“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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7.10.09

Ver Portugal

Há muito que tento não olhar para tentar conseguir nada ver. Este retrato (que refere FJV aqui), é o retrato de um Portugal desleixado, inculto, incapaz de preservar o seu património físico e da memória histórica. O Alentejo tem a sorte de uma paisagem limpa, onde se vê o horizonte. Que retrato faríamos se caminhássemos mais para norte? Por exemplo para o litoral norte, o Alto Minho, que conheço bem, os olhos já não se perdem na paisagem; esbarram sempre num ou noutro mamarracho que o excesso de construção e o gosto discutível impuseram paulatinamente e de forma inexorável impuseram. Na ânsia de modernização e de melhoria de nível de vida das populações, deitou-se fora o menino com a água do banho. As casas de azulejos por fora, ou de tectos múltiplos e sobrepostos, construídas em qualquer local e as churrascarias à beira da estrada surgiram na altura mascaradas de sucesso mostrando quão depressa o dinheiro tinha sido ganho, não são hoje mais do que uma evidência desse Portugal em desleixo, da falta de cultura, de brio e da óbvia decadência dessa ilusão da riqueza. As cidades e as grandes vilas da província prolongam-se hoje ao longo das estradas nacionais sem que nos apercebamos onde começa uma e acaba a outra e sem nunca termos um pedaço limpo de horizonte para respirar, para ver Portugal.

29.9.07

Para Onde?

O meu lamento só tem consolo na inevitabilidade lógica de que um dia ou outro este país acabaria por ter os líderes que realmente merece. Todos eles. Ter os líderes políticos que são a cara dos portugueses: a nossa cara. A cara dessa multidão que enche as ruas, que diz mal de tudo, que vive insatisfeita mas não ousa um passo para mudar seja o que for, que diz palavrões ao volante e se cola atrás do nosso carro, que fala alto ao telemóvel, que enche os hipermercados e o Allgarve, que um dia chora com a mãe da Maddie vai às missas e faz rumagens à Praia da Luz mas que uma semana depois a julga e assobia à sua passagem, que faz as audiências da televisão que temos, que acha que Fátima Lopes é uma escritora com talento e que ser famoso deve ser o máximo, que quer estar na Europa por isso venham daí os subsídios, que não percebe que está passiva e impiedosamente a ser comida por impostos que sustentam um estado descomunalmente gordo e obeso, que se deixa iludir pelas promessas de políticas, regalias sociais e pelo falso glamour de brilho plástico que é a modernização tecnológica que lhes parece estar a ser oferecida de mão beijada, que é manipulada pela comunicação política e que vibra quando os políticos lhes fala olhos nos olhos, que não gosta que os filhos façam exames e que não percebe porque deve ser avaliada no trabalho, que se comove ao pensar que o livro O Segredo resolverá os seus problemas, que desculpa Scolari e acha que não foi nada, que compra os livros de Saramago porque ele ganhou o Nobel, que tem inveja do sucesso do amigo, que é rápido no julgamento moral do vizinho e que passa o dia a dizer mal dos políticos.

A solução é emigrar. O dilema é para onde.

23.9.07

Taking England by Storm

Agradavelmente estranha foi a sensação que tive na semana que passou ao ver um noticiário na Sky News. Começou com a saída de Mourinho do Chelsea (razão que me levou a ligar a Sky News) e o tempo gasto com a notícia, directos e análises, deixou-me pasmada: pelos vistos o Special One entranhou-se em terras de sua Majestade e fez a diferença, cumprindo a promessa inicial e bombástica, perturbadora de algumas mentes protestantes mais puritanas, de ser special one, deixando marcas não só no futebol Inglês como também na tradicional sociedade inglesa que no entanto, mais dia menos dia, acaba sempre a acarinhar o excêntrico. O impacto da saída de Mourinho foi tal que até Gordon Brown prestou declarações lamentando a saída do treinador do Chelsea e salientando os feitos dele.

A segunda notícia do dia em questão, foi o interminável caso Madie McCann sendo nesse dia confirmada a contratação pelo casal Mc Cann de um novo assessor de imprensa, saído da equipe que dá apoio ao Primeiro-ministro Gordon Brown. A terceira notícia era a decisão de Gordon Brown boicotar a cimeira euro-africana de Lisboa em Dezembro no âmbito da Presidência Portuguesa da UE caso Mugabe compareça.

Três notícias seguidas na abertura de um jornal noticioso na Grã-Bretanha em que se fala de Portugal, e em que todas elas há um envolvimento mais ou menos visível do Primeiro-ministro Britânico, é um caso pouco habitual e que merece registo. Os casos não podiam ser mais díspares e as notícias têm impactos diferentes – o caso Mourinho foi nesse dia e nos seguintes uma bomba informativa e uma mina de ouro para a comunicação social, como qualquer leitura dos principais jornais ingleses online, ainda hoje, o confirma. Já se analisou tudo sobre ele em artigos de opinião de formas e tamanhos diferentes: as frases bombásticas, imagens e analogias (já vi algumas colecções de “quotes” de Mourinho na imprensa inglesa), a sua relação com os jogadores, a sua ambição, a ligação com a família, o seu casaco Armani, a sua “sexiness”, o seu charme, o seu sotaque, o seu cão, o seu cabelo grisalho, a sua relação com os adeptos e até li, hoje (aqui, para dar um só exemplo), sobre a sua importância para os demais compatriotas, emigrantes, nomeadamente os que estão em Inglaterra. José Mourinho, mérito dele, impôs um estilo, virou as luzes e os microfones na sua direcção, leva o nome de Portugal para níveis de excelência por esse mundo desportivo fora, e para nosso gozo he took England by storm. Novas formas de colonização.

12.9.07

Neste blogue chamaram-me a atenção para esta fotografia que estava na capa do Público. Reparei em algo insólito: a mão direita de José Sócrates. Fico na dúvida: será que teve uma súbita enxaqueca? Uma tontura ou vertigem? Será que afasta uma madeixa de cabelo da testa (mas isso era mais António Guterres)? Tenta esconser a cara num acesso de timidez inspirado pela desaparecida Princesa do Povo? Percebeu que se esqueceu de algo importante? Ou benze-se? Impossível, devo estar a sonhar.

(Actualização)

Hoje nos telejornais um país cada vez mais igual a si próprio:

Mais entregas de computadores portáteis pela mão do Primeiro-ministro e de outros ministros. José Sócrates fê-lo numa escola de Oeiras que só começa as aulas na segunda-feira, ao lado de Isaltino de Morais. Interessante.

Um mínimo de 15 minutos com o caso “Madeleine”. Ainda se consegue dizer tanto sobre esse caso?


A Espuma dos Dias que foram 6

Serra da Peneda

9.9.07

Os McCann vão embora, e talvez o caso arrefeça um pouco do quotidiano informativo. A excessiva mediatização do caso procurada pelos pais de Madeleine está a virar-se contra eles, para já pelo menos no nosso país quer de lágrima quer de vaia fácil, e de rápidos julgamentos populares. Tentei sempre não procurar informação sobre este caso, tentei interessar-me o menos possível, mas tem sido difícil escapar e não ser bombardeada por ele a toda a hora, nas televisões, jornais, revistas, internet. Penso às vezes, como seria o mundo se, por cada criança desaparecida, se construisse um caso com um centésimo da dimensão e ruído deste... Dito isto, uma criança desaparecida é sempre algo que fere - especialmente a nós mulheres - nas entranhas, e o desaparecimento da pequena Madeleine é trágico, mas o aparato mediático e popular na Praia da Luz já enjoava, os directos obrigavam-me a mudar de canal e francamente quero que se vão embora, quero que o caso acabe, mas que acabe com profissionalismo, eficácia e rapidez que se exige da Polícia Judiciária. O problema é que também isso já questionamos: há muito.

Havemos de Ir a Viana

À margem da reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, os Ministros europeus e comitiva passearam pelo centro histórico de Viana do Castelo, viram os trajes típicos de Lavradeira, ouviram a banda na Praça tocar o “hino” europeu, ouviram Fados, provaram o vinho Alvarinho, dançaram o Vira do Minho com os ranchos folclóricos, viram o fogo de artifício no Jardim. Estou certa de que os Ministros Europeus tiveram uma noite que não esquecerão. Eles não sabem que nós (os portugueses, sobretudo do norte) não perdemos o hábito de, generosa e simpaticamente, praticamente obrigar turistas ou visitantes a gostar da nossa terra. Eles também não sabiam que tinham escrito no seu fado Havemos de Ir a Viana.

6.9.07

A Espuma dos Dias que foram 4

Foz do Minho
Clicar para ver melhor

5.9.07

A Espuma dos Dias que foram 3

Foz do Minho (a Ínsua ao fundo)
Clicar para ver melhor

3.9.07

A Espuma dos Dias que foram 2

Lembro-me de durante as férias ter ouvido falar de:

Luta interna no BCP. Confesso que prestei pouca atenção a estes episódios finais, mas não sei porquê fiquei a admirar mais Belmiro de Azevedo e reforcei a minha convicção de que ele é o que mais próximo existe em Portugal de um verdadeiro empresário, independente do regime, do centrão e muitas vezes até apesar de e contra o Estado. Não gostei desta novela BCP, talvez por ser um espelho demasiado fiel da nossa realidade/mentalidade portuguesa.

Entrega de computadores pela mão do Primeiro-ministro algures aqui no nosso país. A notícia provoca náusea pela falta de imaginação deste enredo e consequente previsibilidade; pelo simbolismo bacoco, paternalista e provinciano do gesto (no Estado Novo fazia-se melhor?) que a repetição expõe sem dó. Revolta por nos tomarem por parvos.

Deboche. Apurei o ouvido, interessei-me, fiz uma nota mental para posteriormente tentar perceber do que se tratava. Assim fiz e a desilusão foi total. Nem com “deboche” Portugal aquece.

Eduardo Prado Coelho. Lia às vezes as suas crónicas que ora me irritavam (a grande parte das vezes), com o seu exibicionismo intelectual as inúmeras citações, as frases incompreensíveis, o preconceito e o azedume, ora me divertiam com o seu olhar particular sobre o mundo, o humor, a ironia, a bonomia e a sua, tantas vezes, boa escrita. Era culto e gostava de exibir a sua cultura. Era uma figura presente e agora é ausente. A doença, nossa e dos outros, ameniza-nos porque sabemos que perante ela todos estamos desprotegidos e sós. E sós deixamos este mundo.

Red Bull Air Race. Tenho pena de não ter visto. Teria tido a sua dose de emoção, estou certa.

Furação Dean e portugueses de férias nas Caraíbas. Voltarei em breve a este assunto.

2.9.07

A Espuma dos Dias que foram

Castro Laboreiro
Serra da Peneda
(Clicar para ver melhor as ruínas do Castelo no canto superior direito)

É esta paisagem agreste, serra feita de muita pedra, urze e tojo, céu azul que depressa nuvens grossas escurecem para pouco depois se desfazerem, sol brilhante que tanto se esconde e nos arrefece como no momento seguinte nos queima, e vento, sempre vento, que me move. É esta beleza rude e esta sensação de inacessibilidade e de incompreensão que me seduz.


13.8.07

Formar e Criar Novos Públicos

Os nossos governantes da área da Cultura têm justificado muitas das suas polémicas decisões (por exemplo a crise no S. Carlos) pela imperativa necessidade de formar e criar novos públicos e de fazer de Portugal um país de turismo cultural. Já aqui disse o que pensava sobre o assunto, mas confesso que perante a realização de um evento culturalmente tão significativo como o 1º Festival de Música Popular Portuguesa que teve lugar este fim de semana passado em Ponte de Lima, fico com medo que a criação de novos públicos e o querer fazer de Portugal um país de turismo cultural não sejam, tal como eu pensava, meros chavões políticos ou tretas sem nexo. Afinal eles sabiam do que falavam.

8.8.07

Não sou apreciadora do estilo de Joe Berardo, já aqui o disse, mas é sempre refrescante ouvir alguém dizer em voz alta e de uma forma clara e isenta de metáforas e outras ajudas retóricas, aquilo que disse ontem à noite na SIC em entrevista a Mário Crespo. Juntando às palavras de Berardo o espectáculo da novela BCP, o maior banco privado português, nos últimos tempos ficamos com a sensação, de que também o Banco é um espelho do país. Perde muito tempo em manobras e a acautelar interesses de grupos e pouco a criar riqueza.

5.8.07

Ida e Volta

Ontem fiz mais de 900km numa viagem de ida e vinda que me levou ao topo noroeste do país. Comecei às 6h30m da manhã e na auto-estrada do norte, pouco depois de deixar Lisboa para trás fiquei deslumbrada com o sol a nascer por cima do Tejo. Uma enorme bola pouco nítida, pois o ar estava enevoado e de um leve cinza que contrastava com a cor salmão do sol e do rio que espelhava luz. O meu olhar demorava-se nesse amanhecer.

Ouvia na rádio as notícias de um acidente em Coimbra que tinha ocorrido durante a noite e que condicionava ainda a circulação de norte para sul. Pensei naqueles que faziam a viagem em direcção ao Sul, nomeadamente ao Algarve e que pensavam que sair cedo os ajudaria a fazer melhor a viagem. Antes das 8h, quando passei pelo local do acidente, a estrada ainda não estava “limpa” segundo as informações que ouvia, pude ver a bicha de carros que já existia. Eu creio que é impensável e inadmissível manter a circulação de uma auto-estrada condicionada por tanto tempo - ouvi à noite num telejornal falar em 18 horas – e que roça os limites do absurdo e é totalmente inaceitável. Limpar a via não demora tanto, nem que o material derramada fosse altamente tóxico. Ao longo das horas que passavam ouvi referências a 10km de bicha. Será que não há ninguém responsável por isto?

A chegada ao norte, agora mais facilitada por não se passar por Viana do Castelo, trouxe consigo o ar fresco e limpo e o cheiro de maresia depressa invadiu o carro, enquanto o olhar se demorava na costa, nas gentes nas praias, na Foz do Minho e nos múltiplos tons de verde brilhante que enchem a paisagem.

Mais tarde, e já de regresso, uma rápida passagem e um breve passeio pelo Porto confirmou aquilo que tenho visto ultimamente e que estava pouco habituada, uma cidade cheia de turistas, a pé, em autocarros de dois andares abertos em cima, nas esplanadas, na Foz, na marginal, na Ribeira. Verão ou inverno o que é um facto é que o Porto se enche de turistas.

3.7.07

O Comendador

A omnipresença de Berardo na vida nacional e comunicação social é um paradigma do nosso (português) deslumbramento. Primeiro porque o Comendador está deslumbrado consigo próprio, e provavelmente terá razões de sobra para o estar, pois serão poucos a gabarem-se de conseguir o que ele conseguiu e tem conseguido, quer em termos financeiros, quer em termos de influência uma vez que ele veio de um meio menos favorável ao sucesso do que outros. E segundo porque o país, pelo menos uma parte influente do poder, está deslumbrado com ele, por razões que se me afiguram difíceis de perceber. Ser rico, só por si não justifica tanto deslumbre e atenção.

Esperava-se de um homem que conseguiu ir fazendo - e pelos vistos, apreciando, uma colecção de arte contemporânea como a que ele fez, alguma sensibilidade, e já agora algum bom senso também, bem como polidez, cortesia e mesmo contenção mas talvez estas expectativas estejam desfocadas do que hoje é valorizado quer pelo “povo” quer pelos media. Aparentemente neste campo o Comendador é omisso e aproveita cada migalha de luz de holofotes para mostrar falta de cortesia e modos rudes, é incapaz de resistir a um microfone sem se coibir em agredir e mesmo insultar este ou aquele com o ar seguro de quem sabe que pode pagar a conta, mesmo que tudo faça para não a pagar. Não questiono a pertinência dos seus motivos ou intenções ou mesmo opiniões, até quero querer que ele tenha muitas vezes razão, seja racional, lúcido e bem intencionado, mas condeno veementemente a forma como ele os veicula e faz valer o seu ponto de vista em todas as matérias que andaram, nestes dias passados, nas primeiras páginas dos jornais. Lamento também que a comunicação social o procure tanto, o filme tanto e lhe coloque um microfone perto da boca de cada vez que ele teima em “aparecer”.

30.6.07

Instantâneos da Vida Portuguesa tal como ela é, e tal como apresentada nos jornais televisivos.

Diz Joe Berardo quando interpelado sobre a alegada intenção de Jardim Gonçalves de afastar Paulo Teixeira Pinto da Presidência do BCP: “Ele (Jardim Gonçalves) já tem setenta e muitos anos, que fique em casa para casa tratar das galinhas, o tempo dele já passou...”

Diz também Berardo a propósito de Mega Ferreira (cito de cor): Ele tem que trabalhar a tempo inteiro, marcar reuniões é coisa complicada, é preciso ver agenda e marcar com15 dias de antecedência. Não falta quem queira trabalhar. Mega Ferreira é muito intelectual e faz falta alguém que perceba mais de gestão.

25.6.07

Instantâneos da vida Portuguesa, tal como ela é, e tal como apresentada no Jornal da Noite da SIC:

Disse o Primeiro-ministro na inauguração da Colecção Berardo no museu do CCB, que “Lisboa já está no mapa da arte contemporânea”, e que “os roteiros da arte contemporânea da Europa paravam em Madrid, agora começam aqui”.

“A minha mulher diz que eu estou muito exposto aos media”, disse Joe Berardo.

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