“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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18.5.08

Torre de Belém

Aumentar para ver o ridículo "colar" da Torre de Belém. Foto tirada há dois dias.

Num primeiro momento fiquei intrigada, ali de pé na varanda a olhar ao longe a Torre de Belém, mas não perdi um segundo mais a pensar nisso. Depois quando vi que a bizarria persistia, e porque não tinha passado por lá, tentei perceber o que era e muni-me de binóculos de longo alcance e telescópio. O quê? Bolas plásticas enormes das que parecem marcar rios e mares a enfeitarem a Torre de Belém, qual pescoço com colar étnico para festa popular? Tive que passar por lá para confirmar o adereço, e senti dificuldade em focar os olhos, a mente e sobretudo o gosto e a sensibilidade estética. A Torre de Belém está horrorosa, pior do que isso, está pirosa. Um monumento que não sendo propriamente o Mosteiro de Alcobaça mas que é, na sua simplicidade, digno, sólido, de linhas bonitas, e carregado de história e simbolismo nomeadamente por ser o ex-libris da cidade de Lisboa, e que é nosso património – é meu e de todos os portugueses, não pode ser objecto de experiências decorativas sem nexo nem gosto e que vilipendiam a sua dignidade, por muito interessante que possa ser o pretexto, coisa que desde já duvido, mas fica feita a salvaguarda. Será que ninguém pensa, nos serviços da cultura e do património?

Há uns tempos falava-se em promover o Turismo Cultural em Portugal (a propósito do S. Carlos, por exemplo). Não é assim com iniciativas pindéricas que mais não fazem do que retirar a dignidade arquitectónica histórica e simbólica do monumento que se promove o dito turismo cultural, nem sequer o turismo normal (se alguém entender a subtil diferença existente nas cabeças dos governantes que fazem planos e nos promovem a West Coast of Europe, que eu não entendo) que em Lisboa vive de meia dúzia de monumentos, trajectos e referências. E muito sol, muita luz, muitas sardinhas.

Por favor, voltem a dar à Torre de Belém a dignidade que ela merece.

13.8.07

Formar e Criar Novos Públicos

Os nossos governantes da área da Cultura têm justificado muitas das suas polémicas decisões (por exemplo a crise no S. Carlos) pela imperativa necessidade de formar e criar novos públicos e de fazer de Portugal um país de turismo cultural. Já aqui disse o que pensava sobre o assunto, mas confesso que perante a realização de um evento culturalmente tão significativo como o 1º Festival de Música Popular Portuguesa que teve lugar este fim de semana passado em Ponte de Lima, fico com medo que a criação de novos públicos e o querer fazer de Portugal um país de turismo cultural não sejam, tal como eu pensava, meros chavões políticos ou tretas sem nexo. Afinal eles sabiam do que falavam.

25.6.07

Instantâneos da vida Portuguesa, tal como ela é, e tal como apresentada no Jornal da Noite da SIC:

Disse o Primeiro-ministro na inauguração da Colecção Berardo no museu do CCB, que “Lisboa já está no mapa da arte contemporânea”, e que “os roteiros da arte contemporânea da Europa paravam em Madrid, agora começam aqui”.

“A minha mulher diz que eu estou muito exposto aos media”, disse Joe Berardo.

16.4.07

Notas de Viagem 5

Os museus em Amesterdão (Rijksmuseum e van Gogh) estão abertos sete dias por semana, 8 horas por dia, com excepção de sexta-feira que só fecham às 22h estando abertos doze horas. Aproveitei uma sexta-feira para (re)visitar o museu van Gogh ao fim do dia. A entrada foi rápida, sem multidões, apesar do museu ter bastante movimento. Gente nova, música de fundo alegre, palestras (em inglês) sobre a recente exposição de Max Beckmann, e performances musicais animaram o serão tornando o museu um pólo de vida e não só umas paredes com belos quadros pendurados. Lembrei-me de uma recente polémica em Portugal sobre a falta de meios que obrigava o Museu Nacional de Arte Antiga (pelo menos) a fechar algumas salas e/ou algumas horas. Mais uma vez o rosto visível (e risível) do turismo cultural em Portugal. Também, nesse dia, me lembrei da célebre frase sempre na boca de tantos fazedores culturais sobre a necessidade de “criar” novos públicos. Não sei como o fazem na Holanda, mas nesse dia não me faltaram “públicos” para observar para além do do museu pois passei à porta do Concertgebouw que tinha dois concertos nessa noite. Às 19h30m Bach, “A Paixão Segundo S. Mateus” e às 20h15m num outro auditório um concerto de Música de Câmara com obras de Mozart, Telemann entre outros. A entrada fervilhava de gente de todos os feitios que, com antecedência, se preparavam para entrar. Houve algo que me chamou a atenção nessa pequena multidão à entrada: foi a normalidade, naturalidade, informalidade e boa disposição que me pareceu detectar (seria o meu olhar?) nessas pessoas (mesmo nas mais formalmente vestidas), longe do aspecto mais formal, circunspecto e de pose que notamos cá à entrada nas grandes salas de concerto. Numas cidades parecem não faltar públicos, noutras, que não têm público, querem-se criar novos públicos...

15.4.07

Notas de Viagem 4

Turismo cultural, se é que algum dos nossos governantes se interessar em aprofundar este conceito que propõem dinamizar (priorizar, ou seja lá que verbo for) para o nosso país, é o que não falta nas cidades que visitei. Em Paris abundam monumentos, grandiosidade e dimensão imperial, marcos históricos, obras de arte que atraem gentes de todos os feitios e os turistas têm só o embaraço da escolha e das multidões que se acotovelam para entrar, comprar bilhete, ver ou passear: Notre Dame, Vénus de Milo, a Sainte Chappelle, ou mesmo deambular no Quartier Latin ou em Montmartre é só escolher e nem é preciso pagar muito. Existe património, respira-se história e os franceses orgulham-se do que têm, do que foram e do que pensam que ainda são. Tratam o património, preservam-no, criam, mostram-no, exibem-no e tornam-no acessível.

Amesterdão, uma cidade onde sempre me senti em casa, é diferente. Sem a exuberância de Paris valoriza a sua especificidade física e protege o seu património com políticas cuidadas de planeamento, urbanismo e ordenamento. No país de maior densidade populacional da Europa temos dificuldade em ver prédios e arranha-céus. As cidades têm uma agradável escala humana que as torna simpáticas. E se não é uma casa em especial que é bonita são o conjunto das casas, antigas, bem conservadas e vividas, que fazem as ruas que fazem as cidades e que o turista gosta de ver. Não se deitam casas abaixo para construir prédios de escritórios com os três primeiros pisos de “centro comercial”. Os centros comerciais podem fazer turismo comercial igual, porque as lojas são as mesmas, a todo o turismo comercial médio, mas não fazem turismo cultural. O centro de Amesterdão fervilha dia e noite de vida. Hotéis, restaurantes, bares, habitações, escritórios, habitantes e turistas animam e fazem a cidade.

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