“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

26.12.09


Até um dia de Janeiro.

BOM ANO DE 2010

Dando Excessivamente Sobre o Mar 48

Aaron Morse
Atlantic

23.12.09

Maria


FELIZ NATAL

Solo Dios Basta


Nada te turbe;
nada te espante;
todo se pasa;
Dios no se muda,
la paciencia
todo lo alcanza.
Quien a Dios tiene,
nada le falta.
Solo Dios basta.

Teresa de Ávila, Santa e Doutora da Igreja

22.12.09

Amanhecer 21

Hoje

2009 e 2010

Passou um ano marcado pelas socráticas efabulações, conspirações, golpes e contra golpes. Todos os expedientes foram válidos para assegurar a sobrevivência política de José Sócrates. Esquemas, telefonemas, influências, anúncios de anúncios, favorecimentos de alguns marcaram este ano de duas eleições ainda mais do que os outros. A urgência era também outra. José Sócrates corria o risco de se ver sem o cargo de Primeiro-ministro. Um dia a História contará as histórias, contará como se deitava fogo à aldeia para depois poder gritar alto aos bombeiros para irem rápido apagá-lo e decidir a quem atribuir uns incentivos.

2009 não deixa saudades. 2010 não promete nada de melhor, por muito que os modernaços oráculos europeus tenham decretado oficialmente (ah soberba) o fim da recessão. Por cá irá ser mais do mesmo: para alem da dívida, o drama do desemprego a aumentar pois para a nossa recessão o fim não está à vista. O estilo José Sócrates agudizar-se-á. Descobriremos mais família e mais amigos, mas nunca saberemos nada. O PSD continuará enrolado em si próprio sem querer ver nem perceber o país, nem tão pouco valorizar a líder que tem. O eterno candidato ocupará, logo depois do grande líder, lugares de relevo na comunicação social para o povo ver e lembrar. Sofisticações das técnicas de marketing e comunicação que se especializam em fabricar nadas. Tristes perspectivas. Que sobrem bons filmes e bons livros.
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20.12.09

Do Frio

Nikita permanecia imóvel desde que se sentara, coberto com a esteira, atrás do trenó. Como toda a gente que convive com a natureza e conhece a miséria, era paciente e capaz de esperar horas a fio, ou mesmo dias, sem se inquietar ou irritar. Tinha ouvido o patrão a chamá-lo, mas não respondeu – porque não se queria mexer nem falar. Embora ainda guardasse algum calor do chá que bebeu e se tivesse esforçado muito a andar na neve funda, sabia que esse calor não duraria para muito mais tempo e que já não teria forças para se aquecer andando e mexendo-se (...). Por todos os indícios passou-he pela cabeça que poderia morrer essa noite, mas a ideia não lhe pareceu especialmente desagradável nem assustadora. Não era desagradável porque a vida de Nikita, ao invés de ser uma festa permanente era um calvário de trabalho constante de que já começava a cansar-se. E não era muito assustadora porque , alem dos patrões como Vassili Andreitch, que servia neste mundo, se sentia dependente do patrão principal, o que o mandara para esta vida; e sabia que, mesmo depois de morrer, ficaria sob a alçada desse patrão, um patrão que não o ofenderia (...).

Lev Tolstói, O Diabo e Outros Contos, O Patrão e o Moço de Estrebaria.

Creio que esta colectânea de Contos de Lev Tolstoi foi, na minha juventude, a introdução à literatura russa. A partir daí fui lendo (e nalguns casos, relendo) ao longo dos anos Tchecov, Dostoievsky, e mais recentemente Pushkin, entre outros. Quando recentemente comprei esta colectânea procurava relembrar como eram estes contos, o que os diferenciava (tudo, mas isso não é para agora) dos de Tchecov sempre presentes porque os leio e releio com muita frequência, mas procurava também, percebi isso depois de ler, reencontrar a emoção que tinha sentido ao ler este conto O Patrão e o Moço de Estrebaria que nunca esqueci. O meu primeiro contacto literário, e não só, com o frio da Rússia, mas também a imensidão e a neve, a noite, a morte, a facilidade com que se dispunha da vida de outro (um criado), o álcool, a ambição, a crueldade da natureza que não se adapta ao desejo e à pressa do homem. Essa emoção, esse sentido trágico do conto está totalmente intacto na leitura de hoje como na leitura de há tantos anos. Impossível lê-lo sem sentir frio. Como sempre me lembrei deste conto (dos outros lembrava vagamente) como um dos contos de Tolstói, a surpresa quanto ao desenrolar da narrativa era irrelevante no fazer do trágico, porque mesmo numa primeira leitura esse “final” vai-se construindo e adivinhando ao longo da leitura, sobretudo através do olhar de Nikita (moço de estrebaria) que, ao contrario do Patrão que tem pressa em chegar, é um observador do desenrolar dos acontecimentos: sem ímpetos, com resignação e sem pressa. E depois, como diz também Nikita, em relação ao final , na última frase do conto: “Todos nós o saberemos, não vai tardar muito”.


18.12.09

E pur si muove.
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Plataforma Contra a Obesidade 56

Frans SNYDERS (1579 - 1657)
Fruits et légumes avec un singe, un perroquet et un écureuil

17.12.09

Agora que o Conselho Superior da Magistratura concluiu ter Lopes da Mota pressionado os investigadores do caso Freeport aplicando-lhe uma pena, seria bom fazer as perguntas seguintes. Porquê? A pedido de quem? E para evitar que se investigue o quê ou quem? Parece haver aqui matéria suficiente para avançar na investigação.

O País das Maravilhas

Se algum(a) marciano(a) aterrasse agora em Portugal e abrisse um jornal iria ficar impressionado com as prioridades políticas e legislativas do nosso pais: regionalizar um país demasiado homogéneo e claustrofóbico, legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo - depois de ter legislado anteriormente uma versão de “divórcio turbo” que tem dado que fazer aos tribunais de família, e arrancar com o projecto/investimento do TGV que trará a Europa para mais perto de nós. O dito marciano pensaria estar perante um país rico e próspero com os problemas essenciais para o bem estar de uma sociedade resolvidos. Ele saberia, por exemplo, que estava num pais que não tinha dívida externa, em que o desemprego era quase inexistente, a indústria era sólida e espelho de um confiante investimento e consumo privados, a justiça célere e conclusiva, a educação exigente formava cidadãos solidamente qualificados, o sistema de saúde respondia na hora às necessidades dos contribuintes e que a política fiscal era justa. O Pais das Maravilhas.

José Sócrates continua com a sua política de fugir para a frente, anunciando medias umas atrás das outras e legislando rápida e sucessivamente em matérias fracturantes de forma a atordoar o eleitorado e a encandear o nosso olhar para nos impedir de ver. Mas há sempre alguém atento. Há sempre quem veja. Há sempre quem perceba. Valho-nos isso.
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Là-bas, Je Ne Sais Pas Où... 3


Albert Gleizes
Houses in a Valley
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13.12.09

A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão) 3

O entusiasmo consumista foi contaminando o mundo. O glamour era a palavra de ordem, e todos queriam marcas: vestir marcas, calçar marcas, usar marcas e logótipos bem visíveis. Esta corrida aos produtos de luxo conhece um crescimento sem precedentes no Japão, pois os japoneses que têm muito dinheiro revelam-se fervorosos consumistas de produtos de luxo. Note-se que o Japão se torna, nos anos 80, numa importante potência económica impondo os seus produtos (carros, electrónica), atordoando os produtores tradicionais do mundo ocidental, e Tóquio é uma das maiores praças financeira do mundo. A cultura empresarial do Japão fascina o ocidente, nomeadamente a América. Mas o Extremo Oriente não é só japonês, todo ele fervilha e os seus mercados financeiros têm um peso cada vez maior no panorama mundial.

A China, esse pais fechado e comunista dá, com facilidade, os primeiros passos capitalistas começando a criar uma economia de mercado com a liberalização do comércio e a promoção da iniciativa individual. No entanto essa abertura económica não se fez acompanhar de abertura e liberdade política. Enquanto o império Soviético estremecia acabando por ruir com a Queda do Muro de Berlim, Pequim manteve-se inexorável no controle das liberdades individuais. O Massacre de Tiananmen foi o momento dramático em que os chineses percebem que nada mudou no tocante às liberdades individuais.

Também Singapura se torna num importante centro financeiro e económico do mundo e a Malásia, por exemplo, conhece grande crescimento económico. No entanto nenhuma cidade tinha “glitter” como a Hong-Kong cheia de neons dos anos 80. Tive a sorte, porque vivi num curto período de tempo em Macau, de conhecer bem Hong-Kong que conheceu um ambiente e energia únicos (visitei a cidade posteriormente no final da década de 90 já sob a administração chinesa e, apesar de próspera, o ar que se respirava era totalmente diferente). Na minha memória Hong-Kong é a cidade que melhor simboliza os anos 80, pela sua “vibração”, entusiasmo, prosperidade económica, gosto de viver, uma esperança apressada que acreditava que o futuro iria passar por lá melhor e mais depressa do que no resto do mundo. Tudo parecia possível naquela cidade que acreditava estar no centro do mundo.

Claro que nada dura sempre e em finais de 1987, Black Monday foi uma chamada à realidade, não só de Hong-Kong e do Extremo Oriente próspero, nomeadamente dos EUA, país que inventou os Yuppies. A embriaguez provocada pelo crescimento económico e por tantas fortunas que vimos fazerem-se dá lugar à ressaca no mundo financeiro.

No entanto a década não acaba com a crise financeira, no final do ano de 1989 a Queda do Muro de Berlim trás entusiasmo e um sopro de esperança com o fim do mapa político que a Guerra Fria desenhou e abrindo um novo capítulo geo-político. Nessa altura cantava (mal) isto e dançava ao som o disto e disto.

(Ver pequena adenda "musical" no post A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão) 2.)
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Entardecer 14

Hoje
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12.12.09

D. Manuel Clemente

Foi reconhecido, a D. Manuel Clemente pelo júri que atribui o Prémio Pessoa, que

Há, no entanto, alguns sectores anti-clericais na sociedade, sobretudo numa determinada esquerda de causas, que não “percebe” o porquê do prémio e o critica, mas que esquecem que não podem "perceber" quando, por puro preconceito tantas vezes, não querem olhar e ver. Estes sectores convivem mais facilmente com a estupidez, pequenez e falta de cultura que existe dentro da Igreja Católica do que com a excelência, inteligência, cultura e o rigor, já para não falar da bondade (conceito absolutamente desactualizado e potencialmente perverso). São escolhas.
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10.12.09

Amanhecer 20

Hoje
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Da Igualdade

Parece que a moda pegou e que não há maneira de sair desta linha de argumentação: quem não gosta do PSD, ou melhor, deste PSD, ou melhor, de Manuela Ferreira Leite, mais tarde ou mais cedo, e por muitos ares que se dê de distanciamento político e de isenção, acaba sempre por cair no argumento trivial e grau zero da argumentação política: “são todos iguais”. Eu sei que é fácil ceder ao populismo e à audiência “taxista”, e eu sei que a vida nem sempre é fácil e que às vezes é preciso despachar uma opinião para um jornal ou uma televisão como quem faz a lista de supermercado, mas de certos comentadores espera-se (espera-se mesmo?) um pouco mais de seriedade na análise.

O último caso que me chamou a atenção foi este artigo de Constança Cunha e Sá (via). Esta frase o mal, como se vê, está bem distribuído pelas aldeias, uma versão aparentemente mais elaborada e sofisticada do “são todos iguais”, mostra preconceito (para não dizer má-fé) em relação aqueles que questionam – e querem esclarecimentos sobre – a conduta do Primeiro-ministro. Os factos apontam para que o Primeiro-ministro tenha, numa conversa que foi escutada no âmbito de uma investigação de que era objecto o seu interlocutor, mostrado que interferiu na area da comunicação social através de um negócio que disse, na altura no Parlamento, desconhecer. A ser verdade há aqui matéria para investigar. São questões da esfera política ligadas à forma como tem exercido o seu cargo público. Por isso as questões levantadas são legítimas, tal como as dúvidas, até agora nunca esclarecidas, que todos temos em relação ao caso Freeport, e à questão da discrepância de biografias de José Sócrates no Parlamento, por exemplo.

Dúvidas deste género não se colocam nem no caso de Manuela Ferreira Leite, nem no caso de Aguiar Branco, (ou de outros anteriores dirigentes socialistas, por exemplo) por muitos erros politicos que comentam, por muita falta de “jeito para a política” (seja lá o que isso for) que tenham. Não gostar de um politico não faz dele um “igual” a outro de quem não se gosta também, mas que está (e tem estado em permanência) sob suspeita de ter cometido e cometer actos ou ilegais ou menos éticos do ponto de vista politico. Querer "igualar" é não querer perceber a óbvia diferença. Por muito que insistam, nomeadamente os que gostam de ver a “diferença” em Pedro Passos Coelho (as if...), nunca farão de Manuela Ferreira Leite uma “igual” a José Sócrates, nem (infelizmente) de José Sócrates um “igual” a Manuela Ferreira Leite.

Não, não são todos iguais. Não, o mal não está igualmente distribuído pelas aldeias.
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(...) Estamos todos, aliás (de passagem). É pena que a maior parte das pessoas morra sem perceber esta trivialidade.
Aqui
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O zelo dos convertidos. Ou afinal sempre dá resultados ter uma oposição “radical”.
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7.12.09

Outra 1ª página horrorosa e o novo tom ou estilo ou linha editorial ou seja-lá-o-que-for que se impõe sem surpresa: cada vez mais banal, superficial e previsível. A ler aqui.


6.12.09

Coisas que se podem Fazer ao Domingo 44

Sketch model for Eros, 1893, na RAA

Procurar o equilíbrio
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A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão) 2

Lembro no chamado mundo do "ocidente" duas personalidades fortes de “direita” que dividiam as atenções: Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nenhum dos países que governaram ficou na mesma, e com Ronald Reagan o mundo ficou diferente: levou a guerra fria a um outro nível com o seu programa ambicioso e ambíguo (ofensivo disfarçado de defensivo) Star Wars cuja intenção era desestabilizar o equilíbrio de forças – bélicas - entre o mundo ocidental e o leste – note-se que estes conceitos "ocidente" e "leste" na altura não tinham o carácter global que hoje têm: o mundo era “mais pequeno”, e o “leste” não era mais do que a União Soviética e os países, europeus ou não, sob influência soviética. Este programa foi amplamente contestado pela “esquerda” e liberais bem pensantes da época que sempre se recusaram e ver em Ronald Reagan algo mais do que um actor de talento duvidoso de filmes série B, que o viam incompetente para liderar o mais poderoso país do mundo e que este desequilíbrio pretendido resultaria numa escalada de agressão a nível mundial. Creio que a História não lhes dará razão, apesar de na altura, e do alto da minha omnisciência, eu também achar que Ronald Reagan era “básico” demais.

Margaret Thatcher reformou e/ou privatizou uma boa parte das instituições do Reino Unido (NHS, e BT por exemplo) para escândalo de muitos tradicionalistas (nomeadamente dentro do seu partido) mudando e modernizando o país. Ninguém gostava dela, mas tal como Reagan, sabia ganhar eleições. Lembro bem, porque vivia então em Inglaterra, de como ganhou um duro, longo e penoso braço de ferro com os sindicatos, nomeadamente o sindicato dos mineiros que, liderado pelo então célebre Arthur Scargill, fez uma das mais difíceis greves da história do Reino Unido com grande sofrimento de muitas famílias de mineiros. Essa vitória ajudou ao enfraquecimento do poder dos sindicatos no Reino Unido, nomeadamente enfraquecendo a sua, então grande, influência no Partido Trabalhista. No plano internacional Mrs Thatcher ficou conhecida pela sempre enfatizada “empatia” pessoal com Gorbatchev, o homem que sentiu a decadência de um regime, que se mostrou, e que pôs as palavras perestroika e glasnost na nossa boca.

Uma outra greve ficou célebre nos anos 80: a greve nos estaleiros de Gdansk na Polónia com dois protagonistas Lech Walesa e o sindicato Solidariedade. Esta luta pelos direitos e liberdades numa Polónia asfixiada contou com o apoio de um outro polaco, Karol Wojtyla, que em 1978 ascendeu ao lugar de S. Pedro e se tornandou o Papa João Paulo II. A Polónia e os polacos que no fim da década atravessam fronteiras para chegar ao "ocidente" foram uma das faces visíveis do desmoronar da influência soviética e da caducidade e inviabilidade do projecto “comunista” que culmina na simbólica destruição do Muro de Berlim e no desfazer de fronteiras.

Adenda: Nessa altura "Top Gun" fazia êxito (quem não viu o filme que atire a primeira pedra) e canções como esta ou esta estavam no top do Reino Unido.

(Continua)
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3.12.09

Entardecer 13

Há uns dias
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Fadas Madrinhas

Parece que Armando Vara terá recebido uma carta anónima no seu escritório do BCP a avisar que o Primeiro-ministro e seu amigo José Sócrates estaria a ser alvo de escuta telefónica. Este facto, a ser verdade (não que eu tenha acesso a alguma informação privilegiada, ou a segredo de justiça, é só mesmo algum natural cepticismo) e não mais outra “montagem” para a Polícia Judiciária encontrar, abre todo um novo horizonte simbólico em torno das cartas anónimas. Deixam de um instrumento exclusivo das forças maléficas, obscuras e vingativas e passam a ser também instrumento das fadas madrinhas e outras forças do “bem”. Só não percebo a necessidade do anonimato. Sempre pensei que não havia almoços grátis, nem para as fadas madrinhas.
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27.11.09

Questões de Semãntica

Ouvi (SIC) José Sócrates em declarações para a televisão chocado com as propostas dos partidos da oposição para “aumentar a despesa” referindo-se às votações hoje na AR. Até disse que a oposição era “desleal” naquele seu jeito self-righteous de repudiar tudo e todos os que não estão em sintonia consigo e lhe atrapalham o optimismo. O Primeiro-ministro acha que tem jeito para brincar com as palavras, mas a semântica saiu-lhe, mais uma vez, toda errada.

É que “aumentar a despesa” tem pouco a ver, quer política quer financeiramente, com “diminuir a receita”, sobretudo uma receita construída com base num cenário fantasioso e pensado para uma célere diminuição do deficit (que noutro abuso semântico chamarão “recuperação económica”) que a UE exige, bem como o clima de permanentemente eleitoralismo em que o país se encontra com a perspectiva de eleições antecipadas que teima em pairar. Os partidos da oposição não quiseram “aumentar a despesa”, nem foi isso que foi votado. Recusaram-se sim a sancionar um “conforto” da receita aumentando a sobrecarga fiscal para os contribuintes e empresas cada vez mais estrangulados.

Este volte-face hoje no parlamento em que o governo esteve sempre isolado, irá obrigar o governo, o Primeiro-ministro, Ministro Teixeira dos Santos e restantes responsáveis a encarar a realidade que têm procurado não ver, tão iludidos que estão com o país do optimismo em que os contribuintes podem sempre ser um pouco mais espremidos para pagarem os erros de uma má governação e de uma política orçamental despesista feita a pensar em eleições (nas que foram e nas que hão-de vir). Mas controlar a despesa é muito mais “chato” e impopular do que aumentar a carga fiscal, não é?

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où... 2



Félix Duban (1797-1870)
Hôtel Galliera, projet de décoration pour un salon de musique
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Eu, que não percebo nada de Direito, pergunto-me qual destas fugas ao segredo de justiça é mais grave: o aviso aos suspeitos do caso Face Oculta que estavam a ser escutados, ou a divulgação de uma (pequeníssima, ao que se diz) parte dessas mesmas escutas?

Adenda: Tem toda a razão. Aqui.
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26.11.09

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où...

Là-bas, je ne sais pas où...

(...)
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.
(...)

Álvaro de Campos, Poesias

A Queda do Muro de Berlim e os Anos 80 (uma visão)

A propósito da comemoração dos vinte anos da Queda do Muro de Berlim, relembrei a década de oitenta, agora que a distância o permite fazer melhor, e imagens sucederam-se com aquela boldness e brilho tão típicos desses anos. A Queda do Muro de Berlim foi o mais entusiasmante, eufórico e simbólico momento político que vivi. Nesse período, em que vivia fora de Portugal, a sensação de “não retorno” era de tal forma poderosa que sabíamos que o mundo, tal como o conhecíamos, tinha acabado, abrindo o caminho para um outro, aquele que hoje conhecemos. Se a década de setenta passou por mim, a década de oitenta foi já vivida e com a intensidade própria de quem agora tem “uma vida” para viver.

A primeira imagem que me surge quando penso nos anos 80 é a de cor, muita cor. Os anos 80 foram coloridos. Para nós em Portugal esse “colorir” tem ainda mais significado pois coincide com a abertura do mercado nacional a produtos e lojas estrangeiras e com o nível de vida dos portugueses a melhorar de forma visível. Um dos exemplos desse “colorir” foi a chegada das lojas Benetton às nossas cidades e das suas camisolas a inundarem as nossas ruas. Até então elas só enfeitavam as cidades estrangeiras que visitávamos, tanto que ter uma camisolas Benetton era (quase um objectivo de viajem) um sinal de modernidade e de cosmopolitismo. A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, foi um passo decisivo na abertura do país à Europa, ao mundo, e claro ao consumismo. Outra face dessa “cor” foi o despontar dos "shoppings" e do universo dos hipermercados (a abertura do primeiro Continente foi em 1985). A escolha, a abundância e o consumismo são agora realidades e depressa se tornam hábitos, num país que viveu a aforrar e fechado sobre si durante décadas. Tudo isto acontece ao som de Rui Veloso que revoluciona a música portuguesa, trazendo à ribalta novos talentos que aprendemos a não ter vergonha de gostar.

Portugal na CEE era um desejo nacional, um objectivo político que ao realizar-se a 1 de Janeiro de 1986 se torna motivo de orgulho de todos os portugueses que, finalmente, passam a ter a sensação de que Portugal afinal conta. Cavaco Silva é eleito Primeiro-ministro e o país transforma-se de forma nunca vista.
(Continua)
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25.11.09

Amanhecer 19

Outro Amanhecer. Este é de hoje. Afinal, que culpa tenho eu que o mundo seja um local bonito, e que o sol nasça e se ponha todos os dias?
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Para que não se perca o sentido das proporções e a noção das coisas. E como se usa dizer: não poderia ter sido melhor dito. Aqui.
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24.11.09

Francisco José Viegas diz tudo neste post (e links). Só não percebi essa subtileza política que é a palavra “confronto”. Parece-me, (comme d’habitude), bom trabalho concertado: um alisa o terreno (ainda iremos ver os indispensáveis e modernos truques de comunicação e marketing político, inventando palavras, anunciando, contornando promessas e instituindo inverdades) para o outro depois poder passar com a carroça. Nós, ao vê-los passar, seremos obrigados a atirar uma ainda maior quantidade das nossas moedas de ouro para que a carroça se encha cada vez mais e eles possam “redistribuir” toda a nossa riqueza conforme decidirem.

Nada que surpreenda. Manuela Ferreira Leite, que olhava para o país sem fantasia nem delírio, parece que tinha um discurso “pela negativa” e desajustado, assim o povo, os comentadores e demais politólogos decretaram e assim se votou com nojo de tanto negativismo e “bota-abaixismo”. Agora que não se queixem do optimismo.

Entardecer 12

Hoje
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22.11.09

Face Oculta da Verdade

O arquivamento das oito certidões extraídas do processo Face Oculta, contrariando as decisões dos magistrado de Aveiro e Coimbra (que presumivelmente carecem todos bom senso e capacidade de avaliação), com conversas entre Armando Vara e José Sócrates, é o desfecho esperado de um processo, que tal como todos os outros, nunca conhece soluções. As conversas entre JS e AV pouco interessariam se eles fossem cidadãos comuns sem responsabilidades politicas e de Estado, como é o caso. Um é o Primeiro-ministro de Portugal e o outro é um amigo seu que, tal como ele, subiu na vida pública e ocupou cargos de relevo politico, nomeadamente o último, à custa de militâncias politicas, e não de um curriculum profissional sólido. Assim sendo o teor das escutas é relevante politicamente e não pode ser ignorado uma vez que demonstra uma ilegítima interferência do governo na esfera privada e uma tentativa de controle da comunicação social. Os habituais “senãos” processuais em que qualquer investigação em Portugal encalha não pode deixar de frustrar o cidadão que gostava, mas já nem ousa esperar, de, por uma vez, saber onde pára a verdade.

No nosso pais, há crimes, mas não há criminosos. Prova-se o abuso de crianças na Casa Pia, mas ninguém (à excepção de Carlos Silvino) os cometeu. Há tráfego de influências, (visíveis em casos pouco claros de adjudicações directas, interferências na comunicação sócial através de estranhas coincidências, etc) mas ninguém influência ninguém nem coisa nenhuma. Há corrupção, (operações financeiras ilícitas, abuso de confiança, lavagem de dinheiro, enriquecimento rápidos e inexplicáveis), mas nunca se encontram corruptos. A verdade acaba sempre perdida de tal forma se embrulha e escamoteia, se enreda em demoras e complexidades processuais. A verdade perde-se da nossa vista e no meio das demoras e complexidades até nos esquecemos do que realmente está em causa.

Talvez porque, lamentavelmente, a verdade é o que menos interessa: às pessoas em causa, (que mais parecem decidir como se estivessem num concurso de popularidade, e não em consciência): ao Procurador-geral da República, aos magistrados que podem ver as suas carreiras congelas (caso Rui Teixeira) por se envolverem com figuras do poder, e a muitos políticos e gestores/empresários de diversos sectores que vivem da promiscuidade entre empresas, influências e poder. Chegamos, enquanto país e percepção colectiva, a um ponto em que se acha normal e natural e não merecedor de esclarecimentos que o Primeiro-ministro tenha as conversas que teve com Armando Vara (e falo só do que conheço, que desconhecemos o teor de todas as outras, mas a amostra basta para acabar com a inocência). Acha-se normal que o Primeiro-ministro passe a vida envolvido em processos de legalidade duvidosa.

Tanto é assim que os portugueses continuaram a votar nele. Eu, que não votei em José Sócrates, continuo a lamentar a escolha prioritária dos eleitores na qual não me revejo como há muito não me acontecia. Continuo, infelizmente, a confirmar a pouca exigência esperada perante quem ocupa em Portugal cargos de Estado.

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18.11.09

Entardecer 11

Hoje
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Se dúvida houvesse sobre a intencional, gradual, mas bem visível tabloidização do Público, elas dissipar-se-iam com a primeira página de hoje. O grafismo da edição impressa de hoje tem pouco que ver com a do jornal de referência que o Público pretende ser, pois o jornal de hoje já quase parece um prospecto publicitário do Continente. Mais um esforçozinho e fica tal e qual.
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15.11.09

Coisas que se podem Fazer ao Domingo 43

Sandro Chia
The Idleness of Sisyphus
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Das Escutas


Nos últimos dias tenho-me lembrado frequentemente da série The Wire (ainda não vi todas as temporadas), onde, tal como o nome indica, grande parte da investigação feita e da prova encontrada tem por base escutas. Desde o processo inicial de as requerer e de conseguir uma autorização para as fazer, até aos dilemas finais de “o que fazer com tudo o que se escutou”, nada escapa ao espectador. O grande problema das escutas é que revelam sempre muito mais do que aquilo que os investigadores pretendem e muito mais do que aquilo que a justiça quer e/ou precisa. É como se ao querer provar algo, se encontrassem pedaços de outras histórias (crimes) tantas vezes piores do que aquela que inicialmente se pretendeu investigar.

Começam por investigar um problema de droga, e sem saber como deparam-se, por exemplo, com ilegalidades no financiamento de campanhas politicas. O problema seguinte é decidir se se opta por limitar a investigação aos crimes inicialmente sob suspeição ou se se começa a seguir o rasto do dinheiro abrindo provavelmente investigações sobre corrupção, tráfego de influências, etc. Com tantas pontas soltas e tantos caminhos apontados, os investigadores, o Ministério Público e os tribunais ficam perante dilemas que preferiam não ter, e casos que preferiam ignorar. Casos mais complexos e que mexem demasiado nos interesses instalados em que todas as partes acabam por se encostar. Castigar uns crimes violentos, expor a droga apreendida numa mostra de competência, é sempre bem visto e dá mostras à sociedade de que a polícia de investigação funciona. Mas sempre evitar investigações posteriores das novas pistas reveladas quando podem por em causa ou fragilizar o "sistema" e incomodar quem investiga ou quem acusa.

Destruir escutas, não seguir o rasto do dinheiro, arquivar processos por falta de prova, são sempre soluções que permitem evitar grandes sobressaltos políticos (quer no mundo politico quer no económico e financeiro) e que permitem grande tranquilidade ao Ministério Público e aos “so called” serviços de justiça.

Claro que qualquer semelhança entre o descrito, inspirado no The Wire, e o caso Face Oculta, o caso Freeport, o caso Casa Pia ou tantos outros que conhecemos, é mera coincidência.
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12.11.09

Do Fascínio

Hoje na rádio já ouvi falar em “alegadas conversas” quando se referiam às conversas entre José Sócrates e Armando Vara que foram escutadas no âmbito do processo Face Oculta” e que sempre foram "conversas" sem o indispensável "alegadas" . (Que seria deste país sem alegados?). Não, não são as escutas que são “alegadas escutas” (uma vez que há o problema de serem ou não válidas do ponto de vista jurídico) são as conversas, aquelas que existiram mesmo, pois foram escutadas, que são “alegadas”. Estes mecanismos comunicacionais (e não só) de distanciação do real fascinam-me.
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11.11.09

Amanhecer 18

Hoje
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Não é a questão jurídica de se se devem ou não deve considerar nulas as escutas telefónicas entre José Sócrates e Armando Vara que me interessa. A questão politicamente relevante é ter um Primeiro-ministro a quem passa pela cabeça falar e considerar interferir numa questão que é estritamente do âmbito do mundo das empresas privadas. Esta conversa vinda a lume, e fazendo fé no que a comunicação social nos diz, só confirma a já conhecida tendência dos nossos actuais detentores de cargos públicos, em particular de José Sócrates, para usar a sua influência e o seu poder interferindo de forma pouco legítima, e de acordo com as suas conveniências circunstanciais, na esfera das empresas privadas condicionando-as. Uma sociedade só é politicamente saudável e economicamente viável quando o mundo privado está impermeável às pressões politicas. Independentemente do resultado jurídico ou processual do caso das escutas no âmbito do processo “Face Oculta” (que tanto se tem debatido na comunicação social), a questão política mantém-se e dela pouco se fala apesar de estar (devida ou indevidamente, não sei, nem me interessa) a nu na comunicação social. A contenção e a não-interferência dos órgãos de soberania perante matérias do foro privado deveria ser uma segunda natureza para qualquer pessoa que ocupe um desses cargos. E não é. Como se vê este caso do conteúdo dos telefonemas escutados, esta é também uma forma de asfixia democrática, uma expressão ultimamente vetada pela onda comunicacional, às más lembranças e à má fama apesar de se manter actual, infelizmente.
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6.11.09

Há dois dias
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Mais Abaixo

De cada vez que se publica (divulga) um estudo internacional, Portugal está cada vez “mais abaixo”. Hoje está mais abaixo na taxa de investimento estrangeiro. Há semanas anunciou-se estar 14 lugares “mais abaixo” no índice de liberdade de imprensa, posteriormente também ficou “mais abaixo” no índice que mede as disparidades entre os sexos. Prevê-se que fique também “mais abaixo” na taxa de crescimento económico cuja média europeia para 2010 será de 0,7%. Só com a previsão do deficit a crescer podendo atingir os 8% em 2010, se contraria, como se isso fosse consolo pois é da pior maneira possível, a tendência “mais abaixo”. José Sócrates continua a bater no pessimismo e no bota-abaixismo, mas parece que ele é o grande responsável por estes números cada vez “mais abaixo” que afundam inexoravelmente o país em áreas tão diversas e díspares. É uma realidade “bota-abaixista” do país, aquela que José Sócrates construiu, se recusa a ver e quer continuar a construir. Os portugueses continuaram a votar nele, o suficiente para fazer um governo, por isso não se podem queixar.

Perante esta fatalidade nacional fala-se de casamento entre pessoas do mesmo sexo, de avaliação de professores, de TGV, em suma: o que o país merece.

Ontem, Miguel Sousa Tavares na TVI pôs o dedo na ferida elogiando a intervenção da líder da oposição, sobre o deficit e a insustentabilidade económica do país. Ao contrário do que a televisão (nomeadamente a SICe a TVI) mostram – Paulo Portas - quando em voz off falam de oposição, MST sabe que é Manuela Ferreira Leite e o "seu" PSD com quase o triplo da votação do CDS-PP, a líder da oposição. Essa estranha e persistente atracção (ou má-fé?) da comunicação social por Paulo Portas em detrimento e contra MFL, de tão óbvia, já cansa. Mas, voltando a MST, ele indignou-se perante a indiferença do executivo face à situação económica e financeira do país e à resposta, que ficou por dar, quando o Primeiro-ministro foi interpelado por MFL. José Sócrates continua a não dar respostas. Como sempre.

Também o comentário de MST ontem teve um outro momento de destaque quando falou sobre a corrupção em Portugal e a descreveu não tanto como corrupção de grande dimensão, mas sim como um enraizado e tentacular tráfego de influência e permanente promiscuidade entre o Estado e as empresas participadas ou não pelo Estado. Todos fazem favores a todos, todos “dão um jeito” a todos, todos beneficiam da complacência de todos e da longa e generosa mão estatal através de lugares dados, concursos ganhos, subsídios atribuídos, etc. Mal mesmo fica quem, longe desses “esquemas”, paga imposto, desconta para uma segurança social sem saber se terá retorno um dia, nunca recebe subsídio e nunca mereceu (nem deveria, note-se), ao contrário de tantos outros ali mesmo ao lado, um átomo de atenção do estado.
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2.11.09

São Rosas, Senhor... 8

Andy Warhol
Untitled from Flowers
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Ainda estou sem perceber de que posts mais gostei nestas últimas semanas, particularmente inspiradas, digo eu, dA Natureza do Mal. Se deste, ou deste, ou deste, ou deste, ou de um dos outros.
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A propósito de editorias de jornais – ou outras publicações - serem ou não assinados, Eduardo Pitta lembra aqui alguns casos de publicações estrangeiras nomeadamente o Economist em que os editoriais não são assinados. No entanto esquecece de referir que a linha editorial do Economist, (e de tantas outras publicações sobretudo anglo-saxónicas) é “crystal clear”: liberdade, liberdade individual, direito de escolha, mercado aberto livre e concorrencial, impostos reduzidos, e que o Economist, onde também não existem artigos assinados, toma sempre uma posição, também ela “crystal clear” e devidamente explicada e justificada em momentos que considere relevantes: eleições no Reino Unido ou nos EUA, para dar exemplos políticos. Não existem “estados de alma” editoriais, mas opções claras sem a conversa de chacha que o editorial do Público ontem nos impingiu e que fala em coisas vagas e que servem tudo e todos de acordo com a necessidade do momento. Senão que é que é isso de “queremos interrogar o mundo. Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos”?
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1.11.09

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 42

Emile-Antoine Bourdelle (1831-1929)
Héraklès tue les oiseaux du lac Stymphale


Matar aves de formas bizarras.
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Ídolos de Nada

Sinto-me sempre um pouco constrangida quando vejo programas tipo Ídolos (SIC; hoje à noite) que geram ondas de entusiasmo e que lançam novos talentos a quem prometem um futuro radioso. De facto, revelam apenas a nossa pequenez. A pequenez mental e a pequenez do nosso mercado e da nossa capacidade de “aproveitar” algum real talento que venha a ser relevado. Portugal é assim: pequeno. E nos locais pequenos não cabem todos. Nem chega a ser má-vontade, é quase uma questão física: não há espaço para todos. Dizem que nos EUA e noutros países, nomeadamente em Espanha alguns, senão todos, dos 12 finalistas destes concursos têm uma carreira de sucesso assegurada, há exemplos de muitos que hoje são mundialmente conhecidos: Leona Lewis, David Bisbal ou Jennifer Hudson que até já conta com um Oscar. Aqui nada disso acontece: com excepção da Luciana Abreu, que de cantora passou a ser actriz, nomeadamente a Floribela, também foi (ainda é?) sex-symbol, namorada ou não de algum futebolista, e não-sei-que-mais, não me lembro (serei eu distraída?) de nenhum finalista, nem sequer de um vencedor desses concursos tipo Ídolos ou Operação Triunfo que tenha mesmo triunfado e construído uma carreira com alguma visibilidade e credibilidade, apesar de mostrarem talento. Os concursos podem fazer audiências, mas não fazem nem triunfos nem ídolos de coisa nenhuma. O seu objectivo é uma mentira que os milhares de jovens que acorrem aos castings não querem, ou não sabem, perceber.

Depois há sempre aquele momento penoso em que tantos concorrentes fazem figura de parvos (começam cedo) cantando sem saberem o que isso é. Será que a vontade de ter esses 15 minutos (neste caso segundos) de fama se sobrepõe a qualquer tipo de bom senso e a um julgamento minimamente racional da parte dos concorrentes e de quem os incentiva a ir “tentar a sorte”?
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Para além da suposta percepção pública de um excesso de peso ideológico no jornal (o quê?), temos também,

os editoriais, (que) a partir de hoje, deixarão de ser assinados. Os editoriais expressarão o pensamento desta direcção e deste jornal sobre o mundo que procuramos descrever, compreender e analisar página a página. (...) Há 20 anos, quando nascemos, foi decidido que os editoriais seriam assinados com base em duas ideias: seriam mais acutilantes e comprometeriam apenas o seu autor. Hoje sabemos que essa ideia original se tornou utópica e que um editorial compromete todo o jornal - é a cara do jornal - e não pode, por isso, ser veículo da opinião de uma só pessoa.

Desconfio sempre quando se substitui a liberdade e a responsabilidade individual por um colectivo amorfo (que outra coisa pode ser o “pensamento de um jornal como instituição”? Seria bom defini-lo já) que nunca se sabe bem o que é nem quem é, mas onde fermenta sempre um caldinho morno que alimentará quem for preciso alimentar aqui e ali. Domage.

E que dizer desta conversa de chacha: Não queremos doutrinar nem vender receitas. Queremos interrogar o mundo. Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos? Julguei que o Jornal Público cujos leitores são os mais exigentes, tivesse uma já maturidade que dispensasse este tipo de conversa típica da pós-adolescência (sem desprimor para a dita). Enganei-me.
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25.10.09

Velas 19

Há uns dias
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24.10.09

Coisas Fedorentas

A boa educação e a cortesia são muitas vezes esquecidas sobretudo quando as circunstâncias aparentam favorecer quem, por um momento no tempo, pensa estar “na mó de cima”. José Alberto Carvalho, o director da informação da RTP, é um desses casos, como ontem verificamos num consensual (e tão sem surpresas, note-se) último episódio dos Gatos Fedorentos em que responsáveis pela informação dos três canais televisivos mostraram como são parecidos e como estão satisfeitos consigo próprios e com a informação que produzem. JAC, o mais reluzente e o mais contente consigo próprio, alheio a qualquer ideia de “asfixia democrática” – uma invenção produzida por gente estranha que ele nomeou (Cintra Torres, Pacheco Pereira), pois a informação por ele promovida na sua televisão é tão límpida e independente - falou de Manuela Moura Guedes nuns termos e num tom em que abundou a falta de consideração e respeito que uma colega de ofício lhe mereceria, já para não falar da pura falta de educação e nível. Todos riram alarvemente, incluindo Júlio Magalhães, cuja nova palavra de ordem é “a TVI tem informação de Segunda a Domingo”.

Não é pedido a JAC ou a ninguém que goste de MMG ou que não a critiquem se acham conveniente fazê-lo, só que um pouco mais de dignidade, contenção e respeito por colegas de profissão impunha-se. Facilmente esquecem que, como diz o ditado, há mais marés que marinheiros.
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21.10.09

Plataforma Contra a Obesidade 55

Willem Claesz Heda
Pewter and Silver Vessels and a Crab
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19.10.09

Com a Verdade me Enganas

Com o sarcasmo a que já nos habituou, João Miranda põe o dedo na ferida. Imprensa e blogues vivem intensamente o dia de amanhã do PSD e esquecem o país hoje. É um exercício interessante ver na blogosfera o que dizem e escrevem, hoje, alguns dos que no período eleitoral se conotavam com a actual liderança do PSD e faziam campanha política nomeadamente em blogues como o Jamais. Depois dos inevitáveis e normais balanços e análises sobre os resultados eleitorais e sobre o modo como decorreram as campanhas, pararam de fazer oposição a José Sócrates e pararam de denunciar o seu modo de actuação bem como o do seu, ainda em funções, governo, pois estão sobretudo preocupados em encontrarem uma posição no tabuleiro de xadrez que é para eles o PSD numa corrida à nova liderança iniciada pela comunicação social e por eles próprios.

Em tempos de cantos de sereias e de tentações, nada melhor do que alguma estabilidade e solidez para que o tempo (esse grande fazedor) dê, sem precipitações nem ansiedades o sinal de partida. Mas não: esperar, ser perseverante e paciente são conceitos pouco interessantes sobretudo para alimentar uma comunicação social ligeira e feita de casos e intrigas. Manuela Ferreira Leite que parece não se querer (e bem, no meu ponto de vista) recandidatar à liderança em Maio (ou seja quando for), tem toda a legitimidade para dar o tom de oposição que quer que o PSD seja, e que os eleitores escolheram (eu assim escolhi) e quem confiou nela em Setembro, deveria confiar nela agora. Ela não mudou, mesmo que resultados eleitorais não tenham sido aqueles que os militantes e adeptos do PSD esperariam e desejariam. Mas tanto impulso autofágico é assustador para quem olha de fora. Agora é tempo de oposição a José Sócrates. Dias virão para um tempo de maior instabilidade interna no PSD até se encontrar um novo líder.
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Em Três Páginas


He loved her passionately and was passionately loved; but the Countess was self-willed and frivolous. This was not the first time she had loved. Repugnance and loathing could take the place of her heart’s most tender feelings. Ibrahim already foresaw the moment when her love might cool; until then he had not known jealousy, but with horror he now had a presentiment of it; he felt that the anguish of separation would be less tormenting, and he therefore determined to sever the ill-fated association and return to Russia, whither Peter and an obscure feeling of duty had been summoning him for a long time.

Alexandr Sergeyevitch Pushkin, The Complete Prose Tales. The Moor of Peter the Great.

Com uma intensidade notável, Pushkin conta em três páginas o início de uma absorvente e apaixonada história de amor, o seu auge e o seu fim. Nada fica por dizer sobre o caso amoroso, sobre a surpresa da atracção, a intensidade da paixão, sobre a entrega cega, as contradições do amor, sobre o ciúme, o medo e o afastamento. A pequena novela prossegue na Rússia – começou em Paris - e Pushkin (de quem já falei neste blogue a propósito dessa obra-prima que é “A Dama de Espadas”) mais uma vez mostra ser um maestro na criação de personagens, na sua descrição de ambientes de salão, nos detalhes. É um desenhador minucioso e atento das suas personagens e nada lhe escapa nesse fazer, e nessa construção de uma intriga. Não se encontra em Pushkin a forte intensidade dramática de outros seus conterrâneos (que não contemporâneos), mas os contos /novelas têm sempre uma tensão que advém da complexidade das personagens construídas com essa delicadeza e minúcia do subtil. São histórias que se lêem com deleite, mas também com a alguma frustração pois ficam suspensas: Pushkin não terminou muitas delas, como é o caso da história The Moor of Peter The Great. Esta colectânea é feita de novelas, quase todas inacabadas (infelizmente) e de alguns contos. São uma outra face da Literatura Russa que normalmente conhecemos e é mais citada.
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17.10.09

Entardecer 10

Há dois dias
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Fiquei admirada por concordar tão facilmente com esta conclusão do Pedro Correia “José Sócrates não tem nada a temer desta oposição”, num breve texto sobre o PSD no Corta-Fitas, mas depois vi o texto de Tiago Geraldo no 31 da Armada que deu origem a tal conclusão, e percebo que afinal só concordamos na conclusão e que divergimos radicalmente nos pressupostos. É por causa de comportamentos como os de Passos Coelho, que não consegue não se pôr em bicos de pés dia sim dia sim, apesar da actual líder do PSD se manter legitimamente em funções, dos restantes PSDs se manterem entretidos e distraidos a olhar para o seu umbigo, e da comunicação social não fazer outra coisa que não seja também olhar para o PSD de todos os ângulos possíveis salivando e especulando sem peias, que José Sócrates não está a ter a oposição que deveria nesta semana em que o tom do seu próximo estilo de governação foi claramente dado: uma encenada e falsa abertura ao diálogo, chantagismo, demagogia a rodos, e a dose certa (para as alturas certas) de vitimização, pois eu sou tão dialogante e os outros líderes tão pouco operantes. É ele, José Sócrates que tem de procurar e encontrar soluções de estabilidade governativa. Por muito que lhe custe, por muito que o não queira esse ónus é seu, foi-lhe dado pelo voto.
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13.10.09


Estes timings são imensamente suspeitos. Como é que só se sabe isto depois das eleições legislativas e autárquicas se durante a época pré-eleitoral ouvi algumas vezes falar em possíveis soluções para a Quimonda? O desplante não tem limites e a central de comunicações mantém-se activa. Nada mudará neste domínio.
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São Rosas, Senhor... 7

Andy Warhol
Untitled from Flowers
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A Palavra Mais-valia

Não percebo porque é que as conclusões deste estudo não foram divulgadas antas das eleições... Eles não dão tréguas: a máquina fiscal já começa a querer encontrar novas formas de tributação sob a capa da simplificação, paridade, justiça social etc. Temos que esperar para ver. No entanto o capítulo em que se refere à tributação das mais-valias em bolsa chamou-me a atenção. O investimento privado em Portugal já é tão pouco significativo que este agravamento proposto é certamente uma maneira de evitar a sua expansão e de diminuir a liquidez de um mercado de capitais pequeno. Depois há que notar este parágrafo,

“A generosidade fiscal que, entre nós, existe relativamente às mais-valias obtidas na alienação de valores mobiliários – em particular das acções – é frequentemente considerada fonte de manifesta injustiça fiscal”, refere o relatório. “A nosso ver (...), a perda de receita e a redução da equidade parecem-nos bem mais importantes do que um suposto factor de apoio ao mercado de capitais. Em países como a Espanha ou o Reino Unido, para citar apenas dois exemplos, tributam-se estes ganhos e não é por isso que o seu mercado de capitais se ressente”,

para ver a estupidez do estudo, e até onde vai o proselitismo socialista de boas intenções e de preocupações sociais. Quando e como é que é possível comparar o nosso mercado de capitais com o do Reino Unido (o maior da Europa e um dos maiores do mundo) ou mesmo o espanhol? Tributar ainda mais as mais valias obtidas no nosso mercado de capitais é penalizar e sufocar o investimento e a iniciativa privada essenciais para a criação de riqueza e desenvolvimento do país. A esquerda sempre se deu mal com a palavra “mais-valia”, e esse é um problema de fundo que, entre outros claro, impede que países como o nosso tenha uma economia desenvolvida.
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12.10.09

Entardecer 9

Hoje
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A Nova Persona

É-me penoso ligar a televisão e ver nos telejornais José Sócrates naquela sua nova e mansa persona pós-europeias e pós-perda-de-maioria-absoluta, falar insistentemente em diálogo. Duas notas:

Primeiro, não sei se o “diálogo” depois dos excessos do Guterrismo estará já devidamente reabilitado do ponto de vista político, nem sei se nós – eleitores (ou povo, conforme se queira), já estamos disponíveis para que essa palavra se torne num novo mantra destes próximos tempos. Mas reconheço que propor-se ao diálogo com a oposição assim sem preconceito, (cito JS) e de peito aberto é uma forma de colocar o ónus de eventuais falhas na governabilidade (que palavra feia!) na oposição. JS começa a encontrar formas de tentar sair ileso de futuros impasses.

Segundo, interrogo-me sobre a verosimilhança e boa-fé de tanta vontade de diálogo por parte de um homem, o nosso Primeiro-ministro José Sócrates, que nunca usou tal palavra , nem parecia sequer conhecer o conceito, quando era detentor de uma maioria absoluta, punha e dispunha do poder que o voto lhe proporcionou, e nunca foi tímido ou se inibiu de mostrar – mesmo perante o seu governo - que ele era sempre , e sem diálogo, o decisor. Eu sei que a necessidade apura o engenho, e que José Sócrates está numa situação diferente, mas uma tão ágil e fácil mudança de persona incomoda-me e desconfio da bondade das suas intenções tal como ele as proclama.
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Ouvir ontem à noite nas televisões, em directo, um jornalista perguntar a Santana Lopes o que é que ele ia "ali fazer", e se ia "à casa de banho", (ver aqui por exemplo) é mais um gesto revelador do baixo nível de profissionalismo do jornalismo português. É uma pergunta impertinente porque gratuitamente agressiva, irrelevante pois é uma matéria que está longe de ser do interesse público, mal-educada, porque sim e não preciso sequer de explicar, e ilustradora do servilismo jornalístico português que, quando se trata do poder, nomeadamente do PS e sobretudo de José Sócrates é todo mesuras e respeitinho. Ou alguém imagina o “espertinho “ a fazer essa pergunta ao Primeiro-ministro? Claro que Santana Lopes muitas vezes se “põe a jeito”, mas nada justifica essa falta de educação e a ausência de qualquer tipo de profissionalismo.
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10.10.09

Amanhecer 17

Hoje
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