Invejo quem consegue fazer balanços (um de que gostei aqui) dos anos que passam, listas (sempre exaustivas e implacáveis aqui) de coisas boas, más e assim-assim, lembrar os livros, lembrar os filmes, destacar os factos e as figuras internacionais e nacionais. Chegado este período, abro os jornais e fico sempre pasmada com a sucessão de acontecimentos a relembrar que enchem cada ano que passa, porque para mim tudo se perde e mistura na espuma dos dias que passam e das coisas que se fazem e fica apenas uma ténue marca temporal qualquer que o subconsciente se encarrega de produzir, para que, posteriormente e com um pouco de esforço consiga localizar o facto no tempo. Uma questão de sobrevivência intelectual, por assim dizer. De repente, parece que o referendo ao aborto foi “há que tempos”, que o caso Maddie continua “sempre presente”, e que as manifestações na Birmânia foram há uns bons meses, este ano certamente. O mesmo se passa com livros que li, filmes que vi: tudo vago. Lembro dois ou três, e só depois todos os outros vêm lentamente à superfície da memória. Acredito hoje, época de balanço, que a minha vontade de ter um blogue talvez também tivesse como objectivo o de ancorar temporalmente esta sucessão de ideias, opiniões, factos, desabafos, e organizá-los para que não vagueem soltos e sem nexo. Agora, se quiser fazer balanços e listas só me falta mesmo, para além da vontade, da paciência e do tempo, consultar o arquivo do blogue para ver, ou ajudar a lembrar o que foi o “meu” ano.
“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com
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30.12.07
Dos Balanços do Ano
31.7.07
Liquefação
Do Tempo
Fico perplexa de cada vez que sei que alguém de vinte e poucos anos lança uma biografia. Desta vez é Pedro Mantorras a lançar a sua. Se biografia é escrever a vida, eu desejo uma longa vida a todos, Mantorras incluido, o que tira sentido ao que se pode escrever aos vinte anos por muito interessante que seja, e eu até parto do princípio que Mantorras terá histórias interessantes a contar. Poderão ser memórias de infância, ou o caminho até ao sucesso e fama - valores tão na moda e tão vendedores de livros, poderão ser milhares de pretextos, mas biografia? Parece dum pretenciosismo algo pesado para uma pessoa tão nova com uma vida pela frente.
Perguntaram-me há dias há quanto tempo tinha tirado a carta de condução. Não faço ideia, tenho que pensar, respondi. Depois percebi que para quem tirou a carta há três ou quatro anos, já passou uma eternidade. Para quem tem que pensar, parece que foi ontem, e que tem uma vida a viver.
Perguntaram-me há dias há quanto tempo tinha tirado a carta de condução. Não faço ideia, tenho que pensar, respondi. Depois percebi que para quem tirou a carta há três ou quatro anos, já passou uma eternidade. Para quem tem que pensar, parece que foi ontem, e que tem uma vida a viver.
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