“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

21.3.10

Pesadelo


Perante este pedaço de retórica política, em que se sente a densidade do pensamento (gosto especialmente da parte em que diz usar a sua inteligência emocional), o latejar de uma ideia, a clareza de conceitos, o emergir de uma visão, a ousadia de um combate politico, a sede de justiça, a maturidade democrática e o profundo respeito pela liberdade, envolvidos na mais aprimorada linguagem, sou impelida a ler o que se segue.

Patético. O problema começa quando acordar e perceber que as opções políticas poderão ficar resumidas a José Sócrates ou a Passos Coelho, como num mau guião de ficção plástica. Toda uma outra dimensão de fazer política se abre para a qual não sei se estou preparada.

19.3.10

Piet Mondrian (1872-1944)
Composition in Brown and Grey


18.3.10


Perante uma situação similar, a reacção do PS e a reacção da Igreja Católica. Mas isso não interessa para nada, não é uma causa fracturante e, como diz Helena Matos, “referir o Casa Pia hoje, em Portugal, dá direito a quase passar por lunático”. Infelizmente as coisas são como são.

17.3.10

Da Clareza

A clareza de Pedro Passos Coelho, na entrevista a Judite de Sousa hoje na RTP, (que pode ser vista aqui) surpreende-me pois é sobretudo condicional: tem normalmente um “se” (ou equivalente) que a precede. Ora uma premissa condicional do tipo: “de cada vez que concordar com ..., então votarei a favor”; ou “estarei de acordo se..., mas se não...”; ou “quando for do interesse de..., eu concordarei com...”; dá, de imediato, incerteza à frase que nunca poderá ser clara. A clareza traduz-se através de afirmações simples, sem condições, nem condicionantes, nem contradições. Este é um péssimo hábito de PPC, mas acredito que à força de repetir que é claro as pessoas comecem a acreditar que o é. Deve ser mais uma dessas técnicas comunicacionais das agências de marketing político que tornam os discursos dos políticos sempre iguais e os fazem repetir vezes sem conta a mesma frase. Tal como José Sócrates que espalha optimismo, (PEC? Aumento impostos? Nã...) Hoje foi a vez do seu "plano tecnológico" e de uma visita a uma "empresas de sucesso". Uma coreografia e um script já estafados.

Passos Coelho segue-lhe as pegadas e repete as frases e os temas (exemplo: o Estado não devia ser empresário, quantas vezes ouvi isto nos últimos dias?). Mesmo tendo parecido, como tem sido já hábito ultimamente, calmo e seguro, e mesmo tendo sido nalgumas matérias afirmativo, a verdade é que, na maioria das questões, sobretudo de índole mais marcadamente política, foi tão opaco e sinuoso como é seu hábito. Pressentimos assim o seu "vazio".

Em Flor 24

Hiroshige
Massaki and the Suijin Grove by the Sumida River

16.3.10



Já não é mau e até é um bom primeiro passo, mas a autoridade na escola (tal como a exigência, a responsabilidade, uma menor carga burocrática para os professores, etc) reforça-se com uma maior autonomia da escola, até para que a "sociedade a reconheça". E, claro uma autonomia das entidades avaliadoras.

15.3.10

O homem tem de ir à bruxa. Não há nada que faça, cujo processo ou documentação não se perca. Não há nada em que se envolva que seja linear e transparente. Nada que lhe diga respeito é facilmente explicado e percebido. Nada, desde o curso e casas, até à compra da TVI pela PT. É mesmo azar.


Crónica Feminina 2


14.3.10

O quê?

Depois admirem-se. José Sócrates deve estar com dificuldade em conter o riso, e com razão. Foi para isto que se fez um congresso? Eu realmente não entendo a vida partidária, mas esta do PSD passa os limites da racionalidade e da razoabilidade.

Manuela Ferreira Leite, e todos os que denunciaram a asfixia democrática (não é, Paulo Rangel?) que se foi impondo na sociedade por influência directa do governo de José Sócrates, devem estar ou siderados ou anormalmente dissonantes. Santana Lopes, mais uma vez, numa “simpática” jogada política, levou a água ao seu moínho, numa altura de campanha interna em que os candidatos evitam grandes polémicas. Mas, pergunto-me, que género de gente é esta (os delegados ao congresso) que votam maioritariamente tais aberrações democráticas? São assim tão facilmente manipulados? E porque é que fico (eu e outros, com certeza) com a sensação que esta proposta de PSL, com o cheiro do rancor, visa um ajuste de contas com José Pacheco Pereira?

Em Flor 23

Finalmente!

11.3.10

Do "Bullying"

Entre as autoridades que “palitam os dentes” (e são a imagem da Autoridade no país), e as “comissões interdisciplinares”, o “bullying” entra para a agenda mediática. Por um lado uma velha tradição do: se apanhares, bate com mais força, aguenta, não faças queixinhas e aprende a ser homem (há também uma versão feminina mais insistente no “aguenta”) pois é assim que se forja o carácter; e por outro lado a nova postura proteccionistas dos pais de filhos hiper desejados e planeados, “ai Jesus, que fizeram mal ao meu menino” e que leva os ditos pais dos ditos filhos hiper desejados, planeados, e agora tiranos, à escola em tom de ameaça ao mínimo desagrado ou empurrão que aconteça à criança que é, de tanto ser desejada e caprichada, incapaz de gerir a contrariedade e que entra logo em “descompensação”. Uma coisa é certa: hoje ser escola é difícil: não há tempo para olhar para os alunos com a atenção merecida quer na sala de aula quer no recreio, onde ninguém vê com olhos de ver. Na sala de aula o professor tem pouca autoridade e muita burocracia; no recreio, onde depressa vêm à tona os comportamentos mais problemáticos há escassez de pessoal qualificado a tomar conta das crianças. Este “tomar conta” deveria pressupor um olhar atento, um detectar de padrões comportamentais diferentes, uma intervenção mais clara, firme e segura no caso de confirmação desses padrões de comportamentos violentos e abusivos. Na escola fecham-se os olhos, ninguém do lado dos adultos tem essa vontade de firmeza e segurança: todos temem as consequências – em burocracia e em contestação pelos pares e pelos pais - de “contrariar” os alunos, de denunciar violências, de impor uma disciplina firme, mas justa. Ninguém já deve saber o que isso é, pois os teóricos da pedagogia e da psicologia que é dada à força aos professores encontram sempre uma explicação e justificação desculpabilizantes para a violência de uns e de outros, fica de fora a vítima que vê desvalorizada uma queixa real. Venham então as comissões multidisciplinares, serão um bom pretexto para criar mais um organismo público: um “Observatório” para violência nas escolas. Se não fosse trágico, apetecia rir. O bullying é só mais uma face da enorme violência e indigência do quotidiano do mundo em que estamos, e em que também o respeito que o outro merece é secundarizado face a proveitos e satisfações mais imediatos.

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où... 6

Pieter Neeffs the Elder (séc. XVII)
Interior of a Gothic Church


Tolerância a Zero

A entrevista de Miguel Sousa Tavares a José Sócrates, em que o primeiro se preparou muito mal, e o segundo persistiu na sua já batida linha de recusa de ver o real e no abundante uso de má retórica optimista, e o anúncio do PEC, cujos pressupostos vêm desdizer o cenário que nos foi pintado pelo PS durante todo o ano de 2009 e durante as sucessivas campanhas eleitorais, e cujas medidas anunciadas para combate ao deficit são diametralmente opostas prometido pelo PS e por José Sócrates durante a campanha eleitoral para combater a crise, zeraram por completo o nível – já de si milionesimal – de tolerância ao Primeiro-ministro e ao seu governo, nomeadamente a Teixeira dos Santos que sempre considerei, durante a legislatura anterior, a pequeníssima, mas única, âncora de realidade no governo. Desde aí que não consigo vê-lo, nem vê-los, ouvi-lo, nem ouvi-los. Aguardo com expectativa, mas já sem interesse pela campanha, o desenrolar da novela PSD sem saber se ficaremos com a mudança, a ruptura, a força, ou outro qualquer substantivo que entretanto ocorra a alguém. O país, enquanto isso, continua mergulhado em descrédito, mentira e intriga, e a caminhar para o abismo das contas públicas e da contestação social que não tardará em sair à rua. O país continua entregue nas mãos de governantes e políticos desrespeitados e desacreditados, sem um rumo que se perceba e que impulsione algumas das reformas estruturais que urgem (apesar de já urgirem há 10 anos, note-se). Nada consente hoje, a alguns de nós, uma nesga de alento.

8.3.10

No seu comentário acerca das medidas de agravamento fiscal e do adiamento do TGV por dois anos para equilíbrio das contas públicas decididas pelo governo no âmbito do PEC, José Gomes Ferreira (SIC, Primeiro Jornal) pergunta o que diria o governo anterior, nomeadamente o Primeiro-ministro e Ministro das Finanças anteriores, das medidas apresentadas por este governo actual pela voz do Ministro das Finanças.

Ah Manuela Ferreira Leite, tão incompreendida apesar de tão certeira nas parcas e secas palavras que proferia então.

Claro que o eleitorado não gostou, pois prefere mentirosos e optimistas de pacotilha. Já disse, numa sondagem divulgada na passada semana, que votaria novamente em José Sócrates, apesar de acreditar que ele mentiu ao parlamente e que mente. Tanta esquizofrenia num país tão pequeno.


Pirosadas a propósito do Dia da Mulher,

Sobre isto de que se fala aqui: aposto que foi Zeinal Bava e uma equipa sua de secretários e assessores (homens, claro) que, tiveram e tornaram viável esta ideia. É por isso que estes gestos, para além de pirosos, são patéticos e puro marketing. Não é de flores que as mulheres que trabalham precisam é, por exemplo, de creches.

Aquecimento Global

Onde andam este ano os passarinhos a chilrear e as flores a desabrochar?


7.3.10

Cambridge Spies


Cambridge Spies é uma produção da BBC de 2003 sobre a vida dos famosos quatro amigos ingleses que foram espiões ao serviço da União Soviética: Anthony Blunt, Kim Philby, Guy Burgess, e Donald McLean que, especialmente durante a Guerra Fria, traem o seu país fornecendo informação ao KGB, e cuja extensão da verdade das suas vidas (até aí só se sabiam pedaços) deixou o Reino Unido em estado de choque no início da década de 80. Tão difícil que era acreditar que um dos “nossos” (quanto mais quatro) fosse capaz de trair o país. Parece enredo de filme, mas como alguns de nós sabemos, a realidade ultrapassa quase sempre a ficção. Este é um dos casos.

Pensei que ia ver mais espionagem, isto é, mais luz sobre o mundo escuro e cheio de perigo, manipulação, suspeitas, tráfico, duplicidade, traição e jogos que acreditamos ser o mundo da espionagem. Mais idas e vindas, mais fugas, esconderijos, mais segredo e sobretudo mais conflito, com eles próprios, com os seus contactos e com o mundo. Nesse sentido fiquei um pouco desiludida com o tom “light” da série, que pouco mais faz do que dar umas pinceladas em tons luminosos, e se esquecer algum luxo e glamour, às vidas tortuosas destes homens. Tudo parece demasiado fácil: tornar-se espião, tornar-se credível perante os seus compatriotas, merecer confianças de um lado - instituições do RU - e de outro - KGB e Moscovo, que nunca terão confiado totalmente neles - penetrar no MI5 e MI6, passar informação, enganar e viver uma vida aparentemente normal e sem grandes cuidados. Não se percebe bem, por exemplo, o que fizeram os quatro, como cidadãos britânicos e espiões ao serviço de Moscovo, durante a Segunda Guerra Mundial, pois a série é bastante omissa sobre esse período, deixando implícita, mas não convincente, como explicação o facto de Reino Unido e União Soviética terem sido aliados contra Hitler.

A série termina cedo: não mostra o choque cultural e pessoal que terá sido a chegada a Moscovo de três deles (McLean, Burgess e Philby) e a sua adaptação, ou não, a um estilo de vida tão diferente daquela que eles conheciam, amavam e da qual eram “elite” e privilegiados. Não há também referência à vida de Blunt que permaneceu em Inglaterra onde fez uma vida ligada à História da Arte, e a quem foi dada uma condecoração (knighthood) que mais tarde, e ao conhecer-se toda a história de espionagem que chocou a Grã-Bretanha e que o(s) expôs, lhe foi retirada pela Rainha por influência de Margaret Thatcher.

Sobra por isso aquilo que a BBC sabe fazer melhor: o retrato de um período, ou melhor, de vários períodos da vida do século XX na Inglaterra e das suas instituições, nomeadamente a Casa Real e o Foreign Office. Sobra o tratamento das recorrentes questões de classe “us” (Eton, Trinity Colledge Cambridge...) and “them” (por exemplo, os americanos por quem sentem um leve desdém), não no sentido exclusivo de classe social, mas antes num sentido de uma elite social e cultural que está “in charge” do país, ou melhor, das instituições que sustentam o país, que ao contrário dos políticos que vão e vêm, se mantém. Esta questão às vezes parece demasiado explicada, mas talvez os mais jovens necessitem dessa componente explicativa, não faço ideia. Sobra a história de uma amizade que une os quatro homens mas cujo desfecho (da amizade) ficamos sem saber, apesar da amargura que se adivinha; sobram pequenos e deliciosos retratos da vida despreocupada e privilegiada na sociedade inglesa; sobra alguma intriga diplomática; sobra o peso, que se carrega, às vezes já sem saber porquê (coisa que eles regularmente tentam lembrar), de uma decisão tomada na juventude e que vincula inexoravelmente para a vida. Sobram inúmeros momentos do melhor humor: a greve dos empregados de mesa em Trinity Colledge, a entrevista de Burgess para trabalhar na BBC, entre outros. Sobra uma representação sólida e boas actuações, destacando-se sobretudo dois excelentes actores: Tom Hollander e Toby Stephens respectivamente nos papeis de Guy Burgess e de Kim Philby.

Finalmente, e como não poderia deixar de ser a abrir e a concluir a série, sobra o hino à “englishness”, ou não fossem eles uma parte inquestionável do “us”. Ontem e hoje, sempre Jerusalém de William Blake
.
Há uma cena magistral (a melhor) no filme “An Education. (Atenção, spoiler). Penso na cena da revelação em que Jenny, percebendo-se enganada e traída, pede a David enfática, mas dignamente, para que ele não a obrigue a ter de dizer a verdade aos seus (dela) pai e pois ele deve-lhe, a si e a eles, a verdade da sua (dele) boca. Dá-lhe dois minutos e sem contemplações ela sai do carro e entra em casa de cabeça erguida com a maquilhagem dos olhos desfeita pelas lágrimas. Ele fica no carro, espera, bebe um golo, espera. Ela espera, os seus pais esperam. Finalmente ela ouve o carro dele a arrancar e partir. Ela fica só perante o olhar aturdido dos pais. Senti logo que só uma mulher poderia ter concebido e feito uma cena destas carregada de significado ou significados, bem como de história de história. Lembrei-me desta cena depois de ter lido este texto de Teresa Ribeiro em que fala actual presença das mulheres a fazer cinema.


4.3.10

Amanhecer 24

Hoje,

finalmente vejo alguma, côr no céu da manhã. Se Kafka cá estivesse, (ou Cronenberg) não teria metamorfoseado a sua personagem em insecto. Estou certa que seria um anfíbio numa casa húmida à beira rio. Parece que amanhã volta a chuva. Vou ali comprar umas barbatanas e volto já.

Hoje há greve da Função Pública contra o congelamento de salários, penalização das pensões e contra a precariedade laboral. Num cenário de crise, em que a dívida pública cresce e o deficit atingiu, facto reconhecido finalmente pelo Ministro das Finanças, um nível elevado, em que todos os dias empresas, privadas, claro, abrem falência ou fecham e em que todos os dias mais pessoas ficam sem emprego engrossando as estatísticas do desemprego, parece-me difícil de perceber o que move os sindicatos para a convocação de uma greve. A crise atinge todos (através de congelamentos salariais, agravamento de impostos, etc) e precariedade é um dado na sociedade europeia de hoje, e os funcionários públicos têm que se habituar a esse conceito também. Os sindicatos para serem credíveis e contribuírem para uma maior justiça social e laboral, e para o desenvolvimento do nosso pais, têm que mudar essa forma dicotómica (marxista?) “bons e maus” ou “patrões e trabalhadores” ou “exploradores e explorados” de olhar para o país.

Não é por o governo ser do PS de José Sócrates, e por eu não gostar dele como Primeiro-ministro, que concordo com qualquer greve. Este não é momento para greves. Esta crise é resultado das opções de quem nos tem governado, e quem nos tem governado tem sido sempre sufragado em eleições. Sem eleições, não há governos, e para que alguém governe tem primeiro que ganhar eleições. Por isso é que eu gosto de discursos realistas e pouca conversa mole antes de eleições. Sobretudo nada de optimismos plásticos. Mas não tenho tido sorte nenhuma. Não é disso que os eleitores gostam.

3.3.10

Lady Chatterley

Diz-se aqui, a propósito do aniversário (octogésimo) da morte de D. H. Lawrence (a Serpente Emplumada, por exemplo, marcou a minha forma de ver e sentir o México) que "de qualquer modo, lady Chatterley, hoje, está no poder". Que ela está, está. Mas se é no poder eu já não sei - pensei com os meus botões ontem, logo depois de ler o post. Lembrei até a violência doméstica e no que ela “dá” em poder a todas as lady Chatterleys que eventualmente estejam ou sejam cada mulher. O Francisco José Viegas é um optimista, ou melhor, um ficcionista.

Ainda ontem, mas ao fim do dia, enchi o tanque do carro na Galp e paguei mostrando o meu cartão “Fast Woman” (um nome que poderia ser, neste nosso mundo acelerado, um ersatz de Lady Chatterley). Tenho destes cartões que esqueço de converter em bens - que muitas vezes não preciso, por isso ainda bem – e que até hoje só serviram (o da BP, não o da Galp) para comprar bilhetes para o Rock in Rio, (onde nunca fui, note-se). Voltando ao pagamento: perguntaram-se se queria comprar um chocolate que dava pontos extra para o cartão. Não obrigada. Ofereceram-me o jornal i, sim obrigada; e o senhor da caixa perguntou-me se queria a Happy. Não obrigada. Mas é oferta, insistiu. Oferta? Sim, para as senhoras que gastem acima de um determinado montante. Embora cabendo nas duas categorias, recusei novamente porque sei como é a Happy, sei que mesmo que a abra não a lerei, e tenho pouca vontade de trazer tralha para casa. Mas esta é a última e a senhora vai gostar, insistiu o senhor da caixa enquanto me passava a Happy para as mãos.


Cheguei a casa e olhei para a capa. Entre outros assuntos a abordar no interior da revista, são anunciados estes dois interessantes temas: “SEXO: Inquérito revela o que elas querem” e ao lado, “QUER SER INFIEL? Site propõe-se a arranjar-lhe um amante”. Pensei novamente na lady Chatterley de Francisco José Viegas e na ilusão de que ela, hoje, está no poder. Não está, a realidade é outra: tem muitas vezes mais a ver com trabalho árduo e pensões alimentares para filhos que nunca são pagas a horas, quando o são. Não se deixe enganar pelas Happys e Cosmopolitans que se publicam e que enchem de ideias chatterleyanas raparigas e mulheres da cidade e do subúrbio.

Já Estou Farta de Tanta Chuva

... e farta de tanto vento.

Sábado, 27-02


Duas Visitas Diárias (ou quase), Duas Referências

Comecei a ler o Blasfémias quando ele surgiu e lembro-me de como gostava de ler opiniões avisadas, mas com alguma frescura e irreverência que vinha da aparente (pois não sabia sequer quem eram os autores do blogue nem nunca tinha ouvido falar deles) ausência de peias ao “sistema”, sobre a omnipresença e o excessivo peso do Estado na nossa economia e sobre o intransigente respeito pela liberdade individual. O blogue cheirava a Norte (norte do país, claro) e mostrava uma face oriunda das velhas tradições liberais da cidade Invicta. Hoje, os seus colaboradores são já quase “estrelas”, alguns até já estão no comentário político “oficial” dos meios de comunicação tradicionais. As adesões mais tardias, quase todas sulistas e de pessoas com curriculum, quer noutros blogues (jcd), quer na política (Paulo Morais), quer no jornalismo (Helena Matos e José Manuel Fernandes), têm contribuído para a enorme visibilidade e crescente influência do Blasfémias. Por esse ar fresco opinativo e por essa irreverência está de parabéns o Blasfémias.

O Insurgente, que comecei também a ler quando surgiu, facilitando a minha tarefa de visitar diferentes blogues "liberais", e cuja visão de uma economia mais livre e autónoma do estado vinha também de encontro à minha, é um blogue sólido, uma âncora do pensamento liberal blogosférico, onde se respira um ar sobretudo académico. Não fogem à polémica, e usam muitas vezes como armas, para além dos seus sólidos e pensados argumentos, referências (que podem ser mesmo excertos de textos) a autores que influenciem o seu pensamento ou estudo, a bem de uma política económica mais liberal. Parabéns pelos cinco anos que completaram.


28.2.10

Coisas que se podem Fazer ao Domingo 47

René de Saint-Marceux
Génie Gardant le Secret de la Tombe


Guardar um Segredo.

Depois da “Asfixia Democrática” Manuela Ferreira Leite fala, no Congresso dos Autarcas Sociais Democratas, na “Democracia Condicionada” (e a “má qualidade da democracia”) – Diz MFL que “a imagem é tudo para o engenheiro Sócrates e em nome dela vivemos numa democracia condicionada”. Também acusa o Primeiro-ministro de construir uma agenda ao serviço da sua imagem e não do país onde todos os dias pequenas empresas abrem falência aumentando o desemprego para niveis de “emergencia nacional”. Acusa também o Governo de suportar mal o poder local como “suporta mal tudo o que não possa controlar ou manipular a seu belo prazer”. Manuela Ferreira Leite igual a si própria a terminar o seu mandato. Ainda bem, pois até ao lavar dos cestos é vindima.

Estou certa que esta nova expressão de “Democracia Condicionada” merecerá atenção e desdém, e estas críticas, servirão para alimentar a horda de cínicos crónicos em relação a MFL, e que vêem em tudo o que ela faz ou diz, motivo de nojo, e pretexto para acusações de desporporção ou insensatez. No entanto MFL tem funcionado como um oráculo. As suas afirmações mais cedo ou mais tarde acabam por se revelar axiomas, por muito contestadas que tenham sido, ou por muita irritação que tenham causado ao establishment.

O Estado a Que Isto Chegou retratado aqui.

Ora vejam só: que topete achar que Rangel é um predestinado a mudar o país, porque sim, e Passos que consideram igual a Sócrates, porque sim, também Porque será? Ainda por cima desprezam a política e votam todos PSD ou CDS. Que malandros estes amigos.

25.2.10

An Education

An Education é um filme onde os pais, pelos motivos errados, querem que a filha faça a coisa certa. No entanto há um momento em que, para eles e para a heroína, casar ou ir para Oxford parecem ter o mesmo valor em termos de assegurar um futuro. Este é o sumo do enredo de um filme muito simpático, simples e bonito de se ver, em que Carey Mulligan brilha do princípio ao fim no papel de uma rapariga londrina, de classe média, inteligente e cheia de aspirações, e que gosta de ouvir Juliette Greco. Já há muito que não via uma actriz nova chegar aos ecrãs e agarrar um filme com esta simplicidade e com um ar tão fresco e tão pouco “Hollywoodesco” - apesar das cenas glamour que abundam no filme e desse glamour lhe assentar como uma luva.

An Education está nomeado para três Oscars: Melhor Filme (um exagero), Melhor Argumento Adaptado e Melhor Actriz.

Uma nota só sobre a tradução das legendas. Muito fraca um dos casos gritantes foi a tradução de Civil Service por Serviço Cívico. O que é que estudam estas alminhas tradutoras? Não há nenhum tipo de controle de qualidade para traduções?

Jane Austen

Do mesmo modo que temos os nossos odiozinhos de estimação, também temos os nossos amores de estimação que nutrimos e acarinhamos ao longo dos tempos. Um desses amores é a Jane Austen, uma das mulheres inteligentes com quem convivo regularmente há já muitos e muitos anos. Quem tem a paciência de vir espreitar este blogue e ler o que por aqui se vai escrevendo sabe que gosto de literatura, sobretudo romances e do séc. XIX, já agora. Jane Austen é especial pela sua inteligência (já disse), pela sua forma de ver a sociedade e pelo seu humor: nunca me cansei de a reler, coisa que faço regularmente e, claro, continuo a rir e a comover-me. Sinto até algum embaraço em confessar quantas vezes já li, por exemplo, Orgulho e Preconceito, que é o seu melhor romance. Aquele de que gosto menos, Mansfield Park, já li três vezes. É delicioso o humor de Northanger Abbey e Mr Tilney é o seu herói mais divertido (e cerebral); gosto do amor em Persuation, impossível não gostar de Anne Elliot a sua heroína mais comovente; Emma tem intriga e humor que chegue e sobre e Sense and Sensibility tem de tudo um pouco. Mas a coisa não fica por aqui: tenho várias edições dos seus romances, (alguns dos livros estão já demasiado gastos e compro outro, não vá ficar sem ele!), até traduções para português que nunca li, e finalmente, tenho uma colecção, em VHS e sobretudo em DVD, de todas as adaptações para filme ou televisão que se fizeram dos seus romances desde os anos 70.

Por isso foi com prazer que, depois de o ter visto em A Month in the Country e em Another Country, revejo Colin Firth como Mr. Darcy na famosíssima adaptação de 1995 para televisão de Pride and Predjudice. Mas o tempo passou e Colin Firth hoje, e finalmente em Single Man, despiu de vez a aura de Mr. Darcy que carregou, talvez sem querer, durante demasiado tempo e da qual não conseguia libertar-se. Foi premiado por isso, e para bem da sua carreira, com os prémios já ganhos (BAFTA; Veneza) e a nomeação para o Oscar de Melhor Actor. Nomeada também para o Oscar de Melhor Actriz está a britânica Carey Mulligan pelo seu papel de Jenny no filme An Education. Também ela emergiu numa recente adaptação de 2007 para televisão de Northanger Abbey, em que fez um excelente trabalho - que se destacou - como a loira Isabella Thorpe: uma rapariga sabidona, fútil, falsa e cheia de esquemas que se faz amiga da heroína Catherine. Jane Austen no percurso de ambos.

Dando Excessivamente Sobre o Mar 50


James McNeill Whistler (1834-1903)
Nocturne; Blue and Gold - Southampton Water



Depois de ouvir o que Henrique Monteiro disse ontem na dita Comissão de Ética, confirmo, para meu grande constrangimento, que:

Eles não têm vergonha (entre as outras muitas coisas que não têm, por exemplo, sentido de Estado).

O pais merece-os. O que seria notícia de primeira página nos jornais de hoje em qualquer país civilizado e que preze a democracia, a liberdade e a independência entre instituições e poderes, é relegado para segundo plano e o país ouve tais declarações com a tranquilidade (às vezes parece mais estupor do que tranquilidade) de quem come castanhas. Estranho país, estranha gente.

23.2.10


Ontem na Televisão

Alberto João Jardim entrevistado por Judite de Sousa, com determinação, segurança e lucidez, mostrou e relembrou ao País porque é que é “O” líder da Madeira há mais de três décadas.

José Sócrates, entrevistado por Miguel Sousa Tavares, viu-se encostado ao canto do reconhecimento de coincidências. Só coincidências. Quanto ao resto, a segundo parte, só serviu para confirmar o quanto me é insuportável ouvi-lo: a sua voz, o tom da sua voz e, claro, o que diz que é sempre igual e mais do mesmo. E então aquele optimismo postiço, teimoso e martelado desapiedadamente aos nossos ouvidos...

Família Tradicional, Um Exemplo

(daqui)



However (digo eu)

21.2.10

Um Homem Singular


Leio numa entrevista a Tom Ford (que desenhou os vestidos mais elegantes da década de 90 pela Gucci e que agora fez um filme) a sua confissão de que, tal como a personagem principal do seu filme – uma espécie de alter ego, segundo o próprio, se sente atraído por mulheres, o problema é que nunca se apaixona por elas, só por homens. Diz o entrevistador, com a concordância do entrevistado, que isso é a situação menos usual, que é mais frequente um homem gay apaixonar-se por uma mulher mas não conseguir ter desejo por ela. Confesso a minha perplexidade perante estas nuances, e mais ainda perante esta arrumação tão direitinha de fronteiras tão bem definidas entre paixão, desejo e afins.

Single Man é um pouco o reflexo deste mundo arrumado e compartimentado. É formalmente impecável a todos os níveis e sem descurar um único detalhe. Poderia ter caído no exagero formal que traz consigo sempre algum vazio, mas Colin Firth, num trabalho notável, não deixa nunca que isso aconteça. Os outros actores, é justo dizê-lo, nomeadamente Julianne Moore, são também muito bons e permitem dar a este filme a espessura necessária para que seja um muito bom filme. A cena de Colin Firth ao telefone quando é informado da morte do seu companheiro é absolutamente notável: pelo trabalho de representação, mas também pelo que mostra, sem mostrar, do que é a vida de um casal gay, do que é ser gay, na América dos anos 60.




20.2.10

A forma como a PT (Portugal Telecom) tem sido instrumentalizada e vilipendiada pelo governo e seus acólitos, sob o olhar passivo ( e conivente?) da administração, é difícil de acreditar e absolutamente inaceitável num estado moderno e democrático. Como um governo se permite pôr em causa a independência, a imagem de competência e o prestígio de uma das maiores empresas portuguesas, brada aos céus. Este (e outros) caso de gritante promiscuidade entre o mundo económico (e financeiro) e o governo há-de afectar-nos a todos, não só à PT. Estas leviandades pagam-se muito caro.

19.2.10

Plataforma Contra a Obesidade 58

Paolo Antonio Barbieri ? (1603-1649)
Kitchen Still Life

Delirante

Qualificar como “delirante” a ideia de um plano de controle dos media é um acto político pouco consistente: primeiro porque mostra a sua fragilidade actual na necessidade de contra atacar, no matter what, e depois porque mostra, mais uma vez a dificuldade em encontrar argumentos capazes de colocar um ponto final na questão da tentativa de manipulação dos media, bem como argumentos que contradigam as legítimas ilações que a oposição tira face aos fortíssimos indícios (ver jornal Sol, por exemplo) que a pouco e pouco vão sendo revelados, e aos factos (saída de Manuela Moura Guedes, entre outros) já amplamente conhecidos. José Sócrates é perito em se envolver em situações pouco claras que a imprensa vai desvendando e tem deixado sempre um rasto de suspeição atrás de si que nunca é possível limpar totalmente. Ele é vítima de si próprio, dos seus métodos e companhias (como disse António Lobo Xavier ontem na Quadratura do Círculo) e acrescentaria, da sua falta de contacto com a realidade que o leva a desconhecer o país, e mesmo as suas limitações: suas, e dos “seus”.

A comunicação ao país ontem do Primeiro-ministro é mais do mesmo; igual a todas as outras. Insiste em tomar-nos por parvos – característica que inevitavelmente se virará contra ele – iludindo esclarecimentos, brincando com palavras, mostrando–se, como já é hábito, vítima de insinuações, calúnias e mentiras. Fica-nos a sensação do pouco que governa, nada de novo, portanto.

16.2.10


Nada como o reconhecimento da inequívoca competência no exercício do cargo que até agora desempenhou para merecer congratulação de todos os sectores na recente promoção ao BCE. É o que se chama uma sociedade que promove o mérito.

Crónica Feminina



Oportunidade Desperdiçada

Já passou quase uma semana sobre a entrega desta petição na Assembleia da República. Vi uma breve reportagem na televisão do acontecimento que contou com apenas umas poucas dezenas de pessoas, apesar dos apelos nos blogues. Olhando para trás tenho de concordar com o que escreveu, no dia seguinte, João Távora aqui no Corta-Fitas:

Independentemente de considerar que iniciativa de ontem Todos Pela Liberdade cumpriu o seu desígnio, a fraca mobilização das pessoas para a rua confirmou aquilo que sempre afirmei sobre os limites da influencia dos blogues no mundo real. Não desmerecendo as suas obvias virtualidades, principalmente na democratização da escrita em geral e da opinião em particular; esta plataforma em termos imediatos funciona para um circuito fechado, em grande parte constituído pelos próprios intervenientes. É de forma indirecta que o que dela transpira chega ao país real. Devagar, mas chega; coisa que lhe retira competência para per si mobilizar acções de rua. Estas para serem bem sucedidas, necessitam de, além doutras ferramentas comunicacionais complementares, recursos logísticos e financeiros apenas acessíveis às instituições bem implantadas, sindicatos ou partidos. Claro está que uns autocarros, umas bifanas e umas cervejas serão sempre um selo de garantia para o sucesso.

Ter razão (no sentido de acreditar que) não basta. Ter razão e ter vontade pode inebriar, mas continua a ser manifestamente insuficiente. Uma boa ideia que faz disparar o entusiasmo (e ainda bem) é apenas, e na melhor das hipóteses, um bom começo. Um pouco, realismo, sentido das proporções e humildade são sempre úteis para todos e em todas as circunstâncias. T-shirts brancas só aumentam o folclore, e tiram dignidade e força à boa ideia.

Dito isto tiro duas conclusões. A primeira é que no “mundo real” a mobilização ainda está nas mãos de poucos: estruturas partidárias, sindicatos, e claro, a Igreja Católica (que não sei como o João Távora se esqueceu de mencionar). A segunda é que, lamentavelmente, e contra a minha vontade, não posso impedir-me de pensar que, do ponto de vista político, a petição (que assinei, repito) e respectivo gesto simbólico, a manifestação para a sua entrega na Assembleia da República, foram – to say the least - uma oportunidade desperdiçada.

14.2.10

A Natureza das Coisas

O frio que se faz sentir pede duas coisas: ou passeios energéticos longe do cimento das cidades, daqueles que deixam a cara corada e a ponta do nariz brilhante, ou o conforto das brasas de uma lareira, entre livros, revistas e DVDs. Eu gosto sempre quando chove e faz frio no Carnaval. Podia até chover a cântaros e fazer um frio árctico que não me importava. Penso sempre que isso me pouparia o esforço de tentar não ver, ou o embaraço de ver, as múltiplas imagens dos chamados desfiles tradicionais (tradi... quê? eles sabem mesmo o que quer dizer a palavra tradição?) carnavalescos de inspiração brasileira e tropical e que inundam o Portugal da província de norte a sul para gáudio e orgulho dos “foliões” (só ouvir a palavra já faz mal, quanto mais vê-los) locais. Esses desfiles são verdadeiros atentados à natureza das coisas... mas que é isso perante a força da estupidez humana? A minha esperança acaba por ser, tantas vezes, vã e esmagada por essa força e lá tenho eu que arranjar maneira de não ver nem ouvir falar de desfiles de carnaval. Basta uma nesga de sol para saírem à rua: artificiais, feios e frios, sob o olhar de meia dúzia de “foliões” acompanhados por criançinhas pálidas e vestidas de poliéster que, agitando-se informemente, fingem alegria.

10.2.10

Até que enfim, um bom motivo para ligar a televisão hoje às 20h.

9.2.10

Bruxelas (2009)

Assis diz que Paulo Rangel passou para um estado de verdadeiro delírio. Outro que não resiste à fácil (e nada nova) tentação de acusar a oposição de estar louca ou ensandecida. Tão fim dos tempos. Tão declínio à vista. E sobretudo tão irracional (pouco razoável). De Assis esperava melhor, (esperava mesmo?). Paulo Rangel tem toda a liberdade de fazer as intervenções que achar por bem fazer: não são indignas e mostram que Portugal tem outras vozes que não a de José Sócrates. Ainda bem que Rangel falou.

O Quê?

Ouvi no Primeiro Jornal da SIC que os promotores da manifestação de 5ª feira Todos pela Liberdade pedem que os manifestantes se vistam de branco. O quê? Vestir de branco? Para quê? Ninguém explicou e justificou esse estranho pedido e por muitas voltas que dê à cabeça, juro que não entendo, nem a motivação para tal pedido nem o possível simbolismo deste branco. Deve ser algo de muito rebuscado.

Este é um caso típico de decisão folclórica e absolutamente dispensável e desnecessária, (mas certamente tomada com entusiasmo), que irá afectar a eficácia e a seriedade de uma iniciativa por muito mérito que tenha. Também é preciso manter os pés na terra, e do ponto de vista prático, pergunto-me qual a disponibilidade de quem trabalha (é um dia de semana) e em pleno Inverno se vestir de branco, para uma manifestação à hora do almoço.

Dito isto. Assinei a petição e aplaudo a iniciativa cujo mérito está em abordar uma das mais importantes questões na forma como vivemos a nossa democracia: a independência, ou falta dela, dos diferentes grupos de comunicação social face ao governo e que invariavelmente afecta e condiciona a liberdade, ou não, de expressão, nomeadamente a que se manifesta e ganha corpo quer através da livre expressão de opiniões pessoais, quer a livre decisão sobre linhas editoriais nos diferentes meios de comunicação social. Poderia também falar, por exemplo, da forma como o Estado dá publicidade aos diferentes meios de comunicação social, condicionando assim também a liberdade de expressão.




7.2.10

Coisas que se podem Fazer ao Domingo 46

Clodion (1738-1814)
Nymph and Satyr Carousing


Beber Excessivmente

Da Percepção

O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós.

Vasco Pulido Valente no Público de hoje, fala da fantasia em que José Sócrates vive. Eu diria mais: ele sempre viveu nesse mundo paralelo fabricado de propaganda, anúncios e medidas, e movido pelo seu combustível de eleição: um teimoso e obstinado optimismo de uma superficialidade e ignorância confrangedores e incapazes de resistir a um qualquer escrutínio. Essa percepção de Portugal tão sua (de Sócrates) já contaminou o átomo (repito átomo, a que atribuo o sentido de “quase insignificante”) de realismo que conseguia sobreviver no seu governo, que era Teixeira dos Santos. Algo se passa de muito errado, nomeadamente com Teixeira dos Santos, que depois da sua declaração chantagista, já deveria ter pedido a demissão. Aliás pedidos de demissão são actos omissos deste grupo de gente que nos governa. Isso e vergonha na cara. Aguardemos.

6.2.10

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où... 5

Ambroise Baudry (1838-1906)
Palais de Ghiseh

5.2.10

Sabe Eduardo, o problema é que há sempre quem teime em não perceber, nem em querer perceber, a grande diferença que é, por um lado, ser um (o) accionista principal (dono) de uma empresa privada e despedir seja quem for, ou mesmo ser director dessa empresa e não gostar nem aprovar o trabalho que alguém produziu, e por outro, ser um político que tenta influenciar, pressionar, abusar do seu poder e planear para conseguir algo em seu benefício em empresas privadas das quais não é nem accionista, nem executivo. Isto só para falar em abstracto. Os casos dos últimos meses na comunicação social mostram que quando o Primeiro-ministro não gosta, (coisa que, em circunstâncias normais em democracia, seria só azar dele) há afastamentos e despedimentos.

Espírito Animalesco

Ele chamou-lhe, num dos momentos de insanidade que pontuaram o dia de ontem e que terminou com a sua absurda declaração imbuída da mais pura chantagem política e de má-fé, “Espírito Animalesco”. Nós não somos parvos. O mundo não é parvo. Os mercados não são parvos. Aliás, tal como o algodão, os mercados não enganam, nunca, e Portugal está no olho do furacão. Os mercados hoje abriram em baixa, até na Ásia. Dúvidas? É só ler as notícias.

Esta, por exemplo, da sóbria BBC: tudo preto no branco tal como “lá fora” nos vêem: Debt concerns in Europe were sparked by a lack of demand for government bonds in Portugal.


4.2.10

Perdido e Não Achado

Quando leio um livro, levo-o frequentemente para onde quer que eu vá. No carro, na mão, na mala (quando lá cabe), nunca me lembro de ter perdido um..., até agora. Estava a acabar, mas ainda não o tinha acabado. No dia em que senti a falta dele, presumi que estivesse no carro e comecei a olhar para a recentemente chegada encomenda da Amazon. Depois procurei: em todos os cantos da casa, na garagem, nos bancos dos carros. Telefonei: para os locais por onde passei nos últimos dias, para os Perdidos e Achados nos Olivais, para a Rádio Táxis cujos táxis utilizei. Nada. Ninguém viu livro nenhum. Ele estava sublinhado e anotado para poder escrever sobre ele aqui. O fado não se compadeceu e estou sem o livro (até encomendar outro). Deixo aqui, no entanto uma breve memória, porque não acredito que o vá reler e anotar tão cedo. Perdem-se os excertos, alguns deliciosos, e uma pequena série que estava a preparar sobre o livro.

Peter Ackroyd, A Retelling of
Geoffrey Chaucer's The Canterbury Tales

Quando, algures num tempo que parecia andar mais devagar, eu li o Decameron (Boccaccio, claro) que me deixou verdadeiramente deslumbrada e fascinada (e já tinha lido tanta coisa), fiquei com vontade de ler os Contos de Canterbury. Depois de comprar o livro, no original, como costumo fazer sempre que posso, abri-o e percebi que teria de decifrar em vez de ler. Senti-me realmente incompetente para essa tarefa e pousei o livro, lamentando não o conseguir ler, mas sem nunca procurar uma tradução. Recentemente, mão amiga ofereceu-me o livro acima ilustrado para grande alegria minha. Peter Ackroyd é um escritor peculiar e interessante, (de quem já li algumas obras) mas não é sobre ele que quero falar, a não ser para dizer da minha alegria no facto de me ter proporcionado a leitura, num inglês compreensível, mas cheio de carácter, elegância e densidade, desta obra fundamental de Chaucer.

Quando leio estes livros percebo porque razão volto e torno a voltar aos clássicos. Nestas obras está “lá” “tudo” o que há para estar; nem mais, nem menos. Tal como no Decameron (Chaucer foi influenciado por ele) a humanidade é tão humana quanto possível, mas nos Contos de Canterbury, o leque e a variedade de personagens e situações dos contos é menor. Também são menos contos do que os cem da obra de Boccaccio. A conjugalidade (homem e mulher casados, ou a casar) em todas as suas variantes e formas é talvez o tema predominante e mais glosado pelos peregrinos que se ajudam a passar o tempo contando e ouvindo histórias. O leque de peregrinos é amplo, mas predominam as classes mais populares, o que dá u tom genuíno e menos formal aos contos, ajudando a olhar essa “conjugalidade” de diversos formas e prismas: ora com imenso humor, ora aspirando à perfeita complementaridade, ora mostrando a sabedoria feita do dia-a-dia ou o desprezo perante a fraqueza, ora sublimando uma ideia de amor ideal ou ajustando-se e acomodando-se à situação que é e que pode ser. Muito actual, certamente. O livro merece ser lido, e lê-se deliciado, do primeiro ao último conto.

Os verdadeiros bota-abaixistas. Não há como fugir. Nem para a Madeira.

Adenda: Entretanto, o Ministro Teixeira dos Santos teima em querer andar enganado, já para não falar do seu estilo retórico tão duvidoso e revelador dessa teimosia em não ver.

3.2.10

Velas 20

Há dois dias

Discursos e Linguagens

O governo, naquele seu ímpeto de ir encontrando sucessivos bodes expiatórios para justificarem os seus fracassos, enganos e mentiras, tem andado entretido, e perdendo tempo e energia, a criticar as agências de rating, que não percebem nada, que são facciosas. O Ministro das Finanças até se irritou com elas e repreendeu-as pelo que considerou serem as suas estratégias comerciais, num acesso de algum patético provincianismo. Como se calcula, as agências de rating comovem-se pouco com discursos, se é que os ouvem: discursos não são o seu forte. A sua linguagem é outra e é a que sempre foi, por muitos discursos que se façam sobre seja o que for, nomeadamente o tão “politicamente correcto” discurso sobre o que o mundo financeiro “aprendeu”, ou “deveria aprender” com esta crise. É uma linguagem clara e simples: a procura do maior lucro possível com o mínimo risco possível. As agências de rating que são feitas para analisar, gerir e fornecer este tipo de informação aos mercados. As bolsas percebem e reagem. Teixeira dos Santos ou José Sócrates, por muito que esbracejem ou por muitos discursos que façam, contam pouco.

2.2.10

Parece que afinal a “asfixia democrática" sempre existe, se até o Expresso, na voz do seu director, já diz que
diz também que
e ainda acrescenta
Manuela Ferreira Leite, a eterna desprezada, a bota-abaixista - entre outros qualificativos, claro - parece que não errou uma declaração, uma previsão.

Sobram dúvidas sobre o tipo de Primeiro-ministro que temos? Os casos passados e este não bastam ainda para discernir um padrão? Acredito que os próximos dias sejam férteis em revelações. Diz-nos a História que a tendência dos homens do poder de chamarem “loucos”, “paranóicos” ou psicóticos a precisar de apoio, a todos os que lhe fazem frente, contradizem e mostram oposição é um mau sinal.

Há um cheiro pronunciado a declínio – a fim. Será que chegamos ao princípio do fim?

31.1.10

Amanhecer 23

Hoje


Dos Blogues

A curiosidade aqui expressa sobre o modo de funcionamento dos blogues colectivos é a que eu também nutro há muito. Aliás já aqui confessei várias vezes a minha preferência, em abstracto, por blogues individuais, ou pelo menos por aqueles que, sendo colectivos, deixam transparecer de maneira inequívoca a individualidade, a forma e o tom de cada um dos elementos. Eu também nunca percebi como funcionam os blogues com dezenas de colaboradores nem como se organizam e gerem, nomeadamente nos exemplos dados neste post e já vi/li demasiadas dissidências para acreditar que “tudo” se faz “naturalmente”. As estruturas informais (palavras de Miguel Castelo Branco) parecem-me facilmente permeáveis a mal-entendidos, equívocos e susceptibilidades várias, que se vão acumulando e que não sei como são contornadas e/ou resolvidas. Às vezes não são, como já todos nós (bloggers) testemunhámos, e a dissidência pode tomar contornos bem pouco discretos. Mas não é só o modo de funcionamento dos blogues colectivos que me deixa perplexa no mundo dos blogues, colectivos ou não. Há outros aspectos:

As caixas de comentários.
Há-as para todos os gostos e feitios. Confesso que visito pouco caixas de comentários, pois rarissimamente vi nelas alguma discussão que merecesse, e fosse linear, ser seguida. Há no entanto diferenças significativas entre as caixas de comentários dos diferentes blogues. Umas são as que considero laudatórias: sobretudo usadas por outros membros do blogue e alguns fieis leitores desse mesmo blogue cuja função principal é louvarem-se mutuamente usando ao infinito expressões e formas várias de dizer “ai que giro!”, “gostei muito”, “obrigado por” ou “bom post”. Neste casos lemos facilmente uma ou duas dúzias de comentários que nada dizem a não ser estas banalidades: às vezes até me pergunto se não haverá uma política concertada de louvor para aumentar as audiências do blogue, uma vez que parto do pressuposto que quem escreve em blogues é suficientemente autónomo e “crescidinho”, e não precisa propriamente de ser incentivado ou acarinhado paternalisticamente.

Outro tipo de caixa de comentário são as abusivo-insultuosas. Estas geram grandes dezenas (às vezes ultrapassam a centena) de comentários e são sobretudo, mas não exclusivamente, frequentadas por aquilo a que chamaria de anónimos “puros e duros”. Insultam quem escreve o post, treslêem o que está lá explícito e constroem todo um pressuposto implícito impossível de ver a olho nu, e que muitas vezes é mostra de pura má fé. Postam um comentário a seguir ao outro, a um ritmo que atordoa e intriga. Este exercício, de gosto duvidoso e propósito nulo, de liberdade – que é como lhe chamam - rima pouco com responsabilização e é absolutamente dispensável a não ser que, neste caso também, as audiências fomentadas por estes verdadeiros ninhos de vespas sejam elas, mais do que a discussão livre, o objectivo. Há ainda outros tipos de caixas de comentários, por exemplo aquelas cheias de “private jokes” entre comentadores ou/e elementos do blogue que, podem ter graça para quem as faz, mas interessa pouco a quem as lê. E finalmente há as caixas bizarro-conspirativas: comentadores estranhos vindos não se sabe de onde que enchem as caixas de links para sites estranhos pejados de conspiração: muito cheias de névoa.

As listas de links.
As barras laterais das listas de links são outro dos elementos dos blogues que parecem ter vida e códigos próprios. Nem sempre os entendo. Por exemplo, nunca percebi porque, ao fim de dois ou três anos e sem que nada se tenha modificado nas opções, no estilo ou no tom do blogue em causa, se exclui um blogue da lista de links. Como quem tem um blogue faz o que quer e bem lhe apetece do dito, esta estranheza minha é realmente só isso: pura estranheza. As listas de links são também elas propícias a gerar “links de cortesia” de outros blogues incrementando assim as audiências de ambos, e dando visibilidade ao tráfico que conseguem gerar. Ao contrario das caixas de comentários que visito pouco, eu uso muito as listas de links dos outros blogues e já sei que blogues têm os links para este o aquele outro blogue que gosto de visitar, por isso noto qualquer alteração.

As audiências.
Sempre presentes como quem mede o tamanho disto ou daquilo. É justo. Um dos interessantes objectivos – tantas vezes claramente enunciado – de vários blogues da esquerda à direita é conseguirem ultrapassar as audiências do Abrupto que, por sinal, é um blogue individual. Tal fixação leva-me a concluir que se toda a balança tem o seu fiel, todo o blogue tem o seu Abrupto.

25.1.10

Dando Excessivamente Sobre o Mar 49

Joseph M. William Turner (1775-1851)
Fishing Boats with Hucksters Bargaining for Fish.
(clicando aumenta)

Lembro quando na minha (pós) adolescência, e do alto da minha sapiência (sempre), afirmava não gostar de pintura, talvez como contraponto ao meu gosto pela música e literatura, formas de arte e de expressão sem as quais eu não “saberia” viver. Poucos anos depois, e inesperadamente porque não gostava de pintura, não é?, senti na pele, nos joelhos e nos olhos, o efeito dos frescos da Capela Sistina. Tudo mudou, e desde então tem sido sempre com prazer imenso que folheio livros, vou a museus, e hoje que procuro, aprendo e escolho pinturas para o blogue. De vez em quando, num museu, num livro, na internet, há um quadro que absolutamente prende a minha atenção e me leva. Este é um deles.

Nada de Novo

Em matéria de saúde, e sobretudo quando o binómio vida/morte é equacionado, as decisões dos indivíduos tendem a ser conservadoras, isto é, confiam nas instituições da área: governos e organizações (Ministérios e Serviços de Saúde Estatais, OMS,...), nos profissionais (médicos, investigadores, enfermeiros,...), nas indústrias (farmacêutica) e nas empresas (hospitais, clínicas, ...), que acreditam estarem melhor informadas e habilitadas na recomendação de uma terapia ou de uma prevenção. Os indivíduos também acreditam, porque a vida fica muito mais fácil assim, que essas instituições quererem o bem das populações em geral e do indivíduo em particular, esquecendo tantas vezes que a saúde é mais do que uma preocupação individual, é também e/ou sobretudo um negócio, um grande negócio, que qualquer negócio existe para ter lucro, e que qualquer decisão ou medida governamental ou individual tem um custo. Como o paciente/doente é conservador na hora de optar, é-lhe muito mais fácil decidir não tomar a medicação para uma constipação do que decidir não fazer quimioterapia quando confrontado com uma doença oncológica ou até, e por exemplo, decidir não seguir o plano nacional de vacinas para si e para os seus filhos. A pressão institucional e social é forte e aumenta, tal como a incerteza e medo do paciente, nos ditos casos em que o binómio vida/morte está mais patente.

Na hora em que se fazem balanços sobre a gripe A e a suposta pandemia que (ainda?) não foi, há questões que e levantam, para além da óbvia e necessária reflexão sobre “quem é que mais lucrou com esta situação?”, ou dito de outra forma “follow the money”. Uma delas é a sensação de que às vezes, mais do que o indispensável, mas nem sempre firmemente conclusivo e sustentável saber científico, as decisões dos indivíduos são formadas por uma forte convicção ou por uma fé inabalável. No caso da Gripe A, a classe médica bem como as classes dos restantes profissionais da área da saúde mostraram-se divididas quanto à inocuidade e necessidade da vacina desenvolvida em tempo recorde pela indústria farmacêutica, e expuseram ao público a dissonância que existia no seio dessas instituições, em quem os indivíduos tanto confiam. Neste caso elas falavam a diferentes vozes; basta lembrar por exemplo o número de médicos e de enfermeiros que recusou ser vacinado. Todos nós conhecemos algum. Ao contrário dos profissionais de saúde, os governos que tomaram uma decisão política sobre a Gripe A, e serviços administrativos da área da saúde falaram (perceber o porquê será também interessante) com convicção e firmeza. Opiniões divididas, em quem se acredita?

A atenção dada pelos meios de comunicação a cada novo caso confirmado, primeiro no México, depois nos EUA, depois na Ásia, na Europa, em Espanha e finalmente em Portugal, ou a uma morte – como se se anunciassem nos media outras mortes, resultantes de doenças igualmente contagiosas, como a gripe sazonal, ou não, foi demasiada e por um longo período de tempo. Houve também um excesso de comunicados ou intervenções diários dos responsáveis nacionais pelos serviços de saúde, no caso português já ninguém conseguia ver e ouvir Francisco George, que cansaram uma população que depois do impacto inicial depressa percebeu que a maioria dos casos de gripe A se resolviam, felizmente, como qualquer outro caso de gripe: cama, repouso, paracetamol e alguma paciência, o que foi afastando progressivamente a equação vida/morte do caso da gripe A. Não houve por isso razão para ter uma forte convicção ou uma fé inabalável. Sobram, isso sim, milhões das vacinas compradas pelos governos que agora tentarão vender, provavelmente e comme d’habitude, a quem não precisa. Nada de novo.

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