“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

31.5.07

Le temps des Cerises 3

Paul Cezanne

A Galinha e o Ovo


Tive um professor que um dia perguntou à turma o que é que tinha existido primeiro, se o pensamento, se a linguagem. O pensamento, claro, foi a resposta imediata e quase em uníssono. No momento a seguir começaram as hesitações, e o professor meio divertido perguntava-nos como é que nós pensávamos sem linguagem, enquanto alguns dos alunos diziam, pondo em causa a noção da irracionalidade nos animais, que se os animais têm linguagem, então também pensavam. Como se imagina esta pergunta colocada por um bom professor originou uma divertida e exigente reflexão na turma em que nos confrontamos com o facto de linguagem e pensamento serem quase duas faces duma mesma moeda. Cada linguagem espelha uma forma de pensar. Cada forma de pensar é refém de uma linguagem. Tudo isto a propósito das Provas de Aferição (que raio de nome) do 4º e 6º anos do ensino básico e do facto de, em determinadas perguntas de Português nomeadamente nas de interpretação do texto, os erros ortográficos não serem corrigidos pois querem avaliar separadamente diferentes competências. Se não fosse patética, esta frase faria rir pela presunção que carrega em si, de alguém ter sido capaz de separar em compartimentos estanques as diferentes competências que fazem uma língua. Eu não percebi se os erros de sintaxe também não eram corrigidos, e até acho que, em nome da coerência, nenhum erro formal devesse ser corrigido. Ficariam só os erros de semântica, cabendo ao professor corrector das Provas aferir se, para lá da formalidade da linguagem e da arbitrariedade no seu uso que cada aluno clamará para si (sim, pois deve tratar-se de um processo criativo por parte das crianças a ser acarinhado) consegue encontrar um fio de sentido. Se é tão difícil estabelecer separações entre a linguagem e o pensamento, como é que querem desfragmentá-la (ai estruturalismo sempre a espreitar!) e dividi-la em conjunto de códigos estanques, impermeáveis e não relacionáveis, para melhor encontrar o pensamento - o sentido, a interpretação do texto, neste caso? Como é que querem que um aluno - ou pai, ou cidadão - entenda que numa parte de um teste pode escrever com erros e na parte seguinte já não? Isto faz sentido na cabeça de quem? Um erro não é sempre um erro? Talvez estejamos perante um caso moderno de flexi-ortografia.

30.5.07

Hoje há Luar

Small Hours

Let it go
Let it roll right off your shoulder
Don't you know
The hardest part is over
Let it in
Let your clarity define you
In the end
We will only just remember how it feels

Our lives are made
In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate
Time falls away,
But these small hours
These small hours
Still remain

Let it slide
Let your troubles fall behind you
Let it shine,
Till you feel it all around you
And I don't mind
If it's me you need to turn to
We'll get by
It's the heart that really matters in the end

Our lives are made
In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate
Time falls away
But these small hours
These small hours
Still remain

All of my regret
Will wash away somehow
But I cannot forget
the way I feel right now

In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate
Yeah, these twisted turns of fate
Times falls away
Yeah, but these small hours,
These small hours
Still remain

Yeah, oh they still remain
These little wonders
All these twists and turns of fate
Time falls away
But these small hours
These little wonders
Still remain

Little Wonders
Artist(Band):Rob Thomas

Le temps des Cerises 2

29.5.07

aqui escrevi sobre o facto de considerar um esbanjamento e inutilidade os exames de aferição. Se precisasse de mais argumentos, estes, que ainda me parecem saídos de uma comédia negra de Hollywood, serviriam e seriam suficientes. Mas o excesso de zelo deixou-nos alternativas suficientes. Resumindo, uma boa Prova de Aferição (ai o nome) é quando:

  • Não conta para a nota
  • Não avalia nada nem ninguém
  • Não penaliza os erros

Do you mind not to smoke?


Someone wants to jog.

Se o ridículo matasse

Portugal inteiro tem que assistir às aventuras de um provinciano em Moscovo, só porque é o nosso Primeiro-ministro.

Já agora: os hoteis em que José Sócrates se hospeda (ou os hotéis ao lado) não têm ginásios devidamente equipados para joggings matinais na mais pura discrição e sem restrições de segurança, tal como José Sócrates diz querer?

28.5.07

Plataforma contra a Obesidade 7

Pieter Snijers,
A Still Life with Fruit,
Vegetables, Dead Chickens and a Lobster

Indian Love

But he continued to remember: when he located his cabin, he found he had a cabinmate who had grown up in Calcutta composing Latin sonnets in Cattullan hendecasyllables, which he had inscribed into a gilded volume and brought along with him. The cabinmate’s nose twitched at Jemu’s lump of pickle wrapped in a bundle of puris; onions, green chillies, and salt in a twist of newspaper; a banana that in the course of the journey had been slain by heat. No fruit dies so vile and offensive a death as the banana, but it had been packed just in case. In case of What? Jemu shouted silently to his mother.

In case he was hungry along the way or it was a while before meals could be properly prepared or he lacked the courage to go to the dining salon on the ship, given that he couldn’t eat with a knife and fork-

He was furious that his mother had considered the possibility of his humiliation and thereby, the thought, precipitated it. In her attempt to cancel out one humiliation she had only succeeded in adding another.

Jemu picked up the package, fled to the deck, and threw it overboard. Didn’t his mother think of the inappropriateness of her gesture? Undignified love, Indian love, unaesthetic love - the monsters of the ocean could have what she so bravely packed getting up in that predawn mush.

The smell of dying bananas retreated, oh, but now that just left the stink of fear and loneliness perfectly exposed.

Kiran Desai, The Inheritance of Loss

Este excerto é um dos mais interessantes e dramáticos deste romance, em que a herança deixada pelas circunstâncias, sejam elas quais forem: os pais, o amor, a família, o país e civilização, a emigração para uma vida melhor, a pertença a uma etnia ou um grupo, o clima, as monções - acaba por se revelar uma forma de perda ou de solidão.

27.5.07

Combate ao Sedentarismo 24

Domingo à Tarde

Auguste Renoir, Le Déjeuner des Canotiers
(clicar para ver melhor)

O Circo pega fogo

Lisboa, Ponte 25 de Abril, ontem à noite
(Clicar para ver melhor)

Ao atravessar Lisboa hoje senti algum incómodo ao olhar e ver todos os outdoors para as autárquicas. As fotografias dos candidatos, os slogans, (O Zé? Mas que é isto?) nada parecia certo e adequado, todos soavam a falso. Algo não está bem no tempo e no local em que vivemos. Os primeiros sinais de um qualquer apocalipse político estão bem evidentes. Qualquer página de jornal aberta ao acaso terá exemplos de frases, ou silêncios, ou intervenções, ou entrevistas, ou gestos, ou adesões, ou suspeitas, ou delações, que analisadas nos deixam em estado de puro espanto. Tanto não era possível. Mas com a complacência habitual, a vidinha vai correndo, as noites sucedem os dias, o tempo da praia está achegar, vemos o circo pegar fogo e já nem queremos saber onde está a água.

Ota, DREN, Câmara de Lisboa, PS, PSD, (e porque não CDS, PCP, BE?), Mário Lino, Manuel Pinho, M. de Lurdes Rodrigues, e claro José Sócrates têm animado a agenda nestas últimas semanas. Cada caso cheio de casos, cada um mais patético do que o outro, cada um mais previsivelmente vazio do que o outro, perigosamente vazio, com um pano de fundo feito do conforto e da certeza de que estamos mesmo na nossa terrinha, e de que já nem nos apercebemos que a falta de vergonha e a falta de noção do ridículo, para não falar de noções que requerem um esforço ainda maior em apreender como liberdade, desapareceram faz muito do mapa político, e que todas estas personagens que tecem os seus enredos fundados nas solidariedades dos partidos que servem o regime, feitos de respeitinho, de medo, de subserviência, de conspiração, em redor de cada um destes casos, parecem marionetas vazias e sobra-lhes só uns pós de dignidade de alguma tragédia e fado que carregam, a de serem prisioneiros de si próprios, mas nem disso se dão conta.

26.5.07

Le temps des cerises

Thomas Corner 1865-1938
Fresh Picked Cherries

25.5.07

Uma ideia da Europa 14

Futebol, Ténis, Rugby. Desporto. Mens sana in corpore sano. Jogos Olímpicos. Competição e fair-play. Amadorismo.

24.5.07

Pela boca morre…

Dantes era o peixe. Talvez agora seja a OTA de tanto se abrir a boca a falar dela. Parecem todos apostados em ver quem consegue dizer o maior número de disparates no menor tempo possível. Já lá vão coisas como faltas de hospitais e escolas nas mediações dos aeroportos, pontes dinamitadas (não é dinamizadas, é mesmo dinamitadas) e uma desertificação precoce da margem sul... Tudo por uma boa causa: convencer os cidadãos da bondade do projecto do aeroporto. Assim não sobrará um céptico, tal a adesão aos argumentos. Pelo menos já há uns tempos que os políticos não me faziam rir assim, e mesmo assim não têm faltado momentos risíveis.

Postal Ilustrado 10

Esbanjamento

Que o nosso estado desperdiça recursos já o sabemos, mas estas provas de aferição que decorrem para o 4º e 6º ano, são simplesmente de bradar aos céus. Começa-se pelo nome: “prova de aferição” assim uma coisa inócua que não dá nem tira não diz nem deixa de dizer, não é nem deixa ser. É um título politicamente correcto feito para não chocar, evitando palavras de significados mais robustos e claros como exames, notas, resultados.

Depois a ideia de pôr alunos a fazerem exames que não contam para a nota, só mesmo uma ideia de quem não sabe que mais há-de inventar para contornar o cerne da questão, que é sempre a de verificar níveis de aprendizagem dos alunos, competência dos professores, competitividade das escolas, e o ajuste dos programas dados aos objectivos previamente definidos pelo Ministério. Claro que é importante medir e aferir tudo o que referi, mas sem viciar os dados à partida. Os alunos, sabendo que fazem provas que não contam para nota (onde já se viu este ridículo?) nunca se comprometerão, nunca se motivarão, nunca se esforçarão para o melhor desempenho possível. Também os seus pais, ou encarregados de educação, com medo de stressar demasiado as crianças, adoptará um discurso brando que desvaloriza a prova. Este factor, pelo menos, dá alguma razão aos professores que dizem - talvez também pelos motivos errados, neste jogo viciado que é a educação em Portugal, que estas provas de aferição não deverão servir para os avaliar. Sem os alunos a darem o melhor de si, e a fazerem a sua parte no processo que é a aprendizagem, é certamente difícil avaliar professores, escolas, programas.

Então para que servem as Provas de Aferição? Não faço ideia. Parece ser mais uma forma de esbanjar e desperdiçar recursos, pondo as escolas em estado de “alerta” e com as prioridades invertidas neste último trimestre lectivo.

23.5.07

Plataforma contra a Obesidade 6



Paul Cezanne

22.5.07

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com