“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com
Mostrar mensagens com a etiqueta Clint Eastwood. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clint Eastwood. Mostrar todas as mensagens

23.3.09

Grand Torino 2

(...)
So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering

Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
A heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long

(Kyle Eastwood, Jamie Cullum, Clint Eastwood)

Grand Torino



Às vezes já sei que vou gostar do filme e ainda não o vi; foi assim, sabendo exactamente que ía gostar e do que ía gostar que fui ver Grand Torino. Não houve surpresas só a confirmação de um excepcional fazedor de filmes que é Clint Eastwood.

A história, que tem algo de pascal (adjectivo de Páscoa e não referente ao filósofo e físico francês), e gira em torno de Walt Kowalsky, uma personagem complexa, que vive em guerra com o mundo que desconhece cada vez mais. É um cínico ex-veterano de guerra de humor eficaz e rude, que se vê no fim da sua vida, viúvo e só, a viver com os fantasmas que o acompanham desde os tempos passados e com os ódios e indiferenças do presente. Ele é o motor da narrativa e é à volta dele que gravitam as restantes personagens: o Padre Janovich, o "over-educated 27-year-old virgin", (segundo Kowalsky), que vai crescendo e se vai revelando ao longo do filme, bem como os dois irmãos Hmong, Thao e Sue, que farão despertar em Kowalsky uma solidária amizade e respeito. Kowalsky é ao mesmo tempo um herói e um anti-herói: se por um lado é destemido e não teme nem o confronto, nem o uso da violência para se proteger e proteger os “seus”, por outro lado não esquece o que fez num passado longínquo quando não lhe deram ordens para o fazer, e tem por isso sentimentos conflituosos em relação à medalha que recebeu por esses seus feitos “heróicos” na guerra.

Talvez o que mais tenha gostado, e sem surpresa mas sempre com prazer, foi da cadência do filme, um andante que dá um passo de cada vez, mas que pisa seguro e na direcção certa: as cenas não se atropelam, a câmara não saltita, a música não se sobrepõe à narrativa e a história desenrola-se com a naturalidade das coisas que acontecem aqui ao lado. A realização e direcção de actores é sóbria e de grande contenção o que valoriza essa cadência agradável, humana, esse ritmo que não atordoa e que permite que ao longo do filme se mantenha uma postura e atitude contemplativas e uma sensação de tranquilidade e de serenidade, mesmo quando sentimos que algo de desagradável vai acontecer. Há sempre um tom latente de redenção (daí o pascal) mesmo com o preço da culpa dos outros, daquilo que os irá atormentar, e creio que esta dualidade é uma característica de Eastwood, uma humanidade que procura no turbilhão de possibilidades um (o) sentido final, num filme que não quer atordoar o espectador nem provocar sensações mais imediatas e visíveis, mas que aposta no que há de mais íntimo, na sensibilidade e na inteligência. Uma última referência à música, excelente, que emoldura este ambiente intimista.
.

23.1.09

Changeling


A Troca não é uma obra-prima, nem o melhor dos filmes de Clint Eastwood, mas é de uma enorme solidez e muito “reliable” sem cair em facilitismos sentimentais e exageros maneiristas num filme que onde isso seria tão fácil e num filme que é sempre duro. Tão duro quanto só a esperança da mãe, apesar de tudo, o pode ser. É a esperança que é dura e cruel, que não deixa viver nem respirar. É também um filme tão duro quanto o “fazer” de uma verdade oportunista e para consumo exterior e tão longe da única verdade o pode ser. É o fabricar desta verdade tão desrespeitosamente longe da realidade que é duro. Não se dá pelo tempo passar. Envolvemo-nos naquele clacissismo que já todos reconheceram e glosam em Eastwood. Bom casting, boa fotografia, boa música. “A Troca” é um filme de qualidade indiscutível.


Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com