“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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20.12.09

Do Frio

Nikita permanecia imóvel desde que se sentara, coberto com a esteira, atrás do trenó. Como toda a gente que convive com a natureza e conhece a miséria, era paciente e capaz de esperar horas a fio, ou mesmo dias, sem se inquietar ou irritar. Tinha ouvido o patrão a chamá-lo, mas não respondeu – porque não se queria mexer nem falar. Embora ainda guardasse algum calor do chá que bebeu e se tivesse esforçado muito a andar na neve funda, sabia que esse calor não duraria para muito mais tempo e que já não teria forças para se aquecer andando e mexendo-se (...). Por todos os indícios passou-he pela cabeça que poderia morrer essa noite, mas a ideia não lhe pareceu especialmente desagradável nem assustadora. Não era desagradável porque a vida de Nikita, ao invés de ser uma festa permanente era um calvário de trabalho constante de que já começava a cansar-se. E não era muito assustadora porque , alem dos patrões como Vassili Andreitch, que servia neste mundo, se sentia dependente do patrão principal, o que o mandara para esta vida; e sabia que, mesmo depois de morrer, ficaria sob a alçada desse patrão, um patrão que não o ofenderia (...).

Lev Tolstói, O Diabo e Outros Contos, O Patrão e o Moço de Estrebaria.

Creio que esta colectânea de Contos de Lev Tolstoi foi, na minha juventude, a introdução à literatura russa. A partir daí fui lendo (e nalguns casos, relendo) ao longo dos anos Tchecov, Dostoievsky, e mais recentemente Pushkin, entre outros. Quando recentemente comprei esta colectânea procurava relembrar como eram estes contos, o que os diferenciava (tudo, mas isso não é para agora) dos de Tchecov sempre presentes porque os leio e releio com muita frequência, mas procurava também, percebi isso depois de ler, reencontrar a emoção que tinha sentido ao ler este conto O Patrão e o Moço de Estrebaria que nunca esqueci. O meu primeiro contacto literário, e não só, com o frio da Rússia, mas também a imensidão e a neve, a noite, a morte, a facilidade com que se dispunha da vida de outro (um criado), o álcool, a ambição, a crueldade da natureza que não se adapta ao desejo e à pressa do homem. Essa emoção, esse sentido trágico do conto está totalmente intacto na leitura de hoje como na leitura de há tantos anos. Impossível lê-lo sem sentir frio. Como sempre me lembrei deste conto (dos outros lembrava vagamente) como um dos contos de Tolstói, a surpresa quanto ao desenrolar da narrativa era irrelevante no fazer do trágico, porque mesmo numa primeira leitura esse “final” vai-se construindo e adivinhando ao longo da leitura, sobretudo através do olhar de Nikita (moço de estrebaria) que, ao contrario do Patrão que tem pressa em chegar, é um observador do desenrolar dos acontecimentos: sem ímpetos, com resignação e sem pressa. E depois, como diz também Nikita, em relação ao final , na última frase do conto: “Todos nós o saberemos, não vai tardar muito”.


24.6.09

Aprendendo com Tolstói (*)

O que é a vida, o que é a morte? Que força governa tudo? (...) E não tinha resposta para nenhuma destas perguntas, excepto uma, ilógica, que, na verdade, não respondia a estas questões. A resposta era. “ Morremos e acaba tudo. Morremos e ficamos a saber tudo, ou deixamos de perguntar”. Mas também morrer era assustador.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(Título roubado daqui)

23.6.09

Aprendendo com Tolstói 2 (*)

A mente humana não tem acesso à totalidade das causas dos fenómenos. A alma humana, porém, foi provida da necessidade de procurar as causas. Assim, a mente humana, incapaz de penetrar na imensidade e na complexidade das condições que geram os fenómenos, cada uma das quais em separado pode afigurar-se-lhe a causa, agarra-se à primeira e à mais próxima, à mais compreensível e diz: eis a causa.

(*) Título roubado aqui.
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Aprendendo com Tolstói (*)

É este o destino não dos homens grandes, não do grand homme que o espírito russo não reconhece, mas dos homens raros e solitários que, ao perceberem os desígnios da Providência, submetem-lhe a própria vontade. O ódio e o desprezo da multidão castigam essas pessoas pela compreensão das leis superiores.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

(*) título roubado aqui.
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21.6.09

Guerra e Paz 5

Aquela ferida na alma da mãe não podia sarar. (...) Mas a ferida que tirou meia vida à mãe, foi para Natasha a nova ferida que a incitou a viver. Uma ferida da alma causada pelo rasgão do corpo espiritual, tal como uma ferida física, apenas sara e cicatriza, por mais estranho que pareça, com a força da vida que irrompe de dentro.

Desta forma sarou a ferida de Natasha. Pensava que a vida tinha acabado, mas, de repente, o amor pela mãe mostrou-lhe que a essência da sua vida – o amor – ainda estava viva. Voltou a despertar o amor, despertou a vida. Os últimos dias (...) tinham ligado Natasha à princesa Mária. A nova desgraça aproximou-as ainda mais.

(...)

Falavam sobretudo dos seus passados longínquos. A princesa Mária contava coisas da sua infância, da mãe, do pai, dos seus sonhos; e Natasha, que dantes, com uma incompreensão tranquila não queria saber daquela existência devota e submissa da princesa Mária, nem daquela poesia do auto-sacrificio crsitão, agora, (...) começou também a amar o passado da princesa e a compreender aquela faceta da vida que antes lhe era inacessível. Não pensava aplicar à sua alma a submissão e o auto-sacrifício, porque estava habituada a procurar outras alegrias, mas compreendia e começava a amar na outra as virtudes que dantes não compreendia. Para a princesa Mária, quando ouvia Natasha contar a sua infância e a sua primeira juventude, também se revelava um lado da vida que dantes não entendia: a fé na vida, o prazer da vida.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Natasha e a princesa Mária são as duas mais importantes personagens femininas de Guerra e Paz. Natasha, pelo seu amor à vida, entusiasmo, espanto, pela sua entrega, pelo seu olhar que brilha, é uma personagem irresistível de quem é impossível não gostar. Vêmo-la crescer e tornar-se uma mulher, seguimos o seu percurso talhado de momentos de prazer e felicidade familiar, de brilho nos círculos aristocráticos de Moscovo e São Petersburgo, e de momentos de decisão, a ânsia da felicidade, o prazer dos pequenos momentos, o percurso de dor, a perda de saúde, o renascimento tal como o que se refere o início deste excerto e um renascimento que lhe permite aceitar o mundo com o olhar mais sábio e ir trilhando finalmente o seu caminho que é o seu. A princesa Mária pertencente a uma das melhores famílias e socialmente acima de Natasha, representa o contrário: a rapariga submissa, inteiramente dedicada ao pai, um velho excentrico e ateu que despreza a sua fé e não reconhece o valor nem da sua inteligência nem da sua generosidade. Mária, ao contrário de Natasha, não teve uma infância e juventude alegre e feliz e uma casa sempre cheia de família e amigos, por isso dedicava-se à oração e à caridade. Muitas vezes, na sua solidão, se perguntava se encontraria um homem com quem se casasse e pudesse constituir uma família.

As mulheres não pertencem ao “mundo da guerra”, mas a guerra, nas suas múltiplas faces, acaba por entrar no mundo destas duas mulheres expondo-as ao sofrimento e modificando para sempre quer as suas vidas quer as suas almas. Natasha recolhe-se em si, para dentro; a princesa Mária torna-se autónoma e abre-se ao mundo, para fora.

O romance é um hino à sempre espantosa manifestação da natureza humana na plenitude: fraquezas e riquezas, e nesse exercício de olhar e escrutínio, percebemos, como o exemplo destas duas mulheres nos mostra, que as circunstâncias que num primeiro momento parecem afastar e antagonizá-las, acaba por uni-las num percurso paralelo de sofrimento, de dor e de transformação. O entendimento e a sólida amizade que se forja, toma assim uma dimensão que está além da pertença social, do entendimento, da personalidade ou da opinião. Começa no sentir e estende-se à dimensão espiritual.

13.6.09

Guerra e Paz 4

Na barraca da sua prisão, Pierre ficou ciente, não só com a inteligência, mas com todo o seu ser, com a sua vida, de que o homem foi criado para a felicidade, que a felicidade residia no próprio homem (...) e que toda a desgraça não provinha da carência, mas do excesso; (...) (e) ficou ciente de mais uma nova verdade consoladora; no mundo nada havia de assustador. (...) Do mesmo modo que não existia uma situação em que o homem fosse totalmente feliz e livre, também não existia para o homem uma situação de felicidade absoluta e de privação total de liberdade. Ficou a saber que havia um limite para o sofrimento e um limite para a liberdade, (...).

Só agora Pierre percebia toda a força da capacidade da sobrevivência humana e a força salvadora, dada ao homem, da transferência da atenção, à semelhança daquela válvula de segurança nas máquinas a vapor que permite a descarga do excesso de vapor mal a sua densidade ultrapassa determinada medida. (...)

(...)Aquilo que dantes o atormentava, aquilo que procurava constantemente – o objectivo da vida – já não existia para ele. (...) E era esta inexistência (...) que lhe dava aquela consciência plena e feliz de liberdade que, nesses dias, constituía a sua felicidade.

Agora não podia ter objectivo porque tinha fé: não uma fé numas quaisquer regras, ou palavras ou ideias, mas a fé num Deus vivo, constantemente sentido. Dantes procurava-O nos objectivos que se colocava. A sua procura de objectivo era tão só a procura de Deus (...).
Lev Tolstói, Guerra e Paz

A busca da felicidade tem muitas caras e toma muitas formas. Pierre, talvez a personagem central de Guerra e Paz, vive com um pé no mundo da Paz: o mundo urbano da sociedade aristocrática que vive em luxo e conforto; e o outro pé no mundo da guerra, sobretudo na altura da batalha de Borodino e na ocupação de Moscovo: o mundo dos homens que estão nos diferentes ramos das forças armadas e que fazem a guerra defendendo o seu país. Ele começa por ser uma personagem intrigante e estranha com dificuldade em se afirmar no mundo em que, de repente, se vê pertencer. Teve o privilégio de uma esmerada e completa educação no ocidente (França sobretudo), mas havia sempre algo que lhe escapava, que lhe faltava e procurava incessantemente aquilo a que chamava o objectivo da vida, ou felicidade pois parecem ambos, neste caso funcionar como sinónimos. Tentou várias formas e escolheu várias caras, mas via sempre a felicidade, mais cedo ou mais tarde, escapar-lhe de cada vez que sentia, com alguma ingenuidade – própria das “boas pessoas” - que a conseguiria aprisionar. Tomou decisões fez escolhas, mudou de rumo, mas tudo parecia em vão, uma procura estéril dessa ilusão que é a felicidade que se “encontra” nisto ou naquilo, ou na descoberta do objectivo da vida nesta ou naquela ideologia e teoria.. Como todas as personagens deste romance, Pierre vive uma vida peculiar, cresce interiormente, sofre, adapta-se às circunstâncias, molda-se e descobre-se. Nestes breves excertos do romance tirados de capítulos diferentes e “colados” de uma forma que tento que faça um todo tão coerente quanto possível (um só excerto parecia-me demasiado redutor para personagem tão complexa), percebe-se que Pierre um dia é feliz: quando descobre que existe um limite ao sofrimento que se suporta, que a felicidade nunca é absoluta e que – mesmo em cativeiro – nunca há privação total da liberdade. Talvez mais importante, e num segundo momento, ele percebe que não precisa já não procura o objectivo da vida, em regras, palavras ou ideias, pois tem fé num Deus vivo e que é sempre sentido.

Atrevo-me a dizer que Pierre concordaria com o João Gonçalves: toda a felicidade, a não ser a dos tolos, pressupõe amargura, solidão e sofrimento.

7.6.09

Guerra e Paz 3

Além das suas rezas, Platon Karatáev não sabia nada de cor. Quando começava os seus discursos, parecia não saber como os iria terminar. (...) Platon não conseguia lembrar-se do que dissera um minuto antes (do mesmo modo que nunca conseguia dizer a letra da sua cantiga preferida). Havia nestas cantiga palavras – “querida”, “betulazinha”, e “estou muito triste” – mas, recontadas, nunca faziam qualquer sentido. Karatáev era incapaz de compreender o significado das palavras fora do discurso. Cada palavra e cada procedimento seus eram manifestações de uma actividade espontânea e que era a própria vida. Entretanto, a vida, tal como ele a encarava, não tinha sentido como vida separada. Apenas tinha sentido como partícula de existência geral que ele permanentemente sentia. As palavras e os actos de Platon derramavam-se de forma tão regular, necessária e espontânea como o cheiro emana da flor. Era incapaz de compreender o valor e o significado de uma acção ou de uma palavra tomadas em separado.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Platon Karatáev é uma personagem menor, mas com grande valor simbólico num romance onde abundam personagens da aristocracia culta que de formas diferentes procuram encontrar o sentido da vida e um objectivo que as faça agir. Karatáev é um camponês inculto, mas dotado de uma sensibilidade existencial muito peculiar. Ele, tal como o excerto acima nos diz, existe em ligação com o mundo, uma partícula na existência que ele sente e sabe, não deixando muito espaço ao cultivo do ego, estados de alma ou a problemas existenciais relacionados com o sentido da vida ou os objectivos das opções que se tomam e que caracterizam na obra as personagens principais. Ele existe como contraponto a essas personagens e é capaz de seduzir quelquer um pela simplicidade e harmonia do seu ser e viver. Como parte integrante de um universo e de uma existência que o transcende, mas que ele sente ternamente na vida que vive e que vê ser vivida, ao seu redor pelos homens, cães, árvores ou flores, Karatáev não questiona o que lhe acontece, não combate o seu fado - pelo contrário entrega-se, sem ressentimentos nem questionamentos e com uma simplicidade e aceitação tão naturais quanto desarmantes que, nesta sua forma de estar perante o mundo e o momento presente, ele acaba por transmitir aos que o rodeiam paz e ternura em momentos de dor e de aflição. Há nele uma entrega à vida, e consequentemente à morte, que espanta quem o rodeia, no seio dos quais está Pierre, que será fortemente marcado por este homem camponês e iletrado, mas dono de uma sabedoria e liberdade imensas.

O meu conhecimento de filosofia é infelizmente (e tal como o de tantas outras matérias) muito limitado, mas sei reconhecer neste excerto matéria que nos remete, pelo menos, para questões filosóficas antigas, sobre as quais não sou capaz de dissertar. Ouso, no entanto, algumas deixas; mais uma vez o Platonismo e o Nominalismo e Realismo que na Idade Média ocuparam tantos filósofos e teólogos.

31.5.09

Guerra e Paz 2

“Sim, o amor (pensava ele, de novo com toda a clareza), mas não aquele amor que ama por um qualquer mérito, com uma qualquer intenção ou por um qualquer motivo; mas aquele amor que experimentei pela primeira vez quando, moribundo, vi o meu inimigo e mesmo assim o amei. Experimentei aquele sentimento de amor que é a essência da alma e para o qual é desnecessário objecto. Ainda agora tenho em mim esse sentimento ditoso. Amar o próximo, amar o inimigo. Amar tudo é amar Deus em todas as Suas manifestações. É possível amar de amor humano um ser querido; mas apenas o amor divino torna possível amar o inimigo. Foi por isso que tiver tanta alegria quando senti que amava aquele homem. (...) Amando com amor humano pode passar-se do amor ao ódio; só o amor divino é constante. Nada, nem a morte o pode destruir. É a essência da alma. Ora quantas pessoas eu odiei na minha vida! E, entre todos não amava nem odiava ninguém mais do que a ela.”
(...)
Naquelas horas de solidão, sofrimento e delírio depois do ferimento, quanto mais pensava no princípio novo do amor eterno que se lhe revelava, mais renegava, sem se dar conta, a vida terrena. (...) e com mais perfeição eliminava a barreira terrível que, sem amor, se ergue entre a vida e a morte.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Do Amor. O amor tal como o Principe Andrei o descobre quando jaz ferido depois da batalha de Borodino, e que lhe é revelado na sua essência divina, para lá dos motivos, das pessoas, dos “afectos”, e por isso também para além da vida e da morte tornando ténue, na sua presença, a separação que se faz entre uma e outra. Ao ler Guerra e Paz é impossível não pensar em Platão e na dimensão existencial que está para lá da vida material e que encaixa tão bem na fé e misticismo que atravessam esta obra e moldam as suas personagens. O Principe Andrei, um aristocrata culto, orgulhoso, e bem formado, mas algo rígido e cínico e com uma família peculiar: um pai racionalista e uma irmã mística, é outra das personagens fascinantes do romance. Ao longo da sua vida, opções profissionais (se é que se pode dar este nome às carreiras desta aristocracia que vive dos rendimentos das imensas propriedades e dos servos que as trabalham), ferimentos de guerra, amores e desamores percebemos que se vai moldando e adaptando às descobertas que faz sobre si, sobre a sua resposta à vida que vai vivendo, sobre a evolução do seu íntimo. Aliás este é um romance voyerista, porque entra e vê dentro da alma das personagens, alma essa que é, quase só por si e pela sua essência universal, a personagem principal do romance. Nada nos é poupado dos dilemas, descobertas, contradições, fraquezas e revelações das personagens, e claro, ad descoberta da sua “alma”. Estas personagens tão ricas e densas são irresistíveis na sua humanidade e complexidade que, de repente – e pelos instantes que dura a nossa ligação com a obra - até parece que esquecemos outras personagens de outros romances cuja forma, ao olhar do alto deste cume literário e filosófico, se torna, em perspectiva, linear, plana e previsível.

25.5.09

Guerra e Paz

Tudo o que lhe expôs Denissov era razoável e inteligente. Tudo o que lhe estava a dizer o general-inspector era ainda mais razoável e inteligente, mas era visível que Kutúzov desprezava os conhecimentos e a inteligência, e que estava na posse de alguma coisa que resolveria tudo – de qualquer outra coisa, independente dos conhecimentos e da inteligência. (...). Era evidente que Kutúsov desprezava a inteligência, os conhecimentos e até o sentimento de patriotismo que Deníssov manifestara, mas não os desprezava com a inteligência, o sentimento ou o conhecimento dele próprio (porque nem tentava manifestá-los), mas com qualquer outra coisa. Desprezava-os com a sua velhice e a sua experiência da vida. Uma decisão que Kutúsov tomou (motivada pelo relatório do general) dizia respeita às pilhagens cometidas pelas tropas russas. No final do relatório, o general-inspector apresentou a sua alteza sereníssima um papel, para que o assinasse, com vista à responsabilização dos comandantes militares por uma aveia ainda verde que os homens tinham cortado, em consequência da queixa de um proprietário.

Ouvido o caso, Kutúsov deu um estalido com os lábios e abanou a cabeça.

Para o fogão... lume com isso! E, meu caro, vou dizer-te de uma vez por todas: assuntos desses, deitá-los todos ao fogo. Que eles ceifem as sementeiras e queimem lenha à vontade. Eu não dou ordens para isso, nem o autorizo, mas também não posso puni-lo. Sem isso é impossível. Para cortar lenha, há sempre lascam que saltam. – Olhou mais uma vez para o papel. – Oh, a minúcia alemã! – disse, abanando a cabeça.
Lev Tolstói, Guerra e Paz

Kutúsov é, neste romance, apresentado como uma personagem fascinante e contraditória, tanto dado a algumas mundanidades e a pequenas vaidades e confortos, como senhor de uma esperteza e sabedoria profundas feitas da guerra, de negociações e da observação da natureza humana. Na sua velhice tem o hábito de se deixar adormecer nas importantes reuniões, nomeadamente quando da definição de estratégias para as batalhas, em que os mais jovens oficiais entusiasmados, cheios de energia e patriotismo e motivados por uma ambição de recompensas por mérito, tomam a palavra e mostram bons planos para acções. Kutusóv sabe que há uma força, uma inércia própria da actividade bélica que está para além de discursos inflamados e que assenta sobretudo na dinâmica própria da guerra e consequente esgotamento dessa dinâmica, da capacidade e do espírito bélico. A sua política de retirar, deixando o inimigo (os Franceses) avançar, expondo-os – a seu tempo - às suas próprias (franceses) fraquezas e limitações, foi amplamente contestada por muitas chefias militares, pois sem batalhas as medalhas de mérito e as promoções são mais difíceis de obter, sem batalhas o povo não sente que se lute pela pátria, sem batalhas não se expõe o orgulho de um povo, de um regimento. No entanto Kutúsov sabia que retirando e esperando se evitariam batalhas desnecessárias e sangrentas; Borodino foi a ilustração de uma batalha enorme em que houve grandes perdas e grande derramamento de sangue, sem claro vencedor e vencido, apesar de Kutúsov ter sentido que aí Napoleão começou o seu fim. Sabia que a seu tempo se conseguiria de forma eficaz expulsar um inimigo que inevitavelmente chegará ao esgotamento e ficará sem força. Não conseguiu contenção total, pois era difícil travar totalmente o movimento das tropas russas e de alguns grupos mais ousados que se envolveram em pequenas acções, mas o grosso do exército russo retirou evitando grandes banhos de sangue e deixando Moscovo cair nas mãos inimigas. Mas, a Rússia não era Moscovo, como Kutúsov bem sabia e Napoleão cedo percebeu e cedo retirou saindo da Rússia com um exército desfeito e desmoralizado.

Kutúsov na sua velhice e na sua sabedoria, sabia também o preço que há a pagar para se fazer e manter uma guerra. Não só um preço contabilizado em homens que se mantêm ou que se perdem, em bens destruídos e saqueados, em cidades e campos incendiados, em dinheiro, em provisões e material, mas também um preço moral. Que se as regras devem existir, nem sempre se podem cumprir. Ele sabe, por exemplo e como o excerto transcrito mostra, que sem pilhagens não há soldados, sem soldados não se faz a guerra de quem quer, de quem tem e de quem pode.


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