“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

2.11.09

São Rosas, Senhor... 8

Andy Warhol
Untitled from Flowers
.
Ainda estou sem perceber de que posts mais gostei nestas últimas semanas, particularmente inspiradas, digo eu, dA Natureza do Mal. Se deste, ou deste, ou deste, ou deste, ou de um dos outros.
.
A propósito de editorias de jornais – ou outras publicações - serem ou não assinados, Eduardo Pitta lembra aqui alguns casos de publicações estrangeiras nomeadamente o Economist em que os editoriais não são assinados. No entanto esquecece de referir que a linha editorial do Economist, (e de tantas outras publicações sobretudo anglo-saxónicas) é “crystal clear”: liberdade, liberdade individual, direito de escolha, mercado aberto livre e concorrencial, impostos reduzidos, e que o Economist, onde também não existem artigos assinados, toma sempre uma posição, também ela “crystal clear” e devidamente explicada e justificada em momentos que considere relevantes: eleições no Reino Unido ou nos EUA, para dar exemplos políticos. Não existem “estados de alma” editoriais, mas opções claras sem a conversa de chacha que o editorial do Público ontem nos impingiu e que fala em coisas vagas e que servem tudo e todos de acordo com a necessidade do momento. Senão que é que é isso de “queremos interrogar o mundo. Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos”?
.

1.11.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 42

Emile-Antoine Bourdelle (1831-1929)
Héraklès tue les oiseaux du lac Stymphale


Matar aves de formas bizarras.
.

Ídolos de Nada

Sinto-me sempre um pouco constrangida quando vejo programas tipo Ídolos (SIC; hoje à noite) que geram ondas de entusiasmo e que lançam novos talentos a quem prometem um futuro radioso. De facto, revelam apenas a nossa pequenez. A pequenez mental e a pequenez do nosso mercado e da nossa capacidade de “aproveitar” algum real talento que venha a ser relevado. Portugal é assim: pequeno. E nos locais pequenos não cabem todos. Nem chega a ser má-vontade, é quase uma questão física: não há espaço para todos. Dizem que nos EUA e noutros países, nomeadamente em Espanha alguns, senão todos, dos 12 finalistas destes concursos têm uma carreira de sucesso assegurada, há exemplos de muitos que hoje são mundialmente conhecidos: Leona Lewis, David Bisbal ou Jennifer Hudson que até já conta com um Oscar. Aqui nada disso acontece: com excepção da Luciana Abreu, que de cantora passou a ser actriz, nomeadamente a Floribela, também foi (ainda é?) sex-symbol, namorada ou não de algum futebolista, e não-sei-que-mais, não me lembro (serei eu distraída?) de nenhum finalista, nem sequer de um vencedor desses concursos tipo Ídolos ou Operação Triunfo que tenha mesmo triunfado e construído uma carreira com alguma visibilidade e credibilidade, apesar de mostrarem talento. Os concursos podem fazer audiências, mas não fazem nem triunfos nem ídolos de coisa nenhuma. O seu objectivo é uma mentira que os milhares de jovens que acorrem aos castings não querem, ou não sabem, perceber.

Depois há sempre aquele momento penoso em que tantos concorrentes fazem figura de parvos (começam cedo) cantando sem saberem o que isso é. Será que a vontade de ter esses 15 minutos (neste caso segundos) de fama se sobrepõe a qualquer tipo de bom senso e a um julgamento minimamente racional da parte dos concorrentes e de quem os incentiva a ir “tentar a sorte”?
.

Para além da suposta percepção pública de um excesso de peso ideológico no jornal (o quê?), temos também,

os editoriais, (que) a partir de hoje, deixarão de ser assinados. Os editoriais expressarão o pensamento desta direcção e deste jornal sobre o mundo que procuramos descrever, compreender e analisar página a página. (...) Há 20 anos, quando nascemos, foi decidido que os editoriais seriam assinados com base em duas ideias: seriam mais acutilantes e comprometeriam apenas o seu autor. Hoje sabemos que essa ideia original se tornou utópica e que um editorial compromete todo o jornal - é a cara do jornal - e não pode, por isso, ser veículo da opinião de uma só pessoa.

Desconfio sempre quando se substitui a liberdade e a responsabilidade individual por um colectivo amorfo (que outra coisa pode ser o “pensamento de um jornal como instituição”? Seria bom defini-lo já) que nunca se sabe bem o que é nem quem é, mas onde fermenta sempre um caldinho morno que alimentará quem for preciso alimentar aqui e ali. Domage.

E que dizer desta conversa de chacha: Não queremos doutrinar nem vender receitas. Queremos interrogar o mundo. Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos? Julguei que o Jornal Público cujos leitores são os mais exigentes, tivesse uma já maturidade que dispensasse este tipo de conversa típica da pós-adolescência (sem desprimor para a dita). Enganei-me.
.

25.10.09

Velas 19

Há uns dias
.

24.10.09

Coisas Fedorentas

A boa educação e a cortesia são muitas vezes esquecidas sobretudo quando as circunstâncias aparentam favorecer quem, por um momento no tempo, pensa estar “na mó de cima”. José Alberto Carvalho, o director da informação da RTP, é um desses casos, como ontem verificamos num consensual (e tão sem surpresas, note-se) último episódio dos Gatos Fedorentos em que responsáveis pela informação dos três canais televisivos mostraram como são parecidos e como estão satisfeitos consigo próprios e com a informação que produzem. JAC, o mais reluzente e o mais contente consigo próprio, alheio a qualquer ideia de “asfixia democrática” – uma invenção produzida por gente estranha que ele nomeou (Cintra Torres, Pacheco Pereira), pois a informação por ele promovida na sua televisão é tão límpida e independente - falou de Manuela Moura Guedes nuns termos e num tom em que abundou a falta de consideração e respeito que uma colega de ofício lhe mereceria, já para não falar da pura falta de educação e nível. Todos riram alarvemente, incluindo Júlio Magalhães, cuja nova palavra de ordem é “a TVI tem informação de Segunda a Domingo”.

Não é pedido a JAC ou a ninguém que goste de MMG ou que não a critiquem se acham conveniente fazê-lo, só que um pouco mais de dignidade, contenção e respeito por colegas de profissão impunha-se. Facilmente esquecem que, como diz o ditado, há mais marés que marinheiros.
.

21.10.09

Plataforma Contra a Obesidade 55

Willem Claesz Heda
Pewter and Silver Vessels and a Crab
.

19.10.09

Com a Verdade me Enganas

Com o sarcasmo a que já nos habituou, João Miranda põe o dedo na ferida. Imprensa e blogues vivem intensamente o dia de amanhã do PSD e esquecem o país hoje. É um exercício interessante ver na blogosfera o que dizem e escrevem, hoje, alguns dos que no período eleitoral se conotavam com a actual liderança do PSD e faziam campanha política nomeadamente em blogues como o Jamais. Depois dos inevitáveis e normais balanços e análises sobre os resultados eleitorais e sobre o modo como decorreram as campanhas, pararam de fazer oposição a José Sócrates e pararam de denunciar o seu modo de actuação bem como o do seu, ainda em funções, governo, pois estão sobretudo preocupados em encontrarem uma posição no tabuleiro de xadrez que é para eles o PSD numa corrida à nova liderança iniciada pela comunicação social e por eles próprios.

Em tempos de cantos de sereias e de tentações, nada melhor do que alguma estabilidade e solidez para que o tempo (esse grande fazedor) dê, sem precipitações nem ansiedades o sinal de partida. Mas não: esperar, ser perseverante e paciente são conceitos pouco interessantes sobretudo para alimentar uma comunicação social ligeira e feita de casos e intrigas. Manuela Ferreira Leite que parece não se querer (e bem, no meu ponto de vista) recandidatar à liderança em Maio (ou seja quando for), tem toda a legitimidade para dar o tom de oposição que quer que o PSD seja, e que os eleitores escolheram (eu assim escolhi) e quem confiou nela em Setembro, deveria confiar nela agora. Ela não mudou, mesmo que resultados eleitorais não tenham sido aqueles que os militantes e adeptos do PSD esperariam e desejariam. Mas tanto impulso autofágico é assustador para quem olha de fora. Agora é tempo de oposição a José Sócrates. Dias virão para um tempo de maior instabilidade interna no PSD até se encontrar um novo líder.
.

Em Três Páginas


He loved her passionately and was passionately loved; but the Countess was self-willed and frivolous. This was not the first time she had loved. Repugnance and loathing could take the place of her heart’s most tender feelings. Ibrahim already foresaw the moment when her love might cool; until then he had not known jealousy, but with horror he now had a presentiment of it; he felt that the anguish of separation would be less tormenting, and he therefore determined to sever the ill-fated association and return to Russia, whither Peter and an obscure feeling of duty had been summoning him for a long time.

Alexandr Sergeyevitch Pushkin, The Complete Prose Tales. The Moor of Peter the Great.

Com uma intensidade notável, Pushkin conta em três páginas o início de uma absorvente e apaixonada história de amor, o seu auge e o seu fim. Nada fica por dizer sobre o caso amoroso, sobre a surpresa da atracção, a intensidade da paixão, sobre a entrega cega, as contradições do amor, sobre o ciúme, o medo e o afastamento. A pequena novela prossegue na Rússia – começou em Paris - e Pushkin (de quem já falei neste blogue a propósito dessa obra-prima que é “A Dama de Espadas”) mais uma vez mostra ser um maestro na criação de personagens, na sua descrição de ambientes de salão, nos detalhes. É um desenhador minucioso e atento das suas personagens e nada lhe escapa nesse fazer, e nessa construção de uma intriga. Não se encontra em Pushkin a forte intensidade dramática de outros seus conterrâneos (que não contemporâneos), mas os contos /novelas têm sempre uma tensão que advém da complexidade das personagens construídas com essa delicadeza e minúcia do subtil. São histórias que se lêem com deleite, mas também com a alguma frustração pois ficam suspensas: Pushkin não terminou muitas delas, como é o caso da história The Moor of Peter The Great. Esta colectânea é feita de novelas, quase todas inacabadas (infelizmente) e de alguns contos. São uma outra face da Literatura Russa que normalmente conhecemos e é mais citada.
.

17.10.09

Entardecer 10

Há dois dias
.
Fiquei admirada por concordar tão facilmente com esta conclusão do Pedro Correia “José Sócrates não tem nada a temer desta oposição”, num breve texto sobre o PSD no Corta-Fitas, mas depois vi o texto de Tiago Geraldo no 31 da Armada que deu origem a tal conclusão, e percebo que afinal só concordamos na conclusão e que divergimos radicalmente nos pressupostos. É por causa de comportamentos como os de Passos Coelho, que não consegue não se pôr em bicos de pés dia sim dia sim, apesar da actual líder do PSD se manter legitimamente em funções, dos restantes PSDs se manterem entretidos e distraidos a olhar para o seu umbigo, e da comunicação social não fazer outra coisa que não seja também olhar para o PSD de todos os ângulos possíveis salivando e especulando sem peias, que José Sócrates não está a ter a oposição que deveria nesta semana em que o tom do seu próximo estilo de governação foi claramente dado: uma encenada e falsa abertura ao diálogo, chantagismo, demagogia a rodos, e a dose certa (para as alturas certas) de vitimização, pois eu sou tão dialogante e os outros líderes tão pouco operantes. É ele, José Sócrates que tem de procurar e encontrar soluções de estabilidade governativa. Por muito que lhe custe, por muito que o não queira esse ónus é seu, foi-lhe dado pelo voto.
.

13.10.09


Estes timings são imensamente suspeitos. Como é que só se sabe isto depois das eleições legislativas e autárquicas se durante a época pré-eleitoral ouvi algumas vezes falar em possíveis soluções para a Quimonda? O desplante não tem limites e a central de comunicações mantém-se activa. Nada mudará neste domínio.
.

São Rosas, Senhor... 7

Andy Warhol
Untitled from Flowers
.

A Palavra Mais-valia

Não percebo porque é que as conclusões deste estudo não foram divulgadas antas das eleições... Eles não dão tréguas: a máquina fiscal já começa a querer encontrar novas formas de tributação sob a capa da simplificação, paridade, justiça social etc. Temos que esperar para ver. No entanto o capítulo em que se refere à tributação das mais-valias em bolsa chamou-me a atenção. O investimento privado em Portugal já é tão pouco significativo que este agravamento proposto é certamente uma maneira de evitar a sua expansão e de diminuir a liquidez de um mercado de capitais pequeno. Depois há que notar este parágrafo,

“A generosidade fiscal que, entre nós, existe relativamente às mais-valias obtidas na alienação de valores mobiliários – em particular das acções – é frequentemente considerada fonte de manifesta injustiça fiscal”, refere o relatório. “A nosso ver (...), a perda de receita e a redução da equidade parecem-nos bem mais importantes do que um suposto factor de apoio ao mercado de capitais. Em países como a Espanha ou o Reino Unido, para citar apenas dois exemplos, tributam-se estes ganhos e não é por isso que o seu mercado de capitais se ressente”,

para ver a estupidez do estudo, e até onde vai o proselitismo socialista de boas intenções e de preocupações sociais. Quando e como é que é possível comparar o nosso mercado de capitais com o do Reino Unido (o maior da Europa e um dos maiores do mundo) ou mesmo o espanhol? Tributar ainda mais as mais valias obtidas no nosso mercado de capitais é penalizar e sufocar o investimento e a iniciativa privada essenciais para a criação de riqueza e desenvolvimento do país. A esquerda sempre se deu mal com a palavra “mais-valia”, e esse é um problema de fundo que, entre outros claro, impede que países como o nosso tenha uma economia desenvolvida.
.

12.10.09

Entardecer 9

Hoje
.

A Nova Persona

É-me penoso ligar a televisão e ver nos telejornais José Sócrates naquela sua nova e mansa persona pós-europeias e pós-perda-de-maioria-absoluta, falar insistentemente em diálogo. Duas notas:

Primeiro, não sei se o “diálogo” depois dos excessos do Guterrismo estará já devidamente reabilitado do ponto de vista político, nem sei se nós – eleitores (ou povo, conforme se queira), já estamos disponíveis para que essa palavra se torne num novo mantra destes próximos tempos. Mas reconheço que propor-se ao diálogo com a oposição assim sem preconceito, (cito JS) e de peito aberto é uma forma de colocar o ónus de eventuais falhas na governabilidade (que palavra feia!) na oposição. JS começa a encontrar formas de tentar sair ileso de futuros impasses.

Segundo, interrogo-me sobre a verosimilhança e boa-fé de tanta vontade de diálogo por parte de um homem, o nosso Primeiro-ministro José Sócrates, que nunca usou tal palavra , nem parecia sequer conhecer o conceito, quando era detentor de uma maioria absoluta, punha e dispunha do poder que o voto lhe proporcionou, e nunca foi tímido ou se inibiu de mostrar – mesmo perante o seu governo - que ele era sempre , e sem diálogo, o decisor. Eu sei que a necessidade apura o engenho, e que José Sócrates está numa situação diferente, mas uma tão ágil e fácil mudança de persona incomoda-me e desconfio da bondade das suas intenções tal como ele as proclama.
.

Ouvir ontem à noite nas televisões, em directo, um jornalista perguntar a Santana Lopes o que é que ele ia "ali fazer", e se ia "à casa de banho", (ver aqui por exemplo) é mais um gesto revelador do baixo nível de profissionalismo do jornalismo português. É uma pergunta impertinente porque gratuitamente agressiva, irrelevante pois é uma matéria que está longe de ser do interesse público, mal-educada, porque sim e não preciso sequer de explicar, e ilustradora do servilismo jornalístico português que, quando se trata do poder, nomeadamente do PS e sobretudo de José Sócrates é todo mesuras e respeitinho. Ou alguém imagina o “espertinho “ a fazer essa pergunta ao Primeiro-ministro? Claro que Santana Lopes muitas vezes se “põe a jeito”, mas nada justifica essa falta de educação e a ausência de qualquer tipo de profissionalismo.
.

10.10.09

Amanhecer 17

Hoje
.

9.10.09

8.10.09


A frase admite ponderar candidatar-se diz tudo. O único problema de Marcelo Rebelo de Sousa é ser Marcelo Rebelo de Sousa. Não fosse isso...

Azares. Isto de deixar o povo decidir e ter que descer à terra é uma chatice.
.

7.10.09

Espuma dos Dias que Foram 27

.

Ver Portugal

Há muito que tento não olhar para tentar conseguir nada ver. Este retrato (que refere FJV aqui), é o retrato de um Portugal desleixado, inculto, incapaz de preservar o seu património físico e da memória histórica. O Alentejo tem a sorte de uma paisagem limpa, onde se vê o horizonte. Que retrato faríamos se caminhássemos mais para norte? Por exemplo para o litoral norte, o Alto Minho, que conheço bem, os olhos já não se perdem na paisagem; esbarram sempre num ou noutro mamarracho que o excesso de construção e o gosto discutível impuseram paulatinamente e de forma inexorável impuseram. Na ânsia de modernização e de melhoria de nível de vida das populações, deitou-se fora o menino com a água do banho. As casas de azulejos por fora, ou de tectos múltiplos e sobrepostos, construídas em qualquer local e as churrascarias à beira da estrada surgiram na altura mascaradas de sucesso mostrando quão depressa o dinheiro tinha sido ganho, não são hoje mais do que uma evidência desse Portugal em desleixo, da falta de cultura, de brio e da óbvia decadência dessa ilusão da riqueza. As cidades e as grandes vilas da província prolongam-se hoje ao longo das estradas nacionais sem que nos apercebamos onde começa uma e acaba a outra e sem nunca termos um pedaço limpo de horizonte para respirar, para ver Portugal.

6.10.09



Só agora reparo que nos cartazes do PS para o Município de Oeiras se escreve Marcos Perestrello com dois “l”. A imagem de uma esquerda que quer parecer cada vez mais frequentável. Estes agências de comunicação são umas brincalhonas.
.

5.10.09

Cheri


Ao ver Chéri, mais um bom filme de Stephen Frears (baseado num romance de Collette) que nos mostra uma das melhores interpretações de Michelle Pfeiffer no papel ambíguo de uma mulher que envelhece e se “reforma” da sua profissão de cortesã saboreando finalmente a riqueza e as noites dormidas sozinha na cama, mas que - ao tomar conta de um jovem filho de uma “companheira” de profissão - se apaixona por uma vez, e por quem não devia (se é que alguma vez se deve seja o que for, sobretudo no domínio da paixão), lutando para que essa paixão não se mostre nem aos outros nem a ela e não a “derrube”, lembrei as semelhanças entre a personagem masculina do filme e uma outra personagem masculina de uma série que vi recentemente: The Line of Beauty, também ela baseada numa obra literária, neste caso num romance de Alan Hollinghurst. O mesmo tédio e abandono de si próprios e dos seus percursos e opções, o primeiro nas mãos de Léa, o segundo, Nick, nas mãos, rotinas e hábitos da família Fedden. Ao contrário de Nick que se deslumbra com a abundância dos Fedden e do meio em que se movem (com algumas pouco subtis reminiscências de Brideshead Revisited onde se inclui a homossexualidade plenamente assumida no caso de The Line of Beauty), Chéri nasce na abundância, mas numa família disfuncional, se é que se pode sequer falar em família. Ambos no seu estado de permanente langor (propício ao consumo de drogas) cultivam o esteticismo e a beleza como um fim em si, como uma forma de estarem na vida e em sociedade, como expressão daquilo que são e do que querem. De formas distintas, ambos são “abandonados” no fim: um pela família que o acolhe, outro pelas suas inevitáveis opções como se se tratasse de um destino já escrito.


The Line of Beauty é uma série irregular, bem feita - tem a chancela BBC e todo o rigor no retratar de uma época e com todas as subtilezas necessárias que marcam a persistente estratificação da sociedade inglesa, mas que nunca cativa plenamente tal a superficialidade e automatismo das personagens e da banalidade narrativa.

Chéri, ao contrário, e apesar do rigor do retrato da “Belle Époque” e do deslumbre (nosso) perante o guarda-roupa, interiores e exteriores (o jardim de Inverno de Mme Peloux é de antologia), é todo feito de modulações psicológicas das várias facetas do abandono ao amor, da idade e do tempo quer passa, da inevitável e esperada separação, e das tentativas de superar e não mostrar a dor provocada pelo afastamento do ser amoroso. Como pano de fundo o afundar da forma de vida de Léa e das suas companheiras e a decadência da própria sociedade com o mundo a mudar em vésperas de guerra.
.

Dias de Verão 16

Claude Monet
Bathers at La Grenouillère
.

1.10.09

Os Gadgets Autárquicos

No Concelho de Oeiras, na parte que conheço, ultimam-se furiosamente rotundas e jardins. Rotundas com jactos de água, com relva e esculturais canteiros de flores (coisa moderna, note-se, nada de canteiros à moda antiga), com estátuas ou blocos abstractos de matéria. As oliveiras dos jardins há muito que foram plantadas, mas agora acabam-se os caminhos, os degraus, enfeitam-se os espaços. Nada que aborreça o olhar ou o gosto, que nisso Isaltino de Morais sabe como fazer, e já há muito que o faz.


Em Lisboa a coisa é diferente: António Costa começou de mansinho a guerra aos automóveis feita pelo município que hoje já parece não ter tréguas, para gáudio dos taxistas que se queixam de pouco negócio e “muitos carros”. Tudo começou com o desastre – pela forma leviana como a obra foi feita sem se perceber se houvera discussão e até uma decisão – no Terreiro do Paço em que, depois de uns meses de puro caos, as faixas de circulação se reduziram a duas na zona do terreiro do Paço, uma em cada direcção. Hoje atravessar de carro a cidade de poente a nascente (ou vice-versa) pela beira rio é um acto que o município desencorajou, e não percebo porquê, nem faz sentido que assim seja. Eu que sempre gostei desse trajecto, hoje penso duas vezes antes de o fazer, mas confesso que as alternativas nem sempre são melhores. A mesma coisa aconteceu à Lisboa Pombalina onde se acabou com a circulação automóvel ou se reduziram as faixas de circulação, não criando percursos alternativos. A redução das faixas de circulação parece ser uma política fétiche desta gestão camarária. Fazem-no um pouco por todo o lado e em ruas onde antes se circulava bem, nomeadamente no Bairro Azul e em Telheiras, tendo como consequências atrasos e incómodos a todos os que delas se servem. O resultado é uma já notória pioria significativa da circulação, com bichas e demoras a qualquer hora, mesmo quando antes não as havia.

Os automóveis não vão desaparecer, por muito que o discurso politicamente correcto o repita, e o deseje, enquanto não houver alternativas reais: a rede do metropolitano é muito pequena e limitada, sem soluções para a cidade nomeadamente para a parte ocidental,e os restantes transportes colectivos não são fiáveis, nem oferecem muitas vezes, soluções de rapidez e conforto. O automóvel continua a ser o rei dos transportes para quem não tenha uma paragem de metro à porta de casa e outra à porta do trabalho. Nesse grupo está essa grande maioria de cidadãos que usa automóvel na cidade de Lisboa.

O pior é que não percebo o porquê desta política hostil de circulação, nem a razão de acabar com faixas de rodagem. A única explicação que tenho é o surgimento quase espontâneo de pistas de circulação para bicicletas: entre Campolide e a Radial de Benfica, em Telheiras, entre o Estádio da Luz e o Colombo, etc. Vejo carros em bichas, mas até hoje não vi uma única bicicleta. António Costa, que não é burro, não deve, nem nos seus sonhos mais loucos, pensar que vamos deixar de nos deslocar de carro para o fazermos de bicicleta, logo em Lisboa cuja topografia não poderia ser mais díspare da de Amsterdão, ou Londres, ou até Paris. Ninguém em Lisboa vai trabalhar, ou à Loja do Cidadão, ou às compras, ou ao médico de bicicleta. E ao fim de semana, quem quer passear ou fazer exercício escolhe outros locais: a beira rio ou Monsanto. Por isso não se vê uma alminha que seja a utilizar essas pistas para bicicletas, que mais não são do que esbanjamento de recursos. Tudo não passa de demagogia politico-ecologicamente correcta para poder dizer que fez e quer fazer muito pelo ambiente e pela cidade. Tretas, o que faz é redobrar os problemas de trânsito e encher a cidade de elefantes brancos de côr salmão (a côr das pistas para bicicletas).
.
Hoje
.

30.9.09


A guerra com o governo está comprada pelo Presidente da República, e não me parece que tome decisões políticas pensando num segundo mandato, e que tal perspectiva o condicione. Agirá sempre em função do que ele considere (bem ou mal) o superior interesse da nação. Cavaco Silva não é Mário Soares nem Jorge Sampaio.

Adenda: O discurso do PR bem dissecado aqui. A ler também esta nota e mais esta.


Parece que o Governo Francês tomou juízo. Isto de haver cidadãos acima da lei só porque são "conhecidos", fazem filmes, são intelectuais (normalmente de esquerda, pois com os de direita há geralmente menos complacência) ou são "amigos" é um pouco escandaloso em estados de direito.

Espuma dos Dias que Foram 26

29.9.09

Manuela Ferreira Leite e o PSD

Estou certa que após as eleições autárquicas Manuela Ferreira Leite porá o seu lugar de líder do PSD à disposição do partido. Ela sabe que foi derrotada nas legislativas e acredito que ela tem o mérito de não precisar que ninguém lhe lembre esse facto.

Não sou filiada no PSD, nem sou dada a grandes fidelidades institucionais, mas sei que só o PSD pode construir uma alternativa governativa a José Sócrates e ao PS. Por isso não é Manuela Ferreira Leite, com todo o mérito que teve, tem e terá, e respeito que me merece, que será a imagem da construção dessa alternativa. O que ela representa, sim, e isso é um inegável mérito seu: o facto de ser credível, ser igual a si própria, recusar transfigurar-se no que não é, não prometer o que não pode e evitar sistematicamente seguir o script da comunicação social ou responder às suas expectativas. Esta forma, às vezes desajeitada e com erros, concedo, teve sempre “má imprensa” e deu sempre aso a críticas e notas negativas dos comentadores e dessa nova casta (pseudo)-científica e independente (?) a que chamam politólogos. Eles confundem verborreia com facilidade de comunicação, exultam a “coerência narrativa” (palavras caras a Ricardo Costa) esquecendo o debate político e de ideias, confundem discurso populista e simplismo com simplicidade e clareza de intenções e ideias.

Não gosto da política que se fabrica para “ter boa imprensa”, a política dos comícios com música de “criar ambiente” tanto ao gosto do PS, de cenários e de chavões tipo “política pela positiva”. Às vezes gostava que a imprensa desconstruísse esses chavões tentando perceber o que são realmente e o vazio que encerram. Não gosto de políticos excessivamente flexíveis sempre prontos a moldarem-se às ocasiões e às expectativas, definidas pelas agências de comunicação, e esquecendo o essencial da sua política e o supremo interesse do país. O PSD de Pedro Passos Coelho ou de Luís Filipe Meneses não me interessa absolutamente nada, mas como acredito que só nele (PSD) se encontra uma alternativa a JS, espero que encontre um outro líder que, como Manuela Ferreira Leite, seja sério, credível e competente. Não faltarão seguramente candidatos que o sejam e que espelhem melhor a necessidade de renovação do partido que a própria MFL, e antes dela Marques Mendes, se propuseram fazer.

Pior do que ser um político medíocre é ser medíocre, e quando isso acontece não há agência de comunicação ou meios tecnológicos que, por muito que façam e tentem, consigam colmatar esse vazio da mediocridade. Um dia todos veremos que o rei vai nu.
.

28.9.09

São Rosas, Senhor... 6

Andy Warhol
Untitled from Flowers
.

27.9.09

Venceu “o Sócrates”. Venceu o Senhor Engenheiro. Venceu o optimismo de pacotilha, a política feita de belos cenários, músicas que enchem o coração, e frases pensadas, ensaiadas e repetidas ad nauseam. Venceu “ter-se boa imagem”. Venceu o parecer em vez do ser. Venceram as máquinas partidárias que fizeram ganhar ou perder as eleições. Venceram as agências de comunicação. Venceu a relação difícil com a verdade. Venceu o discurso político grau zero. Venceu o marxismo, leninismo e afins.

Venceu mais um tabu de Cavaco Silva.

Que país de treta.

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 41


Segurar um edifício.
.

25.9.09

Ouço comentadores na RTPN - que passou em directo largos momentos do comício de encerramento do PS, incluindo compassos de espera de José Sócrates à saída - a falar de um “outro José Sócrates” que surgiu e aparece desde a derrota das europeias a fazer um trabalho de (re)construção. Menos arrogante, menos "animal feroz". Os comentadores falam nisso como que a louvar essa "mudança", uma inteligente táctica do actual Primeiro-ministro. Ora para mim, é precisamente o contrário: é porque José Sócrates se pode oldar de uma ou outra maneira, de um ou outro estilo, é por causa dessa flexibilidade de “ser”, que eu não o quero mais para Primeiro-ministro. Há também, como é óbvio e como ao longo dos tempos tenho aqui escrito, o problema das suas políticas, ou melhor das suas medidas casuísticas, da sua falta de visão política que se esgota na enunciação do optimismo e determinação - mas tão mau ou pior do que a política que faz, é essa falta de verdade em conseguir ser aquilo que é, essa necessidade constante de ser "outro" conforme as circunstâncias e conforme o guião que especialistas de comunicação preparam para ele.

Tudo o que Manuela Ferreira Leite não é, nem representa.
.

Dando Excessivamnte Sobre o Mar 48

Paul Signac (1863-1935)
Setting Sun
.

24.9.09

Juntos, Quê?

Estávamos à conversa sobre o facto de tudo ter significado (meaning) quando passámos pelo último cartaz “Avançar Portugal”´do PS em versão gigante (que se pode ver aqui). Olhámos o cartaz e perguntei o que é que um político de braço esticado lhe fazia lembrar. Hitler, foi a resposta imediata. Lembrei também Mussolini, Lenine e Kim Ill Sung retratados em conhecidas estátuas sempre com um braço à frente - porque nada é inocente nunca, muito menos em campanhas profissionais pensadas ao milímetro, e que gestos e palavras nos remetem para significados que cada um encontra na memória, ou por associação de ideias, seja como for que não sou psicóloga. A imagem de ditador que pode surgir é imediatamente suavizada pelo sorriso e pelo polegar "fixe" e optimista, reforçando o sentido da determinação e autoridade em detrimento da repressão. A fotografia feita para apanhar José Sócrates levemente de lado dá um registo de informalidade e “glamour”. Resumindo a fotografia tentar dar-nos informação sobre tudo aquilo que José Sócrates pensa que é, e tudo o que ele quer que pensemos que é. Não me lembro de ter algum dia visto cartazes tão cuidados como estes do PS.

Depois vem a parte afectivo-colectiva e pirosa do cartaz. O verde e o vermelho a lembrar a bandeira nacional, com José Sócrates no meio, qual esfera armilar. A essência do “ser” português, o Portugal que se confunde com ele, o Portugal no centro da sua decisão, e José Sócrates no centro da nossa vida, o “rei-sol”, a nossa identidade, a salvação. Quanta presunção num só cartaz!

Finalmente a mentira: o sempre presente “nós” do “Juntos Conseguimos” que simplesmente não existe, e pelo qual ele tem desprezo, por muitas criancinhas e velhinhas que beije na campanha. José Sócrates sempre esteve só na decisão, nas rédeas do poder, e no seu pedestal, e o seu horizonte quer visual quer político, de decisões e projectos, deve ter pouco mais de 50cm de diâmetro o que o tem tornado cego para a realidade do “nós” dos portugueses. Ele só perceberá, (que a vida é cruel por muito optimismo que se ingira em cápsulas ou mantras) o quão só está quando perder eleições.

O "conseguimos" um intemporal modo verbal (passado e presente que se projecta para o futuro), é todo um programa. Ao certo o que é que "conseguimos" nestes últimos 4 anos? O que é que ao certo "conseguimos" hoje e nos próximos 4? Estas são as perguntas certas a fazer. Pois conseguir nos próximos 4 anos o que "conseguimos" neste últimos é uma perspectiva nada animadora. Se respondêssemos seriamente a estas questões, José Sócrates nunca deveria ganhar as eleições do próximo Domingo.
.

21.9.09

Caro Gabriel Silva, trata-se de uma dessas afirmações que não dizem nada. O que interessa é saber se é melhor que vença o PS ou que vença o PSD, mesmo que não mereça (este "mereça" é todo um programa). Enquanto se espera a perfeição ou El Rei D. Sebastião o país vai-se afundando cada vez mais em dívida e a liberdade vai encolhendo até se revelar mais um conceito de plástico. Agora é escolher.
(Em comentário ao post do Blasfémias)



Para além do que se diz aqui e aqui, seria interessante saber se para além da “alegada” “agenda política oculta do Público” existe uma agenda política “oculta” do Provedor do Público. Agora os esforços do Público devem concentrar-se em saber quem é que disponibilizou os emails internos do Público ao DN e ao Expresso, porque sendo o jornal Público o outro dos alvos a “abater” de José Sócrates - uma vez que a TVI já foi - criar no jornal um clima de trabalho onde impera a suspeição, divisão e desconforto é uma boa forma de começar. Só não vê quem não quer.
.

20.9.09

A Espuma dos Sias que Foram 26

Alegado

Alegado(a)(os)(as) é uma palavra sem a qual seria impensável viver no nosso país. Há meses que “alegado” entrou de rompante no nosso vocabulário. O “alegado” é um ersatz da verdade, que em democracia é normalmente apurada pela investigação e pela justiça, verdade essa que , ninguém realmente procura ou quer, pois tem sido sistematicamente substituída por “alegados” qualquer coisa, que inundam os meios de comunicação social, e o pathos colectivo. São “alegados” os faxes, os e-mails, as pressões, as conversas, as acusações, as intenções, os negócios, etc.

Parece que vivemos de “alegado” em “alegado” e que a comunicação social a um ritmo constante alimenta os seus leitores e ouvintes de novos casos onde abundam os “alegados” que fazem os casos dos quais eles, e nós, vivemos. Este período de campanha eleitoral tem sido especialmente fértil em casos concentrando-se pouco no debate sobre o essencial: José Sócrates governou bem nos últimos quatro anos ou governou mal? Porque é que não governou bem, o que fez mal, o que não fez. Se governou bem o que é que fez. O país está melhor? Os portugueses estão melhores? Queremos ou não queremos que ele seja o próximo Primeiro-ministro? Estas matérias estão sistematicamente ausentes das primeiras páginas dos jornais, e do debate público, nomeadamente televisivo porque os casos e os respectivos “alegados” enchem a campanha. Já foi assim após os debates televisivos entre os líderes partidários em que os comentadores se concentravam sobretudo em aspectos formais ou no caso e nos “alegados” do dia. Mas como o país está anestesiado e habituado a seguir um caso e respectivos “alegados” após o outro, já nem estranha a ausência de um verdadeiro debate político, nem o reivindica
.

18.9.09

Ontem na Quadratura do Círculo, António Costa afirmou saber de onde ressurgem as notícias (já antigas) da compra de votos no PSD de Lisboa, e afirmou peremptoriamente que elas tinham origem dentro do próprio PSD. José Pacheco Pereira anuiu com um acenar de cabeça, e essa afirmação deu origem a uma intervenção de António Lobo Xavier sobre o PSD, destacando o facto de dentro do PSD haver uma intensa, feroz e fratricida campanha contra Manuela Ferreira Leite, ao ponto de um determinado sector do PSD, conhecido e com rosto, preferir a vitória do PS de José Sócrates à vitória de MFL. ALX foi muito claro e os outros presentes não só não protestaram como estiveram de acordo. Nada que não se soubesse ou percebesse pela marcação cerrada feita a MFL e pela constante má-fé com que ela é olhada, seus actos dissecados e suas palavras criticadas e objecto de interpretações criativas. Mas agora que tudo foi dito, explicado e afirmado nomeadamente por pessoas que representam sectores e interesses diversos do espectro político nacional, parece que já não sobram dúvidas a ninguém.

Por isso creio que vale a pena repetir alto e em bom som, e - parafraseando Paulo Portas na sua frase fetiche desta campanha – falando claro e em bom português:

NINGUÉM ESTÁ MAIS INTERESSADO NUMA DERROTA DE MANUELA FERREIRA LEITE – E NA CONSEQUENTE VITÓRIA DE JOSÉ SÓCRATES - DO QUE UM CERTO SECTOR DO PSD.

Aguardo os desmentidos na comunicação social.
.

Amanhecer 16

Há uns dias
.

17.9.09

Erros Políticos e Casos Mediáticos

No Delito de Opinião, Pedro Correia faz um exercício em que enuncia os dez maiores erros de Manuela Ferreira Leite e os dez maiores erros de José Sócrates, mas eu creio que tal exercício se revela faccioso uma vez que coloca os supostos erros de MFL ao mesmo nível dos erros de JS. Isso não é, nem pode ser visto assim. José Sócrates, para o bem e para o mal, (muito mais para o mal do que para o bem, na minha opinião) é o Primeiro-ministro do país e compete-lhe governar e tem que ser responsabilizado pelo resultado da sua governação. Os erros que Pedro Correia lhe aponta e cujo enunciado não discordo em termos genéricos (embora faltem alguns importantes como a sua complicada relação com a verdade) são por vezes abordados de uma forma mais superficial e casual (TVI e Público) não expondo, por exemplo, a sua política de controle (cartão do cidadão, chip do carro), possíveis escutas, controle da RTP e influência nítida noutros órgãos de informação, pressões sobre a justiça; nem expondo a sua política de anúncios e medidas diários e encenações coreografadas, a abundância legislativa de qualidade duvidosa, entre outros casos. São omissões que me parecem importantes, pois definem um estilo de política e uma forma de ser político.

Manuela Ferreira Leite, não tem, nem pode ter, o mesmo curriculum de “erros”, eles não têm o mesmo peso e resultado dos erros de JS. Não são comparáveis sequer e listá-los como iguais parece-me uma forma de distorcer a realidade e absolver a responsabilidade de José Sócrates enquanto Primeiro-ministro. MFL apresenta-se como alternativa a Sócrates. Os seus erros listados por Pedro Correia, e com os quais não concordo (com excepção do erro nº 3, e parcialmente com o nº8), não são erros políticos, nem de política com excepção do caso nº2, que é uma opção da líder. Ao contrário dos erros de José Sócrates - estes são "casos", presunções e ilações tiradas por comentadores e opinadores, e não factos políticos. Nem sequer são enunciados erros sobre as políticas propostas no programa de governo, ou falhas - específicas -do mesmo. Só se apontam “casos” em vez de políticas. Confundir, num óbvio lapso IRC com IRS não pode ser encarado como um erro político, só um preconceito contra MFL pode explicar que se olhe para esse lapso como um erro e que possa ser comparado com os erros de José Sócrates.

Eu sei que a comunicação social se ocupa mais dos “casos” do que da política, e vive dos “casos”, para os quais tem sempre apontado um microfone e virada uma câmara, e que são mais mediáticos e fáceis e menos incómodos e "difíceis" do que a política. Assim, e nas televisões, rádios e jornais vemos sucederem-se “casos” uns atrás dos outros. Todos parecem querer esquecer o que realmente está em causa, como diz João Gonçalves, e que o que vamos julgar é o governo de José Sócrates, olhando para o país e vendo que está pior hoje do que há quatro anos atrás. O voto vai sobretudo dizer se queremos mais do mesmo. Como se costuma dizer, em democracia são sobretudo os governos que perdem, e não as oposições que ganham. Por isso, e por muito que a comunicação social queira com a sua intolerância, impaciência e má fé face a MFL, não são as suas supostas (ou não) gaffes, lapsos, comentários menos felizes, casos (alegados ou não) ou até um raciocino imediatamente toldado por uma sintaxe incompreensível, mas que deu luta e teve graça, sem tentar ser engraçada, na entrevista dos Gatos Fedorentos, que vão a votos. José Sócrates e o que ele fez em quatro anos de governo é que sim.
.

15.9.09

Dias de Verão 15

Pierre Bonnard (1867-1947)
Earthly Paradise
.

13.9.09

A Problemática das Marquises

Logo nos primeiros momentos do debate de ontem, Manuela Ferreira Leite marcou pontos, distanciando-se do seu rival José Sócrates ao expor de forma ousada e frontal a sua “credibilidade” de uma vida construída com trabalho, quer académica quer profissionalmente. Houve quem lhe levasse a mal tal exposição (preferiam certamente vê-la a dizer que chora a ver filmes românticos no programa “como nunca os viu" da SIC). Houve quem o considerasse falta de delicadeza, coisa que não se entende, pois ela tem todo o direito de se orgulhar do seu percurso académico e profissional. Que culpa tem ela de não ter assinado projectos de marquises ,nem de ter tirado uma licenciatura a um Domingo ,nem tão pouco de ter feito uma cadeira universitária de Inglês Técnico por fax? É isto que melindra os comentadores e opinadores, porque há um pacto de silêncio sobre o percurso do Primeiro-ministro e lembrá-lo desagrada a José Sócrates. So what? Mas porque teria MFL que se calar e pactuar com esse silêncio? Não só fez bem, como se demarcou de um certo estilo de “ser” que ela não "é". Mostrou frontalidade e coragem, valores pouco usuais neste país de consensos, paninhos quentes e amiguismos. Mas a sua frontalidade não ficou por aqui.

Ao longo do debate MFL marcou pontos trazendo a política para a mesa e deixando de lado a propaganda, a demagogia e as frases decoradas tão do agrado de JS. Foi assim na análise que fez da economia portuguesa antes da crise internacional ousando dizer que esta só foi boa para JS que se serve dela para esconder as suas más políticas económicas e justificar os maus indicadores económicos nacionais. Foi assim ou lembrar a recusa de José Sócrates em ver a crise económica internacional e reconhecê-la tarde. Foi assim ao recusar falar de casos da justiça, mesmo em seu benefício. Foi assim com a crítica que fez a JS de não ter falado toda a verdade sobre as pensões, a desvalorização das ditas até 50%. Foi assim sobre a pressão espanhola no caso do TGV, apesar de ter sido um pouco confusa a formulá-lo. Foi assim sobre a política económica da ajuda e do subsídio em vez de uma política de promoção da riqueza, que lhe valeu um momento genuino e politicamente incorrecto, e por isso tão criticado quando menciona o caso da criança que mata os pais para se dizer orfã, perante o ar escandalizado e reprovador de José Sócrates, o guru do politicamente correcto. MFL não é fotogénica, nem tem talento retórico para embasbacar os simples nem tão pouco para agradar a quem (por má fé, ou incapacidade) não queira perceber o que ela diz. Mas as suas ideias políticas são claras como água, e quando não são ela diz que não sabe, que não promete, que não se pronuncia. Manuela Ferreira Leite pode não resolver os problemas todos do país, nem é um génio político infalível, mas é credível, frontal, educada apesar de não ceder a nenhum tipo de complacências, e colocou quase sempre José Sócrates à defesa.
(continua)
.

12.9.09

Espuma dos Dias que Foram 25

11.9.09

Os Políticos que Choram

Esta mania de fazer entrevistas a políticos em que à viva força se tenta encontrar a “outra face” deles, o seu “lado escondido”, deve ter um propósito qualquer que, para além do básico voyerismo à maneira do reality-show que parece dar audiências, me escapa e cujo objectivo político, por mais que tente, não entendo. Mas deve ser problema meu. Falo dos programas da SIC que passaram esta semana às 19h. Não vi um programa sobre Manuela Ferreira Leite, nem sei se ainda o vão passar, ou se não o fizeram.

Pergunto-me se é interessante ou proveitoso saber que os nossos políticos choram todos (surpresa!) nomeadamente a ver ver alguns filmes românticos, José Sócrates gosta de finais felizes (o optimismo sempre em alta), Jerónimo de Sousa (que lembrou a comoção de E Tudo O Vento Levou) também confessou preferir finais felizas e destacou a ternura e as qualidades humanas que triunfam nalguns deles. Louçã – mais à vontade nos transportes públicos do que na sua casa - considerou o E.T. um dos filmes românticos do nosso tempo. Também me questiono sobre a utilidade de ouvir uma prelecção estéril e oca de José Sócrates sobre o humor “fino” e outra sobre poesia, ouvindo-o falar do seu deleite a ler a Ode à Noite (palavras dele que eu não sei bem a que se refere) de Ricardo Reis e como seria interessante instituir (ou obrigar, não lembro a palavra, mas a ideia era esta) nas escolas, presumo, uma hora de leitura diária de poesia. Nem comento a ideia de “obrigar” que isso é uma segunda natureza para José Sócrates, mas penso só o quão divertido isso seria em alunos que só no 9º ano de Português têm o primeiro contacto formal com os clássicos da nossa literatura.

Como se isto não bastasse vimos em pormenor o sashimi e sushi que Paulo Portas – que parecia bem à vontade neste registo - ia comer e cujo paradeiro o preocupou e ficamos a conhecer as propriedades terapêuticas (palavras minhas) que o design de interiores tem para ele, nomeadamente quando se afastou da política. Churchill, Corto Maltese e Sharon Stone são personagens marcantes para ele. A ideia da entrevistadora de interrogar os netos de Jerónimo de Sousa, sobretudo o mais velho, sobre se gosta de ver o avô na televisão, se é amigo do avô, se gosta do avô, se lhe diz que o gosta de ver na televisão, porque é que é amigo dele, e porque é que gosta dele, não lembra o diabo. Para quê tanta pergunta e insistência a uma criança tão nova? Que interesse pode isso ter? Poderia citar outros exemplos de banalidade disfarçada de ver “como nunca vimos” os nossos políticos, mas creio que estes chegam.

A concepção do programa é desinteressante, sobretudo em época eleitoral onde há pouca inocência e muito combate político e nada se faz ou diz sem ser medido e pesado; para além disso a entrevistadora não ajudou: deu pouco espaço aos sujeitos do programa e forçou demasiado a porta da casa (a intimidade) para além de ter adaptado pouco o registo a cada um dos entrevistados, repetindo e insistindo nas mesmas perguntas: parecia obcecada por saber se os políticos choravam, e por saber se eles já tinham excedido os limites de velocidade. Como se isso revelasse algo inédito e como se alguém se surpreendesse. Tudo espremido fica pouco: meia dúzia de lágrimas, que nesta altura mais não são do que de crocodilo.
.

10.9.09

Dias de Verão 15

Pablo Picasso
Nude under a Pine Tree
.

9.9.09

O Preço da Compaixão

Enquanto que por cá se debate e se debatem os debates e se espera pelos debates, algo de verdadeiramente bizarro se passa noutro canto no mundo. Desta vez em África, Primeiros-ministros africanos reunidos para celebrar o 10º aniversário da União Africana, aplaudem Megrahi que em 1988 fez explodir o voo da Pam Am sobre Lokerbie matando 270 pessoas. Os escoceses libertaram-no por uma questão de compaixão. Ele é recebido na Líbia como um herói e é aplaudido por solidariedade. Solidariedade porquê? Por ter cometido um acto terrorista em que matou 270 pessoas inocentes? O mundo está perigoso. Nada que realmente nos devesse surpreender. Só quem teima em não ver os sinais pode fingir espanto, pois eles andam por aí, e não faltam exemplos como a recente polémica em França dos “burkinis” e seu acesso (ou não) às piscinas municipais. É só uma questão de não querer fechar os olhos e de não olhar para o lado. O pior, e o que mais nos ameaça, é ter que medir o preço da compaixão (um valor que tem o seu lugar na nossa sociedade) pois pode começar a ser demasiado elevado.
.

A Espuma dos Dias que Foram 24

(Clicar para aumentar)
.

É verdade que José Sócrates “encostou” Francisco Louçã e ainda bem. À custa do seu (de JS) conforto da obra feita, uma convicção sua (de JS) que empenhadamente acarinha, e do delírio dos números bem trabalhados e estudados – gostei especialmente dos 130.000 empregos criados pelo governo, (por ele JS), antes da crise internacional, número que até agora não vi ninguém contestar ou pelo menos pedir uma explicação. Mas José Sócrates tem a vantagem de estar no poder e de decidir, algo que FL nem em sonhos nem em delírios imagina como seja. É essa leviandade que lhe (FL) permite abrir a boca e aceleradamente encadear frases demagógicas umas atrás das outras, que esbarraram nalguma realidade do poder e de quem (bem ou mal) decide. Claro que a visão da realidade e do país de José Sócrates é muito artificial e muito feita em laboratório de imagem e marketing, o que por vezes nos dava a sensação de ouvir um debate sobre uma outra dimensão, outro país, outra realidade, tão longe estavam os dois do país real. Um exemplo desse “desfasamento” foi a preocupação (ouvida pela primeira vez) de JS com a classe média e o cuidado em a demarcar do cliché “os ricos”, repetido ad nauseam ao longo da sua legislatura e inspiração para coisas absurdas que empobrecem ainda mais e pobre classe média como a “taxa Robin dos Bosques”. Outro exemplo é a afirmação de JS sobre (cito de cor) a maior crise do século no mesmo dia me que o INE anuncia o fim da recessão técnica ( a expressão “técnica” é toda um programa). Afinal onde estamos?
.

7.9.09

Hoje Tropecei Nisto...

... Que se pode ver AQUI e AQUI.
.

No debate de ontem entre Manuela Ferreira Leite e Francisco Louçã, era impossível não notar, por trás de uma atitude calma e tranquila, a impaciência – ou mais prosaicamente falando, a falta de pachorra, pois é disso que se trata - de MFL face ao discurso de FL. Francisco Louçã é um desses talentos falantes com qualquer coisa de mecânico e automático que parece só precisar que se insira uma moedinha para termos o benefício de um discurso empolgado e retórico, cheio de palavras frases feitas e ideias de esquerda marteladas para ouvidos modernos e ressabiados ou para aqueles que ainda não se tenham conseguido libertar do “complexo de esquerda”. Não importa a verosimilhança do que diz, o compromisso responsável do que propõe ou a honestidade interpretativa de coisas que só ele lê onde elas não estão. Tudo isso é secundário face ao caudal inesgotável (e tão irritante, meu Deus) de palavras que lhe saem da boca. MFL não sabe bem lidar com isso: não lhe está na natureza, e parece não ter interesse em querer aprender e saber dialogar “ao metro”. Momentos houve, no debate, em que me pareceu notar nela umas pequeníssimas pausas, como que uma “ausência” brevíssima de quem ainda não acredita que está ali, a debater com aquele que não se cala mas que diz nada (eu sei que este “nada” seria merecedor de um outro texto, mas o ataque aos “ricos” e os temas “fracturantes”, entre outros, já têm sido merecedores de atenção) e do qual tudo a separa. Um bom treino para o debate com José Sócrates.

12.8.09


Até um dia de Setembro
.
.

Dias de Verão 14

Gustav Klimt (1862-1918)
Rosiers sous les arbres

.

Leitura de Verão


Mão amiga fez-me chegar, via Amazon, este simpático livro que olha para o cérebro feminino e mostra o quão diferente ele é do masculino. Nada que nós mulheres, que o somos porque temos um corpo de mulher, ao longo dos tempos não tivéssemos vindo a perceber. Mas até esta intuição, que não precisou de grandes estudos científicos, este gut feeling é explicado,

Gut feelings are not just free-floating emotional states but actual physical sensations that convey meaning to certain areas in the brain. (…). The areas of the brain that track gut feelings are larger and more sensitive in the female brain, according to brain scan studies. Therefore the relationship between a woman’s gut feelings and her intuitive hunches is grounded in biology. (Segue-se uma descrição científica sobre os circuitos e a química cerebrais que me abstenho de transcrever).

Assim, e de uma vez por todas, arrumamos com o feminismo dominante dos anos 70 que pretendia unisexizar tudo e incutir às mulheres a ideia de que elas eram iguais aos homens, incitando-as a fazerem o que os homens faziam segundo as regras por eles estabelecidas ao longo de milénios. Nunca conseguiram estabelecer a diferença entre igualdade tout court e igualdade de oportunidades e direitos. Foi pena. Perdeu-se muito tempo e a sociedade não ficou melhor por isso.

The biological reality, however, is that there is no unisex brain. The fear of discrimination based on differences runs deep, and for many years assumptions about sex differences went scientifically unexamined for fear that women wouldn’t be able to claim equality with men. But pretending that women and men are the same , while doing a disservice to both men and women, ultimately hurts women. (…) Assuming the male norm also means undervaluing the powerful, sex-specific strengths and talents of the female brain.

Estes livros científicos pensados para o grande público e convertidos em best-sellers, feito em que os norte-americanos são exímios, conseguem ser boa leitura. Porque sérios e credíveis para percebermos que não lidamos com videntes, curiosos ou gurus espirituais de uma qualquer escola de auto-ajuda, e porque permitem uma leitura apelativa. A obra é pensada para o leitor: desde a estrutura do livro aos exemplos dados, tudo se lê facilmente, com interesse e bem. Há momentos especialmente engraçados (o capítulo sobre a adolescência é uma mina deles) e o capítulo “The Mature Female Brain” é particularmente interessante. Podem-se, nestes capítulos ler coisas como:

Every brain begins as a female brain (...) it only becomes male eight weeks after conception when excess testosterone shrinks the communication centre, reduces the hearing cortex and makes the part of the brain that processes sex twice as large.

Ou

Connecting through talking activates the pleasure centers in a girl’s brain. Sharing secrets that have romantic and sexual implications activates those centers even more. We’re not talking about a small amount of pleasure. This is huge. It’s a major dopamine and oxytocin rush, which is the biggest, fattest neurological reward you can get outside an orgasm. (…) It keeps them motivated to seek these intimate connections. What they don’t know is that this is their own special girl reality. Most boys don’t share this intense desire for verbal connection. (…) Girls who expect their boyfriends to chat with them the way their girlfriends do are in for a big surprise. (…)The testicular surges of testosterone marinate the boys’ brains. Testosterone has been shown to decrease talking (…). In fact, sexual pursuit and body parts become pretty much obsessions.

Ou

A menopausal woman becomes less worried in pleasing others and now wants to please herself. This change (…) is triggered by a new biological reality based in the female brain as it makes it’s last big hormonal change of life. (…) She’s less interested in the nuances of emotions; she is less concerned about keeping the peace; and she is getting less of a dopamine rush from the things she did before, even talking with her friends.

Estes são alguns excertos, uma pequeníssima amostra deste livro interessante sério e de fácil leitura. Registo, no entanto, as sempre presentes intenções pedagógicas e a pontinha moralista tão características destas obras norte-americanas. Mais uma tentativa – entre tantas já feitas ao longo dos séculos (a psicanálise, por exemplo a que tantas mulheres recorreram sabe Deus porquê) com ou sem base sólida científica - de melhorar o relacionamento entre homens e mulheres (em saudável monogamia, claro) através do conhecimento científico e aprofundado do cérebro feminino e das suas diferenças biológicas e químicas em relação ao cérebro masculino. Este conhecimento permitiria quer à mulher quer ao homem, uma maior compreensão do cérebro feminino ao longo dos anos que deveria ser usado para melhorar os relacionamentos. Talvez assim, homens e mulheres juntos, consigam finalmente, mais depressa e melhor serem felizes para sempre. Nunca se sabe...
.

6.8.09

Olhei para o Céu 2

Ontem
.

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com