“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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21.4.07

O Verbo

Há neste nosso país uma prática que muito me irrita e que considero prova provada de saloiismo e arivismo. É a prática de, mantendo tudo mais ou menos na mesma, nomear de novo a coisa. Nomear no sentido de dar um nome, um novo nome, e no sentido do marketing moderno de dar uma nova imagem ao produto: mudando logótipos, cenários, etc. Se posso perceber que se faça isso ao OMO, ou às fraldas Dodots, como uma nova campanha de marketing, atribuindo-lhes novas propriedades anti-nódoas ou anti rabinhos assados, frutos de complexas descobertas científicas recentes, já não percebo que se faça o mesmo com produtos que não sejam bens de consumo desse tipo. Exemplifico: o novo nome do segundo canal da RTP, que volta ao mais inicial RTP2, depois de já ter sido “2:”, as vezes que a RTP já mudou de logótipo e “imagem”, ou o exemplo de “Os Dias da Música, em Belém” em vez do original “Festa da Música” (promovido pelo CCB): será que o que alterou é assim tão importante que justifique uma alteração do nome? Parece absolutamente mais do mesmo - e eu até gosto do produto, mas não é isso que está em causa.

Esta mania de mudar o nome das coisas (que se mantêm iguais) só porque muda uma administração, um director geral, ou mesmo um ministro, intriga-me e irrita-me. Será que através do “nomear” o nomeador pretende deixar uma marca que eternize a sua passagem? Se não, o que é que justifica esta ânsia de nomeação? Mudar para que tudo fique na mesma...

26.3.07

Incoerências 2

Afinal não consegui ver o concurso “Os Grandes Portugueses”, não resisti mais de meia hora. Hoje de manhã bem cedo, com curiosidade, fui ao site da RTP para ver o resultado. Nada. Fui ao site do concurso. Nada. Então, ninguém se entusiasmou? Tanta emoção, tanta vontade, tanto voto e ninguém se congratula com o vencedor? Nem a promotora do concurso que, até agora, não disponibiliza os resultados no seu site? Nem sei o que é pior, se o resultado da votação se o silêncio tipo: vamos todos ficar quietinhos, pode ser que passe. Soube o resultado aqui.

25.3.07

Incoerências

Não consigo entusiasmar-me com o concurso “Os Grandes Portugueses”. Tem um lado pedagógico que me irrita querendo “ensinar divertindo”, querendo formar o público num programa de entretenimento, “popular” e interactivo porque as votações estão abertas ao público. Este querer ser tudo não me interessa, e sou incapaz de ver o programa. Aprender e divertir são conceitos que raramente andam de mãos dadas, aprender está para além dessa noção mais imediata de divertimento. E a produção de “Os grandes Portugueses” remetendo a parte “pedagógica” para horários mais tardios estabelece bem as suas prioridades. Tenho, no entanto, lido comentários em relação à forma como o programa/concurso se tem desenrolado e ao estado das votações. Votar em Salazar ou em Cunhal pode, mais do que exprimir uma opção coerente de quem vota, ser uma forma de provocar e trazer ruído ao programa. De qualquer forma, dificilmente eu acredito que estas votações possam ser objecto de alguma conclusão mais “científica” e que tenham algum significado (pelo menos no sentido estatístico) sobre a forma com que hoje olhamos e valorizamos os Grandes Portugueses.

Dito isto, hoje sou capaz de espreitar a grande final! Se votasse em quem votaria? Difícil. D. Afonso Henriques porque foi o primeiro. D. João II pela inteligência, visão e estratégia. Vasco da Gama porque alargou horizontes. Apesar de conhecer, ler e admirar a obra de Luís de Camões e Fernando Pessoa nunca votaria num escritor por causa da sua obra escrita. A Aristides Sousa Mendes falta-lhe a dimensão, e a votação não é sobre o “melhor”, mas sobre o “maior”.

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