogue Portugal dos Pequeninos de João Gonçalves, quase desde o seu início, decidi ler o livro do blogue. O contacto físico com o livro parece que estabelece um contracto mais tangível e relacional entre ele, ou melhor, entre o que lá está escrito, e o leitor. O livro é sempre um blogue editado onde se procura maximizar um estilo, uma lógica, uma coerência. Esse contracto é coisa muito mais ligeira e volátil na leitura, mesmo regular de um blogue: porque se lê aos pedaços, no meio dos pedaços que se lêem dos outros blogues, hoje uns, amanhã outros, uns dias sem ler para depois recomeçar e assim sucessivamente. É verdade que, com o tempo, se vai percebendo um estilo, um fio condutor, mas no livro essa lógica individual revela-se com mais clareza e mais facilidade. Por isso foi com prazer, algumas gargalhadas, umas indignações, meia dúzia de repulsas, bastantes concordâncias – algumas delas, confesso, que a contra-gosto -, e sorrisos cúmplices que li o livro Portugal dos Pequeninos. JG, estabelece, na sua “maldade”, uma cumplicidade e um trato com qualquer leitor que não se consiga impedir de concordar com ele e por isso participar da sua “maldade”. Essa cumplicidade torna-se mais fácil porque JG nunca é ligeiro, leviano ou superficial. Pelo contrário, é um fino observador, culto e de boas leituras apesar de não as exibir, nem delas precisar para “embelezar” os posts que escreve. O seu gosto pela cultura, leitura e música (como se vê no blogue) está a montante dos posts concretos, da coisa escrita; molda a pessoa, mais do que faz o post. Sente-se e percebe-se sobretudo quando não se vê. Privilégio de poucos.
(Continua)
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16.7.09

A Espuma dos Dias que Foram 22

Com tantos jovens portugueses impedidos de estudar medicina, e com tantos outros, com meios financeiros, forçados a estudar medicina noutros países, porque cá não tiveram notas suficientemente elevadas para entrar nas diferentes faculdades de medicina, este absurdo, serve quem exactamente? E a política de acesso às faculdades de medicina vai-se manter? Para servir quem? Ninguém percebe que isto é mau demais e que já chega? Eu sei que este post é pouco original, mas notícias deste género, apesar de se repetirem com regularidade, ainda mantêm intacto o poder de me revoltar.
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No Bolso de António Costa

O que ao longo dos tempos perdoava qualquer tontice em Helena Roseta era o facto de, para além da inteligência, HR ser irreverente, de se pensar e se crer única e por isso pouco propícia a ser apropriada e devidamente triturada e homogeneizada por máquinas partidárias, ideológicas ou outros interesses mais ou menos instalados, reconhecidos e venerados. O seu movimento “Cidadãos por Lisboa” que começou como um movimento cívico razoavelmente afastado do mainstream partidário veio, a troco de uma quota de lugares na Assembleia Municipal, domesticar-se. Mesmo depois de ouvir as "juras" de HR na SICN ontem, não exite maneira de acreditar que autonomia que HR faz questão de apregoar, dure muito coligada com o PS. Pode ser que me engane, mas os factos e a história provam que o poder tem poderes que o não-poder não tem.

Duvido também que estas coligações em forma de coligatório representem uma soma aritmética de votos. Para todos os efeitos é o PS e António Costa que contam, e muitos dos simpatizantes “Cidadãos por Lisboa” não votarão nem em AC, nem tão pouco no PS. As dúvidas que teria entre votar no movimento de HR ou em Pedro Santana Lopes, esfumaram-se num ápice. Mal por mal, prefiro o já conhecido e multi-resistente “pathos” de PSL, a uma HR que se funde e domestica no bolso de António Costa e se perde no PS.
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Ike

Toda a informação sobre o porta-aviões norte-americano USS Dwight D. Eisenhower, vindo do Afeganistão e estacionado no porto de Lisboa, (ver fotografia abaixo) pode ser lida aqui.
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14.7.09

Hoje, um porta-aviões cheio de aviões.
Vale a pena clicar para aumentar.
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Do Rigor 2

As notas do exame de Português do 9º ano foram más, não porque o exame fosse difícil, que não foi, mas porque os critérios de avaliação são uma aberração e as indicações e contra-indicações de ME sobre eles parecem saídos de uma sitcom. Pretende-se avaliar o Português como quem avalia a Matemática, mas sem o seu rigor e o seu inequívoco "errado". É totalmente desencorajada a leitura pessoal dos textos, a criatividade perante um objecto (num exame com três textos, só dois eram literários e só um um clássico da língua) bem como a interpretação individual (a “recriação” do objecto) que não siga os rigorosos e (pseudo) objectivos critérios estabelecidos para as respostas. Foi por isso que os bons alunos não brilharam, os maus se safaram e todos ficaram num caldo de notas medianas muito igualitário. Mas ninguém se importa muito: como estes exames só contam 30% para a nota final, raros são os casos em que os resultados realmente fazem diferença. As férias estão à porta e é preciso virar a página inscrevendo os alunos no secundário, quem quer por isso e nesta altura chatear-se com uma nota que “vale” pouco? No fundo, no fundo, no ensino básico é tudo a feijões.

O ensino em Portugal tem sido ao longo do tempo uma verdadeira comédia de costumes. Estes últimos anos esmeraram-se. Pena que os estudantes sejam cobaias de experimentalismos, estatísticas, buscas de consensos culturais e mediáticos, critérios medianos e de finca-pés políticos. Parece que nunca se consegue estabelecer uma rotina em que se conhece a política educacional, em que é previsível o estilo, o rigor e o bom-senso.

(Quem gostar da língua Portuguesa, quem achar, como eu, que o ensino da nossa língua é vilipendiado nos programas escolares, e sobretudo quem quiser “perder” algum tempo pode verificar o exame e os ditos critérios de avaliação aqui).
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12.7.09

Espuma dos Dias que Foram 21

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11.7.09

Fugir para Marte

Não sou um homem de partido - no que sou acompanhado por 95% dos portugueses! - e quero é que eles (partidos) se danem pelo que nos têm tramado. Pode publicar isto...

Assim diz Manuel Villaverde Cabral ontem em entrevista ao i. Também me sinto assim: pertenço aos 95% que nunca militou, nem tão pouco se filiou num partido político e que se sente constantemente refém de máquinas partidárias que não entende – nem gosta do que vê. No entanto isso não tira nenhum tipo de legitimidade de olhar para a “coisa pública” e para a política, pensando, decidindo, pesando argumentos, analisando comportamentos, detectando padrões, nem tão pouco se está inapto a comentar, emitir juízos e claro, exercer o poder formal que se tem sobre a decisão de quem nos governa, votando.

MVC na sua entrevista detem-se sobre o impasse em que o país vive alternando governos entre o PS e o PSD e vai mais longe considerando que o outro lado da nossa ingovernabilidade são a corrupção e a incompetência sistémicas dos dois partidos - até por causa do rotativismo que lhes permite passarem as culpas um para o outro.

Se ainda nutríssemos algumas ilusões quanto à matéria de que são feitos os principais partidos e o tipo de curriculum de tantos dos nossos políticos e detentores de poder (autárquico, governamental, em comissões, etc), José Pacheco Pereira que, ao contrário de MVC, está nos 5% da população que milita num partido e é por isso conhecedor das chamadas “máquinas partidárias”, acabaria com elas num ápice; o tempo de ler o seu artigo de hoje no Público (Edição Impressa, sem link) que nos chega como um balde de água fria. Nada que não suspeitássemos, nada que não se insinuássemos em “casos” que, com um ritmo constante, chegam ao conhecimento público ou aos tribunais, nada que não víssemos nas investigações feitas e publicadas ou ouvidas nesta notícia, naquela referência, naqueloutro recado. Nada que não desabafássemos em conversas mais ou menos informais, nada que não escrevêssemos em posts. Mas dito assim, preto no branco, por quem conhece tem um impacto e um efeito maior, como se a escala com que se olha o mapa mudasse e víssemos muito mais. O artigo é impiedoso recriando histórias de um nascer, fazer e crescer de influência (e nem se falou muito da influência com a comunicação social) desses políticos, cujo prototipo de biografia é esquematizada de forma crua, uma espécie de condenação à morte da inocência com que se poderia ainda tentar olhar para a vida dentro de um partido.

Uma coisa é certa: o sentimento de emparedamento é grande, e a falta de uma luz verde com o sinal “saída” deixa-nos “assim”, no meio de coisa nenhuma porque nem a seriedade e a dedicação de alguns parece chegar para fazer essa luz. Só apetece mesmo é fugir para Marte.
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10.7.09

A Espuma dos Dias que Foram 20

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9.7.09


Parece que o Zé "faz falta" a ele próprio. Nada que não estivesse já há muito escrito nas estrelas.

Os ganhos na auto-estima dos participantes é um dos efeitos que mais compensou e que, a médio prazo, poderá revolucionar o tecido empresarial. Finalmente, a auto-estima elevada a objectivo político com garantidos efeitos revolucionários a médio prazo.

Se não "rasga", nomeadamente uma grande parte das supostas "medidas sociais" feitas à pressa para cumprir calendário de anúncios eleitorais, eu lamento.
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6.7.09

A Espuma dos Dias que Foram 19

A Barca do Inferno

Creio que o ambiente político e mediático de hoje em Portugal tem inspiração suficiente para que um moderno Gil Vicente pudesse fazer um remake do Auto das Barcas. Não faltam exemplos de candidatos a uma nova Barca do Inferno (a barca dos “maus” que vão para o Inferno, para quem não se lembre). Nesta época pré-eleitoral em que o poder balança e é incerto, e as tentativas de ancoragem a ele por demais óbvias, há suficientes estereo(tipos) que ilustram algumas das “classes” de pessoas que representam as diferentes tendências e interesses que procuram de uma forma ou de outra agarrar um pedaço desse poder. Normalmente detestam a liberdade dos outros de (bem ou mal, mas abertamente) olharem e perceberem aquilo que de facto representam e os move.

José Pacheco Pereira, que por acaso tem um programa novo no horário nobre de Domingo à noite na SICN, fez o favor (e deu-se ao trabalho) de simplificar a tarefa de escolha de insultos e vocabulário vernáculo ao publicar uma interessante compilação de insultos dos tempos modernos que lhe são dirigidos, e que podem bem ser usados pelo diabo. Só podem ser saudades de Gil Vicente.
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5.7.09

Entardecer 7

Hoje
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A Problemática do "nós"

Não percebo nada de marketing político nem tão pouco de como se faz uma campanha política, mas Deus deu-me dois olhos, dois ouvidos e tento fazer um tão bom uso deles quanto possível. Como gosto de símbolos, simbologias, semióticas, e afins dificilmente consigo ser indiferente a mensagens que queiram transmitir, sobretudo quando têm alguma importância na minha escala de valores. Ao confrontar-me com este “outdoor” do PS para as legislativas fico perplexa. Parece-me que se concertaram para encontrar as opções erradas, ou que continuam longe da realidade que os rodeia. Ou ignorância ou soberba; ambas más.


Primeiro o slogan: “Nós conseguimos!” É por demais óbvia a ligação ao slogan “Yes, we can!” de um Obama estreante e entusiasta com um “estilo novo” e que se propunha iniciar um primeiro mandato com presidente. Outra coisa é José Sócrates, desgastado com quatro anos de uma governação polémica e difícil centrada muito mais no pronome pessoal “eu” do que no “nós”. O PS nestes quatro anos viu-se reduzido a Sócrates, o governo é Sócrates, a imagem do desgaste é Sócrates. Os portugueses, ou pelo menos um número muito considerável, está simplesmente cansado e farto de Sócrates; do curso de Sócrates, dos projectos de engenharia de Sócrates, da casa da mãe de Sócrates, da ligação de Sócrates ao Freeport, dos “momentos-Chavez” de Sócrates, dos anúncios de Sócrates, das mentiras de Sócrates, das contradições de Sócrates. Sócrates, animal feroz, depois coelhinho manso, Sócrates teimoso, decidido, arrogante e determinado foi sempre o marco desta legislatura que está a acabar. Os seus ministros, com duas ou três excepções, viveram à sombra do líder, ao ritmo do líder, de acordo com o líder, mesmo quando os víamos serem desmentidos ou desautorizados. Nunca se percebeu que a governação fosse colegial, fosse um trabalho de “nós”. Os eleitores (pelo menos aqueles a que me referi) também sentiram Sócrates sempre distante da realidade e do quotidiano das gentes e do país: ao hostilizar as diferentes classes profissionais, ao ignorar a crise e suas severas consequências sociais, ao minimizar o descontentamento, ao controlar a informação. A derrota nas eleições para o parlamento europeu foram uma chamada para a realidade da qual Sócrates cada vez mais se alheara. Esse “nós” do slogan nos outdoors soa a falso, a quem quer atirar areia para os olhos - não toca nem implica o eleitor.

Em segundo lugar a fotografia: é uma contradição do slogan, mas mais fiel à realidade no que diz respeito ao “estilo Sócrates”, que é, ele também, centrado na sua pessoa. José Sócrates destaca-se num primeiro plano sobressaindo nítido, a cores e muito clean no meio de um “nós”algo esbatido pelo tom monocromático com que se compõe a fotografia para se insinuar os tons da bandeira portuguesa (com Sócrates no meio). Este “nós” não é “povo”, não são os portugueses reais do dia a dia, são também eles parte de um arranjo, muito clean, muito direitinho, muito sorridente e embevecido, muito casting, muito artificial, muito programado para admirar o grande líder. É essa a visão do “nós” – bem distante da realidade – dada pela campanha eleitoral do PS; mais uma vez o alheamento da realidade é notório. Aquele “nós” é artificial. Com José Sócrates não há nós, há um produto de casting, pré-programado e pronto a ver e aplaudir o grande líder. Só não vê quem não quer. Tudo se mantém igual ao que foi, tudo será como até agora foi: longe da realidade, longe da verdade.
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3.7.09

Espuma dos Dias que Foram 18


Saí de Portugal com a crise/eleições do Benfica a dominar paredes meias com o estado político já eleitoral, a agenda mediática. Uma das coisas aborrecidas do futebol é que nunca temos férias do dito, pois mesmo quando não há jogos há transferências, contratações, férias de futebolistas e crises clubísticas, nomeadamente a do Benfica. Nos primeiros minutos em que passeei em Praga deparei-me com esta variante de matrioskas que me custa entender, mas que parecem vender bem tanta a abundância das ditas por tudo quanto é loja de souvenir. Eu não consigo perceber quem é quer destas matrioskas feitas futebolistas com as camisolas dos clubes? Enfim, nem em Praga tenho férias do futebol, nomeadamente do Benfica. Chegada cá que é que domina a agenda mediática? Claro, as eleições do Benfica.

(Eu sei que esta afirmação é retórica. O debate do Estado da Nação e a demissão de Manuel Pinho estão, como é óbvio, também na agenda mediática).
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Agradeço ao Miguel Vaz o simpático destaque.
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1.7.09

Espuma dos Dias que Foram 17

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Rasgar e Romper

Manuel Pinho com seu coreografado gesto na entrevista na SICN e mostrado no Jornal da Noite, de, levando à letra as palavras de Manuela Ferreira Leite, rasgar a folha de papel com uma grelha onde a amarelo estavam amplamente destacadas as medidas de combate à crise do seu governo, não fez mais do que reforçar a nossa vontade de ver isso mesmo: um enorme rasgão a essas medidas pensadas em cima do joelho e sem nexo nem coerência que foram sobretudo feitas com intuitos eleitoralistas. Anunciadas a um ritmo constante e perseverante, até hoje muitas delas não foram sequer implementadas (provavelmente será caso para dizer “ainda bem”) outras mereciam alguma análise que verificasse o seu real âmbito de influência e a sua eficácia no tão desejado combate à crise.

Creio que Manuel Pinho queria com esse seu gesto dramatizar a intenção de MFL e encher-nos de temor perante a desgraça que pode acontecer ao país se o PSD ganhar eleições. Essa táctica foi amplamente usada pelo PS (nomeadamente por Santos Silva) no período eleitoral que antecedeu a eleição presidencial, não foi uma estratégia ganhadora! Na minha opinião MP conseguiu o contrário: a visualização da volatilização desses “medidas”, “linhas de crédito” e “incentivos” vários e dispersos só aguça o apetite quer dos descontentes do PS quer de quem votará no PSD para que se acabe com tudo rasgando e rompendo e se recomece de novo. Nomeadamente na Educação.

Hoje
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24.6.09

Uma semana.
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Aprendendo com Tolstói (*)

O que é a vida, o que é a morte? Que força governa tudo? (...) E não tinha resposta para nenhuma destas perguntas, excepto uma, ilógica, que, na verdade, não respondia a estas questões. A resposta era. “ Morremos e acaba tudo. Morremos e ficamos a saber tudo, ou deixamos de perguntar”. Mas também morrer era assustador.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(Título roubado daqui)

Amanhecer 15

Hoje
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Agradeço ao Tiago Moreira Ramalho do Corta-Fitas e de O Afilhado a simpática referência.
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23.6.09

Aprendendo com Tolstói 2 (*)

A mente humana não tem acesso à totalidade das causas dos fenómenos. A alma humana, porém, foi provida da necessidade de procurar as causas. Assim, a mente humana, incapaz de penetrar na imensidade e na complexidade das condições que geram os fenómenos, cada uma das quais em separado pode afigurar-se-lhe a causa, agarra-se à primeira e à mais próxima, à mais compreensível e diz: eis a causa.

(*) Título roubado aqui.
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Plataforma Contra a Obesidade 54

Paul Cezanne
Still Life with Cup, Jar and Apples
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Aprendendo com Tolstói (*)

É este o destino não dos homens grandes, não do grand homme que o espírito russo não reconhece, mas dos homens raros e solitários que, ao perceberem os desígnios da Providência, submetem-lhe a própria vontade. O ódio e o desprezo da multidão castigam essas pessoas pela compreensão das leis superiores.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(*) título roubado aqui.
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21.6.09

Velas 17

Hoje

Guerra e Paz 5

Aquela ferida na alma da mãe não podia sarar. (...) Mas a ferida que tirou meia vida à mãe, foi para Natasha a nova ferida que a incitou a viver. Uma ferida da alma causada pelo rasgão do corpo espiritual, tal como uma ferida física, apenas sara e cicatriza, por mais estranho que pareça, com a força da vida que irrompe de dentro.

Desta forma sarou a ferida de Natasha. Pensava que a vida tinha acabado, mas, de repente, o amor pela mãe mostrou-lhe que a essência da sua vida – o amor – ainda estava viva. Voltou a despertar o amor, despertou a vida. Os últimos dias (...) tinham ligado Natasha à princesa Mária. A nova desgraça aproximou-as ainda mais.

(...)

Falavam sobretudo dos seus passados longínquos. A princesa Mária contava coisas da sua infância, da mãe, do pai, dos seus sonhos; e Natasha, que dantes, com uma incompreensão tranquila não queria saber daquela existência devota e submissa da princesa Mária, nem daquela poesia do auto-sacrificio crsitão, agora, (...) começou também a amar o passado da princesa e a compreender aquela faceta da vida que antes lhe era inacessível. Não pensava aplicar à sua alma a submissão e o auto-sacrifício, porque estava habituada a procurar outras alegrias, mas compreendia e começava a amar na outra as virtudes que dantes não compreendia. Para a princesa Mária, quando ouvia Natasha contar a sua infância e a sua primeira juventude, também se revelava um lado da vida que dantes não entendia: a fé na vida, o prazer da vida.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Natasha e a princesa Mária são as duas mais importantes personagens femininas de Guerra e Paz. Natasha, pelo seu amor à vida, entusiasmo, espanto, pela sua entrega, pelo seu olhar que brilha, é uma personagem irresistível de quem é impossível não gostar. Vêmo-la crescer e tornar-se uma mulher, seguimos o seu percurso talhado de momentos de prazer e felicidade familiar, de brilho nos círculos aristocráticos de Moscovo e São Petersburgo, e de momentos de decisão, a ânsia da felicidade, o prazer dos pequenos momentos, o percurso de dor, a perda de saúde, o renascimento tal como o que se refere o início deste excerto e um renascimento que lhe permite aceitar o mundo com o olhar mais sábio e ir trilhando finalmente o seu caminho que é o seu. A princesa Mária pertencente a uma das melhores famílias e socialmente acima de Natasha, representa o contrário: a rapariga submissa, inteiramente dedicada ao pai, um velho excentrico e ateu que despreza a sua fé e não reconhece o valor nem da sua inteligência nem da sua generosidade. Mária, ao contrário de Natasha, não teve uma infância e juventude alegre e feliz e uma casa sempre cheia de família e amigos, por isso dedicava-se à oração e à caridade. Muitas vezes, na sua solidão, se perguntava se encontraria um homem com quem se casasse e pudesse constituir uma família.

As mulheres não pertencem ao “mundo da guerra”, mas a guerra, nas suas múltiplas faces, acaba por entrar no mundo destas duas mulheres expondo-as ao sofrimento e modificando para sempre quer as suas vidas quer as suas almas. Natasha recolhe-se em si, para dentro; a princesa Mária torna-se autónoma e abre-se ao mundo, para fora.

O romance é um hino à sempre espantosa manifestação da natureza humana na plenitude: fraquezas e riquezas, e nesse exercício de olhar e escrutínio, percebemos, como o exemplo destas duas mulheres nos mostra, que as circunstâncias que num primeiro momento parecem afastar e antagonizá-las, acaba por uni-las num percurso paralelo de sofrimento, de dor e de transformação. O entendimento e a sólida amizade que se forja, toma assim uma dimensão que está além da pertença social, do entendimento, da personalidade ou da opinião. Começa no sentir e estende-se à dimensão espiritual.

20.6.09

Em Flor 22

Vincent van Gogh (1853-1890)
Butterflies and Poppies

Do Rigor

As intenções de rigor e exigência patentes na linha traçada pela Ministra da Educação deste governo de José Sócrates estão a desfazer-se perante o nosso olhar. O resultado dos testes de aferição dos 4º e 6º anos com a sua percentagem de positivas de 90% desmente qualquer tentativa séria de avaliação e qualquer intenção de rigor na escola em geral e do ensino - o que de facto se aprende – em particular. O cenário parece querer repetir-se no caso dos exames nacionais do 9º ano, em que estes, ao contrário dos anteriores que são irrelevantes e um desbaratar de recursos para um resultado “político” e estatístico simpáticos, já contam para a nota final - uns meros 30%, mas pelo menos poderão eventualmente fazer alguma diferença. O exame de Português foi muito fácil, dizem os alunos. De facto e depois de olhar com mais atenção deparo-me com esta pergunta extraordinária (que neste vídeo do Público alguns alunos disseram ser a parte mais difícil de um exame facílimo e “básico”) sobre um excerto dos Lusíadas, as estrofes 122 e 123 do Canto III:

Redige um texto expositivo (...) no qual explicites (*) o conteúdo das estrofes 122 e 123. O teu (*) texto deve incluir:

• uma parte introdutória em que identifiques (*) o episódio a que pertencem as estrofes e as personagens históricas nelas mencionadas;
• um desenvolvimento, no qual indiques (*) a decisão referida na segunda estrofe e as razões que, segundo o narrador, motivaram essa decisão;
• uma parte final, em que refiras (*) o sentimento expresso pelo narrador com a interrogação final e a razão que originou esse sentimento.

Lendo esta questão percebemos que o enunciado dá a resposta: explicita a sua estrutura (limitando a escolha) e aponta as soluções; só não escolhe as palavras para responder. Com perguntas destas em que a resposta está à partida formatada e dada é impossível errar e difícil premiar a diferença do mérito de quem sabe e estudou aquele bocado mais que faz a diferença entre o bom e o muito bom. Não sou favorável a que se façam exames dificeis, mas tem que haver em qualquer exame uma ou duas questões feitas para que se pense, para premiar o esforço e trabalho de quem estudou um pouco mais e um pouco melhor. Um exame destes é paternalista, limitativo e condiciona o estudante cortando-lhe criatividade. O bom aluno e o mau darão resposta iguais. Enfim, tudo muito mau, muito medíocre, muito igual, desse perigoso igualitarismo pastoso com que insistem em nos moldar a todos. Se é para isto que serve o rigor...

Notas:
  1. (*) Não percebo também a necessidade de, em circunstâncias formais e oficiais, que é o que os exames nacionais são, tratar o interlocutor, mesmo que seja aluno, por “tu”, mas isso será esquisitice minha.
  2. Como pude constatar (ou confirmar) no vídeo, os umbigos à mostra deram lugar este ano aos “cai-cai”. Também houve quem fizesse o exame de fato de banho com top de alças por cima. No vídeo não pude confirmar as calças dos rapazes pelo meio do rabo a mostrar calções de banho ou boxers, mas aposto que todos andavam de chinelas havaianas. Tenho que dar razão à Sra. Ministra que timidamente e noutros tempos menos eleitoralistas, ousou falar em fardas para as escolas.

19.6.09


Notícias da Albânia (*):

O Primeiro-ministro muda de personalidade após derrota eleitoral. Ver aqui um retrato comparativo.

As notas de Português e Matemática das provas de aferição dos 4º e 6º anos contam com 90% de positivas.

Trabalhadores interrompem negociações com a Administração na Autoeuropa.

(*) com o devido respeito pela Albânia.


17.6.09

Em Flor 21

Da unidade no PSD

Da leitura de alguns blogues (sobretudo colectivos) dos últimos dias há uma nota curiosa que teima em aparecer, assumindo, em certos blogues, mais relevo do que noutros.

A ideia central é a de que só poderá o PSD estar preparado para enfrentar os próximos actos eleitorais e ter esperança de bons resultados, eventualmente uma vitória, com uma unidade que abarque em listas de deputados e em cargos todas as facções opostas (nomeadamente e sobretudo Pedro Passos Coelho). Esta preocupação e insistência com a unidade hoje – depois da vitória no último acto eleitoral que vale o que vale, nem mais nem menos – levanta-me algumas questões. A primeira e fundamental é o porquê desta preocupação hoje, a três meses (aproximadamente) do próximo acto eleitoral, quando três meses antes das eleições europeias choviam críticas em relação à líder do PSD, à sua estratégia, seu estilo, sua oportunidade, seu timing. Nessa altura uma certa opinião não escondia a premonição (óbvia sublimação de desejo?) de desastre e derrota deixando sempre a suspeita desse desejo nunca explícito de que MFL pudesse ser rapidamente declarada redundante e despachada. Nessa altura tudo o que MFL fazia ou dizia era alvo de forte crítica, até a nomeação de Paulo Rangel: por se perder um bom líder parlamentar, porque Marques Mendes teria sido melhor, porque foi tarde, porque, porque. Durante a campanha e com um certo entusiasmo a pairar Pedro Passos Coelho ousou acompanhar a líder, mas não surpreendeu, pois manteve-se fiel a si próprio: melífluo pediu – quando ninguém ousava sequer sonhar – uma vitória. Porque é que a unidade do partido hoje é tão mais importante do que era há três meses atrás? Porque a vitória já não é uma miragem ou improbabilidade, mas sim do domínio da possibilidade?

A segunda questão tem a ver com o tipo de “pressão” que é exercido com estes apelos à unidade. Parecem demasiado apelos ao não esquecimento, por isso à manutenção, da esfera de influência que essas “facções” têm ou possam ainda ter e que não querem – compreensivelmente – deixar de ter. Quando do debate interno no PSD e depois dele criaram-se essas “bolsas de influência” que mantiveram PPC nos media de forma sustentada e constante; que acontecerá se o seu papel nos próximos actos eleitorais não for marcante? Porque é que não leio a hipótese de voluntariamente e com dignidade (tal como MFL o fez quando Santana Lopes era líder) se manter afastado das listas de deputados por não concordar com a linha e estilo da liderança? A unidade – mais do que uma soma de partes - pressupõe uma liderança forte, uma direcção clara, um programa coerente e pessoas que acreditem neles: ninguém melhor do que o(a) líder para decidir quem, e renovar onde achar que há que renovar.

A terceira questão prende-se com o valor que essas “facções” internas do PSD têm no momento do voto. Isto é: perante os eleitores do país “real” que não são maioritariamente filiados em partidos, e que a votarem PSD votam também ou sobretudo em “não Sócrates”; quanto valem de facto os votos de Pedro Passos Coelho? Será que esse valor fará a diferença, ou estará PPC sobrevalorizado, por quem o acha imprescindível, em termos de votos de eleitores? De onde vem o valor de PPC perante um eleitorado “extra-muros” do PSD? Será que alguém sabe? Até prova em contrário, e sobretudo agora depois da vitória do PSD nas eleições europeias, mantenho sérias dúvidas em relação ao seu valor (em votos, claro). Para mim, e até agora, esse rei vai nu.


15.6.09

Há dois dias (clicar para aumentar)
Parece um porta qualquer coisa, mas não vejo o quê.

Nota: Um amável leitor esclarece-me, e diz tratar-se do porta-aviões Principe das Astúrias, o segundo maior navio da frota espanhola.


Hoje Acordei Assim *

Oh the wind whistles down
The cold dark street tonight
And the people they were dancing to the music vibe
And the boys chase the girls with the curls in their hair
While the shy tormented youth sit way over there
And the songs they get louder
Each one better than before

And you're singing the songs
Thinking this is the life
And you wake up in the morning and you're head feels twice the size
Where you gonna go? Where you gonna go?
Where you gonna sleep tonight?

And you're singing the songs
Thinking this is the life
And you wake up in the morning and you're head feels twice the size
Where you gonna go? Where you gonna go?
Where you gonna sleep tonight?
Where you gonna sleep tonight?

So you're heading down the road in your taxi for four
And you're waiting outside Jimmy's front door
But nobody's in and nobody's home 'til four
So you're sitting there with nothing to do
Talking about Robert Riger and his motley crew
And where you're gonna go and where you're gonna sleep tonight

And you're singing the songs
Thinking this is the life
And you wake up in the morning and you're head feels twice the size
Where you gonna go? Where you gonna go?
Where you gonna sleep tonight?
Where you gonna sleep tonight?


Amy MacDonald, This is the Life.
AQUI

(* Com a devida vénia)


14.6.09

Georgia O' Keeffe (1887-1986)
Evening Star, Nº III
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13.6.09

Guerra e Paz 4

Na barraca da sua prisão, Pierre ficou ciente, não só com a inteligência, mas com todo o seu ser, com a sua vida, de que o homem foi criado para a felicidade, que a felicidade residia no próprio homem (...) e que toda a desgraça não provinha da carência, mas do excesso; (...) (e) ficou ciente de mais uma nova verdade consoladora; no mundo nada havia de assustador. (...) Do mesmo modo que não existia uma situação em que o homem fosse totalmente feliz e livre, também não existia para o homem uma situação de felicidade absoluta e de privação total de liberdade. Ficou a saber que havia um limite para o sofrimento e um limite para a liberdade, (...).

Só agora Pierre percebia toda a força da capacidade da sobrevivência humana e a força salvadora, dada ao homem, da transferência da atenção, à semelhança daquela válvula de segurança nas máquinas a vapor que permite a descarga do excesso de vapor mal a sua densidade ultrapassa determinada medida. (...)

(...)Aquilo que dantes o atormentava, aquilo que procurava constantemente – o objectivo da vida – já não existia para ele. (...) E era esta inexistência (...) que lhe dava aquela consciência plena e feliz de liberdade que, nesses dias, constituía a sua felicidade.

Agora não podia ter objectivo porque tinha fé: não uma fé numas quaisquer regras, ou palavras ou ideias, mas a fé num Deus vivo, constantemente sentido. Dantes procurava-O nos objectivos que se colocava. A sua procura de objectivo era tão só a procura de Deus (...).
Lev Tolstói, Guerra e Paz

A busca da felicidade tem muitas caras e toma muitas formas. Pierre, talvez a personagem central de Guerra e Paz, vive com um pé no mundo da Paz: o mundo urbano da sociedade aristocrática que vive em luxo e conforto; e o outro pé no mundo da guerra, sobretudo na altura da batalha de Borodino e na ocupação de Moscovo: o mundo dos homens que estão nos diferentes ramos das forças armadas e que fazem a guerra defendendo o seu país. Ele começa por ser uma personagem intrigante e estranha com dificuldade em se afirmar no mundo em que, de repente, se vê pertencer. Teve o privilégio de uma esmerada e completa educação no ocidente (França sobretudo), mas havia sempre algo que lhe escapava, que lhe faltava e procurava incessantemente aquilo a que chamava o objectivo da vida, ou felicidade pois parecem ambos, neste caso funcionar como sinónimos. Tentou várias formas e escolheu várias caras, mas via sempre a felicidade, mais cedo ou mais tarde, escapar-lhe de cada vez que sentia, com alguma ingenuidade – própria das “boas pessoas” - que a conseguiria aprisionar. Tomou decisões fez escolhas, mudou de rumo, mas tudo parecia em vão, uma procura estéril dessa ilusão que é a felicidade que se “encontra” nisto ou naquilo, ou na descoberta do objectivo da vida nesta ou naquela ideologia e teoria.. Como todas as personagens deste romance, Pierre vive uma vida peculiar, cresce interiormente, sofre, adapta-se às circunstâncias, molda-se e descobre-se. Nestes breves excertos do romance tirados de capítulos diferentes e “colados” de uma forma que tento que faça um todo tão coerente quanto possível (um só excerto parecia-me demasiado redutor para personagem tão complexa), percebe-se que Pierre um dia é feliz: quando descobre que existe um limite ao sofrimento que se suporta, que a felicidade nunca é absoluta e que – mesmo em cativeiro – nunca há privação total da liberdade. Talvez mais importante, e num segundo momento, ele percebe que não precisa já não procura o objectivo da vida, em regras, palavras ou ideias, pois tem fé num Deus vivo e que é sempre sentido.

Atrevo-me a dizer que Pierre concordaria com o João Gonçalves: toda a felicidade, a não ser a dos tolos, pressupõe amargura, solidão e sofrimento.

12.6.09

Overdose 2

Um jejum de José Sócrates dá imediatamente lugar a outro tipo de alienações: ao benfiquismo (diferente do Benfica) que, como sempre, ocupa demasiado espaço mediático; aos desapontamentos em relação à selecção nacional que – tal como o país que representa - parece fadada ao empate; e ao Ronaldismo fenómeno nacional que envolve sempre movimentações de milhões de euros, porque vai para o real Madrid, ou porque espatifou um Ferrari, ou porque comprou uma casa, ou porque passa férias com os famosos em Los Angeles. Hoje o caso culmina com uma verdadeira dúvida existencial que o deve atormentar em LA onde foi avistado a brindar com Paris Hilton. Grande Ronaldo!

11.6.09

Hoje

Overdose

Confesso o bom que é este jejum de José Sócrates que a ressaca eleitoral e os feriados seguidos de fim-de-semana nos impuseram. As breves declarações do Primeiro-ministro ontem nas comemorações do 10 de Junho quando abordado pelos jornalistas, porque mais “naturais” e porque tão pouco usuais nele, não contam. De facto há vários dias que não leio "anúncios" nos jornais nem os vejo nas TVs, naquele ímpeto salvífico de quem tem que salvar rapidamente a pátria do desastre e por isso “toma medidas”. Não nego que há um mérito em “decidir” e “tomar medidas” e que ninguém nega a determinação do nosso primeiro-ministro. Dois problemas, no entanto: a qualidade das medidas e sua oportunidade, e a comunicação dessas medidas que com este governo se tem centrado nos anúncios à medida de um telejornal. Não há debate sobre a substância e o formato tem sido pouco variado, e pela persistência e regularidade com que o ritual é cumprido tem, inevitavelmente (e porque a verdade vem sempre acima) emergido a artificialidade do acto de encenar, de cada vez, um anúncio. Sem nos apercebermos fomos, ao longo destes anos com especial incidência nos últimos meses, objecto de uma intoxicação e de uma overdose de José Sócrates como nunca o fomos de mais nenhum primeiro-ministro. Nestes dias notam-se os sintomas de abstinência: uns talvez com pena, outros nos quais eu me incluo com considerável alívio.

9.6.09

Dias de Verão 12

Gifford Beal (1879–1956)
Mayfair


8.6.09

Muito boa a análise de Eduardo Cintra Torres no Público caderno principal da edição impressa de hoje com o título: Dez Derrotados na Comunicação. A saber, mesmo que seja importante ler todo o artigo: 1 - A reportagem opinativa, 2 - A campanha enviesada da RTP, 3 – A Credibilidade das sondagens, 4 – A artificialidade comunicativa do PS e da LPM, 5 – A comunicação arrogante e sufocante, 6 – Os comentadores da direita socratista, 7 – Miguel Sousa Tavares, 8 – A sobrevalorização da sondagem das legislativas na SIC, 9 – A infelicidade do humor, 10 – O novo riquismo cenográfico (RTP).

7.6.09

Que alívio!

Depois dos discursos de Paulo Rangel e de Manuela Ferreira Leite, os grandes vencedores da noite, registo o alívio que é finalmente ouvir discursos com sentido. O de Paulo Rangel foi particularmente bem conseguido, estruturado, claro, incisivo e politicamente pertinente e oportuno, quer para os seus eleitores quer para os seus opositores: levantou a questão da mudança do quadro político em Portugal que impede o governo de tomar decisões que comprometam a próxima legislatura e as gerações futuras. É um alívio sair do modelo redondo e vazio dos discursos de circunstância, de anúncios e unidireccionais de José Sócrates que com a sobranceria da superficialidade ignora sistematicamente a oposição e a crítica e seus argumentos.

Hoje

Guerra e Paz 3

Além das suas rezas, Platon Karatáev não sabia nada de cor. Quando começava os seus discursos, parecia não saber como os iria terminar. (...) Platon não conseguia lembrar-se do que dissera um minuto antes (do mesmo modo que nunca conseguia dizer a letra da sua cantiga preferida). Havia nestas cantiga palavras – “querida”, “betulazinha”, e “estou muito triste” – mas, recontadas, nunca faziam qualquer sentido. Karatáev era incapaz de compreender o significado das palavras fora do discurso. Cada palavra e cada procedimento seus eram manifestações de uma actividade espontânea e que era a própria vida. Entretanto, a vida, tal como ele a encarava, não tinha sentido como vida separada. Apenas tinha sentido como partícula de existência geral que ele permanentemente sentia. As palavras e os actos de Platon derramavam-se de forma tão regular, necessária e espontânea como o cheiro emana da flor. Era incapaz de compreender o valor e o significado de uma acção ou de uma palavra tomadas em separado.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Platon Karatáev é uma personagem menor, mas com grande valor simbólico num romance onde abundam personagens da aristocracia culta que de formas diferentes procuram encontrar o sentido da vida e um objectivo que as faça agir. Karatáev é um camponês inculto, mas dotado de uma sensibilidade existencial muito peculiar. Ele, tal como o excerto acima nos diz, existe em ligação com o mundo, uma partícula na existência que ele sente e sabe, não deixando muito espaço ao cultivo do ego, estados de alma ou a problemas existenciais relacionados com o sentido da vida ou os objectivos das opções que se tomam e que caracterizam na obra as personagens principais. Ele existe como contraponto a essas personagens e é capaz de seduzir quelquer um pela simplicidade e harmonia do seu ser e viver. Como parte integrante de um universo e de uma existência que o transcende, mas que ele sente ternamente na vida que vive e que vê ser vivida, ao seu redor pelos homens, cães, árvores ou flores, Karatáev não questiona o que lhe acontece, não combate o seu fado - pelo contrário entrega-se, sem ressentimentos nem questionamentos e com uma simplicidade e aceitação tão naturais quanto desarmantes que, nesta sua forma de estar perante o mundo e o momento presente, ele acaba por transmitir aos que o rodeiam paz e ternura em momentos de dor e de aflição. Há nele uma entrega à vida, e consequentemente à morte, que espanta quem o rodeia, no seio dos quais está Pierre, que será fortemente marcado por este homem camponês e iletrado, mas dono de uma sabedoria e liberdade imensas.

O meu conhecimento de filosofia é infelizmente (e tal como o de tantas outras matérias) muito limitado, mas sei reconhecer neste excerto matéria que nos remete, pelo menos, para questões filosóficas antigas, sobre as quais não sou capaz de dissertar. Ouso, no entanto, algumas deixas; mais uma vez o Platonismo e o Nominalismo e Realismo que na Idade Média ocuparam tantos filósofos e teólogos.

6.6.09

5.6.09

Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa!

Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa!

Esta frase que Paulo Rangel elegeu para palavra de ordem é um alívio para a alma. Estamos fartos de socialismo. Abstenho-me agora de comentar José Sócrates, a sua imagem cultivada em think tank de marketing, as suas frases inventadas em laboratório de ideias e desenhadas e arquitectadas de modo a bastarem-se por si, no discurso redondo que usa tão típico dos monólogos por ele promovidos às horas que lhe convém, não vale a pena agora explorar o que ele representa de superficialidade e frivolidade, nem alongar-me nas incessantes dúvidas sobre o seu percurso e as razoáveis dúvidas sobre o seu carácter. Deixemos isso hoje.

Basta de socialismo! Estamos fartos do peso do Estado do seu excessivo poder, do crescente endividamento da sociedade portuguesa, do constante e crescente peso do fisco sobre as pessoas e as empresas, da prepotência das medidas tomadas aleatoriamente, dos ajustes directos entre o estado e empresas que promovem as ideias que geram anúncios que nem sempre se vão realizando. Estamos fartos de projectos megalómanos que servem para dar a ilusão e a patine moderna ao país pobre em dinheiro e em espírito que somos. Parafraseando Vasco Pulido Valente hoje no Público: para um povo melancólic(o), desiludid(o) e sem esperança. Que lhe pode trazer um novo regime: uma terceira auto-estrada?

Paulo Rangel conseguiu gerar algum ímpeto e entusiasmo numa campanha eleitoral que normalmente mobiliza pouco e em que a Europa e os seus impasses foram os grandes ausentes, mas que permitiu ao eleitor aperceber-se e ver que se desenha uma alternativa ao PS e a José Sócrates. Muito mérito de Paulo Rangel certamente, mas mérito também de Manuela Ferreira Leite. A líder do PSD que não entusiasma ninguém, que fica bem criticar, e que se confronta diariamente com a má fé e com os seus maiores críticos dentro do seu partido, é a grande responsável pela escolha e pelas decisões tomadas no PSD. Por muito hábil, e comum, que seja a retórica iluminada que tente demarcar Paulo Rangel de MFL, não o conseguirão. Qualquer vitória dele será sempre uma vitória dela. Eu espero por Domingo, e espero que Domingo um passo mais na direcção do Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa! seja dado.
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4.6.09

Andy Warhol
Hammer and Sickle
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Educação Sexual na Escola

Eu sou muito crítica em relação a muito do que é a Escola hoje. E por escola entendo quer a escola pública, quer a privada, pois ambas têm que seguir as disciplinas, os programas e os horários estabelecidos pelo Ministério da Educação. Em Portugal não há, infelizmente, verdadeira liberdade no ensino. A escola privada não pode escolher os seus programas, os pais não podem escolher o que os filhos aprendem. Ninguém se queixa muito!

Não gosto nem das disciplinas, nem tão pouco da distribuição horária. Ao fim de todos estes anos ainda estou para perceber o que é que no ensino básico se aprende, ou quais as mais valias de disciplinas como Educação Cívica (bullshit de quem tem medo da palavra “moral”), Área Projecto (twice bullshit que só serve para debitar banalidades “criativas” em power-point) e Estudo Acompanhado (thrice bullshit). Continuo a perguntar-me se não era melhor usar este tempo para a Matemática, o Português, a História, o Inglês. A distribuição da carga horária parece-me peculiar, há disciplinas cujos dois blocos semanais são dados seguidos – os célebres 90 minutos - e no mesmo dia da semana, claro, o que me parece verdadeiramente antipedagógico sobretudo num país com tantos feriados. Em cada trimestre há sempre um dia da semana que sai penalizado em relação aos outros.

Não gosto de muitos dos programas que conheço: lamento que o programa de Língua Portuguesa se faça totalmente até ao 9º ano à margem dos clássicos da Literatura Portuguesa. Lamento que a gramática seja palco de sucessivas experiências que umas avançam, outras avançam para depois (e felizmente) recuarem (lembrar a TLEBS). Não gosto do Estudo do Meio do 1º Ciclo em que cedo obrigam os meninos a conhecerem o 25 de Abril e a longa noite escura do fascismo de Salazar, antes de saberem quem é D. Afonso Henriques. Não gosto do tom das Ciências Naturais e muito menos do programa de Geografia (3ª Ciclo) em que os estudantes aprendem tantas competências que mal sabem onde são os cinco continentes e principais (maiores) países, mas sabem distinguir os diferentes tipos de planta das cidades (planta irregular, concêntrica ou ortogonal, segundo creio), sabem os problemas ambientais, mas não sabem onde fica o Sri Lanka ou a Bolívia. Poderia dar mais exemplos noutras disciplinas e se mais conhecesse, mais criticava com toda a probabilidade.

Dito isto, não tenho razão para esperar vir alguma vez a concordar com o teor do programa de Educação Sexual que este governo, tão amigo dos temas fracturantes e radicais, pretende implementar. Também confesso que isso não me preocupa tanto assim. Afinal, nos dias que correm é mais fácil em casa falar de preservativos, Kama Sutra ou homossexualidade do que dar a conhecer Fernão Lopes, Júlio Dinis ou Camilo Castelo Branco.


Vejam só: fizeram o mesmo ao meu dinheiro! Se Manuel Pinho assim o determina, quem sou eu para o contradizer? Então parece que só nos resta esperar tranquilamente os dividendos que receberemos deste, e de todos os outros negócios altamente rentáveis que em nosso nome e para nosso bem o Estado fez nestes últimos tempos. Ficaremos ricos em breve.

Ah, estes bloggers dotados de bom humor matinal...
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Dando Excessivamente Sobre o Mar 47

Edouard Manet (1832-1883)
Sur la plage

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