“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

2.2.10

Parece que afinal a “asfixia democrática" sempre existe, se até o Expresso, na voz do seu director, já diz que
diz também que
e ainda acrescenta
Manuela Ferreira Leite, a eterna desprezada, a bota-abaixista - entre outros qualificativos, claro - parece que não errou uma declaração, uma previsão.

Sobram dúvidas sobre o tipo de Primeiro-ministro que temos? Os casos passados e este não bastam ainda para discernir um padrão? Acredito que os próximos dias sejam férteis em revelações. Diz-nos a História que a tendência dos homens do poder de chamarem “loucos”, “paranóicos” ou psicóticos a precisar de apoio, a todos os que lhe fazem frente, contradizem e mostram oposição é um mau sinal.

Há um cheiro pronunciado a declínio – a fim. Será que chegamos ao princípio do fim?

31.1.10

Amanhecer 23

Hoje


Dos Blogues

A curiosidade aqui expressa sobre o modo de funcionamento dos blogues colectivos é a que eu também nutro há muito. Aliás já aqui confessei várias vezes a minha preferência, em abstracto, por blogues individuais, ou pelo menos por aqueles que, sendo colectivos, deixam transparecer de maneira inequívoca a individualidade, a forma e o tom de cada um dos elementos. Eu também nunca percebi como funcionam os blogues com dezenas de colaboradores nem como se organizam e gerem, nomeadamente nos exemplos dados neste post e já vi/li demasiadas dissidências para acreditar que “tudo” se faz “naturalmente”. As estruturas informais (palavras de Miguel Castelo Branco) parecem-me facilmente permeáveis a mal-entendidos, equívocos e susceptibilidades várias, que se vão acumulando e que não sei como são contornadas e/ou resolvidas. Às vezes não são, como já todos nós (bloggers) testemunhámos, e a dissidência pode tomar contornos bem pouco discretos. Mas não é só o modo de funcionamento dos blogues colectivos que me deixa perplexa no mundo dos blogues, colectivos ou não. Há outros aspectos:

As caixas de comentários.
Há-as para todos os gostos e feitios. Confesso que visito pouco caixas de comentários, pois rarissimamente vi nelas alguma discussão que merecesse, e fosse linear, ser seguida. Há no entanto diferenças significativas entre as caixas de comentários dos diferentes blogues. Umas são as que considero laudatórias: sobretudo usadas por outros membros do blogue e alguns fieis leitores desse mesmo blogue cuja função principal é louvarem-se mutuamente usando ao infinito expressões e formas várias de dizer “ai que giro!”, “gostei muito”, “obrigado por” ou “bom post”. Neste casos lemos facilmente uma ou duas dúzias de comentários que nada dizem a não ser estas banalidades: às vezes até me pergunto se não haverá uma política concertada de louvor para aumentar as audiências do blogue, uma vez que parto do pressuposto que quem escreve em blogues é suficientemente autónomo e “crescidinho”, e não precisa propriamente de ser incentivado ou acarinhado paternalisticamente.

Outro tipo de caixa de comentário são as abusivo-insultuosas. Estas geram grandes dezenas (às vezes ultrapassam a centena) de comentários e são sobretudo, mas não exclusivamente, frequentadas por aquilo a que chamaria de anónimos “puros e duros”. Insultam quem escreve o post, treslêem o que está lá explícito e constroem todo um pressuposto implícito impossível de ver a olho nu, e que muitas vezes é mostra de pura má fé. Postam um comentário a seguir ao outro, a um ritmo que atordoa e intriga. Este exercício, de gosto duvidoso e propósito nulo, de liberdade – que é como lhe chamam - rima pouco com responsabilização e é absolutamente dispensável a não ser que, neste caso também, as audiências fomentadas por estes verdadeiros ninhos de vespas sejam elas, mais do que a discussão livre, o objectivo. Há ainda outros tipos de caixas de comentários, por exemplo aquelas cheias de “private jokes” entre comentadores ou/e elementos do blogue que, podem ter graça para quem as faz, mas interessa pouco a quem as lê. E finalmente há as caixas bizarro-conspirativas: comentadores estranhos vindos não se sabe de onde que enchem as caixas de links para sites estranhos pejados de conspiração: muito cheias de névoa.

As listas de links.
As barras laterais das listas de links são outro dos elementos dos blogues que parecem ter vida e códigos próprios. Nem sempre os entendo. Por exemplo, nunca percebi porque, ao fim de dois ou três anos e sem que nada se tenha modificado nas opções, no estilo ou no tom do blogue em causa, se exclui um blogue da lista de links. Como quem tem um blogue faz o que quer e bem lhe apetece do dito, esta estranheza minha é realmente só isso: pura estranheza. As listas de links são também elas propícias a gerar “links de cortesia” de outros blogues incrementando assim as audiências de ambos, e dando visibilidade ao tráfico que conseguem gerar. Ao contrario das caixas de comentários que visito pouco, eu uso muito as listas de links dos outros blogues e já sei que blogues têm os links para este o aquele outro blogue que gosto de visitar, por isso noto qualquer alteração.

As audiências.
Sempre presentes como quem mede o tamanho disto ou daquilo. É justo. Um dos interessantes objectivos – tantas vezes claramente enunciado – de vários blogues da esquerda à direita é conseguirem ultrapassar as audiências do Abrupto que, por sinal, é um blogue individual. Tal fixação leva-me a concluir que se toda a balança tem o seu fiel, todo o blogue tem o seu Abrupto.

25.1.10

Dando Excessivamente Sobre o Mar 49

Joseph M. William Turner (1775-1851)
Fishing Boats with Hucksters Bargaining for Fish.
(clicando aumenta)

Lembro quando na minha (pós) adolescência, e do alto da minha sapiência (sempre), afirmava não gostar de pintura, talvez como contraponto ao meu gosto pela música e literatura, formas de arte e de expressão sem as quais eu não “saberia” viver. Poucos anos depois, e inesperadamente porque não gostava de pintura, não é?, senti na pele, nos joelhos e nos olhos, o efeito dos frescos da Capela Sistina. Tudo mudou, e desde então tem sido sempre com prazer imenso que folheio livros, vou a museus, e hoje que procuro, aprendo e escolho pinturas para o blogue. De vez em quando, num museu, num livro, na internet, há um quadro que absolutamente prende a minha atenção e me leva. Este é um deles.

Nada de Novo

Em matéria de saúde, e sobretudo quando o binómio vida/morte é equacionado, as decisões dos indivíduos tendem a ser conservadoras, isto é, confiam nas instituições da área: governos e organizações (Ministérios e Serviços de Saúde Estatais, OMS,...), nos profissionais (médicos, investigadores, enfermeiros,...), nas indústrias (farmacêutica) e nas empresas (hospitais, clínicas, ...), que acreditam estarem melhor informadas e habilitadas na recomendação de uma terapia ou de uma prevenção. Os indivíduos também acreditam, porque a vida fica muito mais fácil assim, que essas instituições quererem o bem das populações em geral e do indivíduo em particular, esquecendo tantas vezes que a saúde é mais do que uma preocupação individual, é também e/ou sobretudo um negócio, um grande negócio, que qualquer negócio existe para ter lucro, e que qualquer decisão ou medida governamental ou individual tem um custo. Como o paciente/doente é conservador na hora de optar, é-lhe muito mais fácil decidir não tomar a medicação para uma constipação do que decidir não fazer quimioterapia quando confrontado com uma doença oncológica ou até, e por exemplo, decidir não seguir o plano nacional de vacinas para si e para os seus filhos. A pressão institucional e social é forte e aumenta, tal como a incerteza e medo do paciente, nos ditos casos em que o binómio vida/morte está mais patente.

Na hora em que se fazem balanços sobre a gripe A e a suposta pandemia que (ainda?) não foi, há questões que e levantam, para além da óbvia e necessária reflexão sobre “quem é que mais lucrou com esta situação?”, ou dito de outra forma “follow the money”. Uma delas é a sensação de que às vezes, mais do que o indispensável, mas nem sempre firmemente conclusivo e sustentável saber científico, as decisões dos indivíduos são formadas por uma forte convicção ou por uma fé inabalável. No caso da Gripe A, a classe médica bem como as classes dos restantes profissionais da área da saúde mostraram-se divididas quanto à inocuidade e necessidade da vacina desenvolvida em tempo recorde pela indústria farmacêutica, e expuseram ao público a dissonância que existia no seio dessas instituições, em quem os indivíduos tanto confiam. Neste caso elas falavam a diferentes vozes; basta lembrar por exemplo o número de médicos e de enfermeiros que recusou ser vacinado. Todos nós conhecemos algum. Ao contrário dos profissionais de saúde, os governos que tomaram uma decisão política sobre a Gripe A, e serviços administrativos da área da saúde falaram (perceber o porquê será também interessante) com convicção e firmeza. Opiniões divididas, em quem se acredita?

A atenção dada pelos meios de comunicação a cada novo caso confirmado, primeiro no México, depois nos EUA, depois na Ásia, na Europa, em Espanha e finalmente em Portugal, ou a uma morte – como se se anunciassem nos media outras mortes, resultantes de doenças igualmente contagiosas, como a gripe sazonal, ou não, foi demasiada e por um longo período de tempo. Houve também um excesso de comunicados ou intervenções diários dos responsáveis nacionais pelos serviços de saúde, no caso português já ninguém conseguia ver e ouvir Francisco George, que cansaram uma população que depois do impacto inicial depressa percebeu que a maioria dos casos de gripe A se resolviam, felizmente, como qualquer outro caso de gripe: cama, repouso, paracetamol e alguma paciência, o que foi afastando progressivamente a equação vida/morte do caso da gripe A. Não houve por isso razão para ter uma forte convicção ou uma fé inabalável. Sobram, isso sim, milhões das vacinas compradas pelos governos que agora tentarão vender, provavelmente e comme d’habitude, a quem não precisa. Nada de novo.

24.1.10

Up in the Air


“Nas Nuvens” transporta-nos muito pouco para “as nuvens” e muito para um mundo ácido, muito vazio e solitário. Aliás a tradução de “Up in the Air” para “Nas Nuvens” pode prestar-se a algum equívoco, uma vez que “estar nas nuvens” é uma expressão que, em português, descreve uma sensação ou um sentimento de contentamento, algo alheio ao espírito do filme. Já o vi descrito como uma comédia, mas o riso que provoca, se é que o provoca, é amargo e todo o filme tem uma presente, embora nem sempre explícita, dimensão de hostilidade que causa estranheza e incómodo. Algumas cenas deste filme inteligente são memoráveis, as personagens também, a de Clooney (sim, confirma-se mais uma vez: é um excelente actor) e as femininas que são muito bem (re)tratadas e interpretadas, e que expõem a supremacia da imagem, da aparência e da eficiência do mundo que retrata e que, inevitavelmente, cada vez mais nos é familiar. As personagens se por um lado criam esse mundo, por outro vêem-se também, num momento ou noutro, reféns dele. E... O melhor é mesmo ver o filme.

21.1.10


Ao contrário do que se diz aqui, creio que não vamos precisar de esperar pelo que dizem os bloggers sobre o “evento” do jovem político cujo livro, de que ninguém se lembrará daqui a um ano ou dois, é lançado hoje. As televisões não tardarão a encher os ecrãs da juventude e mudança que serão amplamente apregoados, estou certa. No entanto é pena “aquilo” do Sá Pinto, outro jovem que nunca desilude, que poderá, logo nas televisões, roubar algum protagonismo.

Enquanto isso, Manuela Ferreira Leite, avalia o Orçamento de Estado para 2010; mas o OE não é notícia que abra jornais televisivos.


20.1.10

Amanhecer 22

Hoje, depois de semanas de cinzento.

19.1.10

Pedro Passos Coelho teve hoje a seus pés (vi na televisão) uma comunicação social atenta, agradecida e obrigada na apresentação do seu livro com título de inspiração obamiana e com capítulos de títulos giros, tipo “De Boa Saúde”. Depois do que li nesta notícia do “i”, gostei especialmente da parte sobre “medicamentos”. Uma proposta interessante numa área e com uma classe com quem tem sido fácil para os governos trabalhar.

É tão fácil pôr meia dúzia de chavões políticos simpáticos e razoavelmente consensuais em livro. Mas desengana-te Manuela, tu, mesmo que escrevesses os Lusíadas, só terias direito a 22 segundos de notícia e 15 de filmagem que, por coincidência seriam na altura precisa em que a tua cara estava numa posição estranha.

Godspeed

Vou sentir a falta daquela que tem sido uma das minhas preferidas protagonistas de vários posts fotográficos. Falhei a partida, mas talvez consiga registar o regresso daqui a 11 meses.

16.1.10

Espuma dos Dias que Foram 30


Um Estilo

Não quero, não consigo e não gosto do “estilo” José Sócrates. Ontem, na AR, aquele que sistematicamente se diz vítima de calúnias e ataques pessoais foi, mais uma vez, deselegante no seu ataque à líder do PSD - a propósito do PEC - com pequenas e maldosas, insinuações do género: “É tudo muito simples para quem já desistiu de liderar (...) e para quem quer ir embora” (ver aqui). Isto porque Manuela Ferreira Leite ousou desmontar o “estilo”, a forma de fazer política e a má-fé do governo ao denunciar o anúncio diário de medidas com implicações orçamentais antes da discussão orçamental. José Sócrates está muito enganado: MFL não é do “género” de desistir, e não o faz, sendo contundente nas suas intervenções e sempre presente no cenário da discussão política nacional, pese este facto a muitos, nomeadamente e especialmente a um sector do PSD que minimiza as suas intervenções pois gostaria que ela se tivesse demitido do cargo para que foi eleita no dia seguinte às eleições legislativas.

MFL, como sempre, esteve certeira, mas nunca na comunicação social as suas palavras encontram o eco que merecem. Mesmo não gostando dela, do seu "estilo", mesmo achando-a sem jeito e sem piada, mesmo achando a “velha” (mas já Manuel Alegre, esse, não é “velho”), as suas intervenções enquanto líder da oposição mereceriam, numa sociedade menos “asfixiada comunicacionalmente”, destaque e discussão. De facto, neste mundo pateta, é melhor ser engraçado do que ter graça.

O líder do CDS foi oportuno ao dizer que “quando se negoceia, não se ameaça”, pois estar num processo negocial ameaçando é mais uma prova (como se precisássemos de mais) deste “estilo” que transpira má-fé e muito “à Sócrates”. Primeiro, e pela voz do seu ministro das Finanças, tenta condicionar o PSD e o CDS ameaçando uma subida de impostos caso este mantenha na mesa negocial a proposta do fim do PEC e a revisão da Lei sobre as Finanças Regionais.”. Num momento posterior, e porque a ideia de subida de impostos começa a ser em Portugal e finalmente, cada vez menos popular e cada vez mais olhada com desconfiança, José Sócrates “explica” que o governo não “quer” aumentar impostos e, vitimizando-se (outra das faces do “estilo”) diz que o governo é que está refém das votações da AR.

Tempos difíceis se adivinham, sobretudo para o PSD, nesta fase negocial sobre o orçamento com este governo liderado por José Sócrates, e que, em bom rigor, não sei se deveria ou não ser viabilizado. Sobrará sempre para o PSD. Será preso por ter cão e preso por não ter.

15.1.10

Sherlock Holmes


Recentemente Robert Downey Jr. e Jude Law (os dois juntos no mesmo filme é algo a não menosprezar), foram os (dois) únicos motivos que me levaram a ver “Sherlock Holmes”, filme de Guy Ritchie que para além dos actores prometia pouco. Confesso que não esperava nada do filme – eu não gosto de filmes de “efeitos especiais” e não gosto de demasiada acção traduzida em explosões contínuas e ruído ensurdecedor. Mas o filme surpreendeu-me: os diálogos eram vivos e divertidos cheios de um humor que, sem ser muito sofisticado, era inteligente, as personagens (Holmes e Watson) foram levadas ao extremo das suas "personalidades" mas, e inesperadamente, nunca se tornaram caricaturas pouco credíveis das personagens que já conhecemos, aspecto que me parece ser a força do filme. Downey Jr. & Law formam uma dupla fantástica, mostram os bons actores que são, enchendo o ecrã e prendendo-nos a cada segundo. Li muitos dos romances de Sir Arthur Conan Doyle e vi incontáveis episódios da série protagonizada por Jeremy Brett. A imagem que temos de Sherlock Holmes é, apesar de extravagante, muito mais contida do que filme de Guy Ritchie, onde se ousa romper com essa ideia de Holmes que se foi, ao longo de anos, estabelecendo no sub-consciente de tantos.

Agora impera o exagero: na criação das personagens; na recriação visualmente exuberante de uma Londres vitoriana; nos cenários interiores desenhados ao pormenor e de uma arquitectura cuidada (o filme é cheio de “arquitectura”), no guarda roupa, nos adereços, nas explosões, e até no barulho e estrondos repentinos. O filme tem também um aspecto infantilmente lúdico e “clean”: não há mensagens morais, não há culpas a expiar, não há causas fracturantes nem grandes dilemas éticos, o que é, diga-se, um alívio. Não será uma obra-prima, mas surpreendi-me e diverti-me, coisa que nunca deve ser negligenciada.

13.1.10

Espuma dos Dias que Foram 29


Dos Broncos

Nada pior do que programas de humor que não fazem rir, sorrir, ou mesmo abrir mais os olhos. Nada pior do que o insulto com capa de "humor". De tanto ver referências em diversos blogues, acabei por querer saber e fui ouvir isto na TSF. É verdadeiramente interessante. Revela a pequenez de quem – achando-se muito “à frente” e muito “esperto”, não percebe patavina do assunto que em primeiro lugar o leva a fazer essa coisa a que chama humor e que mais não é do que uma sequência gratuita, sem nexo (nem graça) de insultos e ofensas pessoais. São todos muito “fracturantes” para as causas efémeras e luzidias que a modernidade inventa. Recusam, no entanto, com a indignação e escândalo próprios da bronquice e ignorância, a abordagem de matérias realmente fracturantes e de difícil abordagem e discussão e que têm sido, ao longo dos tempos, expressão da diversidade e e das incoerências do comportamento humano. É sempre mais fácil (também aqui nada de novo) insultar o mensageiro do que pensar e debater a mensagem. Sempre passar por cima das coisas, tratar do brilho das superfícies e pensar o impacto (muito importante o “impacto”): é tão “tá-sse!” dizer (só dizer, nada de explicar) palavras como “pederastia” às 9h20m da manhã na TSF.
.

12.1.10


Já está. Apesar da associação ser óbvia, não foi à primeira que consegui compor o título: “O Primeiro-ministro, a Mulher, o Talhante e o Filho Deste”. Impossível não fazer este paralelo e, de repente, perceber que foi nos anos 80 que vi (e me diverti) com filmes como The Draughtsman’s Contract, Drowning by Numbers e, como é óbvio, o The Cook, the Thief, His Wife ans her Lover, e que nunca mais vi nada de Peter Greenaway. Um estilo muito peculiar e a vontade de rever alguns dos filmes.
.

10.1.10

Coisas que se podem Fazer ao Domingo 45

Antonio Gai
Meleager


Tentar perceber porque não se tem frio quando se caçam javalis.

8.1.10

Ouvi há pouco a constitucionalista Isabel Moreira falar em Avanço Civilizacional na RTPN. Este argumento (que parece estar a criar história) soa-me como revelador de novo-riquismo civilizacional, isso sim. A aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo é tão somente uma inevitabilidade (mais cedo ou mais tarde) dos tempos em que vivemos. Sinais dos tempos.

Entretanto a taxa de desemprego sobe: infelizmente mais um sinal dos tempos.

Um Pouco de Bom Senso Nunca Fez Mal a Ninguém

Por isso saúdo o fim da conflitualidade entre o governo e os professores. Dizem que o óptimo é inimigo do bom, e acredito que este acordo não seja o ideal para nenhuma das partes, mas foi o possível e creio que o facto de se declarar findo o período hostil é, só por si, uma coisa boa para a sociedade em geral e para as escolas em particular. Acredito também que ambas as partes estivessem interessadas e empenhadas em procurar um acordo e o bom senso impôs-se, depois de anos de finca-pé e de inabilidades. Ainda bem.

Depois de tranquilizado o ambiente na educação, talvez fosse uma boa ideia dar alguns passos em frente e trabalhar em duas ou três ideias de fundo (que não são novas e às quais já me referi noutras ocasiões) para melhorar a educação em Portugal. Primeiro, reduzir a burocracia, o excesso de relatórios e da tanta papelada a que os professores hoje estão sujeitos e que rouba tempo aos professores cuja prioridade deveria estar centrada no ensino e na sala de aula.

Em segundo lugar, dar uma maior autonomia às escolas, quer na contratação de pessoal docente, quer no estabelecimento de regulamentos internos próprios, nomeadamente no que se refere à forma de lidar com a indisciplina, quer no desenvolvimento de projectos curriculares próprios (já nem ouso falar na definição dos programas a leccionar, e das disciplinas instituídas).

Em terceiro lugar ousar algo de importante para a credibilização do ensino: a separação institucional (uma privatização, por exemplo) da tarefa de avaliação dos alunos da tutela do Ministério da Educação, medida que me parece fundamental para uma avaliação realmente independente das circunstâncias e das pressões políticas (anos eleitorais, necessidade de melhorar as estatísticas de sucesso escolar, etc) e mais consistente.

7.1.10

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où... 4





José Sócrates disse hoje que coube ao Estado resolver a crise desencadeada pelo sector financeiro que critica o peso do estado. Falou como se a crise fosse algo do passado eficientemente resolvida e despachada pelas boas medidas do seu governo (o dito estado). Por mais voltas e reviravoltas que o Primeiro-ministro e o seu governo dêem a crise não acaba com anúncios do seu fim, nem de luzes ao fundo do túnel que alguns vêem nem tão pouco com as medidas que ele anunciou com uma cadência atordoante no ano que passou e em vésperas de eleições. Notícias diárias como esta confirmam-no e são a face da crise a atingir os portugueses da pior maneira e que o Estado não resolveu, nem tem que resolver – tem somente que desviar recursos para quem mais sofre e para estimular a produtividade. Por outro lado, números como este do endividamento externo mostram também que o “bom velho Estado” poderá ser velho, mas talvez não seja assim tão bom.

5.1.10

Itinerante e Improvisada

Hoje as notícias que fui ouvindo ao longo do dia eram... eu diria, diferentes. Falava-se em casamento homossexual, em referendo ao dito casamento, na criação da figura de união civil registada, que parece ser igual ao casamento homossexual, com os mesmos direitos, só que não se chama casamento. Depois disto, ouço que a Associação de Empresários de Carroceis que se manifestou hoje na Caparica e é recebida pelo PSD, protesta contra o decreto-lei que regula o licenciamento de carrosséis em recintos itinerantes ou improvisados. Que agenda noticiosa a de hoje!

Sem querer desmerecer a causa daqueles que partilham vida e economia (homossexuais ou não) e se sentem discriminados em relação aos direitos que o casamento concede e, por outro lado, confessando a minha ignorância sobre a causa dos empresários de carroceis e a eventual bondade do protesto, atentei nas palavras itinerantes e improvisadas. O puzzle parece encaixar-se: são as palavras adequadas para descrever, entre outras coisas que me absterei de mencionar como a Justiça, por exemplo, a intenção e a produção legislativa do país: itinerante e improvisada.

4.1.10

Plataforma Contra a Obesidade 57


Percebi agora porque é que não me apetece ver Avatar. Trata-se de um aparatoso filme de entretenimento, com quase três horas de efeitos 3D que deixam qualquer espectador exausto, com o sentido da visão momentaneamente perturbado, (mas feliz por isso). (Em A Terceira Noite, e os parentesis são meus de forma a não modificar o sentido geral do texto). Eu não quero ficar exausta e dificilmente ficaria feliz estando-o depois de três horas de efeitos 3D que deixam o sentido da visao perturbado. Para mim dez minutos de "efeitos especiais" já me deixam cansada e enfadada. Imagine-se três horas de "efeitos 3D" que requerem óculos e tudo. Parece que há matérias em que sou uma real conservadora mas, quem sabe, talvez mude de opinião quando sair o DVD e eu puder ver o filme em casa em pequenas porções.

Ao contrário de Avatar, já Rosebud me entusiasma. (Basta olhar para os nomes). Eduardo Pitta, agora a solo no Da Literatura que completou recentemente cinco anos de existência, dá-me razões para querer ler Rosebud de Pierre Assouline, um “escrutinador de almas", que procura o Rosebud de cada biografado.


Cortex Frontal, a nova casa de José Medeiros Ferreira e um novo blogue a seguir.

Este fim/início de ano blogosférico mais parece o período de transferências e de compras e vendas do mundo do futebol.


João Gonçalves, no seu melhor estilo cáustico, diz-nos onde foram parar os ex-“Corta-Fitas”. Impossível não rir.

Espuma dos Dias que Foram 28



Polvos que Dão à Costa

De regresso ao nosso país fustigado pela chuva e vento, aqueço a casa, ligo a televisão e vejo que a notícia de destaque são as toneladas - ou centenas ou milhares, não percebi bem devido à nossa endémica falta de precisão numérica (que, note-se, parece nunca ter afligido nada nem ninguém, por muito estranho que possa parecer), de polvos que deram à costa e uma perna ou pé (também aqui ouvi e vi dados divergentes que pouco interessa apurar, diga-se) humano calçado. Este pormenor é que não falhou, como se a presença do sapato (ou bota) fosse o cerne da preocupação deste insólito caso.

Depois ouvi e li sobre a Mensagem de Ano Novo do Presidente Cavaco Silva que ao que parece se mostrou firme nas suas convicções sobre o estado do país, acabou com os equívocos sobre ingovernabilidade e – dizem – deu sinais de uma recandidatura. Hoje de manhã, entre nadas noticiados, vejo aqui denunciada mais uma manobra “criativa” de camuflar, esconder e iludir a verdade por parte do executivo de José Sócrates. Nada de novo, portanto.

O país começa o ano de 2010 com o mesmo entusiasmo com que acaba o de 2009. A única diferença parece estar nos polvos que dão à costa.

26.12.09


Até um dia de Janeiro.

BOM ANO DE 2010

Dando Excessivamente Sobre o Mar 48

Aaron Morse
Atlantic

23.12.09

Maria


FELIZ NATAL

Solo Dios Basta


Nada te turbe;
nada te espante;
todo se pasa;
Dios no se muda,
la paciencia
todo lo alcanza.
Quien a Dios tiene,
nada le falta.
Solo Dios basta.

Teresa de Ávila, Santa e Doutora da Igreja

22.12.09

Amanhecer 21

Hoje

2009 e 2010

Passou um ano marcado pelas socráticas efabulações, conspirações, golpes e contra golpes. Todos os expedientes foram válidos para assegurar a sobrevivência política de José Sócrates. Esquemas, telefonemas, influências, anúncios de anúncios, favorecimentos de alguns marcaram este ano de duas eleições ainda mais do que os outros. A urgência era também outra. José Sócrates corria o risco de se ver sem o cargo de Primeiro-ministro. Um dia a História contará as histórias, contará como se deitava fogo à aldeia para depois poder gritar alto aos bombeiros para irem rápido apagá-lo e decidir a quem atribuir uns incentivos.

2009 não deixa saudades. 2010 não promete nada de melhor, por muito que os modernaços oráculos europeus tenham decretado oficialmente (ah soberba) o fim da recessão. Por cá irá ser mais do mesmo: para alem da dívida, o drama do desemprego a aumentar pois para a nossa recessão o fim não está à vista. O estilo José Sócrates agudizar-se-á. Descobriremos mais família e mais amigos, mas nunca saberemos nada. O PSD continuará enrolado em si próprio sem querer ver nem perceber o país, nem tão pouco valorizar a líder que tem. O eterno candidato ocupará, logo depois do grande líder, lugares de relevo na comunicação social para o povo ver e lembrar. Sofisticações das técnicas de marketing e comunicação que se especializam em fabricar nadas. Tristes perspectivas. Que sobrem bons filmes e bons livros.
.

20.12.09

Do Frio

Nikita permanecia imóvel desde que se sentara, coberto com a esteira, atrás do trenó. Como toda a gente que convive com a natureza e conhece a miséria, era paciente e capaz de esperar horas a fio, ou mesmo dias, sem se inquietar ou irritar. Tinha ouvido o patrão a chamá-lo, mas não respondeu – porque não se queria mexer nem falar. Embora ainda guardasse algum calor do chá que bebeu e se tivesse esforçado muito a andar na neve funda, sabia que esse calor não duraria para muito mais tempo e que já não teria forças para se aquecer andando e mexendo-se (...). Por todos os indícios passou-he pela cabeça que poderia morrer essa noite, mas a ideia não lhe pareceu especialmente desagradável nem assustadora. Não era desagradável porque a vida de Nikita, ao invés de ser uma festa permanente era um calvário de trabalho constante de que já começava a cansar-se. E não era muito assustadora porque , alem dos patrões como Vassili Andreitch, que servia neste mundo, se sentia dependente do patrão principal, o que o mandara para esta vida; e sabia que, mesmo depois de morrer, ficaria sob a alçada desse patrão, um patrão que não o ofenderia (...).

Lev Tolstói, O Diabo e Outros Contos, O Patrão e o Moço de Estrebaria.

Creio que esta colectânea de Contos de Lev Tolstoi foi, na minha juventude, a introdução à literatura russa. A partir daí fui lendo (e nalguns casos, relendo) ao longo dos anos Tchecov, Dostoievsky, e mais recentemente Pushkin, entre outros. Quando recentemente comprei esta colectânea procurava relembrar como eram estes contos, o que os diferenciava (tudo, mas isso não é para agora) dos de Tchecov sempre presentes porque os leio e releio com muita frequência, mas procurava também, percebi isso depois de ler, reencontrar a emoção que tinha sentido ao ler este conto O Patrão e o Moço de Estrebaria que nunca esqueci. O meu primeiro contacto literário, e não só, com o frio da Rússia, mas também a imensidão e a neve, a noite, a morte, a facilidade com que se dispunha da vida de outro (um criado), o álcool, a ambição, a crueldade da natureza que não se adapta ao desejo e à pressa do homem. Essa emoção, esse sentido trágico do conto está totalmente intacto na leitura de hoje como na leitura de há tantos anos. Impossível lê-lo sem sentir frio. Como sempre me lembrei deste conto (dos outros lembrava vagamente) como um dos contos de Tolstói, a surpresa quanto ao desenrolar da narrativa era irrelevante no fazer do trágico, porque mesmo numa primeira leitura esse “final” vai-se construindo e adivinhando ao longo da leitura, sobretudo através do olhar de Nikita (moço de estrebaria) que, ao contrario do Patrão que tem pressa em chegar, é um observador do desenrolar dos acontecimentos: sem ímpetos, com resignação e sem pressa. E depois, como diz também Nikita, em relação ao final , na última frase do conto: “Todos nós o saberemos, não vai tardar muito”.


18.12.09

E pur si muove.
.

Plataforma Contra a Obesidade 56

Frans SNYDERS (1579 - 1657)
Fruits et légumes avec un singe, un perroquet et un écureuil

17.12.09

Agora que o Conselho Superior da Magistratura concluiu ter Lopes da Mota pressionado os investigadores do caso Freeport aplicando-lhe uma pena, seria bom fazer as perguntas seguintes. Porquê? A pedido de quem? E para evitar que se investigue o quê ou quem? Parece haver aqui matéria suficiente para avançar na investigação.

O País das Maravilhas

Se algum(a) marciano(a) aterrasse agora em Portugal e abrisse um jornal iria ficar impressionado com as prioridades políticas e legislativas do nosso pais: regionalizar um país demasiado homogéneo e claustrofóbico, legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo - depois de ter legislado anteriormente uma versão de “divórcio turbo” que tem dado que fazer aos tribunais de família, e arrancar com o projecto/investimento do TGV que trará a Europa para mais perto de nós. O dito marciano pensaria estar perante um país rico e próspero com os problemas essenciais para o bem estar de uma sociedade resolvidos. Ele saberia, por exemplo, que estava num pais que não tinha dívida externa, em que o desemprego era quase inexistente, a indústria era sólida e espelho de um confiante investimento e consumo privados, a justiça célere e conclusiva, a educação exigente formava cidadãos solidamente qualificados, o sistema de saúde respondia na hora às necessidades dos contribuintes e que a política fiscal era justa. O Pais das Maravilhas.

José Sócrates continua com a sua política de fugir para a frente, anunciando medias umas atrás das outras e legislando rápida e sucessivamente em matérias fracturantes de forma a atordoar o eleitorado e a encandear o nosso olhar para nos impedir de ver. Mas há sempre alguém atento. Há sempre quem veja. Há sempre quem perceba. Valho-nos isso.
.

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où... 3


Albert Gleizes
Houses in a Valley
.

13.12.09

A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão) 3

O entusiasmo consumista foi contaminando o mundo. O glamour era a palavra de ordem, e todos queriam marcas: vestir marcas, calçar marcas, usar marcas e logótipos bem visíveis. Esta corrida aos produtos de luxo conhece um crescimento sem precedentes no Japão, pois os japoneses que têm muito dinheiro revelam-se fervorosos consumistas de produtos de luxo. Note-se que o Japão se torna, nos anos 80, numa importante potência económica impondo os seus produtos (carros, electrónica), atordoando os produtores tradicionais do mundo ocidental, e Tóquio é uma das maiores praças financeira do mundo. A cultura empresarial do Japão fascina o ocidente, nomeadamente a América. Mas o Extremo Oriente não é só japonês, todo ele fervilha e os seus mercados financeiros têm um peso cada vez maior no panorama mundial.

A China, esse pais fechado e comunista dá, com facilidade, os primeiros passos capitalistas começando a criar uma economia de mercado com a liberalização do comércio e a promoção da iniciativa individual. No entanto essa abertura económica não se fez acompanhar de abertura e liberdade política. Enquanto o império Soviético estremecia acabando por ruir com a Queda do Muro de Berlim, Pequim manteve-se inexorável no controle das liberdades individuais. O Massacre de Tiananmen foi o momento dramático em que os chineses percebem que nada mudou no tocante às liberdades individuais.

Também Singapura se torna num importante centro financeiro e económico do mundo e a Malásia, por exemplo, conhece grande crescimento económico. No entanto nenhuma cidade tinha “glitter” como a Hong-Kong cheia de neons dos anos 80. Tive a sorte, porque vivi num curto período de tempo em Macau, de conhecer bem Hong-Kong que conheceu um ambiente e energia únicos (visitei a cidade posteriormente no final da década de 90 já sob a administração chinesa e, apesar de próspera, o ar que se respirava era totalmente diferente). Na minha memória Hong-Kong é a cidade que melhor simboliza os anos 80, pela sua “vibração”, entusiasmo, prosperidade económica, gosto de viver, uma esperança apressada que acreditava que o futuro iria passar por lá melhor e mais depressa do que no resto do mundo. Tudo parecia possível naquela cidade que acreditava estar no centro do mundo.

Claro que nada dura sempre e em finais de 1987, Black Monday foi uma chamada à realidade, não só de Hong-Kong e do Extremo Oriente próspero, nomeadamente dos EUA, país que inventou os Yuppies. A embriaguez provocada pelo crescimento económico e por tantas fortunas que vimos fazerem-se dá lugar à ressaca no mundo financeiro.

No entanto a década não acaba com a crise financeira, no final do ano de 1989 a Queda do Muro de Berlim trás entusiasmo e um sopro de esperança com o fim do mapa político que a Guerra Fria desenhou e abrindo um novo capítulo geo-político. Nessa altura cantava (mal) isto e dançava ao som o disto e disto.

(Ver pequena adenda "musical" no post A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão) 2.)
.

Entardecer 14

Hoje
.

12.12.09

D. Manuel Clemente

Foi reconhecido, a D. Manuel Clemente pelo júri que atribui o Prémio Pessoa, que

Há, no entanto, alguns sectores anti-clericais na sociedade, sobretudo numa determinada esquerda de causas, que não “percebe” o porquê do prémio e o critica, mas que esquecem que não podem "perceber" quando, por puro preconceito tantas vezes, não querem olhar e ver. Estes sectores convivem mais facilmente com a estupidez, pequenez e falta de cultura que existe dentro da Igreja Católica do que com a excelência, inteligência, cultura e o rigor, já para não falar da bondade (conceito absolutamente desactualizado e potencialmente perverso). São escolhas.
.

10.12.09

Amanhecer 20

Hoje
.

Da Igualdade

Parece que a moda pegou e que não há maneira de sair desta linha de argumentação: quem não gosta do PSD, ou melhor, deste PSD, ou melhor, de Manuela Ferreira Leite, mais tarde ou mais cedo, e por muitos ares que se dê de distanciamento político e de isenção, acaba sempre por cair no argumento trivial e grau zero da argumentação política: “são todos iguais”. Eu sei que é fácil ceder ao populismo e à audiência “taxista”, e eu sei que a vida nem sempre é fácil e que às vezes é preciso despachar uma opinião para um jornal ou uma televisão como quem faz a lista de supermercado, mas de certos comentadores espera-se (espera-se mesmo?) um pouco mais de seriedade na análise.

O último caso que me chamou a atenção foi este artigo de Constança Cunha e Sá (via). Esta frase o mal, como se vê, está bem distribuído pelas aldeias, uma versão aparentemente mais elaborada e sofisticada do “são todos iguais”, mostra preconceito (para não dizer má-fé) em relação aqueles que questionam – e querem esclarecimentos sobre – a conduta do Primeiro-ministro. Os factos apontam para que o Primeiro-ministro tenha, numa conversa que foi escutada no âmbito de uma investigação de que era objecto o seu interlocutor, mostrado que interferiu na area da comunicação social através de um negócio que disse, na altura no Parlamento, desconhecer. A ser verdade há aqui matéria para investigar. São questões da esfera política ligadas à forma como tem exercido o seu cargo público. Por isso as questões levantadas são legítimas, tal como as dúvidas, até agora nunca esclarecidas, que todos temos em relação ao caso Freeport, e à questão da discrepância de biografias de José Sócrates no Parlamento, por exemplo.

Dúvidas deste género não se colocam nem no caso de Manuela Ferreira Leite, nem no caso de Aguiar Branco, (ou de outros anteriores dirigentes socialistas, por exemplo) por muitos erros politicos que comentam, por muita falta de “jeito para a política” (seja lá o que isso for) que tenham. Não gostar de um politico não faz dele um “igual” a outro de quem não se gosta também, mas que está (e tem estado em permanência) sob suspeita de ter cometido e cometer actos ou ilegais ou menos éticos do ponto de vista politico. Querer "igualar" é não querer perceber a óbvia diferença. Por muito que insistam, nomeadamente os que gostam de ver a “diferença” em Pedro Passos Coelho (as if...), nunca farão de Manuela Ferreira Leite uma “igual” a José Sócrates, nem (infelizmente) de José Sócrates um “igual” a Manuela Ferreira Leite.

Não, não são todos iguais. Não, o mal não está igualmente distribuído pelas aldeias.
.
(...) Estamos todos, aliás (de passagem). É pena que a maior parte das pessoas morra sem perceber esta trivialidade.
Aqui
.
O zelo dos convertidos. Ou afinal sempre dá resultados ter uma oposição “radical”.
.

7.12.09

Outra 1ª página horrorosa e o novo tom ou estilo ou linha editorial ou seja-lá-o-que-for que se impõe sem surpresa: cada vez mais banal, superficial e previsível. A ler aqui.


6.12.09

Coisas que se podem Fazer ao Domingo 44

Sketch model for Eros, 1893, na RAA

Procurar o equilíbrio
.

A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão) 2

Lembro no chamado mundo do "ocidente" duas personalidades fortes de “direita” que dividiam as atenções: Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nenhum dos países que governaram ficou na mesma, e com Ronald Reagan o mundo ficou diferente: levou a guerra fria a um outro nível com o seu programa ambicioso e ambíguo (ofensivo disfarçado de defensivo) Star Wars cuja intenção era desestabilizar o equilíbrio de forças – bélicas - entre o mundo ocidental e o leste – note-se que estes conceitos "ocidente" e "leste" na altura não tinham o carácter global que hoje têm: o mundo era “mais pequeno”, e o “leste” não era mais do que a União Soviética e os países, europeus ou não, sob influência soviética. Este programa foi amplamente contestado pela “esquerda” e liberais bem pensantes da época que sempre se recusaram e ver em Ronald Reagan algo mais do que um actor de talento duvidoso de filmes série B, que o viam incompetente para liderar o mais poderoso país do mundo e que este desequilíbrio pretendido resultaria numa escalada de agressão a nível mundial. Creio que a História não lhes dará razão, apesar de na altura, e do alto da minha omnisciência, eu também achar que Ronald Reagan era “básico” demais.

Margaret Thatcher reformou e/ou privatizou uma boa parte das instituições do Reino Unido (NHS, e BT por exemplo) para escândalo de muitos tradicionalistas (nomeadamente dentro do seu partido) mudando e modernizando o país. Ninguém gostava dela, mas tal como Reagan, sabia ganhar eleições. Lembro bem, porque vivia então em Inglaterra, de como ganhou um duro, longo e penoso braço de ferro com os sindicatos, nomeadamente o sindicato dos mineiros que, liderado pelo então célebre Arthur Scargill, fez uma das mais difíceis greves da história do Reino Unido com grande sofrimento de muitas famílias de mineiros. Essa vitória ajudou ao enfraquecimento do poder dos sindicatos no Reino Unido, nomeadamente enfraquecendo a sua, então grande, influência no Partido Trabalhista. No plano internacional Mrs Thatcher ficou conhecida pela sempre enfatizada “empatia” pessoal com Gorbatchev, o homem que sentiu a decadência de um regime, que se mostrou, e que pôs as palavras perestroika e glasnost na nossa boca.

Uma outra greve ficou célebre nos anos 80: a greve nos estaleiros de Gdansk na Polónia com dois protagonistas Lech Walesa e o sindicato Solidariedade. Esta luta pelos direitos e liberdades numa Polónia asfixiada contou com o apoio de um outro polaco, Karol Wojtyla, que em 1978 ascendeu ao lugar de S. Pedro e se tornandou o Papa João Paulo II. A Polónia e os polacos que no fim da década atravessam fronteiras para chegar ao "ocidente" foram uma das faces visíveis do desmoronar da influência soviética e da caducidade e inviabilidade do projecto “comunista” que culmina na simbólica destruição do Muro de Berlim e no desfazer de fronteiras.

Adenda: Nessa altura "Top Gun" fazia êxito (quem não viu o filme que atire a primeira pedra) e canções como esta ou esta estavam no top do Reino Unido.

(Continua)
.

3.12.09

Entardecer 13

Há uns dias
.

Fadas Madrinhas

Parece que Armando Vara terá recebido uma carta anónima no seu escritório do BCP a avisar que o Primeiro-ministro e seu amigo José Sócrates estaria a ser alvo de escuta telefónica. Este facto, a ser verdade (não que eu tenha acesso a alguma informação privilegiada, ou a segredo de justiça, é só mesmo algum natural cepticismo) e não mais outra “montagem” para a Polícia Judiciária encontrar, abre todo um novo horizonte simbólico em torno das cartas anónimas. Deixam de um instrumento exclusivo das forças maléficas, obscuras e vingativas e passam a ser também instrumento das fadas madrinhas e outras forças do “bem”. Só não percebo a necessidade do anonimato. Sempre pensei que não havia almoços grátis, nem para as fadas madrinhas.
.

27.11.09

Questões de Semãntica

Ouvi (SIC) José Sócrates em declarações para a televisão chocado com as propostas dos partidos da oposição para “aumentar a despesa” referindo-se às votações hoje na AR. Até disse que a oposição era “desleal” naquele seu jeito self-righteous de repudiar tudo e todos os que não estão em sintonia consigo e lhe atrapalham o optimismo. O Primeiro-ministro acha que tem jeito para brincar com as palavras, mas a semântica saiu-lhe, mais uma vez, toda errada.

É que “aumentar a despesa” tem pouco a ver, quer política quer financeiramente, com “diminuir a receita”, sobretudo uma receita construída com base num cenário fantasioso e pensado para uma célere diminuição do deficit (que noutro abuso semântico chamarão “recuperação económica”) que a UE exige, bem como o clima de permanentemente eleitoralismo em que o país se encontra com a perspectiva de eleições antecipadas que teima em pairar. Os partidos da oposição não quiseram “aumentar a despesa”, nem foi isso que foi votado. Recusaram-se sim a sancionar um “conforto” da receita aumentando a sobrecarga fiscal para os contribuintes e empresas cada vez mais estrangulados.

Este volte-face hoje no parlamento em que o governo esteve sempre isolado, irá obrigar o governo, o Primeiro-ministro, Ministro Teixeira dos Santos e restantes responsáveis a encarar a realidade que têm procurado não ver, tão iludidos que estão com o país do optimismo em que os contribuintes podem sempre ser um pouco mais espremidos para pagarem os erros de uma má governação e de uma política orçamental despesista feita a pensar em eleições (nas que foram e nas que hão-de vir). Mas controlar a despesa é muito mais “chato” e impopular do que aumentar a carga fiscal, não é?

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où... 2



Félix Duban (1797-1870)
Hôtel Galliera, projet de décoration pour un salon de musique
.
Eu, que não percebo nada de Direito, pergunto-me qual destas fugas ao segredo de justiça é mais grave: o aviso aos suspeitos do caso Face Oculta que estavam a ser escutados, ou a divulgação de uma (pequeníssima, ao que se diz) parte dessas mesmas escutas?

Adenda: Tem toda a razão. Aqui.
.

26.11.09

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où...

Là-bas, je ne sais pas où...

(...)
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.
(...)

Álvaro de Campos, Poesias

A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão)

A propósito da comemoração dos vinte anos da Queda do Muro de Berlim, relembrei a década de oitenta, agora que a distância o permite fazer melhor, e imagens sucederam-se com aquela boldness e brilho tão típicos desses anos. A Queda do Muro de Berlim foi o mais entusiasmante, eufórico e simbólico momento político que vivi. Nesse período, em que vivia fora de Portugal, a sensação de “não retorno” era de tal forma poderosa que sabíamos que o mundo, tal como o conhecíamos, tinha acabado, abrindo o caminho para um outro, aquele que hoje conhecemos. Se a década de setenta passou por mim, a década de oitenta foi já vivida e com a intensidade própria de quem agora tem “uma vida” para viver.

A primeira imagem que me surge quando penso nos anos 80 é a de cor, muita cor. Os anos 80 foram coloridos. Para nós em Portugal esse “colorir” tem ainda mais significado pois coincide com a abertura do mercado nacional a produtos e lojas estrangeiras e com o nível de vida dos portugueses a melhorar de forma visível. Um dos exemplos desse “colorir” foi a chegada das lojas Benetton às nossas cidades e das suas camisolas a inundarem as nossas ruas. Até então elas só enfeitavam as cidades estrangeiras que visitávamos, tanto que ter uma camisolas Benetton era (quase um objectivo de viajem) um sinal de modernidade e de cosmopolitismo. A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, foi um passo decisivo na abertura do país à Europa, ao mundo, e claro ao consumismo. Outra face dessa “cor” foi o despontar dos "shoppings" e do universo dos hipermercados (a abertura do primeiro Continente foi em 1985). A escolha, a abundância e o consumismo são agora realidades e depressa se tornam hábitos, num país que viveu a aforrar e fechado sobre si durante décadas. Tudo isto acontece ao som de Rui Veloso que revoluciona a música portuguesa, trazendo à ribalta novos talentos que aprendemos a não ter vergonha de gostar.

Portugal na CEE era um desejo nacional, um objectivo político que ao realizar-se a 1 de Janeiro de 1986 se torna motivo de orgulho de todos os portugueses que, finalmente, passam a ter a sensação de que Portugal afinal conta. Cavaco Silva é eleito Primeiro-ministro e o país transforma-se de forma nunca vista.
(Continua)
.

25.11.09

Amanhecer 19

Outro Amanhecer. Este é de hoje. Afinal, que culpa tenho eu que o mundo seja um local bonito, e que o sol nasça e se ponha todos os dias?
.
Para que não se perca o sentido das proporções e a noção das coisas. E como se usa dizer: não poderia ter sido melhor dito. Aqui.
.

24.11.09

Francisco José Viegas diz tudo neste post (e links). Só não percebi essa subtileza política que é a palavra “confronto”. Parece-me, (comme d’habitude), bom trabalho concertado: um alisa o terreno (ainda iremos ver os indispensáveis e modernos truques de comunicação e marketing político, inventando palavras, anunciando, contornando promessas e instituindo inverdades) para o outro depois poder passar com a carroça. Nós, ao vê-los passar, seremos obrigados a atirar uma ainda maior quantidade das nossas moedas de ouro para que a carroça se encha cada vez mais e eles possam “redistribuir” toda a nossa riqueza conforme decidirem.

Nada que surpreenda. Manuela Ferreira Leite, que olhava para o país sem fantasia nem delírio, parece que tinha um discurso “pela negativa” e desajustado, assim o povo, os comentadores e demais politólogos decretaram e assim se votou com nojo de tanto negativismo e “bota-abaixismo”. Agora que não se queixem do optimismo.

Entardecer 12

Hoje
.

22.11.09

Face Oculta da Verdade

O arquivamento das oito certidões extraídas do processo Face Oculta, contrariando as decisões dos magistrado de Aveiro e Coimbra (que presumivelmente carecem todos bom senso e capacidade de avaliação), com conversas entre Armando Vara e José Sócrates, é o desfecho esperado de um processo, que tal como todos os outros, nunca conhece soluções. As conversas entre JS e AV pouco interessariam se eles fossem cidadãos comuns sem responsabilidades politicas e de Estado, como é o caso. Um é o Primeiro-ministro de Portugal e o outro é um amigo seu que, tal como ele, subiu na vida pública e ocupou cargos de relevo politico, nomeadamente o último, à custa de militâncias politicas, e não de um curriculum profissional sólido. Assim sendo o teor das escutas é relevante politicamente e não pode ser ignorado uma vez que demonstra uma ilegítima interferência do governo na esfera privada e uma tentativa de controle da comunicação social. Os habituais “senãos” processuais em que qualquer investigação em Portugal encalha não pode deixar de frustrar o cidadão que gostava, mas já nem ousa esperar, de, por uma vez, saber onde pára a verdade.

No nosso pais, há crimes, mas não há criminosos. Prova-se o abuso de crianças na Casa Pia, mas ninguém (à excepção de Carlos Silvino) os cometeu. Há tráfego de influências, (visíveis em casos pouco claros de adjudicações directas, interferências na comunicação sócial através de estranhas coincidências, etc) mas ninguém influência ninguém nem coisa nenhuma. Há corrupção, (operações financeiras ilícitas, abuso de confiança, lavagem de dinheiro, enriquecimento rápidos e inexplicáveis), mas nunca se encontram corruptos. A verdade acaba sempre perdida de tal forma se embrulha e escamoteia, se enreda em demoras e complexidades processuais. A verdade perde-se da nossa vista e no meio das demoras e complexidades até nos esquecemos do que realmente está em causa.

Talvez porque, lamentavelmente, a verdade é o que menos interessa: às pessoas em causa, (que mais parecem decidir como se estivessem num concurso de popularidade, e não em consciência): ao Procurador-geral da República, aos magistrados que podem ver as suas carreiras congelas (caso Rui Teixeira) por se envolverem com figuras do poder, e a muitos políticos e gestores/empresários de diversos sectores que vivem da promiscuidade entre empresas, influências e poder. Chegamos, enquanto país e percepção colectiva, a um ponto em que se acha normal e natural e não merecedor de esclarecimentos que o Primeiro-ministro tenha as conversas que teve com Armando Vara (e falo só do que conheço, que desconhecemos o teor de todas as outras, mas a amostra basta para acabar com a inocência). Acha-se normal que o Primeiro-ministro passe a vida envolvido em processos de legalidade duvidosa.

Tanto é assim que os portugueses continuaram a votar nele. Eu, que não votei em José Sócrates, continuo a lamentar a escolha prioritária dos eleitores na qual não me revejo como há muito não me acontecia. Continuo, infelizmente, a confirmar a pouca exigência esperada perante quem ocupa em Portugal cargos de Estado.

.

18.11.09

Entardecer 11

Hoje
.
Se dúvida houvesse sobre a intencional, gradual, mas bem visível tabloidização do Público, elas dissipar-se-iam com a primeira página de hoje. O grafismo da edição impressa de hoje tem pouco que ver com a do jornal de referência que o Público pretende ser, pois o jornal de hoje já quase parece um prospecto publicitário do Continente. Mais um esforçozinho e fica tal e qual.
.

15.11.09

Coisas que se podem Fazer ao Domingo 43

Sandro Chia
The Idleness of Sisyphus
.

Das Escutas


Nos últimos dias tenho-me lembrado frequentemente da série The Wire (ainda não vi todas as temporadas), onde, tal como o nome indica, grande parte da investigação feita e da prova encontrada tem por base escutas. Desde o processo inicial de as requerer e de conseguir uma autorização para as fazer, até aos dilemas finais de “o que fazer com tudo o que se escutou”, nada escapa ao espectador. O grande problema das escutas é que revelam sempre muito mais do que aquilo que os investigadores pretendem e muito mais do que aquilo que a justiça quer e/ou precisa. É como se ao querer provar algo, se encontrassem pedaços de outras histórias (crimes) tantas vezes piores do que aquela que inicialmente se pretendeu investigar.

Começam por investigar um problema de droga, e sem saber como deparam-se, por exemplo, com ilegalidades no financiamento de campanhas politicas. O problema seguinte é decidir se se opta por limitar a investigação aos crimes inicialmente sob suspeição ou se se começa a seguir o rasto do dinheiro abrindo provavelmente investigações sobre corrupção, tráfego de influências, etc. Com tantas pontas soltas e tantos caminhos apontados, os investigadores, o Ministério Público e os tribunais ficam perante dilemas que preferiam não ter, e casos que preferiam ignorar. Casos mais complexos e que mexem demasiado nos interesses instalados em que todas as partes acabam por se encostar. Castigar uns crimes violentos, expor a droga apreendida numa mostra de competência, é sempre bem visto e dá mostras à sociedade de que a polícia de investigação funciona. Mas sempre evitar investigações posteriores das novas pistas reveladas quando podem por em causa ou fragilizar o "sistema" e incomodar quem investiga ou quem acusa.

Destruir escutas, não seguir o rasto do dinheiro, arquivar processos por falta de prova, são sempre soluções que permitem evitar grandes sobressaltos políticos (quer no mundo politico quer no económico e financeiro) e que permitem grande tranquilidade ao Ministério Público e aos “so called” serviços de justiça.

Claro que qualquer semelhança entre o descrito, inspirado no The Wire, e o caso Face Oculta, o caso Freeport, o caso Casa Pia ou tantos outros que conhecemos, é mera coincidência.
.

12.11.09

Do Fascínio

Hoje na rádio já ouvi falar em “alegadas conversas” quando se referiam às conversas entre José Sócrates e Armando Vara que foram escutadas no âmbito do processo Face Oculta” e que sempre foram "conversas" sem o indispensável "alegadas" . (Que seria deste país sem alegados?). Não, não são as escutas que são “alegadas escutas” (uma vez que há o problema de serem ou não válidas do ponto de vista jurídico) são as conversas, aquelas que existiram mesmo, pois foram escutadas, que são “alegadas”. Estes mecanismos comunicacionais (e não só) de distanciação do real fascinam-me.
.

11.11.09

Amanhecer 18

Hoje
.

Não é a questão jurídica de se se devem ou não deve considerar nulas as escutas telefónicas entre José Sócrates e Armando Vara que me interessa. A questão politicamente relevante é ter um Primeiro-ministro a quem passa pela cabeça falar e considerar interferir numa questão que é estritamente do âmbito do mundo das empresas privadas. Esta conversa vinda a lume, e fazendo fé no que a comunicação social nos diz, só confirma a já conhecida tendência dos nossos actuais detentores de cargos públicos, em particular de José Sócrates, para usar a sua influência e o seu poder interferindo de forma pouco legítima, e de acordo com as suas conveniências circunstanciais, na esfera das empresas privadas condicionando-as. Uma sociedade só é politicamente saudável e economicamente viável quando o mundo privado está impermeável às pressões politicas. Independentemente do resultado jurídico ou processual do caso das escutas no âmbito do processo “Face Oculta” (que tanto se tem debatido na comunicação social), a questão política mantém-se e dela pouco se fala apesar de estar (devida ou indevidamente, não sei, nem me interessa) a nu na comunicação social. A contenção e a não-interferência dos órgãos de soberania perante matérias do foro privado deveria ser uma segunda natureza para qualquer pessoa que ocupe um desses cargos. E não é. Como se vê este caso do conteúdo dos telefonemas escutados, esta é também uma forma de asfixia democrática, uma expressão ultimamente vetada pela onda comunicacional, às más lembranças e à má fama apesar de se manter actual, infelizmente.
.

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com